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Laรงos


Livro de Contos


Silvia Buss


Laรงos


Laços 2011 © Silvia Buss Edição da autora Projeto gráfico, diagramação e capa: Byrata Revisão: Maria Regina Caetano Soares

ficha catalográfica

Impresso em abril de 2011, na Gráfica e Editora Pallotti Santa Maria - RS - Brasil Capa: Papel Supremo 250 / m2 Miolo: Book paper 70 gr / m2 Fontes: Calibri, Tymes New Roman, Scrpitina, SwitzerlandInserat

contato Gerenciamento Editorial Twiggy Agência de Conteúdo e Novas Mídias Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil www.agtwiggy.com.br Contato: twiggy@agtwiggy.com.br


Indice O elevador/pag.9 Chorando o morto errado/ pag.17 Fê, para eles/ pag. 21 Um dia de morte/ pag. 27 A carne é fraca/ pag. 31 A máquina de faz de contas/ pag. 35 Família roubada/ pag. 41 Laços/ pag. 47 Sem identidade/ pag. 53 A vingadora/ pag. 59 Perto do fim do mundo/ pag. 65 Perto do fim do mundo II/ pag. 73 As intrigas do Zé banana/ pag. 79 Mulher fatal/ pag. 85 Para sempre solteiro/ pag. 89 Para sempre solteiro II/ pag. 95 O guarda-livros/ pag. 101 Erro fatal/ pag. 105 As confusões do Juca carteiro/ pag. 115 Amantes por acaso/ pag. 121 A sogrinha/ pag. 129 Entre duas mulheres/ pag. 137 Matador de maridos/ pag. 145 Agruras de uma relação/ pag. 151 Troco por ganso/ pag. 159 Tiro na culatra/ pag. 165 Sorriso maroto/ pag. 169 Atrevida/ pag. 173


Laços/ Silvia Buss

O elevador

De “mala e cuia na mão”, Aninha entrou no elevador, no segundo andar do prédio em que morava. Feriadão à vista... Ela resolveu fugir do movimento da capital, rumo ao litoral. Ansioso, o marido a esperava na garagem, ligando centenas de vezes para o celular da mulher. Mas ela era daquelas de deixar tudo para a última hora. Já passava do combinado e nada de Aninha dar o ar da graça. Enquanto isso, ela deixou o celular tocar enlouquecidamente, pois não tinha mão para retirá-lo do bolso. Parou, respirou profundamente, já que pretendia iniciar as “breves férias” da repartição pública em que trabalhava há alguns anos, com muita calma, sem nenhum estresse. Ao contrário do já estressado marido, desde que ela decidiu rumar ao litoral, fato que ele teve que engolir “goela abaixo”, abrindo mão do feriado na romântica serra gaúcha, tal o poder de convencimento de Aninha. Cheia de embrulhos nas mãos, Aninha, ao invés de descer para o andar das garagens, encontrava-se no décimo-segundo andar. Teve a pouca sorte da proprietária do 1203 ter chamado o elevador antes dela. Aninha, repleta de sacolas e tranqueiras, sorvia com dificuldade um chimarrão, quando Lucinha, a vizinha, entrou com toda a bagagem.

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Lucinha há algum tempo, era a síndica do prédio. Desde então, muito atrito travou-se entre as duas que “mal e porcamente” se toleravam. Fizeram pacto de boa vizinhança, somente pelo social. Haviam disputado a sindicância e, por pouco mais de dez votos, Lucinha vencera. O fato deixou Aninha com a pulga atrás da orelha, visto os inúmeros moradores que diziam tê-la apoiado. Aninha até reivindicou nova contagem, jurava de pés-juntos que havia sido enganada e blábláblá. Cada qual queria ter o privilégio, diante da crise mundial, de livrar-se do condomínio, o que era, de certa maneira, o pagamento àquela que daria “sangue e suor” pela conservação do antigo prédio de doze andares. Depois de um seco bom dia, e de uma demora de quase quinze minutos, enquanto a mulher colocava os pertences dentro do elevador, cuja quantidade denunciava igual saída para curtir o feriadão, as duas se apertaram no minúsculo local. Espremeram-se ao máximo, para depois o acionarem rumo ao andar das garagens. Foram intermináveis minutos, em que Aninha tentava disfarçar o desafeto com a presença inesperada da outra, olhando-se no espelho, na tentativa de espremer um cravo dali, outro daqui. Já acomodadas, devidamente apertadas, foi acionado o quase obsoleto elevador que Aninha havia prometido: - Se eleita fosse, trocaria a “caixa velha” por algo mais veloz e potente. Em algum momento, o celular de Aninha chamou novamente, mais esganiçado do que nunca, ecoando dentro do minúsculo espaço de “latão”, confundindo-se com o barulho da “caixa velha”. O dito se encontrava no bolso direito do casaco

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de algodão que ela vestia, e que serviria de abrigo durante as tardes fresquinhas do litoral. Novamente, deixou que tocasse, até que a outra, irritada, questionou: - Porque não atendes? Já não basta este aperto? Meus ouvidos não estão aguentando tanto barulho. Aninha, tentando manter calma, se contorceu na tentativa de buscar o “escandaloso”, quando deixou cair a térmica de água quente que se estilhaçou entre os vários pertences de Lucinha, provocando enorme bagunça, manchando pacotes e mais pacotes, cuja tintura dos embrulhos se espalhou no elevador. A inconformada vizinha do 1203 somente balançou a cabeça, demonstrando toda a raiva ao vê-los sendo destruídos. Diante do fato, Aninha se viu na obrigação de pedir desculpas. Rapidamente, afastou com o pé os restos da garrafa para debaixo da mala da companheira de elevador, onde o estrago seria menos evidente. Sem ter o que fazer Lucinha novamente balançou a cabeça de um lado ao outro, enrugou os finos lábios, demonstrando que, a caro custo, aceitou o pedido de desculpas. Apesar de, no fundo, considerá-lo pouco, e nada do que fosse dito iria refazer o estrago. Desculpas aceitas, com o ar irônico que só Lucinha tinha, e que arrepiava vários condôminos, param no oitavo andar, onde alguém solicitara o elevador. Diante de um grupo de moradores ansiosos que esperavam a vez de desfrutar do elevador, as duas, quase histéricas, gritaram: - Não cabe mais ninguém! Aninha, olhando as bugigangas de Lucinha, completou: - Com o tanto da “mudança” que a síndica carrega, é bem capaz de a lata velha cair!

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Olhando bem na cara de Aninha, Lucinha respondeu: - Não provoque. Eu estou aqui na minha! Meu prejuízo já foi o suficiente. Falou batendo com os dedos na boca, como que dizendo: melhor me calar, ou a coisa vai ficar feia. Ambas fixaram o olhar no marcador que indicava o andar em que o “lentinho” se encontrava. Tentaram segurar as emoções por mais alguns minutos. Mas entre o quinto e o quarto andar, o dito deu uma sacolejada diferente e “estacionou”. O breu encorajou Aninha a dar mais uma alfinetada na síndica: - Se o prédio tivesse um síndico que prestasse isso não aconteceria. Ainda no escuro, escutou da boca felina de Lucinha: - Se todos os condôminos pagassem em dia, com certeza, isso não teria acontecido. Fazer o quê? Tem gente que pensa que pode viver num prédio como este por conta das aparências. O prédio, apesar de antigo, tinha seu charme, era bem frequentado e significou, em outros tempos, status aos moradores. Já bastante desgastado, precisava de várias reformas. Logo que a luz voltou, as duas olharam-se com certo desconforto pelas palavras ditas no escuro, esperando que o elevador desse sinal de vida, mas foi um ledo engano: passados quinze minutos de “descanso” do obsoleto, Lucinha e Aninha resolveram, quase ao mesmo tempo, sentar. A confusão recomeçou, foi um arrasta pacote pra lá e pra cá, que os deixou em frangalhos. Além de encharcados, ficaram mexidos e remexidos e nenhum conteúdo pertencia mais ao pacote original. O telefone de Aninha tocou. Talvez pela ausência de barulho do elevador, ou pelo silêncio do “nada”, “gritou” como

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nunca, dessa vez, muito bem recebido, já que estava com a bateria fraca. Foi só o tempo do marido de Aninha berrar, dizendo que estava desistindo da viagem. - Resolveu ir ao banheiro logo agora? Não dava pra esperar? Acho que tu também estás com probleminha... Aninha o interrompeu e falou ríspida, num sopro só: - Olha aqui, me escuta. Cala a boca, poor favoor! Estou presa no elevador - a lata velha se rebelou - liga pra manutenção, estou sem bateria. Quase quarenta minutos de “carceragem”, as duas mulheres, sem poder conter a língua resolvem passar o tempo fofocando sobre os vizinhos do prédio. Lucinha, como síndica, se manifestou dizendo que assim como eles do 202, outros tantos tinham o “costume” de atrasar o condomínio. E o disse com toda a sabedoria: - Não é teu caso que realmente não pagas em dia por ganhar pouco. Afinal, repartição pública... Marido desempregado, tal e coisa... Deve ser uma barra. Mas o do 604 é um baita malandro, a mulher entrega o valor do mês pra ele, pra quê? Saberias me dizer? Felina como uma onça no cio, Aninha desembuchou o que sabia sobre a coitada da mortal enfermeira do 604, a fim de desviar o assunto de si mesma: -Não posso afirmar nada, pois nunca vi, mas, dizem as más línguas... No mesmo momento, ela bate com a ponta dos dedos na boca: -Deus me perdoe estar fazendo blasfêmia, mas o fulano da branquela esta traçando a morena do 402.

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- Jura? Então ele é pegador mesmo?! Pelo que sei, ele anda de casinho com a empregada da cobertura, minha vizinha, aquela boazuda que olha a gente de cima a baixo e até parece patroa. O elevador deu uma sacolejada, parecendo que ia dar a arrancada, mas logo engasgou novamente. Como velhas “amigas”, elas continuaram o papo que já rendia muito. Dessa vez, foi Aninha quem iniciou: - Diga lá! Tu, como síndica e sabedora dos acontecimentos, a filha do Seu Gumercindo do 307 já confirmou? - Confirmou o quê? - Então tu não sabes? Parece mulher traída que sempre é a última, a saber. Corre um boato que a filha dele está grávida. Só não sei dizer se o pai é teu filho. Feroz e maldosa continuou: -Eles estavam de namorico, não é? Não poderia ser diferente, visto o “agarro” dos dois na piscina; tinha que acabar nisso, mais cedo ou mais tarde. Será que devo cumprimentar a futura vovó? Pálida como os desbotados papéis dos encharcados embrulhos, Lucinha preferiu o silêncio a rebater a acusação. - Falando em filho, quando pretendes ter um? Se demorar mais um pouco, terá idade pra ser avó. Corre solto entre a vizinhança que teu marido tem “probleminha”. Continuou com a maior delicadeza: - Eu, como gosto das coisas claras, e a oportunidade se fez, prefiro perguntar direto à interessada: - É mesmo problema na próstata? Coitado tão jovem e já... 14


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Sem terminar a frase, se fez entender que o fato não era mais segredo no prédio. O assunto, guardado a sete chaves pelo casal do 202, fora exposto sem pudor pela síndica. Aninha sentiu-se na obrigação de “culpar” alguém pela situação constrangedora do marido “brocha” aos olhos ouvidos e boca dos moradores. -Sabia que não poderíamos confiar no médico safado do 905, baita charlatão, se diz médico, mas penso que comprou o diploma. Quer mesmo saber? Meu marido esteve por um tempo estressado, pois foi despedido da multinacional, sem dó nem piedade. Nada que não tenha volta. Aninha, inconformada, continuou: - Ele até já consultou outro médico. Um que presta e que prometeu resolver o probleminha logo, logo. No elevador, outra vez, se fez a maior escuridão. As mulheres se calam. Cada qual respirando mais ofegante do que a outra. Sem demora, a “lata velha” sacolejou e despencou em queda livre, estacionando em frente aos dois maridos que batiam um papo super animado. Cada um deles auxiliou a mulher, sem deixar de comentar sobre o jogaço da noite anterior, que dera vitória ao timão. As duas descompostas, com os nervos em frangalhos, despediramse como se educadas fossem, cada uma em seu carro, com seus respectivos cônjuges. Sentindo-se seguras, tomaram caminhos opostos. Aninha virou à direita, logo que saiu do prédio e Lucinha virou à esquerda. Quatro horas depois, dois carros disputavam a única vaga na “Pousada do Mar”. 15


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Lucinha e Aninha tiveram a mesma ideia: passar o feriadão à beira-mar, à revelia da vontade dos maridos que preferiam a romântica serra gaúcha. As mulheres olham-se dos pés à cabeça e falam a uma só voz: - Tu por aqui? Enquanto isso, os maridos confirmavam, entre tapinhas nos ombros, demostrando-se grandes amigos, a pescaria na “Ponte do Imbuí”, naquele mesmo dia, à tardinha.

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Chorando o morto errado

Maria do Horto era fissurada por velórios. Bastava saber da morte de um conhecido para ela se “pilchar” e velar o morto. Não importava sol ou chuva, frio ou calor, tampouco a distância que teria de percorrer: o que a interessava era o defunto e o ritual do velório. Dona Candinha, senhora bastante idosa, mãe de Maria do Horto, conta que a filha adquiriu esse gosto desde muito cedo, quando a avó paterna, com a qual fora criada, partiu desta para uma melhor, conforme lhe confidenciara o pai. Maria do Horto era solteira e vivia nos arredores de Pinheiral, na casa onde nasceu, cresceu e onde pretende ficar para sempre, em companhia da velha mãe, até que chegue sua vez de desencarnar. A mulher de pouco mais de quarenta anos chegou a namorar o filho do dono da funerária, mas ficou “viúva” antes mesmo de casar: o rapaz sofreu um acidente com o carro fúnebre, no qual transportava um morto para o interior do interior de Pinheiral. Do acidente, não sobrou ninguém para contar a história. A mulher jurou, junto ao caixão do noivo, permanecer fiel até o último dos dias e passou a usar luto fechado. Não folgava o luto nem para dormir: camisola, calcinha e sutiã, que lhe sustentavam os fartos peitos – tudo pretinho. Tinha como única finalidade na vida frequentar velórios e chorar a morte.

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No princípio, Maria do Horto se fazia presente apenas em velórios de conhecidos; depois, frequentava o velório do conhecido do conhecido. Mais tarde, frequentava o velório do conhecido do conhecido do conhecido. Chorava em todos como se fosse viúva, a filha, a mãe, a irmã, ou uma familiar bem chegada ao morto. Seu maior prazer era receber os pêsames, sendo que os aceitava e lastimava a “perda”. Chegou a assinar o jornal da pequena cidade de Pinheiral somente para ler o obituário. Com isso, mantinha-se informada sobre os velórios, descobrindo-lhes o local e o horário. Chegava já sabendo o nome do morto, a causa mortis, a idade, o dossiê completo do dito cujo. Dona Candinha já não cozinhava mais na primeira, tampouco na segunda... Nem na quinta ou sexta fervura... A pobre velha passava os dias sozinha, enquanto a filha chorava a morte dos outros. Do Horto corria de um velório para o outro, gostava do ambiente do velório, já que não frequentava cemitérios, parte que não era sua “praia”. Durante os vários anos em que Maria Do Horto frequentou velórios alheios, encrencou-se apenas duas vezes: uma, quando ao ser confundida com a viúva de um contínuo da prefeitura, chorando muito, recebeu um cartão de pêsames assinado pelo prefeito, o qual ela guarda como recordação até hoje. A verdadeira viúva, ausente do recinto por um curto espaço de tempo, ao retornar, botou a “boca no trombone”, falou mal e esbravejou contra ela, pensando que Do Horto fosse “a outra”, que enfraquecera o pobre Vitório, levando-o à morte. Desse velório, Maria Do Horto foi expulsa e não chegou à despedida – outra de suas partes preferidas, quando se “escabelava” e chorava mais do que qualquer um dos familiares. 18


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Deu-se mal uma segunda vez, quando jurou, de pés juntos, enquanto era chamada de doida ou coisa parecida, que a defunta, morta por assassinato, insistia em lhe dizer que o marido era o cruel assassino. O fato gerou uma sindicância policial contra um importante fazendeiro da região, causando bafafá, e rendendo a Do Horto um processo judicial. Nos demais, não era reconhecida por qualquer familiar do defunto que, tampouco, se importavam com sua presença – pensavam ser alguma carpideira que ajudava na “passagem” do morto para junto do Senhor. Dona Candinha justificava o luto permanente da filha, bem como o gosto por velórios para si e para os demais, que, intrigados, indagavam se ela pertencia a alguma seita ou coisa parecida, com a pouca voz que ainda lhe restava: - A coitada da Do Horto é muito solitária desde que perdeu o noivo. A solidão tornou-se para ela a companheira número um; os velórios passaram a povoar e a minimizar essa solidão e blábláblá... Continuava justificando o gosto da filha numa lamúria de dar dó. Maria do Horto costumava chegar aos velórios já com o curriculum vitae do defunto na ponta da língua. Passava o tempo todo entre soluços e no disse-me-disse com um ou com outro; fazia questão de contar tim tim por tim tim sobre a vida do defunto. Quando não encontrava ninguém para descarregar toda a sabedoria e a dor que sentia pelo morto, pegava o terço e falava palavras de conforto aos presentes. Na manhã de sábado, dia em que ocorria muito velório em Pinheiral e região, Do Horto acordava bem cedinho, antes mesmo da velha mãe, lia e relia o obituário, circulava os velórios que mais lhe interessavam. Em pé, enquanto colocava as grossas

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meias pretas que finalizavam a indumentária necessária para a ocasião, bebia uma xícara de café bem forte para garantir a força de chorar o dia todo. Desembarcou do ônibus, seis horas em ponto, em frente ao necrotério. Dona Candinha fora encontrada mortinha da silva. Do Horto não chorou a esperada despedida da mãe. Nesse dia, ela chorava o morto errado.

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Fê, para eles

- Malandro! Cachorro!Velho babão! Acorda vagabundo! Sem respostas, sem mexer um fio de cabelo, ainda no “céu”, Seu Túlio foi acordado pela mulher. Sentia-se no inferno. Abriu um olho, deu um bocejo, deu-se conta da presença de Isaura, sua mulher há quarenta anos. O velho não tivera trégua, esperou que ela detonasse tudo para, então, levantar-se. - Olha essa camisa ainda manchada de batom... Que cheiro de lavanda barata... Ela “metralhou” Seu Túlio até se cansar. Saiu do quarto e encontrou o filho no corredor. - Outro sem-vergonha! Disse entre dentes. Fernandinho era “veado” assumido, vivia na noite, dizia que trabalhava num barzinho; por isso dormia boa parte do dia. Que sina, pensava Isaura. Seu Túlio aposentara-se por problemas no fígado. - Dinheiro fácil! Que doença que nada! É pura bebida. Além de beberrão, é mulherengo, resmungava a mulher. Lavando as roupas no tanque da pequena e úmida área de serviço, choramingava a infelicidade: - Que sina a minha vida! Para completar, a coitada da Laura, com marido desempregado. Dona Isaura não tivera sorte nem com o genro.

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Seu Túlio costumava ficar pelo bar, na esquina de casa até altas horas; gastava uma boa quantia da minguada aposentadoria com bebidas e mulheres. Era chegado em umas fugidinhas, não sentia vergonha, se considerava o garanhão do pedaço. Talvez para compensar o falatório maldoso que, vez ou outra, era obrigado ouvir do “veado” do Fernandinho. Ele não sabia como o guri tinha saído assim. Dizia ser coisa de Isaura que mimara muito o piá. Fernandinho, desde pequeno, costumava ficar entre as clientes de Dona Isaura que costurava para fora e tinha muitas freguesas. Dona Isaura só atendia a freguesia durante à tarde; pela manhã, organizava a casa e fazia almoço e jantar. Depois do meio-dia, dedicava-se à costura e, com o que ganhava, garantia pelo menos a água e a luz da casa. Fernandinho, vez ou outra, ajudava a mãe. O rapaz era habilidoso. Levava jeito para a costura. Muitas vezes, sugeria modelos e cores para as clientes da “estilista”, dava umas boas rabiscadas, com direito a assinatura e tudo mais. A mãe tinha que se conformar. O filho era “veado”, e ela nada podia fazer. Seu Túlio engolia a comida, sobra do meio-dia, colocava o chapéu, para não tomar o sereno da noite, e saía para vagabundear. Deixava para trás a voz da mulher, que berrava xingando o velho: - Já tá saindo? Se morrer, não quero nem saber. Enterrote em cova bem rasa, num caixão bem barato. Por sinal, já deixa o dinheiro, porque, se depender de mim, tu será enterrado no chão mesmo.

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Logo voltava às costuras, ligava o radinho no programa sertanejo, gênero de seu agrado, e costurava por horas. Perto de meia-noite, Fernandinho saía do quarto, cheiroso como um príncipe. Sempre se apresentava com uma roupa nova; beijava a mãe e zarpava para sua “atividade” em um bem frequentado bar da zona sul. A mãe desconhecia o bar, mas se o filho dizia, estava dito. Todas as terças-feiras, às nove da noite, a filha ligava a cobrar para dar notícias e saber como estavam Fernandinho e o pai. Dona Isaura atendia. - E aí? Teu marido ainda está desempregado? - Como sempre!Respondia a filha. Sem muitas delongas, despediam-se, para não sair cara a ligação. Voltava Dona Isaura para seu martírio, escutando as músicas preferidas, enxugava as lágrimas: umas de tristeza pela filha e outras pelo filho, outras tantas, de raiva do velho babão. Seu Túlio e Dona Isaura, há muito, não dormiam juntos, ela não aguentava o cheiro de bebida que o marido costumava exalar. Estendia uma caminha no quarto de costura e por ali se recostava. Todo santo dia pai e filho discutiam na hora do almoço. O velho insistia em não aceitar o filho, dizendo que ele devia se casar, pelo menos para dar uma justificativa à sociedade. - Grande sociedade, né, pai? Ironicamente respondia o filho, que logo bombardeava: - Que moral tu tem pra falar? É “bebum” e mulherengo. Pelo menos te cuida? Te protege? Ainda pega uma doença e passa pra mãe.

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O pai, nessas horas, se fazia de desentendido, desconversava e seguia comendo. A pobre de Dona Isaura preferia calar-se, deixava que brigassem, estava faminta e sabia que acabaria gritando sozinha. Seu Túlio buscava nos anúncios do jornal novidades sobre a cidade. Em uma página de classificados, encontrou um que o atraiu: “Fê: para eles. Morena doce, sensual, cheirosa e carinhosa. Sigilo total. Atende a partir da meia-noite. Telefone: 9999-9999... Dez reais à hora”. Recortou a página, destacando o anúncio. - Essa novidade é para mim! Dá no orçamento... Vou variar um pouco, pensou o velho babão. Na quinta-feira, arrumou-se mais do que o normal, barbeou-se, tomou um demorado banho. Deu-se ao direito de um perfume que buscou no quarto de Fernandinho. Pé por pé, saiu. Não queria ouvir a ladainha da mulher. Por mais que não se importasse, saía sempre chateado. “Tanto grito, nem santo aguenta” balbuciava o velho. Chegou ao ponto de encontro, um barzinho dos mais chulos, a luz negra dava um ar de mistério, o cheiro de incenso quase afogava. Mas o que ele buscava estava bem próximo. Aproximou-se de uma mulher gorda, com a boca pintada de vermelho, com unhas enormes que causavam medo. Mostroulhe o recorte do jornal. A gorda cafetina gritou: - Fê, é pra ti!

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Seu Túlio ficou de olhos fixos na figura que se aproximava. Com a penumbra não dava para ver direito, mas estava gostando da silhueta que vinha ao encontro dele. Cheirosa e faceira, Fê aproximou-se do velho, soltando uma gargalhada que ecoou pelas paredes velhas e bolorentas. Sem entender, a gorda cafetina viu o cliente de Fê abandonando o lugar, derrubando cadeiras e tudo mais a sua frente. Fernandinho, ao retornar para casa, encontrou sobre sua cama um bilhete: teu pai teve um troço. “Tamo” velando o velho na capela do hospital.

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Um dia de morte

Um dia de morte ou, quem sabe, “uma noite de morte”… Seu Amaro ainda não havia decidido. Andava bem indeciso quanto ao dia, hora e ocasião para dar fim à própria existência. Queria apenas que todos pudessem assistir e sentir, para sempre, um grande remorso. O homem havia casado muito jovem com Dona Quitéria, com quem teve duas filhas: Ermínia, a mais velha, e Amália. Duas víboras, tal qual a mãe. O velho só conhecera realmente as três mulheres de sua vida após aposentar-se. Antes disso, manteve-se muito ausente, era mais tempo no trabalho do que em casa. Começava na montadora ao clarear do dia e largava às seis horas da tarde, mas levava cerca de duas horas para retornar, isso se o trânsito estivesse fluindo bem. Nessas alturas do dia, ou da noite, as três já estavam em seus confortáveis cômodos e não se davam ao trabalho de esperá-lo, ou, então, na rua, em busca de marido. Dona Quitéria não perdia tempo em tentar “acomodar” as filhas e, para tal, participava de todos os eventos sociais para conseguir seu intento. Tanto procurou que conseguiu casar as duas de uma só vez. Por ideia dela, as filhas e os maridos continuaram a morar na grande e confortável casa. Seu Amaro até que ficou feliz com a sensata decisão da mulher; os gastos seriam divididos entre as três famílias, e ele teria dois cúmplices. 27


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- Bem que a casa estava precisando de mais pulso firme, pensava o velho. Não passou muito tempo para Seu Amaro perceber que dera com a cara na parede, pois os fracos maridos diziam amém para tudo que as mulheres falavam ou decidiam. “Também pudera, pensava o pobre homem, os genros, sem emprego fixo, faziam bicos aqui e ali e em nada colaboravam; no entanto, eram tratados a pão-de-ló pelas três víboras, e tudo à custa do bobão”... Sentia-se cada vez mais acuado, pois eram cinco contra um... Covardia! Pensava ele. A mulher sempre foi geniosa, mas, enquanto jovem, ele dava um jeito e logo acalmava a fera. À medida que o tempo foi passando, ela se transformou em um verdadeiro demônio. A princípio, seu Amaro pensou que fossem os hormônios, coisas de mulher na menopausa, mais cedo ou mais tarde, aliviaria. Ledo engano! Acontecia em tempo integral. O pobre velho escutava “qualidades” atribuídas a ele, bem caladinho - Chegava até concordar com muitas delas. Quando a mulher abria o bocão para chamá-lo de lerdo, múmia ambulante, descompensado, entre outros adjetivos, pensava ser tudo isso e muito mais, já que ele não conseguia decidir a própria morte... Coisa tão individual: morrer. A aposentadoria do velho era relativamente gorda; fora um dos primeiros empregados da montadora de carros, de marca famosa, a especializar-se no ajuste de uma peça fundamental, exclusivamente manual do motor. Por conta disso, treinara no exterior. Bons tempos aqueles! Pensava Seu Amaro, entre uma pausa e outra dos preparativos para o grande dia ou... Quem sabe... A grande noite. Recordava-se do tempo em que era dono do próprio nariz e dos narizes de suas mulheres. A última palavra era sempre a dele. Quem sabe, matutava o velho, não fora sempre assim, ele, manipulado pelas mulheres, que mostraram as garras tão logo

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ele se aposentou? Ele não saberia precisar quando sua vida fora invadida pelas três. Só sabia que até sua gorda aposentadoria era recebida por Dona Quitéria, já que elas conseguiram incapacitá-lo legalmente. Seu Amaro passava grande parte do dia perambulando e pensando, completamente sozinho; evitava retornar para casa, pois só servia de mandalete para todos e para tudo. Logo cedo, as três acomodavam-se, ainda de chambre, no vasto sofá da sala, esperando pelas receitas no programa da TV. Depois corriam para a cozinha preparar o quitute. Nesse momento, Seu Amaro já aguçava o ouvido para não perder nenhum item, que na certa, seria exigido pelas mulheres. Os gritos de Quitéria faziam-no estremecer. - Busca isso, isso e mais isso. Um pé lá, outro cá, nada de rodeios por aí. Ah! Não se esqueça do troco, velho destrambelhado. Dona Quitéria, satisfeita com a ordem, voltava o traseiro para ele, que só olhava a “abundância” da famigerada. Mandando ver no rebolado, ela rumava à cozinha para servir um farto café aos genros. Num pé só, o velho voltava do supermercado com as compras todas à mão, não podia esquecer-se de nada. Imaginando que podia ser aquele o grande dia, na hora do almoço. Daria o tiro fatal ou, quem sabe, cortaria a jugular, espalhando sangue por toda a comida tão bem preparada pelas endemoniadas. Assim, ninguém comeria e ainda teriam que limpar toda a sujeira. Mergulhado em pensamentos e já voltando para casa, encontrou outro “sofredor”, apostando no jogo que estava acumulado. Sem vacilar, comprou o último bilhete. Ao passar pelo boteco do Anselmo, antes de chegar a casa, o velho parou

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para ouvir o sorteio. Conteve o coração para não morrer de morte morrida. Naquele instante, quem não queria saber de morrer era ele. Largou todas as compras no chão, dirigiu-se à agência bancária mais próxima. Guardou o dinheiro em uma conta nova, somente sua. Com passos firmes e decididos, chegou a casa de mãos vazias, já passando do meio-dia. Ao som dos gritos das mulheres e dos genros, colocou algumas poucas roupas na valise e, já deixando a casa, disparou: - Esse foi um dia de morte!

