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AS CRÔNICAS DE GELO E FOGO LIVRO UM A GUERRA DOS TRONOS Traduç ão Jorge Candeias 2010 LeYa

Prólogo - Deveríamos regressar - insistiu Gared quando os bosques começaram a escurecer ao redor do grupo. - Os selvagens estão mortos. - Os mortos o assustam? - perguntou Sor Waymar Royce com não mais do que uma sugestão de sorriso no rosto. Gared não mordeu a isca. Era um homem velho, com mais de cinquenta anos, e vira os nobres chegar e partir. - Um morto é um morto - respondeu. - Nada temos a tratar com os mortos.


- Mas estão mortos? - perguntou Royce com suavidade. - Que prova temos disso? - Will os viu - disse Gared. - Se ele diz que estão mortos, é prova suficiente para mim. Will já sabia que o arrastariam para a disputa mais cedo ou mais tarde. Desejou que tivesse sido mais tarde. - Minha mãe disse-me que os mortos não cantam - contou Will. - Minha ama de leite disse a mesma coisa, Will - respondeu Royce. - Nunca acredite em nada do que ouvir junto à mama de uma mulher. Há coisas a aprender mesmo com os mortos sua voz gerou ecos, alta demais na penumbra da floresta. - Temos perante nós uma longa cavalgada - salientou Gared. Oito dias, talvez nove. E a noite está para cair. Sor Waymar Royce olhou o céu de relance, com desinteresse. - Isso acontece todos os dias por esta hora. Você perde a virilidade com o escuro, Gared? Will via o aperto em torno da boca de Gared, a ira só a custo reprimida nos olhos que espreitavam sob o espesso capuz negro de seu manto. Ele passara quarenta anos na Patrulha da Noite, em homem e em rapaz, e não estava acostumado a ser desvalorizado. Mas era mais do que isso. Will conseguia detectar no homem mais velho algo mais sob o orgulho ferido. Era possível sentir-lhe o gosto: uma tensão nervosa que se aproximava perigosamente do medo. Will partilhava o desconforto do outro homem. Estava havia quatro anos na Muralha. Da primeira vez que fora enviado para lá, todas as velhas histórias lhe tinham acorrido ao cérebro, e suas entranhas se tinham feito em água. Era agora um veterano de cem patrulhas, e a escura e infinita terra


selvagem a que os sulistas chamavam floresta assombrada já não tinha terrores para si. Até aquela noite. Algo era diferente então. Havia naquela escuridão algo de cortante que lhe fazia eriçar os pelos da nuca. Cavalgavam havia nove dias, para norte e noroeste, e depois de novo para norte, cada vez para mais longe da Muralha, seguindo sem desvios a trilha de um bando de salteadores selvagens. Cada dia fora pior que o anterior. Aquele tinha sido o pior de todos. Um vento frio soprava do norte e fazia as árvores sussurrarem como coisas vivas. Durante todo o dia Will tivera uma sensação que era como se alguma coisa o estivesse observando, algo frio e implacável que não gostava dele. Gared também sentira. Will nada desejava com tanta força como cavalgar a toda pressa de volta à segurança da Muralha, mas este não era um sentimento que se pudesse partilhar com um comandante. Especialmente com um comandante como aquele. Sor Waymar Royce era o filho mais novo de uma Casa antiga com demasiados herdeiros. Era um jovem bem-apessoado de dezoito anos, de olhos cinzentos, elegante e esbelto como uma faca. Montando em seu enorme corcel de batalha negro, o cavaleiro elevava-se bem acima de Will e Gared, montados nos seus garranos de menores dimensões. Trajava botas negras de couro, calças negras de lã, luvas negras de pele de toupeira e uma cintilante cota de malha negra e flexível por cima de várias camadas de lã negra e couro fervido. Sor Waymar era um Irmão Juramentado da Patrulha da Noite havia menos de meio ano, mas ninguém poderia dizer que não se preparara para a sua vocação. Pelo menos no que dizia respeito ao guarda-roupa.


O manto constituía a consumação da sua glória; zibelina, espessa e negra, suave como pele. "Aposto que foi ele próprio quem as matou todas, ah, pois aposto", dissera Gared na caserna, entre os vapores do vinho, “torceu-lhes as cabecinhas e arrancou-as, o nosso poderoso guerreiro". A gargalhada fora partilhada por todos. "É difícil aceitar ordens de um homem de quem nos rimos de copo na mão", refletiu Will, sentado, tremendo, sobre o dorso do garrano, Gared devia sentir o mesmo. - Mormont nos disse para os encontrarmos, e encontramos disse Gared. - Estão mortos. Não voltarão a nos causar problemas, Temos uma dura cavalgada à nossa frente. Não gosto deste tempo. Se nevar, poderemos levar uma quinzena para regressar, e a neve é o melhor que podemos esperar. Alguma vez viu uma tempestade de gelo, senhor? O nobre pareceu não ouvi-lo. Estudava o crepúsculo, o que aprofundava aquele seu modo meio aborrecido e meio distraído. Will já cavalgava com o cavaleiro havia tempo suficiente para compreender que era melhor não o interromper quando tinha aquela expressão. - Diga-me de novo o que viu, Will. Todos os detalhes. Não deixe nada de fora, Will fora um caçador antes de se juntar à Patrulha da Noite. Bem, na verdade fora um caçador furtivo. Os cavaleiros livres de Mallister tinham-no apanhado com a boca na botija nos bosques do próprio Mallister, esfolando um dos seus gamos, e apenas pudera escolher entre passar a vestir-se de negro e perder uma mão. Ninguém era capaz de se mover pela floresta tão silenciosamente como Will, e os irmãos negros não tinham demorado muito tempo para descobrir seu talento. - O acampamento fica duas milhas mais à frente, para lá daquela cumeada, ao lado de um córrego - disse Will. -


