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ambiente e cultura uma proposta de planejamento urbano

para assentamento costeiro


universidade federal de pelotas faculdade de arquitetura e urbanismo trabalho final de graduação i - ênfase em espaços abertos acadêmico: gustavo maciel gonçalves orientadora: ana paula neto de faria


ambiente e cultura uma proposta de planejamento urbano

para assentamento costeiro


sumário primeira parte considerações iniciais - INTRODUÇÃO - TEMA E OBJETIVO - LUGAR - PESQUISA HISTÓRICA

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terceira parte suporte ambiental - ESTRUTURA AMBIENTAL DA PLANÍCIE COSTEIRA lagunar - FLORA E FAUNA - VEGETAÇÃO EXISTENTE - CURVAS DE NÍVEL ALTIMÉTRICAS - ZONEAMENTO AMBIENTAL URBANO

configuração espacial

segunda parte aportes teóricos e metodológicos - CONSIDERAÇÕES SOBRE OS CONCEITOS DE PAISAGEM - SUPORTE AMBIENTAL - PRAGMÁTICA, SINTÁTICA E SEMÂNTICA - IMAGEM URBANA: A CIDADE TANGÍVEL - CONTEXTO SOCIOECONÔMICO E CULTURAL: A CIDADE INTANGÍVEL - MODELO DE ANÁLISE URBANA E de ABORDAGEM DO PLANEJAMENTO

quarta parte

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- MORFOGENÉTICA E EVOLUÇÃO URBANA - QUANTIDADE DE EDIFICAÇÕES POR LOTE - DENSIDADE DE FORMAS CONSTRUÍDAS POR ÁREAS DE QUADRAS - ALTURAS DAS EDIFICAÇÕES - USO ESPECÍFICO DO SOLO - ZONEAMENTO De USOS DO SOLO - ÁREAS LIVRES - QUADRO SÍNTESE DE ÁREAS - TRANSPORTE E CIRCULAÇÃO VIÁRIa

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quinta parte contexto socioeconômico

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- POPULAÇÃO -RENDA - SOCIEDADE E TRABALHO - RAZÃO DE SEXO E PIRÂMIDE ETÁRIA - zoneamento CONFORME O INVESTIMENTO

sexta parte ambiência urbana e paisagem cultural - PADRÕES DE VISIBILIDADE INTERNOS - LARGURAS DAS VIAS - PADRÕES DE VISIBILIDADE EXTERNOS - GRAFOS DE VISIBILIDADE - TIPOMORFOLOGIA DAS QUADRAS - TIPOMORFOLOGIA DAS EDIFICAÇÕES - CONTEÚDO CROMÁTICO - PAISAGEM CULTURAL

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sétima parte o planejamento - considerações gerais para o planejamento - síntese dos diagnósticos por variável - propostas gerais para as diretrizes do ´planejamento - novo arranjo produtivo local - espacialização de algumas propostas - próximos passos

174 anexos - REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS - FONTES DAS FIGURAS - fontes dos levantamentos


primeira parte consideraçþes iniciais


introdução A cidade contemporânea vem sofrendo uma série desmedida de reformulações ditadas pela globalização e por processos de padronização cultural, a partir dos quais algumas sociedades mais “abertas” ficam sistematicamente sujeitas às mídias de massa e ao jogo da moda. A presença inconsciente da transformação do “nós” em “eles” implica, por um lado, na necessidade da imitação como pretexto para o estabelecimento do indivíduo no campo cultural e, por outro, na busca pela singularização como forma de alcançar a realização pessoal. Nesse panorama, alguns grupos, que possuem seu cotidiano e seus modos de produção diretamente vinculados ao meio ambiente natural que lhes servem de suporte, carregam uma herança cultural muito forte. Essas particularidades presentes em algumas sociedades são decorrentes dos seus modos de apropriação do espaço, da inserção de elementos visuais particulares àquele ambiente e de suas formas de visualizar e manipular o meio. Nas comunidades ribeirinhas, em muitos casos, os pescadores ainda desfrutam de modelos de produção artesanais, de métodos tradicionais de leitura das condições climáticas, dos traços da natureza, das co-

res, texturas e sensações particulares àquele ambiente. Como resultado disso, surgem aspectos singulares do lugar, refletidos nos modos de ver o mundo e nas preferências ambientais do grupo que ali reside. Além disso, alguns assentamentos costeiros, sobretudo na realidade brasileira, surgiram a partir da ocupação de áreas de grande impacto ambiental, sendo essa circunstância muitas vezes atrelada à carência de ordenamentos urbanísticos e planejamento. A fragilidade do suporte ambiental dessas áreas tem representado empecilhos na qualificação da vida dos residentes e degradação do ambiente natural. Assim como as dinâmicas de padronização cultural, as situações de vulnerabilidade socioambiental têm contribuído para o desprestígio e a desculturalização das singularidades presentes nesses tipos de assentamento, incentivando a adoção inconsciente de modelos externos e a descaracterização de sua identidade original. Por isso, o anseio do presente trabalho se afiniza com o paradigma do exercício da Arquitetura e do Urbanismo que busca planejar os espaços humanizados, de modo a permitir que seja conciliada a preservação dos ambientes natural e cultural e dos padrões de cognição ambiental das sociedades que residem nesses espaços.


tema e objetivo O litoral brasileiro é banhado pelo Oceano Atlântico e por corpos lagunares de dimensões significativas, possuindo extensão aproximada de 8.000 km na direção sudoeste-nordeste. Em função da enorme extensão territorial, o país é dotado de diferentes condições climáticas, geomorfológicas e biogeográficas, as quais contribuem para a configuração da zona litorânea que se caracteriza por praias, mangues, recifes e enseadas (CUNHA & GUERRA, 2010). No caso específico do estado do Rio Grande do Sul, existem algumas especificidades notáveis de sua estrutura geográfica e ambiental, principalmente no extremo sul do estado, região que se afiniza com os ecossistemas do bioma pampa. O litoral gaúcho possui aproximadamente 630 km de extensão e fica localizado entre a Barra do Chuí (33° 44’ S; 53° 22’ W), ao sul, e a desembocadura do Rio Mampituba (29° 19’ S; 49° 42’ W), ao norte, possuindo o aspecto de uma linha uniforme, inarticulada e pouco sinuosa (RAMBO, 1994). Fixados à costa, encontram-se os maiores lagos do país, dentre eles a Lagoa Mirim e a Laguna dos Patos. A Laguna dos Patos é a maior da América do Sul, com área aproximada de 10144 km², situada na metade sul do estado. O enorme corpo lagunar é delimitado à norte pela Lagoa do Casamento e pelo Lago Guaíba, que fazem a transição com o delta do Rio Jacuí, e à sul pelo seu estuário, o qual se situa junto aos municípios de Rio Grande e São José do Norte, estendendo-se, assim,

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na direção sudoeste-nordeste, paralelamente ao Oceano Atlântico. A lagoa é separada por uma restinga de 240 km aproximadamente, sobre a qual se assentam longitudinalmente os municípios de São José do Norte, Tavares e Mostardas. Na costa interna, a Lagoa dos Patos banha diversos municípios como, por exemplo, Arambaré e Tapes na metade norte e São Lourenço do Sul e Pelotas na metade Sul. Neste cenário da Lagoa dos Patos, no município de Pelotas, está a localidade de estudo do presente trabalho. A vinte e cinco quilômetros a nordeste do centro geográfico da cidade, fica a Colônia de Pescadores Z3: um assentamento costeiro que é composto por uma sociedade de pescadores profissionais artesanais. Embora esse seja o nome mais conhecido da vila, existem outras designações como: “Colônia de São Pedro” (nome original da comunidade) e “Arroio Sujo” (nome popular), as quais remontam sua identificação com o padroeiro católico e o ambiente natural em que está inserida. A comunidade se situa externamente ao perímetro urbano de Pelotas, sendo a vila-sede do 2º distrito do município, chamado de Colônia Z-3. O núcleo urbanizado da Z3, o qual surgiu na década de 1920, teve um processo de crescimento sem diretrizes ou ordenamentos urbanísticos, e o parcelamento do solo foi e tem sido feito por meio de regularização de posse junto ao Sindicato de Pescadores. A malha urbana atual encontra-se vetada de oportunidades qua-

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colônia de pescadores Z3

praia do totó

praia do laranjal

centro de pelotas 0

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balneário dos prazeres


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lificadas de expansão em função de seus limites territoriais sociopolíticos e naturais, o que tem ocasionado a densificação das áreas já ocupadas, ou a ocupação de zonas de grande impacto ambiental. Além disso, outras circunstâncias como a crise ambiental da pesca e o descaso do poder público têm constituído situações dramáticas de empobrecimento e vulnerabilidade socioambiental da população. Por outro lado, a evolução

despretensiosa da forma física da comunidade constituiu particularidades muito interessantes sob as óticas cultural, estética e de sua ambiência urbana, nas quais os modos de fazer artesanais da cultura local são mesclados à paisagem urbana. Nesse contexto, definimos o tema deste trabalho: um exercício de Planejamento Urbano na escala do


tradas por levantamentos e análises. De modo global, o planejamento tem como objetivos específicos: propor possibilidades de expansão urbana e, por conseguinte, melhorias nas condições habitacionais, buscar alternativas socioeconômicas, lançar medidas de recuperação, preservação e conservação do ambiente natural de suporte e do patrimônio cultural local.

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Bairro, tendo como objeto de estudo a vila-sede do 2º distrito de Pelotas: a Colônia de Pescadores Z3. O objetivo do trabalho é o de prever diretrizes e propostas de planejamento urbano para o local, sendo essas medidas pautadas por diversas variáveis que serão discutidas com mais afinco nas próximas partes deste exemplar, nas quais elas poderão ser melhor ilus-


mapa da situação atual

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300m


corte transversal 0 25 75m

posto de saúde

e.m.e.f. raphael brusque

santuário de nsa. sra. dos navegantes

banhados e matas ciliares junto ao arroio sujo

divinéia | atracadouro de embarcações

estaleiros | construção de barcos

peixarias junto ao acesso a sudoeste


o lugar O território é estabelecido através de uma relação de poder e posse de um indivíduo ou grupo sobre um espaço e é delimitado e, portanto, determinado, por uma fronteira visível ou invisível. Essa fronteira (ou, em muitos casos, limite intransponível) é organizada por algum tipo de vinculação do indivíduo ou do grupo com o espaço, podendo esta vinculação ser de cunho natural, social, econômica, política ou cultural. (RAFFESTTIN, 1993; RATZEL, 1900; TUAN, 1980) A situação do território físico na Colônia de Pescadores Z3 é um assunto que muito interessa à este trabalho, afinal, as limitações físicas enfrentadas pela comunidade como um núcleo urbanizado representam um dos principais, se não o principal, impecilho para a qualificação da vida dos moradores. De modo simplificado, as referidas limitações da área urbanizada da Z3 podem ser compreendidas como limites territoriais sociopolítico ou naturais. A noroeste da vila, paralalelamente à linha da orla, foi determinado o limite territorial sociopolítico da localidade, resultante do processo de regularização da posse em função da doação de terras. Esse limite é desenhado por um cercado de madeira e arame para além do qual se estendem áreas campestres de posse de grandes empresas rurais, as quais não possuem interesse em vender parcelas de suas terras.

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Dessa forma, as possibilidades de expansão da malha urbana disponíveis ficaram restringidas às áreas inundáveis junto à orla que não são passíveis de aproveitamento para o uso da terra proposto pelas empresas rurais e que, portanto, não são fiscalizadas por seus proprietários. Aí residem os limites territoriais de caráter natural: zonas de intenso e periódico alagamento a sudoeste e a nordeste e em toda a faixa paralela à linha de costa correspondente às áreas de banhado. Além disso, existem limitações internas ao núcleo urbanizado, que podem ser lidas com bastante clareza nos mapas, que são as áreas de banhado internas aos quarteirões próximos à orla. Nesses quarteirões, somente os espaços ocupados por edificações foram aterrados, ficando vazios na malha urbana. O local já passou por um longo histórico de situações de alagamentos, sendo o episódio de outubro de 2015 o de maior impacto. É interessante observar que no referido ano ocorreu o fenômeno “El niño”, assim como em todos os outros anos em que houve casos de extremo alagamento: 1941, 1959, 1987, 1990, 1991, 1995, 1997, 1998, 2004 e 2009 (LIMA, 2016 apud. HANSMANN, 2013). As inundações invadem o ambiente urbano nos menores níveis e, em muitos casos entram nas casas, degradando os pertences dos moradores, sobretudo no limite sudoeste, onde o assentamento, além

ambiente e cultura: uma proposta de planejamento urbano para assentamento costeiro


de estar sobre um banhado, fica muito próximo do Arroio Sujo. Outra circunstância sobre a qual existem muitas reclamações por parte da população é o acesso e transporte à comunidade. A estrada que percorre a orla e a ponte de madeira sobre o Arroio Sujo são periodicamente degradadas nas situações de alagamento, dificultando a passagem de veículos, sobretudo dos ônibus, dos quais a maioria da população se utiliza para chegar à cidade. A consulta à depoimentos em páginas da internet e em redes sociais indica que a opinião dos residentes se divide entre os que gostariam que fosse realizada a pavimentação da via em toda a extensão da orla e os que suplicam pela retomada do acesso pelos campos à noroeste da vila, cuja conexão viária depende da reconstrução da ponte sobre o Arroio Cotovelo, abandonada pelo poder público há mais 40 anos atrás. Uma notícia divul-

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1 - episódio de inundações de outubro de 2015.

2 - campos para além do limite territorial da z3.


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via de acesso pela orla

divinéia - ancoradouro de barcos

edificações muito próximas ao arroio sujo a sudoeste

visual obtida pela orla na extremidade nordeste


gada em 01 de março de 2018 na página da Prefeitura Municipal de Pelotas informou a previsão da pavimentação da estrada da orla para a segunda metade do ano. Por outro lado, a vinculação cultural da população com o território é muito forte. A imaterialidade da identidade cultural do grupo aparece no cotidiano dos pescadores artesanais, em sua culinária, artesanato, religiosidade e nos modos de fazer locais, que se refletem nos detalhes e nas cores das casas, na fabricação dos barcos, nos trapiches de madeira sobre a lagoa, nas ruas sinuosas de saibro e na presença da água. Esses elementos materiais da cultura revelam as preferências ambientais e estéticas da população e constituem uma ambiência muito particular. A crise ambiental da pesca e a falta de altenativas socioeconômicas tem estimulado a degradação des-

se patrimônio cultural: os mais jovens se desinteressam pelas práticas culturais e tradições locais; muitos residentes migram para outras regiões em busca de oportunidades de emprego e renda; casais de meia idade desenvolvem depressão e baixa autoestima; aumenta a incidência de alcoolismo e de uso de drogas, suicídios e violência doméstica (FIGUEIRA, 2009). Daí a preocupação com o planejamento desta paisagem única no contexto da cidade de Pelotas, onde o AMBIENTE, enquanto paisagem natural e urbana, é conconcomitante aos padrões da CULTURA. O planejamento proposto impõe essa premissa como contexto de abordagem global, de modo a contribuir para que a essência do lugar não se desfaça ao longo dos anos, e que esta seja conciliada com a conservação do ambiente natural e a qualidade de vida dos residentes.


pesquisa histórica Dada a valorização dos contextos históricos na configuração das localidades, é realizada uma pesquisa histórica sobre o lugar de projeto buscando entender os diversos fatores que possam vir a representar pertinência para o exercício de planejamento proposto. O contexto da ativade pesqueira no estuário da Lagoa dos Patos tem seus primeiros registros em meados do século XIX. Até a metade do século, os pescadores “nativos” tinham a posse e o controle de todas as etapas da produção, a qual era destinada quase totalmente para subsistência, sendo comercializado somente o excedente. Com a vinda de pescadores portugueses oriundos da “Póvoa do Varzim” ocorreram as primeiras mudanças nos métodos de produção, e os pescadores locais, devido às suas condições precárias, tornaram a debruçar-se quase totalmente à captura. Essa dinâmica foi reforçada nas primeiras décadas do século XX com a instalação de indústrias de salga na região. (DOS ANJOS et al., 2004) Em 1912 foi instaurada a lei 2.544, a qual, no artigo 73, instituiu as Zonas de Pesca (Zs) nas costas

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litorâneas brasileiras e as colocou sob a tutela do Ministério da Agricultura. A lei foi de iniciativa da Marinha do Brasil e tinha como principal objetivo o cadastramento de pescadores artesanais para possíveis convocações para guerras. A concepção era de que eles teriam enorme conhecimento das regiões litorâneas do país podendo, assim, serem instrumentos de elaboração e aplicação de estratégias de defesa nacional. (DOS ANJOS et al., 2004; FIGUEIRA, 2009) Neste panorama, surge a Zona de Pesca 3 do Rio Grande do Sul, tendo como vila-sede a “Colônia de São Pedro”. Não há conformidade na bibliografia quanto à data da fundação, enquanto DOS ANJOS et al. (2004) aponta o ano de 1923, DELAMARE SIMON & SATO (2015) afirmam a data de 29 de junho de 1921. A ocupação dos grupos no espaço se deu em diferentes fases ao longo dos anos. No início, a população era composta por naturais do estado, agricultores de cidades como Piratini, Viamão, Rio Grande e Tapes, que fizeram sua morada em pequenas casas de madeira e palha oriundas de diversas regiões. (FIGUEIRA, 2009)

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fotografias do final da década de noventa

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Posteriormente, entre as décadas de 1940 e 1950, o estuário da Lagoa dos Patos recebeu numerosos agrupamentos de pescadores catarinenses, preeminentemente de Laguna, Itajaí e Florianópolis, que tiveram como um de seus pontos de aglomeração a Ilha da Feitoria – localizada a trinta quilômetros a nordeste da Z3. Até o início da década de setenta, era considerável a atividade comunitária e comercial na ilha, no entanto, a dificuldade de acesso à zona urbana e às infraestruturas de saúde e educação acabou produzindo o êxodo desses grupos para outros locais, sendo a Colônia Z3 um deles. Nota-se que ao mesmo tempo que começam a aparecer esses novos grupos, a cadeia produtiva dos pescadores portugueses começa a se desestruturar. A chegada dos catarinenses representou não só uma importante caracterização etnocultural na colônia, mas também diversas mudanças nas formas de trabalho dos pescadores, como a introdução de embarcações maiores, uso de motor no lugar da vara, do remo ou da vela, redes de espera de maior tamanho, diminuição do tamanho das malhas, entre outros. (DOS ANJOS et al., 2004; FIGUEIRA, 2000; FIGUEIRA, 2009) Ao referir-se ao assentamento da urbanização na Colônia Z3, FARIA, PALMA & NAOUMOVA (2003) in-

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dicam que a regularização da posse da terra se deu somente em 1965. A referida regularização só foi possível em função da doação – por parte do proprietário da área – da porção de terras entre os dois arroios para o Sindicato de Pescadores. Em consonância com o discurso apresentado, FIGUEIRA (2010) complementa: “Também nessa época ocorrem doações de terra pela “Firma” do “Coronel Pedro Osório”, latifundiário da região, muito estimado por antigos pescadores, já que este momento responde por uma espécie de indepência e oportunidades de ter o próprio espaço e começar a vida. Este fato é importante, pois foi exatamente um período em que haviam chegado novos grupos e famílias, os quais fomentaram uniões matrimoniais, o que gerou grande expectativa por autonomia dos que acabavam de constituir novas famílias”. (FIGUEIRA, 2010)

A segunda metade da década de sessenta representou um importante período na configuração espacial da área urbanizada da Z3. A regularização da posse possibilitou o prosseguimento da consolidação das ruas e quadras, que na época se limitavam às áreas de níveis mais altos. É nesse período que foi construída, através de doações feitas pela comunidade, a igreja que hoje traz inscrita em sua fachada: “Santuário de Nsa. Sra.

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primeira fotografia aérea da z3 - 1953

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Dos Navegantes”. Além disso, a década de 1960 é caracterizada pelas primeiras intervenções do Estado no sentido de ordenar a área através de políticas públicas. Em 1962 foi criada a Superintendência do Desenvovimento da Pesca (SUDEPE) que propunha mais atividades de cunho normativo que financiador. Já em 1967 surge o Código da Pesca - objeto do Decreto-lei nº 221. Dentre suas principais premissas, destaca-se a de criar um setor pesqueiro moderno e dinâmico por meio de benefícios fiscais, colocando a situação da pesca artesanal em um quadro ainda mais dramático, em que esta passa à condição de fornecedora de mão-de-obra e de mercadoria de baixo custo para a pesca empresarial-capitalista. (DOS ANJOS et al., 2004) O transporte da Colônia Z3 para os meios urbanos antes da implantação da linha de ônibus (data desconhecida) poderia ser feita de três diferentes maneiras: através de carroças, de cavalos, de barcos ou a pé. Os principais destinos eram a Praia do Laranjal ou o centro da cidade. Quanto a esse último, os moradores geralmente iam de barco até a zona portuária, a partir da qual se deslocavam a pé até o centro. Com relação à primeira linha de ônibus para a comunidade, os morado-

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res indicam que os veículos tinham as janelas cobertas somente por cortinas e que, quando havia muita chuva, era comum que eles ficassem presos no barro das estradas, obrigando os usuários a descer para empurrá-los. (FIGUEIRA, 2009) A década de setenta é marcada por alguns investimentos na infraestrutura do local como a implantação da luz elétrica na primeira metade da década e a construção de uma nova via de acesso na segunda (FIGUEIRA, 2009). Até o final dos anos setenta, o acesso à Colônia de Pescadores Z3 se dava por meio de uma estrada distante da orla que vinha da Avenida Adolfo Fetter pelo meio dos campos utilizados para atividades agropastoris. No ano de 1978 foi construída uma nova estrada de acesso, a qual é utilizada até os dias de hoje, que conecta a área urbanizada do Balneário dos Prazeres à Praia do Totó e à Z3 (FARIA, PALMA & NAOUMOVA, 2003). Essa modificação no acesso viário da Z3 trouxe diversas modificações de extrema significância na configuração do espaço urbano. Na visão de FIGUEIRA (2010) a introdução desse elemento representou a configuração de uma nova concepção socioeconômica e logística do comércio pesqueiro local, pois é junto à este novo acesso que se concentravam (e ainda se concentram) as ativi-

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1 - Fotografia antiga de moradores da Z3, data desconhecida.

2 - Procissão à NSA. Sra. dos Navegantes, data desconhecida.

3 - Vias e construções consolidadas, anos 90.

4 - Antiga ponte de acesso à Z3, abandonada.

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Estrada de acesso à Z3 (atual) pela orla e ponto sobre o “Arroio Sujo”, conexão criada em 1978. Fotografia de 2018.

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dades de beneficiamento e comercialização do pescado. A década de oitenta é caracterizada pela definição, por parte do Estado, de novas políticas de desenvolvimento “sustentável”. No caso da atividade pesqueira e da Colônia de Pescadores Z3 em específico, DOS ANJOS et al. (2004) cita: “Em 1989, surge o IBAMA pela lei nº 7.735 de 22 de fevereiro, com o objetivo de solucionar os problemas ambientais que a expansão da atividade trouxe consigo.