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A carne é fraca

A casa de carnes da pequena cidade do interior gaúcho era conhecida como o açougue do Chico. Localizava-se em um ponto estratégico da cidade, ao lado da rodoviária, em frente à praça principal. Era um açougue tradicional e muito movimentado. Ali se encontrava todo tipo de carne: desde as miudezas até as partes nobres da rês; carne suína, bovina e ovina da melhor qualidade. “-Se não fosse macia, podia-se devolvêla”, falava o conversador açougueiro. Chico era um homem corpulento, viçoso, nem feio, nem bonito, mas era pegador. Costumava dizer que a carne é fraca, visto que ele era capaz de desossar uma rês em pouco mais de uma hora. Então, como resistir a um pedaço de carne farta de gordura e bem viva? Ele era chegado numa fartura de gostosura. Afirmava que quem gosta de osso é cachorro. Desde guri, incentivado pelo pai, era dado a garanhão: homem para ser homem devia ter várias mulheres. Chico acolheu o “bom exemplo”. Quem estivesse com Chico deveria se acostumar, ele não era homem de uma só mulher. Estava casado com Mafalda, mulher de pouco mais de vinte e cinco anos, recatada e muito religiosa, grávida de seis meses do primeiro filho de Chico. A pobre moça aguentava de tudo do famigerado marido e, grávida e enjoando, perdeu peso. Não estava no ponto que ele gostava, e ela que inventasse de emagrecer, ficar pele e osso. Chico ia

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logo avisando que não era cachorro, e a coitada tinha que ouvir tal desaforo. O esperto açougueiro, às vezes, vendia gato por lebre, limpava bem os pedaços menos nobres da rês, e as vendia como sendo de primeira. Enganava lindo! Principalmente a mulherada. Todas que frequentam o açougue já haviam experimentado a lábia de Chico, tanto as novas como as mais maduras. Dava chance? Lá estava ele com sua cantada. Chico beirava os quarenta anos, mas parecia bem mais jovem e tinha uma energia de dar inveja a qualquer um. Seria capaz de levantar do caminhão um boi inteiro, e se orgulhava muito da força, encantando as mulheres que comentavam meio tímidas: - Como és forte, Chico! Bastava para que ele se sentisse no direito de avançar. A minguada Mafalda que botava os bofes para fora de tanto vomitar dava graças a Deus quando o marido precisava ficar no açougue, durante a noite, para receber as mercadorias que chegavam de vários lugares. Assim não teria que “atendêlo”. Quando ela não estava grávida, costumava ficar com Chico no açougue a espera de mercadoria. Chico, prevenido, havia providenciado um quartinho bem aconchegante nos fundos do comércio. Fora ali que Mafalda o conhecera: no “matadouro”, como o assanhado chamava. O quarto continuava frequentado por mulheres de todos os tipos e idades, bastava ter carne, nada de osso. Muitas ele refugava, orientando, com chulo vocabulário, que comessem mais e depois voltassem.

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Mafalda questionava-se como se envolveu com um grosso. Logo ela, “filha de Maria” e bem criada pelas freiras? Ele soube temperar o romance, tinha receitas boas, e com isso conquistara a virgem filha de Maria. Ela já estava enojada com os modos do marido. Deixava passar, para depois decidir o que fazer. Chico jamais se conformaria em ser abandonado por mulher, imagina, então, pela mãe de seu filho. Quem largava era ele, nunca elas. O papudo do açougueiro estava na mira dos brigadianos, desconfiados de que ele andava recebendo carne clandestina. A cisma com Chico aconteceu por causa do major, casado com uma freguesa gostosona do açougue, e que já passara pelo matadouro de Chico. Depois de descartada, ela deu com a língua nos dentes. O marido preferiu não entender, pois teria que dar sumiço no açougueiro, mas decidiu que havia chegado o momento da forra. Os brigadianos ficaram de tocaia noite após noite. Assistiram um desfile de mulheres entrando e saindo do quartinho dos fundos, mas nada de caminhão. O major não desistiria. Por mais frio que fizesse, estaria na hora do crime e pegaria o sem-vergonha com a faca na mão. Lá pela quinta noite, um caminhão lotado de carne estacionou em frente do açougue. Toda a mercadoria foi descarregada e, então, dado o flagrante. - Carne sem procedência, “cana” para todos. O advogado de Chico, mais sem-vergonha do que ele, conseguiu um “habeas corpus” tão logo o dia amanheceu. Chico retornou com a maior cara de pau para atender no comércio de carnes. Contava o que lhe viesse à cabeça, tudo sempre a seu

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favor. Uns acreditavam, outros nem tanto, pois ele tinha fama na cidade. Mafalda teve o filho, praticamente sozinha, não conseguiu encontrar o marido na noite do parto. - Desgraçado, vai ver o que é bom, não sou mais “filha de Maria” se continuar com esse perverso, falava a mulher. Depois de muita confusão entre Chico e a mulher, entre os maridos “cornos” e Chico, entre a polícia e Chico, sem tirar os fazendeiros que reconheciam os animais pendurados nos ganchos do açougue, Chico viu-se encrencado. Certa manhã de outono, o sol já estava alto, havia fila em frente ao açougue, mas nada de Chico aparecer. Os fregueses passaram na casa do açougueiro para saber dele. Mafalda respondia não ter visto o marido na noite anterior; ele ficara no açougue, uma vez que chegaria uma carga. A pedido da esposa a polícia arrombou a porta do “matadouro”, quer dizer, a porta do quartinho dos fundos. A imagem que os curiosos assistiram foi comentada por muito tempo. O açougueiro, totalmente pelado, estava dependurado em um gancho, ao lado de várias reses abatidas na mesma noite. Nunca foi desvendado o crime que ficou famoso na cidade. Mafalda e o pequeno Chiquinho tomam conta do açougue do Chico. Ela faz questão de manter o “matadouro” na ativa, pois, afinal como dizia o marido, “a carne é fraca”.

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A máquina de faz de contas

No Natal Raquel fora presenteada pelos filhos com um belo computador. Moderna tecnologia, que a distrairia nos horários de folga. Desde que se casou com Júlio, era dona de casa, patroa e empregada habituada às lidas domésticas. Com a chegada dos filhos, nem pensava em trabalhar fora, pois eles e a casa lhe tomavam todo o tempo. O marido se dava ao luxo de chegar sempre cansado, largava a pasta e o casaco em qualquer lugar e esparramava-se em sua poltrona. Dominava o único aparelho de televisão da casa. De posse do controle da TV, cervejinha gelada, sentindose o dono do pedaço, esquecia-se da vida. Os filhos nem ligavam, cada um havia sido presenteado com “laptops”. Viviam trancafiados em seus quartos, pouco falavam ou reclamavam de nada. Estava bom para todos. Foi então que Raquel pensou em adquirir um computador. Para se livrar da mulher, Júlio achou conveniente que os filhos a presenteassem com uma “máquina de faz de conta”, como ela se referia ao computador. Dizia que os filhos passavam horas conversando e nem sabiam com quem. - Cada um poderia ser o que quisesse pelo tal computador, afirmava ela.

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Raquel precisava encontrar um espaço para ela e a máquina. O apartamento não era grande, mas não servia para pequeno. Por ser um prédio antigo, as peças eram espaçosas. Havia três quartos: o do casal e, outros dois, um para cada filho. A sala era conjugada, estar e jantar, e os pesados móveis, ainda do tempo em que se casaram, ocupavam todo o espaço, onde não caberia nem mesmo uma escrivaninha para acomodar a máquina. Raquel, sempre muito caprichosa, conservava tudo em ordem. Até a lavanderia era bem arrumadinha - foi onde “se acomodou”. A dor a ensinara a gemer, se não fosse ela, seria a empregada, ou seja, a própria Raquel. Não precisou de muita confusão para ajeitar o espaço. A lavadora já estava em um canto. Próximo ao tanque, um armarinho com duas portas, onde a mulher guardava o material de limpeza, que até combinaria com a escrivaninha. Presenteou-se com um tapete colorido, vermelho com flores amarelas, que aqueceria o ambiente, já que tudo era forrado de azulejo bege. O tapete de preço acessível não seria sentido no orçamento doméstico, provavelmente, Júlio nem perceberia o mimo que ela se fez. A escrivaninha fora restaurada por ela mesma, na garagem do prédio, quando escolheu pintála de amarelo, sua cor preferida. A janela basculante foi escondida por uma cortina de crochê feita por Raquel. O lugar para ela e a máquina de faz de conta estava pronto. Daí em diante, ela precisaria aprender a usá-la. Instalou o aparelho sobre a escrivaninha. Curiosa e faceira com a máquina dispôs-se a aprender. O marido se negou, terminantemente, de

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ensiná-la, dizia não ter paciência e, ademais, já passava horas do dia em frente a um. Foi categórico ao dizer: - Aprendi na marra. Vire-se! O caçula, com dezesseis anos de idade, mais solícito com a mãe, ensinou-lhe o básico. Raquel mexeu e remexeu no computador, leu todas as instruções, e, aos poucos, foi tomando gosto pela coisa. Pouco mais de dois meses, Raquel já estava “expert” com a máquina. Nem se incomodava mais em ficar sem TV. O marido podia ficar no poder do controle, assistindo seus intermináveis jogos. Os filhos, sempre trancados nos quartos, não eram de falar, os “laptops” bastavam. Agora era só ela e sua máquina. Raquel fez muitas amigas virtuais, passava horas ocupada na sala de bate-papo; arranjou até amigos homens, coisa que não se atreveria no tête-à-tête. Gostava muito de escrever contos, poesias e crônicas. Deixava tudo armazenado em uma pasta; talvez um dia os mostrasse a alguém disposto a lê-los, e que apreciasse seus escritos. Passava as manhãs nas lidas da casa, disso não relaxou. Estabeleceu horário para o bate-papo com amigas e amigos virtuais. Pensava como era prática a máquina, já que podia conversar e trocar ideias, sem precisar se emperiquitar para esse tipo de compromisso. Entendia por que os filhos preferiam até namorar pelo computador. Duas horas da tarde, terminadas as tarefas da casa, ela se banhava, preparava um gostoso cafezinho, para, então, sentarse confortavelmente em frente ao aparelho, que já fazia parte de sua vida.

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“Navegando” ela encontrou um novo amigo em uma sala de bate-papo. No início, ficou meio chateada, pensava estar traindo seus princípios de mãe e esposa. Chegou a comentar com Rosane, sua melhor amiga virtual, o tal encontro com Rafael. Sabia que teria que tomar cuidado, pois poderia se apaixonar, como já havia ocorrido com Rosane. Seduzida pelo novo amigo virtual, combinaram os encontros todas as noites, por volta de vinte e uma horas. Nesse horário, os filhos já estariam trancafiados nos quartos, de onde somente sairiam quando amanhecesse. O marido, esparramado no sofá, assistindo programas preferidos, nem notaria sua ausência. O tempo era só dela, só para ele. A intimidade foi crescendo entre o casal virtual; palavras não-ditas, mas escritas, se apoderavam do coração de Raquel. Ela se apresentou como casada, sem filhos. Escolheu omitir os filhos; não poderia falar deles para um “amante virtual”. Não achava correto. No mais, só falava a verdade, mas não citava nomes de familiares, pois considerava cedo. Rafael, por sua vez, identificou-se como sendo um homem de cinquenta anos, engenheiro civil, que trabalhava como autônomo: era seu próprio patrão. Estaria divorciado há dois anos e teria dois filhos que moravam com a mãe. Raquel acreditou fielmente no homem, que chegou a confidenciar-lhe tentativas de arrumar namorada, mas nenhuma de seu agrado. Pensava que agora havia encontrado uma mulher à altura. Lisonjeada, Raquel enviou-lhe um poema feito especialmente para ele. Os encontros continuaram ocorrendo todas as noites; ele iniciava o papo dizendo:

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- Oi, garota. - Modo carinhoso de tratar uma mulher de meia-idade, pensava Raquel. Ele já fazia parte da vida de Raquel, que esperava ansiosamente pelas noites, há pouco tempo, tão melancólicas e solitárias. Em uma manhã qualquer, Raquel precisou ir ao supermercado, pois faltava farinha para os bolinhos de arroz que começara. Apressou-se com o almoço e com a arrumação da casa. Às duas horas, encontraria Rosane, sua íntima amiga, para contar como estava indo no romance com Rafael. Almoço pronto era hora de ajeitar os banheiros e os quartos. A arrumação no quarto do filho era a mais demorada. O guri era mais bagunceiro. Recolheu meias, cuecas, pendurou camisas e camisetas, enfim... Ao puxar o edredom para guardálo, viu o “laptop” do menino. Curiosa, vasculhou um pouco de tudo, até encontrar uma pasta de arquivo que facilmente foi aberta. O que viu a fez quase jogar o computador longe. Seu poema, de cabo a rabo, no “laptop” do filho. Com vergonha, apagou o que conseguiu. Nesse dia, não arrumaria mais nada. Pensou em contar para Rosane, sobre quem era o verdadeiro Rafael. Esperava ansiosa para que chegasse a hora combinada. Todos reunidos para o almoço, Raquel mexia e remexia a comida, sem apetite. Observou a filha que devorava os bolinhos de arroz. O marido, como sempre, no próprio mundo. Muito confusa e envergonhada, olhou firmemente para o filho que devorava um farto prato de comida, e o chamou de Rafael. Todos olharam para Raquel que, aos tropeços, levantou-se, dirigiu-se à lavanderia, arrancou a máquina de faz de conta e a entregou

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ao marido, dizendo-lhe para vendê-la. A mulher deu adeus a Rafael, adeus à Rosane. - Essa máquina me fez tão feliz. Bem-vinda à realidade, pensava Raquel.

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Família roubada

Rafinha era o picareta mais cara de pau que existia, tinha fama de playboy e dom Juan. Vivia sempre bem arrumadinho, dando golpes em todo mundo. Para sobreviver, venderia até a mãe se fosse preciso e... Se soubesse de seu paradeiro. Muito malandro, o cara aprontara tanto que já fugia dos fregueses. Chegou a vender ingressos para shows de artistas famosos que nunca compareceram ao lugar da festa, tampouco tinham conhecimento do evento. Vendia rifas sem nunca haver um ganhador conhecido. O felizardo era sempre alguém bem distante que... Então desconversava com seu papo. Comprava e vendia carros, com direito a papelada e tudo mais; seu produto sempre era melhor e mais barato. Certa ocasião, pela internet, Rafinha vendia túmulos e terrenos no cemitério municipal. Sempre mais em conta e melhor localizado. Antes de ser descoberto, conseguiu vender uma meia dúzia, tudo no mais puro trambique. Certa vez, dando uma de investigador, recebeu uma boa quantia da mulher do Vicente, que desconfiava estar sendo traída pelo marido. Queria pegar o desgraçado no flagra, para tirar o couro; prometeu deixar o malandro só com a roupa do corpo e nada mais. Rafinha não só recebeu da mulher, como também do marido. Dizia estar fazendo um serviço justo, já que ficava bem para todos. A mulher não ficaria sabendo da traição do

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marido, enquanto Vicente, são e salvo, continuaria pulando a cerca. Isso se Rafinha permitisse, pois o coitado estava nas mãos do detetive, que passou a receber um “salário” mensal para ficar de bico calado. O playboy se viu em apuros quando engravidou Janice, a única irmã de seus comparsas. A bela morena caíra na lábia do malandro, que foi obrigado a casar-se, para reparar o “mal” feito à jovem. Rafinha e Janice passaram a viver de favor nos fundos da casa da sogra, onde o casal de gêmeos nasceu. Por conta dos filhos, ele ficaria um tempo afastado dos negócios. Sem recursos, a família passou a ser sustentada pela sogra e pelos cunhados, seus comparsas na picaretagem, para logo ser cobrado a colaborar com os gastos da casa. “A famigerada sogra não dava valor à dedicação que ele emprestava aos gêmeos e à mulher?” Pensava o rapaz. Dizia que a coroa deveria levantar as mãos para o céu por tê-lo como genro. Rafinha vivia cansado por conta dos bebês; não imaginava o trabalho e o quanto custava uma criança, quanto mais duas. Não encontrava forças para trabalhar. Quando as crianças paravam o berreiro, ele queria era cama. Tão logo os gêmeos completaram nove meses, Janice engravidou novamente. A Rafinha só restava rezar para que, dessa vez, fosse somente um. O rapaz forte, moreno, todo tatuado e “metido a sebo”, não sabia mais o que fazer para sustentar a família que, de uma hora para outra, já era constituída de cinco, seis com ele, já que Janice dera à luz duas meninas, que eram cara e focinho do pai.

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Seu trabalho era adular a sogra, para ser sustentado mais um pouco, e embalar as pequenas que sofriam de cólicas. O homem não podia sair da linha. Estava na mira dos cunhados que se mostraram mais malandros do que ele. Rafinha dançava conforme a música tocada pelos irmãos de Janice. Por conta das gêmeas, ficava grande parte do dia em frente à televisão, sua única diversão. Num desses dias, conhecera sua “vovó”. A mulher de setenta anos choramingava diante das câmeras, contando o drama de sua vida e dizia estar procurando o neto desaparecido há mais de vinte anos. Enquanto mostrava a foto de um menino mirrado, moreninho, parecido com a única foto de Rafinha, a velha se babava toda, dizendo que o garoto desaparecera como num passe de mágica, tão logo perdera a mãe. Lamentava-se dizendo que ela e seu velho, por ocasião da morte da filha, mãe de seu neto Joca, tomaram conta do menino até o desaparecimento. Necessitava de ajuda para encontrar o neto e único herdeiro, antes de descansar em paz. Foi então que Rafinha descobriu sua “vovozinha”. A partir disso, seria o Joca da vovó Iracema que não apenas encontrara o herdeiro para sua chacrinha, como também teria oportunidade de “curtir” os bisnetos antes de “descansar em paz”. Inocente, Janice acreditara piamente no “honesto” do marido, que lhe contara sua “verdadeira história”, e apresentarase, desde aquela tarde, como sendo Joca. O sol de verão fervia os miolos de Rafinha, enquanto ele organizava o Corcel verde-oliva que ficou abarrotado até as goelas. A família, empilhada sobre os pertences do casal, rumou

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para o interior do interior do fim do mundo, chamado “Passeio dos Três”. O lugarejo era tão pequeno que poucos haviam ouvido falar. Diziam que quem ali vivia era pela infelicidade de ali ter nascido, ou porque queria se esconder. Rafinha tinha outro propósito, além de esconder-se, dar um tempo às picaretagens; gostaria de herdar o tantinho de terra da vovó; criar seus meninos longe dos malandros da cidade grande e aos cuidados da experiente velhinha. O carro verde-oliva estacionou em frente à casinha de madeira, nada muito luxuosa, mas jeitosinha. De cara, Rafinha vira a possibilidade de melhorá-la, certo de que a “avó”, depois de tanto tempo afastada do saudoso “netinho”, não lhe negaria nada. Bateu na porta com certa insistência. A velha atravessou a sala com firmeza nas pernas. Em nada lembrava a senhorinha frágil que choramingava no programa da tarde à procura do netinho... Para depois descansar em paz. Quando ela abriu a porta, deparou-se com Rafinha, Janice e o par de gêmeos. O homem grande, forte, quase o dobro de seu tamanho, trouxe-lhes as boas vindas, sorriu e exclamou. - Vovó! Sou Joca. - Você!? Dona Iracema olhou de alto a baixo o casal que se apresentava como seus parentes e viu que daquele mato poderia sair coelho. A chácara que, num futuro breve, Joca herdaria, precisava de vários reparos, o que, de cara, ele prontificou-se a fazer. Aos olhos do “neto”, a velha se mostrava cansada e abatida, por isso deveria passar a maior parte do dia descansando.

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Ele dizia querer a avó por muitos anos... Caberia a ele os cuidados com o jardim, o reparo das cercas, o cuidado com os animais, bem como a poda das árvores do pomar e a pintura da casa. Janice ficara incumbida das lides domésticas, limpava e esfregava o dia todo; além de cuidar das crianças. Estava um verdadeiro bagaço, enquanto a velha, passava seu dia esparramada na grande cama de casal ouvindo Bruno e Marrone. No fim do dia, quando o sol se punha, a velha supervisionava as tarefas dadas ao neto para, então, sentar-se na cadeira espreguiçadeira e sorver um gostoso chimarrão. Não era de falar muito, dizia ter passado longo tempo na solidão. Estava se acostumando com a nova família: “Tudo em seu tempo”, dizia a experiente senhora. O malandro do Rafinha começou a avaliar se tanto trabalho compensava, e passou a acreditar que a velha procurava um escravo, não um neto. Imaginou que Joca havia sumido, apesar de muito menino, por causa do caráter exigente da avó. A casa, o pomar, e o gramado estavam “um brinco”, bem como Dona Angélica, a dona da propriedade, gostava. Chegara a hora da vovó Iracema dar no pé. Ao raiar do dia combinado para a chegada de Dona Angélica e família, Rafinha acordou com o ronco do motor do Corcel verde-oliva que, em minutos, desapareceu na primeira curva, deixando para trás somente poeira. Atordoado e sonolento, Rafinha ou Joca, ele nem sabia mais quem era, de tão cansado que andava, correu até o quarto da velha, encontrando-o vazio. Sobre a cama, apenas um bilhete curto e grosso que dizia: “Rafinha, fui! Obrigada pela ajuda. Ficou bem

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ao gosto dos donos da casa”. Dona Angélica e o coronel Severo, mais a família, chegarão às três horas deste sábado. Beijos em Janice e nos gêmeos. PS: O ônibus para a capital passa na estrada da frente em duas horas... Se apresse! Assina: Araci.

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O velho Pereira insistia com a ex-esposa Heleninha, para que ela lhe devolvesse alguns pertences: presentes e mimos que guardara todo o sempre, em uma caixa de papelão, sob a cama de casal, “esquecida” durante a separação. Heleninha e Pereira foram casados durante mais de quarenta anos. Durante grande parte desse tempo, ela aguentou o que pode do marido, que era arrogante e metido a galanteador. À medida que o tempo passava, a relação piorava, bem como a arrogância de Pereira. Pereira, no princípio, não levou a sério o pedido de separação, pensando que fosse fricote da mulher, até que ela propôs, com toda sanidade de seus sessenta anos, o divórcio. A mulher argumentou tudo o que se passara entre eles durante a longa união. Por mais que falasse, o cabeçudo do Pereira, como sempre, ainda pensava ter razão. Pereira e Heleninha conheceram-se na boêmia cidadebaixa, bairro romântico da capital, pelos idos de 1950. Apaixonaram-se à primeira vista, passaram a morar juntos na mansão herdada pela rica família dele. Pereira nunca chegou a descobrir outra profissão, a não ser a de herdeiro, cuja fortuna lhe garantia boa vida, sem que precisasse mover uma palha. Heleninha, moça moderna para sua época, batalhadora, trabalhava como garçonete no

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frequentado bar da periferia, onde se encontraram, para logo se casarem. Passado o rompante dos primeiros anos de casamento, a rotina tomou conta e tudo voltou ao normal, pelo menos para Pereira, que recomeçou a frequentar a noite, enquanto Heleninha se firmava na monotonia de madame. O único filho do casal passou grande parte da vida entre internatos e colégios no exterior; tudo como ditava uma tradicional família. Com isso, Heleninha se absteve da tarefa de ser mãe. Ela até considerava uma benção, já que não saberia como lidar com uma criança, juntamente com um marido estranho e de coração tão duro. Pereira era muito exigente, e azucrinou a vida de Heleninha, que fazia das tripas coração para não enlouquecer. Ele posava de dominador, para se mostrar interessante aos olhos da mulher, enquanto ela, a cada dia, detestava a rotina e tinha certeza que jamais o amara. Este equilíbrio tênue levou à separação, que foi aceita pelo marido para provar que era superior e que dominava qualquer situação, embora, no fundo, estivesse em pânico. Heleninha recebia recados do ex-marido dia e noite. Ele sempre solicitava uma bugiganga ou outra da caixa de recordações que ele guardara anos após anos, para surpresa da mulher. Ela não se atrevia a mexer na caixa. Muitas vezes, tencionou mandá-la de uma só vez, o que foi de imediato rejeitado por Pereira. Dessa forma, ele mantinha certo controle sobre a ex. Toda manhã, o telefone insistia em se mostrar “vivo”, tirando Heleninha dos afazeres domésticos, prazerosos depois

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da saída de Pereira. O telefone gritava, até que ela, cansada, atendia, já sabendo quem estava do outro lado. Sem muito entusiasmo, ela falava um tanto ofegante: - Alô? - Heleninha? Por onde andavas? Por que demoraste pra atender? - Sim, Pereira, sou eu. Fale logo. O que queres desta vez? Sabendo ser algo da caixa, continuou com voz de desdém: - Tenho mais o que fazer do que ficar atendendo tuas necessidades. Por que não leva essa caixa de uma só vez? Autoritário como sempre, Pereira apenas resmungou: - Estou mandando o moto-boy buscar aquelas abotoaduras que me deste quando ainda estávamos em lua-demel. Tu sabes qual é? Aquela meio rosada. Atropelando as explicações, Heleninha replicou: - Sei quais são! Aquelas que tu tampouco olhaste! Nem agradeceu e foi logo dizendo que não era homem pra usar abotoadura rosada. Que era coisa de veado. Nem sabia que as tinha guardadas. - Isso é coisa da tua cabeça, Heleninha! Imagina se eu faria desfeita com um presente teu. Olha! Elas estão na caixa grande, do lado direito, deixei dentro da caixinha da joalheria. E continuou com o discurso: - Tenho uma festa no clube. Pensei que ficaria bem usálas com o terno azul-marinho que comprei semana passada. - Pereira, vê se pede para o moto-boy apressar-se, pois não tenho o dia todo. Também vou encontrar com um velho amigo do bar, o Alfredo, lembras dele? 49


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- Alfredo, o almofadinha? Como vais sair com esse cara? A que nível chegou mulher? - Pereira, nem todas as pessoas degringolaram como tu. Pra teu governo, Alfredo se tornou um renomado advogado, já está aposentado e viúvo, meu caro, vi-ú-vo. Escutaste bem? Para provocar, ela insiste: - Ele continua bonitão! Boba fui eu de não ter ficado com ele quando ainda era moça. Mas sabe do que mais? Nunca é tarde, Pereira, nunca! Heleninha fora o pivô para os desafetos entre a amizade de Pereira e Alfredo, que eram companheiros de noitadas e farras. Imensamente cortejada pelos dois, ela custou a se decidir. O vencedor foi Pereira e sua fortuna. Heleninha desligou o telefone, sentindo-se vitoriosa. Percebeu na voz do ex um misto de orgulho ferido e até uma pontinha de ciúme. Sentou-se no imenso sofá da sala, acendeu um cigarro, deu uma profunda tragada e gargalhou, enquanto falava para si mesma: “Ele está com o orgulho maculado, tenho certeza! Conheço o dito cujo de outros carnavais”. Enquanto esperava o moto-boy, examinou a caixa. Vasculhou as recordações de Pereira, quando percebeu que, no quadrado de papelão já amarelado pelo tempo, encontrava-se uma vida; todos os laços possíveis que os unira e separara estiveram guardados embaixo da grande cama por anos a fio. Tentando conter um pouco a emoção, ao descobrir tanto amor reprimido, em razão da arrogância do marido, Heleninha resolveu, usando um pretexto qualquer, telefonar para ele: - Alô, Pereira? Recebeste as abotoaduras? Como falaste, elas estavam bem acondicionadas na caixinha da joalheria.

