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EDIÇÃO 01 - MAIO DE 2018

nosso MÍDIA ALTERNATIVA E COLABORATIVA

Feirinha do Tabuleiro e Prefeitura de Maceió: uma dupla necessidade. ACESSE NOSSO.NET

–PAG. 4 Defeitos e virtudes: Um estado de contradições. –PAG. 5

A revolução do YouTube


Sumário MATÉRIA DE CAPA

A revolução do YouTube. –PAG. 1

Feirinha do Tabuleiro e Prefeitura de Maceió: uma dupla necessidade. –PAG. 4

OPINIÃO

Defeitos e virtudes: Um estado de contradições. –PAG. 5

Edição 01 - Maio de 2018 www.nosso.net


Instituto de Ciências Humanas, Comunicação e Artes Comunicação Social Mídias Alternativas

nosso MÍDIA ALTERNATIVA E COLABORATIVA Edição 01 - Maio de 2018 www.nosso.net

Edição e Diagramação Gustavo Henrique da Silva Lucas William de Lima Vicente

Orientação Prof. Antonio Francisco Ribeiro de Freitas


A revolução do YouTube Como a plataforma de vídeos da Google se tornou meio de novos criadores e os desafios legais enfrentados para consolidá-lo como distribuidor de conteúdos autorizados. POR GUSTAVO HENRIQUE

Imagem: Pixabay

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om o aparecimento do YouTube, surge uma nova ferramenta de comunicação onde nós mesmo somos a mensagem, uma grande ágora virtual com diferentes pontos de vista e constantes conflitos de interesses. Andrew Keen (2007) elenca uma série de pressupostos pelo qual o advento de novas mídias, incluindo o Youtube, seria uma realidade prejudicial para a sociedade. Primeiramente ele demonstra uma preocupação sobre a qualidade dos discursos na internet e os problemas que isso poderia trazer. O YouTube sendo parte da internet também faz parte do ambiente pouco controlado que a mesmo é.

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Em consonância e semelhança com uma visão apocalíptica, Keen se preocupa com a enorme seara de grupos de ódio que através da internet encontraram voz e uma maneira fácil de reunião e compartilhamento de materiais. Tais grupos, protegido pelo relativo anonimato do ambiente, se utilizam de plataformas da Web 2.0 para demonstrações de ódio contra outros grupos que consideram em desacordo com suas crenças, atacando os valores da coletividade e da dignidade humana bem como os mais básicos sentimentos de simpatia e gentileza. Transpondo capacidades das tecnologias digitais e seu potencial de

viabilização de uma cultura de participação ativa, o YouTube também nos apresenta uma oportunidade de confrontar alguns dos maiores problemas da cultura participativa: a disparidade de participação e de expressão; as aparentes tensões entre interesses comerciais e o bem comum; e a contestação das normas sociais que ocorre quando sistemas de crenças. Interesses e diferenças culturais entram em conflito. Embora não seja o único meio de compartilhamento de vídeos, a ascensão do YouTube se tornou essencial para analisar a relação que se cria com o surgimento das novas tecnologias de mídia, portanto se tornou inegável a importância desse serviço para as indústrias criativas e tecnológica. Se costuma argumentar que o YouTube criou uma nova forma de relação com a produção audiovisual, onde qualquer um pode criar seu meio para difundir sua mensagem. Seria então sob esse aspecto uma forma mais democrática de fazer comunicação. Essa relação entre criador e conteúdo foi responsável por criar novas formas de lidar com a qualidade e a sensibilidade do conteúdo produzido. A ineficácia da lei em alcançar os meios digitais de uma forma que não atinja a privacidade e a liberdade de expressão, deu ao ambiente um clima ideal para que conteúdos de ódio e visualmente sensíveis sejam produzidos e distribuídos a todo momento nos diversos espawww.nosso.net