O Estado passa a definir políticas com base no “desenvolvimento sustentável”, incorporando uma série de restrições que afetam diretamente os pescadores artesanais: maior rigor quanto ao período de defeso, limite mínimo de comprimento e peso dos peixes, restrições sobre aparelhos de pesca, etc. O que cabe destacar é que a fiscalização concentra sua atuação próxima à costa, onde ocorre o trabalho dos pescadores artesanais, já que a fiscalização em oceano gera um custo maior, o que, mais uma vez, acabou sempre por beneficiar a pesca de grande porte, principal responsável pelos desequilíbrios ambientais gerados.” (DOS ANJOS et al., 2004 p. 12)

Estruturas de madeira (trapiches) na orla , servindo de suporte às peixarias e galpões. Fotografia de 2018.

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Já na década de noventa houve maior expressão de grupos provindos da zona rural e das periferias da área urbana de Pelotas. Esses agrupamentos destinaram-se à comunidade com a finalidade de melhorias em sua qualidade de vida através da prática da pesca, sendo um dos fatores que impulsionaram essa migração, o considerável grau de desemprego na cidade em decorrência do fechamento de diversas fábricas de doces em conserva. Este fato, associado ao fortúnio de boas safras, provocou um crescimento significativo da área urbanizada da Z3. Foi neste período, mais precisamente no final da

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década, que foram feitas modificações na linha de costa para possibilitar a dragagem de ancoradouros para as embarcações. O primeiro e principal foi o ancoradouro-baía aberto no banhado central da vila, popularmente conhecido como “Divinéia”. E o segundo foi aquele, nomeado de “Arroio Salgado”, o qual possui forma de canal, tendo sido aberto junto à Lagoa na área nordeste da área urbanizada. A construção desses atracadouros foi movida pelo anseio dos pescadores por maior segurança e flexibilidade na atividade pesqueira, uma vez que, anteriormente, os barcos ficavam ancourados em “Laguna aberta”. (FIGUEIRA, 2009)

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A virada do milênio trouxe diversas situações problemáticas para a localidade. A expansão populacional e territorial sem planejamento da década anterior (noventa) não deixou outra alternativa senão a ocupação de áreas de interesse da preservação ambiental, sobretudo áreas inundáveis, resultando em grande impacto no ambiente natural e, por consequência, na qualificação do espaço urbanizado, sobretudo na metade sul do assentamento onde a viabilização da construção de moradias consistiu no aterramento de banhados. Além disso, a dinâmica natural dos ecossistemas lagunares trouxeram consigo a crise ambiental da pesca, sobretudo do camarão, que aliados ao período de defeso – hiato das atividades pesqueiras para possibilitar a reprodução de espécies (Código de Pesca, 1967) – contribuíram para o desequilíbrio sócioeconômico da comunidade. Portanto, é empregado ao contexto deste trabalho, um anseio em obter, através dos levantamentos e leituras do lugar, um panorama mais detalhado da situação da comunidade na presente década, sobretudo com relação aos meios físicos natural e urbanizado. Ademais, convém destacar nesta perspectiva cronológica a importância simbólica da próxima década, momento em que a vila comemorará o centenário de sua fundação.

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segunda parte aportes teรณricos e metodolรณgicos


Tendo como base os objetivos traçados para este trabalho, foi realizada uma revisão bibliográfica de assuntos correlatos ao tema proposto. As descrições e reflexões provenientes dessa revisão, sintetizadas nesta parte do exemplar, tiveram três utilidades principais: justificativa da escolha do tema, descrição dos tipos de análises aplicadas e definição da abordagem das propostas de planejamento. Em nosso entendimento, planejar uma cidade ou um núcleo urbano demanda análises da área envolvida como estágio preliminar às ações projetuais, de modo a criar um bom conhecimento sobre o lugar. Contudo, os processos de desenvolvimento urbano são muito complexos e contraditórios e envolvem diversos aspectos interagindo simultaneamente; são fatores ambientais,

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espaciais, estéticos, sociais, culturais e econômicos que compõem um arranjo da realidade do lugar. As análises urbanas têm o papel crítico de, em um momento preliminar definir as diferentes variáveis que compõem a complexidade total, de modo a, posteriormente, avaliá-las em conjunto. Nesse contexto, esta segunda parte do relatório se direciona a discutir as variáveis de estruturação metodológica do planejamento, que foram selecionadas de modo a garantir que fosse alcançado o objetivo final de atentar para os aspectos globais ambiental e cultural. Oportunamente, já adiantamos as seis variáveis selecionadas: suporte ambiental, configuração espacial, contexto socioeconômico, ambiência urbana, paisagem cultural e cognição ambiental.

ambiente e cultura: uma proposta de planejamento urbano para assentamento costeiro


CONSIDERAÇÕES SOBRE OS CONCEITOS DE PAISAGEM Na historiografia, o termo paisagem é inicialmente relacionado à PAISAGEM NATURAL dos ambientes nos quais vivemos. Essa interpretação se fundamenta em aspectos históricos anteriores até mesmo às primeiras concepções da palavra. A ideia - que já existia há milênios - era baseada na observação do meio, e as expressões gráfica, oral e escrita dessas observações foram encontradas nas artes e nas ciências de diversas culturas e localidades que retratavam elementos particulares ao ambiente natural como montanhas, florestas e animais selvagens. As pinturas rupestres do homem paleolítico são uma referência para esta percepção direcionada a alguns componentes do ambiente. Somadas à estas, destacam-se a poesia Alexandrina, na Grécia Antiga; os manuscritos que inspiraram afrescos da natureza biológica relacionados à caça na Europa da Idade Média; a ligação íntima do paisagismo de jardim à pintura e à poesia no contexto chinês, entre outros. (MAXIMIANO, 2004; TUAN, 1980) Desse modo, com o passar dos séculos e as diversas modificações que o ser humano empregou nas paisagens primitivas, o conceito de paisagem foi herdando novas significações, de acordo com os feitios da apropriação humana. Sobre o conceito atual de paisagem, PENA (S/D) discorre que este se refere aos aspectos perceptíveis do espaço geográfico: a forma como o compreendemos através dos nossos sentidos: segunda parte: aportes teóricos e metodológicos

“A análise da paisagem permite-nos verificar as diferentes dinâmicas concernentes ao funcionamento das sociedades, pois ela revela ou omite informações, de forma a denunciar as características econômicas, políticas e culturais que estruturam o processo de formação e organização do espaço social. Afinal de contas, o espaço geográfico é o resultado de uma complexa interação entre sociedade e a sua paisagem. É interessante observar que as paisagens apresentam aspectos e elementos referentes ao presente e ao passado, que muitas vezes convivem em um mesmo espaço. Se observarmos, por exemplo, a paisagem de uma cidade histórica, podemos notar elementos do passado que foram conservados em conjunto com aspectos do presente ou que surgiram em tempos mais recentes. Assim, é possível comparar essas paisagens e observar ao menos algumas de suas principais características, como a sua arquitetura, estilos culturais e outros.” (PENA, S/D)

Por isso, não é coerente caracterizar a paisagem somente por seus aspectos naturais. O conceito inicial, portanto, recebe a incorporação de novos elementos que decorrem da humanização dos espaços naturais. Sendo a ciência que mais se apropria das referidas conceituações, a Geografia denomina que a partir de que se estabelecem construções humanas, constitui-se aí uma PAISAGEM HUMANIZADA em diferentes intensidades, de conformidade com o impacto empregado à paisagem natural (SANTOS, 1997). Ademais, a paisagem é um resultado de processos de acumulação que são contínuos no espaço e no tempo, sendo única, não totalizante e heterogênea no

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sentido de que resulta de um mosaico de tempos e objetos datados. Pressupondo um conjunto de formas e funções, a paisagem humanizada indica também uma estrutura espacial que resulta de sua relação com a sociedade e a cultura (SERPA, 2010, apud. SANTOS, 1997). Sobre essa simbiose entre paisagem e sociedade, LUCENA (2008) destaca que desde o final da década de setenta, tem sido concebida uma releitura do conceito de paisagem possibilitada pelo meio acadêmico da Geografia Humanista, que lança mão de um novo paradigma denominado de PAISAGEM CULTURAL. Esse conceito está ligado ao fato de que, os aspectos relacionados à humanização da paisagem não são meramente físicos, mas carregam consigo profunda significação histórica e cultural. A cultura é a integração dos comportamentos, dos saberes, das técnicas, dos conhecimentos e dos valores reunidos pelas pessoas durante suas vidas e, em escala mais ampla, pela congregação dos grupos de que fazem parte, resultando em heranças transmitidas de uma geração a outra. Seu conteúdo é original e possui componentes essenciais: os códigos de comunicação que se refletem em hábitos cotidianos similares. Desses hábitos se entendem, dentre outros fatores, estoques de técnicas de produção e procedimentos de regulação social que asseguram a sobrevivência e a reprodução do grupo, cujos componentes aderem aos mesmos valores, justificados por uma filosofia, uma ideologia ou uma religião compartilhadas. (CLAVAL, 1999) A partir do ano de 1992, a UNESCO estabeleceu o conceito de paisagem cultural como uma nova tipologia

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de reconhecimento dos bens culturais. O IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), em consonância com a UNESCO, adotou o paradigma da paisagem cultural como forma de instrumentação da conservação e preservação do patrimônio cultural no Brasil, por meio da Portaria nº 127. Como definição, a chancela de Paisagem Cultural Brasileira é uma porção peculiar do território nacional, representativa do processo de interação do homem com o meio natural, à qual a vida e a ciência humana imprimiram marcas ou atribuíram valores. O espaço humanizado é, portanto, integrante e integrado à paisagem. Ele não pode ser entendido através de critérios meramente funcionais pois é composto por elementos que não possuem a mesma sintaxe, isto é, não respondem à mesma ontologia e não são sintetizáveis. A paisagem encontra-se, em diversas ocasiões, valorizada por si mesma: deixa de ser somente uma expressão da vida social, toma uma dimensão estética ou funda a identidade do grupo, servindo para exprimir sonhos. (CLAVAL, 1999 apud. DEBIÉ, 1992; FORÊT, 1993) Por isso, firma-se a pertinência da preservação do patrimônio baseada nas considerações sobre os conceitos de paisagem. Nessa perspectiva, os conceitos supracitados ganham potência de preservação e conservação, desde as imprescindíveis preocupações ecológicas que concernem a paisagem natural até os diversos elementos que compõem os meios humanizados e caracterizam a paisagem cultural.

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SUPORTE AMBIENTAL A trajetória da ideia de paisagem no tempo sugere que a observação dos aspectos utilitários do meio ambiente natural sejam favorecidos na concepção do planejamento. A situação física do assentamento da Z3 é bastante condicionada pelo ambiente natural de suporte, que vem sendo constantemente degradado, constituindo empecilhos na qualidade de vida da população local. O novo Código Florestal, lei nº 12.651, de 25 de maio de 2012 (âmbito federal) e a Lei nº 11.520, de 03 de agosto de 2000, atualizada até a Lei nº 12.995 (âmbito estadual), de 24 de junho de 2008, introduzem diversos princípios em concordância com o pensamento supracitado, dos quais escolhemos citar alguns:

lei nº 11.520, de 03 de agosto de 2000 (âmbito estadual) É a lei que, dentre outras providências, institui o Código Estadual do Meio Ambiente do estado do Rio Grande do Sul. Foram selecionados alguns aspectos de grande interesse para o trabalho. No artigo 14 são realizadas definições dos termos: áreas alagadiças, áreas de conservação, áreas degradadas, áreas sujeitas à inundação e manejo ecológico, que possuem relação com o local de planejamento definido. segunda parte: aportes teóricos e metodológicos

Art. 14 - Para os fins previstos nesta Lei entende-se por: VI - áreas alagadiças: áreas ou terrenos que encontram-se temporariamente saturados de água decorrente das chuvas, devido à má drenagem; VII - áreas de conservação: são áreas delimitadas, segundo legislação pertinente, que restringem determinados regimes de utilização segundo os atributos e capacidade suporte do ambiente; VIII - áreas degradadas: áreas que sofreram processo de degradação; XII - áreas sujeitas à inundação: áreas que equivalem às várzeas, vão até a cota máxima de extravasamento de um corpo d’água em ocorrência de máxima vazão em virtude de grande pluviosidade; XXVIII - manejo ecológico: utilização dos ecossistemas conforme os critérios ecológicos buscando a conservação e a otimização do uso dos recursos naturais e a correção dos danos verificados no meio ambiente;

Essas definições se enquadram em diversas situações compreendidas no ambiente natural de suporte da Z3, sobretudo as áreas alagadiças e as áreas sujeitas a inundação. Além disso, a categoria de manejo ecológico sugere a observação dos diversos ecossistemas e sua conservação. Já no artigo 51, a lei traz a seguinte premissa: Art. 51 - Além das áreas integrantes do Sistema Estadual de Unidades de Conservação, são também objeto de especial proteção: VI - as áreas de interesse ecológico, cultural, turístico e científico, assim definidas pelo Poder Público; VII - os estuários, as lagunas, os banhados e a planície costeira; VIII - as áreas de formação vegetal defensivas à erosão de

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encostas ou de ambientes de grande circulação biológica.

O núcleo urbano da Z3, por estar situado muito próximo à orla, fica assentado sobre a planície costeira interna da Laguna dos Patos e junto à banhados. Ademais, como já discutido, o local se caracteriza por seu grande interesse ecológico e cultural. Portanto, julgamos coerente a caracterização do território da Colônia Z3 como objeto de especial proteção ambiental. O artigo 155 destacado a seguir também corrobora para o discurso supracitado: Art. 155 - Consideram-se de preservação permanente, além das definidas em legislação, as áreas, a vegetação nativa e demais formas de vegetação situadas: I - ao longo dos rios ou de qualquer curso d’água; II - ao redor das lagoas, lagos e de reservatórios d’água naturais ou artificiais; VI - nos manguezais, marismas, nascentes e banhados; VII - nas restingas; X - nas dunas frontais, nas de margem de lagoas e nas parcial ou totalmente vegetada.

novo código florestal (âmbito nacional) LEI Nº 12.651, DE 25 DE MAIO DE 2012 O novo código florestal de 2012, assim como a lei estadual, introduz a definição de alguns temos, dos quais atribuímos ênfase ao artigo 3º: Art. 3º Para os efeitos desta Lei, entende-se por: II - Área de Preservação Permanente - APP: área protegida,

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coberta ou não por vegetação nativa, com a função ambiental de preservar os recursos hídricos, a paisagem, a estabilidade geológica e a biodiversidade, facilitar o fluxo gênico de fauna e flora, proteger o solo e assegurar o bem-estar das populações humanas; IX - interesse social: a) as atividades imprescindíveis à proteção da integridade da vegetação nativa, tais como prevenção, combate e controle do fogo, controle da erosão, erradicação de invasoras e proteção de plantios com espécies nativas; d) a regularização fundiária de assentamentos humanos ocupados predominantemente por população de baixa renda em áreas urbanas consolidadas, observadas as condições estabelecidas na Lei nº 11.977, de 7 de julho de 2009;

A somar a isto, no artigo 4º são definidas as delimitações das Áreas de Preservação Permanente (APPs) para divsersos tipos de corpos d’água. Com relação à Z3, destacamos os seguintes: Art. 4º Considera-se Área de Preservação Permanente, em zonas rurais ou urbanas, para os efeitos desta Lei: I - as faixas marginais de qualquer curso d’água natural, desde a borda da calha do leito regular, em largura mínima de: a) 30 (trinta) metros, para os cursos d’água de menos de 10 (dez) metros de largura; b) 50 (cinquenta) metros, para os cursos d’água que tenham de 10 (dez) a 50 (cinquenta) metros de largura; c) 100 (cem) metros, para os cursos d’água que tenham de 50 (cinquenta) a 200 (duzentos) metros de largura; II - as áreas no entorno dos lagos e lagoas naturais, em faixa com largura mínima de: a) 100 (cem) metros, em zonas rurais, exceto para o corpo d’água com até 20 (vinte) hectares de superfície, cuja faixa marginal será de 50 (cinquenta) metros; VI - as restingas, como fixadoras de dunas ou estabilizadoras de mangues;

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Quanto ao caso dos reservatórios d’água artificiais, observamos o que foi colocado na Resolução do CONAMA (Conselho Nacional do Meio Ambiente) Nº 302 de 20 de março de 2002:

RESOLUÇÃO conama Nº 302, DE 20 DE MARÇO DE 2002 (âmbito nacional) A resolução dispõe sobre os parâmetros, definições e limites de Áreas de Preservação Permanente de reservatórios artificiais e o regime de uso do entorno. No artigo 3º é regulamentado o seguinte: Art 3º Constitui Área de Preservação Permanente a área com largura mínima, em projeção horizontal, no entorno dos reservatórios artificiais, medida a partir do nível máximo normal de: I - trinta metros para os reservatórios artificiais situados em áreas urbanas consolidadas e cem metros para áreas rurais; Além das leis supracitadas, consideramos também algumas normativas trazidas na Lei Municipal nº 4392, de 05 de julho de 1999, que declara como área de interesse ecoturístico a “Orla da Laguna dos Patos” no município de Pelotas:

LEI municipal Nº 4.392 DE 05 de julho de 1999 (âmbito municipal) Art. 1º - E declarada como ÁREA DE INTERESSE ECOTURÍSTICO a “Orla da Laguna dos Patos”, no Município de Pelotas, cujas condições básicas de uso, utilização e ocupação do solo, estabelecidas nesta Lei, deverão assegurar, no mínimo:

segunda parte: aportes teóricos e metodológicos

I - a salubridade, conforto, segurança e a proteção ambiental; II - o fomento do ecoturístico; III - o desenvolvimento sustentável, para as presentes e futuras gerações; IV - a preservação , conservação e a restauração do ambiente, da paisagem natural e do patrimônio cultural; V - a prática de lazer e da recreação; VI - o fortalecimento da economia local.

Os assuntos citados no artigo 1º indicam a importância da preservação do ambiente natural e cultural das imediações da costa da Laguna dos Patos. A lei também cita: Art. 5º - As praias são bens públicos de uso comum do povo, sendo assegurado, sempre, o livre e franco acesso a elas, ás lagoas e lagunas, em qualquer direção e sentido, ressalvadas as áreas protegidas por legislação específica. Ver tópico Parágrafo Único - Não será permitida a urbanização ou qualquer forma de utilização do solo da orla que impeça ou dificulte o acesso assegurado no “caput” deste artigo. Art. 6º - São de Preservação Permanente as áreas de domínio público ou privado, situadas numa faixa marginal à Lagoa dos Patos, na largura mínima de 100m (cem metros), a contar da linha do nível médio das águas, onde são permitidas atividades humanas, nos termos estabelecidos pelo COMPAM, através de resolução específica. Art. 7º - As instalações existentes sob a água da Laguna dos Patos deverão garantir o acesso público. Art. 8º - A urbanização, na orla da Laguna dos Patos, não será permitida na área de dunas, matas nativas e banhados. Art. 12 - A arborização da Orla da Laguna dos Patos deverá ser feita com espécies vegetais nativas, com preferência para aquelas

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consideradas ameaçadas de extinção, nos casos ecologicamente recomendados pelo órgão ambiental municipal.

De modo geral, os artigos colocados aqui (do 5º ao 8º, e o 12) estabelecem aspectos muito importantes para que seja garantida a consolidação da orla da Laguna dos Patos como uma área de interesse ecoturístico. Porém, existe um conflito entre esta lei e a realidade ora encontrada na Colônia de Pescadores Z3. Como já foi observado, nas últimas décadas os impactos do assentamento no ambiente natural foram agravados ainda mais, ficando impossibilitado o cumprimento da lei. No entanto, é de interesse deste trabalho, planejar os espaços de modo a minimizar esses impactos, utilizando os aspectos comentados na lei como base para isso. Concluindo, o planejamento ambiental terá olhares para os aspectos dispostos nas leis citadas. Buscando a otimização das linhas do pensamento, traçamos o objetivo de estudar a estrutura ambiental geral, e alguns de seus aspectos específicos como a fauna e a flora, a topografia e a delimitação das áres protegidas por lei. As análises desses fatores serão pautadas nas características da estrutura geomorfológica e biogeográfica da planície lagunar. Como produto dessas análises, espera-se que possa ser executado um zoneamento ambiental que auxilie as medidas de planejamento, que terão como objetivo a preservação e conservação desse ambiente natural, a identificação das áreas de impacto crítico e a proposição de áreas passíveis a urbanização.

