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PELOS CAMPOS DO PARANÁ

A ROTINA dE UM

GUARDIãO Reportagem: gustavo ticiane e janaína castro Fotos e Design: gustavo ticiane

• Reportagem realizada em 2007 e apresentada à disciplina 5NIC030 - Técnica de Reportagem, Entrevista e Pesquisa Jornalística III - do curso de Jornalismo da Universidade Estadual de Londrina. Docente: Ossamu Nonaka (Shoni) • Vencedora do 13º Prêmio Sangue Novo no Jornalismo Paranaense - Evento organizado pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Paraná (Sindijorpr) - Maio de 2008 - Curitiba/PR


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A ROTINA dE UM

GUARDIãO Do alto dos seus 71 anos de idade, 30 deles de dedicação ao trabalho, Zeferino Pasquini mostra que o tempo e a rotina não passam de meros detalhes Reportagem: gustavo ticiane e janaína castro Fotos e Design: gustavo ticiane

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cordar cedo todo dia. Tomar sempre aquele mesmo ônibus para chegar ao trabalho. Cansativo? Agora, imagine cumprir essa rotina durante 30 anos. Estressante, enfadonho? Não para os 71 anos de Zeferino Pasquini. Nascido em São Manoel, interior de São Paulo, o ex-goleiro e preparador físico adotou Londrina como reduto em 1957. Na época, deixava a equipe do Corinthians Paulista para se tornar o goleiro titular do até então Londrina Futebol Clube, precursor do atual LEC. “Eles (os diretores do Londrina) mandaram me buscar. Vim de vôo fretado e tudo”, brinca ao se recordar do tempo em que viajar de avião era uma das poucas regalias oferecidas a um jogador de futebol. Década de 1970, é hora de parar. Ainda que não tenha acumulado grandes fortunas, os bons desempenhos e títulos renderam a Zeferino prestígio e re-

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nome na cidade. Por isso mesmo, não pensou duas vezes em fixar moradia no norte do Paraná quando encerrou a carreira de jogador profissional. Mais que isso. Já funcionário da prefeitura de Londrina, passou a ser uma espécie de “guardião” de um dos patrimônios mais tradicionais do município: o Estádio Jacy Scaff, popularmente chamado de Estádio do Café. Já estamos em 2007, mais precisamente às 8 da manhã do dia 2 de outubro. E Zeferino, no trabalho. Nem parece que há apenas dois dias completou mais um ano de vida. “O meu dia-a-dia é o seguinte: chegar aqui (no Estádio do Café) cedo e ver se não roubaram nada. O índice de roubo aqui é alto. Os fios das torres ficam praticamente expostos”, preocupa-se o “guardião”, referindo-se aos refletores do estádio, alvo preferido dos ladrões que vendem o cobre da fiação. Segundo cálculos da Fundação de Esportes de Londrina (FEL), o investimento necessário, só para o conserto da iluminação, chega a 70 mil reais. Nove horas da manhã, e o ex-goleiro já deu a sua costumeira volta pelo gramado. “Às vezes, a gente até conversa com o campo”, revela. “Quando o gramado está bonito, em boas condições, a coisa mais gostosa é andar nele”. Mas não é o caso do atual Café. Aquele que outrora foi considerado um dos melhores gramados do país, como na época do Torneio Pré-Olímpico em 2000, hoje sucumbe à forte estiagem sobre a região nas últimas semanas. Mais uma importante tarefa diária para o “guardião”: cuidar do seu querido gramado, hoje mais freqüentado pelos pássaros quero-quero do que por jogadores de futebol. Zeferino solicita e organiza as visitas de caminhões pipa da prefeitura, para amenizar os efeitos da seca. “Não é o melhor, porque a água do caminhão fica só em cima, não penetra PREOCUPAÇÃO. Zeferino aponta para um dos na terra até a raiz. Mas é a única ajuda setores que precisam de que a gente pode ter nestes tempos”, exreparos. Ao fundo (e no plica. Os caminhões ajudam a regar o detalhe), um deles: os Café em média três vezes por semana e refletores. Para voltar a ainda assim o “guardião” afirma: “Tem ter jogos à noite, o Café é que rezar pra chover! Para melhorar de precisa de 70 mil reais verdade”. para repôr lâmpadas e Na rotineira conversa com o relvado, fiação roubada