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Com a voz mais suave do que de costume, continuou: - Me desculpa, mas não resisti e li o cartãozinho que te escrevi: bobeira total, coisa de mulher apaixonada! Pereira, com um tom de voz mais sarcástico que o normal, visto que estava com a autoestima abaixo dos “pés do cachorro”, retrucou: - Pois é! Vê que ironia. Há poucos anos te dizias apaixonada, e hoje vais sair com o Alfredo. Pensando que viria uma provocação por parte da mulher, resolveu mostrar-se chateado com o telefonema: - Diga logo, Heleninha! O que manda? - Gostaria que aproveitasse o Percival, teu moto-boy de confiança, aquele que deve levar e trazer presentinhos pra tuas mulheres, pra mandar a fôrma de bolo que levaste junto com as coisas da cozinha. Continuou com tom menos meloso já que sentiu o Pereira um tanto agressivo ao atendê-la: - Não acerto o pão–de-ló em outra fôrma. Com receio da resposta, Pereira atreveu-se: - Por acaso, vais fazer pro Alfredo aquela torta de amora que eu tanto gosto? - Bingo! Resolvi convidá-lo para um jantarzinho íntimo aqui em casa mesmo. Heleninha continuava sentada no sofá, remexendo a caixa das recordações do marido, pensando como não percebera, com tantos anos de convivência, “àquele” que se escondia na caixa de papelão, sempre bem próximo a ela. As emoções estavam à flor da pele. Ela já pensava em desistir do encontro com Alfredo e, pela primeira vez após a

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separação, encontrar Pereira, para, juntos, saborearem o bolo de amoras. Heleninha perdeu-se em recordações! Ao se dar conta do tempo passado desde o último telefonema, tratou de enxugar as lágrimas e passar novo “fio” para ele. Deixou chamar com insistência, mas nada de ser atendida. Verificou o relógio de pulso que ganhara do ex-marido nas bodas de prata, percebendo que era cedo para as costumeiras saídas do homem e, ao mesmo tempo, tarde para ter seu pedido atendido. Sem vacilar, colocou um vestido azul floreado com rosas brancas e rumou para o apartamento de Pereira, em busca da fôrma. Durante o trajeto de pouco mais de quatro quarteirões, preparou “o verbo” e pensou: “Dessa vez ele vai ouvir cara a cara o que merece. Que desaforo não me atender de imediato. Ele está com ciúmes! Vai ver jogou fora a fôrma e foi catar alguma por aí”. Resolveu subir pelas escadas os três pisos que a levariam até o apartamento. Tocou a campainha delicadamente, mas não foi atendida. Tentou a porta, e encontrou-a aberta. Sem vacilar, entrou na sala, percorreu a cozinha, deu uma espiadela pela sacada, dirigiu-se ao quarto. Heleninha encontrou Pereira deitado sobre a cama, vestindo o terno azul-marinho novinho em folha, contrastando com as abotoaduras rosadas. Aproximou-se da cama, ajeitou o nó da gravata do marido e saiu fechando a porta atrás de si. No meio do caminho que a levaria de volta, viu um amontoado de pessoas que rodeavam o corpo do rapaz que ela tão bem conhecia. Aproximou-se e reconheceu a antiga fôrma de bolo que, junto do moto-boy, “jazia” sobre o asfalto.

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Sem identidade

- “Seis horas da manhã do dia 7 de abril de 2007, o dia será ensolarado, com previsão de pancadas ao anoitecer”. O homem é acordado com todas essas informações; espreguiçase, sente na pele a sensação do tecido de algodão com leve aroma de lavanda. De súbito, senta-se na cama, olha todo o aposento. Não reconhece nada. Sacode a cabeça para espantar a sensação de torpor. Fecha os olhos, esfrega-os com as mãos, na tentativa de acordá-los. Percebeu que já estava acordado e que não estava sonhando como imaginara. Encontra-se em um lugar totalmente desconhecido. Com mais cuidado, procura no pequeno quarto algo que o ajude a lembrar-se de si. Quem é? O que faz? Onde se encontra? Fica sem respostas a toda e qualquer pergunta. Sente-se à beira de um abismo, não sabe se volta a dormir na esperança de acordar com as ideias no lugar, ou se levanta em busca de si mesmo. Encontra, na penumbra do quarto, bem ao lado da cama, no criado-mudo, um retrato. Nele vê um homem moreno de olhos escuros que abraça, bem à vontade, uma bela mulher, com aproximadamente trinta anos, cabelos cor de mel e olhos azuis. Toca o próprio rosto, a fim de achar alguma semelhança com o homem do retrato. As mãos revelam-se incapazes de reconhecer aquele rosto. Corre até o banheiro. Parado em frente a um pequeno espelho, descobre que o homem da foto é ele. Escuta

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vozes no andar inferior; aguça o ouvido e percebe vozes de crianças, pelo menos duas, tagarelando, juntamente com uma suave voz de mulher: “Seria a mulher da foto? Que estaria ele fazendo com ela? De quem seriam as crianças das quais só ouvia as vozes”? Escuta a doce voz feminina chamar por Pedro. Seria ele? Precisava atender? Encontra-se somente de cuecas. Veste as calças pretas e a camisa branca estendida sobre uma cadeira próxima à janela, ainda fechada sob a pesada cortina. Desconfiado, arreda um pedaço do pano grosso, a fim de identificar onde está. Precisa, desesperadamente, descobrir alguma coisa. Calça os sapatos pretos que se encontravam no banheiro, junto a um par de meias, também pretas. Outra vez, a voz da mulher chama insistentemente por Pedro, acrescentando, agora, que iriam se atrasar. Mas, atrasarse para quê? Para onde ele deveria ir quando abandonasse o quarto? Desce lentamente as escadas, observando tudo o que pode, com certa velocidade no olhar, para, pelo menos, identificar-se com o lugar. Vai até a cozinha. O cheiro de café, torradas e ovos mexidos com bacon faz sua barriga roncar. Ao chegar à cozinha, orientado pelas vozes das duas crianças, escuta: - Bom dia, papai! Sente náuseas. Sua vontade é correr ao banheiro para vomitar, pois não reconhece nenhum dos belos rostos das meninas que o chamam de papai. A mulher, de frente para o fogão, vira-se segurando o bule, vai até ele, beijando-o delicadamente nos lábios, como se fosse um hábito. A mulher cuja beleza ele já havia percebido no retrato do quarto mostra-se ainda mais bela. Veste uma calça de

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moletom, uma camiseta branca que lhe deixa à vista um par de seios arredondados e salientes sob o fino tecido, e calça tênis de marca famosa. O cabelo cor de mel encontra-se preso em um rabo-de-cavalo. Os belos olhos azuis indicam que ele deve sentar-se à cabeceira da mesa, o que, de pronto, atende. Estende o braço para servir-se do suco de laranja. O café que a mulher havia servido quente e forte fora rejeitado. Ao levar o copo de suco até a boca, é surpreendido pela exclamação de uma das pequenas: - Veja, papai está tomando suco! Ele gosta de suco, prefere ao café. Sem balbuciar palavra, come os ovos mexidos com torradas, evitando olhar para a mulher e as duas meninas. A mulher pergunta algo sobre o jornal. De imediato ele se dirige à porta da frente e apanha o diário, que confirma o que ouvira do locutor da rádio: era dia 07 de abril do ano de 2007. Começa a se indagar onde estivera aquele tempo todo e o que devia fazer agora. Para onde deveria levar as crianças? A confusão em sua cabeça parece um tornado, que levara por completo sua memória. Estava sem identidade. A mulher percebe o silêncio e indaga se ele estaria preocupado com a reunião do escritório. Novamente a escuridão: Escritório? Reunião? Pensa o homem. Ao sentir novamente os lábios da mulher colados aos seus, percebe que deve partir, pois as meninas já se encontram afiveladas no banco traseiro do carro, à espera do pai, ou melhor, de Pedro. Vê a silhueta da bela mulher acenando em direção ao carro, pouco antes de começar a caminhada. Pela vestimenta e

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pela velocidade calculou que era hábito da mulher exercitar-se logo pela manhã. Durante o trajeto da casa até a escola, indicado pelas meninas, pergunta se elas saberiam dizer onde ficava o escritório do papai. Entendendo como brincadeira, as espertas meninas indicaram direitinho, e que não ficava longe. Pedro se apressa para chegar ao escritório, onde é recebido com certa desconfiança por todos os possíveis colegas. Entende cada vez menos quando percebe nos olhares e expressões das pessoas certo espanto ao vê-lo. Um homem parecendo bem íntimo de Pedro, perguntalhe: - O que tu estás fazendo aqui a esta hora? Será que esqueceste a demissão por justa causa? A vontade do homem é gritar e perguntar alguma coisa. Encontra-se sem rumo e completamente só. O suposto amigo percebe a preocupação e, então, marca com Pedro um encontro. - Às duas horas, no lugar de sempre. Pedro fica de tocaia do amigo, do qual não sabe dizer o nome, tampouco onde fica o “de sempre”. Às duas horas em ponto, o rapaz com quem almoçaria sai do conjunto de escritórios, dobra a esquina e entra no pequeno restaurante. Logo em seguida, Pedro o encontra já devidamente acomodado à mesa, que também deve ser “a de sempre”, pensa ele. Logo descobre que o amigo se chama Filipi, que lhe indaga como Luciana reagira à demissão por justa causa. Pedro responde qualquer coisa, pois precisa saber o motivo da demissão. Uma bela jovem morena, parecendo não ter mais do que vinte anos, aproxima-se da mesa onde se encontram sentados e

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olha de forma safada para Pedro, que não entende nada, enquanto agradece o copo de cerveja que ela lhe alcança. Pedro imagina que deve ser “a de sempre”, já que não havia pedido a bebida. Filipi percebe o olhar de Paula, que fora chamada de Paulinha pela mesa próxima. A moça, com rebolado sedutor, afasta-se, mas, antes, lança outro olhar fulminante e convidativo para o desorientado Pedro. Curioso, Filipi pergunta se ainda “rolava” algo entre ele e Paulinha. Pedro, indignado, pensa que tipo de homem seria esse Pedro, tendo um caso, apesar de ser casado e ter duas filhas. - Esse não sou eu. O pior é quando descobre que foi demitido por ter perdido um grande negócio para a corretora, e que havia sido dedurado por outro colega que pleiteava seu status de gerente. Pedro perdera a hora da reunião e fora surpreendido saindo de um motel com a belíssima Paula. Pedro não acredita no que ouve, pois, além de sem identidade, descobre-se sem moral e sem caráter. - Como teria traído uma mulher como Luciana? Pensou ele. Abre-se com o amigo e conta tim tim por tim tim tudo o que se passa com ele. - A perda de memória veio a calhar, sugere-lhe Filipi. Para o amigo, Pedro deveria buscar ajuda com o médico de confiança do escritório e relatar todos os fatos. Na certa, seria readmitido, o que havia feito seria justificado pelo lapso de memória. Pedro, agora, encontra-se novamente na gerência da firma e recupera a memória de forma lenta, com “muita

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preguiça”. A família fora preservada do fato, tudo por conta da doença, do estresse que provocara a amnésia, diagnosticada como temporária. Por orientação médica, ele segue rigorosamente a rotina. Pedro olha o relógio a todo instante. Logo que os ponteiros se encontram indicando doze horas, coloca o paletó, dirige-se ao carro e ruma até o motel. Ao lado dele, a bela Paulinha solta o cabelo negro e sedoso. Ela balança a cabeça, fazendo com que alguns fios toquem, com suavidade, o rosto do amante. De forma vaga, ele lembra esse toque. Seguindo a recomendação médica de manter a rotina, lentamente, Pedro redescobre a identidade.

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A vingadora

A exuberante mulher entra a porta do hotel com passos largos, parecendo decidida a resolver o que a levara ao lugarejo. Causara furor desde o momento em que desembarcou na estação rodoviária da pequena cidade de Mirabel. O pacato lugar não estava acostumado a receber visitantes, pois ficava distante de tudo aquilo que se possa imaginar sobre civilização. A bela morena, trajando um tailleur de linho vermelho, com a saia extremamente justa, com uma acentuada fenda que deixava grande parte das roliças coxas à vista para quem desejasse olhar, dirige-se ao hotel, seguida pelo jovem carregador, que se “estrebucha” transportando as pesadas malas. Os cabelos negros e sedosos da misteriosa espalham-se por sobre o vermelho da roupa, proporcionando-lhe um charmoso contraste, tornando-os mais brilhantes e viçosos sob a luz do sol. A mulher é seguida por curiosos que a observam com certo receio e apreensão, empoleiram-se uns sobre os outros na portaria do hotel. - Ela lembra muito aquela mulher! - Certo que um pouco mais velha, mas lembra! - Aquela lá? Bem que a mulher lembra! O disse-me-disse sobre a chegada da misteriosa corria solto e, como uma leve brisa, se espalhava de boca em boca;

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todos em Mirabel já haviam ouvido falar da “tal mulher”, até os mais jovens. No momento em que a mulher recebe a chave do quarto 101, a população que se juntara à porta do hotel entreolha-se confirmando: - Deve ser ela! Por que justo o quarto 101? Com mãos pequenas e delicadas, a morena acena ao carregador para que a acompanhe ao andar superior. As pesadas malas deveriam ser cuidadosamente instaladas no quarto, pois, segundo ela, guardavam coisas muito preciosas. Os passos firmes indicavam que a mulher era conhecedora do espaço onde pisava; muito desenvolta, rodopiando sobre o próprio corpo, enquanto, de canto de olho, admira os observadores que, demonstram certo pavor e cochicham: - Ela falou que voltaria! Sem entender o tamanho furor por sua presença, resolve dar uma de misteriosa, pensando que era isso que a pacata cidade precisava. Um pouco de movimento não faria mal a ninguém. Somente valorizaria sua atividade na pequena Mirabel. O assunto se fazia presente nos bares, nas casas e no hospital da cidade, já que muitos, direta ou indiretamente, estavam envolvidos “naquilo” que trouxera a mulher àquelas bandas. Alguns afirmavam lembrar claramente quando ela, ao ser presa depois de encurralada pelo povo, prometera voltar: “A vingança é um prato que se come frio”. Aguardem-me! O prefeito Danilo, um dos maiores interessados em resolver o problema, mais o “coronel” Argemiro, grande proprietário de terras, seguido do chefe de polícia, sargento

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Eustáquio, resolveram, por bem, convocar uma reunião extraordinária que trataria do caso da mulher que se hospedara no quarto 101, onde tudo acontecera nos idos de 1970, ressurgindo o caso quase vinte anos depois, com sede de vingança. Nos anos 1970, a pequena Mirabel fora palco de um violento assassinato, precisamente no quarto 101 do hotel da rua principal, onde está hospedada a suposta assassina do filho do coronel. Serena, era seu nome. Moça pobre do interior vivia com os pais que eram agricultores de pequeno porte. Plantavam para comer, no mais, sobreviviam com o que vendiam na feira da cidade. A linda caipira, de pele muito branca e cabelos negros, “acendera” o coração do filho varão do coronel, proprietário de grande extensão de terra, considerado o “manda-chuva” da cidade. Tudo girava em torno dele e para ele. Um desejo seu ou de alguém da sua família era executado como uma ordem. A paixão de Euclides, o herdeiro do “mar” de terras, por Serena, caiu como uma “bomba” na rica e bem-sucedida família do rapaz, que passou a persegui-la, bem como aos seus pais e irmãos. Pensavam se tratar de mais uma aproveitadora, que se valera da beleza para conquistar os milhões do rico herdeiro. No inverno de 1969, as chamas tomaram conta da casa dos agricultores; tudo fora reduzido a pó, inclusive os pais e os dois irmãos de Serena. A moça, na ocasião, com vinte e poucos anos, sobreviveu às chamas porque se encontrava nos braços do grande amor, no quarto 101 do hotel, na rua principal de Mirabel.

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Não se passaram muitos meses para que Euclides aparecesse morto sobre o leito que muito embalara o casal de jovens amantes. Serena viu seu mundo reduzido a “nada”, quando foi acuada pela família do rico fazendeiro, acusada de ser a executora do crime. Todos os jurados, de “cabeça feita”, incriminaram a jovem. O promotor, o juiz e os demais acreditavam que a moça vingara-se pela morte dos parentes. Serena acabou condenada a vinte anos de prisão, cumprindo a pena em uma cidade próxima a Mirabel. A misteriosa mulher solicita a ajuda do recepcionista para acomodar o conteúdo das malas em profundas gavetas da antiga cômoda do quarto. Lingeries de todos os tamanhos, cores e texturas foram devidamente colocadas nos gavetões. O rapaz, bastante espantado, sabia sobre o assassinato ocorrido no 101; já ouvira falar do caso e da vingadora. Escutara que mais da metade da cidade, inclusive seu avô, seria alvo da vingança da moça que, na época, jurou inocência e, por fim, que faria justiça com as próprias mãos. Meio sem graça, ajudou a mulher que, delicadamente, dobrou peça por peça, dizendo ser vendedora de roupas delicadas muito apreciadas por mulheres e homens. Diante dos olhos assustados do rapaz, a mulher despese do traje vermelho, cobre o corpo roliço com um hobe de seda de onçinha, ao mesmo tempo em que explica sua estratégia de venda ao espantado garoto. Com voz macia e cativante, declara não compreender o furor que sua presença causara na cidade. Diz que deixaria, sem explicações; pelo menos até os “comparsas” chegarem com o restante da “preciosa muamba”.

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Com um sorrisinho maroto nos fartos lábios, entrega nas mãos do rapaz uma nota de cinquenta reais: - Fique esperto! Se precisar te chamo! O rapaz, com os olhos esbugalhados pelo tanto de informação foi abordado pelo povo, agora espremido no hall do hotel, que o enchem de perguntas. Muitas delas sem respostas. Dado ao silêncio, e ao tanto que passou com a suposta vingadora, o rapaz escutou que devia ter se tornado cúmplice, que havia se rendido aos encantos e ao dinheiro da misteriosa. Ainda mais assustado pelas acusações sem fundamento, só conseguiu balbuciar: - Ela é vendedora de lingerie e só espera os comparsas para realizar um espetáculo nunca visto por aqui. Todos pensaram que era chegada a hora. Precisavam agir antes que fosse tarde demais, ou que a vingadora, junto com os “comparsas”, executasse o “extermínio” da cidade. O plano deveria ser certeiro e fatal, para isso, contavam com a colaboração do jovem carregador de malas. O corpo da misteriosa mulher de pele muito alva e de corpo roliço foi encontrado sem vida sobre a cama do quarto 101 da rua principal de Mirabel. No instante em que o corpo foi encontrado, o recepcionista recebeu um estranho telefonema da cidade grande. Do outro lado da linha uma voz, um tanto afeminada, indagava sobre Janice, a vendedora de lingeries que se encontrava hospedada no hotel da rua principal, no quarto 101...

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Perto do fim do mundo A família de Seu Emiliano jantava no maior silêncio, cada um preso dentro de si mesmo, totalmente envolvido nos mais íntimos segredos. Ouvia-se somente o som dos talheres que, a cada garfada, batiam na antiga louça branca, e o tilintar de copos de suco sabor fambroesa, servidos pela mãe da gurizada. O silêncio atenuava-se pelo som da TV que apresentava o noticiário. Os cinco absortos em devaneios pareciam interessados nas noticias que, de longe, eram importantes em suas vidas. De cabeças baixas sobre os pratos, escondiam-se atrás dos comentários do “íntimo convidado”, sempre presente às refeições, único momento em que a família encontrava-se “unida”. A calma da hora confirmava para Seu Emiliano e para a esposa Dona Esmeralda que a “paz reinava na família”. Enquanto Dona Esmeralda trazia a sobremesa: gelatina de morango com creme de leite, o som que “saltou” do velho aparelho de TV indicava plantão de notícias, o que fez todos retornarem à realidade. Voltaram as cabeças para o aparelho, para mais uma notícia que, na certa, seria alguma catástrofe: uma guerra mundial, ou um tiroteio com mortes na favela próxima de casa. Quem sabe, um “belo” desastre de avião, com vários mortos, o que, minimizaria, por pouco tempo, os problemas de cada um dos cinco que ainda se lambuzavam com a macarronada regada a molho de galinha.

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Nessa hora de “compaixão” ao próximo, eles ficariam mais aliviados ao redor da mesa, comendo o “menu” imposto pela cozinheira, Dona Esmeralda. Sobre a esperada tragédia que na certa seria anunciada, depois do “fúnebre” som, a maluquinha da Marina, de cabelos cor de fogo, comentaria coisas do tipo: - Cada um recebe da vida o que merece! Cassiano usaria de diplomacia para comentar a tragédia como algo criado pelo próprio homem, enquanto Tereza daria graças a Deus por estarem sãos e salvos! Dona Esmeralda, diante da situação ainda não anunciada, diria: - “Vejam como somos felizes! Vivemos nos queixando! Basta olhar para o lado pra vermos como as coisas poderiam ser piores do que são”! O marido, como sempre, permaneceria “mudo”, deixando o discurso para a mulher porque o escasso vocabulário nunca encontrava as palavras certas; ele apenas segurava a mão da mulher, balançava a cabeça e concordava com tudo. - “Psiu”, saiu da boca do Cassiano, pedindo silêncio para ouvir a notícia bombástica. Todos os cinco deram ouvidos ao som estridente do obsoleto aparelho da TV, quando o locutor de voz grave e sensual pronunciou: “Um asteróide aproxima-se velozmente da terra. A colisão é iminente, em menos de 24hs”. O locutor passou a falar sozinho, pois os ouvidos não queriam ouvir que o fim do mundo se aproximava. Dona esmeralda, Seu Emiliano e os filhos entreolharam-se, como que, solicitando ajuda. Dona Esmeralda, senhora de quarenta e poucos anos de idade, muito “judiada” pela vida, passara quase que vinte anos de casada cuidando da casa, dos filhos, vez ou outra atendendo as necessidades sexuais do marido. Era mandona e dona absoluta

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do marido, dos filhos e da verdade. Tudo o que dizia era para ser cumprido, do contrário, o “bicho pegava”. Aos vinte anos trocou de casa e passou a exercitar o “comando em outra freguesia” que, aos poucos, cresceu com o nascimento dos filhos. Seu Emiliano, durante grande parte da vida, havia sido funcionário dos correios. Era calado e tristonho, porém fora criado pelos pais para ser “macho”, nunca chorar e, tampouco, demonstrar fraqueza, coisa que não lhe fora permitido diante da mulher mandona e dona de todas as situações. Os filhos foram acontecendo, sem muito entusiasmo na hora de gerá-los ou criá-los: Marina, a “maluquinha”, nasceu tão logo o casal completou sete meses de casados. Tornou-se uma rebelde “com causa”, já que não suportava a atitude mandona da mãe e a complacência do pai. Com os irmãos, Marina, pouco falava. Vez ou outra se comunicava com Cassiano, sempre por uma justa causa social. Com relação à irmã mais nova, Tereza, a maluquinha, dizia: - Abomino tuas ideias retrógradas de santinha metida a boazinha. De forma irônica, Marina costumava dizer que nascera naquela casa mais uma “Madre Tereza de Calcutá”, mas do “pau oco”, na tentativa de provocar a irmã que não se deixava abalar. Tereza estudava em colégio de freiras, muito religiosa, pretendia prestar voto de castidade e entrar para o convento. Era o Chuchuzinho dos avós maternos, e a referência dos avós paternos, o que a agradava bastante. Seguidamente, ouvia da irmã mais velha que era um desperdício de vida, a maneira mais covarde de fugir, de esconder-se, somente para fazer média com os pais e avós e blablablá... Cassiano, o filho varão, não era “tão varão” como a mãe gostaria. O rapaz se mostrava sensível demais diante de causas

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sociais, reprovava tudo o que a sociedade achava correto, mostrava-se um rebelde diplomático. Tinha o dom da oratória. Diferente de seu calado pai, “batia de frente” com Dona Esmeralda, dia sim, outro também. Diante do fim do mundo, Dona Esmeralda, bastante assustada, olhava para o marido que, com voz fraca e temerosa, sugeria que de nada adiantaria correr. O carro da família encontrava-se estragado na rua ao lado. Enquanto ele falava, percebia que todos estavam atentos. Entusiasmado, contou que, poucos dias antes, acontecera um problema no carburador do carro, e que não havia conseguido voltar para casa dirigindo. Por isso, o estacionara pela redondeza. - Devemos ficar calmos, chamar meus pais e os teus, disse olhando para Dona Esmeralda, para então, recebermos o fim do mundo em família, “como sempre”. Cassiano, ao escutar as últimas palavras do pai, bem que tentou retrucar, mas preferiu acatá-las. Pensou que nada mais valia a pena. Preferiu correr até a casa dos avós, para “recolhêlos”. Os avós paternos e maternos, Seu Osvaldo e Dona Marieta; Seu Venâncio e a esposa Avelina viviam a dois quarteirões da casa dos filhos e netos: um do lado direito e o outro do lado esquerdo, bem como viviam na vida real, em lados opostos e se “bicando” sempre que podiam. Os nove acomodaram-se como puderam na pequena sala da casa, esperando noticias sobre o asteróide que, em poucas horas, daria “cabo” em tudo. Por algum tempo, o noticiário continuou sendo o interesse número um dos familiares que

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sequer piscavam os olhos, quanto mais balbuciavam palavras, atônitos com o fim do mundo que se aproximava. À medida que o tempo foi passando, a geladeira foi se esvaziando, e os ânimos se acendendo; a notícia não parecia mais tão aterrorizante. Cada um já havia “digerido” o fim. Os meninos pensavam em quão curta fora a vida, e o tanto que deixariam de “curtir”. Os mais velhos se conformavam dizendo que o tempo já estava quase se esgotando para eles. Por isso, mais um dia ou outro já seria lucro. Dona Esmeralda e Seu Emiliano, de meia idade, lastimavam pelos filhos que, tão jovens, deixariam a vida ao mesmo tempo em que lamentavam a maneira como até então viveram. Seu Emiliano, com um sorriso amarelo, tenta, nas últimas horas de vida, mostrar-se dono da situação. Propõe um jogo para passar o tempo, enquanto esperam o fim do mundo: cada um dos presentes deveria falar os vários “sapos” que tiveram que engolir durante suas vidas. Vida curta dos meninos, média do casal e a bem vivida pelos avós. Como de costume, dona da verdade, Dona Esmeralda descarrega palavras sobre a vida; diz ter engolido sapo desde o momento em que nasceu e foi batizada com o nome da pedra mais cobiçada do mundo. No entanto, não lhe trouxe sorte alguma, nunca fora cobiçada, tampouco rara, e só se casou porque engravidara. - Esmeralda é nome de gente? Vocês podiam ter me poupado dessa, disse aos pais. A mulher bateu a mão no peito e disse em alto e bom tom, tentando sobrepor-se à voz do locutor da TV.

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- Esse daí ó! Apontando para o marido, não é o filho nem o genro e tampouco o pai que parece ser, é um frouxo e cornudo. Isso mesmo! Cor-nu-do! - Somente me senti mulher quando deitei com o Afonso da padaria; esse sim foi o homem da minha vida e, quem sabe, pode até ser o pai do Cassiano. Continua discursando, enquanto aponta o minúsculo dedo indicador em direção aos sogros: - Vocês dois foram um “calo” em nossas vidas , não saímos desse fim de mundo porque a “mãezinha” não permitiu, precisava conferir a vida do filho dia após dia, coisa, que me enchia o saco. Dona Marieta atropelou a nora dizendo que, ela sim, tinha sido um “estropício” na vida do filho: - Ele não se formou em economia porque teve que trabalhar cedo, tudo por conta da barriga que pegaste. Completou dizendo que fora o golpe mais baixo para arranjar marido. Acabou o discurso olhando firme para Marina: - Ainda por cima, saiu isso daí, essa aberração da natureza. É por essas e outras que o mundo vai acabar. Dona Avelina e Seu Venâncio preferiram não se meter, deixando a filha, dona absoluta da verdade, se defender. No fundo eles pensavam o quanto ela merecia ouvir. Os velhos preferiram apostar num fim “calado” enquanto roíam a rapadura que a mulher trouxera na bolsa. A maluquinha de cabelos cor de fogo, rebelde como sempre, esqueceu o fim do mundo, puxou de um papelote, fechou o cigarrinho e desembuchou: - Vocês são uns “babacas”, pensam que sabem tudo, vivem fingindo que são isso, aquilo e na verdade não passam

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de uns alienados, conformistas, uns merrrdas - visto a Tereza e o Cassiano. A Tetê quer mais é “dar”! Assim como eu dar, dar e dar... Pro mundo... Mas acovardou-se no papel de “Madre Tereza do pau oco” para agradar vocês. - O Cassiano vestiu a carapuça de diplomata pra despistar a saída do armário. Olhando bem nos olhos do irmão detona: - Pensa que me engana? Todos sabem do teu casinho com o companheiro da “UNE”, o Edinho, outro babaca. Vocês estão sempre juntos, sempre por uma boa causa. Sei qual é a boa causa! Tereza chorava copiosamente, lamentando em voz alta porque não ficou mulher com o primo, na festa do final de ano, pelo menos morreria mais feliz. Aos soluços e sob o olhar dos pais e avós, a menina sussurra: -É verdade! Marina tem razão, me “rasgo” de vontade de ficar com o primo, lamento não ter tido coragem. Continuou numa lamuria só: - Eu pretendia, ao terminar o colégio, largar tudo e correr mundo, jamais me tornaria uma freira, esperava fazer dezoito anos pra zarpar dos olhos de vocês. Cassiano levantou-se do sofá, juntou as mãos sobre o peito e falando delicadamente se fez escutar: - Gente! Beijão! O fim do mundo vai me encontrar nos braços do Edinho. Enquanto todos revelavam verdades, a TV anunciava que o asteróide, como por milagre, desviara-se da terra, livrando o planeta do caos. Cassiano, já na porta, voltou, sentando-se bem de mansinho junto à Marina, que tentava se desfazer do “bagulho” que lhe queimava os dedos; enquanto Tereza se rebuscava do tercinho no bolso da saia.