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PRAGMática, SINTática E SEMântica A cidade, enquanto espaço humanizado, é uma congregação concebida para reunir funções, de modo a executar uma adaptação objetiva do espaço e buscar soluções estéticas e práticas para as atividades humanas. Além disso, esses espaços humanizados são dotados de uma hibridez de funções, as quais são essencialmente utilitárias e simbólicas. Como funções utilitárias desses espaços, observam-se as funções pragmática – da relação entre uso e espaço – e sintática – da relação entre forma e espaço; e como função simbólica, considera-se a função semântica – da relação entre simbologia e espaço (ROMANO, 2004). O discurso funcionalista pode parecer, em uma primeira observação, superficial na compreensão da cidade. Contudo, ele oferece um método de classificação facetada de satisfatória aplicabilidade no estudo descritivo e analítico do local de projeto escolhido, pois é criterioso na categorização das partes componentes do que escolhemos por chamar de complexidade total do lugar. O contexto da complexidade total discutido acima é comentado por FERRARA (2000) quando refere-se à relação entre arquitetura e cultura na construção da imagem urbana. A arquitetura representa para a humanidade as marcas culturais das transformações históricas no espaço e no tempo. Por um lado, possui significação ambígua, sendo ao mesmo tempo ícone e função, mas por outro é única e indissolúvel na sua concretude. Essa perspectiva estabelece uma grande dúvida entre forma e segunda parte: aportes teóricos e metodológicos

função, abrindo um problema que se amplia para uma série de elementos relacionados: arte e ciência, expressão e representação, imagem e significado. Portanto, essa compreensão dicotômica referente à hierarquia entre forma e função, na realidade está enraizada em outra dualidade na leitura da imagem urbana: a forma e o conteúdo, isto é, a sintaxe e a semântica. (FERRARA, 2000 apud. PRADO, 1990) Frente à essa grandeza e complexidade, e levando em conta o fato de que os núcleos urbanos fazem parte de toda a vida da maioria das pessoas, o senso comum refere-se à ideia de cidade como algo muito além de sua forma. É imperioso assumir-se uma teoria que relacione a parte visível do fenômeno à outra, e supostamente de maior relevância, invisível, da arquitetura social. Desse modo, as cidades são compostas de limitada variedade de elementos. Os físicos podem ser categorizados como objetos tridimensionais e espaços abertos públicos e privados, dentre eles edificações, lugares, tecidos urbanos, etc., que carregam consigo símbolos, significados e tradições. Não é possível articular esses elementos, em sua completude, em composições meramente sintáticas, porque a linguagem urbana deriva-se de outros troncos morfológicos compostos pela cultura, pelos processos sociais, pelas estratégias políticas e pelos códigos estéticos. Assim, a tensão entre semântica e sintática é identificada também no entedimento da forma urbana, no sentido de que ambas essas tendências dis-

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putam para definir a “evolução urbana” das cidades: a semântica refere-se ao processo contínuo de construção de significados, e a sintática ao processo de evolução da linguagem urbana. (KRAFTA, 2014) Em conformidade com as ideias aqui postas, SCHWALBACH (2009) interpreta que a observação analítica e descritiva da cidade (ou parcelas dela), na complexidade dos mais diversos aspectos que a compõe, pode ser dividida em três categorias: a observação estética, a observação científica e a observação integrativa, de modo que essa premissa se relaciona em partes com o discurso funcionalista citado anteriormente. A observação estética é aquela da cidade-paisagem visível, que é informação decodificada por nossos mecanismos visuais. A percepção visual humana é advinda de funções sensoriais biológicas, mas somente a associação de objetos com nomes e termos é capaz de introduzir, a partir da cultura, a perpetuação da memória coletiva. Por isso, é correto afirmar que a percepção humana é estruturada na linguagem (ou sintaxe) que é percebida, avaliada e interpretada pelas pessoas inconscientemente, e desse modo, o fenômeno varia para pessoas familiarizadas com padrões culturais diferentes. No âmbito do planejamento urbano, o conteúdo visual de um núcleo urbanizado deve ser analisado à fundo na busca de soluções projetuais, porém existem outros aspectos invisíveis, de cunho científico que podem ser observados a fim de complementar as primeiras percepções. A observação científica de porções de territórios revelam seus fatores demográficos, e, portanto, a situação socioeconômica do lugar, sendo que esses

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fatores não são tangivelmente perceptíveis, mas podem ser lidos em conjunto com aqueles outros que são tangivelmente perceptíveis a fim de diagnosticar a conjuntura local. Já a observação integrativa, referida na bibliografia como aquela que procura uma lógica frente às visibilidades e invisibilidades da cidade, pode ser garantida através do estudo da Morfologia Urbana. Tomamos essa ciência, de forma simplificada, como uma descrição das características espaciais de um núcleo urbano e as condições e causas por detrás delas, buscando seu contexto cultural, político e topográfico. Os métodos analíticos da morfologia urbana se baseam no estudo da configuração dos diversos elementos no espaço e no tempo e distinguindo as áreas planejadas das não planejadas. A reflexão discorrida nos períodos anteriores sugere que a complexidade total de uma localidade pode ser reduzida através de sua divisão em subconjuntos de descrição e análise mais simplificadas, cujos métodos devem ser selecionados levando em consideração as especificidades do local de estudo. Além disso, o discurso funcionalista, confrontado com as reflexões de outros autores, indica uma divisão ampla do organismo urbano de acordo com suas funções pragmática, sintática e semântica. Esta concorre com outra classificação subjacente em função da tangibilidade dos fenômenos urbanos, que resultam em partes visíveis e invisíveis, sendo a primeira correspondente à organização espacial e à linguagem dos elementos físicos e a segunda referente à situação socioeconômica e aos padrões culturais.

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IMAGEM URBANA: A CIDADE TANGÍVEL MORFOLOGIA URBANA Em fases anteriores deste estudo, concordamos que a percepção visual humana decodifica as informações visuais por meio da linguagem. Em se tratando do presente trabalho e do local de estudo definido, a nossa interpretação da linguagem urbana surge no reconhecimento de sua forma, ou seja, de sua morfologia. A forma urbana resulta da distribuição de grandes quantidades de formas construídas sobre um território e essa forma pode ser entendida, de maneira simplificada, como uma congregação específica de três elementos principais: as formas construídas, os espaços abertos privados e os espaços abertos públicos. (KRAFTA, 2014). Retomando o primeiro título referente aos conceitos de paisagem e às ideias de patrimônio, podemos também entender o arranjo dos três elementos citados como uma PAISAGEM URBANA, em decorrência da resultante visual da integração dos elementos físicos da cidade no espaço. CULLEN (1971) concebe o conceito de Paisagem Urbana, estabelecendo um processo de ordenamento do espaço urbano a fim de organizá-lo, equilibrá-lo e torná-lo coerente. O autor estrutura sua articulação por meio de três denominações: a ótica, que tange a percepção visual do espaço urbano; a local, que diz respeito ao conjunto de sensações adquiridas no lugar onde nos encontramos; e o conteúdo, que tem relação segunda parte: aportes teóricos e metodológicos

com os elementos estruturais do espaço e as construções. LAMAS (1993) trata do entendimento da paisagem urbana através de sua concepção de morfologia urbana – estudo no qual se busca compreender a configuração e a estrutura exterior dos elementos dispostos nas áreas urbanizadas, interligadas aos fenômenos temporais que lhes deram origem e que as modificam constantemente. Os elementos morfológicos que compõem a paisagem urbana podem ser distinguidos por algumas classificações. Dentre outros fatores menos importantes para o estudo em questão, podemos destacar: o solo existente, incluindo a topografia e os ecossistemas presentes no ambiente natural em questão; o edifício, constituindo o ambiente urbano e organizando-se em diferentes espaços identificáveis; o lote, que tem relação inquebrável com os edifícios e o solo; o quarteirão, que desenha na área urbana entidades volumétricas através do agrupamento de edifícios; a fachada, a qual desempenha a tradução visual das linguagens estéticas e das tipologias arquitetônicas; o traçado da rua, que estabelece relação direta entre o território e a cidade, e define as perspectivas de visualização do espaço; a praça, que é o resultado do alargamento ou confluência de traçados; o monumento, que se caracteriza como fato urbano¹ singular, estruturando e imprimindo identidade ao local; e a árvore, que organiza, define e contém os espaços além de provocar sensações subjetivas de serenização dos

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1 - O fato urbano, de acordo com ROSSI (1966), é um elemento crucial na constituição urbana, sendo mutuamente condicionante e condicionado pelo entorno. Este fato urbano é designado a partir da condição de artefato um objeto com a propriedade de refletir a memória da cidade e estando ainda presente no quotidiano desta. Ele apresenta uma percepção mais humana do que está por trás dos sistemas espaciais da cidade e seus principais atributos.

sentidos físicos (LAMAS, 1993). Os referenciais teóricos e práticos da ciência da morfologia urbana são muito extensos e oferecem uma gama enorme de possibilidades para melhor entender as formas urbanas. No caso específico da Colônia de Pescadores Z3, optamos por seguir os olhares de LAMAS (1993), SCHWALBACH (2009) e KRAFTA (2014). Desse modo, nossa proposta de método de decodificação da imagem urbana foi subdividida em dois quesitos: a CONFIGURAÇÃO ESPACIAL, que tratará da organização utilitária do território e de sua morfogênese; e a AMBIÊNCIA URBANA, que cuidará da qualidade visual do espaço a partir de sua tipomorfologia, dos aspectos morfológicos relacionados aos padrões de visualização do espaço urbano e do conteúdo cromático de seus diversos elementos. Retomando o que foi dito no título anterior, o estudo da forma da cidade requer que haja uma redução da complexidade total dos elementos da paisagem urbana mediante sua divisão em subconjuntos. Quanto àquilo que optamos por chamar de cidade tangível, os morfólogos sugerem a incorporação de dois vetores de orientação para o estudo: o espaço e o tempo. O primeiro proporciona a redução da complexidade em termos de sua manifestação territorial e o segundo em termos de seu desenvolvimento histórico. Esses dois parâmetros originaram os principais instrumentos analíticos da imagem urbana: a tipologia e a morfogenética. A tipologia é um procedimento classificatório e simplificador de conjuntos extensos de objetos aparentemente díspares. A ideia é reduzir uma grande quanti-

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dade de elementos em um número menor de categorias que compartilham de um mesmo grupo de atributos. O tipo não existe concretamente; é uma abstração dos elementos da paisagem urbana representados por um grupo de características comuns à todos os componentes de cada tipo. É interessante citar que cabe ao aplicador da análise elencar as características que representam maior relevância para o estudo. Essa análise pode se basear, por exemplo, nas edificações de um núcleo urbano que, por sua vez, podem ser classificadas em função de suas alturas, das cores de suas fachadas, dos materiais de seus telhados, etc. A tipologia, portanto, é um componente virtual representante de um grupo de componentes concretos cuja categorização, apesar de desconsiderar muitos atributos que os diferenciam, possuem um mesmo grupo de atributos que os igualam. Ademais, além das edificações, os outros elementos da paisagem urbana também são passíveis de divisão em tipologias como é o caso dos quarteirões, das vias e das praças, por exemplo. O objetivo final da análise tipomorfológica é diagnosticar uma parcela da identidade visual de uma área urbanizada por meio da distribuição dos seus diferentes agrupamentos tipológicos no espaço, de modo a obter, como consequência, o reconhecimento de padrões de regularidade ou irregularidade tipomorfológicos. Contudo, a análise tipomorfológica, por seu caráter essencialmente formal, não contempla a imagem urbana na sua totalidade, pois não leva em consideração a dinâmica temporal. A inserção dos diversos elementos da manufatura urbana ao longo do tempo não costuma

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ser admitido como um critério de análise. A Morfogênese, entretanto, sugere a possibilidade de isso acontecer, a partir de um outro tipo de categorização dos elementos, correspondente à uma cronologia de inserção desses elementos no espaço. O objetivo final do estudo da morfogenética é entender como se deu a evolução urbana de uma área urbanizada e, possivelmente, prever suas tendências de crescimento territorial. Nesse contexto, cabe ressaltar que tanto a análise tipomorfológica quanto a morfogenética devem buscar critérios específicos para a localidade a ser analisada, em função das características físicas dos elementos que a compõem. Além disso, a definição de uma escala de trabalho se mostra bastante importante. Tomando por base o tema proposto neste trabalho como o planejamento de bairro, optamos por definir as escalas de trabalho em função de diferentes unidades espaciais, desde a área urbanizada total como uma entidade unitária até a escala das edificações. Essa definição oportuniza que sejam realizadas análises em função das seguintes unidades espaciais: a unidade do edifício, a unidade da quadra, a unidade da via e a unidade do bairro. Isto posto, as duas vertentes do estudo da morfologia urbana foram selecionados no contexto do presente trabalho: a ANÁLISE TIPOMORFOLÓGICA e a MORFOGENÉTICA. Nota-se que a primeira possui maior atribuição à linguagem urbana, ou seja, à sua sintaxe, enquanto que a segunda reúne maior referência utilitária, pois busca uma percepção espacial do passado e do futuro da área urbanizada; a primeira se encaixa em nossa concepção de ambiência urbana, enquanto que segunda parte: aportes teóricos e metodológicos

a segunda se afiniza com nossa ideia de configuração espacial.

configuração espacial Dentro desta categoria de análise que escolhemos por nomear de configuração espacial, buscaremos compreender de modo mais profundo a organização dos elementos no espaço do local de estudo sob uma ótica mais utilitária (pragmática) e em conjunto com a sua morfogênese. Com relação à esta última, o método adotado será o estudo da evolução urbana do local em função das diferentes unidades espaciais – bairro, via, quadra e edifício. Não obstante, é necessária uma avaliação de maior critério sobre os aspectos existentes na situação atual da Colônia de Pescadores Z3. Por isso, propõem-se também, no contexto da análise da configuração espacial urbana, o estudo da ESTRUTURA DE USO E OCUPAÇÃO DO SOLO e da ESTRUTURA DE TRANSPORTE E CIRCULAÇÃO VIÁRIA (SCHWALBACH, 2009) . A análise da estrutura de uso e ocupação do solo será executada em três fases: o levantamento dos usos específicos do solo e seus padrões de distribuição no espaço, o estudo da ocupação do solo de acordo com a densificação das formas construídas horizontal e verticalmente, e a compreensão dos atributos do sistema de espaços abertos existente. Em um momento posterior será estudada a estrutura de transporte e circulação viá-

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ria no interior do bairro. Esta parte buscará entender se há conflito na utilização do sistema viário, considerando os fluxos principais: o trajeto dos ônibus e do transporte de cargas.

ambiência urbana O termo ambiência pressupõe a humanização do espaço por meio do equilíbrio dos elementos, os quais desempenham protagonismo e participação. O espaço se transforma no cenário onde se realizam as relações sociais, políticas e econômicas, construídas por um conjunto de culturas e valores. A definição de ambiência, portanto, não refere-se somento ao meio material, mas também àquele moral produzido pelo comportamento humano: o meio ambiente (BESTETTI, 2014). Na visão do planejador urbano, o olhar sobre a ambiência toma formas distintas. As condições críticas do uso solo urbano nas últimas décadas indicam a necessidade de uma maior observação da qualidade da ambiência urbana no projetar das cidades. Para tanto, entende-se que a morfologia do recinto urbano é uma parcela tangível da cidade que resulta em sua ambiência, ou seja, a largura das ruas, as alturas dos edifícios, as tipologias arquitetônicas e as cores das fachadas, por exemplo, são atributos de um núcleo urbanizado que o imprimem qualidades em diferentes gradações (MASCARÓ & MASCARÓ, 2009). Dessa forma, – em nosso exercício de divisão da complexidade total do lugar de

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projeto em diferentes partes menores a serem lidas em conjunto – chamaremos de ambiência urbana aqueles aspectos físicos de sua morfologia, que são dotados de conteúdo visual, e compõem a paisagem urbana tangível. No título “Morfologia Urbana”, concluímos que uma metodologia de ANÁLISE TIPOMORFOLÓGICA seria fundamental para um prognóstico qualificado da identidade visual presente na Colônia de Pescadores Z3. Ademais, estipulamos que a categorização tipológica dos elementos do núcleo urbanizado se tornaria mais interessante se contemplasse diferentes unidades espaciais: da quadra e do edifício. Entende-se que a organização das diferentes tipologias no espaço revelará alguns dos aspectos formais que constituem a ambiência urbana do lugar. Outros fatores morfológicos também se mostram igualmente pertinentes para este estudo. As primeiras reflexões sobre as formas urbanas na Colônia Z3 não permitiram que fossem ignorados os efeitos visuais resultantes das formas do traçado urbano. Seguindo a linha de costa da lagoa, o traçado urbano da Z3 descreve uma geometria orgânica com linhas pouco sinuosas. Para o olhar do usuário que se encontra no ambiente interno do local, essa organicidade resulta em PANORÂMICAS VISUAIS fechadas e sensações de direcionamento, produzidas por efeitos topológicos e perspectivos que podem ser averiguados em variadas estações de observação dentro espaço urbano (KOHLSDORF, 1996). Por isso, assume-se a necessidade de definição dos padrões desses efeitos visuais, com a finalidade de

ambiente e cultura: uma proposta de planejamento urbano para assentamento costeiro


estabelecer critérios para o planejamento da identidade visual local na ocasião da proposição de expansões da malha urbana. Em contraponto, o espaço externo à nucleação urbana da Z3 é extremamente vasto: a lagoa, os banhados nas extremidades nordeste e sudoeste e os campos a noroeste indicam uma amplidão que se opõe aos esquemas visuais do interior da vila. Por isso, propomos o estudo dos padrões de visibilidade do local em duas fases: visuais internas e visuais externas. Esse estudo será possibilitado pela análise da relação de isovistas em gráficos de visibilidade. Uma isovista é a representação bidimensional de tudo o que pode ser visualizado a partir de algum ponto no espaço. TURNER et al. (2001) propõem uma análise que não se limita ao caráter local das isovistas, mas avalia as suas correlações entre quase todos os pontos de um espaço. Essa análise pode ser realizada a partir de gráficos de visibilidade que indicam, a partir de uma escala de cores, os pontos de maior visibilidade dentro do espaço. Portanto, serão aplicadas análises em gráficos de visibilidade para as duas situações (visuais internas e externas), com o intuito de obter um diagnóstico criterioso dos padrões de visibilidade do lugar como base para as estratégias de planejamento da ambiência urbana. Além disso, é notável que a paisagem urbana da Colônia de Pescadores Z3 tem muito de sua identidade visual atrelada ao CONTEÚDO CROMÁTICO dos seus elementos componentes. A cor está presente em considerável quantidade e intensidade no ambiente urbano, não somente nas fachadas das edificações, mas também nas embarcações, nas roupas estendidas nos vasegunda parte: aportes teóricos e metodológicos

rais, na vegetação, na água, etc. No caso das edificações, barcos e roupas, a inserção da cor é derivada do processo temporal espontâneo de sedimentação cultural e da construção da concepção estética dos residentes, pois revelam as suas preferências ambientais. Em outra oportunidade, foi realizado um levantamento do conteúdo cromático do ambiente urbano da Z3 na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Pelotas (NAOUMOVA et al., 2002), ao qual obtivemos acesso. Deste levantamento resultou uma palheta de cores geral e uma pontual, sendo a primeira referente ás cores presentes em maior quantidade e que alcançam observações de média e longa distância e a segunda é relacionada à detalhes e, portanto, a observações de curta distância (FARIA, PALMA & NAOUMOVA, 2003). Dessa forma, optamos por seguir essa metodologia para o levantamento atual, de modo que seja possível a comparação do comportamento temporal da inserção da cor no espaço urbano.

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CONTEXTO SOCIOECONÔMICO E CULTURAL: A CIDADE INTANGÍVEL Como visto anteriormente, um dos meios de estruturação do pensamento deste estudo se baseia no reconhecimento do lugar de projeto de acordo com sua tangibilidade. Vencida a seção que discorre sobre as formas urbanas e seus atributos visuais, passamos para outra fase que lança olhares sobre aspectos que não estão necessariamente visíveis à percepção direta. Concluímos que esta parte ficaria restrita à três temas principais: a CONTEXTO SOCIOECONÔMICO, PAISAGEM CULTURAL e COGNIÇÃO AMBIENTAL.

CONTEXTO SOCIOECONÔMICO Não é de íntegra coerência enunciar que os aspectos socioeconômicos de uma cidade ou partes dela não podem ser visualizadas nas condições físicas dos elementos compenentes do espaço urbano. Contudo, somente uma observação científica pode trazer resultados desejáveis para o exercício do planejamento. Desse modo, propõe-se a apreensão do contexto socioeconômico da Colônia de Pescadores Z3 a partir da caracterização da comunidade enquanto população e sociedade, e das relações de trabalho e renda no local. Esses dados serão interpretados em conjunto com o estudo da evolução urbana, com duas finalidades traça-

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das: a de diagnosticar a situação socioeconômica da vila e a de gerar um prognóstico populacional de suporte às propostas de expansão da malha urbana.

PAISAGEM CULTURAL Os espaços humanizados carregam consigo uma função semântica bastante complexa de ser avaliada, por ser essencialmente intangível. A compreensão da simbologia impressa pelos padrões culturais na paisagem urbana é de tamanha relevância que seu mínimo e difícil entedimento são fundamentais para um planejamento que pactua com o tecido sociocultural do local de projeto definido. Em culturas abertas, aquelas que são suscetíveis de se transformar e se enriquecer, o indivíduo fica impossibilitado de conhecer a totalidade cultural que o cerca. Para se estabelecer no campo cultural, o indivíduo tende a buscar singularidade e realização pessoal. A imitação é um comportamento comum neste contexto, pois as pessoas imitam o que se faz ao redor delas a fim de se identificar ao grupo em que vivem. Contudo, essa preocupação em copiar o vizinho, impulsionada pelo jogo da moda e da globalização, são, geralmente, contrabalançados pelo desejo de se singularizar. Estes modelos com-

ambiente e cultura: uma proposta de planejamento urbano para assentamento costeiro


petitivos de imitação e singularização são responsáveis pelas admirações e seduções coletivas, que representam um papel decisivo na contaminação social e na difusão de culturas locais. Cada cultura cria seus próprios códigos de comunicação: oral, gestual, escrito e artístico, e esses aspectos constituem parte da identidade do grupo. Em contraponto, na intercambialidade cultural, as mídias de massa e interativas desempenham um papel de notável impacto: os modelos culturais externos difundidos por elas concorrem com as ideias transmitidas pela família e pela escola. (CLAVAL, 1999) Em decorrência disso, a função pragmática domina os ambientes de tal maneira que estes se tornam monofuncionais e sua significação simbólica é bastante reduzida. Os territórios habitados que são dotados de uma semântica original comportam espaços que podemos chamar de lugares. Os mecanismos da globalização que operam o desprestígio dos signos culturais das sociedades reproduzem “não-lugares”, onde só se leem geometrias frias e grupos esvaziados de conteúdo, os quais falham em enraizar-se no território para a construção de identidades. Os “não-lugares” tecem sociedades que rumam à desculturalização (CLAVAL, 1999 apud. AUGÉ, 1992; RELPH, 1976) Nesse panorama, retomando a concepção de patrimônio trazida neste trabalho, tomamos o posicionamento de buscar a conservação da paisagem cultural existente na Colônia de Pescadores Z3. O simbolismo e a cultura que se engendram no cotidiano da comunidade são dotados de uma diversidade de particularidades que enchem os olhos de qualquer visitante em função segunda parte: aportes teóricos e metodológicos

dos seus fatores de singularização, ou seja, pelos modos como se distinguem da totalidade do município do qual fazem parte. Os costumes, a pesca artesanal, o artesanato, a religiosidade e a culinária local baseada em frutos do mar são aspectos de importância exímia na caracterização do lugar, os quais já demonstram certa cedência à modelos culturais externos. Sobre esssas particularidades da comunidade, FIGUEIRA (2009) afirma: “...são patrimônios refletidos em sua culinária, folclore, ritos, mitos, crenças religiosas, festas populares, paisagens e outras tantas singularidades de seu cotidiano que vêm a formatar a sua identidade própria.” (FIGUEIRA, 2009, p. 41).

Cabe destacar também que essa lógica de imitação causada pelo jogo da moda, não se aplica somente à cultura, mas também à linguagem formal urbana. É interessante observar que, no caso da comunidade em questão, os dois fatores (cultura e forma urbana) são retratos dos modos de fazer locais. Em decorrência da relação quase integral do ambiente urbano com a atividade da pesca artesanal (já relatamos que a maioria arrebatadora da população tem, pelo menos, parte de sua economia voltada para a atividade pesqueira), verifica-se que, na mesma intensidade, os valores e signos culturais estão igualmente voltados para o referido exercício. O resultado disso é a inserção de elementos temáticos da água e da pesca nas figuras físicas da paisagem urbana. Ademais, considerando a vinculação direta da pesca com o meio ambiente natural que envolve e suporta o núcleo urbano da Z3, os padrões culturais também se abastacem desse meio, exibindo um elo simbólico entre

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homem e natureza, cultura e meio ambiente, que representam enorme interesse para este projeto. CLAVAL (1999) reproduz uma reflexão bastante coerente com o propósito da presente explanação, ao se referir à simbiose entre homem e natureza condicionada pelo labor cotidiano: “Os grupos que vivem perto da natureza e cuja vida depende no essencial da exploração de um suporte ecológico local são muito sensíveis aos traços que lhe são úteis. Os caçadores apreendem com um golpe de olhos os rastros dos animais, marcas, ervas amassadas. Um pequeno buraco num iceberg assinala ao jovem esquimó a presença de focas que vêm ali respirar. A vegetação não é um manto neutro; ali podem se localizar árvores de frutos, ninhos de abelhas e plantas úteis ou venenosas das quais é preciso desconfiar. A qualidade das terras, os declives, os microclimas da região fornecem indícios preciosos aos membros das sociedades camponesas.” (CLAVAL, 1999 p. 189-190)

Dessa forma, concluímos que os aspectos culturais presentes na localidade de projeto são bastante complexos de serem analisados do ponto de vista metodológico. No entanto, esse paradigma é um dos mais importantes para que o planejamento urbano proponha soluções compatíveis com a sustentabilidade sociocultural do local, fator que desejamos observar nas propostas de planejamento subsequentes.