Cheguei o mais perto que me atrevi. Eles são oito, com homens e mulheres. Não vi crianças. Ergueram um abrigo contra a rocha. A neve já o cobriu bem, mas mesmo assim consegui descortiná-lo. Não vi nenhum fogo ardendo, mas a cova da fogueira ainda estava clara como o dia. Ninguém se movia. Observei durante muito tempo. Nunca um homem vivo ficou tão quieto. - Viu algum sangue? - Bem, não - admitiu Will. - Viu armas? - Algumas espadas, uns quantos arcos. Um homem tinha um machado. Com ar de ser pesado, duas lâminas, um cruel bocado de ferro. Estava no chão à seu lado, junto à sua mão. - Prestou atenção à posição dos corpos? Will encolheu os ombros. - Um par deles está sentado junto ao rochedo. A maioria está no chão. Como caídos. - Ou dormindo - sugeriu Royce. - Caídos - insistiu Will. - Há uma mulher numa árvore de pauferro, meio escondida entre os ramos. Uma olhos-longos - ele deu um tênue sorriso. - Assegurei-me de que não me conseguiria ver. Quando me aproximei, vi que ela também não se movia - e sacudiu-se por um estremecimento involuntário. - Está enregelado? - perguntou Royce. - Um pouco - murmurou Will. - É o vento, senhor. O jovem cavaleiro virou-se para seu grisalho homem de armas. Folhas pesadas de geada suspiravam ao passar por eles, e o corcel de batalha movia-se de forma inquieta.


- Que lhe parece que possa ter matado aqueles homens, Gared? - perguntou Sor Waymar com ar casual, ajustando a posição do longo manto de zibelina. - Foi o frio - disse Gared com uma certeza férrea. - Vi homens congelar no inverno passado e no outro antes desse, quando eu era pequeno. Toda a gente fala de neve com doze metros de profundidade, e do modo como o vento de gelo chega do norte uivando, mas o verdadeiro inimigo é o frio. Aproxima-se em silêncio, mais furtivo do que o Will. A princípio estremece-se e os dentes batem, e bate-se com os pés no chão e sonha-se com vinho aquecido e boas e quentes fogueiras. Ele queima, ah, como queima. Nada queima como o frio. Mas só durante algum tempo. Então, penetra no corpo e começa a enchê-lo, e passado algum tempo já não se tem força suficiente para combatê-lo. E mais fácil limitarmo-nos a nos sentar ou a adormecer. Dizem que não se sente dor alguma perto do fim. Primeiro, fica-se fraco e sonolento, e tudo começa a se desvanecer, e depois é como afundar num mar de leite morno. Como que pacífico. - Quanta eloquência, Gared - observou Sor Waymar. - Nunca suspeitei que a tivesse dentro de si. - Também tive o frio dentro de mim, nobre - Gared puxou para trás o capuz, oferecendo a Sor Waymar um longo olhar sobre os cotos onde as orelhas tinham estado. - Duas orelhas, três dedos dos pés e o mindinho da mão esquerda. Tive sorte. Encontramos meu irmão congelado no seu posto de vigia com um sorriso no rosto. Sor Waymar encolheu os ombros. - Deveria vestir coisas mais quentes, Gared.


Gared lançou ao nobre um olhar feroz, e as cicatrizes em redor das suas orelhas ficaram vermelhas de fúria nos locais onde o Meistre Aemon as cortara. - Veremos quão quente poderá se vestir quando chegar o inverno - puxou o capuz para cima e arqueou as costas sobre o garrano, silencioso e carrancudo. - Se Gared diz que foi o frio... - começou Will. - Você fez alguma vigia nesta última semana, Will? - Sim, senhor - nunca havia uma semana em que ele não fizesse uma maldita dúzia de vigias. Aonde o homem queria chegar? - E em que estado encontrou a Muralha? - Úmida - Will respondeu, franzindo a sobrancelha. Agora que o nobre o fizera notar, via os fatos com clareza. - Eles não podem ter congelado. Se a Muralha está úmida, não podem. O frio não é suficiente. Royce anuiu. - Rapaz esperto. Tivemos alguns frios ligeiros na semana passada, e uma queda de neve rápida de vez em quando, mas com certeza não houve nenhum frio suficientemente forte para matar oito homens adultos. Homens vestidos de peles e couro, relembro, com um abrigo ali à mão e meios para fazer fogo - o sorriso do cavaleiro ressumava confiança. - Will, levenos lá. Quero ver esses mortos com meus próprios olhos. E a partir desse momento nada mais havia a fazer. A ordem fora dada, e a honra os obrigava a obedecer. Will seguiu à frente, com o pequeno garrano felpudo escolhendo com cuidado o caminho por entre a vegetação rasteira. Uma neve ligeira caíra na noite anterior, e havia pedras, raízes e covas escondidas por baixo da sua crosta, à espreita dos descuidados e dos imprudentes. Sor Waymar