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A noticia caiu como uma bomba aos ouvidos do casal, dos filhos e avós que, no momento, lamentavam o milagre. Dona Esmeralda deu um pigarro, se recompôs ajeitando o cabelo, e quase gritando de nervosa se pronunciou: - Graças a Deus! Dessa vez foi por pouco! Continuamos nosso “joguinho” agora, ou quem sabe, será tarde demais? Seu Emiliano, mais tranquilo do que nunca, levantouse, dirigiu-se ao centro da sala. Olhando fixamente para um “monte” de bocas caladas, enfiou o dedo mindinho no ouvido direito e deu uma chacoalhada. Repetiu o gesto no ouvido esquerdo. Fechou os olhos, tampou o nariz e assoprou fazendo cara de sapo, como que tentando “explodir” todos os sapos que teve de engolir, e falou: - Chiiiiiii!Acho que fiquei surdo!

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Perto do fim do mundo (parte II) E agora família?

Surdo? Gritaram todos num mesmo tom estridente de voz. Dona Esmeralda e os filhos pareciam explodir entre um misto de euforia e tristeza. Quase histéricos, falavam ao mesmo tempo, tentando fazer com que Seu Emiliano escutasse o que diziam. A vontade de todos era saber em que ponto da brincadeira “engole sapos”, proposta pelo próprio homem, ele parou de escutar. O que foi dito nos momentos que anteciparam o fim de mundo poderia ser fatal para Dona Esmeralda , a dona da verdade que se revelara uma adúltera e, certamente, teria que prestar contas sobre o fato de ter se deitado com o Afonso da padaria, com o qual, pode ter feito sua “criatura” mais surpreendente, o sensível Cassiano que acabara de “sair do armário”. Para Marina, a maluquinha de cabelos cor de fogo chamuscado de azul, que se revelara muito hábil em “fechar um baseado”, e se classificar como uma “dada” que gostava da coisa e “dava” por puro prazer. Para a doce Tereza, chuchuzinha dos avós paternos, referência para os velhos pais de Dona Esmeralda; aquela que nunca enganara a maluquinha, que a acusara, dia sim, outro também: tu não me enganas, tu te rasgas de vontade de dar, de tornar-se mulher; o que tu faz é só gênero para agradar nossos velhos e avós. Na verdade tu és uma “Madre Tereza do pau oco”. 73


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Naquele clima, próximo do fim do mundo, a irmã conseguiu fazer com que a falsa santa se revelasse. A menina recatada que todos pensavam que fosse, mostrara-se uma quase tarada, prometendo fazer e acontecer logo que completasse o ensino médio. Contou aos prantos que correria o mundo e daria muiiiiito... Na tentativa de recuperar o tempo perdido. Comentário que deixou todos, talvez menos Seu Emiliano, por estar surdo, com os cabelos da parte mais intima, totalmente arrepiados. Dona Avelina e Seu Venâncio, juntamente com Seu Osvaldo e a esposa Marieta, se revezavam em mímicas, na tentativa de que o “companheiro de surdez” contasse o que se passou para que ele perdesse a audição. Para então, buscarem auxilio médico, para que o “chefe da unida família” se recuperasse. Àquela hora do dia, e com a notícia bombástica do milagre, não haveria médico que tivesse cabeça para realizar um exame profundo em Seu Emiliano. O disse-me-disse entre os presentes na sala teve um rumo que assustava Seu Emiliano que, bem zonzo, não dizia coisa com coisa. O homem somente virava o pescoço de um lado ao outro, olhando fixamente para aquele tantão de bocas que não se fechavam e que se articulavam ao mesmo tempo, na tentativa de compreendê-las. Descansou um pouco o vai e vem da cabeça quando olhou para os sogros que preferiram seguir em silêncio, roendo a rapadura trazida por Dona Avelina. A rapadura, por descuido, havia sido deixada na bolsa da velha desde o último domingo, quando a “família unida” se encontrou para o tradicional almoço.

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Seu Emiliano sentiu-se enfraquecido com a situação, tonteou e foi amparado por Dona Marieta, sua doce mãezinha. Essa, aos soluços, já diagnosticara a causa para a surdez do filho- trauma- por tudo que ele ouvira nas últimas horas e a culpa era somente de Esmeralda e da família desajustada a quem ela não soube educar. Terminou o bate boca soluçando e acarinhando o filho que tentava, enfiando os mindinhos nas orelhas, desobstruí-las para voltar a ouvir. O pai de Seu Emiliano, muito sensibilizado com o filho, resolveu se manifestar: -Esmeralda, tu foste, como já disse Marieta, um verdadeiro “zero à esquerda” pra nosso filho; o coitado, desde que se casou, passou a ser dominado por ti e depois por essa trupe de filhos que... Vá saber se são dele mesmo. E continuou: - Farei com que Emiliano tome as devidas providências, buscando direitos, exigindo um exame de DNA. Só então tu saberás para que criamos nosso filho, vai sobrar para todos vocês. Interrompeu o discurso, a fim de ajustar os dentes postiços “zero quilômetro” no pouco de boca que lhe sobrara. Como dizia a desaforada neta maluquinha: “é muito dente pra pouca boca”. Para finalizar os desafetos com a nora, falou num suspiro de dar dó: -Penso que teria sido bom se Emiliano tivesse perdido a audição tão logo tua boca suja se abriu. Não se dando por vencido, o velho falou de cada um dos sapos que teve de engolir durante sua longa vida, sendo que muitos se encontravam bem a sua frente, por isso não se sentiu constrangido para desembuchar mais um “rosário”. 75


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- E tu, Cassiano? Bem que não me enganava, não parece com ninguém da minha família, tua sensibilidade se assemelha a do filho do Afonso. Fica sabendo que esse tal de Edinho, teu caso, como disse tua irmã, é o maior aproveitador da paróquia e deve estar contigo pra tirar algum proveito. De forma até então desconhecida por todos, ironicamente, o velho perguntou ao possível neto: - Quanto ele te cobra? Ele é movido a “dindin”, “bufunfa” - se é que me entende - Fica sabendo que ele é o maior 171, da mesma laia da tua irmã Marina. O velho deu uma sugada na saliva que insistia em escorrer queixo abaixo, para então, detonar aquela que lhe dizia: “é muito dente pra pouca boca”: - Essa aberração de cabelos cor de fogo chamuscado de azul vive pra cima e pra baixo dando pra todos. Meus amigos da barbearia dizem que ela se aproveitou até do neto menor de idade do Genésio, meu melhor amigo; dizem por ai que essa 171 dá até por um saco de pipocas – quase morro de vergonha! Apertando cada vez mais o braço do filho surdo, continua: - Até tu Tereza? Tu que era minha esperança! Essa me pegou de surpresa! Burro de mim, eu bem que deveria prever que sendo filha dessa daí ó... Apontando para Dona Esmeralda, boa coisa não podia dar. Santo Deus! Por que esse milagre aconteceu? A essa hora estaríamos todos onde deveríamos estar: no inferno. Dona Esmeralda percebeu lá pelas tantas que o marido estava escutando mais do que todos os presentes na sala impregnada de desafetos. Para poupar explicações, ele deu uma

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de “sabichão” - pela primeira vez na vida - Preferiu fingir-se de surdo para abreviar os momentos que viriam e, na certa, acabaria com a “harmonia” de sua família. Entendendo o “recado”, Dona Esmeralda rebateu as ameaças e desaforos ditos pelo sogro, que não só a atingiram, mas a toda a família. Principalmente, seu honrado, marido. Tomando a postura que Seu Emiliano esperava dela, a mulher sacudiu a cabeça de um lado ao outro, ajeitando o coque que se desfazia. Tomou “tenência” da situação, recolheu os filhos para si, deu “de mão” no marido que se aproximou mansamente da esposa e das “crianças” e, quase “berrando” diz: - Já que o mundo não acabou vamos “levar ele” conforme vai dando, não é mesmo? - Penso que está na hora de todos se recolherem, comentou esfregando as palmas das mãos: - Vamos, vamos, vamos... Cada um pra sua casa que já está tarde... Vamos nos acomodar e amanhã providenciar um bom médico para meu “maridinho”. Olhando bem no fundo dos olhos do homem, perguntou: - Não é mesmo “querido”? Seu Emiliano sacudia a cabeça indicando que estava aprovando tudo, como de costume, em sinal de respeito à esposa, a dona da verdade, durante o pronunciamento. Os velhos foram “empurrados” porta fora pelos netos, enquanto ouviam mais uma de Dona Esmeralda: -Nos encontraremos no próximo domingo. Almoçaremos juntos, como uma “família unida” que somos. Não é? - Quem sabe não seremos agraciados por outro milagre? E Emiliano voltará a escutar, não é mesmo crianças?

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-A santa do pau-oco, em coro com a maluquinha e o sensível falam a uma só voz: -Para Deus nada é impossível.

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As intrigas do Zé Banana

Uma grande parte da população da cidadezinha se encontrava no velório do Zé Banana; muitos só queriam confirmar se o homem estava realmente morto ou se era mais uma das peças que ele costumava pregar. Outros, no entanto, apreciavam tais encontros para colocar os assuntos em dia. Ouvia-se todo o tipo de conversa ao redor do caixão. Era um disse-me-disse sobre a maneira como o defunto fora encontrado. Alguns diziam que era coisa do “medonho”, pois fora encontrado nu, debaixo do mesmo pé de bananeira em que havia sido recolhido há trinta e cinco anos. O Zé era um mulato forte, de grandes olhos negros, fartos cabelos cacheados, dono de uma dentadura muito branca que jamais ficava escondida dentro da boca, pois ele vivia falando, era sabedor de qualquer assunto e opinava sobre tudo, até o que desconhecia. Era muito intriguista e, pelo tanto que falava e opinava, parecia saber como mudar o mundo. No fundo, não mudava nem de cuecas. O homem fazia caso de tudo que passava na cidade que o acolheu desde muito pequeno. Ninguém sabia ao certo sua procedência, quem era sua mãe, muito menos seu pai. Um casal de agricultores o havia encontrado entre as folhas de uma bananeira, batizando-o de José, mas sempre fora chamado de Zé Banana, em razão das circunstâncias.

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O menino foi criado por todos e, ao mesmo tempo, por ninguém. Tudo o que aprendeu foi com a vida. Comeu o pão que o diabo amassou, mas também aprendeu a devolver na mesma moeda. Tornou-se um intriguista de marca maior. Assuntava de tudo e sabia contar “causo” de todos os viventes da cidade; aparecia em todos os lugares, mesmo sem convite, e dava opinião sem cerimônia. Quando lhe davam trela, ele permanecia no lugar e, dependendo da hora, fazia parte das atividades das casas e das famílias sem nenhum constrangimento. Costumava comer em vários lugares, não tinha cerimônia em chegar aos lugares e “prosear” até que fossem forçados a lhe oferecer um prato de comida. Zé morava em um cafofo, nos fundos da casa da propriedade rural daqueles que o encontraram, e a quem ele muito estimava. Mas só para dormir, pois, durante o dia, perambulava fazendo intrigas para ter uma “carta na manga”, pelo menos sobre os mais influentes da cidade, como foi o caso do delegado Salgado; da professora aposentada Dona Belinha, atual chefe de gabinete do prefeito Deodoro e de Fred, filho varão da família mais rica das redondezas; rapaz de fino trato e herdeiro da fortuna dos Cardoso. O delegado Salgado tinha Zé atravessado na goela, e Zé tinha o delegado em suas mãos. Por anos, fora protegido de Salgado, que devia uma vela a cada santo e somente Zé era conhecedor. O intriguista, certa noite, viu o delegado de lerolero com dois homens muito suspeitos na zona das mulheres de “vida fácil”. Como quem não queria nada, foi logo assuntando para o delegado que sabia de sua relação com os malandros. Bastou atirar o verde para que o todo poderoso caísse na rede

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do fofoqueiro. Para não acabar na boca do povo, passou a ser uma das vítimas do Zé Banana, que se beneficiava com a “terna amizade” do delegado Salgado. Por acaso, descobriu que o delegado, todo metido a sebo, era cúmplice de uma quadrilha que roubava gado das fazendas da redondeza. Era a razão pela qual fazia corpo mole e jamais prendera um ladrão sequer, nem mesmo para justificar o cargo de delegado. No entanto, a conta bancária engordava mais que as vacas dos fazendeiros- como dizia Zé- quando recebia seu “gordo salário”. O delegado Salgado não se perdoava pelo flagrante e pensava todas as manhãs que teria que dar fim à situação. Dona Belinha queria a cabeça do mulato, que sabia, tim tim por tim tim, de seu caso de longa data com o prefeito, por sua vez, casado com Dona Alexandrina e pai do único médico da cidade. Sabia contar desde o primeiro encontro do casal até o último. Zé falava, coçando a barbicha, que o prefeito não era mais o mesmo, já que os encontros do casal de amantes se espaçavam a cada ano e não mantinha o entusiasmo do princípio. Com fala mansa e se fazendo de compreensivo, o mulato se aproximou e conquistou o coração da professora, chegando a tornar-se seu confidente. Não muito tempo depois, Dona Belinha a Bel, como Zé a chamava na intimidade, tornou-se uma das vítimas mais exploradas. Frequentemente, ele fazia as refeições na casa da mulher, exigia roupas limpas, passadas, cama e boa comida. A professora, a cada ano, encontrava-se mais e mais nas mãos do intriguento. A professora, enquanto jovem, serviu às “necessidades” do Zé, que apreciava uma carne branquinha, suculenta e bastante 81


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farta. Depois que o tempo fez o devido estrago no corpaço que dividia com o prefeito, passou a exigir outras coisas da professora aposentada, deixando o “terreno limpo” somente para Dr. Deodoro. Dona Belinha, o prefeito e Zé tornaram-se “grandes amigos” aos olhos do povo. Fred, o pobre menino rico, caiu nas intrigas do Zé desde muito cedo. Quando “saiu do armário”, teve como “conselheiro” o Zé, que não se fez de rogado e opinou com toda sabedoria: – Fred, meu rapaz, não se aflija, por ora deixa como tá; afirmo que ninguém ficará sabendo desse romance. Minha boca é um túmulo! Pode se abrir pro amigão aqui. Está certo que não é minha praia, mas tenho maior apreço por gente como tu, assim... Como posso dizer? Delicado! Mas diga lá, quem é o “cara”? Como “bom político”, Zé batia a mão no peito estufado, gargalhava por dentro, enquanto pensava: mais um bobo em minhas mãos. Zé fez gato e sapato do Fred, que, com receio de ser descoberto cobria todas as exigências feitas pelo espertalhão. Zé, com toda “simplicidade” que lhe era peculiar, chegou a aceitar o “convite” para um longo veraneio na casa de praia dos ricos empresários, com direito a motorista e muitas outras regalias. Em várias oportunidades, enaltecia o sucesso do amigo com as mulheres: – Esse é garanhão! Não pode ver um rabo de saia que créu... Não tem pra mais ninguém. Os pais de Fred, já desconfiados da masculinidade do filho, ficaram um tanto aliviados por isso insistiram para que o Zé aceitasse viver no modesto cômodo nos fundos da mansão. Sem se fazer de rogado, piscou os olhos negros para o “grande

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amigo” e esclareceu que somente aceitaria para ficar mais próximo de Fred; enaltecendo a macheza do amigo dizia ter muito a aprender com ele e blábláblá... Mandava aquele lero pra cima dos pais do rapaz que se sentiam agradecidos a Zé O velório transcorria dentro da normalidade, não fosse pelo fato de Dona Belinha escutar um sussurro vindo do caixão onde Zé se encontrava, pela primeira vez, com a boca calada. A velha jurava de pés juntos que ele a chamara pelo nome. O disse-me-disse aumentou quando o delegado também suspeitou ter escutado Zé pedindo ajuda. Foi o que bastou para que todos se aproximassem, aguçando o ouvido para também escutarem o que o defunto tentava dizer. Decidiram, por bem, chamar o médico que havia atestado a morte. Enquanto esperavam o jovem doutor, afrouxaram a gravata do Zé, retiraram os tufos de algodão que tampavam suas largas narinas e abanavam ventarolas sobre o morto para evitar que ele sufocasse ainda mais. Fred aproximou-se do caixão, colocou o ouvido esquerdo sobre o peito do defunto, esperando ouvir algo. Foi quando sentiu a mão do morto que tocou em sua orelha repleta de piercings. Fred teve um “fricote”, caiu para trás, quase se estatelando no chão. Foi amparado pelo jovem médico que, de forma delicada e atenciosa, atendeu primeiro o vivo para depois pedir a todos que se retirassem a fim de examinar o morto. Mexeu aqui, mexeu acolá, examinou o pulso e ouviu o peito do grandão, quando teve o braço assegurado pelo defunto: - O serviço não foi bem feito, “cara”! Sussurrou o “morto”.

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Sem pestanejar, o jovem médico entupiu as narinas do mulato com algodão. Com uma das mãos, segurou firme os braços do quase morto que já estava muito fraco pelo tanto que ficara sem ar. Com a outra mão, tampou a boca do coitado até certificar-se que o serviço estava feito: que o morto estava bem morto e não houvera erro no atestado de óbito. Olhando firme nos olhos de Fred, o primeiro a voltar ao recinto, o “cara” deixou cair uma lágrima, que escorreu pelo rosto suado, porém, aliviado.

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Mulher fatal

O pequeno tanque de roupas ficava logo atrás da casa de madeira, na Rua das Palmeiras. Ali era o lugar de trabalho de Josefa. A lavadeira não perdia serviço por mais difícil que fosse, pegava de lençol até ternos completos, para passar e gomar. Alguns mandavam roupas íntimas, vestido de noiva, fantasias... Mas como era sua profissão, não negava fogo. Fosse o que fosse ela retornava limpinhos. Mesmo com as modernas lavadoras de roupas, Josefa conseguia sobreviver do ofício herdado da mãe. Na pequena cidade de Coroinhas, interior de Alagoas, distante quarenta quilômetros da capital, ainda não havia lavanderias, por isso seu trabalho era bastante solicitado. Josefa, que morava em frente ao estádio de futebol, tornou-se a lavadeira oficial do time. Só pelo cheiro, sabia dizer de quem era cada camiseta. Já tivera cada um e, mais da metade, da fanática torcida na cama. A moça nunca se apresentava com a roupa de trabalho para receber os clientes. Pegava as encomendas até determinada hora, sempre muito bem emperiquitada; depois, se trajava para cumprir as atividades de lavadeira. Normalmente, vestia um short bem curtinho, que lhe deixava as grossas coxas à vista e ao deleite do sol; prendia o cabelo castanho e encaracolado num coque e vestia uma camiseta, que estampava a cara de algum

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político, amarrada bem debaixo dos fartos peitos. Ao som do radinho de pilhas esfregava, ensaboava, enxaguava e, de peça em peça, via o resultado do ofício nas roupas dos fregueses. Quando terminava as tarefas, vestia roupas acinturadas e com profundas fendas traseiras. Não tinha para mais ninguém, era um mulherão que levantava até defunto. Estava de caso firme com o brigadiano, cara novo no pedaço. Ela não queria nada sério, achava que ainda era muito cedo. Sabia como eram os homens, já havia passado por muitos, e no momento quem “escolhia” era ela. No quarteirão atrás da casa de Josefa moravam três homens, com os quais ela nunca estivera. Ninguém sabia o que faziam, uma vez que estavam sempre em casa. Ela podia observá-los do tanque, onde ficava boa parte do dia. O que os separava era apenas o quintal que, diferente do dela, era mal cuidado. Pensando que não tinha nada a ver com a casa dos outros, Josefa cuidava do que lhe pertencia e nada mais. Os rapazes não saíam, tampouco incomodavam, estavam sempre na deles. Vez ou outra, eles levavam trouxas de roupas para lavar, principalmente, lençóis e toalhas de banho. Pouca roupa do fino vestuário dos homens Josefa havia cuidado. Antes de lavar, Josefa tinha o hábito de examinar todas as peças. Não estava disposta a pagar por alguma mancha devido ao esquecimento de algo entre elas. Já havia encontrado no bolso de uma calça uma aliança, que fez questão de devolver pessoalmente, ao infiel marido dono da calça, para não criar polêmica entre o casal que ela conhecia bem. Junto com as roupas de cama e banho dos rapazes, Josefa encontrou um papel bem dobradinho. Pensou em não ler, mas

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também não era nenhuma santa. Examinou o conteúdo várias vezes, até certificar-se de que ali estava o plano de assalto ao banco da capital. Tinha tudo, desde horário, dia, endereço, só não entenderia quem não soubesse ler. O que não era o caso da lavadeira. Devolveu as roupas limpas, especialmente cheirosas, mas guardou o papel. Pelas contas, ainda faltava uma semana para o plano ser colocado em prática. Até lá, pensaria no que fazer. Poderia denunciá-los, contar ao brigadiano, atual namorado, ou exigir uma parte do dinheiro. Poderia virar uma heroína, sair em jornais e TVs, ou uma mulher fatal, daquelas vestidas para “matar”, acompanhando os rapazes no assalto. Roupa não lhe faltava. A semana passou rapidamente, mal deu tempo de Josefa resolver. Na noite seguinte, uma sexta-feira, o plano seria executado. Avisou os clientes que entregaria as roupas, lavadas e passadas, até as dez horas da manhã, pois iria para a capital visitar um parente doente, e retornaria somente na segunda-feira. Meio-dia, vestida como mulher fatal, daquelas de deixar qualquer um com torcicolo, acomodou o corpo de violão no assento número um do ônibus, com direito a flertar com o cobrador e tudo mais. Ficara de tocaia perto do lugar indicado no papel. Não poderia perder a hora e qualquer detalhe. Às dez horas da noite de sexta-feira, estacionou um carro preto na esquina do banco. Dele, saíram três homens que se dirigiram para a agência bancária. Quando se preparavam para agir, usando sobre o justo vestido vermelho um sobretudo preto, sapatos de saltos bem altos, bem maquiada e penteada, Josefa mostrou aos rapazes, que logo a reconheceram, o pedaço de papel.

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Josefa, aos poucos, inaugurou modernas lavanderias por toda a capital. Em Coroinhas, abriu o primeiro estabelecimento no ramo. Para a inauguração, convidou vários clientes do tempo do tanque e outros tantos. Compareceu o prefeito com a primeira dama, que fez questão de levar um cesto de roupas a serem lavadas. Brindaram com espumante o novo empreendimento. Enquanto isso, os jornais do país estampavam o assalto ao banco, destacando, entre a quadrilha, uma mulher fatal.

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Para sempre solteiro

Nestor era um cinquentão avesso ao casamento, melhor dizendo, a qualquer coisa que o prendesse muito tempo. Por isso, ainda não se casara, para pesadelo da mãe. Tampouco tivera um emprego fixo. O rapaz era sustentado por Dona Belmira, simpática velhinha de quase oitenta anos, que vivia dando desculpas para a solteirice do único filho varão. Vez ou outra, quando arrumava um bico que não o estressasse tanto, nem exigisse muito de seu tempo, Nestor levava alguma contribuição financeira para casa. Nestor costumava acordar perto do meio-dia, espiava as panelas que desde cedo frigiam no fogão, para sugerir outro cardápio à velha mãe que, de pronto, corria para agradá-lo Durante boa parte do almoço, Dona Belmira indagava ao filho sobre a noitada, já que o via chegar com o sol nascendo. Perguntava sobre as moças que ele encontrara, se alguma o havia interessado e para quando seria o casório. Nestor sempre ouvia da mãe as mesmas perguntas e respondia a mesma coisa: - Casamento não é pra mim: tô fora! Dona Belmira, mesmo escutando a quase monossilábica resposta, não deixava barato e mandava aquele lero-lero para cima do filho. Para não ser rechaçada, começava com um agradinho:

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- Nestor meu filho, tenho um presentinho pra ti, não é muita coisa, mas bem que dá pra mais uma boa noitada. Torço para que encontres tua cara metade. E continuava quase num lamento: - Já estou velha! Quando eu morrer, quem vai tomar conta de ti? Vê se toma juízo, encontra uma moça decente, assim termina esse falatório. Nestor era o único filho homem de Belmira e do falecido marido, que morrera ainda quando o filho era um rapagão. O velho partiu sem nunca ter visto seu varão com uma mulher, fato que o deixava encabulado e seguidamente resmungava: - Deus me livre ter um filho “frutinha”. Esse guri não é chegado em mulher, não puxou a mim. Dona Belmira e Seu Nestor tiveram, além de Nestor Filho, outras duas filhas: Marisa e Judite. Ambas ficaram moças e se casaram. Nenhuma era feliz, mas constituíram família, e isso era o que importava para a pobre mãe. Marisa era a mais nova e mais apegada à mãe. Por isso, usava a pobre velha como “penico”, quando começava a falar mal do marido Osvaldo. Dizia que ele, tal qual o irmão Nestor, era sustentado por mulher: - Pode não parecer, mas o danado, que parece ser uma boa pessoa, não passa de um folgado. Não fica em nenhum serviço, vive pulando de galho em galho e sempre dá uma de vítima. Constantemente se justifica, dizendo ter sido sabotado, que os outros o perseguem, por isso é despedido sem direitos legais. No fundo, todos sabiam que Osvaldo era muito preguiçoso, gostava de sombra e água fresca, mas era um bom

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marido, não batia em Marisa e dizia amém a tudo que ela decidisse. O marido de Judite era o diabo vestido de gente. Constantemente, rolava quebra-pau entre o casal, por que o garanhão tinha uma namorada em cada bairro. A moça preferia esconder o mal sucedido casamento, mas, vez ou outra, chegava toda lanhada, na casa de Dona Belmira, onde pernoitava. Deixava os ânimos se acalmarem para voltar à cruel rotina. Nestor não combinava em gênio com Judite, desde sempre pareciam cão e gato, bastava se olharem para que a confusão se formasse. A irmã seguia a mesma filosofia do falecido pai, e quase gritava ao dizer, depois de fazer o sinal da cruz: - Deus me livre ter um irmão “frutinha”. O que era logo rebatido pela mãe, que saía na defensiva do primogênito: - Que maldade dessa cabeça guria? Teu irmão só não teve a sorte de encontrar uma alma gêmea, como tu e tua irmã. Nestor ao escutar tal afirmativa, diminuiu o som da televisão e se preparou para botar fogo na fogueira: - Alma gêmea? Que ironia! Manheeeeê, tu não enxerga? E tu, Judite, não tem moral pra falar de ninguém. Tu não tens vergonha na cara? Vive apanhando do vagabundo do teu marido e sempre volta com a maior cara de pau. - Esse é o exemplo de casamento que a senhora fala? Continuou ele. E finalizou de forma irônica:

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- Vê se muda a lente dos óculos, velha! Vê se enxerga a realidade. Nestor e Marisa até que se davam bem. Seguidamente, a irmã caçula, a pedido da mãe, chamava a atenção do irmão: - Tu precisa te casar, Nestor! Não fica bem pra mãe, nem pra mim, nem para teus sobrinhos tua solteirice. Já está caindo na boca do povo. Olha que o povo comenta. Ah! Como comenta! - Ninguém tem nada com isso. Sou maior, vacinado e pago as minhas contas. O “pago minhas contas” entrou nos ouvidos de Judite como uma bomba, prestes a ser detonada. Foi quando a maldosa entrou na conversa, civilizada até então, com todo o veneno, detonando de vez o solteirão: - Paga tuas contas? Tu és tal e qual... Ela bate na boca e continua: - Deixa pra lá! Enquanto isso lança um olhar fulminante para a irmã caçula, que abaixa a cabeça, sabendo que Judite se referia a Osvaldo. - Não passa de gigolô de mãe. Toma vergonha na cara, Nestor! Dona Belmira e Marisa, auxiliadas por Osvaldo, resolveram desfazer o falatório no bairro e arredores, sobre a inexplicável solteirice de Nestor. Para isso, precisavam encontrar uma noiva e realizar o casório. Somente assim salvariam a honra do cinquentão. Em busca de uma mulher para Nestor, colocaram um anúncio no jornal: “Ótimo partido, cinquentão, boa pinta”. Isso

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não dava para negar. Nestor “pegara”, fisicamente, dos pais aquilo que tinham de melhor, no resto, deixava a desejar. O anúncio sairia os olhos da cara, mas tinha de ser bem explicado para atrair as jovens pretendentes. “As interessadas receberiam cama, mesa e banho”. Terminaram o anúncio, dizendo: “Exigese foto de meio-corpo”. Três mulheres atenderam o tal anúncio. Uma delas tinha quarenta anos, não gostava de trabalhar, lhe agradava o oferecido, mas havia um senão: sempre vivera com a avó, que deveria morar com eles, pois a velha já estava entrevada e blábláblá... Fora descartada de imediato. - Imagina outra velha por aqui, disse Nestor. É aí que eu fico louco de vez, corta essa! Terminou repetindo o solteirão. Maria de Lourdes, outra pretendente, tinha apenas vinte e cinco anos, era bonitona, loira de farmácia, alta, dona de um traseiro que faria o velho Nestor pai virar na cova. Lurdinha como se apresentara a moça, fora descartada por Dona Belmira que a considerou “sarna pra se coçar”, muita areia para o caminhãozinho do filho. Ademais, seria só o tempo do marido de Judite botar o olho na gostosa, para não haver mais paz, comentou entre dentes com a filha Marisa, que concordou em cheio. Cordélia, pretendente número três, tinha também cinquenta anos, nunca se casara e também se sentia pressionada pela família e amigos para encontrar alguém e constituir família. Chegou dizendo que casamento não era para ela. Gostava da solteirice, mas para agradar os parentes se candidatou. Nestor e Cordélia não tinham nada em comum, salvo o prazer pela solteirice. Mesmo assim, em apenas um mês, se

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casaram. Não houve namoro, nem noivado. O casamento foi “rápido e rasteiro”, sem muita badalação. A lua-de-mel aconteceu na casa de Marisa e Osvaldo que deixaram tudo arrumadinho para a primeira noite do casal, que depois se transferiu para a casa de Dona Belmira, onde fixaram residência. Nestor e Cordélia, em menos de seis meses de “união”, já pensam em separar-se. Nestor voltará à solteirice no patamar de desquitado. Assim ... Pode!