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COGNIÇÃO AMBIENTAL No cenário da semântica da paisagem, a razão não nos permitiu deixar de valorizar também a função emocional que os espaços imprimem em seus usuários. A Topofilia (TUAN, 1980) é um neologismo à expressão do amor humano pelos lugares. As preferências ambientais das pessoas são fundamentadas em sua herança biológica, criação, educação, trabalho e arredores físicos. Na escala do grupo, as atitudes e preferências ambientais ficam atreladas à história cultural e à experiência dos indivíduos no contexto de seu ambiente físico. Essa concepção confirma as reflexões do título anterior, a partir das quais destacamos a superposição entre humano e natureza, assim como entre cultura e meio ambiente. Além disso, pode-se entender que a Topofilia é possibilitada por duas causas preponderantes que relacionam os agrupamentos humanos com os espaços: o contato físico e a apreciação estética. Nesse contexto, tanto o deleite sensual do contato físico quanto o prazer visual efêmero sobre os lugares se expandem para outra complexidade na compreensão dos padrões culturais da cidade: o conflito entre as concepções e os interesses de diferentes grupos de usuários do espaço urbano. De modo simplificado, podemos separar esses grupos entre os RESIDENTES e os VISITANTES. O princípio supracitado retoma a ideia do discurso funcionalista e da indissociabilidade entre utilidade e simbolismo. No caso específico da apreciação estética dos lugares, por exemplo, nota-se que esta vai além da aceitação de convenções sociais e, portanto, o residente

ambiente e cultura: uma proposta de planejamento urbano para assentamento costeiro


e o visitante possuem concepções bastante diferenciadas sobre os espaços. Por um lado, a visão do nativo sobre seu território é substancialmente utilitária, sobretudo quando esse território é o instrumento do seu modo de ganhar a vida, como é o caso do local de projeto definido. Quanto aos residentes da Colônia de Pescadores Z3, esse processo se confirma na observação das tradições do saber fazer manual local e nas interpretações do ambiente natural estimulados pela prática da pesca profissional artesanal. Por outro lado, o turista procura o reconhecimento do simbolismo dos lugares na sua essência e, no cenário exclusivo da Colônia Z3, o visitante busca a observação estética das paisagens natural, cultural e urbana, como uma fuga aos infortúnios da vida na cidade, decorrente da relação dicotômica entre o rural e o urbano. A visão do meio ambiente pelo visitante é essencialmente estética, porque é a visão de um estranho que julga pela aparência: um critério formal de beleza (TUAN, 1980). A larga e abrangente contribuição de Kant (17241804) sobre a teoria da estética reúne diversas condições que se aplicam ao contexto desta discussão. De maneira concisa, destacamos sua percepção do juízo de gosto, o qual surge independentemente de como os objetos estão subsumidos em um conceito e, assim, não é influenciado pelas suas funções, linguagens, contextos ou quaisquer outros critérios que não a sua forma por ela mesma. Essa concepção surge como um contraponto às ideias clássicas, a partir do tema do “desinteresse” para com o ato do juízo estético, promovendo um distanciamento da cognição do uso e do desejo sobre os segunda parte: aportes teóricos e metodológicos

objetos de contemplação. Ademais, Kant destaca que a sua concepção da apreciação estética é vinculada a uma universalidade subjetiva, sobre a qual o reconhecimento da beleza por parte do perceptor segue determinada erudição, uma atribuição intelectual, visando o reconhecimento da beleza enquanto estado não-cognitivo e desinteressado (GAGE, 2011). A partir da teoria da Topofilia, TUAN (1980) confirma o que foi colocado no período anterior ao apontar a consequência da combinação entre prazer estético com curiosidade científica, de modo que o despertar profundo para a beleza ambiental é usualmente sucedido por um insight repentino. Este despertar não possui relação com opiniões alheias e independe do caráter do meio ambiente e, portanto, as cenas simples e até pouco atrativas acabam por evidenciar fatores que antes passavam despercebidos, constituindo um novo entendimento da realidade que é experienciado como beleza. Já as implicações da Topofilia geradas pelo contato físico com o meio ambiente são atributos quase completamente do nativo. De modo geral, e também na vila de pescadores em questão, podemos observar sem esforços essa relação: “No mundo moderno, as comunidades pesqueiras, de modo geral, são pobres quando comparadas com comunidades agrícolas no interior; e se elas suportam esse modo de viver, não é tanto pela recompensa econômica, senão pelas satisfações obtidas deste estilo de vida ancestral e tradicional.” (TUAN, 1980 p. 132)

O contato físico do visitante para com os luga-

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res, sobretudo com o meio ambiente natural, é cada vez mais rarefeito e restringido a ocasiões especiais, sendo essa relação muito mais recreacional do que vocacional. Como efeito dessa problemática, a dicotomia entre urbano e rural é reforçada e o natural ganha potência turística, no sentido de que carece aos grupos de sociedades mais “avançadas” um envolvimento suave e inconsciente para com o seu mundo físico. A busca por essa maciez é, na verdade, um resgate de épocas passadas quando o ritmo da vida era mais lento, e do qual algumas crianças ainda desfrutam e os hippies e os ecoturistas procuram (TUAN, 1980). As reflexões estabelecidas neste título evocam algumas considerações subjetivas para o planejamento urbano, e portanto, sobrevoam mais o campo discursivo do que a objetividade metodológica propriamente dita. Concluindo, consideramos que as preferências ambientais dos indivíduos estão relacionadas à apreciação estética e ao contato físico com os meios, e assumimos a complexidade de que esses indivíduos se dividem em residentes e visitantes. Para fins da otimização das linhas do pensamento, optamos por nomear a completude dessa dinâmica de COGNIÇÃO AMBIENTAL. A cognição ambiental do residente é preponderantemente utilitária e mais voltada para o seu contato físico com o ambiente e seus modos de ganhar a vida. A do visitante é quase inteiramente visual e requer um juízo estético habilidoso, no sentido de ser dotado de uma capacidade – frente à velocidade da vida na contemporaneidade – de enxergar o belo no simples. Em termos práticos, confirma-se um anseio desse trabalho,

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pelo qual se entende que o planejamento urbano deve buscar soluções únicas para essa situação dualista, permitindo, no contexto da cognição ambiental, que haja o reconhecimento externo do local de projeto sem que este interrompa os modos locais de visualizar e manipular o meio.

ambiente e cultura: uma proposta de planejamento urbano para assentamento costeiro


modelo de abordagem do planejamento A discussão apresentada nas páginas anteriores traz, como conclusão, uma série de aspectos para os quais é atribuída relevância no estudo que precede o planejamento da Colônia de Pescadores Z3. A ilustração da página ao lado resume esses aspectos por meio de palavras-chave. O planejamento deverá ter olhares para o tangível e o intangível, e, consequentemente, para as funções pragmática, sintática e semântica do lugar. Dessas três últimas foram extraídas seis variáveis globais: Suporte Ambiental, Configuração Espacial, Contexto Socioeconômico, Ambiência Urbana, Paisagem Cultural e Cognição Ambiental, sendo que dessas seis são também traçadas as metodologias de análise e abordagem do planejamento, discutidas anteriormente e assinaladas na ilustração ao lado. Nas partes seguintes deste relatório (terceira, quarta, quinta e sexta) serão apresentados levantamentos e análises referentes à cada uma das variáveis. Mais adiante, percebemos que não seria possível separar as variáveis da Ambiência Urbana e da Paisagem Cultural, e, portanto, elas serão apresentadas em conjunto. Quanto a variável da Cognição Ambiental, esta é bastante subjetiva e será observada em alguns dos levantamentos e análises das outras cinco variáveis.

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ambiente e cultura: uma proposta de planejamento urbano para assentamento costeiro


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TERCEIRA parte suporte ambiental


Os processos de urbanização na Z3 ao longo dos anos, averiguados na observação do lugar, no estudo de mapas e na leitura de outros trabalhos, sugerem uma relação direta e conflituosa da localidade com o ambiente natural, porque, em partes da malha urbana, não há compatibilidade entre esta e a estrutura ambiental que a serve de suporte. Esse ambiente natural em constante degradação possui enorme relação com a atividade da pesca e com a ambiência, a estética e a identidade da paisagem urbana local. Dessa forma, vê-se necessário um maior reconhecimento desses aspectos naturais, tanto pela sua preservação e conservação, quanto pela sua influência direta na qualificação da ambiência urbana e do entorno da área de estudo. Nota-se que a inconciliabilidade entre paisagem natural e urbana é decorrente, entre outros fatores, da expansão territorial sem planejamento, que visou, quase isoladamente, as atividades socioeco-

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nômicas da vila. Os corpos lagunares do litoral do Rio Grande do Sul têm sua formação no final do período Terciário da escala de tempo geológica. Essa fase foi alegorizada pelos primeiros ciclos de transgressão e regressão dos mares em decorrência das glaciações. Segundo VILLVOCK & TOMAZELLI (2007), houve quatro ciclos deposicionais, os quais retrabalharam o depósito de sedimentos na plataforma continental formando barreiras arenosas junto à costa litorânea e isolando a área continental inundada. Essa dinâmica geomorfológica tornou a estruturar a atual linha de costa com predomínio de processos flúvio-lacustres (VILLVOCK & TOMAZELLI, 2007). No contexto específico do extremo sul do Rio Grande Sul, o litoral é composto por um segmento de planícies costeiras, estando a localidade da Colônia de Pescadores Z3 inserida na Unidade Geomorfológica da Planície Lagunar (IBGE, 1986).

ambiente e cultura: uma proposta de planejamento urbano para assentamento costeiro


estrutura ambiental da planície lagunar A costa interna da Laguna dos Patos é caracterizada por uma topografia plana sem elevações significativas e a sua margem compõe um litoral de curvas suaves. Paralelamente à costa se estende uma sucessão de diferentes ecossistemas interdependentes, que compõem o ambiente natural de suporte à urbanização estabelecido na Colônia de Pescadores Z3, identificados principalmente pela característica inundável das planícies. Esses ambientes naturais possuem aspectos específicos de dinâmica, função ambiental e capacidade de absorção de impactos, hostilizados pela ação antrópica que os modifica para possibilitar a urbanização. Em um de seus estudos sobre a cobertura e uso da terra na Colônia Z3, DELAMARE (2017) identifica, caracteriza e espacializa os ambientes naturais que compõem a paisagem natural da Z3 e seus processos de modificação e dinâmica ao longo tempo, comparando as situações encontradas em 1953 e 2010. Na mesma perspectiva, FARIA, NAOUMOVA & PALMA (2003) buscam também entender as particularidades desses ecossistemas, que em termos práticos e de maneira simplificada, são compostos por ambientes Praiais, de Banhados, Florestais e Campestres. Junto à orla estendem-se as Áreas Praiais, compostas por uma faixa de areia litorânea que demonstra um processo ameno de redução de largura, com erosões em alguns pontos e sedimentações em outros. Os terceira parte: suporte ambiental

dois estudos indicam a ocupação indevida dessas áreas como uma das causas para seu encolhimento.

Praia do Junquinho¹

Sucedendo as áreas Praiais, existem zonas inundáveis, as quais se estendem em faixa mais ou menos contínua entre a parcela de areia litorânea e dunas fixadas por vegetação. Essas superfícies de influência flúvio-lacustre, de acordo com seu processo de formação e consolidação, são periodicamente inundadas, e caracterizam-se, portanto, por Áreas de Banhado. A dinâmica dessas zonas é influenciada, do ponto de vista na-

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1 - A faixa praial a nordeste da vila é chamada pelos moradores de Praia do Junquinho. O nome é atribuído em função das espécies de junco que se encontram na área posterior à faixa. Na Z3, quando alguém diz “ vamos lá na praia” ou “tal pessoa está lá na praia”, é da Praia do Junquinho que se está falando. Por ser a região da faixa praial de maior largura, esse é o local geralmente utilizado para o banho.


tural, pela sazonalidade das chuvas e pela elevação do nível da lagoa. Ademais, do ponto de vista da atividade antrópica, o aterramento sistemático dessas áreas para viabilizar a expansão urbana tem provocado como consequência, alagamentos junto às edificações, sobretudo a sudoeste, onde o leito original do arroio foi desviado para um canal artificial no interior do banhado. Posteriormente, observam-se as Áreas Florestais que são caracterizadas por matas de restinga, vegetação típica do litoral que é fixada sobre paleocampos de dunas e, à sudoeste, se estende próxima da orla. Essas dunas são restritas em sua largura e possuem acentuado declive em direção à lagoa, sendo que a fixação

da vegetação sobre as dunas estabelece uma interdependência exímia entre esses dois ecossistemas de mútua manutenção. O estudo comparativo de cobertura e uso da terra citado anteriormente, indica dados absolutos de que houve uma expansão territorial do estrato arbóreo em 18% entre os anos de 1953 e 2010. Contudo, a remoção de árvores na área urbanizada tem acarretado na descontinuidade espacial da mata, a qual contribuiu para prejuízos no seu processo de expansão territorial e na manutenção da fauna associada. Por fim, as Áreas Campestres encontradas – que são comuns em regiões litorâneas – são compostas por pastagens naturais com gramíneas e leguminosas, não ultrapassando 60

Área de banhado com cobertura vegetal na região a sudoeste da vila e áreas florestais ao fundo.

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ambiente e cultura: uma proposta de planejamento urbano para assentamento costeiro


cm de altura. Esses campos litorâneos possuem elevada umidade, porém se distinguem dos banhados quanto à periodicidade das inundações. Por detrás da mata e bem próximos dos limites territoriais da Z3 a noroeste, os campos se estendem até a Serra do Sudeste, geralmente em níveis topográficos mais elevados e menor umidade. Essas áreas são preeminentemente utilizadas para culturas temporárias como o arroz e a soja e para criação de gado bovino. A área urbanizada é intermediada por dois canais fluviais: o Arroio Sujo, que passa muito próximo à áreas ocupadas por edificações a sudoeste e o Arroio Salgado, como é popularmente conhecido, um canal estreito que divide a área central da vila da Praia do Junquinho e se junta a outra ramificação do canal que desemboca na

Mata nativa junto à área urbanizada a oeste

Área campestre a noroeste¹

Desembocadura do Arroio Sujo na lagoa

terceira parte: suporte ambiental

1 - O campo que mostra a foto se estende na direnção noroeste, iniciando no limite territorial da Z3. É utilizado para a plantação de arroz. A imagem captada no mês de abril do ano de 2018 indica que, nessa época, a área não estava sendo utilizada para tal fim.

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lagoa mais a nordeste. O Arroio Sujo possui um histórico de associações a ações antrópicas, as quais operaram modificações em sua morfologia original que, originalmente era composta de meandros de considerável sinuosidade. O arroio foi transposto e retilinizado entre as décadas de oitenta e noventa para oportunizar a construção de edificações para habitação. De acordo com DELAMARE (2017), essa ação, conjuntamente com a abertura da Divinéia (atra-

cadouro-baía) e da ocupação indevida das áreas inundáveis, ocasionaram uma mudança drástica na morfodinâmica fluvio-lacustre desses ambientes. Em épocas de alta pluviosidade, o nível da Lagoa e dos canais sobem e invadem a área urbanizada nos níveis mais baixos. Por isso, as extremidades sudoeste e nordeste são as localidades mais críticas quanto à situação de alagamento que ocorrem com considerável periodicidade sobretudo no inverno.

O “Arroio Sujo”

O “Arroio Salgado”

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ambiente e cultura: uma proposta de planejamento urbano para assentamento costeiro


estrutura ambiental da planície lagunar ÁREA URBANIZADA

Com faixa de areia litorânea em processo de redução de largura e erosão progressiva, sendo esse processo agravado por ocupações indevidas.

ÁREAS DE BANHADO Em faixa contínua entre a areia e as dunas fixadas por vegetação. Seus contínuos aterramentos junto a malha urbana têm agravado alagamentos, sobretudo no banhado a sudoeste.

ÁREAS FLORESTAIS Vegetação típica de litoral, assentada sobre as dunas e se estendendo junto à orla ao sul. Tem sido removida na área urbanizada, interrompendo a sua continuidade espacial e com a manutenção da fauna associada e do ecossistema.

ÁREAS CAMPESTRES

reserv. artificial

Se estendem desde a região atrás da mata até a Serra do Sudeste, ocupadas por atividades como plantio de arroz e criação de gado.

O corpo d’água mostrado no mapa é o maior nas proximidades da vila e é utilizado para irrigação da plantação de arroz.

CANAIS FLUVIAIS Têm sido transpostos e retilinizados para possibilitar a urbanização, o que agrava as situações de alagamentos junto a área urbanizada.

61 | terceira parte: suporte ambiental

Comprimida pelos limites territoriais, ocupa áreas de proteção ambiental, modifica a dinâmica dessas áreas e sofre com alagamentos de considerável periodicidade

ÁREAS PRAIAIS

mapa de cobertura e uso do solo

0

200

600m


laguna dos patos

faixa de praia

banhado

dunas fixadas por vegetação

campos

corte representativo da estrutura ambiental da planĂ­cie lagunar | sem escala


flora e fauna Apesar das alterações desencadeadas pela dinâmica de uso da terra, as áreas de banhado ainda dispõem de exemplares da cobertura vegetal original como os juncos (Juncus effusus), e aguapés (Eichhornia crassipes) (DELAMARE, SIMON & SATO, 2015). Quanto à vegetação alta, esta é caracterizada por espécies originárias da Serra do Sudeste, notadamente da família das Leguminosae, Myrtaceae, Sapotaceae e Verbenaceae e por espécies protegidas por lei como a corticeira-do-banhado (Erythrina cristagalli L.), coronilha (Scutia buxifolia Reiss.), falsa coronilha (Siteroxylum obtusifolium Roem. & Schlt. Penn) e figueira (Ficus organensis (Miq.)) (FARIA, PALMA & NAOUMOVA, 2003).

terceira parte: suporte ambiental

Do corte esquemático apresentado na página anterior, gostaríamos de salientar a importantíssima relação entre o cordão de dunas e as matas de restinga. O estráto arbóreo tem a função ambiental específica de segurar o perfil acentuado estabelecido pelas dunas. No decorrer deste caderno apresentaremos um estudo da evolução urbana da vila, do qual concluímos, dentre outros fatores, que à medida que foi densificando a ocupação do solo por formas construídas (em decorrência da falta de áreas para expansão), as árvores foram sendo removidas sistematicamente ao longo dos anos. Essa circunstância tem resultado na progressiva erosão do cordão de dunas em diversos pontos, agravando os im-

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pactos na dinâmica fluvial do ambiente e na qualificação da infraestrutura natural da área urbanizada. Além disso, as áreas florestais são muito importantes para a manutenção da fauna que é associada à ela, sobretudo das aves silvestres. A descontinuidade dessas massas verdes no espaço provoca um enorme desequilíbrio ambiental, pois resulta na endogamia das espécies. Quando há a fragmentação de habitats e consequente isolamento das populações, aumenta a probabilidade de cruzamento entre indivíduos com alto grau de parentesco, ocasionando anomalias genéticas, perda de vigor e variância, e, na pior das hipóteses, corrobora para a extinção de espécies (CORREIA, 2017). Com relação ao ambiente natural encontrado na Colônia Z3 e sob um olhar contemplativo da paisagem, FIGUEIRA (2004) aponta algumas circunstâncias da fauna e da flora. Quanto aos animais presentes no am-

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biente em que se insere a Z3 são citadas as aves costeiras: garças, maçaricos, biguás, gaivotas, frangos d’água, viuvinhas e chimangos; as aves silvestres: perdizes, falcões, canários-da-terra e cardeais; os mamíferos: preás, gatos do mato, ratões do banhado, tatus e gambás; os répteis: jacarés-do-papoamarelo, cobras-corais e lagartos; os anfíbios: sapos, rãs e pererecas e os peixes: tainhas, bagres, traíras, corvinas, linguados, etc. O equilíbrio ambiental estabelecido entre os ecossistemas é uma preocupação deste trabalho, não somente do ponto de vista ecológico, mas também pela contribuição dos vegetais, das águas, matas, flores, etc., para a identidade do lugar e sua ambiência. Essa premissa vai de encontro à Lei nº 4336 de 18 de dezembro de 1998, a qual estabelece o valor ecológico e paisagístico à Mata do Totó. A seguir o levantamento das árvores existentes na área urbanizada.

ambiente e cultura: uma proposta de planejamento urbano para assentamento costeiro


vegetação existente

0

100

300m

65 | terceira parte: suporte ambiental

vegetação alta na ÁREA URBANIZADA (espécies nativAS E EXÓTICAS)


topografia A topografia do assentamento em estudo e suas imediações é bastante característica e se reflete nos diferentes ambientes da estrutura ambiental da planície costeira lagunar. Observa-se que na metade sul do assentamento se concentram os menores níveis, correspondentes à contínua faixa de banhados paralela à linha de costa. Além disso, é possível identificar com clareza a área sudoeste do assentamento com diversas construções dentro da zona delimitada pela cota de nível de 1 metro. Esta circunstância é agravada pela proximidade com o o banhado e o Arroio Sujo. O mesmo acontece na área nordeste, onde já existem construções ocupando a faixa de praia e se aproximando das áreas de banhado em cotas inferiores. Já na metade norte do assentamento, fica clara também a sucessão do acréscimo nos níveis topográficos em direção aos campos. Podemos inferir que essa faixa, que também é paralela à linha de costa, corresponde ao cordão de dunas fixadas por vegetação, inician-

66

do entre as curvas referentes à cota de 2 e 3 metros até a altura de 7 metros nas proximidades do limite territorial da Z3 a noroeste e até 9 metros na extremidade oste do mapa. O levantamento das curvas de nível obtida não contempla as áreas campestres à noroeste da vila. No entanto, considerando as características geomorfológicas da planície costeira, essas áreas tendem a se estender com pouquíssimas variações dos níveis topográficos. Nas páginas seguintes, são apresentados os manchamentos espacializados no mapa, referentes aos banhados, ao cordão de dunas fixadas por matas nativas e as áreas alagadiças abaixo da cota de 2 metros, com a ênfase para a região sudoeste, em função da ocupação das áreas de banhado e proximidade com o arroio. Além disso, é apresentada também a espacialização das áreas protegidas por lei: Áreas de Preservação Permanente e áreas de amortecimento.

ambiente e cultura: uma proposta de planejamento urbano para assentamento costeiro


7.0m 6.0m 5.0m

9.0m

4.0m

8.0m m .0 7

3.0m m

6.0

5.0m

2.0m

m

4.0

2.0m

3.0m

1.0m

2.0m

1.0m

2.0m 2.0m 1.0m

1.0m 0m 2.0m 2. 1.0m

curvas de nĂ­vel altimĂŠtricas

0

100

300m

67 | terceira parte: suporte ambiental

1.0m


áreas protegidas por lei

De acordo com os aspectos legislativos citados na parte anterior, foram traçadas as áreas protegidas por lei junto à área urbanizada e em seu entorno. No mapa desta página são aparesentadas as Áreas de Preservação Permanente e Áreas de Amortecimento para os arroios e para a laguna.