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o porquê do desuso Era perto das 18 horas do dia 11 de fevereiro de 2007. Numa tarde ensolarada, o árbitro Adriano Milczvski encerrava aquele que seria o último jogo oficial do Estádio Jacy Sacaff neste ano até então. Válida pelo Campeonato Paranaense, a partida foi vencida pelo Paranavaí: 1 a 0 diante da Portuguesa Londrinense. Nas arquibancadas, apenas 139 pagantes. Para a anfitriã Portuguesa, um prejuízo de quase 3 mil reias. De lá para cá, o Café virou palco de jogos comemorativos. O último foi entre pilotos da Stock Car no último mês de agosto. Se antes os memoráveis jogos, como os do Campeonato Brasileiro, as finais do campeonato paranaense e até o Torneio Pré-Olímpico de seleções atraíam grande público, hoje, além das lembranças, restaram apenas alguns visitantes e os muitos pássaros que habitam as dependências do Jacy Scaff. “Em dias de jogos do Londrina, fica mais corrido. A gente tem que cuidar mais do campo, coordenar horários de treinos, deixar tudo

arrumadinho”, recorda-se Zeferino. “Mas hoje estou aqui, cuidando dos quero-quero porque não tem jogo”, lamenta. Nada, porém, parece desanimar o ex-jogador e preparador de goleiros. Aliás, pelo contrário. Ele acredita em dias melhores para o futebol da região. “Se o Londrina subir para a Série C (do Campeonato Brasileiro), tem que jogar no Café porque aqui o estádio tem espaço. Aqui o conforto é maior”, enfatiza. Enquanto isso não acontece, as equipes locais, Londrina e Portuguesa Londrinense, que há anos não atravessam bom momento no esporte, preferem jogar em estádios menores. O Tubarão passou a atuar no Estádio Vitorino Gonçalves Dias (VGD), enquanto a Portuguesa (hoje, Lusa/CAC) mudou-se de cidade e tem mandado seus jogos no José Garbelini (Estádio da Curva) em Cambé, na região metropolitana. Para os dirigentes de ambas as equipes, tudo para fugir das despesas motivadas pela escassez de torcedores.

Café Vazio. A última partida oficial realizada no estádio foi em

fevereiro deste ano. O Tubarão passou a atuar no Vitorino Gonçalves Dias (VGD), enquanto a Portuguesa mudou-se de cidade e tem mandado seus jogos no José Garbelini (Estádio da Curva) em Cambé

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“Minha vida era dividida 50% em treinar goleiro e 50% em cuidar do Café. Eu perdi 50%, já que parei de treinar goleiro. Agora estou com os outros 50% e pretendo continuar por um bom tempo” Zeferino mergulha na história a cada palavra. As lembranças estão sempre presentes e também fazem parte da sua rotina. Fácil de compreender, afinal seria mesmo impossível não trazer à memória momentos marcantes vividos no estádio. O passado ressurge para o “guardião” a cada olhada nos quadros fixados na parede da hoje silenciosa sala de administração. Silêncio que só é quebrado quando Pasquini externa suas experiências aos visitantes, outra constante nas manhãs do ex-goleiro. É geralmente por volta das 10 da manhã que eles aparecem.“O mais gostoso de trabalhar aqui é que dificilmente tem um dia que não tem visita”, alegra-se. Como a prefeitura não tem dinheiro em caixa, cabe a ele acumular a função de guia. E, pelo menos conforme suas palavras, não deixa a desejar: “Qualquer pessoa que venha aqui ao estádio, eu recebo bem. Deixo tirar fotografia do campo, tiro fotografia com eles embaixo do gol. É uma alegria fazer isso, receber as pessoas. É sinal que vale a pena ficar aqui”, orgulha-se. Apesar das diferenças com a época bem mais agitada em que o Café era palco dos freqüentes jogos do Londrina e, mais recentemente, da Portuguesa Londrinense, Zeferino demonstra-se feliz e satisfeito mesmo com a calmaria atual. “Eu sinto saudades sim, e gostaria de ver o Londrina jogar aqui de novo. Mas não posso reclamar, eu gosto muito do que faço hoje. Faço com muito amor e carinho”, revela. Nessa rotina, lá se vão mais de três décadas de zelo que ajudaram a estreitar a relação de Zeferino com o estádio. Isto a ponto de o “guardião”

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ficar extremamente aborrecido quando alguém fala mal do Café. “É como se xingassem meu próprio filho”, diz indignado. Uma verdadeira paixão pelo trabalho que nem o passar dos anos consegue diminuir. “Minha vida era dividida 50% em treinar goleiro e 50% em cuidar do café. Eu perdi 50%, já que parei de treinar goleiro. Agora estou com os outros 50% e pretendo continuar por um bom tempo, no mínimo uns cinco anos”, enfatiza. Passado, presente e futuro estão intimamente ligados no discurso do “guardião”. O relógio já marca meio-dia. “O tempo aqui passa rápido, logo chega a hora do almoço. Eu peço uma marmitex e depois de comer, deito um pouco ali na cama de massagem. Fico pensando que ainda sou jogador”, brinca. Encerrada mais uma manhã de trabalho, Zeferino volta para casa para mais uma habitual tarde de folga. É a hora de descansar para recomeçar no dia seguinte a sua incansável jornada diária. O simpático ex-goleiro, eterno apaixonado pelo futebol e orgulhoso da contribuição que teve para escrever a história, continua pronto para servir enquanto suas forças durarem: “A gente não sabe o dia de amanhã, né?, mas enquanto eu puder ser útil, gostaria de continuar trabalhando aqui”, finaliza.