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Para sempre solteiro (parte II) Nestor e Cordélia

Nestor e Cordélia formavam um casal muito estranho às vistas da família e do povo do bairro e arredores, os mesmos que se ocuparam com a solteirice de Nestor por anos a fio. O casal ficou mais falado do que futebol, tal as confusões que aprontaram durante os seis meses em que estiveram casados. Na noite de núpcias, na casa da Marisa e de Osvaldo, travaram uma verdadeira guerrilha. Na mesma noite, declararam a incompatibilidade de gênios. Na fatídica noite que deveria ser de “mel”, a vizinhança, mais Dona Belmira e familiares, viram o maior quebra-pau, tudo por conta da geniosa nora. Cordélia, dona de uma solteirice arraigada, já na primeira noite, quebrou o maior barraco com Nestor, tudo porque não aceitou seu lado na cama. Justificou que estava espremida contra a parede, o que lhe causava mal-estar. Bastou para ouriçar o genioso Nestor que, de pronto, exigiu o direito de escolher o lado em que dormiria. Ele abominava dormir perto de parede, disse com todas as palavras que a preferência de escolha era dele, pois era o homem da casa, e ela, a mulherzinha. Essas palavras soaram como um estopim para Cordélia soltar toda a raiva. Ela não queria ser tratada como a mulherzinha, até porque não combinava com seus princípios, tampouco com seu físico. A mulher era grande, ombros largos, cintura bem marcada, grandes peitos e volumosas coxas completavam o físico da cinquentona. De longe, parecia ser feminina, dizia-se

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moderna. Vivera a juventude na década de setenta, optando pelo jeito meio largadona de ser. Olhava para as cunhadas e a sogra, que viviam criticando suas atitudes e declarava: - Os incomodados que se retirem. A família não compreendia o raciocínio de Cordélia, já que o casal, depois da trágica lua-de-mel, fixou residência na casa de Dona Belmira. Aos olhos empapados da velha, de Marisa e até mesmo de Judite e do marido, Cordélia era a intrusa. Mas Cordélia não se fez de rogada quando leu o anúncio: cama, mesa e banho. Isso lhe permitiu assumir a casa como sua. Pensava, com a cabeça enraizada na solteirice, que todos deveriam aceitar seu modo de ser. A coitada de Dona Belmira teve a privacidade, que já era pouca, encolhida ainda mais porque a nora era “espaçosa”. O dia-a-dia do casal resumia-se em dormir, brigar e comer; sempre nos horários mais absurdos, às vistas da pobre velha, que não saía mais da cozinha. A incompatibilidade do casal se fazia presente até nas preferências gastronômicas: Nestor gostava de feijão com muito tempero e farta quantidade de carne. Cordélia era adepta da comida orgânica, tudo por conta de sua juventude, na década de setenta. Por isso, sobrava para a cozinheira do casal, isto é, para Dona Belmira, que dia e noite, tentava agradar o filho e a nora. Nestor exigia que o almoço fosse servido exatamente ao meio-dia; continuava acordando tarde e, como de costume, sugeria um cardápio diferente do que frigia no fogão. A esposa nunca almoçava nesse horário, pois, logo ao acordar, quase ao meio-dia, fazia um farto desjejum, com café, frutas e torradas. Seguia fielmente as manias de solteira, com direito a reclamações quando, por ventura, faltava alguma de suas geléias preferidas ou uma xícara de café bem forte.

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Depois de um longo e farto café, banhava-se para então receber as estranhas amigas para a rodada de chimarrão com biscoitinhos doces. Aos gritos e muito escândalo a “trupe de estranhas” permanecia por horas ocupando a sala da casa, onde dormia Dona Belmira, desde que o casal se desentendera em plena noite de núpcias. Inconformada com a situação, dizendo que “a emenda fora pior que o soneto”, Marisa tentava aproximar o casal, dizendo à mãe que era questão de tempo, que eles haviam ficado muito tempo solteiros, e que tão logo se adaptassem seria feito ela e Osvaldo, Judite e o marido: tudo como mandava o figurino! Tudo normal. Ouvindo isso, Dona Belmira, já de saco cheio, estourou como nunca havia feito em toda sua vida e soltou o verbo para quem quisesse ouvir: - Como tu e o Osvaldo? Como Judite e o sem-vergonha do marido? Considera isso normal? Teu marido é mandado por ti, dorme mais do que a cama e não serve pra nada, sequer ajuda na educação das crianças ou atende alguma necessidade financeira. Teu cunhado e Judite só faltam se matar, o danado tem uma mulher em cada canto; indignada com a situação, continuou num sopro só: Todos pensam que me enganam, mas eu tenho olhos e sei de tudo. E teu irmão Nestor me saiu um... Furiosa da vida, ela soltou aquilo que negara toda a vida: - Um verdadeiro “frutinha”! Quase sem fôlego pela canseira do dia-a-dia, lamentou: - Razão tinha era o finado teu pai! Muito religiosa, ao falar do defunto, benzia-se ao mesmo tempo em que dizia: - Que Deus o tenha! Nestor Filho não gosta de mulher!

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O casal discordava até na marca da cerveja, coisa que ambos gostavam de fazer: beber, mas... Cervejas de marcas diferentes. Nestor apreciava a gelada que “desce redondo”. Cordélia preferia a “Patrícia”, importada do Uruguai. Depois de duas ou três que “deitavam” toda santa noite, começavam a discussão sobre a música que o único aparelho de CD da casa deveria tocar, já que apresentavam também incompatibilidade musical. Córdélia era apreciadora de MPB, adorava os novos baianos, dizia que muitas lembranças esse grupo lhe trazia, e nada melhor do que saborear uma “Patrícia” ouvindo Gal. Nestor era fanático por música sertaneja, que Cordélia considerava brega demais. Dona Belmira, com toda a paz que já estava quase no limite, sugeria que tirassem a sorte no cara e coroa. Vez ou outra, para sossego da velha, o casal concordava. Então, quem não dormia era Dona Belmira, que passava horas se remexendo no sofá, tentando pregar o olho e ouvindo “meu nome é Gal” ou Chitão e Xororó, um verdadeiro gritedo, como dizia a velha, que apreciava uma boa seresta; daquelas dos bons tempos que não voltam mais. A gota d’água para o fim da infeliz união deu-se quando Cordélia flagrou Nestor experimentando as roupas de seu armário. A mulher não sabia se era fetiche ou coisa de “frutinha” mesmo. Enquanto arrancava peça por peça do corpo do homem, gritava em alto e bom tom: - Dona Belmira! Marisaaaaaaaaaa! Ah, Judite! Venham ver o que descobri! Todas correram até o ex-quarto de Dona Belmira e se depararam com Nestor, vestido com um “body” vermelho,

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atracado nos fartos lábios de Cordélia, que saboreou o beijo como uma despedida de casados. Depois do longo beijo, com direito a expectadores boquiabertos se empilhando na estreita porta, Nestor afastou Cordélia e falou pausadamente: - Procure um advogado! Casamento não é pra mim! - Enfim, pra sempre solteiro.

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O guarda-livros

Seu Ubaldo foi renegado pela mulher quando se viu impossibilitado de cumprir o “compromisso” de marido. Um problema na próstata o impedia de apagar o fogo de Sofia, sua segunda esposa. Sofia era mulher jovem, fogosa, farta; dona de uma retaguarda avantajada - um exagero - e de um par de seios que mais pareciam dois melões maduros, prestes a serem degustados. Seu Ubaldo era um velho babão, que largara da primeira esposa, com quem tivera dois filhos, já adultos e com família, pela danada da Sofia. A interesseira se “apegou” ao velho e insistia em chamá-lo de “paizinho”, devido ao status dele no escritório de contabilidade onde trabalhava, e não pelo aspecto físico ou desempenho sexual do velho. Por algum tempo, Seu Ubaldo se saiu bem e saciara o apetite sexual de Sofia, que, mesmo assim, dava umas puladas de cerca. Seu Ubaldo havia trabalhado durante anos em um dos maiores escritórios contábeis de Santo André, onde encontrou a moça que seria sua segunda esposa. Sofia chegada do Nordeste com uma mão na frente e outra atrás, viera como tantos outros, tentar a sorte e conseguiu uma vaga de faxineira no escritório. Morena, muito sensual, esperta, logo deu bola para o velho que estava na idade do lobo, e que ainda se achava firme e forte para dar conta da nordestina arretada.

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Pobre do velho, mal sabia onde estava se metendo. Sofia sugava o que podia do guarda-livros, que já não era tão forte como pensava ser. Por conta da doença que o minguava, tornarase a metade do tamanho de Sofia. Seu Ubaldo construíra a casa bem ao gosto da segunda esposa, gastando boa parte da poupança que lhe garantiria uma velhice digna, mesmo assim era maltratado pela medonha. Muitas vezes, o velho se via obrigado a sair de casa, por ocasião das “visitas” que ela recebia. Era “convidado” por Sofia a dar uma voltinha, conversar com amigos; que ficasse ausente até “segunda ordem”. Sofia apossou-se da suíte construída para o casal, mas que nesses momentos era só dela. Para o pobre homem, restava o quartinho encostado da cozinha, bem pequeno e apertado, um cubículo onde cabia somente ele, em razão da pouca estatura. Sofia nem ligava, ajeitava somente a sala e o vasto quarto com banheiro privativo. Disso ela não abria mão, tinha que ter toda a privacidade para atender os “amigos”, que eram muitos. Enquanto Sofia rolava e gozava na imensa cama, Seu Ubaldo andava para lá e para cá, fizesse sol ou chuva, frio ou calor. Não podia chegar a casa antes da hora imposta pela mulher. Por conta de Sofia, ele perdera os amigos que preferiram a companhia da ex, a ter que aturar sua nova esposa. O velho não tinha mais ninguém, inclusive os filhos tomaram o partido da mãe e não compreendiam como o pai, sempre tão esperto, se deixou cair nas teias da venenosa. Avisaram-no que a esperta moça queria sombra e água fresca, e que quando ele não desse mais no couro, levaria o maior chute no traseiro.

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O velho pensava que haviam feito macumba para ele, pois assim que construiu a casa ficou doente; e não deu outra, lá estava ele pensando em sua falta de sorte, enquanto a mulher desfrutava de tudo o que a ele pertencia. Seu Ubaldo, como prático em contabilidade, organizara a vida de muitas pessoas, menos a dele. Sua aposentadoria era dividida com a primeira esposa que, por direito, contava com a metade; a outra parte caía direto nas mãos da bruaca, que se sentia no direito de desfrutar do dinheiro como bem quisesse. Alcançava ao velho uma pequenina parte, que dava somente para gastos com medicamentos para a próstata. A tarde não poderia ser mais quente, o sol torrava os miolos do homem, mesmo protegido por um chapéu de abas bem grandes; Seu Ubaldo não aguentava mais tanto picolé para aliviar o calor. Olhava o relógio a cada minuto, torcendo que chegasse a hora para, então, poder se recolher em seu minúsculo quarto, que também fervia pelo mormaço do sol. Mesmo assim, era melhor do que estar na rua. Humilhado e revoltado com a situação chegou a pensar que os miolos ferviam e resolveu dar uma de “machão”. Naquele dia, a sem-vergonha e aproveitadora teria o que merecia. Daria só mais um tempinho para pegar a vagabunda no intervalo, já que o “amigo” que viu entrando era o dobro da abundante Sofia. Ele temia apanhar de dois mastodontes. Ao chegar a casa, exatamente na hora marcada, encontra Sofia com aparência cansada de tanto farrear, mal conseguindo abrir a boca para dar ordens ao velho, que, com toda a autoridade, revidou como nos bons tempos. A megera foi se acalmando,

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sentou-se como uma gatinha na cadeira da mesa da cozinha e ouviu as ordens do guarda-livros. A partir dessa data, para que tivesse um teto, ela teria de trabalhar. Juntaria o útil ao agradável, ganharia a vida fazendo o que mais ela gostava, mas não de graça. Afinal, ele, como guarda-livros, sabia que para tudo tem um preço. O de Sofia seria alto e muito bem contabilizado.

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Erro fatal

A campainha da porta do sobrado amarelo da rua das laranjeiras soava, feito “uma louca” logo pela manhã. O jovem casal foi acordado pela dita que insistia em se mostrar presente. Com o coração “saindo pela boca” e a respiração ofegante pelo susto, perguntavam-se o que levaria alguém a insistir na campainha num domingo tão cedo: - Na certa, algo muito grave deveria ter ocorrido para tocarem com tamanha persistência, pensaram os dois. O jovem casal se desvencilha dos lençóis brancos do mais puro algodão, para logo-logo obterem a resposta a suas silenciosas indagações. Precisaram organizar “as ideias” já que ainda encontravam-se ressaqueados de amor e sedução da noite anterior. Antes de descer ao primeiro andar, para atender a campainha, o casal dá uma espiada nos quartos dos pequenos; os dois ressonavam como anjos. Marina fala baixinho para mantê-los dormindo. - Se “mão pesada” não trouxer noticias ruins, voltaremos para a cama, onde talvez role um clima, um terceiro “round” de final de semana. A passos largos chegam à porta. Ao abrir, olham-se surpresos. Ao mesmo tempo em que Rodolfo exclama: - Mamãe?! Num tom de indignação. -O que aconteceu? Não esperávamos pela senhora e...

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Marina encontra forças; já sentindo que a presença da sogra, àquela hora, e cheia de “bugigangas” não era coisa boa. - Dona Yara? Que surpresa boaaaaa! Que bons ventos a trazem? A nora desconcertada continua um monólogo indignado, tentando recompor-se da surpresa, e balbucia o que mais se parece com um lamento. -Por acaso a senhora não está doente, não é? Sua aparência está ótima! -Veio despedir-se e comunicar mais um longo cruzeiro? Ou, quem sabe,veio trazer boas novas. - Novo casamento à vista? Esse chute dado pela nora poderia ser “bingo” já que a sogra era dada a casamentos; para desgosto do filho, estava sempre de marido novo. Por conta disso, mantinham-se afastados, mãe e filho falavam muito raramente, somente por telefone, os dois batiamse de frente. Dona Yara nunca tivera tempo para o filho, tampouco para os netos que, em sua concepção, nasceram de uma “barriga errada” e no tempo impróprio. Para ela, o casório do filho o havia privado de todas as possibilidades de aproveitar o que o pai deixara. Dentre os tantos homens que teve o único com quem se casou e que já morreu, foi o pai de Rodolfo. Dizem as más línguas - tias paternas do rapaz - que ele, seu pai, teve um câncer de tanto que a mulher aprontava. Informações das mais variadas nunca faltaram e encheram a cabeça do jovem durante seu crescimento. O rapaz sempre teve a mãe como uma mulher livre e independente, que jamais daria satisfação de seus atos ou iria depender de alguém.

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- Mas o que era isso agora? Perguntavam-se em pensamentos, enquanto falavam sem parar. De tão nervosa, Marina não conseguia parar de falar; por mais que tentasse as palavras eram “vomitadas”, na busca de respostas que pressentia não serem as desejadas. Marina enrola-se no chambre de algodão pesado, como que querendo proteger-se da “bomba” que estava por explodir, espia para fora da casa e pressente mais surpresas chegando. Dito e feito: avistou o motorista do táxi que se estrebuchava tentando retirar do carro um tanto de malas e objetos da mulher. Sem sequer responder, Dona Yara, chiquérrima, como sempre, aos olhos da jovem mulher, desconsidera as perguntas da nora, somente estende o braço para entregar a “nécessaire” na mão de Marina que esperava, pelo menos, um cumprimento. Distraída, mas já pensando respostas às indagações, escuta a sogra balbuciar com muito esforço: - Estou exausta! Já não sou a mesma que aguentava uma noite mal dormida. Os aviões estão cada vez mais desconfortáveis e olha que voei de primeira classe! - Quem sabe junto de meu filho não recupere o fôlego perdido?! Ao sussurrar tais palavras, olha de soslaio para a nora que deixa transparecer seu ódio, ficando vermelha, como as maçãs que compunham a mesa da sala de jantar. Olhando fixamente nos olhos verdes e já bem despertos de Marina, apesar das poucas horas de sono que tivera a sogra ironicamente continua: - Queridinha! Como sempre, te enganas: vim para ficar!

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- Vendi a casa e todos os meus bens. Menos esta casa, é claro, que me servirá de teto até o fim de meus dias. Para enfatizar ainda mais, que tudo lhe pertencia, coloca o dedo indicador, com a unha mais bem tratada que a nora jamais vira no peitão siliconado, para concluir: - Veja bem! Vendi todos os meus bens queridinha, meus... Meus beeeeeeeens, ouviste? Ou queres que eu repita? - Pretendo como já falei desfrutar desta bela casa, e muito me agrada aproveitar como uma rainha do único imóvel que sobrou, bem junto ao meu filhão. E continua com o tom mais irônico: - Desse bobinho que não soube aproveitar a boa vida que poderia ter, já que alguém... Diz, mirando os olhos arregalados de Marina: - Se apossou de sua juventude e de tudo que poderia ter de melhor... Esse bobinho que eu tanto amo... Se tivesse me escutado! - Deixa pra lá o que passou – passou! Agora, é tentar viver da melhor forma possível o tempo que me resta. Quem não parava de responder o tantão de perguntas foi a sogra, que sentia necessidade de dizer tudo de uma só vez. - Ah! Continuou a sogra: - E quanto ao novo matrimônio? Erraste novamente! - Não pretendo desposar ninguém, mas tu não perdes por esperar; logo-logo Ricardo pinta por aqui. Nós dois juntinhos, como um casal de verdade, teremos horas de muita paixão, tu não perdes por esperar meu bem... Não perdes! Marina e Rodolfo encontravam-se estarrecidos com a presença inesperada de Dona Yara, ainda mais com as novidades

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que saíram da boca cheia de botox, e que entraram como uma bomba nos neurônios ainda assustados do casal. Eles já pressentiam acontecimentos muito bizarros a partir da manhã de domingo que tinha tudo para ser perfeita. Olharam-se de uma forma que mais se parecia um pedido de “SOS”. O olhar do casal confirmava que os dias de paz e tranquilidade estavam contados, pois ninguém podia com Dona Yara. Mesmo unidos sabiam-se incapazes de vencê-la. A mulher sempre agia de forma constrangedora, o que deixava filho, nora e netos, uma menina de quase sete anos e um menino de apenas dois anos, em sinal de alerta. Família perfeita, não fosse pela rabugice de Dona Yara. Nas poucas vezes em que se encontraram sempre ficaram sequelas profundas e difíceis de recuperar. Dessa vez, pensa Marina “a coisa” não será diferente. A casa de três quartos teve de ser reestruturada para acomodar a espaçosa que não se contentava com pouca coisa. Para tal, desacomodaram a garotinha, faceira como a avó, do confortável quarto, e a acomodaram junto do irmão. O fato já criou uma discussão entre o casal. Marina pensava não ser correto desalojar a filha dos aposentos em que ela estava totalmente ambientada. Com a fala mansa, perguntava ao marido onde colocariam tanta boneca, jogos, objetos e... Tititis... Que a menininha de sete anos faceira e sociável colecionava. O quarto da menina estava sempre cheio de amigas e vizinhas. Ali, elas viviam os mais variados sonhos e brincadeiras. - Não é justo ter que colocar Andréia junto do irmão. Rodolfo, por favor, fala com ela, explica. Ela há de compreender!

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Falava, falava, falava, mas sabia que não seria atendida. A sogra fazia gato e sapato do filho. O mundo do casal estava ruindo. Dona Yara não só apossou-se do quarto da neta como também exigia cama, mesa e banho, tudo a seu tempo. Alegava que a casa era toda dela e só dela. Ali, o casal e netos viviam de favor. Marina se via do quarto para a cozinha, esforçava-se ao máximo para não encrencar-se com o marido, que nada tinha a ver com a situação. Ele tampouco aprovava tudo o que a mãe aprontava, mas nada estava a seu alcance. A mãe convenceu-o e dizia-se cheia de razão. Rodolfo, conforme os dias foram passando, chegava mais tarde em casa, com uma desculpa na ponta da língua: - O trânsito estava péssimo. -Tivemos uma reunião extra. -Estive na recepção do novo chefe. Desculpas para os atrasos não faltavam. O que sempre gerava muita discussão entre o casal. Marina sabia perfeitamente que o atraso diário era para evitar contato com a mãe e as reclamações da família. Da filha que exigia o quarto de volta, e da mulher que encontrava choramingando enquanto relatava o quanto teve de afazeres durante sua ausência. Tais reclamações geravam mais brigas e confusões. A gota d’água foi a chegada tão esperada do “namorido” de Dona Yara. Desde a chegada do velhote, o trabalho triplicou. Os dois exigiam comidinhas especiais e subordinavam Marina aos horários que mais lhes convinham. As crianças foram deixadas em segundo plano, e o marido, quando chegava, encontrava a mulher um verdadeiro trapo, a qual esmurrava uma almofada e

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mordia um pano de pratos para desabafar toda a ira pelo tipo de vida que estava levando. Marina não se cansava de blasfemar contra a sogra: - Tomara que morra essa desavergonhada. Passa de “arreto” com aquele velhote, que nojo! Na manhã de sábado, enquanto o marido entretinha as crianças no “parquinho”, e os namoridos deleitavam-se em compras no shopping do bairro, Marina bisbilhotou as coisas de Dona Yara, para encontrar algo que pudesse usar a seu favor. Mexe daqui mexe dali, sempre com o cuidado em deixar tudo como encontrou se depara com o exame laboratorial de um famoso hospital da capital: - A paciente Yara Stam... - Qualquer coisa assim, sobrenome que a nora não sabia pronunciar, porque a dita cuja adotou um nome de “guerra”, rejeitando o sobrenome do pai de Rodolfo - apresenta um câncer degenerativo e fatal. A descoberta fez com que Marina sentisse dó da pobre velha, que estava com os dias contados. Agora, sabia o motivo para a sogra agir de forma mais cruel que o costume. Com toda a bondade que ainda lhe restava, Marina prometeu a si mesma que nada diria ao marido e aos filhos. Decide tratá-la com todo o mimo que um moribundo merece. Os dias foram se passando e Marina se “estrebuchando” de tanto trabalhar. O marido, que também passou a ser poupado das reclamações, sentiu-se aliviado e passava cada dia mais distante. Marina desconfiava que ele tivesse um caso, mas pensava ser passageiro, para aliviar as tensões. Assim que a sogra “partisse” as coisas entrariam no ritmo normal. Meses se passaram e nada da moribunda dar sinal de “partida”, foi então que, em outra ocasião, bisbilhotando nas

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coisas da sogra, Marina descobre outro papel do mesmo hospital, contrariando o primeiro. Esse, também curto e grosso, desculpava-se pelo erro do diagnóstico anterior. Para compensar, Dona Yara receberia uma polpuda indenização - Dona Yara gozava da melhor saúde que qualquer um da casa. Tomada do mais desconhecido sentimento, Marina sente a vida aos pedaços. Chora de raiva, resmunga fortes palavrões, bate com as mãos na cabeça, enquanto se castiga: - Burra! Burra! Burra! Como fui idiota! - A velha, há muito tempo, já sabia do erro, mas continuou se aproveitando de todo o dengo que estava recebendo. Com raiva, Marina pensa que, enfim, a sogra conseguira seu intento. Destruíra seu casamento, sua vida, seu futuro, sua família. Marina resolve vingar-se por todos os meses de “escravidão”, vingar-se pela família roubada, pelos desamores a que foram submetidos, graças às rabugices e à crueldade de Dona Yara. Marina, dentro da pouca sanidade que lhe resta, decide que deveria seguir rigorosamente o resultado do primeiro diagnóstico: “A paciente tem pouco tempo de vida”. A nora passa a oferecer uma “dieta” para lá de especial à sogra, que foi definhando... Definhando... Definhando... Dia após dia. Com o semblante muito sofrido e cansado, Marina, pouco tempo depois de submeter a sogra ao “tratamento especial”, choraminga junto do caixão, enquanto aconchega-se ao “ausente” marido e aos pequenos rebentos. Os olhares de Marina e Rodolfo se cruzam.

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O casal sabe que a sequela deixada pelos meses de “inferno” com Dona Yara levará um longo tempo para ser recuperada. Mesmo assim, a mulher abraça ainda mais Rodolfo e as crianças para junto de si na tentativa de resgatar o pouco da família que restou, devido a um erro fatal.