68 |ambiente e cultura: uma proposta de planejamento urbano para assentamento costeiro

zoneamento ambiental área de preservação permanente faixa marginal 100 metros da linha de costa área de amortecimento faixa marginal 250 metros da linha de costa área de preservação permanente - faixa marginal de 50 metros dos arroios área de amortecimento - faixa marginal de 100 metros dos arroios

0

100

300m

No mapa da página ao lado observam-se a Área Alagadiça Extrema, cujos níveis estão abaixo da cota de 2 metros e a área correspondente ao cordão de dunas fixadas. Ademais, observa-se a posição relativa de alguns banhados no interior de quadras, os quais, em decorrência de seu aterramento parcial, já não desenvolvem mais sua função ambiental de troca com a lagoa. A ideia é utilizar esses parâmetros como critério para a busca de diminuição nos impactos ambientais.


área alagadiça extrema abaixo da cota de 2 metros árvores junto À área urbanizada cordão de dunas

0

100

300m

69 | terceira parte: suporte ambiental

banhados no interior das quadras


áreas protegidas por lei

zoneamento ambiental banhados

70 |ambiente e cultura: uma proposta de planejamento urbano para assentamento costeiro

matas nativas matas plantadas reservatório d’água artificial canais fluviais estradas

Pressupondo a necessidade da previsão de uma expansão, são traçadas também as áreas protegidas por lei dos campos a noroeste para além do limite da Z3. No mapa desta página é apresentado um mosaico ambiental com alguns dos elementos naturais presentes na área de estudo. No mapa da página ao lado são traçadas as Áreas de Preservação Permanente e Áreas de Amortecimento. Observa-se que a faixa perpendicular à linha de costa e alinhada à área urbanizada da Z3 é a mais apropriada para a urbanizaçao.

0

300

900m


linha de costa canais fluviais contorno das matas área de preservação permanente - faixa marginal 100 metros da linha de costa área de preservação permanente - faixa marginal 100 metros da linha de costa

área de amortecimento faixa marginal de 100 metros dos arroios área de preservação permanente - faixa marginal de 100 metros do reservatório d’água artificial

0

300

900m

área de amortecimento - faixa marginal de 200 metros do reservatório d’água artificial

71 | terceira parte: suporte ambiental

área de preservação permanente - faixa marginal de 50 metros dos arroios


quarta parte configuração espacial


A caracterização da configuração espacial do local, conforme discutido na parte de aportes teoricos e metodológicos será realizada em três etapas: o estudo da evolução urbana, da estrutura de uso e ocupação do solo e da estrutura de transporte e circulação viária.

74

ambiente e cultura: uma proposta de planejamento urbano para assentamento costeiro


MORFOGENÉTICA

EVOLUÇÃO URBANA

1980 1

jeto Arquitetônico, da FAUrb/UFPel) e mapas de satélite de 2010 e 2018, além de uma ortofotografia de 2015 utilizada para a base de desenho dos mapas. Contudo, somente a partir da aerofotogrametria de 1980 é possível visualizar satisfatoriamente as edificações e as vias, dessa forma, a base temporal utilizada será: 1980, 1995, 2000, 2010 e 2018.

1995 2

2010 3

75 | quarta parte: configuração espacial

A análise da evolução urbana da Colônia de Pescadores Z3 foi possibilitada pelo desenho dos mapas da vila em diferentes estágios ao longo do tempo, de acordo com o material histórico ao qual tivemos acesso: imagens aéreas de 1953 e 1965, aerofotogrametrias de 1980 e 1995, levantamento in loco de 2000 (feita pelos alunos da disciplina de Planejamento Urbano e Pro-


1980

MORFOGENÉTICA

76 |ambiente e cultura: uma proposta de planejamento urbano para assentamento costeiro

EVOLUÇÃO URBANA O mapa da configuração das formas construídas existentes em 1980 demonstra que a maior parte das edificações ficava na parte mais alta, correspondente à faixa de dunas fixadas por vegetação, onde a construção era mais facilitada. Através dos mapas de 1953 e 1965 podemos apenas inferir que essa área seria o início do assentamento. Na área mais próxima à orla fica bastante claro o desenho dos banhados no centro das quadras que, nos anos subsequentes viriam a ser progressivamente aterrados para possibilitar a construção de casas. Além disso, observa-se também que, nessa época, a área próxima ao Arroio Sujo a sudoeste ainda não havia sido ocupada, assim como a extremidade da Praia do Junquinho a nordeste e a zona a noroeste junto ao limite territorial.

EDIFICAÇÕES EXISTENTES NO ANO DE 1980

VIAS EXISTENTES NO ANO DE 1980

0

100

300m


1995

MORFOGENÉTICA

EVOLUÇÃO URBANA

EDIFICAÇÕES EXISTENTES NO ANO DE 1995

VIAS EXISTENTES NO ANO DE 1995

0

100

300m

77 | quarta parte: configuração espacial

Considerando o “boom” na produção pesqueira dos anos 90, fica explicada a quantidade de construções na z3, que surgiram entre 1980 e 1995. Observa-se o início da ocupação do limite a noroeste e das imediações do Arroio Sujo a sudoeste. Além disso, é possível, também, observar o acréscimo de formas construídas em todas as áreas, sobretudo nas áreas de banhado próximas da orla.


2000

MORFOGENÉTICA

EVOLUÇÃO URBANA

78 |ambiente e cultura: uma proposta de planejamento urbano para assentamento costeiro

Entre 1995 e 2000, prosseguiram as dinâmicas observadas no intervalo temporal anterior.

EDIFICAÇÕES EXISTENTES NO ANO DE 2000

VIAS EXISTENTES NO ANO DE 2000

0

100

300m


2010

MORFOGENÉTICA

EVOLUÇÃO URBANA

EDIFICAÇÕES EXISTENTES NO ANO DE 2010

VIAS EXISTENTES NO ANO DE 2010

0

100

300m

79 | quarta parte: configuração espacial

Entre 2000 e 2010, prosseguiram as dinâmicas observadas no intervalo temporal anterior. Observa-se que no cenário de 2010, consolidou-se a ocupação junto ao Arroio Sujo a sudoeste e na faixa de areia da Praia do Junquinho a nordeste. Além disso, torna-se aparentemente massiva a densificação das quadras superiores.


MORFOGENÉTICA

80 |ambiente e cultura: uma proposta de planejamento urbano para assentamento costeiro

EVOLUÇÃO URBANA

2018

Entre 2010 e 2018, prosseguiram as dinâmicas observadas no intervalo temporal anterior. Enfatizamos as construções se estendendo cada vez mais a nordeste na faixa de areia da Praia do Junquinho.

EDIFICAÇÕES EXISTENTES NO ANO DE 2018

VIAS EXISTENTES NO ANO DE 2018

0

100

300m


1995

2000 2010

0 300 900m

81 | quarta parte: configuração espacial

1980


MORFOGENÉTICA

síntese edificações

82 |ambiente e cultura: uma proposta de planejamento urbano para assentamento costeiro

EVOLUÇÃO URBANA EDIFICAÇÕES EXISTENTES NO ANO DE 1980 EDIFICAÇÕES EXISTENTES NO ANO DE 1995 EDIFICAÇÕES EXISTENTES NO ANO DE 2000 EDIFICAÇÕES EXISTENTES NO ANO DE 2010 EDIFICAÇÕES EXISTENTES NO ANO DE 2000

0

100

300m


MORFOGENÉTICA

síntese vias

EVOLUÇÃO URBANA VIAS EXISTENTES NO ANO DE 1980 VIAS EXISTENTES NO ANO DE 1995 VIAS EXISTENTES NO ANO DE 2010 VIAS EXISTENTES NO ANO DE 2018

0

100

300m

83 | quarta parte: configuração espacial

Não houve alterações na estrutura viária entre 1995 e 2000.


84 |ambiente e cultura: uma proposta de planejamento urbano para assentamento costeiro

Os dois gráficos ao lado são conclusivos quanto aos padrões de crescimento averiguados no estudo da evolução urbana da Z3. O primeiro gráfico (A) traz as áreas construídas (em hectares) correspondentes às cinco bases temporais estudadas. Observa-se que o crescimento entre 1980 e 2000 possui padrão progressivo constante, sendo esse crescimento de 35%. Entre 2000 e 2010 percebe-se uma intensificação no padrão de crescimento, e a porcentagem de crescimento nesse período foi de 46%. Já quanto ao último intervalo de tempo analisado entendeu-se que houve uma diminuição drástica no padrão de crescimento, de modo que este foi de somente 7%. O crescimento observado na totalidade dos intervalos temporais analisados foi de 120%. Já o segundo gráfico (B) traz o comprimento total das vias em metros por intervalos de tempo em anos. Como não houve mudanças na estrutura viária entre os anos de 1995 e 2000, no gráfico não apareceu nenhuma variação nesse intervalo de tempo, contudo, nos outros intervalos observou-se padrão de crescimento bastante similar, sendo o crescimento total entre 1980 e 2018 de 28%. A comparação desses dois gráficos nos levou a concluir que o crescimento das áreas construídas têm sido muito maior que a expansão territorial da área efetivamente urbanizada como um todo, cujo padrão de crescimento pode ser inferido através do segundo gráfico. Esse fator é bastante lógico, afinal, a falta de áreas para expansão é um empecilho que a população tem tentado vencer por meio da densificação intraquadras, da construção de diversos domicílios em um único lote e da abertura de vias no interior das quadras para o acesso de unidades em fundos de lotes. Por isso, propomos também, a seguir, uma espacialização dos lotes conforme o número de edificações e um estudo da densidade de áreas construídas por áreas de quadras (página seguinte).

a) áreas construídas (em hectares) por intervalos de tempo (anos) ha 12,00 11,00 10,00 9,00 8,00 7,00 6,00 5,00 1980

1985

1990

1995

2000

2005

2010

2015 2018

ano

b) comprimento de vias (em metros) por intervalos de tempo (anos) m 8500 8000 7500 7000 6500 6000 5500 5000 1980

1985

1990

1995

2000

2005

2010

2015 2018

ano


LOTES COM 01 EDIFICAÇÃO

uso e ocupação do solo

LOTES COM 02 EDIFICAÇÕES

quantidade DE EDIFICAÇÕES POR LOTE

LOTES COM 03 EDIFICAÇÕES LOTES COM 04 EDIFICAÇÕES

0

100

300m

85 | quarta parte: configuração espacial

LOTES COM 05 EDIFICAÇÕES OU MAIS

O mapa indica a quantidade de edificações por lote. Os números mais impactantes foram relacionados à quantidade de lotes com 3 (15%) ou 4 (5%) edificações.


uso e ocupação do solo

2018

86 |ambiente e cultura: uma proposta de planejamento urbano para assentamento costeiro

densidade de áreas construídas por áreas de quadras

0 - 7,5 %

taxa ocupação média

42,09%

O estudo da densificação de áreas construídas por áreas de quadras e sua espacialização no mapa demonstra uma situação crítica: as áreas pouco densificadas e, portanto, passíveis de serem mais densificadas são, na maioria dos casos, áreas de banhado, onde essa densificação é bastante dificultada por aspectos naturais. Já as áreas mais superiores estão extremamente densificadas. Vale relembrar que a densificação massiva dessa área é indesejável, pois ela corresponde ao cordão de dunas fixadas por vegetação e a remoção de árvores representa grande impacto para o ecossistema.

7,5 - 15 % 15 - 22,5 % 22,5 - 30 % 30 - 37,5 % 37,5 - 45 % 45 - 52,5 % 52,5 - 60 % 60 - 67,5 %

0

100

300m


1995

taxa ocupação média

taxa ocupação média

20,65 %

27,17%

2000

2010

taxa ocupação média

taxa ocupação média

29,08%

40,07%

0

300

900m

87 | quarta parte: configuração espacial

1980


uso e ocupação do solo 01 pavimento

88 |ambiente e cultura: uma proposta de planejamento urbano para assentamento costeiro

ALTURAS DAS EDIFICAÇÕES

01 pavimento e meio (altura galpão) 02 pavimentos

A densificação das construções em pavimentos adicionais acontece mais preponderantemente na metade norte da vila onde o valor da terra aparenta ser maior. A maioria arrebatadora de edificações são térreas (96%), havendo ainda edificações térreas, porém com altura mais elevada (geralmente são os galpões relacionados à pesca). Com número já expressivo, aparecem diversas edificações em dois pavimentos, e somente três exemplares em três pavimentos.

03 pavimentos

0

100

300m


uso e ocupação do solo

residencial

uso específico do solo

comercial serviços industrial institucional

A dinâmica de uso do solo da Z3 possui caráter consideravelmente zoneado. Desconsiderando algumas exceções, a estrutura dos usos se organiza por meio de eixos, ou zonas. Logo na entrada da vila junto à via de acesso fica o eixo comercial da pesca, onde se concentra grande número de peixarias.

bares e restaurantes peixarias

0

100

300m

89 | quarta parte: configuração espacial

galpões, salgas e estaleiros


90 |ambiente e cultura: uma proposta de planejamento urbano para assentamento costeiro

Acesso à colônia onde se concentram as peixarias

Avenida Raphael Brusque (eixo institucional)

Próximo deste se estende, em direção ao interior do núcleo urbano, o eixo comercial local, aquele utilizado pelos moradores da vila em seu cotidiano. Essa zona se concentra principalmente nas imediações da Rua Ignácio Motta, onde se encontram principalmente lojas, mercados e pequenos bares. Perpendicular à esse, na Avenida Raphael Brusque, reúne-se o eixo institucional composto pela sede do projeto Comunidade em Rede, pela E.M.E.F. Raphael Brusque, pelo Sindicato de Pescadores, pelo Posto de Saúde e pelo Santuário de Nsa. Sra. Dos Navegantes, dentre outros. Próximo à orla e paralelamente à Divinéia fica uma zona de produção pesqueira e industrial, onde há o predomínio dessas atividades, com poucas edificações de cunho residencial integradas ao conjunto. Por último, notamos que tanto nos arredores da Divinéia quanto na área da extremidade nordeste da vila para além do Arroio Salgado, existem áreas compostas por edificações residenciais, porém bastante ligadas com a prática da pesca, fato este percebido nas visitas ao lugar, onde foi observado um número maior de embarcações e outros utensílios ligados à pesca junto às edificações e de pessoas desenvolvendo essa atividade. Fora desses eixos, ficam organizadas as zonas residenciais, mais concentradas na metade norte da vila, interrompidas espacialmente pelo eixo institucional. Observa-se que nessas áreas existem, também, edificações de cunho comercial em menor número.


uso e ocupação do solo

zoneamento de usos do solo Zona preponderante Residencial Eixo Institucional Eixo de Comércio local Eixo de Comércio de externo Eixo preponderante de Produção Pesqueira e Industrial, uso Residencial em menor expressão

0

100

300m

91 | quarta parte: configuração espacial

Eixo preponderante Residencial, uso de Produção Pesqueira em menor expressão


uso e ocupação do solo

alargamento posto de saúde

ÁREAS LIVRES

imediações da igreja

áreas livres abertas

campo de futebol

92 |ambiente e cultura: uma proposta de planejamento urbano para assentamento costeiro

áreas livres de acesso restrito O sistema de áreas livres da colônia pode ser separado em três categorias: as áreas livres abertas, as áreas livres de acesso restrito e as áreas livres junto às margens dos arroios. Dentre as áreas livres abertas, podemos destacar o campo de futebol, o largo que comporta equipamentos de recreação infantil, as imediações do antigo Centro Comunitário (atual sede “Comunidade em Rede”), os arredores e a escadaria da igreja, o alargamento da via junto ao posto

áreas livres ÀS MARGENS DOS ARROIOS

imediações do “comunidade em rede” largo com recreação infantil

0

praia do junquinho 100

300m


93 | quarta parte: configuração espacial

Campo de futebol a noroeste da área urbanizada junto ao limite territorial

Alargamento com equipamentos de recreação infantil, mobiliário urbano e parada de ônibus


94 |ambiente e cultura: uma proposta de planejamento urbano para assentamento costeiro

de saúde, algumas áreas de praia ,principalmente na Praia do Junquinho onde a faixa de areia é mais larga e o entorno da Divinéia, onde, embora o acesso físico seja possibilitado, há falta de indicações, o que torna o espaço sem utilização. Em contraponto, a ocupação dos espaços sem o devido planejamento ocasionou a restrição do acesso às áreas de grande interesse paisagístico, sobretudo em parcelas de orla no eixo de comércio pesqueiro externo a sudoeste, e em partes da Divinéia, onde as edificações ficam muito próximas da área do acoradouro. Além disso, destacamos também as áreas livres ao longo das margens dos arroios adjacentes à malha urbana, onde se concentra a maior parte das espécies de vegetação nativa, sobretudo a sudoeste junto ao Arroio Sujo.

Permeabilidade visual e física à orla a nordeste da Divinéia

Ortofoto da área das peixarias onde há restrição no acesso à orla em diversos pontos

Oportunidade de apropriação nas faixas de praia.


O “Arroio Sujo”

uso e ocupação do solo

Restrição física no acesso à orla a sudoeste da Divinéia

área total do núcleo urbanizado

47,39 ha

100%

áreas de vias

9,67 ha

20,40%

áreas intraquadras construídas

11,30 ha

23,84%

áreas intraquadras não construídas

18,90 ha

39,88%

áreas livres abertas

5,57 ha

11,76%

áreas livres de acesso restrito

1,95 ha

4,12%

95 | quarta parte: configuração espacial

quadro síntese de áreas


transporte e circulação viária

linha centro-bairro

96 |ambiente e cultura: uma proposta de planejamento urbano para assentamento costeiro

linhas de ônibus

paradas da linha centro-bairro

O transporte público por ônibus entre a Z3 e o centro de Pelotas é muito importante para os moradores. A frequência de sua passagem é de 1 em 1 hora nos principais horários, e não passam ônibus durante a noite. As situações periódicas de alagamento danificam a infraestrutura da estrada de acesso pela orla e da ponte sobre o Arroio Sujo, o que, muitas vezes, impede o acesso dos ônibus e induz as empresas de transporte a destinarem veículos em más condições, ficando a população prejudicada.

linha bairro-centro paradas da linha bairro-centro terminal das linhas

0

100

300m


TRÁFEGO DE CARGAS

estabelecimentos de atratividade externa

CONEXÃO COM A vila galatéia E CoM A BR-116

trajeto de veículos de carga

Os estabelecimentos de atratividade externa na Z3 (peixarias e salgas) estabelecam as vias que são utilizadas por veículos de carga. O fluxo acontece entre esses e os dois acessos: a estrada pela orla que conecta a vila ao centro de Pelotas e a estrada que conecta a vila à BR-116, passando pelas terras de empresas rurais. Segundo o relato de alguns pescadores, a carga má-

O CONEXÃO COM TAS LO CENTRO DE PE

0

100

300m

xima permitida para a utilização da estrada da orla é de 15 toneladas (em função da precariedade de sua infraestrutura agravada pelos alagamentos), sendo que essa regra não é sempre cumprida. Ademais, o caminho entre a BR-116 e o centro de Pelotas pela Z3 serve como um desvio para evitar o pagamento de pedágio, o que aumenta o o aporte de uso indevido de veículos de carga e o impacto ecológico na estrada pela orla.

97 | quarta parte: configuração espacial

transporte e circulação viária


quinta parte contexto socioeconĂ´mico


A análise da situação socioeconômica da Colônia de Pescadores Z3 iniciou a partir da consulta aos dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). O acesso aos dados de diferentes tempos foi bastante dificultado pelo fato de tratar-se de uma área rural, geralmente menos contemplada nos estudos da demografia dos municípios. Não obtivemos acesso à todos os dados desejados, ficando a análise completa dessa variável comprometida no presente momento, e portanto, seguiremos buscando esses dados para a próxima etapa. Não obstante, tivemos a possibilidade de acesso à alguns dados encontrados em outros trabalhos acadêmicos os quais já haviam trabalhado os dados brutos de alguma forma: DELAMARE (2015), FIGUEIRA (2009) e (SILVA & DA CRUZ, 2008).

população No caso do censo de 2010, foi obtida uma boa base de dados por setores censitários (a vila é dividida em três setores), o que permitiu uma observação mais direcionada ao caso da vila em específico. O referido censo apresenta os dados e os compara com os do município e com os do distrito, por isso, vale lembrar que o local de projeto, a Colônia de Pescadores Z3, é a vila-sede do 2º distrito rural de Pelotas, chamado de Colônia Z-3, sendo a vila-sede o maior e mais populoso núcleo habitacional do distrito. O censo de 2010 apresenta a POPULAÇÃO TOTAL DO DISTRITO como sendo 3166

100

ambiente e cultura: uma proposta de planejamento urbano para assentamento costeiro


pessoas, enquanto que o somatório dos valores apresentados para os três setores censitários da vila-sede somam uma POPULAÇÃO TOTAL DA VILA-SEDE de 2199 pessoas. Portanto, em 2010 a população da vila-sede representava 70% da população total do distrito. Dados populacionais dos anos anteriores foram encontrados somente para a totalidade do distrito: 3221 pessoas em 2000 e 3105 pessoas em 1991. Estes dados revelam uma situação bastante cursiosa, em que se observou um crescimento populacional sutil de 3% entre os dois primeiros anos, e um decrescimento ainda mais sutil de 1,7% entre 2000 e 2010, revelando a tendência de estagnação quanto à população. Portanto, considerando o crescimento em termos de área e densidade das formas construídas por área de quadra (análise realizada na parte anterior), não nos parece coerente buscar previsões populacionais de futuro através do uso dos dados populacionais do distrito como um todo, muito embora a vila-sede seja o mais populoso núcleo habitacional do distrito. Os dados do censo do IBGE de 2010 por setores censitários ofereceram, também, alguns parâmetros passíveis de comparação com o levantamento atual realizado (2018). Em 2010 o NÚMERO DE DOMICÍLIOS era de 1140 enquanto que o levantamento da situação atual (feito a partir das feições geográficas dos mapas e fotos aéreas do local) admitiu 763 LOTES definidos e 1631 EDIFICAÇÕES construídas. A relação de pessoas por domicílio do censo de 2010 é de 2,78 e a relação de edificações por lote é de 2,14 no levantamento de 2018.

quinta parte: contexto socioeconômico

renda Na caracterização socioeconômica da Colônia de São Pedro é de exímia importância destacar o papel da atividade pesqueira, afinal, a pesca permeia toda a dinâmica da economia local. A categoria de pescador profissional artesanal corresponde àqueles pescadores que seguem as tradições passadas de geração em geração, e que resumem técnicas e instrumentos artesanais, os diferenciando da pesca predatória que utiliza tecnologias para a captura em massa. O termo “profissional” é atribuído ao fato de que, a partir do ano de 1967 com a criação do Código de Pesca, os pescadores artesanais passaram a ser cadastrados à Marinha do Brasil e à Capitania dos Portos por meio dos Sindicatos de Pescadores. Dentre outros regramentos, o Código estabeleceu maiores restrições ao período de defeso, e garantiu o pagamento do seguro-defeso para os pescadores artesanais, cujo valor atual é de um salário mínimo. Esse é um fator que contribui para a baixa renda da população da vila, em conjunto com a notória crise da pesca, situação ambiental da última década que vem prejudicando a estrutura de trabalho do pescador artesanal. Ademais, o benefício só é garantido quando o pescador não desempenha outros tipos de atividades profissionais no período. SILVA & DA CRUZ (2008) destacam que em 2000, dos 3.221 habitantes do distrito, 1.031 eram pescadores com carteira de trabalho, ou seja, 32% da população do distrito, havendo ainda 400 trabalhadores informais.