Royce vinha logo atrás, com o grande corcel negro de batalha resfolegando de impaciência. Aquele cavalo era a montaria errada para uma patrulha, mas tentem dizer isto ao nobre. Gared fechava a retaguarda. O velho soldado resmungava para si próprio enquanto avançava. O crepúsculo aprofundava-se. O céu sem nuvens tomou um profundo tom de púrpura, a cor de uma velha nódoa negra, e depois se dissolveu em negro. As estrelas começaram a surgir. Uma meia-lua se ergueu. Will estava grato pela luz. - Podemos decerto avançar mais depressa do que isto - disse Royce depois de a lua se erguer por completo. - Com este cavalo, não - respondeu Will. O medo tornara-o insolente. - Talvez meu senhor deseje tomar a dianteira? Sor Waymar Royce não se dignou a responder. Em algum lugar nos bosques um lobo uivou. Will levou o garrano para baixo de uma velha e nodosa árvore de pau-ferro e desmontou. - Por que parou? - perguntou Sor Waymar. - É melhor ir o resto do caminho a pé, senhor. O lugar é logo depois daquela colina. Royce fez uma pausa momentânea, de olhos presos na distância e o rosto pensativo. Um vento frio sussurrou por entre as árvores. O grande manto de zibelina agitou-se nas costas como uma coisa semiviva. - Há qualquer coisa de errado aqui - murmurou Gared. O jovem cavaleiro dedicou-lhe um sorriso desdenhoso. - Aí há? - Não o sentiu? - perguntou Gared. - Escute a escuridão. Will sentia. Em quatro anos na Patrulha da Noite, nunca estivera tão temeroso. O que era aquilo?


- Vento. Ruído de árvores. Um lobo. Que som te apavora tanto, Gared? - como Gared não respondeu, Royce deslizou graciosamente da sela. Atou com segurança o corcel de batalha a uma ramada baixa, bem afastado dos outros cavalos, e retirou a espada da bainha. Jóias cintilaram no punho e o luar percorreu o aço brilhante. Era uma arma magnífica, forjada num castelo e, segundo aparentava, novinha em folha. Will duvidava que tivesse sido alguma vez brandida em fúria. - O arvoredo é espesso por aqui - preveniu Will. - Essa espada o atrapalhará, senhor. Uma faca é melhor. - Se precisar de instruções, eu as pedirei - disse o jovem senhor. - Gared, fique aqui. Guarde os cavalos. Gared desmontou. - Precisamos de uma fogueira. Tratarei disso. - Quanta tolice tem nessa cabeça, velhote? Se houver inimigos nesta floresta, uma fogueira é a última coisa que queremos. - Há alguns inimigos que uma fogueira manterá afastados disse Gared. - Ursos, lobos gigantes e... e outras coisas... A boca de Sor Waymar transformou-se numa linha dura. - Não haverá fogo. O capuz de Gared engolia-lhe o rosto, mas Will conseguia ver a cintilação dura nos olhos que se fixavam no cavaleiro. Por um momento, temeu que o homem mais velho puxasse a espada. Era uma coisa curta e feia, com o punho desbotado pelo suor e o gume denteado pelo muito uso, mas Will não daria um pendão de ferro pela vida do nobre se Gared a desembainhasse. Por fim, Gared olhou para baixo. - Não haverá fogo - murmurou de forma quase inaudível. Royce tomou aquilo como aquiescência e virou-se.


- Indique o caminho - disse a Will. Will teceu um rumo através de um matagal, depois subiu o declive da colina baixa onde encontrara seu ponto de vigia, por baixo de uma árvore sentinela. Sob a fina crosta de neve o solo estava úmido e lamacento, escorregadio, com rochas e raízes escondidas, prontas para provocar tropeços. Will não fez nenhum som enquanto subia. Atrás de si ouvia o suave roçar metálico da cota de malha do nobre, o restolhar de folhas e pragas murmuradas quando ramos espetados se agarravam à espada e puxavam o magnífico manto de zibelina do outro homem. A grande árvore estava mesmo no topo da colina onde Will sabia que estaria, com os ramos inferiores não mais que trinta centímetros acima do solo. Will deslizou por baixo, com a barriga apoiada na neve e na lama, e olhou a clareira vazia mais abaixo. O coração parou no seu peito. Por um momento não se atreveu a respirar. O luar brilhava sobre a clareira, sobre as cinzas na cova da fogueira, sobre o abrigo coberto de neve, sobre o grande rochedo, sobre o pequeno riacho meio congelado. Tudo estava como estivera algumas horas antes. Eles não estavam lá. Todos os corpos tinham desaparecido. - Deuses! - ouviu alguém dizer atrás de si. Uma espada golpeou um ramo quando Sor Waymar Royce atingiu o topo da colina. Ficou em pé ao lado da árvore, de espada na mão, com o manto a ondular nas costas, soprado pelo vento que se levantava, nobremente delineado contra as estrelas para que todos o vissem. - Abaixem-se! - segredou Will com urgência. - Há algo de errado. Royce não se moveu. Olhou para a clareira vazia e deu risada.


