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Histórias que a bola não conta Reportagem: Gustavo Ticiane e Janaína Castro Fotos: Divulgação Design: Gustavo Ticiane, Tomás Miranda e Willian Costa Reportagem apresentada ao jornal laboratório IdeiaFix, do 4º ano de jornalismo matutino da Universidade Estadual de Londrina Julho de 2008


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Histórias que a bola não conta

junho.2008

Em época de IMIN 100, o IdeiaFIX traz a história de um brasileiro que fez o caminho inverso e foi buscar uma vida melhor no Japão

Fotos: Arquivo Pessoal Fotos: arquivo pessoal

Janaína Castro e Luiz Gustavo Ticiane Em 1908, o navio Kasato Maru carregava o sonho de uma vida melhor aos vários japoneses que aqui desembarcaram. Cem anos depois, os tempos são outros. A debandada de brasileiros à pequena ilha do Pacífico é grande. A procura é por melhores condições de vida. Às vezes, um simples emprego que ajude a acumular riqueza e voltar. No futebol, não é diferente. Claudemir Fontana é de Alvorada do Sul, região norte do Estado. Nascido em 1967, chegou a Londrina com a família ainda na década de 60. A paixão pelo esporte surgiu nos tempos dourados do futebol na cidade. Conta que já foi gandula nos jogos do Londrina e se orgulha de já ter devolvido a bola para um dos ídolos do futebol na cidade: Carlos Alberto Garcia. “Um dos melhores comandantes de ataque que já vi. Não tinha bola perdida pra ele. Até quando ia bater lateral, ele queria a bola rápido”, brinca. O orgulho também fica explicito ao falar que o pai ajudou a erguer o Estádio do Café, um dos ícones da cidade. “Eu ia para a obra com o meu pai. Lá, eles davam ‘sodinha’ e pão com mortadela pra gente”, lembra. Ainda garoto, também acompanhava os treinos do time no VGD ou na Vila Santa Terezinha.

Para o futebol, Claudemir virou Tecão. A inspiração do apelido vem do zagueiro de mesmo nome, campeão brasileiro pelo São Paulo em 1977 e que também teve passagens por Noroeste de Bauru-SP e Bangu-RJ. “O apelido surgiu porque sempre fui muito grande e porque falavam que eu tinha muita pegada e garra dentro do campo, como ele”, revela. Mas a sorte do homônimo passou longe de ser a mesma. Profissionalizado em 1987, o Tecão paranaense só foi ter carteira assinada como jogador de futebol profissional em 1999... ( ! ) Conhecido na região, mas longe dos holofotes da mídia, jogou em diversos clubes pequenos do Paraná. “Quando eu era junior, praticamente não recebia salário. Depois, nos times em que passei muito rápido, também não ganhava”, comenta. A gota d’água foi em 2001. Dispensado pelo até então técnico do Londrina, Freitas Nascimento, restava ao jogador a possibilidade de atravessar o mundo. O motivo da dispensa? “Ele (Freitas) falou que precisava de um jogador que chamasse torcida e eu não me enquadrava no perfil dele”, indigna-se. Encerrou a carreira de jogador no próprio Japão, onde desembarcou no mesmo ano. Convidado por Edu Coimbra (irmão do ex-jogador e, hoje também técnico, Zico), passou a ser treinador de futebol no por lá. “Eu acho que me faltou oportunidade como jogador, principalmente na cidade de Londrina. Além disso, acho que casei muito novo. O atleta que se casa novo não consegue ter


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Nome: Claudemir Fortunato - TECÃ O • Data de Nasc.: 22/12/1967 • Nacionalidade: Brasileira • Naturalidade: Alvorada do Sul/PR • Posição como jogardor: zagueiro e volan te • Pé bom: esquerdo • Revelado pelo Londrina E.C em 198 7 • Principais clubes por onde passou:

- Londrina/PR - Nacional/PR - Assahi F.C./PR

Arte: Luiz Gustavo Ticiane

- Francisco Beltrão/PR - Yuata F.C./JAP - Fuji Denki/JAP

Como treinador: • Esquema tético preferido: 3-5-2 • Clube Atual:

Escola de Futebol Paranaense in Suzuka Japan

Reprodução Ping Pong Cards

A inspiração: Tecão, o do São Paulo, muita pegada e garra dentro do campo

“Digo ao atleta que os estudos vêm em primeiro lugar. E que no futebol tem que ter muita garra e determinação”

“No meu time, todo mundo marca. A equipe que não marca erra muito”

“O japonês é tático em tudo. Com ele, você tem mais facilidade de trabalhar”

julho.2008

independência financeira”, fala ao se lembrar da época em que precisou abrir uma tapeçaria em Londrina para complementar a renda da família. Hoje, o ex-jogador possui uma escolinha de futebol na região de Suzuka, com cerca de 100 garotos matriculados. E passa toda a sua experiência às futuras promessas: “digo ao atleta que os estudos vêm em primeiro lugar, e que no futebol tem que ter muita garra e determinação”. Tecão também fala um pouco do perfil dos seus comandados. Para ele, é mais fácil treinar o japonês que o brasileiro. “O japonês é tático em tudo. Com ele, você tem mais facilidade de trabalhar. Já com o brasileiro é mais difícil. Não ouve o que você fala”, analisa. Admirador de Luis Felipe Scolari (que também já passou pelo Japão como técnico, no Jubilo Iwata, em 1997), Tecão é adepto do esquema 3-5-2. Apesar de ter sido zagueiro na época em que jogava, avisa que não é “retranqueiro”. Mas é enfático: “no meu time, todo mundo marca. A equipe que não marca erra muito”, diz. Ao contrário do ídolo (Scolari recentemente comentou que não gostaria de voltar a dirigir a Seleção Brasileira e vai treinar o Chelsea, da Inglaterra, na próxima temporada), Tecão ainda pensa em voltar ao Brasil. “Pretendo até o ano que vem estar trabalhando aí no futebol brasileiro”, avisa o treinador que confessa ter recebido vários convites. “Estava de férias no Brasil no fim de 2007 e recebi uma proposta do Amarildo Vieira (presidente do LUSA-CAC) para ser treinador dos juniores. Fui o treinador por 60 dias e fizemos cinco amistosos. Estávamos nos preparando para a Copa Tribuna do Paraná, mas, depois disso, retornei ao Japão em março de 2008”, explica. Sem revelar nomes, também comenta que pode ir dirigir equipes em Minas Gerais e no interior de São Paulo. Propostas à parte, a saudade também fala forte. Isso fica claro no discurso de Tecão, que encerra: “Quero voltar aí para ficar. Eu amo minha família. Não quero ver os meus filhos afastados”, afirma.


Reportagem impressa - Histórias que a bola não conta