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As confusões do Juca carteiro

Juca era o único carteiro de Entre-Rios, cidade pequena com pouco mais de dois mil habitantes, localizada na fronteira do Rio Grande do Sul com o Uruguai. Foi criado um pouco lá um pouco cá, entre os dois países vizinhos. Por isso, o rapaz, mantinha um “discurso” meio enrolado: falava um “Portunhol aprimorado” que, às vezes, só ele entendia, deixando os outros sem respostas ou impossibilitados de comunicação com ele. O rapaz de pouco mais de trinta anos era uma “figuraça”: alto magro cabelo cor de fogo e a cara pintada por sardas. Vivia se “gabando” por ser descendente de austríacos, seus familiares, durante a segunda guerra, teriam fugido da Europa. Contava mundos e fundos da nobre família, e que o mais próximo da civilização que os ancestrais encontraram, para se refugiar, fora neste fim de mundo como se referia a cidade onde nasceu. Juca era filho único de Seu Hastor, que também havia sido carteiro em Entre Rios, e de Dona Judith, dona de casa e muito boa quituteira, que deixou saudades aos que tiveram o prazer de degustar seus docinhos e salgadinhos. Juca não casou, não teve namorada. Com o passar dos anos, tornou-se um solteiro convicto vivendo solitário na casa que recebeu dos pais. O carteiro era bem quisto pela população, até mesmo pela “cachorrada” das casas onde costumava entregar as mais diversas encomendas, desde cartas, pacotes grandes e, às vezes, pacotes minúsculos. Conta que até uma aliança com pedido de

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casamento já entregara. Eram histórias “pra mais de metro”. O carteiro era muito competente, porém, tinha um “defeito e tanto” para a profissão: o mau hábito de abrir encomendas e cartas endereçadas aos habitantes da região. Não bastasse o fato, “cansou” de trocar as correspondências, lidas tim tim por tim tim, ao novamente acondicioná-las para entrega. Daí pra frente, era só confusão. A casa que passara a servir como “correio” ficava bem no centro, na rua principal, era bastante freqüentada e mais se parecia com uma “lan house” de cidade grande. No lugar, seguidamente, encontravam-se as pessoas mais importantes de “Entre Rios”: o Dr. Nestor, médico antigo no lugar, o advogado Dr. Aníbal, viúvo “fresco” e o pároco da igreja “Nossa senhora da Anunciação” Padre Edgar, que dava um dedo por um pouco de prosa, dizia encontrar no correio pessoas à altura para trocar os mais diversos assuntos. Dona Hasta, a professora, era a pessoa que mais se valia do correio já que, Entre Rios, por ser muito pequena, não oferecia os materiais que ela necessitava na escola. Além de professora servia como diretora, coordenadora pedagógica, psicóloga e tudo mais em se tratando de educação. A velha professora beirava os sessenta anos, não se casara, tampouco se “divertia”, passou a vida entre cuidados com as três sobrinhas e com os filhos dos outros. Mantinha uma relação muito boa na cidade, sendo considerada a pessoa mais importante do lugar, pela sabedoria e também pela bondade: assumira a criação de Joana, Amélia e Teresa, após a morte trágica dos pais das meninas. Dona Hasta namorou e chegou a ficar noiva do Dr. Nestor, que preferiu abrir mão desse amor para não ter que

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assumir as três pequenas órfãs, já que tinha uma carreira promissora pela frente. Não passou muito tempo do fim do noivado com Hasta para que ele se arranjasse com Lelinha, a sobrinha do pároco, lá pelos anos sessenta. Joana, sobrinha mais velha da professora Hasta, com pouco mais de trinta anos, noiva do tenente da brigada militar, o jovem Belmiro, natural da cidade, transferido para outra localidade, mais para a fronteira, o que retardava o casório. Tereza namorava o sobrinho da mulher do Dr. Nestor, que vivia em Montevidéu junto com os pais. O namoro era mantido pelas inúmeras cartas que trocavam, dia sim, outro também; todas lidas e relidas pelo Juca carteiro. Amélia, jovem de vinte e quatro anos, era a caçula das três: estudava à noite na Universidade de Rio Bonito, distante oitenta quilômetros de Entre Rios; a moça preferira continuar vivendo com a tia e as irmãs, até finalizar o curso de enfermagem. Depois, criaria asas para o mundo. Era a mais sonhadora das três, pensava encontrar um príncipe encantado acreditava piamente em alma gêmea - por isso, continuava solteiríssima. Juca corria dia e noite atendendo o “leva e traz” de correspondências e encomendas para as mulheres da casa rosa em frente à pracinha, bem ao lado da casa paroquial, conhecida como “a casa da professora e suas sobrinhas”. De manhã bem cedinho, Juca abria o portão da casa rosa, a primeira do trajeto, que rangia fazendo Totó latir sem muito entusiasmo. Acordava as beldades que preferiam “assuntar” com ele, a fim de saber novidades da cidade. O moço nunca se fazia de rogado; sabedor de tudo, antes mesmo que o receptor das

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correspondências, contava todas as boas e também as “cabeludas” do lugar. Começava perguntando como “as guapas” haviam amanhecido e se mostrava bem à vontade em tomar seu desayuno com as belas. Enquanto se lambuzava com café, pão e guloseimas, Juca distribuía as correspondências para as donas, que se ausentavam do recinto para tomar conhecimento do conteúdo. Mais uma vez, quis o destino, que Juca trocasse a carta de declaração de amor eterno do jovem tenente Belmiro, noivo de Joana, e colocasse no envelope subscrito para a pura, sonhadora e futura enfermeira. Pela terceira vez, ela recebera carta do “cunhado”, que se dizia cada dia mais apaixonado, mas não sabia ao certo como esclarecer a situação. Na verdade, o coitado tentava contar ao seu verdadeiro e único amor, Joana, que perdera o emprego. Temeroso com o futuro do casório usava subterfúgios para com a noiva. Amélia, ao ler as juras de amor, compreendia que o cunhado estava apaixonado por ela, ao mesmo tempo em que pensava: “no coração não se manda”. Enquanto isso, Joana recebera a carta do “sobrinho” do Dr. Nestor, namorado de sua irmã Tereza. Com a carta, a moça certificou-se que não amava mais o tenente; que estava completamente apaixonada pelo cunhado que vivia em Montevidéu. Joana, muito feliz da vida, recebe um convite de emprego na capital Uruguaia, sem saber por que cargas d’ água fora escolhida, entre muitas candidatas, a um cargo de gerência no grande Hospital Municipal. Imaginou que o “cunhado” a queria por perto. Louca de contentamento anuncia a partida para

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Montevidéu. Esclarece que o casório com Belmiro estava sendo protelado pelo noivo, que ela iria “dar um tempo”... E... “Vou fazer minha vida”. A declaração fez o coração da doce Amélia disparar de alegria. Tereza estranhava, cada vez mais, o silêncio do namorado, já que não recebia cartas do uruguaio há várias semanas. Desencantada da vida, resolveu investir no desalinhado do Juca e pensava com os botões: “melhor o Juca do que ficar pra titia”. Por isso investiu pesado para cima do rapaz que pretendia permanecer solteiríssimo. Já na primeira carta endereçada a ele, enviada por Tereza, “quis o destino” que fosse parar em um envelope endereçado ao viúvo “fresco”, Dr. Aníbal, o advogado, que a recebeu cheio de amor para dar. A professora Hasta, muito esperançosa, continuou recebendo as cartas do Dr. Nestor, seu antigo amor. Dessa vez, ele marcava um encontro mais “caliente”, no lugar de sempre... Nos arredores de Entre Rios. Pelos detalhes da carta, e pelo “mimo” que recebeu, pensou que o ex estava tendo um “surto” de lembranças, quando, sob o luar, na beira do rio, trocavam juras de amor. A secretaria oficial do Dr. Nestor passou uma bronca no amante e patrão, falando alto, com o dedinho em riste, bem perto dos olhos empapados do velho médico: - Estou de saco cheio e sendo passada pra trás. Com muita raiva, a jovem secretária pensava: sou usada e abusada pelas taras do velho e sequer recebi o “presentinho” de pouco mais de 18 quilates que ele me prometeu na última vez em que estivemos juntos... O qual, nessa hora da manhã, já estava em

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dedo errado: Dona Hasta exibia o anel mais lindo que jamais vira. Enquanto as mulheres da casa rosa recuperavam-se das noticias, Juca se despediu. Seguiu seu “destino”: à casa paroquial, onde, o velho padre, devido às confusões do carteiro, na certa, receberia a carta da enfermeira - amante oficial do Dr Nestor - que havia mandado para o programa da rádio local, “Amor por correspondência”, na tentativa de encontrar a “tampa para sua panela”. A necessidade de amor, somado ao desejo de constituir família fez a enfermeira, prometer “mundos e fundos” ao pretendente - mais “fundos do que mundos”- o que, na certa, arrepiaria os poucos cabelos que restavam na cabeça do pároco da igreja “Nossa Senhora da Anunciação”.

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Amantes por acaso

Lalinha era uma mulher realizada e moderna. Dizia-se compreensiva com tudo que acontecia ao seu redor, porém, não aceitava traição - “era demais para sua cabeça”. Costumava falar: - Ninguém obriga ninguém a ficar junto, se não der? Parte pra outra! Agooora trair? É o fim da picada! Ainda muito jovem, casou com Oswaldo, com quem teve Ricardo e Gilberto. Abandonou a faculdade logo no início e dedicou-se à criação dos filhos e às lides domésticas, o que, aos poucos, dava-lhe prazer. Tão logo Lalinha e Oswaldo conheceram-se, ficaram perdidamente apaixonados. A paixão que a moçoila sentia permitiu que se “entregasse” mesmo antes do casamento, o que resultou em uma gravidez surpresa, por conta do rebento que estava a caminho os jovens casaram-se. Lalinha, por ocasião da gravidez, interrompera o curso de administração favorecendo ao “provedor” a seguir os estudos para proporcionar uma vida cômoda à família. Sem desanimar, pensava que sua vez chegaria, e depois de algum tempo do bebê ela retornaria à rotina. Lalinha, mulher de meia idade, nem bonita nem feia; dentro dos moldes que não atraía muito, tampouco afugentava. Era uma mulher calma e especialmente harmônica. Vez ou outra pensava em quão diferente poderia ter sido a vida se tivesse uma profissão. Teria chance como administradora? Por onde

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andaria? Logo, seus pensamentos voltavam-se aos filhos e ao marido, por quem ainda era apaixonada. Gilberto, o filho mais velho seguira a mesma carreira do pai. Passou a trabalhar em uma multinacional. Namorava Andréia com quem pretendia casar-se. Ricardo formara-se em arquitetura e vivia em Barcelona, livre e desimpedido. Com a saída dos filhos, a rotina apresentou-se ao casal com toda a força que jamais imaginavam existir. Todo dia, Oswaldo ajeitava-se sem muito entusiasmo e rumava para a empresa, enquanto a sonolenta Lalinha permanecia entre lençóis de seda até as dez horas. Quando levantava, fazia os afazeres que lhe cabiam, para depois banhar-se e perfumar-se. Sempre bem maquiada, deixava a casa a fim de desfrutar daquilo que mais gostava: cinema. Bastava ver-se em frente ao telão para que a vida se transformasse. Assumia a história tal qual fosse a própria vida. Oswaldo era mais “pé no chão”, mais durão, não aceitava levar uma rotina mais folgada. Era um verdadeiro “estivador”, trabalhava de sol a sol e pouco se importava com o que Lalinha fazia em sua ausência. Confiava no taco e mantinha a mulher sob domínio, afinal, era o provedor. Lalinha e Oswaldo pouco se encontravam; viam-se somente à noite, quando depois de um calado e breve jantar cada um partia para aposentos diferentes, a fim de assistirem o programa preferido. Lalinha dava atenção a novelas, e Oswaldo aos programas de economia, o que enchia o saco da mulher: - “Pô”, Oswaldo! Não basta ficarmos longe o dia todo? Precisa ficar assistindo a essas “baboseiras”, isso é só para

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aumentar tua pressão e teu estresse. Veja uma novelinha pra relaxar. Escutava apenas um resmungo do marido, como sinal de que estava sendo inoportuna; ela se calava e deixava rolar, não estava “nem aí” para que o marido fizesse. Lalinha tinha “cadeira cativa” no cinema, escolhia sempre as poltronas do fundo. Assim, não era incomodada por ninguém, tinha seu ritual e seguia à risca as predileções ao assistir um filme: um saco de pipoca acompanhado de “refri” era sagrado, vez ou outra, seguidos de um naco de chocolate, sempre “sem culpa de ser feliz”. A mulher não precisava preocupar-se com peso ou coisa que o valha, ela era bem feita de corpo mesmo próximo dos cinquenta anos. Às vezes, assistia duas películas seguidas, sempre à tarde, antes das sete horas, gostava de estar recolhida em casa, esperando o marido. A cidade onde viviam era de porte médio; mais conhecida como cidade universitária, pelo tanto de alunos de vários lugares do país que a procuravam, a fim de graduarem-se, porém, a cidade era conservadora, e aqueles que ali nasceram se conheciam há anos. Alguns sabiam da vida do outro e se valiam da conta bancária para promoverem-se, o que deixava Lalinha enfurecida, já que de conservadora ela não tinha nada. Evoluíra com o tempo, como boa aquariana. A empresa de Oswaldo era tradicional na cidade, passara de pai para filho e a cada ano se consolidava mais. O homem era muito conhecido e respeitado no meio empresarial. Otávio, professor universitário aposentado, formou-se em jornalismo nos anos setenta, profissão que não era bem compreendida pela sociedade, mas se deu bem. Tão logo se

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formou foi contratado pela faculdade para lecionar cinema. Passou a escrever uma coluna diária no “citadino”, comentando sobre cinema que era um de seus “vícios”, dali, não saiu mais, acomodou-se em sua rotina nada estressante. Otávio era muito bonito: alto, olhos esverdeados, farta cabeleira – um pedaço de mau caminho – e fora logo “fisgado” pela estudante de veterinária Anita. O homem deu muito “trabalho” para a esposa, devido à fama de conquistador, apesar disso, manteve-se casado e, segundo ele próprio sempre fiel à mulher. A família dependia financeiramente de Anita, que depois de formada assumiu os negócios deixados pelos pais. A herdeira de grandes extensões de terras sustentava a casa com o que tinha de bom e melhor. Nunca se deixou abater pelo “desconforto” que a profissão do marido causou aos pais que deram contra no casamento da filha, até que Anita apareceu grávida. A exemplo da mãe, a filha casouse muito jovem com um colega de Montevidéu, onde atualmente vive. Anita nasceu e se criou nas lides campeiras; devido ao gosto que sentia pelo campo, tornou-se uma exímia veterinária. Otávio, livre e desimpedido de compromissos, costumava passar as tardes de folga nas salas de cinema. Assistia aos filmes que a sétima arte apresentava, desde o água com açúcar até o filme de terror. Com a aposentadoria tornara-se um cinéfilo e tanto. Como Lalinha, Otávio frequentava o cinema somente à tarde, enquanto a mulher lidava no campo que proporcionava uma boa vida ao casal. A fama de conquistador de Otávio fazia com que Anita levasse o marido a “rédeas curtas”. Ela mandava e desmandava 124


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em casa, o que não incomodava em nada o maridão que se mostrava mais sexy a cada ano. Betina se viu “às voltas” para arranjar emprego desde que o marido foi demitido da empresa de Oswaldo. Ela jurava de pés juntos que a falcatrua na empresa fora, sem justa causa, atribuída ao jovem marido. Dizia ser pura inveja: conspiração dos empregados mais velhos, porque logo-logo o marido seria promovido. A jovem esposa não se conformava com o descaso que o patrão teve com o promissor empregado. Na ocasião, jurou vingar-se a qualquer preço, já que o fato deixou o casal com uma mão na frente outra atrás; justo no momento em que pagavam as prestações dos móveis da casa que alugavam. Betina trabalhava na bilheteria do cinema frequentado pela “inocente” Lalinha, que nem de longe sabia do ocorrido, tampouco conhecia a moça. Mas, como era do costume da mulher ser simpática com todos, logo que a encontrava, abria um bem-humorado sorriso, o qual, não era bem recebido pela bilheteira. Amarga, somente balançava a cabeça “espanando” os miúdos ombros com o rabo de cavalo que prendiam os dourados cabelos, ao mesmo tempo em que retorcia os carnudos lábios para o lado direito, demonstrando total sarcasmo. Desde o primeiro momento, Betina conhecera Lalinha, por isso, apresentava-se de cara amarrada com a coitada da mulher que nada tinha a ver com o caso na empresa. Cartas anônimas foram recebidas quase que ao mesmo tempo na empresa de Oswaldo e na casa de Anita, e o relato escrito com recortes de jornal era curto e grosso: - Você sabe com quem seu marido se encontra todas as tardes? 125


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A mesma pergunta com letras garrafais recortadas do jornal foi recebida na empresa do marido de Lalinha: - Você sabe com quem sua mulher se encontra todas as tardes? Oswaldo não deixou barato, foi logo contratando um detetive particular, que prometeu sigilo absoluto, ainda mais em se tratando do “Dr. Oswaldo”, rico empresário da cidade que prometeu recompensa ao homem, caso lhe fornecesse nome e sobrenome do cafajeste, para então poder “limpar sua honra”. Anita falou mal do marido com palavras nunca antes pronunciadas, aproveitou-se da situação e descarregou a ira por anos enrustida. Enquanto gritava seus desafetos, esfregava a carta bem próxima da cara do bonitão. O homem de olhos arregalados, dessa vez inocente, demonstrava pavor. Ao mesmo tempo em que jurava inocência se justificava: - Isso é coisa de alguém vingativo! - Procura do teu lado porque eu não tenho desafetos por ai... agora, tuuuuuuuu, com esse teu gênio de mandona... Vá saber... - Se fosse outros tempos... Tu até poderia desconfiar... Mas agoooora? - Anita toma jeito! Vê lá se eu tenho condições de “financiar” uma amante. Enquanto falava, esfregava o polegar com o indicador mostrando que a merreca de salário que recebia mal dava pra pagar suas tardes no cinema. Não precisou de muitos dias para que Juvenal, o detetive apresentasse fotos de Lalinha bem acomodada na sala escura do cinema. Dia sim outro também a mulher fora fotografada.

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Sempre por perto, encontrava-se um homem, reconhecido pelo empresário como “o metido a artista” que se empregou de marido da rica fazendeira Dra Anita, a quem ele não conhecia pessoalmente, mas admirava e respeitava. Seu Juvenal, a pedido do empresário, fez o “favor” de proporcionar um encontro entre os cônjuges traídos, os quais logo se aliaram para pegar no flagra os infiéis. O encontro deveria ser a quatro e em grande estilo. Os traídos queriam, diante de todos, colocar frente a frente os “amantes”. A festa de final de ano reunia os grandes empresários da cidade universitária. Lalinha preparou-se dias para o esperado encontro dos “grandes” do lugar. Pensava consigo que não poderia decepcionar o respeitado marido. Pela primeira vez em anos, Otávio abriu mão para comprar um elegante traje, especialmente para a ocasião, o que gerou mais certeza na enciumada esposa que logo pensou: - Para mim, ele veste somente calça jeans e camiseta, já para ela se emperiquitou todinho. Exuberante como nunca, Lalinha apresentou-se ao marido, vestindo um “longo” decotado, que deixava seu colo à mostra. Ele deslumbrou-se com a bela mulher que esteve sempre ao seu lado, e que pouco fora notada. Sensualidade percebida por ele como um sinal de que algo fugira de seu “controle”. Anita e Oswaldo, juntamente com seus respectivos, Otávio e Lalinha, encontraram-se nos salões do Clube União. Os cornos forçaram um encontro para as devidas apresentações. Insistiram durante toda a noite que o casal se encontrasse e, sob olhares atentos, os traídos observam as cenas que de longe pareciam ser de amantes. Ainda assim, estimulando para que

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eles se tornem “mais íntimos”na esperança de desmascará-los em pleno ato. Mãos que se encontraram olhares que se cruzaram, palavras que não precisaram ser ditas provocaram em Lalinha e Otávio uma paixão à primeira vista. Diante dos enciumados cônjuges, inocentemente, Lalinha e Otávio tornaram-se amantes por acaso.

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A sogrinha

Nem bem o dia havia amanhecido a campainha da porta da pequena casa da Rua do Pinhal numero 404 se esganiçava dando “o ar da graça”. Avisava que algo importante estava por vir, já que era feriado e, àquela hora, a cidade inteira ainda dormia. Nonato e Selminha encontravam-se abraçadinhos e sonolentos pela ressaca da noitada pré-feriado; nessas noites, o casal, ainda em lua de mel, tirava o atrasado, já que em dias normais ele trabalhava dia e noite. O pobre do homem chegava cada dia mais e mais cansado e mesmo se matando de trabalhar, no final de mês, não sobrava nada, causando estranheza para Selminha e a mãe, sua eterna confidente. A insistência da campainha despertou de vez Nonato, que esfregou os olhos a fim de retirar um tanto da “meleca” das poucas horas de sono. Irritado e resmungando muito, desenrosca-se dos braços da jovem esposa veste sua “samba canção” e corre até a porta que já balançava e estava prestes a desabar. Logo que abriu a porta, deu de cara, e todo o resto, ainda de forma explícita, com a sogra, Dona Ivone, que não se fazendo de rogada olhou para “as partes” do genro, balançou a cabeça de um lado ao outro, repuxou os lábios como era de costume, mostrando indignação, enquanto estalou um beijo na bochecha ainda inchada de Nonato.

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O homem sem dizer palavra recolhe o “monte” de malas e sacolas que a sogra estacionara na calçada, pertinho da porta e com voz rouca consegue balbuciar: - Que surpresa Dona Ivone! Se tivesse avisado teríamos ido ate a rodoviária lhe apanhar. Atropelando as palavras, mas não querendo escutar a resposta se atreve a perguntar: - Veio passar o feriado? E essas malas são as coisas de Selminha que ficaram em sua casa? Seguiu com um tom irônico na voz: - Ela vai adorar a surpresa de sua “mami”. Dona Ivone com voz de mal dormida vai logo respondendo: - As malas são todas minhas e quero que saiba que não precisa agradecer pela visita, pois essa será mais longa do que tu possas imaginar, não é uma visitinha simples. Diante da cara de interrogação do genro, Dona Ivone tenta explicar-se melhor: - Senti muita falta da minha menina, por isso concordamos que não deveríamos ficar separadas e vim passar um longo tempo. Selminha não lhe falou? Continuou no mesmo tom nasalado de voz: - Ela me confidenciou que tu passas muito tempo fora de casa, espero que trabalhando, mas mesmo assim estão passando, sem querer ofender, por necessidades. Não é mesmo? Dê graças a Deus por ter uma sogrinha tão prestativa! Então veja “euzinha” aqui de mala e cuia pra ficar. Nisso, abre os braços, dá uma rodopiada e continua exercitando a língua que se encontrara de recesso por algumas horas:

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- Já são quase oito horas da manhã, “faça o bem” e vá abrindo a sacola do mercado, aquela amarelinha ali. Vamos preparar um farto café para depois acordar a minha menina. Não querendo acreditar no que ouvia, Nonato pede “licencinha” e corre até o banheiro, olha-se no espelho esfrega a mão na cara e sente a barba por fazer. Percebe que os breves minutos de diálogo com a sogra a branquearam. O homem dá uma forte pigarreada enquanto retruca quase num sussurro: - Eu mereço! Será esse o preço que devo pagar pela “virgem dos lábios de mel”? Modo como ouvia a sogra referir-se à Selminha durante os poucos meses de namoro. Continua, em pensamento, não menos lamentoso que seus sussurros: - Como se já não bastasse o que tive que fazer pra poder casar e arrastar Selminha pra bem longe da megera. Eu mereeeçoo!. Nonato tinha pouco mais do dobro de idade da jovem esposa, na verdade, era da mesma geração da sogra, mas sempre fora chegado a “rabo de saia” mais jovem... Muito mais jovem... Era um homem enxuto e galanteador, sabia conquistar uma mulher com doces e românticas palavras. Nonato e Selminha se conheceram na saída do colégio da menina quando, de dentro do fusca vermelho, o “algoz” avistou a “presa”; a mais linda mulher que ele já vira e que desnorteou mais ainda sua cabeça. Com toda a lábia que Deus lhe deu, passou a investir na gostosona, pensando ser presa fácil como a professorinha que esperava, mas que dispensou na mesma noite.

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Com toda a pose de galanteador, ofereceu carona à jovem que não se fez de rogada e insistiu que só iria entrar no carro se as amigas também o fizessem. Dito e feito, o carro empinou de tanta guria dentro. Nessa noite, Nonato serviu de “táxifree”,recebeu apenas um “brigadinho” pela carona e nada mais. Daí para frente ele estacionou seu fusca em frente à escola, gastou o que tinha e o que não devia em gasolina e pneus para carregar Selminha e as amigas, toda noite, da escola até suas casas. Sem dar tréguas, conseguiu, em parte, seu intento. O velhote não contava que aquele mulherão de quase um metro e setenta de pura gostosura fosse cercada de cuidados, e que desejava casar-se virgem e constituir família. Era moça direita como dizia; com ela, a coisa era certinha, preto no branco. Selminha era filha única de Dona Ivone, fruto de um casinho da juventude; fora criada com muita dificuldade pela merendeira da escola estadual Padre Réus, a quem era devota. A mulher afirma que fora Ele, o Santo, que permitiu que a gravidez, um tanto complicada, vingasse. Por milagre, conseguira parir a menina linda de olhos azuis, a qual jurou ao Santo “daria o sangue” para protegê-la. Pensava estar cumprindo a promessa, pois largara tudo e ali se encontrava junto da sua menina, uma de suas riquezas, já que a outra era a aposentadoria. No mais, não tinha “nadica” de nada que a prendesse em Salto Alegre. Ao escutar a voz da mãe, Selminha pula da cama com todo o esplendor: vestia apenas uma minúscula camisola rosa transparente, que deixava à mostra um par de coxas a sustentarlhe o “traseiro” rechonchudo. Seus dourados cabelos desalinhados contornavam as faces coradas da juventude e delineavam ainda mais o narizinho arrebitado e safado. 132


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A moça abraçou a mãe e gritou quase histérica nos ouvidos do marido: - Gostou da surpresa Nonô? “Mami” e eu fizemos tudo bem escondidinho, que tal? Agora não fico muito tempo sozinha! “Né”, Nonozinhooooo? Seu Nonato o Nonô como passara a ser, carinhosamente chamado pela doce esposa, somente resmungou: - Foi uma bela surpresa! Dona Ivone chegou “repaginada”, deu um trato no visual, fez um botox aqui outro ali, até trocou a dentadura. Essa estava ainda um pouco desajustada, mas nada que impedisse da mulher falar – Dona Ivone falava pelos cotovelos não deva trégua nem quando dormia, pois além de falar em sonho roncava muito. Enquanto as duas saboreavam seus cafés falavam e fofocavam de tudo e todos, seu Nonato só escutava. O homem somente concordava balançando a cabeça para cima e para baixo, já pressentia que essas seriam suas “palavras” daí para frente. A pequena casa parecia menor ainda com a presença da sogra, que passou a dominar todos os espaços; a velha dormia no sofá da sala a poucos metros do quarto do casal o que constrangia de fazer qualquer coisa inclusive em pensamento. O homem quando chegava mais “caliente” para perto da mulher pedindo um chamego acostumou-se a escutar: - Nonatoooo! Vê se te aquieta homem. - A “mami” está logo ali do lado, morro de vergonha ela não vai gostar de ouvir nossa intimidade... O pobre homem virava-se, e, inconformado, dormia com a imaginação. O tempo passou e a promessa de uma estada longa se confirmou. 133


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A intimidade do casal se resumira em uma ou duas vezes por mês, quando a velha jogava biriba com a vizinhança da qual já ficara íntima. Nonato, a cada dia, voltava mais tarde para casa, dizia estar fazendo “bico”; mas nada de contribuir com algum trocado, nem mesmo para o pão da manhã, o que aguçou a curiosidade da velha sogra que passou a seguir o genro por onde ele andava. Deu uma de “Sherlock Holmes” e descobriu que Nonato vivia acossado por duas mulheres, equipadas com filhos de diferentes idades. O mais velho era Claudinho, da mesma idade de Selminha - um pedaço de mau caminho - além disso, era gerente de uma revenda de carros importados, ganhava uma “bufunfa”. Aos olhos “gulosos” de Dona Ivone era um super bom partido para sua Selminha. Mãe e filha, em comum acordo, resolvem festejar o aniversário de cinquentinha de Nonato em grande estilo, com toda a família reunida. As outras duas mulheres de Nonô, Jussara e Martinha com os devidos rebentos, comparecem na dita festa preparada pela sogrinha oficial. A surpresa quase matou Nonato do coração. O homem, depois daquele longínquo feriado esperava tudo da sogrinha, menos encontro de família. Sussurrava consigo mesmo: - Eu mereço, acho que joguei pedra na cruz... Eta megera! As famílias logo ficaram intimas, passaram a encontrarse todo Santo domingo para o churrasco do meio dia em casa do Nonato e Selminha. Foram tantos domingos, tantos churrascos, tanta “carne” à mostra que Claudinho e Selminha se reconheceram almas gêmeas. 134


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A sogrinha de Nonato, como futura sogra de Claudinho, fora incumbida de avisar o velho e convencê-lo aceitar o divórcio. Diante das explicações dadas pela sogrinha, Nonato se viu obrigado a reconhecer que Selminha era “areia demais pra seu caminhãozinho”. O velho se deixou convencer que, mais dia menos dia, seria trocado por outro mais jovem, algum que quisesse constituir família e pudesse oferecer aquilo que Selminha realmente merecia. - Veja pelo lado bom Nonô. É melhor que a menina fique em família, nos braços de alguém de confiança, não é mesmo? Diante da situação Nonato, muito desolado, se viu forçado a baixar a crista, dar adeuzinho a sua gostosona e, ainda por cima, abençoar a união do casal de enamorados. Dona Ivone continuou a morar com Nonô, na Rua do Pinhal, número 404, na esperança de conquistar o ex-genro. A mulher costumava dizer para Selminha, Jussara e Martinha: -Ele é duro na queda! Mas eu sou persistente, vim pra ficar. Sou mulher de palavra.

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Entre duas mulheres

Raul encontrava-se entre a cruz e a espada. Já não sabia mais o que fazer para acalmar os ânimos de suas mulheres: Bea, a ex-esposa, e Malu, a feroz e atual “companheira”. Bea era psicóloga, bonita e charmosa. Mãe de duas filhas já mocinhas, frutos do casamento com Raul, seu grande amor. Mostrava-se dona de uma calma absoluta, mas perdia a “razão” diante das provocações de Malu, com a qual não simpatizava nem de longe; considerava a “oxigenada de grife” a burrice em pessoa. Malu, de apenas vinte e oito anos, loira de farmácia, era dona de uns peitões que jurava serem de nascença, e de uma retaguarda sustentada por um par de coxas de fazer cego enxergar virou a cabeça de Raul. A moçoila não se conformava em ter de dividir a atenção do marido, bem como dividir a “merreca” do salário de Raul com a família número um. A loiraça sempre fora muito cobiçada, só para se gabar, costumava dizer: logo comigo “essa coisa” de paixão! Logo eu que tive grandes oportunidades com homens ricos fui cair de amores por um pé rapado que, ainda por cima, é “pagante de pensão”.