- Parece que seus mortos levantaram acampamento, Will. A voz de Will o abandonou. Procurou palavras que não vieram. Não era possível. Seus olhos percorreram para a frente e para trás o acampamento abandonado e pararam no machado. Um enorme machado de batalha de duas lâminas, ainda caído onde o vira pela última vez, intocado. Uma arma valiosa... - De pé, Will - ordenou Sor Waymar. - Não há ninguém aqui. Não quero vê-lo escondido por baixo de um arbusto. Relutante, Will obedeceu. Sor Waymar olhou-o com aberta desaprovação: - Não vou regressar a Castelo Negro com um fracasso na minha primeira patrulha. Vamos encontrar aqueles homens olhou de relance em volta. - Suba na árvore. Seja rápido. Procure uma fogueira. Will virou-se, sem palavras. Não valia a pena argumentar. O vento movia-se. Trespassava-o. Dirigiu-se para a árvore, uma sentinela abobadada cinzenta esverdeada, e começou a subir. Em breve tinha as mãos pegajosas de seiva e estava perdido entre as agulhas. O medo enchia-lhe o estômago como uma refeição que fosse incapaz de digerir. Murmurou uma prece aos deuses sem nome da floresta e libertou o punhal da bainha. Colocou-o entre os dentes para manter as mãos livres para a escalada. O sabor do ferro frio na boca o confortou. Embaixo, o nobre de repente gritou: - Quem vem lá? Will ouviu incerteza na chamada. Parou de escalar; escutou; observou. Os bosques deram resposta: um restolhar de folhas, o correr gelado do riacho, o pio distante de uma coruja das neves. Os Outros não faziam som algum.


Will viu movimento com o canto do olho. Sombras pálidas que deslizavam pela floresta. Virou a cabeça, viu de relance uma sombra branca na escuridão. Logo depois ela desapareceu. Ramos agitaram-se gentilmente ao vento, coçando-se uns aos outros com dedos de madeira. Will abriu a boca para gritar um aviso, mas as palavras pareceram congelar na garganta. Talvez estivesse errado. Talvez tivesse sido apenas uma ave, um reflexo na neve, um truque qualquer do luar. Afinal, o que vira? - Will, onde está? - chamou Sor Waymar. - Vê alguma coisa? o homem descrevia um círculo lento, de súbito cauteloso, de espada na mão. Deve tê-los pressentido, tal como Will os pressentia. Nada havia para ver. - Responda! Por que está tão frio? E estava frio. Tremendo, Will agarrou-se com mais força ao seu poleiro. Apertou o rosto com força contra o tronco da árvore. Sentia a seiva doce e pegajosa na bochecha. Uma sombra emergiu da escuridão da floresta. Parou na frente de Royce. Era alta, descarnada e dura como ossos velhos, com uma carne pálida como leite. Sua armadura parecia mudar de cor quando se movia; aqui era tão branca como neve recém-caída, ali, negra como uma sombra, por todo o lado sarapintada com o profundo cinzento esverdeado das árvores. Os padrões corriam como o luar na água a cada passo que dava. Will ouviu a exalação sair de Sor Waymar Royce num longo silvo. - Não avance mais - preveniu o nobre. A voz estava quebrada como a de um rapaz. Atirou o longo manto de zibelina para trás por sobre os ombros, a fim de libertar os braços para a batalha, e pegou na espada com ambas as mãos. O vento parara. Estava muito frio.


O Outro deslizou para a frente sobre pés silenciosos. Na mão trazia uma espada que não era como nada que Will tivesse visto. Nenhum metal humano tinha entrado na forja daquela lâmina. Estava viva de luar, translúcida, um fragmento de cristal tão fino que parecia quase desaparecer quando visto de frente. Havia naquela coisa uma tênue cintilação azul, uma luz fantasmagórica que brincava com os seus limites, e de algum modo Will soube que era mais afiada do que qualquer navalha. Sor Waymar enfrentou o inimigo com bravura. - Neste caso, dance comigo. Ergueu a espada bem alto acima da cabeça, desafiador. As mãos tremiam com o peso da arma, ou talvez devido ao frio. Mas naquele momento, pensou Will, já não era um rapaz, e sim um homem da Patrulha da Noite. O Outro parou. Will viu seus olhos, azuis, mais profundos e mais azuis do que quaisquer olhos humanos, de um azul que queimava como gelo. Will fixou-se na espada que estremecia, erguida, e observou o luar que corria, frio, ao longo do metal. Durante um segundo, atreveu-se a ter esperança. Emergiram em silêncio, das sombras, gêmeos do primeiro. Três... quatro... cinco... Sor Waymar talvez tivesse sentido o frio que vinha com eles, mas não chegou a vê-los, não chegou a ouvi-los. Will tinha de chamá-lo. Era seu dever. E sua morte, se o fizesse. Estremeceu, abraçou a árvore e manteve o silêncio. A espada clara veio pelo ar, tremendo. Sor Waymar parou-a com o aço. Quando as lâminas se encontraram, não se ouviu nenhum ressoar de metal com metal, apenas um som agudo e fino, no limiar da audição, como um animal a guinchar de dor. Royce deteve um