ços abertos de criação que a internet dispõe, colocando em evidência o dilema entre o direito de expressão e a incitação ao ódio. Mais recentemente, essa realidade entrou no debate público após os inúmeros exemplos dados por uma série de edições da revista Times de Londres que demonstraram a ineficácia do YouTube em filtrar os tipos de conteúdo que recebiam anúncios. Posteriormente o assunto repercutiu através do Wall Street Journal e alcançou proporções ainda maiores, principalmente para os anunciantes. Uma série de vídeos com discursos de ódio e conteúdo grotesco recebiam constantemente propagandas de anunciantes com Walt Disney, Coca-Cola e empresas de telefonia como Verizon, por exemplo. Como resultado, diversos anunciantes decretaram boicote ao YouTube em uma iniciativa liderada por empresas no Reino Unido e depois difundida por outras empresas ao redor do mundo. O boicote tinha como objetivo forçar a Google a tomar medidas contra os produtores e os vídeos que exploravam o incentivo ao ódio como forma de arrecadar dinheiro. O Google rapidamente buscou uma forma melhor e mais eficaz de controlar quais vídeos poderiam receber anúncios e que conteúdos inadequados fossem mais rapidamente identificados, através da imposição do mínimo de 10 mil views para alcançar a qualificação para exibir anúncios. Jean Burgess e Josua Green em “Youtube e a Revolução Digital” associam tais preocupações com um “pânico midiático”, onde as mídias tradicionais vêem no YouTube uma bipolaridade típica da juventude. Se por um um lado ela é empolgante e nova, por outro é inconsequente e perigosa. Os autores citam o trawww.nosso.net

balho de Hebdige (1988, p. 30) para identificar as origens de tal associação nas imagens da mídia britânica sobre a juventude do pós-guerra. Caracterizando-a como rebelde, criativa e perigosa. Os autores dizem que o medo em relação ao conteúdo potencialmente ofensivo é fruto de um possível exagero da mídia de massa, uma vez que tais conteúdos não representam o que compõe a plataforma como um todo, argumentando que os vídeos de ações ilegais, propaganda racistas e lesões corporais representam uma parcela muito pequena do conteúdo da plataforma e que na maioria das vezes também não alcançam uma parcela relevante de visualização e compartilhamento. Alertando para o que chamam de “pânico moral” da mídia de massa. O que para eles pode representar algo nocivo ao ponto em que não influem positivamente nas normas sociais dos que se utilizam do YouTube como plataforma de distribuição de seu conteúdo. Burgess e Green (2009) associam a produção dos vídeos para a plataforma com a ideia de “Faça você mesmo” como sendo a única forma aceita e original do modo de fazer para o YouTube, relacionando o conteúdo com a estética amadora e que retrata o cotidiano. Para os autores tais características é o que difere o conteúdo produzido pelo YouTube com o conteúdo produzido pela mídia de massa. O que parece datado para a realidade atual, uma vez que os conteúdos mais procurados e assistidos hoje em dia não são mais necessariamente sobre o cotidiano e quando são, a estética amadora não é tão apreciada como nos primórdios da plataforma. Os autores pensavam no YouTube como uma alternativa à mídia

de massa, quando na realidade a própria pretensão dos criadores da plataforma em se tornarem grandes nomes midiáticos os levaram a criar conteúdo profissionais e que tivessem a apelação de alcançar o maior público possível, bem com as variáveis do mercado empurraram a Google a utilizar das mesmas formas de captação de recursos que a mídia de massa já utilizava - como anúncios diretamente no vídeo para tornar o negócio financeiramente viável. Apesar de servir como mídia de massa, em sua essência e pré-requisitos, o YouTube busca a democratizar a plataforma na medida do possível. Desse modo, novas vozes emergem na plataforma. A ascensão de ícones formadores de opinião reflete a pluralidade de ideias e a capacidade de a plataforma lançar pessoas e fazer com que os criadores tenham alcance muito alto. A combinação de características sociais, com a produção de vídeos amadores, a convivência com vídeos profissionais, a difusão de conteúdo viral e a possibilidade de interação dos espectadores com eles, criaram uma atmosfera única para o anunciante, bem como um novo meio de difusão de conteúdo para os criadores. O YouTube então faz o “papel de veículo agregador de conteúdo” (Borges e Green, 2009) que se utiliza de criações de terceiros para vender publicidade e posteriormente dividi-las com os criadores. É unicamente o papel de intermediar a relação do criador com o anunciante, bem como de ser o veículo para que o conteúdo seja distribuído. Portanto o custo de produção fica apenas sob o encargo dos participantes e o YouTube seria a forma com que eles pudessem obter mais exposição e uma relação com os anunciantes.