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Dia sim outro também, a “oxigenada de grife” extravasava a raiva. Nessas ocasiões, costumava agredir não só Raul, como também a “doutora de loucos”, como se referia a Bea. Em seu total desafeto com Bea, sobrava até para as filhas de Raul, quando dizia com a sabedoria dos oxigenados “neurônios”: - Elas são bem grandinhas pra ainda receberem pensão. Já tão na idade de arranjar emprego, ou um marido rico que passe a sustentá-las. Nessas horas, Bea costumava descer dos tamancos, perder as estribeiras e detonar sobre a aproveitadora de “velhinhos” - forma como conseguia desafogar a raiva pelo ex - marido, que havia abandonado a família por um “rabo de saia” mais nova. Esquecia sua psicologia e dizia, em alto e bom tom: - Raul tu nem pareces um homem inteligente. Sabes que a “oxigenada de grife” só te explora. No dia que tu não “deres mais no couro” vais receber um chute no traseiro é só esperar para veres... Coitado de ti! Nessa hora quero é estar bem longe. Ah! e esquece também das meninas! Malu era chegada em grife. O que lhe cabia vários apelidos, uns até carinhosos, outros como o da sua arquiinimiga Bea era pra lá de pejorativa “oxigenada de grife del Paraguai”. Malu, mesmo sabedora que as grifes que usava eram todas falsificadas, já acordava adornada por “marcas e mais marcas”. Algumas, ela tampouco saberia pronunciar corretamente o nome, mas adorava um relógio “Louis Vitton”, uma bolsa “Chanel”, um vestido com etiqueta “Armani”, pra lá de falsa. Ainda assim, se achava poderosa coberta de marca dos

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pés à cabeça. A moçoila tirava de Raul tudo o que podia para adquirir as grifes que o “corpitio” merecia. O homem fazia das tripas coração para sustentar a família número um e a número dois. Raul não teve sorte na profissão. Apesar de formado em administração de empresas pela universidade federal, local onde conheceu Bea, logo no dia da festa dos calouros, e por quem teve uma paixão avassaladora, não exercia sua real função. Conseguira, a caro custo, por intermédio dos pais de Bea, um emprego na revenda de carros usados do tio de um conhecido do ex-sogro, na qual se tornou chefe de setor. Oficio que não lhe permitia abusos, tudo deveria ser muito controlado, ou cairia no vermelho num piscar de olhos. Raul sempre fora um pedaço de “mau caminho”, homem forte espadaúdo, olhos esverdeados e lábios pra lá de sedutores atributos, que deixava qualquer mulher babando. Tinha uma voz rouca que fazia arrepiar qualquer um, fosse homem, não tão homem, crianças e até mesmo a cachorrada se fazia ouvir diante de sensual voz. Mas as vítimas fatais eram as mulheres que caiam como “patinhas” ouvindo seu vozeirão. Foi durante a negociação de um carro vermelho conversível, presente de Rodolfo, ex-da “oxigenada de grife”, que Malu conheceu o desafortunado, mas pedaço de mau caminho, Raul. A moça, imediatamente, abandonou seu bem sucedido amante e foi cair com o conversível atopetado de malas recheadas de “grifes” nos braços do pé rapado pagador de pensão. Daquele dia em diante, não teve para mais ninguém, e as investidas da loiraça sobre Raul acabaram em bingo. Fez com que o até então bom marido abandonasse a psicóloga e filhas, criando o maior atrito com o restante de sua família, pai, 139


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mãe, primos e até vizinhos que se posicionaram contra o romance com a oxigenada Malu. O incômodo era tanto que Raul já se encontrava meio enfraquecido, de saco cheio, como dizia. Sentia-se totalmente desmotivado, por isso decidiu não se envolver mais, preferia deixar rolar as constantes discussões entre as duas mulheres, pois sabia que sempre sobrava para ele. Em um domingo, o coitado pensava que teria um almoço em paz, chegou a escolher um restaurante bem caro para suas posses: a churrascaria “Principal”. Raul ganhara uns trocados a mais do que o previsto, e se deu ao luxo de saborear um bom churrasco, daqueles que ele não comia há tempos junto de sua loira. Quis o destino que Bea acompanhada das meninas e dos ex-sogros, tivessem a mesma ideia: degustar uma picanha bem gorda no mesmo restaurante, o único que valia a pena na cidade de porte médio como era “Vale dos Sinos”. No momento que a oxigenada de grife avistou a família adentrando a churrascaria, atracou um beliscão nas mamicas do Raul enquanto, pausadamente, dado as circunstância e local, moderou o tom estridente da voz: - Tu que avisaste não é? É só para me provocares? Não bastasse ter que aguentar a “doutora de louco”, ainda tenho que aturar as olhadelas irônicas dos teus velhos? Para mim já chega... Estou por aqui! Levou a delicada mãozinha, com as unhas pintadas com esmalte importado del Paraguai até a testa, quase rente aos oxigenados cabelos, mostrando o quão indignada se encontrava com a situação, levantou-se dizendo:

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- Vou ao toalete retocar a maquiagem. Vê se cumprimenta tua santaaaaaaaa família. Levantou-se, deu “aquela” ajeitada na justa saia, rebolando pra lá e pra cá os quadris, alinhou e rumou com as “pernocas”, pouco cobertas pelo “Armani”, ao “ELAS”. Raul, pressentindo a “bomba” perto de si, levanta-se caminha em direção onde estavam os pais, Bea e as duas meninas, que pareciam felizes comemorando alguma data. Raul, durante o trajeto entre sua mesa até o lado em que sua família se assentara, tentava lembrar e pensava consigo mesmo: para estarem reunidos e felizes desse jeito devem estar comemorando algo. Papai não está de aniversário, mamãe esteve de anos no mês que passou o que por sinal me deu um prejuízo “osco” com o presente, as meninas bem como Bea já festejaram seu aniversário, continuou matutando. Não me ocorre mais nada! A não ser? Calculou daqui e dali até que encontrou o motivo da comemoração “Elezinho” estava de aniversário, completando cinquenta anos de idade. Como pôde esquecer? Será que estava com o famoso “alemão” como companheiro? Esquecer de seu próprio aniversário não é coisa normal. Logo justificou para si mesmo: - São aquelas duas que não me deixam em paz qualquer “coisa é coisa” para discussão e sempre sobra pra mim. Nisso, sentiu um arrepio percorrendo seu corpo e uma dormência no braço esquerdo. Continuou com passos firmes e os pensamentos fervilhando em sua cabeça que já latejava dando sinal de “vida” ou de “morte”? “Era só que me faltava ter um troço logo agora,

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Deus que não me escute!” Fez um sinal da cruz, meio camuflado para não dar na vista sua devoção, mas precisava ter certeza de que Deus o havia escutado. O trajeto até a mesa de seus pais pareceu-lhe demorar uma eternidade, descontrolado com a descoberta de seu aniversário, aprontou-se para receber os cumprimentos; estava certo que mesmo longe dele a família número um estava comemorando seu aniversário coisa que, a “oxigenada de grife”, havia esquecido. Ele jamais iria perdoá-la. - Ah! Mas não ia messssssmo. Ela que esperasse pra ver. Quase cambaleando pela forte dor na cabeça acrescida a dormência no braço consegue chegar até a mesa. Sem dizer palavra, foi amparado por Bea que percebeu suas pálidas faces. A “oxigenada de grife” devidamente retocada sai do “ELAS” e dá de cara com o maridinho nos braços da “doutora de loucos”. Bastou para se ouriçar e sem querer saber de nada se “atracou” sobre os dois falando mundos e fundos – “elogiou” a todos com seu vocabulário também chulo enquanto puxava o marido que já babava no colo de Bea que gritava: - Sua louca! Ele está tendo um troço... Chama a “SAMU” se quiser ter ele vivinho e só pra ti. Logo hoje que ele está fazendo cinquentinha... Devem ter festejado muiiiiiiiiitoooooooooo ontem à noite, veja em que estado ele ficou! Seguiu com seu diagnóstico: - Não percebe que ele está tendo um derrame? A oxigenada afetou teus poucos neurônios?

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Sem entender muito o quê a “doutora de loucos” gritava, conseguiu captar somente duas das várias palavras ditas por Bea: Cinquentinha e derrame, duas palavras que entraram como sinal de “proobleeeema” nas orelhinhas cheias de brincos importados. Enquanto os enfermeiros atendiam o moribundo, a “oxigenada de grife”, que de boba não tinha nada, deu um leve tapinha na face descorada e já retorcida de Raul. Olhando fixamente para Bea diz: - Estou me retirando, ele é só teu. Afinal, foste tu que o viste primeiro. Rebolando no tailler Armani, arrancou com seu conversível vermelho enquanto pensava: ainda dá tempo de pegar um bom peixe assado no “Braseiro”, o lugar que costumava frequentar com o ex que abominava carne vermelha. - “Quem sabe não encontro Rodolfo por lá”?

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Matador de maridos

Antes de se tornar bandido, Osório era o maior bonachão da pequena São Vicente. Tornou-se famoso como vendedor ambulante e pegador de mulheres, escolhia qual desejava, e refugava outras tantas. Ambulante e paquerador, o rapaz vendia desde melancia até produtos do exterior, mais precisamente “made in china”. Era uma quinquilharia que chamava a atenção dos transeuntes, principalmente das mulheres. Quando Osório abria os sacolões, as ditas faziam fila para apossar-se dos colares, pulseirinhas, relógios, esmaltes e perfumes de marcas “famosas”, todos tão “verdadeiros quanto à beleza delas”. O chavecador não perdia uma e, com isso, ia garantindo o sustento e várias amantes. Osório não desarmava o vasto sorriso que ia de orelha a orelha, tal era o tamanho da boca sensual do malandro. Na verdade, ele todo era pura sensualidade. Homem de quase trinta anos, moreno queimado de sol, alto, ombros largos, barriga sequinha, dentadura feito um colar de pérolas. O belo rosto era enfeitado por um par de olhos verdes muito expressivos que falavam por si só. Qualidades físicas não faltavam ao rapaz, tampouco, o “dom do verbo”. O rapaz, até então honesto, sem passagem pela polícia, nem mesmo por vender produtos falsos, em plena luz do dia,

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foi criado pela mãe até os cinco anos, quando a coitada foi assassinada pelo companheiro, em uma noite clara de céu estrelado. Do pai, nada sabia, nem a mãe saberia dizer quem havia “contribuído” à metade de sua beldade. Daí para o orfanato foi um pulo; fez de tudo para sobreviver nos abrigos das casas de proteção aos desamparados. Ali, sofreu todo tipo de abuso, mas continuou de coração puro e de sorriso sempre armado. Ao completar a maioridade, saiu à procura de emprego. Pensava em trabalhar, formar família e viver tranquilo, mas as mulheres não permitiram. Bastou notarem o bonitão para caírem de boca e com todo o resto sobre ele. Osório acostumou-se a ganhar a vida fácil-fácil: as mulheres que o sustentavam e as vendas das quinquilharias de seu comércio ambulante davam um bom dinheirinho. O malandro envolvia-se ao mesmo tempo com várias mulheres. A mulher do dono da padaria era a mais generosa e bem jeitosinha, apesar de um pouco miúda para o gosto do pegador. A dona da farmácia, cujo marido estava entrevado numa cadeira era realmente bem farta, mas um pouco mão fechada, apesar de não lhe deixar faltar um comprimidinho na hora que necessitava. Com as duas fixas, garantia o pão de cada dia e a saúde, além de desfrutar beldades diferentes. Pensava que uma completava a outra, aquilo que faltava em uma sobrava na outra. O confronto das duas, bem em frente do “estabelecimento comercial” de Osório, reuniu muita gente para assistir o quebra-pau. A magrela da padaria deu uma bela surra na dona da farmácia. O incidente, muito apreciado e comentado na cidade, fez com que as duas, os maridos e Osório fossem parar na delegacia.

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Osório, com a cara deslavada, negou qualquer envolvimento com as mulheres e saiu da situação com cara de anjo, completamente vítima das “duas feras”. Estava livre e desimpedido para novas conquistas, com direito a comentar com todos os fregueses que elas não lhe davam folga; dizia em alto em bom som que aquelas duas eram loucas... - Logo eu me meter com duas “trubufus”! Ô louco, meu! Suado e um tanto cansado pelo exaustivo dia quente de verão, fechou o expediente, recolheu a mercadoria, ensacou tudo e rumou para casa. A “passito” e cantarolando, vislumbrou a figura mais linda que já vira, parecia “um anjo” caído do céu. Pensava até estar com insolação. Parada na porta da casa amarela com janelas e portas brancas estava Marlei. A nova do pedaço era dona de um par de pernas bem torneadas, vestia um minúsculo short e um bustiê que mal cobria os mamilos; as sandálias douradas de plataforma calçavam-lhe os pés delicados. Ele podia jurar que a bela calçava 34, no máximo, 35, ele era tarado por mulheres de pés pequenos. Estacionou seu comércio no fio da calçada do lado oposto, e insistia com assobios... - “Fiu-fiu”... Chamando atenção da desentendida, que se irritou com a insistência: - Vai te enxergar, oh! E ele logo respondeu com um galanteio chulo: - Ninguém manda ser gostosona. Enquanto os olhos disparavam malícia, a moça gritou para o marido que saiu para frente da casa de arma em punho, tentando amedrontar aquele que comprometia a honra da esposa.

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Osório não se fez de rogado diante da situação, vestindo a camiseta foi logo estendendo a mão, desculpando-se pelo atrevimento, enquanto se apresentava como o vendedor ambulante mais sortido da região. Desculpas aceitas, mal entendido resolvido, Osório logo se encontrava sentado na confortável cadeira forrada de pano estampado, na sala do soldado que auxiliava na defesa da cidade durante o verão. Marlei, a esposa recatada, sentada frente a Osório, vez ou outra, direcionava o olhar para o visitante. Mostrava-se a mulher mais pura do mundo, não fosse pelo modo como estava vestida. De pernas cruzadas, deixava à mostra uma bela fatia das bronzeadas nádegas, o que o deixou em situação difícil. Além do mais, insistia em mexer os delicados pezinhos para frente e para trás, mostrando um quase: “não tô nem aí”. Isso fazia com que os pelos e o resto do corpo do homem ficassem completamente eriçados. O perfume da danada era o que de melhor o homem já sentira, os olhos negros cintilavam mais do que pedras preciosas. A mulher do soldado era pura sedução. Entre uma conversa e outra, Osório, a pedido do soldado, abriu seu “comércio”, esparramou tudo, e a cada produto mostrado a mulher dava gritinhos de satisfação e colocava a mão na boca, tentando esconder o encantamento. As delicadas mãos de unhas bem feitas não conseguiam esconder seu tanto de boca. Faltava mão para tanta boca, o que encantava ainda mais o vendedor. A calcinha tigresa foi o que mais a agradou, rechaçada pelo marido, justificando que era ousada demais e que não servia

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para uma mulher honesta; era para qualquer uma, não para sua Marlei. A noite já ia longe, Osório havia beliscado uns petiscos e saboreado um gelado copo de cerveja, mirando a mulher que seria sua perdição. Ao despedir-se dos novos amigos deixou para Marlei a calcinha que tanto a excitara. De tão pequena, coube nas mãos da mulher, que logo a escondeu do marido. Osório e Marlei trocaram um olhar que foi um verdadeiro orgasmo, enquanto, os dois homens se despediam com um forte aperto de mão. Perdido de paixão, Osório trocou seu ponto de vendas, afinal ele poderia estar em qualquer lugar, já que seu comércio era ambulante. Assim, instalou-se bem em frente à casa da belezura, que ficava boa parte do dia sozinha e carente, como ela havia confidenciado na noite anterior. A paquera corria solta. Volta e meia Osório recebia da mulher um copo de água gelada, um suco, um naco de bolo e várias outras guloseimas. Em troca, o galanteador presenteava a dengosa mulher com roupas íntimas bem ousadas, como diria o enciumado marido. Não tardou para que ambos fossem parar na cama. O romance ia de bom para melhor, usavam e abusavam na ausência do soldado. Mas, conforme o ditado: “tudo que é bom dura pouco”... O soldado foi liberado mais cedo por causa de uma forte dor de barriga, um andaço, diagnosticou o médico da corporação. Suando e se retorcendo, ele só pensava em acomodar-se no quarto fresquinho até melhorar. Mas a cena que presenciou fez com que ele esquecesse a dor de barriga e esquentasse os “cornos”. Puxou a arma enquanto berrava

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xingamentos e palavras de ódio. A mulher encolhia-se na cama, tentando tapar um pouco a nudez. Os gritos alcançaram as calçadas, fazendo com que os vizinhos da calma cidade se acomodassem nas janelas e portas na expectativa de ver sangue. Osório, com sua lábia, acalmou o soldado que se retorcia pelo movimento dos intestinos, fazendo com que ele largasse a arma. O coitado do soldado sentou-se à beira da cama, abaixou a cabeça e recebeu um tiro bem no meio dos “cornos”. A data precisa do ocorrido se perdeu nos porões da memória das pessoas da pequena São Vicente. Volta e meia, jornais de todo o país estampam o retrato do homem que mudou o rumo de sua vida e passou a ser conhecido como matador de maridos.

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Agruras de uma relação

- Solta meu braço Maria do Carmo, te controla mulher! - Não percebe o ridículo a que estás nos expondo, todos estão olhando pra cá. - Não fica bem em minha situação ficar atraindo olhares, ainda mais no clube... Vai... Mulher... Solta meu braço e fale baixo. José Carlos falava com a boca semicerrada, tentando disfarçar a ira e, ao mesmo tempo, acalmar a mulher que estava prestes a fazer um escândalo, justo no clube onde costumavam frequentar os colegas da multinacional. - Não soltooo! Tu mereces muito mais do que isso. Mereces que eu faça o maior escândalo com direito a “BO”. Retruca a mulher que continua bem a vontade em sua inquisição: - Me diz o que estavas fazendo na sauna junto daquela fulaninha, mulher do teu chefe? - Dizem que ela é muito dada e tu muito safado. Cuidado, conheço tuas artimanhas de conquistador. - Não esqueça que eu... Burra! Já caí na tua lábia e deu no que deu: - Uma gorda, mãe de três “diabinhos” e desempregada. - Espera pra ver onde vou te colocar: na rua. - Ele é teu chefe. É só abrir minha boca e... Quem sabe, na segunda feira, tu já estarás na rua. Entendeu seu cretino? Na ruaaaaaaaaaa! Não me ignores e olhe pra mim quando falo: entendeu ou quer que eu encene? 151


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Vermelho de raiva, do calor do sol e das caipirinhas que vinha bebericando desde às dez da manhã, José Carlos parecia querer fulminar a mulher com o olhar. Apesar da vontade de sacudir a descontrolada, o homem sabia da necessidade de manter-se calmo, tornando a situação a mais discreta possível. José Carlos tenta acalmar a fera já que pressente do que ela era capaz, do contrário, todo seu trabalho para “crescer” na empresa, dar uma boa vida a família, que dependia somente dele, iria por água abaixo. - Tá bem Maria do Carmo, tu deves ter razão para estar enciumada e com raiva da vida, mas eu não tenho nada com isso nem com ninguém. Tu que vês o que queres e como queres. Estás doente, vá se tratar! - Tome seu comprimidinho. Só não bebas, senão tu enlouqueces de vez. - Escuta quietinha: eu me encontrava na sauna sozinho, descansando da dura semana, só depois chegou aquela mulher, eu nem a conheço direito. Tu que estás dizendo que ela é isso e aquilo. Pra ti, toda a mulher passou a ser uma ameaça. Que saco! Cadê tua autoestima? - Imagina se eu iria ficar com a mulher do chefe. Tá louca? - Ah! Exclamou Maria do Carmo, agora num tom de voz mais suave, já que conseguiu uma discreta confissão do marido. - Se não é ela, então me diga quem é? Acabaste de admitir que existe uma, ou quem sabe... Várias. - Não seria aquelazinha que tomou o lugar do Lucimar quando ele também teve que pedir demissão por causa do namorado? Quando o safado saiu do armário e assediou o manobrista da empresa? Aquilo lá é uma “porcariada”... Um pega e solta que dá nojo. Mantendo-se quieto e olhando firmemente para a mulher, José Carlos se perde em pensamentos: Onde estaria a mulher 152


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por quem havia se apaixonado? Aquela mulher segura, decidida, esperta, que tinha todos os atributos pra ser a “big boss”. Será que ainda se encontra escondida dentro desse corpo? Camuflada de vítima e ao mesmo tempo de algoz do relacionamento? O homem recebe uma bela sacudida no braço que o faz retornar ao suplicio, e retruca: - O que mais?... Desembucha se é isso que te satisfaz, mas fala baixo. Estou te escutando. - Quem sabe não será a metidinha do marketing? Aquela que se acha, mas que ainda está a cata de marido. - Tu achas que sou burra? Que não percebo tua dissimulação ao telefone, no computador, no Twitter? Ainda te pego com a boca na botija. - É questão de tempo! Então, te deixo só de cuecas, com uma mão na frente outra atrás; e pode esquecer-se dos meninos... Eles são meus... Eu os pari. Ao mesmo tempo em que falava, apertava mais e mais o braço de José Carlos que não estava mais aguentando a pressão e... A pressão... Que, a estas alturas, deveria estar tão alta que ele não se surpreenderia se tivesse um enfarte. - Era só o que me faltava ter um enfarte, pensava o homem e, quem sabe, juntamente, um derrame. Na minha situação, a coisa não está longe de acontecer. Ao pensar sobre esse triste fim, benze-se, alheio a mulher que o estava fulminando com palavras e olhares. Consegue se refazer e tranquilamente fala: - Mulher, por favor, te acalma, vamos conversar em casa. - Veja onde estão os meninos, recolha nossas coisas e vamos embora. - Afinal, o clima que tu armaste acabou com nosso final de semana. Maria do Carmo sabia que em casa levaria “umas bolachas” do marido, que logo sairia para retornar bem depois

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quando ela estivesse calma, graças ao tanto de tranquilizantes que tomava durante o dia. - Não! Disse com toda a vontade. Vamos conversar aqui e agora. - Prometo me acalmar, mas tu vais esclarecer minhas desconfianças. - Vamos discutir a relação aqui no clube diante de todos. Afinal, “quem não deve não teme”. Não é mesmo queridinho? - As crianças estão se divertindo, deixa elas pra lá. - Confessa que estás tendo um caso. Quero saber quem é ela e por quê? Eu não sirvo mais? A mulher falava pelos cotovelos, aproveitou a situação para “vomitar” todas as agruras da relação. No clube, tinha certeza que não ficaria falando sozinha como de costume. José Carlos, sem opção, deixa a mulher falar, falar e falar. - Depois que fui forçada a abandonar meu promissor cargo na empresa, por causa dos trigêmeos, para que tu pudesses “crescer”, retribui-me com um par de chifres? - Fala safado! Desembuchaaaaaaaa, senão começo o meu showzinho, como tu falas, por aqui mesmo, agoraaaa... José Carlos e Maria do Carmo conheceram-se na multinacional onde ela era a chefe e fora a responsável por sua admissão. O currículo que o RH apresentou era perfeito, preenchia todo e qualquer requisito exigido pela empresa, além de ser um belo homem. José Carlos chamou a atenção da jovem diretora logo de cara, além do excelente currículo, tinha um olhar sedutor e um sorriso fácil que derreteu a durona executiva. Em menos de dois meses, José Carlos e Maria do Carmo estavam de caso firme, ambos livres e desimpedidos, não deviam satisfação para ninguém.

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Única exigência da mulher era de manterem sigilo sobre o relacionamento dentro da empresa. José Carlos era assediado por muitas colegas, dava “umas pegadinhas”, coisa que, na época, já enfurecia a mulher; porém, o galanteador costumava acalmá-la dizendo: -Não podemos levantar suspeitas. Tu mesmo sugeriste, por mim não tem problema já tu... Exige sigilo. Se eu não der a mínima para as garotas são capazes de me taxar de bicha. É isso que tu queres? - E, ademais porque “cargas d’água” preciso de outra se já tenho a melhor? A mais gostosa a mais importante e a mais sexy? As palavras doces e safadas de José Carlos, ditas entre lençóis da mais pura seda acalmavam Maria do Carmo que se derretia de paixão. A paixão fora tanta que acabou em gravidez... Casamento apressado... Já que ninguém desconfiava da relação deles... E, para completar, Maria do Carmo estava grávida de trigêmeos. A eximia diretora do setor de RH, diante do ocorrido, resolveu pedir demissão. Permaneceria em casa dando uma de dondoca e servindo ”cama, mesa e banho”. Maria do Carmo via, a cada dia, seu corpo transformarse. Sua cinturinha de pilão, suas belas e bem torneadas pernas, sua sedosa pele, tão elogiada e acarinhada por José Carlos; os seios pequenos e arrebitados, maior trunfo da mulher, pareciam pertencer a outra pessoa que ela desconhecia. Maria do Carmo passou longos meses de gestação na cama: sofrera de prolapso de placenta, forçando a mulher a permanecer em repouso absoluto. Maria do Carmo pressentiu que a relação com José Carlos era questão de tempos. Ela passou a odiar-se, sua

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autoestima estava abaixo dos pés do cachorro, precisou ser medicada, com calmantes, mesmo durante a gestação. Não admitia ter caído nessa, sentia-se a mais inferior das criaturas. - Logo eu! Como fui burra! Pensava que fosse a tal! Esses pensamentos minavam os intermináveis dias de Maria do Carmo. José Carlos veio de uma família de classe média baixa, estava em um emprego praticamente novo. Precisava se firmar na empresa para sustentar a mulher que se demitira e mais três crianças. O homem passava quase dezoito horas fora de casa: tempo de sair, logo cedinho, ao som das lamúrias da mulher, pegar um tráfego dos infernos cumprir suas obrigações na empresa para retornar, tarde da noite, um verdadeiro bagaço. Maria do Carmo passava os dias deitada, assistindo TV e lendo revistas de fofocas; sentia-se uma parasita inchada, gorda, e culpava José Carlos pela situação. - Porque esse cara foi parar logo na minha empresa? Com tantas outras ele foi atravessar meu caminho e me “embuchar” com três crianças? - O que vai ser de mim? O que vou fazer daqui pra frente? Mal a porta abria, ela estourava com toda ira: - Tu chegas cada dia mais tarde! Não chegas perto de mim, não fazemos sexo, podes dizer como estás se “virando”? - Tu não me enganas, eu te conheço. Tu gostavas “da coisa”, e agora? Qual é a felizarda? - Deixa disso Maria do Carmo, não vês que estou fatigado. O trânsito está um inferno. Estou tentando melhorar na empresa, não estamos com tanta folga assim. - Todo o dinheiro, da tua demissão, que não foi pouco, foi investido neste apartamento. Tu querias tudo do bom e melhor e agora alguém tem que sustentar esse mausoléu que tu nem

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curtes, ou melhor, nem curtimos. Eu não tenho tempo e tu nem levantas dessa cama, por isso, não me perturbe. Por favorrrrrrrrrr. - E os meninos? Foi só parir e entregar para as babás? Isso lá e ser mãe? Maria do Carmo descobre, através da única amiga que manteve na empresa, a chegada do chefe dos chefes, um senhor muito experiente e bem mais velho que a média dos funcionários; o dito era casado com uma “boazuda”, que fora sua secretária, e o fisgou e que não era “flor de cheiro”. A colega fofocou que a enxerida da Dona Magda - esse era o nome da mulher do chefão - passava na empresa. Levava e buscava o marido todos os dias; ficava perambulando pelas salas como dona absoluta da multinacional. Maria do Carmo parecia uma onça quando o marido chegou. Mal a porta da casa abriu, ela saltou com palavras, já que, pelo desânimo que estava não levantava da cama. Gritando e retorcendo os lençóis, como se agarrasse o braço do marido berrava: - Seu cachorro! Porque não me contaste sobre Dona Magda? A boazuda do chefão. - Por acaso estás “pegando” ela? Com toda a paciência do mundo, José Carlos, que estava no limite da sanidade física e mental argumenta, mais uma vez, para a enciumada Maria do Carmo: - Mulher, veja se entende: como teria força pra ter uma amante? - Ainda mais a boazuda do chefão. Veja minha situação: uma mulher psicótica que sobrevive abaixo de calmantes, três meninos pra criar, sem tirar as empregadas que tu exiges que tenhamos. - Me diga? Teu único objetivo na vida é destruir nossas vidas?