segundo golpe, e um terceiro, e depois recuou um passo. Outra chuva de golpes, e recuou outra vez. Atrás dele, para a direita, para a esquerda, em seu redor, os observadores mantinham-se em pé, pacientes, sem rosto, silenciosos, com os padrões mutáveis de suas delicadas armaduras a torná-los quase invisíveis na floresta. Mas não faziam um gesto para intervir. Uma vez e outra, as espadas encontraram-se, até Will querer tapar os ouvidos, protegendo-os do estranho e angustiado lamento de seus choques. Sor Waymar já arquejava por causa do esforço, e a respiração gerava nuvens ao luar. Sua lâmina estava branca de gelo; a do Outro dançava com uma pálida luz azul. Então, a parada de Royce chegou um momento tarde demais. A espada cristalina trespassou a cota de malha por baixo de seu braço. O jovem senhor gritou de dor. Surgiu sangue por entre os aros, correu ao frio, e as gotas pareciam vermelhas como fogo onde tocavam a neve. Os dedos de Sor Waymar esfregaram o flanco. Sua luva de pele de toupeira veio empapada de vermelho. O Outro disse qualquer coisa numa língua que Will não conhecia; sua voz era como o quebrar do gelo num lago de inverno, e as palavras, escarnecedoras. Sor Waymar Royce encontrou sua fúria. - Por Robert! - gritou, e atacou, rosnando, erguendo com ambas as mãos a espada coberta de gelo e brandindo-a num golpe lateral paralelo ao chão, carregado com todo seu peso. A parada do Outro foi quase displicente. Quando as lâminas se tocaram, o aço despedaçou-se. Um grito ecoou pela noite da floresta, e a espada quebrou-se numa centena de pedaços quebradiços, espalhando os estilhaços como uma chuva de agulhas. Royce caiu de


joelhos, guinchando, e cobriu os olhos. Sangue jorrou-lhe por entre os dedos. Os observadores aproximaram-se uns dos outros, como que em resposta a um sinal. Espadas ergueram-se e caíram, tudo num silêncio mortal. Era um assassinato frio. As lâminas pálidas atravessaram a cota de malha como se fosse seda. Will fechou os olhos. Muito abaixo, ouviu as vozes e os risos, aguçados como pingentes. Quando reuniu coragem para voltar a olhar, um longo tempo se passara, e a colina lá embaixo estava vazia. Ficou na árvore, quase sem se atrever a respirar, enquanto a lua foi rastejando lentamente pelo céu negro. Por fim, com os músculos cheios de cãibras e os dedos dormentes de frio, desceu. O corpo de Royce jazia na neve de barriga para baixo, com um braço aberto. O espesso manto de zibelina tinha sido cortado numa dúzia de lugares. Jazendo assim morto, via-se como era novo. Um rapaz. Will encontrou o que restava da espada a alguns pés de distância, com a extremidade estilhaçada e retorcida, como uma árvore atingida por um relâmpago. Ajoelhou-se, olhou em volta com cautela e a apanhou. A espada quebrada seria sua prova. Gared saberia compreendê-la, e, se não soubesse, então haveria o velho urso do Mormont ou o Meistre Aemon. Estaria Gared ainda à espera com os cavalos? Tinha de se apressar. Will endireitou-se. Sor Waymar Royce erguia-se sobre ele. Suas belas roupas eram farrapos, o rosto, uma ruína. Um estilhaço da espada trespassara a pupila branca e cega do olho esquerdo. O olho direito estava aberto. A pupila queimava, azul. Via.


A espada quebrada caiu de dedos despidos de força. Will fechou os olhos para rezar. Mãos longas e elegantes roçaram na sua bochecha e depois se fecharam em volta de sua garganta. Estavam enluvadas na mais fina pele de toupeira e pegajosas de sangue, mas seu toque era frio como gelo.

Bran A manhã chegara límpida e fria, com uma aspereza que sugeria o fim do verão. Partiram ao nascer do dia para ir ver a decapitação de um homem, vinte ao todo, e Bran cavalgava com os outros, nervoso e excitado. Fora a primeira vez que se considerara que ele tinha idade suficiente para ir com o senhor seu pai e os irmãos ver fazer-se a justiça do rei. Era o nono ano de verão, e o sétimo da vida de Bran. O homem tinha sido capturado no exterior de um pequeno povoado nos montes. Robb pensava que se tratava de um selvagem, com a espada a serviço de Mance Rayder, o Reipara-lá-da-Muralha. Pensar nisso fazia a pele de Bran formigar. Lembrava-se das histórias que a Velha Ama lhes contava à lareira. Os selvagens eram homens cruéis, dizia, escravagistas, assassinos e ladrões. Faziam amizade com gigantes e vampiros, raptavam meninas pela calada da noite e bebiam sangue por cornos polidos. E suas mulheres deitavam-se com os Outros durante a Longa Noite e geravam terríveis crianças meio humanas. Mas o homem que encontraram amarrado pelos pés e mãos ao muro do povoado, à espera da justiça real, era velho e descarnado, não muito mais alto do que Robb. Perdera ambas as orelhas e um dedo, queimados pelo frio, e vestia-se