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Imagem: Pixabay

No entanto, tais práticas comerciais têm enfrentado muitas objeções, principalmente dos grandes meios de comunicação e das grandes indústrias de conteúdo cultural, mas também com dos próprios participantes da plataforma. Grandes produtores de mídia e detentores de direitos como os grupos Warner e Universal Music mantêm acordos de compartilhamento de receitas de publicidade. Enquanto outros grandes produtores, rejeitam o modelo de negócio da plataforma, argumentando que o serviço ajuda na violação de direitos autorais e lucra com essa atitude (Helf, 2008). Os próprios participantes infringem direitos autorais com a utilização de músicas, trechos de filmes, programas de TV, fotos e gráficos de terceiros. Nesse sentido, o YouTube desempenha um papel de destaque na cultura de convergência e transmídia — definida por Jenkins (2008)

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como um processo “onde os elementos integrantes de uma ficção se dispersam sistematicamente em vários canais de entrega com a finalidade de criar uma experiência de entretenimento unificada e coordenada —, uma vez que a plataforma oferece um espaço aberto para que os consumidores exponham suas considerações sobre aquilo que foi transmitido em outra mídia, criando novas e diversas perspectivas sobre um mesmo conteúdo. É comum que os internautas usem a plataforma para comentar ou criticar um filme, um livro ou programa de TV, para criar paródias, curtas de desenho animado, usando para isso fragmentos da obra original, o que em boa parte das vezes podem ser detectadas como um plágio ou uma reprodução ilegal pelos softwares de gerenciamento de direitos digitais, que não sabem diferenciar um conteúdo derivado de uma reprodução não autorizada.

O cerco contra a tolerância do YouTube em relação a quebra de direitos autorais aumentou ainda mais com a melhoria da eficiência dos softwares de Digital rights management (DRM) e com o surgimento de plataformas como Netflix e Spotify, que buscaram conciliar a indústria audiovisual com o ambiente digital, atendendo aos anseios por pagamentos de direitos autorais através da cobrança direta dos usuários. Além disso o advento dos ad blockers e dos bloqueadores de monitoramento de navegação, colocaram em questionamento a eficiência e o futuro dos anúncios digitais na medida em que o modelo de assinatura paga se tornou um meio real de monetização para as plataformas e para as grandes produtoras de conteúdo. Enquanto os anúncios digitais passaram a ser considerados abusivos e arriscados para a privacidade por muitos internautas que recorrem a extensões como o AdBlock. www.nosso.net


Feirinha do Tabuleiro e Prefeitura de Maceió: uma dupla necessidade Debate entre orgãos competentes e vendedores é sobre as localidades impostas pela Prefeitura, não agradando parte dos comerciantes que preferem ocupar calçadas para venda de produtos. POR LUCAS WILLIAM

Reprodução: Pei Fon/Secom

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ma problemática antiga ressurge entre feirantes e a Prefeitura de Maceió: um número crescente de novos comerciantes, surgido principalmente no período de 2015-2016, somados a alguns dos antigos vendedores, ocupam novamente as ruas e calçadas do entorno da Feirinha do Tabuleiro. O local é alvo de debates e observação quando o assunto é convívio urbano e comércio de alimentos. A feira é praticamente um patrimônio do bairro, antiga, tradicional, atende www.nosso.net

à demanda popular com preços em conta quando comparados com estabelecimentos privados. “O fluxo de pedestres e de veículos é prejudicado com essa constante histórica de vender nas calçadas” afirma Wanderson Farias, integrante da Assessoria de Comunicação da SMTT, a Superintendência Municipal de Transportes e Trânsito. Em concordância, o líder da ASFEMPT, Associação dos Feirantes do Mercado Público do Tabuleiro, Nilson Sabino, argumenta que “uma nova reordenação é urgente e necessária”.