101


1 - “Parelha” é como os pescadores chamam a sociedade que compõe uma microempresa de trabalho. 2 - “Proeiro” é designado o pescador que não detém os meios de produção (embarcação, redes, motor, etc) e que, nestas condições, acaba por trabalhar em sistema de parceria, sociedade, ou mesmo empregado; para o que também varia sua forma de remuneração: por cotas da mercadoria ou assalariamento. (DOS ANJOS et. al, 2004)

Nesse período, 28,7% eram menores de 18 anos (924 pessoas), e destes, 61,3% crianças menores de 12 anos (566 crianças). A renda mensal familiar média girava em torno de R$ 257,98, sendo que, em termos de comparação, o salário mínimo da época era de R$ 151,00.

sociedade e trabalho A organização do trabalho da pesca artesanal de um modo geral, e , certamente, no caso específico do local de projeto, é bastante particular. Contudo, a razão nos conduz ao entendimento da sua relação com o fenômeno da agricultura familiar, porque nos dois casos a família é o elemento central que unifica e orienta os processos produtivos e os mecanismos de reprodução social. A atividade pesqueira é estruturada em um universo social e simbólico fortemente masculinizado, sendo as atividades desenvolvidas pelas esposas e filhas consideradas secundárias ou complementares. Além disso, pode-se entender que existem três arranjos organizativos do trabalho da pesca artesanal: o primeiro é aquele desenvolvido no cerne da unidade familiar em que os componentes da família compõem toda a cadeia de trabalho; o segundo corresponde aos sistemas de parceria e sociedade, no qual a parelha¹ é estabelecida sobretudo por meio de laços de amizade e parentescos de segundo grau; e o terceiro compreende as unidades formadas por um patrão, o qual tem posse das embarcações e instrumentos de trabalho e seus proeiros², sendo que não

102

há vínculo empregatício e a divisão dos lucros fica de acordo com os gastos correspondentes (DOS ANJOS et. al, 2004). Em detrimento dessa lógica de produção e das problemáticas de renda destacadas, diversas situações sociais surgem no seguimento dos anos. FIGUEIRA (2009) destaca algumas dessas problemáticas: “...os mais jovens, estimulados pelos próprios pais, acabam se desinteressando pelas práticas culturais e tradições locais, migrando para outras regiões em busca de oportunidades de emprego e renda. As pessoas que permanecem, sobretudo, casais de meia idade, desenvolvem estados de depressão e baixa-estima. Os homens encontram no alcoolismo e nas drogas uma válvula de escape diante das agruras da pesca, aumentam índices de suicídio, violência doméstica, roubos, assaltos, entre outros problemas sociais que resultam da crise gerada pela pesca que afeta toda a cadeia produtiva da Colônia de Pescadores Z3. Neste momento, muitos acabam apelando para a religiosidade ou para a migração temporária para outros campos de trabalho, na tentativa de minimizar as suas dificuldades. Surgem, assim, no local, templos religiosos e uma série de projetos de cunho visivelmente assistencialistas.” (FIGUEIRA, 2009, p. 22)

A questão da divisão sexual do trabalho é muito presente na Z3 e isso foi observado em todas as visitas ao local. A conversa com alguns moradores e moradoras confirmou os aspectos citados anteriormente, principalmente com relação ao desenvolvimento de situações de depressão, que tendem a recorrer com as mulheres, e a dependência química que tende a acometer mais aos homens. O tráfico de drogas também inicia uma série

ambiente e cultura: uma proposta de planejamento urbano para assentamento costeiro


7,5%

6,0%

4,5%

3,0%

HOMENS (PERCENTUAL DA POPULAÇÃO)

51,7%

1,5%

FAIXAS ETÁRIAS (EM ANOS)

90 A 94 ANOS 85 A 89 ANOS 80 A 84 ANOS 75 A 79 ANOS 70 A 74 ANOS 65 A 69 ANOS 60 A 64 ANOS 55 A 59 ANOS 50 A 54 ANOS 45 A 49 ANOS 40 A 44 ANOS 35 A 39 ANOS 30 A 34 ANOS 25 A 29 ANOS 20 A 24 ANOS 15 A 19 ANOS 10 A 14 ANOS 5 A 9 ANOS 0 A 4 ANOS

1,5%

3,0%

4,5%

6,0%

MULHERES (PERCENTUAL DA POPULAÇÃO)

48,3%

7,5%

103 | quinta parte: contexto socioeconômico

razão de sexo e pirâmide etária em 2010 (CENSO IBGE)

de eventos de violência no local, com a existência de “pontos de droga” em diversos locais. A razão de sexo do Censo Demográfico de 2010 para o distrito indica que não há grandes desequilíibrios quanto a esta relação. Já a pirâmide etária aponta que no ano correspondente, a população de mulheres na faixa etária entre 10 e 19 anos era a mais expressiva e a de homens entre 10 e 24 anos, evidenciando a preponderância de adolescentes e jovens adultos. Como resposta à estas problemáticas socioeconômicas da vila já existem diversos estudos e projetos realizados e em andamento. DOS ANJOS et al. (2014) sugerem o paradigma da pluriatividade na sociedade da Z3, argumentando que a oportunização de alternativas econômicas fora da pesca sejam consideradas. FIGUEIRA (2009) indica o potencial turístico do local e as oportunidades econômicas que podem ser colhidas desse potencial, tema que será melhor discutido adiante. Nessa mesma perspectiva, o projeto “Ecomuseu da Colônia Z3” propõe a criação de um museu vivo do espaço, onde são valorizadas a cultura e o ambiente natural local, reforçando o caráter turístico do local.


zoneamento conforme o investimento

104 |ambiente e cultura: uma proposta de planejamento urbano para assentamento costeiro

AB ABC

No mapa ao lado, destacamos a separação da nucleação urbana em diferentes zonas de acordo com o investimento empregado às edificações. O levantamento foi realizado por meio de observação no local e espera-se que, a partir dele, se possa inferir quais áreas são mais valorizadas e em quais há maior concentração de residentes de menor renda.

B BC BCD CD

0

100

300m


105 | quinta parte: contexto socioeconômico

Posteriormente à observação in loco, foram estipuladas quatro categorias de investimento: A, B, C e D, de conformidade com o acabamento das construções e os materiais de construção utilizados. Foram, então, definidas as manchas que compreendem áreas com edificações correspondentes às diferentes categorias de investimento, como mostra o mapa. Observa-se que a precariedade das edificações se concentra na metade sul do assentamento, o que nos parece bastante lógico já que esta é uma área de conflito com o suporte ambiental. Na extremidade sudoeste, observa-se uma zona preponderantemente residencial, e de precariedade extrema, fato que converge para a conclusão de que na área de maior risco, do ponto de vista ambiental, vivem as famílias nas piores situações de vulnerabilidade social. Já na metade norte, onde há maior conciliabilidade entre a urbanização e o suporte ambiental, é aparente a maior concentração de edificações com maior investimento, sobretudo na parte central próxima à Divinéia e a oeste.


sexta parte ambiĂŞncia urbana e paisagem cultural


A caracterização dos cenários presentes na Colônia de Pescadores Z3 não permite que as variáveis Ambiência Urbana e Paisagem Cultural sejam dissociadas, uma vez que os seus elementos visuais correspondentes concorrem para a definição da imagem do lugar. A paisagem cultural faz parte da ambiência urbana. Além disso, a variável da cognição ambiental entra nesta parte também, pois é a disposição e configuração dos elementos visuais no espaço que definem os padrões da percepção. Por isso, destacamos a seguir algumas definições e análises relacionadas à essas duas variáveis e suas implicações para a cognição ambiental, para as quais atribuímos bastante relevância no âmbito deste trabalho.

108

ambiente e cultura: uma proposta de planejamento urbano para assentamento costeiro


ambiência urbana

PADRÕES DE VISIBILIDADE INTERNoS O traçado das vias presente no ambiente urbano da Z3, apesar de tudo, possui certo ordenamento, sobretudo na área central superior correspondente às quadras do início do assentamento. Nessa parte, observa-se um traçado reticulado mais ou menos ordenado, compondo quadras retangulares com lados entre 70 e 100 metros. Nas demais áreas fica dificultada uma classificação adequada do traçado. Na metade sul percebe-se claramente que as formas desenhadas pelas vias são resultantes da problemática das áreas alagadiças. Tanto na área na qual se identifica maior ordenamento quanto no restante das vias, percebe-se certa sinuosidade, que vista de cima aparenta pouquíssima acentuação. Contudo, na visão do observador, essas curvas brandas definem PANORÂMICAS VISUAIS FECHADAS, ou seja, o fundo da perspectiva das ruas é, quase sempre, delimitada pelo segmento das edificações que barram a visualização do horizonte, fato que corrobora para um caráter de direcionamento visual à esses espaços. O encontro das vias em diferentes angulações desempenham o mesmo papel. Ademais, essas circunstâncias também imprimem ao ambiente um leque de sensações subjetivas possíveis, como a familiaridade e a privacidade, além de contribuir para a natureza pitoresca e bucólica do lugar, fator muito particular na dinâmica da cognição ambiental específica da Z3. sexta parte: ambiência urbana e paisagem cultural

109


110 |ambiente e cultura: uma proposta de planejamento urbano para assentamento costeiro

Essas características vão de encontro às concepções de GEHL (2013), as quais argumentam que ruas sinuosas compostas por curvas não muito fechadas são interessantes. Nesses casos, os comprimentos máximos das visadas determinam observações de média distância, adaptando o espaço à escala humana e imprimindo-o a sensação de segurança. Além disso, o sistema viário da Z3 é bastante variado quanto às larguras das vias. Nos casos extremos, existem duas vias com mais de 20 metros de largura e com a presença de canteiro central com grama e árvores, e pequenas passagens, cujas larguras permitem somente o acesso de pedestres ou bicicletas. O estudo da trajetória de evolução urbana nos permite inferir que essas passagens teriam se formado para permitir o acesso às unidades em fundos de lote. De modo geral, até mesmo as ruas mais retilíneas possuem muitas variações de largura (observar o mapa ao lado), o que contribui para as sensações progressivas de alargamento e encurtamento dos espaços. Esse fator, em conjunto com a sinuosidade de algumas extensões das vias, colabora para a peculiaridade dos padrões de visibilidade internas do local. Vale ressaltar também, a materialidade da pavimentação das ruas. O saibro, por sua textura e coloração, remete à identidade de um lugar de praia, pressupondo o compartilhamento total de veículos, bicicletas e pedestres; existem pouquíssimos casos em que os moradores construíram calçadas na frente de suas casas.

ruas com curvaturas, visuais fechadas e encontros em ângulos agudos


ambiência urbana

larguras das ruas 1,40 À 4,00 METROS 4,00 À 5,50 METROS 5,50 À 7,50 METROS 7,50 À 10,00 METROS

ACIMA DE 14,00 METROS

0

100

300m

111 | sexta parte: ambiência urbana e paisagem cultural

10,00 À 14,00 METROS


becos, pequenas passagens

112 |ambiente e cultura: uma proposta de planejamento urbano para assentamento costeiro


113 | sexta parte: ambiĂŞncia urbana e paisagem cultural pequenas passagens, vias em larguras diferentes e avenida com canteiro central


ambiência urbana

padrões de visibilidade externos Em contraponto aos tipos de visuais internas ao ambiente efetivamente urbanizado, onde a percepção compreende pequenas proporções, os ambientes externos se caracterizam por sua amplitude. A nucleação urbana é envolta pelos diferentes ambientes naturais: a lagoa, os banhados e matas à nordeste e sudoeste, e os campos a noroeste, que estabelecem uma contradição visual entre o interno e o externo. Essa contradição nos parece muito interessante porque, em sua essência, ela pressupõe os limites entre o humanizado e o natural, a escala humana e a escala da natureza “selvagem”. Por isso, buscamos descrever alguns aspectos desses ambientes externos, que compreendem os quatro quadrantes envoltórios do núcleo urbano.

A estrutura paisagística da panorâmica visual externa da orla é bastante rica, considerando seus múltiplos elementos componentes. A fita de edificações preponderantemente térreas e próximas à orla, na maioria das vezes intercaladas, estabelecem a permeabilidade visual discreta entre o ambiente urbano e a lagoa, qualificando a cognição ambiental e locacional dos usuários. Somadas à estas aparecem as árvores e arbustos, os trapiches em madeira, os ancoradouros, os barcos, as redes e outros artefatos relacionados à pesca. A sucessão do acréscimo nos níveis topográficos em direção ao continente por vezes permite a visualização de outros elementos em segundo plano, ou em planos subsequentes


como as outras edificações, o posteamento público e as massas verdes de vegetação. Essa relação entre os ambientes interno e externo junto à orla é de grande interesse do presente trabalho. O planejamento dessa paisagem é fundamental para que não se percam, no decorrer dos anos, os tipos de visuais existentes e as possibilidades cognitivas oferecidas pelo ambiente, dos quais podemos destacar a visualização do pescador e dos moradores para a lagoa, permitindo sua percepção dos aspectos naturias que lhes são familiares e que indicam as situações climáticas que concernem a atividade pesqueira artesanal: condições de luminosidade e nebulosidade, coloração da água da lagoa e do céu, leituras do comportamento dos ventos a partir do movimento das ondas, etc. Quanto ao visitante, este consegue autolocalizar-se no espaço por meio da visibilidade oferecida nas imediações da orla, onde os espaços entre as edificações indicam a proximidade

com a lagoa. Além disso, a visão externa ao assentamento permite a observação da panorâmica visual da orla, que é dotada de enorme qualidade paisagística e potencial turístico. Nesse contexto, enfatizamos a extremidade nordeste do assentamento a partir da qual - em decorrência da conformação de enseada e consequente convexidade do espaço formado pela linha de costa - são obtidas as mais deslumbrantes visuais dessa paisagem. Já a amplitude das visuais estabelecidas pelos banhados e matas nativas a nordeste e sudoeste possuem atributos intermediários entre as ruas internas e o ambiente externo da orla. As visadas possuem comprimentos medianos, porque ficam, de certa forma, limitadas pelas massas verdes, as quais barram a visualização do horizonte. As maiores amplitudes são retomadas no ambiente posterior ao núcleo urbanizado, nos vastos campos para além do limite territorial da Z3.

panorâmica visual da orla | elevação sudeste em perspectiva | sem escala


116 |ambiente e cultura: uma proposta de planejamento urbano para assentamento costeiro padrþes de visibilidade externos | elementos da estrutura morfológica da panorâmica da orla


117 | sexta parte: ambiĂŞncia urbana e paisagem cultural padrĂľes de visibilidade externos | visuais da orla e das ĂĄreas de banhado e de matas nativas a sudoeste e a nordeste respectivamente.


Com o intuito de buscar uma compreensão criteriosa das variações nos padrões de visibilidade internas e externas, aplicamos análises da relações de isovistas em grafos de visibilidade, conforme discutido na segunda parte (aportes teóricos e metodológicos), a partir do software DepthMapX, do grupo Space Syntax. Para analisar as relações das isovistas do ambiente interno da Z3 foram consideradas como áreas passíveis da análise somente as ruas. Portanto, foram excluídas as áreas mais abertas que poderiam deturpar os resultados do gráfico final, como é o exemplo da área livre do campo de futebol à noroeste, da área de enseada da Divinéia, dos interiores das quadras e dos perímetros das edificações. A análise do gráfico indica que os comprimentos de visadas internos ao assentamento são preponderantemente curtos, o que pode ser observado pela quantidade de segmentos de vias representados por cores frias do ciano ao azul. Poderíamos assumir as visuais mais fechadas nos segmentos representados pelo matiz azul

118

escuro , que correspondem às ruas mais locais ou mais periféricas. Já os segmentos de maior visibilidade se concentram no eixo institucional e no eixo das peixarias, sobretudo nos pontos de interseção das vias. Observa-se o aparecimento das classificações de alta visibilidade, representadas pelo laranja e vermelho, nas interseções do eixo institucional com o eixo do comércio local, e do eixo institucional com a rua da igreja. A hierarquização desses pontos e segmentos na estrutura da percepção visual dos espaços nos permite concluir dois fatores. O primeiro é que essa hierarquização favorece a tendência da concentração de atividades de cunho coletivo nesses locais e o segundo é que ela também colabora para uma qualidade cognitiva desses espaços coletivos. O intuito da utilização dessas análises é a de considerar esse critério relacionado aos padrões de visibilidade internos no planejamento da ambiência urbana e da cognição ambiental existentes e da expansão urbana a ser proposta.

ambiente e cultura: uma proposta de planejamento urbano para assentamento costeiro


grafo de visibilidade

barreiras visuais | quadras

análise de isovistas internas

barreiras visuais | edificações

menor visibilidade

0

100

300m

119 | sexta parte: ambiência urbana e paisagem cultural

maior visibilidade


O grafo de visibilidade, gerado para a análise das isovistas externas, foi realizado, tomando como o limite da área total de análise, um polígono de arestas paralelas a um outro polígono que corresponde a área total urbanizada, sendo a distância entre os dois de 300 metros (um “buffer” de 300 metros). Ademais, foram considerados também os espaços internos ao assentamento, pois, nesse caso, a inclusão desses ambientes no gráfico não deturpou a leitura esperada. Além da volumetria das quadras e edificações, também foram incluídas as massas verdes de vegetação como barreiras visuais. Observa-se a dinâmica contraditória entre ambiente interno e externo, a qual foi citada anteriormente. Os ambientes internos, de visadas extremamente curtas, assinaladas agora quase totalmente pelo matiz azul escuro, se contrapõem aos tipos de visuais de grande amplitude dos ambientes externos. Estes últimos se diferenciam em conformidade com as características do ambiente natural correspondente e revelam as propriedades de visualização desses ambientes: grandes amplitudes de visadas na lagoa (classificações de amarelo, laranja e vermelho), médias para grandes nos campos à noroeste (ciano e verde), médias nas áreas correspondentes aos banhados onde não há a presença de vegetação alta (azul claro e ciano) e pequenas na faixa do cordão de dunas onde as massas

120

verdes têm o papel de fechar as visuais (azul escuro). Com relação ao ambiente da lagoa, onde são averiguadas as visuais mais amplas, a análise do gráfico confirma o que havia sido observado com relação à extremidade nordeste da orla, onde a mancha vermelha (que corresponde às máximas visibilidades) alcança a faixa de praia. Observa-se que a mancha da extremidade sudoeste não alcança a faixa de praia, ou seja, a máxima amplitude de visada só pode ser obtida pelo observador localizado dentro da lagoa. Além disso, vale ressaltar uma característica bastante particular da relação entre os ambientes interno e externo. Essa relação acontece de forma bastante discreta, pois não existem grandes “rasgos” na panorâmica visual da orla, sendo a permeabilidade visual estabelecida por pequenos espaços entre as edificações, o que contribui para a manutenção da diferenciação entre os tipos de visuais internos e externos (curtos e amplos, respectivamente). O objetivo da aplicação dessa análise é atribuir critério ao planejamento das relações de visibilidade das ambiências internas e externas ao assentamento, às estratégias de melhoramento dos atributos cognitivos dos espaços e à alocação de diferentes atividades relacionadas à visualização dos ambientes (observação, contemplação, leitura dos fatores climáticos, etc.)

ambiente e cultura: uma proposta de planejamento urbano para assentamento costeiro


grafo de visibilidade

barreiras visuais | quadras

análise de isovistas externas

barreiras visuais | edificações barreiras visuais | árvores

menor visibilidade

0

100

300m

121 | sexta parte: ambiência urbana e paisagem cultural

maior visibilidade


ANÁLISE TIPOMORFOLÓGICA

122 |ambiente e cultura: uma proposta de planejamento urbano para assentamento costeiro

TIPOMORFOLOGIA DAS QUADRAS

indicam critérios de aplicação de medidas de planejamento, sobretudo no local de estudo, onde a configuração das quadras tem relação com as áreas mais ou menos apropriadas para a urbanização.

A análise tipomorfológica será aplicada às unidades espaciais da quadra e do edifício, com o intuito de verificar padrões de regularidade tipomorfológicos que venham a subsidiar as estratégias de planejamento urbano. Como citado anteriormente, os quarteirões são entidades volumétricas desenhadas no solo pelas formas edificadas. A análise da tipomorfologia das quadras revela, através de suas formas, padrões de regularidade tipomorfológicas que

0

100

300m


A maioria das quadras possui proporção quadrática, ou retangular, o que permite a ocupação das edificações de forma periférica. A densidade de áreas construídas nessas quadras é bastante alta e, portanto, seus desenhos são bem delineados. São as quadras que acreditamos que correspondem ao início do assentamento e que estão na áreas mais apropriadas para a urbanização.

QUADRAs DE ORGANIZAÇÃO periférica E VOLUMETRIA DISPERSA Estas quadras possuem os mesmos atributos da descrita acima, porém sua volumetria é dispersa, ou seja, o desenho da quadra não é bem delineado. Esse fator está atrelado Às características do suporte ambiental, que nessa área correspondem aos banhados. A taxa de ocupação nessas quadras vai de baixa à muito baixa.

QUADRAs DE ORGANIZAÇÃO LINEAR E VOLUMETRIA CONSOLIDADA Seguem a mesma lógica da classificação anterior, porém, possuem uma conformação linear, de modo que as edificações se organizam em fita.

QUADRAs DE ORGANIZAÇÃO LINEAR E VOLUMETRIA DISPERSA Seguem a mesma lógica da classificação anterior, porém, possuem uma conformação linear, de modo que as edificações se organizam em fita.

QUADRAs DE ORGANIZAÇÃO TRIANGULAR E VOLUMETRIA CONSOLIDADA São quadras que possuem formato triângular e que se caracterizam pelo encontro de duas ruas em ângulo agudo. Suas volumetrias também são consolidadas.

QUADRAs SEM ORGANIZAÇÃO APARENTE E VOLUMETRIA DISPERSA Não possuem organização aparente e sua volumetria é dispersa. Atribuímos esse fator ao fato de que essas quadras estão assentadas sobre as áreas alagadiças mais críticas.