todo de negro como um irmão da Patrulha da Noite, não estivessem as peles esfarrapadas e besuntadas de gordura. As respirações de homens e cavalos misturavam-se em nuvens de vapor no ar frio da manhã quando o senhor seu pai ordenou que cortassem as cordas que prendiam o homem ao muro e o arrastassem até junto do grupo. Robb e Jon sentavam-se, altos e imóveis sobre os cavalos, com Bran entre eles, no seu pônei, tentando parecer ter mais do que os seus sete anos, e fingindo que já assistira antes a tudo aquilo. Um vento tênue soprava através do portão do povoado. Sobre suas cabeças agitava-se o estandarte dos Stark de Winterfell: um lobo gigante cinzento correndo por um campo branco de gelo. O pai de Bran sentava-se solenemente sobre o cavalo, com longos cabelos castanhos a ondular ao vento. A barba bem aparada estava salpicada de branco, fazendo-o parecer mais velho do que os seus trinta e cinco anos. Hoje tinha uma sombra severa sobre os olhos cinzentos, e parecia bem diferente do homem que se sentava em frente ao fogo, à noite, e falava suavemente da era dos heróis e das crianças da floresta. Tirara a cara de pai, pensou Bran, e colocara a de Lorde Stark de Winterfell. Houve questões que foram postas e suas respostas dadas ali, ao frio da manhã, mas, mais tarde, Bran não recordaria muito do que fora dito. Por fim, o senhor seu pai deu uma ordem, e dois dos seus guardas arrastaram o homem esfarrapado até o toco de pau-ferro no centro da praça. Empurraram-lhe a cabeça à força contra a madeira dura e negra. Lorde Eddard Stark desmontou, e seu protegido, Theon Greyjoy, apresentou-lhe a espada. Chamavam Gelo àquela espada. Era larga como uma mão de homem e mais alta ainda do que


Robb. A lâmina era de aço valiriano, forjado com feitiços e escuro como fumo. Nada mantinha o fio como o aço valiriano. O pai de Bran descalçou as luvas e as entregou a Jory Cassei, o capitão da guarda de sua casa. Pegou Gelo com ambas as mãos e disse: - Em nome de Robert da Casa Baratheon, o Primeiro do seu Nome, rei dos Ândalos e dos Roinares e dos Primeiros Homens, Senhor dos Sete Reinos e Protetor do Domínio, pela voz de Eddard da Casa Stark, Senhor de Winterfell e Guardião do Norte, condeno-o à morte -e ergueu a espada bem alto sobre a cabeça. O irmão bastardo de Bran, Jon Snow, aproximou-se. - Mantenha rédea curta sobre o pônei - sussurrou. - E não afaste os olhos. O pai saberá se assim fizer. Bran manteve rédea curta sobre o pônei e não afastou os olhos. Seu pai cortou a cabeça do homem com um único golpe, dado com segurança. O sangue borrifou a neve, tão vermelho como vinho de verão, Um dos cavalos empinou-se e teve de ser segurado para que não fugisse. Bran não conseguia tirar os olhos do sangue. A neve que rodeava o poste bebia-o com sofreguidão, ficando cada vez mais vermelha enquanto ele observava. A cabeça bateu numa raiz grossa e rolou. Parou perto dos pés de Greyjoy. Theon era um jovem esguio e escuro de dezenove anos que achava tudo divertido. Soltou uma gargalhada, pôs a bota sobre a cabeça e deu-lhe um pontapé. - Cretino - resmungou Jon, suficientemente baixo para que Greyjoy não ouvisse. Pôs uma mão no ombro de Bran, que olhava o irmão bastardo. - Esteve bem - disse-lhe Jon solenemente. Jon tinha catorze anos, já era experiente na justiça.


O tempo parecia mais frio durante a longa viagem de regresso a Winterfell, embora o vento tivesse caído e o sol estivesse mais alto no céu. Bran cavalgava junto aos irmãos, bem adiantados em relação ao resto dos cavaleiros, com o pônei esforçando-se ao máximo para acompanhar o ritmo dos outros cavalos. - O desertor morreu com bravura - disse Robb. Era grande e largo e crescia dia a dia, com as cores da mãe, a pele clara, os cabelos vermelho-acastanhados e os olhos azuis dos Tully de Correrrio. - Tinha coragem, pelo menos. - Não - disse Jon Snow calmamente. - Não era coragem. Este estava morto de medo. Podia--se ver em seus olhos, Stark - os de Jon eram de um cinzento tão escuro que pareciam quase negros, mas pouco havia que não vissem. Tinha a mesma idade que Robb, mas os dois não eram parecidos. Jon era esguio e escuro, enquanto Robb era musculoso e claro; este era gracioso e ligeiro; seu meio-irmão, forte e rápido. Robb não estava impressionado. - Que os Outros levem seus olhos - praguejou. - Ele morreu bem. Fazemos uma corrida até a ponte? - Fazemos - disse Jon, impulsionando o cavalo em frente. Robb praguejou e seguiu-o, e galoparam pela trilha afora, com Robb aos gritos e assobios, e Jon silencioso e concentrado. Os cascos dos cavalos levantavam nuvens de neve por onde passavam. Bran não tentou segui-los. Seu pônei não era capaz de acompanhá-los. Vira os olhos do homem esfarrapado, e estava agora pensando neles. Após algum tempo, o som das gargalhadas de Robb atenuou-se e os bosques ficaram silenciosos novamente.