O ponto defendido por alguns feirantes é o de que a atual localização simplesmente não atrai clientes. “Não consigo vender o necessário para pagar as contas no fim do mês” diz José da Silva, 73, um dos mais antigos comerciantes da Feirinha do Tabuleiro, “na rua o comprador tem contato direto com o produto, quando nos mudam de lugar, sempre somos prejudicados. Ninguém vai comprar onde colocam nossas barracas.” A Secretaria Municipal do Trabalho se reuniu no dia 23 de fevereiro com lideranças do comércio da feira, discutindo pontos que sempre são requeridos: iluminação, limpeza e também segurança, já que a Feirinha conta apenas com um pequeno posto de policiais militares. A ação de reordenamento é conjunta entre a SEMTABES, SMTT e a Superintendência Municipal de Controle do Convívio Urbano, que transfere os materiais dos vendedores para auxiliar na mobilidade e colaborar na fluidez do trânsito de pedestres e veículos. “A nossa exigência é que as coisas aconteçam sem prejudicar ninguém. Sabemos da importância da Feirinha do Tabuleiro na vida dessas pessoas e também sabemos que um local organizado e higienizado é imprescindível para o bem-estar dos clientes e dos próprios feirantes” completa Nilson.

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Defeitos e virtudes: Um estado de contradições A desigualdade de Alagoas é uma das causas da existência de seu lado bom e de seu lado ruim. Duas faces de uma mesma moeda, onde um lado não consegue enxergar o outro. POR GUSTAVO HENRIQUE

Vale do Reginaldo (Reprodução: Pei Fon/Secom)

Alagoas é um estado de contraste, realidades distintas coexistem proximamente e em uma área muito pequena. Dentro do estado e das cidades existem a mesma lógica de separação de classes. O lado mais pobre, dependente do poder público, vive sem oportunidades, educação, saúde e saneamento. Outro lado, mais desenvolvido, com seus moradores usufruindo de serviços privados, goza de mais educação, mais saúde, mais oportunidades de emprego e renda. O sertão do estado é a área mais pobre do estado, a maioria das pessoas vive através da agricultura de subsistência e depende de maneira substancial do poder publico para transferência de renda e para subsidiar sementes para o plantio, enquanto o agreste tem uma agricultura mais pujante, um comércio www.nosso.net

mais desenvolvido e uma indústria mediana. O litoral do estado monopoliza a riqueza e os empregos em setores como a indústria alimentícia e do turismo. A desigualdade de Alagoas é uma das causas da existência de seu lado bom e de seu lado ruim. Duas faces de uma mesma moeda, onde um lado não consegue enxergar o outro. Ricos e pobres se fazem invisíveis para não cutucar a ferida inflamada que já manda sinais claros de que precisa ser diagnosticada e tratada o mais rápido possível. O estado tem o menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDHM) do país, 0,667, segundo dados do IPEA com dados que compreende o período entre 2011 e 2014. O estudo leva em consideração a renda, longevidade e educação. A educação é um de seus principais problemas, o

Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) do estado está entre os piores do Brasil. Alagoas ocupa o último lugar no ranking, com pontuação média de 2,6 para o ensino médio no ano de 2014. Outro grande problema é cobertura de esgoto, apenas 19% de toda da população do estado tem cobertura de esgoto, o que faz com que seja comum o descarte ilegal de esgoto em ruas, rios e galerias pluviais, causando doenças na população que mora em áreas contaminadas. Apesar uma melhora recente, o índice de violência do estado é alarmante, com uma taxa de 50,8 por 100 mil habitantes, ocupa a segunda colocação no ranking dos estados. Apesar de tantos problemas, Alagoas tem uma cultura rica, com danças, folclore, uma diversidade de trabalhos artesanais e uma culinária diversa e com várias influências e sabores. Outro grande legado do estado são suas figuras históricas, entre elas, Zumbi dos Palmares, Marechal Deodoro e Graciliano Ramos. O turismo é uma vocação do estado, apresentando crescimento a cada temporada, apesar do desafio da segurança pública. Esses contrastes é que faz com que Alagoas seja o que ela é, um lugar que desperta amor e ódio, mas que também renova as nossas esperanças de um futuro mais próspero.

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Revista nosso  

Primeira edição da Revista Nosso.

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