123 | sexta parte: ambiência urbana e paisagem cultural

QUADRAs DE ORGANIZAÇÃO periférica E VOLUMETRIA CONSOLIDADA


análise tipomorfológica

tipomorfologia das edificações

A arquitetura da Colônia de Pescadores Z3 se caracteriza, preponderantemente, por edificações térreas de implantações isoladas nos lotes e com recuos de ajardinamento bastante variados, geralmente em tamanhos reduzidos. As primeiras visitas ao local revelaram a grande recorrência de algumas tipologias arquitetônicas bastante particulares do lugar, sobre as quais propomos uma classificação e espacialização no mapa da vila. A finalidade dessa análise é identificar possíveis padrões de regularidade ou irregularidade tipomorfológicos. O levantamento foi organizado da seguinte forma: foram identificadas e classificadas as tipologias das edificações em dez categorias tipomorfológicas de acordo com os atributos que julgamos que caracterizam suas particularidades. Além das dez categorias, algumas edificações não são passíveis de serem classificadas, ou porque não podem ser visualizadas por estarem nos fundos dos lotes ou entre muros e, portanto, não interferem na ambiência do espaço urbano, ou porque possuem atributos que não se encaixam nas outras dez classificações nem integram uma décima primeira. A partir da primeira classificação, foi percebido que as tipologias arquitetônicas identificadas compu-

124

nham grupos tipomorfológicos mais amplos. Dessa forma, as dez tipologias inicias foram divididas em quatro grupos tipomorfológicos. O Grupo 01 corresponde às edificações térreas, as quais são, em maioria, residenciais, as coberturas possuem duas águas e a empena fica paralela à testada do lote. O Grupo 02 também é relacionado às edificações térreas e, sobretudo, residenciais, porém possuem um plano inclinado do telhado que escoa em direção à testada do lote. O critério de divisão do Grupo 03 são as alturas das edificações, ou seja, a escala vertical, em que se observam edificações em dois e três pavimentos. Já o Grupo 04 leva em conta a escala geral do edifício. Nesse grupo foram atribuídas as tipologias correspondentes aos galpões de utilização da produção pesqueira e industriais, nos quais observa-se portes maiores do que nos demais grupos. Já o Grupo 05 corresponde àquelas tipologias que não puderam ser atribuídas aos demais grupos nem constituíram uma décima primeira tipologia, a qual optamos por chamar de tipologias excepcionais. Á seguir uma breve descrição das tipologias classificadas:

ambiente e cultura: uma proposta de planejamento urbano para assentamento costeiro


grupo 01

TIPO 04-b: edificação térrea de uso específico da produ-

TIPO 01-A:

ção pesqueira (galpões e peixarias), com tipos de cobertura variáveis e acessos em grandes larguras.

TIPO 01-B:

TIPO 04-c: edificação térrea de uso específico da produção pesqueira (galpões e salgas), com tipos de cobertura variáveis, acessos em grandes larguras e pé-direito bastante elevado (altura corresponde a 1 1/2 pavimento).

edificação térrea, com telhado aparente em duas águas e empena paralela à testada do lote. edificação térrea, com telhado aparente em duas águas e empena paralela à testada do lote e reentrância junto ao acesso principal (variação do tipo tradicional 01).

TIPO 01-C:

edificação térrea, com telhado aparente em duas águas e empena paralela à testada do lote com subtração de um volume em umas das arestas que corresponde ao retângulo de implantação da edificação.

grupo 02 TIPO 02-a:

edificação térrea, com telhado aparente em uma ou duas águas, com escoamento de uma das águas em direção à testada do lote.

TIPO 02-b:

edificação térrea, com telhado aparente em quatro águas.

grupo 05 tipos excepcionais: não possuem atributos que se encaixam nas outras dez tipologias nem integram uma décima primeira. Nas páginas seguintes, são apresentadas exemplificações da divisão dos grupos tipomorfológicos e suas tipologias arquitetônicas correspondentes.

grupo 03 TIPO 03-a: edificação em dois pavimentos. TIPO 03-b: edificação em três pavimentos.

grupo 04 TIPO 04-a: edificação térrea de uso industrial, com pé-direito bastante elevado(altura correspondente a 2 pavimentos ou mais) e cobertura em perfil abobadado. sexta parte: ambiência urbana e paisagem cultural

125


126 |ambiente e cultura: uma proposta de planejamento urbano para assentamento costeiro

TIPO 01-A Esta é a tipologia mais recorrente na paisagem urbana da Z3. Possui algumas variações que não descaracterizam a sua ambiência final: em alvenaria ou madeira, por vezes aparecem alpendres de acesso ou laterais, servindo nesse último caso como varandas ou abrigos para veículos. Em muitos casos são pintadas com cores variadas e muitos intensas. A quantidade de exemplares deste tipo nos leva a concluir que estas edificações possuem certa tradicionalidade no contexto da arquitetura local, sobretudo quando observamos as construções em madeira, nas quais o material é trabalhado de formas bastante particulares, em diferentes angulações e modos de fixação, o que reflete as práticas do saber fazer manual local aplicadas também à construção dos barcos.

Cabe ressaltar que não foram empregadas análises específicas quanto às posições, dimensões e proporcões das esquadrias das edificações preponderamente residenciais (tipos 01-A, 01-B, 01-C, 02-A e 02-B). De modo geral, as janelas têm proporções horizontais (largura maior que a altura) ou quadráticas. A configuração das esquadrias nos planos das fachadas possuem certa variação: janela e janela; porta e janela; janela e porta; janela, porta e janela; porta, janela e janela, entre outros. Na ocasião da existência de varandas laterais com alpendre, observamos que há a recorrência da configuração das esquadrias da fachada de janela e janela, ficando a porta de acesso na fachada lateral correspondente ao alpendre.


127 | sexta parte: ambiĂŞncia urbana e paisagem cultural


128 |ambiente e cultura: uma proposta de planejamento urbano para assentamento costeiro

TIPO 01-B É uma derivação da primeira tipologia, para a qual atribuímos nova classificação em função de sua recorrência. A reentrância para o acesso varia de posição, assim como a configuração das esquadrias sobretudo na parede reentrante. Esse tipo segue os padrões da anterior quanto às cores, os materiais e os trabalhos em madeira.


129 | sexta parte: ambiĂŞncia urbana e paisagem cultural


130 |ambiente e cultura: uma proposta de planejamento urbano para assentamento costeiro

TIPO 01-C TIPO 02-A


TIPO 02-B tram na metade nordeste da vila. Esta circunstância evidencia a importância da conservação dessas edificações que remontam ao princípio do assentamento da comunidade de pescadores artesanais no local.

131 | sexta parte: ambiência urbana e paisagem cultural

O tipo 02-B se caracteriza, em sua maioria, por edificações mais antigas, algumas remetendo ao estilo neocolonial, como pode ser observado nas fotografias. Existem poucos desses exemplares, e eles se concen-


132 |ambiente e cultura: uma proposta de planejamento urbano para assentamento costeiro

TIPO 03-A TIPO 03-B TIPO 04-A


Os galpões referentes às peixariase salgas são bastante presentes no assentamento junto à orla da Z3. As duas tipologias referentes à eles (tipo 04-B e 04-C) são bastante similares, o que varia é a escala: no primeiro caso as edificações possuem altura de um pavimento e no segundo caso essa altura fica correspondente à um pavimento e meio a dois pavimentos, variando, dessa forma, seu impacto na ambiência urbana.

133 | sexta parte: ambiência urbana e paisagem cultural

TIPO 04-B


134 |ambiente e cultura: uma proposta de planejamento urbano para assentamento costeiro

TIPO 04-C Nos dois casos existe uma variação quanto aos materiais construtivos e os estados de conservação, o que também sugere se a edificação é mais antiga ou mais atual. As que aparentam ser mais antigas são em madeira (muito degradadas), e algumas em alvenaria ainda possuem cobertura em telhas francesas. De forma vulgar e não totalizante, pode-se dizer que as do tipo 04-B correspondem às peixarias e as do tipo 04-C às salgas.


TIPOs excepcionais

135 | sexta parte: ambiência urbana e paisagem cultural

Edificações de padrões muito díspares do restante. Observa-se que nesse tipo se encaixam as edificações de cunho institucional: a igreja, a escola e o posto de saúde.


análise tipomorfológica

tipomorfologia das edificações

136 |ambiente e cultura: uma proposta de planejamento urbano para assentamento costeiro

tipo 01-A

tipo 03-A

tipo 01-B

tipo 03-B

tipo 01-C tipo 04-A tipo 02-A

tipo 04-B

tipo 02-B

tipo 04-C tipoS EXCEPCIONAIS

0

100

300m


tipos excepcionais 9,98%

tipo 04-A 0,38%

tipo 04-C 1,25%

tipo 04-B 5,48% tipo 03-B 0,29%

tipo 03-A 2,98%

tipo 02-B 1,83%

tipo 01-A 40,35%

tipo 01-B 15,56%

tipo 01-C 3,55%

tipo 02-A 18,35%

grupo 01

grupo 02

grupo 03

grupo 04

grupo 05

59,46%

20,18%

3,27%

6,73%

9,98%

137 | sexta parte: ambiência urbana e paisagem cultural

Quanto a quantidade de exemplares por grupo tipomorfológico, observamos que a grande maioria das tipologias arquitetônicas são do Grupo 01, mais especificamente dos tipos 01-A e 01-B, assim como o tipo 02-A do Grupo 02. Portanto, nos parece coerente concluir que essas tipologias constituem certa tradicionalidade no local, e refletem as preferências ambientais dos moradores. Vale ressaltar também que não existem padrões de regularidade espacial dessas três tipologias, ou seja, elas se espalham por toda a vila. A tipologia 02-B, embora não apresente uma grande quantidade de exemplares, possui estilo que indica sua tradicionalidade e se concentra na área corresponde ao princípio do assentamento. O Grupo 03, que corresponde às edificações com dois e três pavimentos, é o grupo menos expressivo no contexto geral. Isso nos conduz ao entendimento de que esses tipos descaracterizam a ambiência urbana do local. O Grupo 04 correspondente aos galpões se caracteriza principalmente pelos seus padrões de regularidade espacial, se concentrando ao longo de toda a orla. Quanto aos tipos excepcionais, entendemos que, no caso das edificações de cunho institucional, é interessante que estas possuam atributos díspares do restante, pois, desse modo, elas recebem destaque visual. Contudo, não é possível negar que, no caso das edificações residenciais e comerciais, esses atributos díspares descaracterizam a ambiência urbana ditada pela regularidade dos tipos do grupo 01 e 02.


conteúdo cromático Como visto na parte dos aportes teóricos e metodológicos, a presença das cores no ambiente urbano da Z3 é um fator bastante decisivo na caracterização da identidade visual do lugar. Durante as primeiras visitas ao local foi percebido que, de certo modo, o conteúdo cromático dos elementos da paisagem urbana da vila possuem alguns padrões de regularidade que se repetem de acordo com o tipo de elemento, dos quais optamos por dar ênfase às edificações, aos barcos e às roupas. Resgatando nossa discussão das considerações sobre os conceitos de paisagem, estipulamos a importância da busca por uma boa percepção de como se dão esses padrões de regularidade visual encontrados no local, dentre os quais a cor admite considerável participação. O emprego de cores à edificações, aos barcos e às roupas se constituem como bens renováveis e, portanto, revelam as preferências ambientais individuais e grupais dos moradores e seus modos de ver o mundo. Essa premissa tem a ver, também, com a nossa argumentação relacionada à cognição ambiental, a partir da qual concluímos que as preferências ambientais dos residentes são pautadas, sobretudo, na organicidade de sua cultura, no saber fazer local manual e na representatividade utilitária do seu meio ambiente como

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instrumento dos seus modos de ganhar a vida. Esses fatores são patrimônios locais componentes de sua ambiência urbana e de sua paisagem cultural. Foi localizado um estudo prévio do conteúdo cromático da Z3 feito pelas professoras Ana Paula Faria e Natalia Naoumova em conjunto com os alunos da disciplina de Planejamento Urbano e Projeto Arquitetônico na FAUrb-UFPel em 2002. Esse material foi utilizado para a estruturação do estudo atual, e para a posterior comparação das duas realidades encontradas entre 2002 e 2018, no sentido de avaliar a trajetória dessas preferências dentre os anos estudados. No relatório existente de 2002, as análises foram executadas da seguinte maneira: através da observação visual do local foram definidos os padrões cromáticos dos elementos em separado, ou seja, as cores recorrentes nas edificações, nos barcos e nas roupas. Quanto aos barcos e às roupas, esses padrões puderam ser entedidos de forma simplificada por meio da descrição e amostra das cores observadas. No entanto, no caso das edificações foi necessária uma observação mais aprofundada em que se observou as cores gerais (componentes das paredes e telhados das casas) e as cores pontuais (referentes aos detalhes: esquadrias, pinturas, gradis, entre outros).

ambiente e cultura: uma proposta de planejamento urbano para assentamento costeiro


conteúdo cromático

As cores dos barcos são componentes muito importantes na paisagem urbana pois eles são muito presentes, não só nos locais onde há presença da água, mas em todo o ambiente urbano da Z3, pois os moradores guardam os barcos em seus pátios, na frente das casas e ao longo das vias, sendo esse elemento bastante recorrente na sucessão do caminhar pelo local. O levantamento de 2002 e o atual convergiram para resultados similares quanto ao uso da cor nos barcos. As cores predominantes, por odem de recorrência são: LARANJA - aparecem na quase totalidade dos barcos pois o interior deles é pintado dessa cor, aparecem também algumas faixas em laranja no exterior), AZUL e VERDE - em gamas relativamente vastas BRANCO em muitos tons devido à sujeira. Os barcos são a exemplificação exímia do nosso entendimento da dinâmica da cognição ambiental do residente sobre seu meio ambiente físico, as cores intensas aplicadas aos barcos facilitam a visualização dos barcos contra a coloração das águas, da vegetação, da luz solar, da nebulosidade, etc.

139 | sexta parte: ambiência urbana e paisagem cultural

os barcos


140 |ambiente e cultura: uma proposta de planejamento urbano para assentamento costeiro


conteúdo cromático

Os moradores têm o costume de estender as roupas em varais compartilhados na frente das casas e até mesmo na rua, este é um aspecto bastante peculiar da paisagem cultural local. Observamos o predomínio do uso de matizes como o magenta, o verde, o azul e o vermelho com maior frequência, geralmente na sua forma mais intensa.

141 | sexta parte: ambiência urbana e paisagem cultural

as roupas


conteúdo cromático

AS edificações A análise das cores das edificações, no levantamento de 2002, foi realizada em duas etapas: a geral e a pontual. Além disso, os matizes foram descritos conforme alguns parâmetros referentes à sua luminosidade (claríssimo, claro, médio e escuro) e à sua intensidade (intensou e acinzentado). Para o levantamento atual de 2018, foi utilizada a mesma metodologia de análise, de modo a oportunizar a comparação. É interessante observar que o emprego da cor nas casas da vila obedecem certo padrão espacial, ou seja, existem zonas onde se concentram determinados padrões de inserção da cor nos elementos. De forma não totalizante, averiguamos 3 zonas distintas. A Zona 01 é correspondente à metade sul da vila e a nordeste da Divinéia; a Zona 02 fica também na metade sul e a sudoeste da Divinéia; e a Zona 03 é aquela correspodente à metade norte da vila. Essa classificação fica atribuída à situação econômica do proprietário da edificação, ao uso dado à ela e aos materiais construtivos. No caso da Zona 01, observa-se a preponderância de edificações bastante precárias, muitas delas em madeira e cobertas com telhas de fibrocimento. Como visto no levantamento de uso e ocupação do solo, nessa parte da Colônia se concentram edificações utilizadas para

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a produção pesqueira como galpões e salgas. Além disso, em função das prováveis baixas condições financeiras dos proprietários, existem diversas edificações em alvenaria e sem acabamentos. Em decorrência disso, nessa zona observa-se a recorrência do LARANJA em diferentes tons (cerâmica), dos MARRONS acinzentados claros, escuros e avermelhados e dos VERMELHOS escuros da madeira, além da vasta gama de CINZAS das telhas de fibrocimento. Quanto à Zona 02, observa-se um pouco mais de intensidade nas cores, havendo ainda muitas edificações sem pintura, muitas vezes com revestimento argamassado, ou com o tijolo à vista. Nesses últimos casos, se repetem os padrões cromáticos da Zona 01. Já na Zona 03, caracterizada pelo maior investimento nas edificações, a gama de matizes utilizadas é muito vasta, e é também nessa zona que aparecem as cores mais intensas, sobretudo nas edificações de cunho comercial. Nas páginas seguintes apresentaremos algumas exemplificações dos matizes presentes na paisagem urbana da Z3 e, posteriormente, as palhetas resumo geral e pontual do levantamento de 2002 e a palheta resumo geral do levantamento atual de 2018, com as variáveis de intensidade e luminosidade para cada matiz.

ambiente e cultura: uma proposta de planejamento urbano para assentamento costeiro


143 | sexta parte: ambiĂŞncia urbana e paisagem cultural


144 |ambiente e cultura: uma proposta de planejamento urbano para assentamento costeiro

palheta resumo geral 2002

intensidade

luminosidade

conteúdo cromático

MATIZ AZUL SALMÃO LARANJA ROSA AMARELO VERDE MUSGO MARROM VIOLETA BRANCO VERMELHO CINZA VERDE-ÁGUA VERDE-BANDEIRA

claríssimo claro médio escuro acinzentado

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INTENSO

x x x x

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conteúdo cromático

palheta resumo pontual 2002 intensidade

MATIZ branco cinza verde azul marrom violeta MARROM vermelho verde-água verde BANDEIRA

claríssimo claro médio escuro acinzentado

x

x

x x x x x x x

INTENSO

x x x

x x x x x x x

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x x x x x

x x x x

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x

145 | sexta parte: ambiência urbana e paisagem cultural

luminosidade


palheta resumo geral 2018

frequentes

muito frequentes

MATIZ

pouco frequentes

146 |ambiente e cultura: uma proposta de planejamento urbano para assentamento costeiro

intensidade

luminosidade

conteúdo cromático

AZUL verde ciano amarelo branco laranja salmão cinza marrom rosa violeta verde-bandeira vermelho

claríssimo claro médio escuro acinzentado INTENSO

x x x x

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atribuir destaque a esses elementos. A seguir, um gráfico dos matizes encontrados na Colônia de Pescadores Z3 e suas variações, de acordo com a frequência do aparecimento em porcentagem, referentes à palheta resumo geral de 2018:

15%

11%

10%

6% 10% 8%

M

9%

A salm

9%

9%

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l a r anj

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8%

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147 | sexta parte: ambiência urbana e paisagem cultural

2% 2% 4%

branco

ROSA

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AZUL

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O levantamento de cores é, de certa forma, subjetivo e, portanto, deve ser lido com cautela. No levantamento de 2018, organizamos as cores conforme a frequência com que apareciam. O levantamento de 2002 aponta a frequência do aparecimento de algumas cores. Nos dois casos, o matiz azul é o mais frequente. Além disso, os dois levantamentos enfatizaram a frequência dos matizes verde, ciano (verde-água), salmão (sendo o pêssego o mais intenso) e laranja. Observou-se também o aparecimento do matiz amarelo com frequência impressionante, em todas as variações de luminosidade e intensidade. Além disso, a observação desses dois fatores indicou o desaparecimento de algumas variações do vermelho, do violeta e do verde-bandeira no intervalo temporal analisado. As percepções supracitadas evidenciam que os padrões de uso da cor nas construções da Z3 possuem certa dinâmica de transformação ao longo do tempo, mas que essa transformação tende a acontencer com os matizes que aparecem com menor frequência. Já os matizes utilizados com maior frequência tendem a permanecer nesse status. Esta circunstância também nos parece bastante lógica, e vai de encontro com a nossa concepção de cognição ambiental, uma vez que os matizes e padrões de luminosidade e intensidade aplicados às edificações são comparáveis aos aplicados nos barcos (matizes entre o azul e o verde, e o matiz laranja). De modo geral, temos a impressão de que existe uma relação do uso de cores intensas nas edificações, nos barcos e nas roupas, como se houvesse uma intenção intrínseca aos modos de ver o mundo da população - de


paisagem cultural A atividade da pesca profissional artesanal é, de certo modo, o veículo genitor das demais atividades que compõem a paisagem cultural da Colônia Z3. Ela mantém, no local, uma sociedade orientada por uma contínua referenciação com o ambiente natural que é o suporte aos seus modos de ganhar a vida. A dinâmica do território cria elementos culturais e particularidades passados de geração a geração, estabelecendo uma ambiência territorial única. Em razão disso, um conjunto de especificidades é reproduzido: comportamento simples e rude; compreensão tradicional do ambiente no desempenho do trabalho da pesca através da leitura de ondas, marés, ventos e constelações; práticas tradicionais de produção como a carpintaria naval artesanal, a gastronomia típica e o artesanato em geral; as festas religiosas; medicina caseira; as crenças e costumes entre outros (FIGUEIRA, 2009). Retomando nossa discussão quanto ao valor patrimonial da paisagem cultural da Z3, destacamos alguns pontos que interessam à abordagem das propostas de planejamento subsequentes.

ARTESANATO Na Z3, o artesanato produzido pela comunidade é um elemento passível de considerável apreciação.