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- E teus filhos estão nas mãos das empregadas que, por sinal, estão me saindo uma fortuna; por acaso pensas que sou o dono da empresa? - Quem está de saco cheio e por aqui ó! José Carlos levantou a mão esquerda até os fartos cabelos, foi quando lembrou que estava sem a aliança de casamento. Essa fora parar no bueiro durante o temporal que havia baixado em sua “via crucis” da empresa até em casa, quando teve um pneu furado em plena avenida. O pobre homem, quando percebeu o olhar fulminante da mulher achou melhor nem argumentar, ela não iria de forma alguma acreditar, restou sentar-se abaixar a cabeça e escutar mundos e fundos. José Carlos teve o cuidado de, com o pé, encostar a porta para que os meninos não escutassem mais uma cena que, pelo visto, seria muito feia. Depois de ouvir tudo que fora “vomitado” por Maria do Carmo, José Carlos, pausadamente, falou: - Pra mim deu... Amanhã peço as contas da empresa. Agora, quem vai trabalhar és tu. - Chega de moleza! - Fico em casa no teu lugar e, com maior prazer, tomando conta de nossos filhos que estão atirados “às traças”. Vire-se com as contas, o financiamento do “mausoléu”, o condomínio, as empregadas, o médico das crianças, a prestação dos carros... E... Preciso falar mais ou está de bom tamanho? - AH! Se quiser arrumar um amante... Sinta-se livre, não se acanhe!Tampouco vou querer saber a procedência da vítima. Recolheu os pertences de cama, encostou a porta, com passos cansados, porém, decididos rumou ao quarto dos filhos. Acomodou-se entre os pimpolhos, desligou o despertar do celular e dormiu o sono dos justos.

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Troco por ganso

Dona Lilinha sempre foi muito recatada, até o dia em que desencalhou com o viúvo de Dona Merenciana, proprietária das duas farmácias de Morros Dourados, que passaram a ser propriedade de seu Astolfo, o viúvo mais cobiçado da região. Dona Lilinha nunca se conformou por ter perdido o belo rapagão Astolfo para a rica herdeira das farmácias. Por isso, se manteve virgem até o grande e esperado dia. A mulher costumava dizer: - “O que é do homem o bicho não come”. Ao completar cinquenta e cinco anos, se viu frente ao padre, com o grande amor de juventude, para quem se guardou, por anos, em banho frio. Astolfo, que não era bobo, aproveitou-se do charme e da beleza para encantar a mais rica da região, abdicou de seu grande amor em prol de uma pequena fortuna: duas farmácias e um belo sítio, que para ele significavam, na época, boa vida. O homem nunca foi muito chegado ao trabalho, assumiu ser o marido “comprado” e passou a viver à sombra e água fresca. Sua amada, Lilinha, a abandonada como passou a ser conhecida na pequena cidade, fez questão de manter-se pura e recatada. A pobre moça, por anos, sentiu-se a mais infeliz das criaturas. Apesar de bela, foi trocada por uma pequena conta bancária. Lilinha, depois de trocada pela conta bancária, dedicouse ao magistério, fez uma carreira de dar inveja a qualquer um.

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Além de competente, mantinha-se fiel aos princípios: seria de um homem só. A mulher, com o passar dos anos, manteve a jovialidade, gastava tudo o que ganhava no magistério, em cosméticos, e, mais adiante, com cirurgias plásticas, o que lhe garantia um belo visual. Era do tipo mignon e toda jeitosinha, cabelos fartos sempre empacotados em um coque. Vivia adornada com correntes douradas; muito maquiada e bem tratada, vestia roupas caras e ostentava, muitas vezes, aquilo que não podia. Dizia que a profissão exigia boa aparência, desfilava na última moda pelos corredores da escola e pelas ruas da cidade. Continuava chamando atenção de todos, e intrigava a alguns que não compreendiam porque ela vivia só. Em determinada ocasião, logo que o apaixonado a trocou por Merenciana ela teve um pequeno deslize com o sargento da brigada da cidade vizinha. O sangue lhe ferveu as veias e faltou pouco para o “bicho comer”, mas parou na hora H; sabia que no momento que começasse não poderia parar, conhecia-se muito bem, era do tipo que gostava “da coisa”: uma vez atiçada, sempre atiçada. No dia do casório com o viúvo, contou que se mantivera “purinha da silva” até o grande dia, pois tinha certeza que ele chegaria - Dito e feito. No inverno em que estava por se aposentar e curtir a vida com seu velho, Dona Merenciana teve um “troço” e desencarnou. Foi fazer “companhia” aos clientes que tiveram a pouca sorte de serem atendidos pela metida a médica. Dona Merenciana se dizia especialista em remédios, medicar era seu forte. Por conta disso, havia facilitado o desencarnar de muitos da cidade e região. Costumava dizer: “de médico e louco todo mundo tem um pouco”... Basta exercitar! Terminava esse bordão, quase gritando de tão espalhafatosa que era, enquanto gargalhava, mostrava a

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dentadura um tanto desgastada pelo tempo. A mulher era um “trem” para trabalhar. Mal o sol nascia, a “farmacêutica” já estava de plantão, dando o ar da graça, e oferecendo as novidades em medicamentos que apenas sua farmácia possuía. Mandava um lero para cima dos fregueses e empurrava goela abaixo seus produtos. Convencidos pelo poder da cura, todos compravam mais e mais... Sempre mais. A mulher teve a chance de começar no sitio, também herdado, uma criação de gansos, os quais eram cuidados com o mesmo afinco do estabelecimento comercial. As aves, junto dos medicamentos, eram suas maiores riquezas. A mulher, à medida que o tempo passava, tornou-se muito boa vendedora, só não vendia os filhos porque era “seca” e nunca engravidara. Dona Merenciana mantinha seu homem sempre por perto, no cabresto. Sabia que se o largasse Dona Lilinha o fisgava. Então, ela proporcionava um vidão a Astolfo, que era tratado a pão de ló e muitas doses de vitaminas diárias. O homem, logo ao acordar, encontrava um farto desjejum e uma fileira de vitaminas organizadas por cores e tamanhos. Assim, mantevese lindo e forte mesmo com o passar dos anos. A infeliz metida a médica teve a “mesma sorte” de muitos clientes e rumou ao céu tão logo tomou uma dose muito forte de remédio, escolhido por ela mesma, para curar-se de uma gripão. O viúvo, depois de um suntuoso velório, daqueles que Dona Merenciana merecia, choramingou por pouco tempo, bastaram duas ou três visitas de sua “ex” para aflorar a paixão enrustida que voltara com toda a força. Dona Lilinha fez questão de ser pedida em casamento,como qualquer moça que se preze, pensava ela. Lastimou que o pedido tivesse de ser feito ao irmão mais novo, já que seus pais e os dois irmãos mais velhos haviam falecido há muito tempo.

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O casório foi a festa do ano da pequena Morros Dourados. Os noivos não pouparam dinheiro nem luxo. Contrataram buffet da cidade grande, com comes e bebes que os noivos nunca haviam degustado. Fizeram questão que mantivessem os nomes dos pratos de origem. Ninguém sabia pronunciá-los, o que, para eles, era sinal de luxo; a banda de música da capital, bem como os decoradores do evento, trouxe pompa ao evento. O vestido branco da noiva foi comprado na Argentina, por uma grande amiga, casada com um hermano que fez questão de presentear a amiga de infância que, por fim, iria desencalhar. O noivo, igualmente emperiquitado, chamou muita atenção dos convidados pela elegância e finesse, tudo escolhido pela futura esposa. Astolfo já se acostumara em receber tudo pronto e nesse casamento não poderia ser diferente. A ele só caberia assinar cheques e mais cheques, todos muito polpudos, herança da falecida. A lua de mel foi um cruzeiro da moda, destinado a melhor idade. Mesmo com o navio repleto de “experientes”, muita tosse, bengalas, cadeiras de rodas e pilhas de medicamentos, foi perfeita. O casal de pombinhos quase não saía dos aposentos; precisavam recuperar o tempo perdido. Seu Astolfo estava munido de vitaminas, os comprimidos azuis, perfeitos para a ocasião. A noiva encontrava-se nos céus, desfrutou dos mais profundos desejos que, por anos, permaneceram incubados, tal qual uma doença. No final da viagem, diagnosticou-se que era viciada em sexo. Também sabia qual era o procedimento para amenizar seu “mal”, por isso não dava tréguas ao marido que, graças aos comprimidos azuis, estava sempre prontinho. O fogo permaneceu após a inesquecível lua de mel.

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As farmácias de dona Merenciana, depois de sua partida, nunca mais foram iguais. No principio, eram atendidas pelos funcionários que não eram, nem de perto, bons vendedores. Foram vendidas a “espertinhos” da cidade grande, que passaram a dominar mais esse comércio em Morros Dourados. O casal de pombinhos só queria saber de sexo: manhã, tarde e noite. Torraram todo o dinheiro que sobrara, pela venda das farmácias, em festas, viagens, comidas boas e muito vinho, além dos comprimidinhos azuis. Os quais eram, ainda na cama, bem cedinho, oferecidos ao marido por Dona Lilinha. Ela dizia ser bobagem tanta vitamina que a defunta dava ao homem. As únicas vitaminas que precisava, ela oferecia: os milagrosos comprimidinhos - de dois a três por dia - Tanta “vitamina azulzinha”, tanta paixão, tanto sexo acabaram matando seu Astolfo do coração. Nem um ano e meio de casada, Dona Lilinha se viu viúva, sem dinheiro e viciada em sexo. Viu-se obrigada a vender a casa da cidade, cuja ex-proprietária Dona Merenciana, havia deixado impecável e que fora, nesse tempo, desgastada pelo descaso do casal que, somente, desfrutava do vasto quarto, totalmente remodelado ao gosto de Dona Lilinha. A mulher se viu obrigada a morar no sítio, distante alguns quilômetros de Morros Dourados. Dona Lilinha bem como os gansos de Dona Merenciana, a cada dia que passava, entristeciam mais: os gansos sentiam a falta do tanto de comida e medicamentos oferecidos pela antiga dona. Já, Dona Lilinha esmorecia pelo fogo que sentia abrasando o corpo miúdo e ainda bem feito. Não sabia o que fazer para saciar o desejo. Os banhos frios de hora em hora não resolviam os sintomas da “doença”, como ela havia diagnosticado seu mal. Sabia desde sempre ser viciada em sexo e que, uma vez atiçada, sempre atiçada.

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A mulher não tinha dinheiro para nada, não lhe sobrara um tostão no banco, a aposentadoria dava “mal e porcamente” para o sustento básico. De herança, só lhe restava os gansos. Observando o vai e vem das aves, a mulher pensa... Pensa... Pensa... O que fazer com tanto ganso? Foi quando acendeu “uma luzinha” no fim do túnel. Mal o dia deu o ar da graça, Dona Lilinha vestiu a melhor roupa, maquiou-se devidamente para a ocasião. Perfumada como um bouquet de rosas ela dirige a camionete F1000, única relíquia deixada pelo marido, até a cidade. Percorre os poucos quilômetros que a separavam de Morros Dourados, para logo estacionar diante da rádio muito escutada pela população do lugar e na região. Na maior “cara dura” anuncia que é uma pobre viúva doente: explica, com todos os detalhes, que sua doença só tem um remédio e, para o qual, só tem condições de pagar com gansos. O anúncio de utilidade pública é anunciado todo santo dia, e, com todo respeito à doença da viúva, o locutor fala aos ouvintes: -Troco por ganso! Seguido de um texto “pra lá” de convidativo.

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Tiro na culatra

A “abundante” Dona Carmela conseguiu seu intento, armou uma cilada amorosa para o velho Rodolfo, deu o golpe do baú e se apossou do bem frequentado boteco, no sopé do morro, que leva à maior favela do Rio. A mulata, de grossos lábios e fartos seios, conquistara o coração e todo o resto do velho comerciante. Abusada que só ela, aparece, sempre que pode, no estabelecimento comercial do velho, principalmente, nas noites de sexta e sábado, quando o “dancerê” corre solto. Nessas ocasiões, abusa dos decotes e das “minis”, adorna-se com muito dourado e vai à caça do dono do bar. Prometera a si mesma que, mais cedo ou mais tarde, seria a dona absoluta do estabelecimento. Até sonhava com as modificações que faria no lugar: Seria capaz de transformá-lo em boate e bar, bastava dividir a ampla sala, atualmente, só ocupada com mesinhas muito mixurucas; colocaria mesas coloridas, pouca luz e muito sambão, pelo menos noite sim, noite não. Não demorou muito para que o viúvo “fresco” caísse em suas teias, foi facilmente enredado e gostou do que lhe foi oferecido. Para ter tudo aquilo na hora que quisesse, valeria qualquer sacrifício, pensava o velho. Abraço para cá, amasso para lá, para logo a danada estacionar a “combi” com as bagagens, um monte de tralhas, e os oito filhos: quatro meninas e quatro meninos, em frente ao bar.As crianças de várias idades e cores de pele. Todos chamados

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João, seguido de mais algum nome. As meninas era Marias: Maria da Penha, Maria da Graça, Maria dos Anjos e Maria Pia. Nomes que seu Rodolfo jamais acertara. Chamava todos de João e todas de Maria, porém nenhum dava ouvidos ao velho. A meninada vivia pelas ruas da favela; quando por ventura não saiam a mãe os empurrava porta fora, queria tê-los longe, dava menos trabalho. Sobre cada João e Maria, Dona Carmela tinha a certeza que eram delas, pois os havia parido, um a um, feito gata, em pouco intervalo de tempo já, quanto aos pais, não poderia falar: na certa era um de cada homem, já que os filhos eram “furtacores”. Deveria ter algum estrangeiro, filho de qualquer um do além-mar. O velho Rodolfo não apresentava mais disposição para filhos, para alívio da “abundante” Dona Carmela. Vez ou outra Dona Carmela oferecia ao marido a pilulazinha do prazer. Uma era suficiente para que o velho se fartasse por dias e, até semanas. Ficava sossegadinho e nem reclamava dos gastos da mulher, na melhoria do estabelecimento, onde instalou uma grande mesa de bilhar, um jogo de azar e quartinhos nos fundos, para possíveis encontros, valia tudo, desde que “molhassem” sua mão, pensava ela. O velho, muito direito, não admitia sem-vergonhice no estabelecimento. A mulher fizera tudo em surdina. Dona Carmela concordava com a ideia do velho que era totalmente contra as drogas e o tráfico. Para agradar o marido chegara a colocar um enorme cartaz com letras garrafais: “Nesse estabelecimento é proibido o uso de cigarros ilícitos ou qualquer outro tipo de drogas. A direção”. O velho acordara assanhado. Dona Carmela sabia ter que acalmar a fera, por isso, resolveu oferecer-lhe duas pilulazinhas de uma só vez, assim, ele ficaria, por semana, sem incomodá-la. Nesse dia, Dona Carmela fechara as portas mais cedo do que o habitual colocara os “furta-cores” para a rua, se

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fez sensual e sexy para agradar o marido. A camisola vermelha decotada e muito curta deixava as fartas e negras coxas à mercê dos prazeres de seu Rodolfo. Os grandes lábios da mulata, pintados de vermelho, foram sugados como uma doce maçã. O vale formado pelos fartos e empinados seios foram regados com água de rosas. Dona Carmela, especialmente, nessa noite, oferecerase ao velho como um pomar de gostosuras, saboreado horas a fio. Ao raiar do dia, com o movimento dos furta-cores, alguns saindo, outros recém chegando, a mulher se depara com o marido durinho como uma rocha. O funeral acabou muito disputado, com todo o morro prestando a última homenagem ao cidadão mais honesto do lugar. Dona Carmela, os Joões e Marias passam a ser os únicos donos do espaço comercial, no sopé do morro da favela. Passados alguns dias do luto fechado, pela viúva e estabelecimento, tudo volta ao normal. Roupas apertadas, seios e coxas à mostra, lábios coloridos e muito dourado, fazendo de Dona Carmela a mais nova viúva do morro. O João, mais velho, do qual ela nem sabia, mais, o segundo nome, envolve-se com gente da pesada. Começa a aparecer bem vestido, com tênis importado e muito dinheiro na carteira. Ganancioso, tal qual a mãe, o rapaz lhe propõe uma sociedade. Visto os lucros, de cara, a mulher aceita. Daí para frente, o boteco, além de oferecer bebidas, “dancerê” e encontros, torna-se o maior ponto de drogas do morro. O João - sócio, como passou a ser chamado, para diferenciar dos outros furta-cores, “cresceu” o olho e desejou ser dono absoluto do lugar. Para isso, preparou uma cilada para

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a mãe. Um telefonema anônimo bastou para que Dona Carmela passasse a ver o sol nascer quadrado. As Marias e os Joões continuaram soltos, por conta e destino. O “bom” filho, João-Sócio, contratou um advogado para a mãe, a fim de mantê-la, o maior tempo possível, no xadrez.

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Sorriso maroto

A loja de armarinho da Dona Itália era bem sortida. Tudo o que se buscava, lá era encontrado. A loja fora herdada da mãe, uma senhora alegre e falante que mantinha carregado sotaque italiano. A finada dona da loja, mãe de Dona Itália, desenvolvia uma boa conversa com os clientes, gostava de contar como ela e o marido chegaram ao Brasil e como se instalaram a beira do rio. O lugarejo, emancipado há poucos anos, rodeado por verdejantes planícies, ficava perto de uma cidade de porte médio. A loja de armarinho mantinha-se igualzinha desde a inauguração. A estrutura da casa de estilo italiano, bem construída, recentemente havia sido pintada de azul com detalhes brancos. A porta central era grande, de vidro e protegida por grades de ferro, a qual dava entrada para a loja. Bem ao lado, uma pequena porta de madeira, com duas folhas, dava acesso para a moradia. As duas casas ficavam grudadinhas, sem comunicação interna. A falecida mãe de Dona Itália gostava de manter todos os produtos ajeitados em estreitas e profundas gavetas do balcão que separava a freguesia do vendedor. Os elásticos, as fitas, os colchetes, joaninhas, linhas e agulhas eram separados por cores e tamanhos, tudo na mais perfeita ordem. As lantejoulas e canutilhos ficavam guardados em pequenos saquinhos de plásticos e eram vendidos por dedais. Cada saquinho continha exatos cinco dedais - muito procurados em época de carnaval.

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Os botões, uma infinidade, eram organizados em um mostruário coberto por plástico transparente, facilitando a escolha para o cliente. Dona Itália recebeu a loja organizada e com boa freguesia. Nada mudara. A não ser a proprietária, que, diferente da mãe, era calada e mantinha sempre um sorriso maroto nos finos lábios. Dona Itália não era nada simpática; mesmo no tempo em que ajudava a mãe, não era solicitada por qualquer freguês, que preferia esperar ser atendimento pela velha e simpática italiana. A herdeira da loja de armarinho, Dona Itália, era uma mulher gorda, com grandes peitos e uma retaguarda bem possante. Vestia-se diariamente de preto. Mesmo antes da morte da mãe usava luto fechado, não se sabia por quem. Sua vida sempre fora uma incógnita, muito reservada, nunca se casara, mas teve uma filha. A menina, pelo que o povo comentava, desde muito pequena, morava com a tia-avó, única irmã da mãe de Dona Itália. Os mais antigos diziam que a menina era filha do dono da pensão da esquina, na época, já casado e com uma “penca” de filhos. O provável pai da filha de Dona Itália já havia morrido, por isso, muitos moradores pensavam que o luto fosse uma homenagem ao amante, dono da pensão e pai da menina. Os clientes da loja chegavam para comprar alguma coisa sempre com “um pé do lado de fora”. Era só o tempo de pedir e correr fora. Dona Itália não era dada a sorrisos, só mesmo aquele sorriso maroto, quase irônico, que perturbava a todos. Parecia que a velha estava sempre gozando das pessoas. As vezes, o sorriso era acompanhado por uma pigarreada, dando a impressão de que estava gargalhando por dentro. - Coisa nojenta! Para que isso? Comentavam, entre si, os fregueses. A mulher costumava abrir a loja às oito horas em ponto, fechando para o almoço às onze e quarenta. Mesmo que estivesse 170


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chegando algum freguês, ela dava jeito de encostar bem rápido a porta. - Que voltem a tarde, dizia. Exatamente às duas horas, ela abria as portas para fechálas às seis horas. O horário era rígido. Na manhã de verão, quase véspera de carnaval, a loja não abriu as portas. Uma fila de pessoas buscava miçangas, alguns dedais de canutilhos e lantejoulas. Coisas para as tradicionais e brilhantes fantasias de carnaval. Bateram muito na porta da casa. Quase se arrastando, a velha apareceu, mais irônica do que nunca, com o sorriso maroto estampado na cara, a gargalhada trancada na garganta a fez pigarrear para, então, dizer de uma só vez: - A loja não vai abrir. No primeiro dia de carnaval, o lugarejo acordou com o badalar dos sinos da igreja, indicando que alguém havia morrido. Era dia para morrer? Os moradores torciam para que não fosse alguém importante, que fizesse, por respeito, suspenderem a primeira noite de folia. A porta da loja de armarinho foi aberta por uma jovem senhora muito parecida com as filhas do falecido dono da pensão que, ajeitava a defunta no caixão. Dona Itália, pela primeira vez, estava vestida de branco, adornada por tule, fitas e flores. Tudo branco... Bem branquinho. Muita gente foi chegando para prestar uma última e rápida homenagem à velha, que, mesmo sendo pouco querida, fazia parte da sociedade. Velório em cidade pequena é quase uma “festa”. As pessoas encontram-se para colocar assuntos em dia. Nem o defunto fica de fora. O disse-me-disse sobre a vida da morta corria solto, enquanto ela permanecia deitadinha em seu último leito. A velha Dona Itália mantinha a boca voltada para o lado, com aquele nojento “sorriso maroto”.

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Esbaforida e suando aos montes, chega a irmã de Dona Itália, cumprimenta a todos com um leve movimento de cabeça, enxuga o suor da testa, beija a sobrinha que ela havia criado, para então, aproximar-se do caixão. Ajeita um pedaço de tule branco, benze-se e indaga: - Ela ainda continuava com aquele cacoete? - Aquele que... E fez o mesmo sorriso maroto que Dona Itália permanentemente mostrava.

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Atrevida

A bela Bebel, jovem estudante do ensino médio, apesar de seus dezesseis anos, sabia o quanto era sedutora. Fazia questão de mostrar o quanto era sexy, sem constrangimento algum enfrentava qualquer obstáculo para se destacar. Sempre com sucesso. Não se podia negar a beleza sensual da jovem. Pele sedosa e branquinha, fartos cabelos negros que lhe cobriam boa parte do dorso; os olhos penetrantes e verdes eram como duas raras pedras de esmeraldas. O corpo era escultural. As roupas que usava escondiam muito pouco daquilo que a ala masculina gostava de apreciar. As longas e bem torneadas pernas, sempre sobre sandálias de salto alto, alongavam, ainda mais, sua esbelta silhueta. A blusa branca, do uniforme, destacava um par de seios pequenos e redondos; o encontro das duas pequenas colinas formava um vale com muitos segredos a serem revelados. Não existia viva alma que não se virasse para ver Bebel passar, a menina exercia um frisson nas pessoas, mesmo nas mulheres. Sua beleza atrevida magnetizava olhares. Ela sabia que “não tinha para mais ninguém”. Era única e atrevida. Bebel gostava de chamar a atenção e para isso, nem precisava esforçar-se. Os poucos centímetros de pano que lhe cobriam a bunda redonda e firme balançavam para lá e para cá, acompanhando o compasso do rebolado. Bebel era, por natureza, sedutora, sensual e sexy. Até seu cheiro era inconfundível. Por onde passava deixava um aroma natural que podia ser sentido a distância. O perfume que exalava do corpo fazia de Bebel a única fêmea, da raça humana,

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que não precisava usar perfume artificial para atrair parceiros. Homens e mulheres reconheciam o cheiro da jovem. A atrevida Bebel gostava disso; divertia-se diante do constrangimento que provocava, principalmente, nos homens mais velhos. Na gurizada, de sua idade, ela não prestava atenção. Sabia fazer parte dos sonhos eróticos de todos. Com todo o atrevimento que lhe foi dado por Deus gostava mesmo de causar constrangimento nos homens mais velhos. Seu fraco era Frederico, o durão professor de Matemática. Esse, por mais que ela quisesse, mostrava-se firme e resistente a qualquer investida da menina. O professor Frederico, por sua vez, também era pura sedução, beleza masculina e sensual. Ele não percebia ou não se interessava em ser desejado. Talvez por isso fosse o par ideal para Bebel: Duas belas e raras criaturas da espécie humana. Frederico estava noivo da professora de inglês – Cathy , uma graciosa e simpática inglesinha que viera para o Brasil ainda muito jovem. Filha de pai brasileiro e mãe inglesa. Cathy, diferente do noivo, era uma mulher pequena, sem muitos atributos físicos, mignon demais para o gosto dos brasileiros. O noivo, no entanto, era de tirar o fôlego: moreno, de porte atlético, cabelos castanhos e grandes olhos pretos. Homem de nariz avantajado, mas completamente perfeito para o rosto quadrado, boca grande e largo sorriso. Bebel sabia como inibir até o professor de História, o mais velho do colégio, aquele que enfrentaria a Hitler, mas não Bebel. Em frente dela, o pobre velho não sabia o que fazer, trocava palavras, escondia as mãos, coçava o nariz. Todos percebiam, ela instigava, todos riam. Talvez de nervoso, pelo apreensivo do velho. Bebel tentava Frederico durante as aulas. A menina, atrevida, sentava-se de ladinho na dura carteira escolar. Cruzava as pernas longas e branquinhas, deixando à mostra uma boa

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parte da coxa. Todos olhavam e se agitavam menos o professor que seguia a aula como se a menina fosse invisível, como mulher. Dava a entender que ela era mais uma das tantas que ele conseguia atrair. Bebel solicitava o professor várias vezes durante as aulas, por ocasião dos exercícios individuais. O professor aproximavase atendendo à menina que se atrevia em tocar a coxa do homem sem que ele mostrasse qualquer reação. Perto de Frederico, as narinas da aluna se dilatavam, demonstrando toda a sensualidade que sentia só com o cheiro dele. Os dourados pelos de seu corpo se eriçavam diante da única criatura que não se curvava para ela. Frederico e Cathy pretendiam casar tão logo o ano letivo terminasse. Amavam-se, portanto, era inevitável formalizarem a união. Ambos pretendiam sair do país para aperfeiçoarem-se. Estavam finalizando o mestrado, aproveitariam a família da moça no exterior para prosseguirem os estudos. Bebel não acreditava que Frederico fosse, totalmente, indiferente a ela. Para a menina, ela era a única e tudo podia. Travou-se uma guerra de egos entre Bebel e Frederico. A jovem, por sentir-se rejeitada, passou a vê-lo como um alvo a ser conquistado, coisa que nunca lhe acontecera. Para o professor Bebel era mais uma bela mulher que no momento em que quisesse, teria na cama. A atrevida Bebel bateu na porta do apartamento do professor. Ao ser atendida inventou qualquer coisa; segura de conseguir seu objetivo. Ele iria entregar-se à sedução. Frederico vestiu a camisa, atendeu a menina ao mesmo tempo em que solicitou a presença da noiva para receber com ele a “visita” inesperada. Ao avistar a professora de inglês, com muita raiva, Bebel jogou o livro de Matemática sobre o sofá saindo porta fora; não havia contado com a presença Cathy. A menina passou a odiar Cathy - se pudesse a mataria.

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Cathy passou a ser perseguida por Bebel: recebia telefonemas anônimos, bilhetes e, todo o tipo de informação sugerindo-lhe que o noivo a estava traindo com a aluna. Agindo de forma adulta o casal deixou passar, sabiam do atrevimento de Bebel por isso, desconsideraram qualquer provocação da sedutora jovem. Bebel precisava de um aliado para conseguir a atenção do professor, e escolheu o que lhe parecia mais forte de físico, porque, em relação a caráter... Ela dominava qualquer um. Bastava chamar com a pontinha do dedo. O garotão e Bebel encontraram-se no apartamento do professor. Dessa vez Bebel tinha certeza de que Cathy não estaria. A professora de inglês encontrava-se fora da cidade por conta de aperfeiçoamentos. Tudo arranjado, bebidas compradas, cama desalinhada, copos espalhados pela casa toda. As roupas de Bebel: calcinhas sensuais, camisolas minúsculas encontravam-se esparramadas pelo chão, algumas rasgadas, o que supunha uma “festa íntima” muito animada. O garoto deu vazão ao desejo e tentou beijar Bebel, afinal precisava ser recompensado pela ajuda que prestara à colega. Ela não admitiu ser tocada por ele, esbravejou, ofendeu o rapaz, que, com raiva, colocou-se sobre ela na cama do professor. Tal foi a violência do jovem, induzido pelo desejo, que acabou sufocando a menina. Bebel fora largada sem vida, seminua, deitada na cama do professor de matemática. O garoto cumprimentou Frederico na esquina da principal rua da cidade, onde muitos alunos circulavam em tal hora. Frederico teve a vida virada de cabeça para baixo; responde processo pela morte da jovem Bebel. A ex-noiva partiu sozinha para a Inglaterra.

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O garotĂŁo conta a todos que foi o Ăşnico homem na vida da atrevida Bebel. Nesse duelo de egos, houve apenas um vencedor.

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Livro de Contos - Silvia Buss

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