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como se fosse um FILHO.

Ainda que o tempo e o desuso se mostrem como implacáveis adversários ao estádio, Zeferino se indigna com as críticas. “Quando falam mal do Café, é como se xingassem meu próprio filho”, enfatiza


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Arquivo Londrina Esporte Clube

Os anos vividos no Estádio do Café renderam muitas alegria a Zeferino. Tantas que ele fica confuso e deixa a indecisão transparecer em seu rosto, principalmente se questionado quanto a maior delas. Insistimos. Ainda pensativo, o guardião arrisca, mas não sem medo de errar: “Acho que a alegria maior aqui foi quando eu treinava goleiros. Fiz milagre naquela época, quando o Londrina ganhou a Taça de Prata em 1980. Foi um torneio com 64 times e o Londrina foi campeão. A torcida invadiu. Quase quebraram o estádio de tanta felicidade”, relembra. www.planetworldcup.com

patada atômica. Roberto

Rivelino (na foto, em ação pelo Brasil na Copa de 1978): o algoz de Zeferino

comemoração. Torcida do Londrina faz a festa com os jogadores após a conquista da Taça de Prata de 1980

...e a maior tristeza E em 30 anos de zelo, nenhuma tristeza, Zeferino? Falar de um momento desagradável parece ainda mais difícil para ele. Mas, com os olhos baixos e um tom de lamento, logo vem a resposta: “Bom... Tristeza foi o dia que eu tomei o gol do Rivelino, contra a seleção brasileira de veteranos (Zeferino não se recorda ao certo de quando foi o jogo. Sabe que foi comemorativo ao aniversário da cidade de Londrina. Ele defendia uma seleção local de veteranos. O jogo terminou 3 a 2 para os visitantes). Diante de 45 mil pessoas aqui no estádio eu tomei aquele gol. Foi um gol de falta. Era para eu jogar só 20 minutos e sair, mas o Tatinha (Jair Antonio Prata, repórter de uma rádio local que transmitia o jogo) queria que eu ficasse, deixou passar os 20 minutos e falou para eu ficar. Disse que eu já tinha defendido algumas boas bolas, e estava tranqüilo. Mas ele acabou de falar e saiu uma falta bem perto da área. O Rivelino bateu, eu até fui na bola mas acabei soltando e o cara fez o gol. Depois levaram a bola rápido para o meio de campo antes de eu sair. O jogo começou de novo eu tomei outro gol... ( ! ) Dois gols em 1 minuto e meio! Aí eu já peguei a lateral e fui embora”, brinca.

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Zeferino pelos campos do brasil o começo... CORINTHIANS - SP

Com apenas 17 anos, Zeferino iniciava a carreira de jogador profissional pelo Corinthians. Ao seu lado, o lendário goleiro Gylmar, que atuou pela seleção brasileira nas conquistas de 1958 e 1962.

www.miltonneves.com.br

BARRETOS - SP

campeão paranaense

Arquivo Londrina Esporte Clube

LONDRINA - PR

Contratado em 1957 junto ao Corinthians, Zeferino inicava no recém fundado Londrina Futebol Clube (precursor do atual LEC) uma passagem que rendeu muitos títulos, como o da Série Norte em 1959 (foto). Em 1962, ele e o também goleiro Zuza foram os únicos a “sobreviverem” após uma reformulação no elenco que não poupou nem o técnico Jacy Scaff. Ambos ficaram na equipe para a conquista do primeiro título estadual do clube.

coritiba 1 x 0 hungria Estádio Couto Pereira, dia 3 de dezembro de 1967. Outro momento inesquecível para o “Guardião”. O CORITIBA - PR temido time húngaro vinha de uma vitória por 3 a 1 diante da seleção brasileira na semana anterior. Mas não passou pelo Coritiba. No gol coxa-branca: Zeferino Pasquini. Na memória, ainda está o “frisson” da torcida que lotava o estádio.

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MARÍLIA - SP

NÁUTICO - PE

SÃO BENTO - SP

PONTE PRETA - SP

PORTUGUESA SANTISTA - SP

BRITANIA - PR

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Reportagem Impressa - Pelos Campos do Paraná: A Rotina de um Guardião