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Os objetos de artesanato tradicional são confeccionados manualmente e têm como principal matéria-prima a madeira, a qual é adquirida, comprada ou recolhida, além de escamas, ossos, peles de peixes e redes de pesca em desuso, coletados na orla das praias locais . As redes de pesca são utilizadas para a confecção de peças de vestuário em geral, enquanto que, com os restos dos pescados, são produzidos penduricalhos, bolsas, porta-retratos, colares e brincos. Com a madeira, controem-se barcos em miniatura de diversos formatos. De certa forma, a construção dos barcos em miniatura representa o principal e mais original tipo de produção artesanal desenvolvida na colônia. Os barquinhos inicialmente eram elaborados para ornamentar e decorar as casas dos moradores. Porém, atualmente, servem como alternativa de renda frente à crise da pesca. (FIGUEIRA, 2003)

culinária A gastronomia local é outra questão de inegável valor para o estudo em questão, porque, assim como os demais pontos destacados, também caracteriza uma originalidade da vila. Muitas das receitas elaboradas pelos moradores da comunidade são passadas de geração em geração e recebem incrementos ao longo do tempo. Em sua discussão, na qual relaciona a gastrono-

ambiente e cultura: uma proposta de planejamento urbano para assentamento costeiro


1 - barcos em miniatura

mia na colônia com a sua produção comercial, FIGUEIRA (2006) disserta que os pratos são tipicamente elaborados com pescados coletados na Lagoa dos Patos, a partir de técnicas de tempero elaboradas com especiarias utilizadas no cotidiano local. Dentre as receitas mais prestigiadas podem ser destacados o arroz de pescador, o caldo de peixe, camarões à milanesa, saladas de peixe-seco, pastéis de siri, espetinhos de peixe com queijo, tainhas e bagres assados e recheados com legumes e camarões, camarões fritos, cozidos, com massa ou batatas, casquinhas de siri, bolinhos de siri e de peixe, linguado à milanesa, bagre ensopado, moqueca de bagre risóles de siri e de camarão, lasanha de camarão e etc.

religiosidade

2 - artesanato feito na z3 com as sobras da produção pesqueira sexta parte: ambiência urbana e paisagem cultural

É notório que a credulidade e a espiritualidade são fatores que movem sociedades. No caso da Colônia Z3, a natureza dessa condição é dilatada pela relação direta da vila com a pesca. A Colônia de São Pedro carrega no próprio nome uma homenagem ao santo católico clamado como padroeiro, considerando os dizeres bíblicos, os quais vinculam o apóstolo Pedro com a atividade pesqueira e as crenças populares, que relacionam o santo com poderes sobre os fenômenos climáticos atrelados ao ofício do pescador. Entretanto, a figura religiosa mais significativa na composição da paisagem cultural da vila é a de Nossa Senhora dos Navegantes. Assim como São Pedro, a

149


santa é associada principalmente ao comportamento de corpos de água salgada nas suas mais diversas formas e à indivíduos que lidam com essa parte da natureza como marinheiros e pescadores. A expressão da crença em Nossa Senhora dos Navegantes pode ser registrada em diversos locais dentro da colônia através de pinturas nas paredes de construções e nas embarcações. A própria igreja da comunidade possui inscritos em sua fachada que estabelecem a sua denominação de “Santuário de Nsa. Sra. Dos Navegantes”. A igreja foi financiada com as doações feitas pela comunidade, fato o qual inspirou relatos de que a construção teria sigo erguida pelos peixes. Anteriormente à construção da Igreja, as manifestações religiosas e demais atividades cívicas aconteciam próximas a uma figueira situada no centro da colônia. Por este motivo, quando um morador profere a expressão “a figueira” ou “lá na figueira”, ele certamente está falando da referida árvore. De acordo com FIGUEIRA (2009), a comunidade segue, em sua maioria, as crenças ditadas pela Igreja Católica Apostólica Romana. Contudo, a figura de Iemanjá também é expressa pelo conteúdo artístico encontrado nas embarcações e em algumas casas. A representação da entidade afro-brasileira, embasada nas demonstrações de fé dos pescadores sobre sua atividade profissional, retrata essa resultante do sincretismo religioso preponderante na região sul do Rio Grande do Sul sobre a caracterização cultural da vila. Em decorrência destas manifestações de fé, anteriormente à década de sessenta, uma nova atividade

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festiva se estabeleceu na Colônia de Pescadores Z3: a Festa de Nsa. Sra. Dos Navegantes, que acontece no dia 02 de fevereiro, feriado municipal em homenagem a essa santa: “Este evento representa um momento de celebração, agradecimento, petição e pagamento de promessas, envolvendo moradores e turistas em rituais e ações conjuntas, tais como decoração de barcos e casas, realização de procissões e almoços, comercialização de artesanato e pratos da gastronomia, e apresentação de artistas locais, dessa forma fomentando a expansão do turismo com base numa relação entre a ordem tradicional da cultura com os interesses do mercado. Há neste quadro social em particular um processo relacional entre cultura e mercado turístico com base num evento marcado pela espetacularização da tradição, onde ocorre uma verdadeira simbiose entre o espetáculo e a fé.” (FIGUEIRA, 2009, p. 101)

Por isso, a data de 02 de fevereiro é, possivelmente, a mais importante para a comunidade pois ela recebe enorme quantidade de visistantes, e tem sua paisagem cultural exposta ao exterior de forma incomparável. Em 2018, foram quantificadas oitenta e sete edições da festividade, a qual possui crescimento contínuo na quantidade de visitantes a cada ano. Durante a realização da festa na comunidade, há comercialização de pratos típicos à base de pescados capturados na Lagoa dos Patos e objetos artesanais, apresentação de música e teatro por parte de artistas locais e organizações de exposições museológicas da paisagem e da cultura local. Ademais, as principais atividades são aquelas relacionadas à religiosidade, envolvendo

ambiente e cultura: uma proposta de planejamento urbano para assentamento costeiro


1

Na sequência são apresentados alguns aspectos do caráter do local, relacionados à paisagem cultura e, consequentemente, à ambiência urbana.

2 3 procissão lacustre para nsa. sra. dos navegantes, igreja e almoço, anualmente no dia 02/fev

151 | sexta parte: ambiência urbana e paisagem cultural

missas, procissões terrestres e lacustres, homenagens, pagamentos de promessa e agradecimentos. Portanto, é de fundamental importância a observação dessa data na identificação da paisagem cultural da Colônia Z3, pois ela representa uma atividade cultural e econômica para os moradores da comunidade, e para a população visitante que compactua com as filosofias envolvidas. Além disso, também merece destaque o feriado móvel da Sexta-feira da Paixão de Cristo, que acontece anualmente na sexta-feira anterior ao feriado de Páscoa. Segundo as crenças principiadas pelo catolicismo e que foram introduzindo aspectos culturais nas sociedades através dos séculos, nessa data a alimentação baseada em frutos do mar é intensificada em conjunto com uma supressão do consumo carnívoro de outros tipos. Desse modo, para a comunidade da Colônia de Pescadores Z3, a “sexta-feira santa” simboliza um período de fortalecimento do comércio de pescados e, consequentemente, do reconhecimento externo da paisagem cultural local.


152 |ambiente e cultura: uma proposta de planejamento urbano para assentamento costeiro

rodas masculinas, construção naval artesanal, presença de embarcações em diversos pontos, próximos à orla ou não.


153 | sexta parte: ambiência urbana e paisagem cultural reflexo dos processos de fabricação da construção naval nos detalhes das edificações. Conserto de redes e outros artefatos no ambiente público, apropriação do espaço.


154 |ambiente e cultura: uma proposta de planejamento urbano para assentamento costeiro as mĂşltiplas faces dos artigos e elementos religiosos aparecem na paisagem urbana, assim como os elementos com motivos aquĂĄticos diversos.


155 | sexta parte: ambiência urbana e paisagem cultural e a ambiência é completada pela presença de animais de estimação e silvestres, daí também a preocupação com a questão do ambiente natural.


156 |ambiente e cultura: uma proposta de planejamento urbano para assentamento costeiro

Já existem muitas festividades, promovidas por instituições diversas com o intuito de promover o reconhecimento da cultura da z3, como é o exemplo do festival de cultura da z3, a festa do peixe e a festa para Nsa. Sra. dos navegantes de 02 de fevereiro. As atividades geralmente acontecem ao ar livre, por meio da instalação de tendas à frente de edificações institucionais, havendo a necessidade do bloqueio da passagem de veículos.


sĂŠtima parte o planejamento


considerações gerais para o planejamento O planejamento proposto para a Colônia de Pescadores Z3 terá como base as seis variáveis previamente definidas: Suporte Ambiental, Configuração Espacial, Contexto Socioeconômico, Ambiência Urbana, Paisagem Cultural e Cognição Ambiental. Levando em conta a revisão bibliográfica realizada para a definição das variáveis, entende-se que o planejamento com olhares para esses fatores favorece o alcance aos objetivos traçados. Da etapa de levantamentos e análises, concluímos diversos aspectos, sintetizados nas observações textuais sobre a ilustração da página ao lado. Observa-se que muitas das características de uma variável, sejam elas potencialidades ou fraquezas, possuem relações com as características de outra variável. Por exemplo, o conteúdo cromático presente nas edificações é relacionado à ambiência urbana, mas também à paisagem cultural e à cognição ambiental. Por isso, entende-se que o planejamento de uma variável, quase sempre gerará implicações no planejamento de outra variável. Nas páginas seguintes serão apresentados princípios norteadores para as diretrizes do planejamento urbano na Colônia de Pescadores Z3. É proposto que as diretrizes, enquanto instrumentos de ordenamento espacial e visual, sejam decorrentes desses princípios norteadores. Além disso, esses princípios podem ser atribuídos às diversas variáveis do planejamento às quais possuem relação. A superposição da atribuição de algumas

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variáveis à uma proposta indica que a resolução de uma problemática em uma variável acarretará na resolução de outras automaticamente. Considerando que o número total de variáveis é 6, podemos dizer que, se uma proposta tem relação com mais de 4 variáveis, por exemplo, isso significa que ela tem grande potencial na resolução de uma problemática global. Com base nesta premissa, foram organizadas 14 propostas globais para a elaboração das diretrizes do planejamento urbano da Z3. Estas diretrizes estão colocadas em forma de texto nas páginas seguintes e acompanham um número que a identifica e uma legenda, indicando as variáveis com as quais ela se relaciona, da seguinte forma:

n contexto socioeconômico configuração espacial suporte ambiental

ambiência urbana paisagem cultural cognição ambiental

A presença ou não da legenda ao lado do número de identificação determina a relação ou não com determinadas variáveis. Posteriormente à exposição das propostas gerais, são apresentados croquis com algumas ideias pontuais a serem desenvolvidas adiante.

ambiente e cultura: uma proposta de planejamento urbano para assentamento costeiro


síntese dos diagnósticos por variável descrição muito breve das situações observadas e relações entre as variáveis (setas vermelhas) Carecem alternativas socioeconômicas à crise ambiental da pesca. O empobrecimento da população, dentre outros fatores, serve de empecilho para a preservação do patrimônio cultural.

o context econômico socio

Por faltarem áreas qualificadas para a expansão, a malha urbana atingiu áreas de interesse ambiental (banhados e dunas). A expansão tem se dado para dentro, o que tem agravado os impactos ambientais e a qualidade de vida dos moradores.

conf ig espa uraçã cia o l

prag m ta n g í v e l

intangível

variáveis do planejamento

Necessita de medidas de amortecimento dos impactos. Indica uma possibilidade de expansão urbana em zona ambiental apropriada acima do limite territorial do assentamento a noroeste.

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ci a n ê i a mb ana urb

Possui atributos muito particulares ao caráter do lugar, refletindo tanto os saberes fazeres locais e a paisagem cultural quanto a paisagem natural dos arredores.

161 | sétima parte: o planejamento

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Também é muito particular. É do interesse deste trabalho buscar alternativas estéticas para uma boa cognição ambiental dos meios natural e construído e de sua relação com a população residente e visitante.

suporte ambiental

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pa i s a g e m l cultura

É muito rica. Tanto os atributos materiais quanto os imateriais são de interesse da preservação patrimonial e possuem enorme potencial turístico.


propostas gerais para as

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diretrizes do planejamento

01 Previsão de expansão da malha urbana no sentido noroeste, sobre os campos, nas áreas classificadas como apropriadas para a urbanização: a) permitindo a aplicação de medidas de amortecimento dos impactos ambientais na área urbanizada atual por meio da realocação de algumas unidades; b) possibilitando a continuação da vila enquanto sociedade, já que atualmente não há brechas ao crescimento; c) observando as características da morfologia urbana do assentamento (traçado urbano, larguras e materialidade de vias, padrões de visibilidade internos e externos, tipologias arquitetônicas, conteúdo cromático, costumes locais, apropriação do espaço pelos moradores, etc.), permitindo a conservação da identidade do local e seus atributos cognitivos e a preservação do patrimônio cultural.

02 Realocação de algumas unidades do assentamento existente: das áreas alagadiças extremas e das Áreas de Preservação Permanente dos dois arroios, de modo a amortecer os impactos da urbanização no local e trazer melhorias nas condições de vida dos residentes dessas áreas, que se caracterizam, em grande parte, pelo médio ou baixo investimento.

03 Reorganização das edificações próximas à orla, sobretudo na Área de Preservação Permanente da laguna, permitindo o acesso físico à orla em toda a sua extensão e a permeabilidade visual entre os ambientes interno e externo, qualificando a cognição ambiental dos usuários de um modo geral.

04 Renaturalização dos arroios nas duas extremidades da vila e tratamento paisagístico dos espaços dentro da Área de Preservação Permanente, de modo a barrar a ocupação do espaços com novas construções e possibilitar a contemplação do ambiente natural e o turismo ecológico.

05 Reposição do estrato arbóreo nativo em toda a área urbanizada, e, sobretudo, no cordão de dunas e na extensão da orla, de modo a evitar novas erosões e a permitir a continuidade espacial da mata nativa e o fluxo gênico das espécies de fauna e flora, mantendo e qualificando, também, a estética e a ambiência urbana do local.

06 Regulamentação da densificação das formas construídas por quadra-tipo, de modo vetar a densificação das quadras de volumetria consolidada (as quais apresentam taxas de ocupação muito elevadas), e a reorganizar as quadras de volumetria dispersa.

07 Ordenação das volumetrias das formas construídas, tomando como base os parâmetros observados nos resultados da análise da tipomorfologia das edificações, incentivando a adoção de tipologias pertencentes aos grupos de maior recorrência, porém, incentivando também a adoção de diferentes variações das mesmas, de modo a evitar a monotonicidade.


10

Planejamento do conteúdo cromático da paisagem urbana da Z3, tomando como base a palheta resumo geral de 2018 e a palheta resumo pontual a ser desenvolvida a seguir, de modo a preservar a cultura local e o potencial turístico, permitindo a inserção de proximidades e contrastes cromáticos de acordo com o uso das edificações. Para tal, será considerada a totalidade do assentamento:

Planejamento da paisagem da panorâmica visual externa da orla, observando sua estrutura morfológica (composta pelas massas verdes de vegetação, pela fita de edificações térreas espaçadas, pelos barcos, pelos trapiches, etc.) e os padrões de permeabilidade visual entre o interno e o externo.

a) área urbanizada atual e expansão como componentes da paisagem interna ao assentamento; b) formas construídas que compõem a paisagem externa: da panorâmica visual externa da orla e que fazem frente com os banhados e matas nativas a sudoeste e a nordeste.

Tratamento paisagístico das áreas livres, atribuindo usos específicos em alguns locais, de acordo com sua situação dentro do assentamento. O planejamento desses espaços deverá levar em consideração os padrões de visibilidade, utilizando esse critério para a alocação dos diferentes tipos de atividade (ex.: contemplação nos locais de maior visibilidade, e lazer passivo nos de menor).

09 Previsão de algumas medidas, levando em conta a consolidação do turismo cultural e ecológico como alternativa socioeconômica à crise ambiental da pesca. Dessas medidas, podemos destacar a alocação de novos equipamentos de acordo com as características culturais do local (artesanato, religiosidade, culinária, etc.).

11

12 Desenvolvimento de políticas locais de educação ambiental e de reconhecimento da cultura local, com o intuito de promover a conscientização da população quanto à preservação e à conservação de seu ambiente natural e cultural, e também para que este medida sirva como suporte ao turismo cultural e ecológico no local.

13 Implantação de uma Escola de Educação Infantil, que ainda não existe, de modo a oferecer a oportunidade para que crianças das primeiras idades tenham acesso à escola pública.

14 Proposta de novo Arranjo Produtivo Local, consistindo em Aquacultura, Hortas Comunitárias e produção de farinha de resíduos de peixes para rações animais (breves descrições na página seguinte). Pretende-se que essas alternativas socioeconômicas possam criar oportunidades para os residentes com baixo poder aquisitivo, possibilitando também que haja o reaproveitamento dos resíduos do pescado como matéria orgânica para as hortas e para a produção de farinha de peixe. Com isso, pretende-se que o contexto social do local se enquadre nos parâmetros de trabalho referentes à agricultura familiar, onde toda a família é envolvida na produção, sem distinção de gênero. O planejamento deverá prever também a configuração espacial dessas atividades, conciliando-as com as atividades existentes.

163 | sétima parte: o planejamento

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164 |ambiente e cultura: uma proposta de planejamento urbano para assentamento costeiro

novo arranjo produtivo local A proposta de número 14, referente à introdução de um novo Arranjo Produtivo Local como solução para a crise socioeconômica, consiste na introdução de três novas atividades: a aquacultura, as hortas comunitárias no âmbito do sistema agroecológico e a produção de farinha dos resíduos de pescados para ração animal. A viabilização e alocação espacial dessas atividades serão pensadas com maior critério na próxima etapa, ficando esta etapa mais relacionada ao lançamento de ideias e possibilidades.

1 - tanques-rede com forma circular para aquacultura

A AQUACULTURA ou aquicultura é a produção de organismos aquáticos para o consumo humano. A atividade se refere ao cultivo, normalmente em um espaço confinado e controlado, de organismos aquáticos: peixes, crustáceos, moluscos, algas, répteis, etc. A atividade produtiva se divide em diferentes modalidades: piscicultura (peixes); carcinicultura (camarões); ranicultura (rãs); malacocultura (moluscos, ostras e mexilhões); algicultura (algas), dentre outros. Os organismos aquáticos, tanto em água doce quanto em salgada, se adaptam de forma a sobreviver e se desenvolver em seus respectivos ambientes. Na produção em água doce, os sistemas

mais utilizados são em viveiros escavados e em tanques-rede. Na água salgada, no caso da piscicultura marinha, predominam os tanques-rede (SCHULTER & FILHO, 2017). A ideia é gerar receita para a comunidade pesqueira durante todo o ano, inclusive nos períodos de defeso. Já a adoção da atividade das HORTAS COMUNITÁRIAS nos modelos do sistema agroecológico, além de contribuir para o consumo da população e como alternativa econômica aos residentes da vila (por meio da comercialização), também auxilia na busca pela reparação da divisão sexual do trabalho observada na atividade da pesca extrativa.

2 - píer flutuante para aquacultura


A proposta é que esta atividade possa também atribuir uma destinação dos resíduos de pescados e gerar receita concomitantemente, e que essa produção seja feita pelos moradores da vila em forma de cooperativa. A farinha de peixe pode ser utilizada para a alimentação dos organismos aquáticos nos tanques das atividades de aquacultura (CARNEIRO, S/D), e o excedente pode também ser aproveitado como adubo orgânico para as hortas comunitárias. Entende-se que a maior relevância da adoção desse novo arranjo produtivo é o caráter cíclico das atividades. O maior desafio para o planejamento será as decisões relacionas à configuração espacial dos elementos visuais referentes à essas atividades na paisagem da Z3.

As hortas comunitárias e a cooperativa de produção de farinha de peixe podem ser alocadas tranquilamente na área de expansão, sobretudo as hortas, em função de haver um grande reservatório de água artificial, podendo a área de amortecimento ser utilizada para este fim. Já os elementos referentes à atividade da aquacultura deverão ser melhor planejados, na sequência, para que se possa conciliar essa oportunidade de melhorias nas condições econômicas da comunidade com a preservação da estrutura morfológica e da qualidade cognitiva da panorâmica visual da orla.

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sétima parte: o planejamento

Além disso, observa-se o potencial dos resíduos de pescados como as cascas do camarão e rabos, cabeças e entranhas de peixes como adubo orgânico, fator que corrobora para uma boa destinação desses resíduos, evitando que fiquem lançados às margens da lagoa, qualificando o ambiente. Quanto à FARINHA DE PEIXE, esta é reconhecida por nutricionistas como uma excelente fonte de proteína, energia, minerais e vitaminas. Em todo o mundo, milhões de toneladas de farinha de peixe são produzidos anualmente. A maior parte da farinha produzida é incluída em rações comerciais para aves, suínos e peixes. (ALVA, 2010)

3 - hortas comunitárias em “suspensas”

4 - hortas comunitárias, utilização direta do solo

5 - farinha de peixe


166 |ambiente e cultura: uma proposta de planejamento urbano para assentamento costeiro

espacialização de algumas propostas

áreas alagadiças e cordão de dunas

0 100 300m


0

100

300m

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sĂŠtima parte: o planejamento

planejamento das ĂĄreas livres


168 |ambiente e cultura: uma proposta de planejamento urbano para assentamento costeiro medidas de controle das volumetrias e densificação por quadras-tipo

0 100 300m


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sĂŠtima parte: o planejamento

zoneamento dos espaços da orla e das atividades produtivas

0

100

300m


170 |ambiente e cultura: uma proposta de planejamento urbano para assentamento costeiro

desenho = nĂŁo-lugar A pressĂŁo do jogo da moda em atribuir modelos externos aos lugares desculturaliza a paisagem.


não - desenho = lugar

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sétima parte: o planejamento

O planejamento sob a ótica do ambiente (natural e construído) e da cultura deve reforçar o caráter do lugar e potencializar a sua essência.


172 |ambiente e cultura: uma proposta de planejamento urbano para assentamento costeiro


próximos passos A proposta aqui apresentada para a aprovação no Trabalho Final de Graduação I - Ênfase em Espaços Abertos, do ponto de vista projetual, chegou na fase das propostas preliminares, antecessoras à redação das diretrizes urbanísticas. A mesma será continuada no próximo semestre, por meio de uma metodologia que seguirá os seguintes passos:

1. Detalhamento destas e de novas propostas e análise crítica sobre a viabilização física das mesmas;

4. Apresentação de cenários de futuro relacionados às propostas gerais;

5. Avaliação criteriosa das diretrizes e suas propostas de implementação.

173 |

de planejamento urbano, a partir das quais serão comunicadas as intenções finais do planejamento e as suas possibilidades de implementação.

sétima parte: o planejamento

2. Delimitação das diretrizes de planejamento urbano; 3. Elaboração das propostas de aplicação das diretrizes


ALVA, J. C. R. Farinha de peixe e rações com proteína de origem vegetal formuladas com base na proteína ideal: desempenho, rendimento de carcaça e análise sensorial de carne de frangos de corte. 2010. 82 p. Dissertação (mestrado em Zootecnia). Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias Campus Jaboticabal. Universidade Estadual Paulista, Jaboticabal, 2010. AUGÉ, Marc. Génie du paganisme. Paris: Gallimard, 1982. BESTETTI, M. L. T. Ambiência: espaço físico e comportamento. Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia. Rio de Janeiro, v. 17, n. 3, p. 601-610, 2014.

anexos

174 |ambiente e cultura: uma proposta de planejamento urbano para assentamento costeiro

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178 |ambiente e cultura: uma proposta de planejamento urbano para assentamento costeiro

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Levantamento da situação física de 2000: alunos da turma de Planejamento Urbano e Projeto Arquitetônico, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, da Universidade Federal de Pelotas e professores responsáveis pela disciplina Ana Paula Neto de Faria e Maurício Couto Polidori.

Página 149: figura 1 - acervo do autor | figura 2 - acervo do Ecomuseu da Colônia Z3, disponível em: http://ecomuseudacoloniaz3. Página 151 - figura 1 - acervo do Ecomuseu da Colônia Z3, disponível em: http://ecomuseudacoloniaz3 | figura 2 - acervo do autor | figura 3 - acervo do autor. Páginas 152-163 - acervo do autor. Páginas 164-165 - figura 1 - Página Miniorgan, disponível em: http://www.minorgan.com.br/ | figura 2 - Página NauticExpo, disponível em: http://www.nauticexpo.com/pt/prod/candock-inc/product-22725-125876. html | figura 3 - Página La Parola, disponível em: http://www.nauticexpo.com/pt/prod/candock-inc/product-22725-125876.html | figura 4 - Página da Rádio Band News, disponível em: http://www.nauticexpo.

Levantamento de cores da Z3 de 2002: alunas da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Pelotas Claudio, Jociane, Juan, Marcia, Paula I e Vanessa e professoras responsáveis Natalia Naoumova e Ana Paula Neto de Faria. Os demais levantamentos são autorais, e foram realizados no semestre atual (2018/01).


TFG I | Gustavo Maciel Gonçalves | FAUrb-UFPel | 2018-01  

Exemplar gráfico de apresentação da proposta inicial para a aprovação na disciplina de Trabalho Final de Graduação I - Ênfase em Espaços Abe...

TFG I | Gustavo Maciel Gonçalves | FAUrb-UFPel | 2018-01  

Exemplar gráfico de apresentação da proposta inicial para a aprovação na disciplina de Trabalho Final de Graduação I - Ênfase em Espaços Abe...

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