Estava tão embrenhado nos seus pensamentos que não ouviu o resto do grupo, até que seu pai pôs o cavalo a par com sua montaria. - Está bem, Bran? - perguntou, não sem simpatia. - Sim, pai - disse Bran. Olhou para cima. Envolto em peles e couros, montado no grande cavalo de guerra, o senhor seu pai pairava acima de si como um gigante. - Robb diz que o homem morreu bravamente, mas Jon disse que ele tinha medo. - E o que pensa você? - perguntou-lhe o pai. Bran refletiu sobre o assunto. - Pode um homem continuar a ser valente se tiver medo? - Esta é a única maneira de um homem ser valente - seu pai respondeu. - Compreende por que o fiz? - Ele era um selvagem - disse Bran. - Eles roubam mulheres e vendem-nas aos Outros. Seu pai sorriu. - A Velha Ama tem andado outra vez a lhe contar histórias. Na verdade, o homem era um insurreto, um desertor da Patrulha da Noite. Ninguém pode ser mais perigoso. O desertor sabe que sua vida está perdida se for capturado, e por isso não vacilará perante nenhum crime, por mais vil que seja. Mas você não me compreendeu bem. A pergunta não era sobre o motivo por que o homem tinha de morrer, mas sim por que eu tive de fazê-lo. Bran não tinha resposta para aquilo. - O rei Robert tem um carrasco - respondeu, em tom incerto. - Tem - admitiu o pai. - E os reis Targaryen também tiveram antes dele. Mas o nosso costume é o mais antigo. O sangue dos Primeiros Homens ainda corre nas veias dos Stark, e mantemos a crença de que o homem que dita a sentença deve manejar a espada. Se tirar a vida de um homem, deve olhá-lo


nos olhos e ouvir suas últimas palavras. E se não conseguir suportar fazê-lo, então talvez o homem não mereça morrer. Um dia, Bran, será vassalo de Robb, mantendo um domínio seu para o seu irmão e o seu rei, e a justiça caberá a você. Quando esse dia chegar, não deve ter nenhum prazer na tarefa, mas tampouco deverá desviar os olhos. Um governante que se esconde atrás de executores pagos depressa se esquece do que é a morte. Foi então que Jon reapareceu sobre o cume da colina à frente do grupo. Acenou e gritou-lhes: - Pai, Bran, venham depressa ver o que Robb encontrou! - e depois voltou a desaparecer. Jory pôs-se ao lado de Bran e do pai. - Problemas, senhor? - Sem nenhuma dúvida - disse o senhor seu pai. - Vamos, vamos ver que velhacaria desenterraram agora os meus filhos - pôs o cavalo a trote. Jory, Bran e o resto do grupo seguiramno. Encontraram Robb na margem do rio, ao norte da ponte, com Jon ainda montado ao seu lado. As neves do fim do verão tinham sido pesadas naquela volta da lua. Robb estava enterrado em branco até os joelhos, com o capuz atirado para trás, e o sol brilhava nos seus cabelos. Aconchegava alguma coisa no braço enquanto os rapazes conversavam em vozes excitadas, mas baixas. Os cavaleiros escolheram o caminho com cuidado através dos detritos empilhados pelo rio, tateando em busca de apoio sólido no terreno escondido e irregular. Jory Cassel e Theon Greyjoy foram os primeiros a chegar perto dos rapazes. Greyjoy ria e gracejava enquanto se aproximava. Bran ouviu o fôlego sair-lhe do peito.


- Deuses! - exclamou, lutando por manter o controle do cavalo enquanto levava a mão à espada. A espada de Jory já estava na mão. - Robb, afaste-se disso! - gritou, enquanto o cavalo empinava entre suas pernas. Robb sorriu e ergueu o olhar do volume que tinha nos braços. - Ela não lhe pode fazer mal - disse. - Está morta, Jory. Por aquela altura, Bran já ardia de curiosidade. Teria esporeado o pônei para avançar mais depressa, mas o pai os fez desmontar junto à ponte e aproximar-se a pé. Bran saltou do animal e correu. Também Jon, Jory e Theon Greyjoy já tinham desmontado. - O que, pelos sete infernos, é isso? - disse Greyjoy. - Uma loba - disse Robb. - Uma aberração - disse Greyjoy. - Olha o tamanho da coisa. O coração de Bran martelava-lhe no peito enquanto abria caminho através de uma pilha de detritos que lhe alcançava a cintura, até que chegou ao lado do irmão. Meio enterrada na neve manchada de sangue, uma forma enorme atolava-se na morte. Em sua desgrenhada pelagem cinzenta formara-se gelo, e um tênue cheiro de putrefação impregnava-a como perfume de mulher. Bran viu de relance os olhos cegos repletos de vermes, uma grande boca cheia de dentes amarelados, Mas foi o tamanho da coisa que o fez ficar de boca aberta. Era maior que seu pônei, com o dobro do tamanho do maior cão de caça do canil de seu pai. - Não é aberração nenhuma - disse Jon calmamente. - Isso é uma loba gigante. Eles crescem mais do que os da outra espécie. Theon Greyjoy disse:


- Não é visto nenhum lobo gigante ao sul da Muralha há duzentos anos. - Vejo um agora - respondeu Jon. Bran desviou os olhos do monstro. Foi então que reparou no fardo que estava nos braços de Robb. Soltou um grito de deleite e aproximou-se. O filhote era uma minúscula bola de pelo cinza-escuro, ainda com os olhos fechados. Batia cegamente com o focinho contra o peito de Robb, procurando leite nos couros que o cobriam, soltando um pequeno som lamentoso e triste, Bran estendeu uma mão hesitante. - Vá lá - disse-lhe Robb, - Pode tocá-lo, Bran fez um afago rápido e nervoso no filhote e depois se virou quando Jon disse: - Ora, veja aqui - seu meio-irmão pôs um segundo filhote nos seus braços. - Há cinco ao todo - Bran sentou-se na neve e abraçou a cria de lobo, encostando-a ao rosto. O pelo do animal era suave e morno. - Lobos gigantes à solta no reino depois de tantos anos murmurou Hullen, o mestre dos cavalos. - Não me agrada. - É um sinal - disse Jory. O pai franziu a sobrancelha. - Isto é só um animal morto, Jory - disse, apesar de parecer perturbado. A neve rangia sob seus pés enquanto passeava ao redor do corpo. - Sabemos o que a matou? - Há qualquer coisa na garganta - disse Robb, orgulhoso de ter encontrado a resposta mesmo antes de o pai ter perguntado. - Ali, por baixo da mandíbula. O pai ajoelhou-se e tateou sob a cabeça do animal. Deu um puxão e ergueu a coisa para que todos a vissem. Trinta centímetros de um chifre estilhaçado de veado, com as pontas partidas, todo vermelho de sangue. Um silêncio súbito caiu


sobre o grupo. Os homens olharam inquietos para o corno, mas ninguém se atreveu a falar. Mesmo Bran pressentia seu medo, embora não compreendesse. O pai atirou o chifre para o lado e limpou as mãos na neve. - Surpreende-me que ela tenha vivido tempo suficiente para parir - disse, e sua voz quebrou o encantamento. - Talvez não tenha - disse Jory. - Ouvi histórias... talvez a loba já estivesse morta quando os filhotes chegaram. - Nascidos com os mortos - interveio outro homem. - Pior sorte. - Não importa - disse Hullen. - Não tarda e estarão mortos também. Bran soltou um grito inarticulado de desalento. - Quanto mais depressa, melhor - concordou Theon Greyjoy e puxou a espada. - Dê-me o animal, Bran. A criaturinha enroscou-se nele, como se tivesse ouvido e compreendido. - Não! - gritou Bran ferozmente. - É meu. - Guarda a espada, Greyjoy - disse Robb, que por um momento soou tão autoritário como o pai, como o senhor que viria a ser um dia. - Vamos ficar com esses filhotes. - Não pode fazer isso, rapaz - disse Harwin, que era filho de Hullen. - Será misericordioso matá-los - disse Hullen. Bran olhou o senhor seu pai em busca de salvação, mas só recebeu um franzir de cenho, uma testa cheia de sulcos. - Hullen fala a verdade, filho. É melhor uma morte rápida do que uma lenta, de frio e de fome. - Não! - sentia que lágrimas lhe brotavam dos olhos e afastouse. Não queria chorar na frente do pai. Robb resistia com teimosia.


- A cadela vermelha de Sor Rodrik pariu de novo na semana passada - disse. - Foi uma ninhada pequena, só com dois cachorros vivos. Ela terá leite suficiente. - Ela os despedaçará quando tentarem mamar. - Lorde Stark - disse Jon. Era estranho ouvi-lo chamar o pai assim, de modo tão formal. Bran olhou-o com uma esperança desesperada. - Há cinco crias. Três machos e duas fêmeas. - E então, Jon? - O senhor tem cinco filhos legítimos - disse Jon. - Três filhos e duas filhas. O lobo gigante é o selo da vossa Casa. Os vossos filhos estão destinados a ficar com essa ninhada, senhor. Bran viu o rosto do pai mudar e os outros homens trocarem olhares. Naquele momento, amou Jon de todo o coração. Mesmo com seus sete anos, Bran compreendeu o que o irmão fizera. A conta estava certa apenas porque Jon se omitira. Incluíra as moças e até Rickon, o bebê, mas não o bastardo que usava o apelido Snow, o nome que, pelo costume, devia ser dado a todos aqueles que, no Norte, eram suficientemente infelizes para não possuir um nome seu. O pai também o compreendera. - Não quer uma cria para você, Jon? - perguntou brandamente. - O lobo gigante honra os estandartes da Casa Stark - Jon retrucou. - Eu não sou um Stark, pai. O senhor seu pai o olhou, pensativo. Robb apressou-se a preencher o silêncio que ele deixara. - Cuidarei eu próprio dele, pai - prometeu. - Embeberei uma toalha em leite morno e assim lhe darei de mamar. - Eu também! - disse Bran num eco. O senhor avaliou os filhos longa e cuidadosamente com os olhos.


- É fácil dizer, mas é difícil fazer. Não quero vê-los desperdiçando com isto o tempo dos criados. Se querem esses filhotes, vocês os alimentarão. Entendido? Bran acenou com ardor. O animal contorceu-se nos seus braços e lambeu-lhe o rosto com uma língua morna. - Devem treiná-los também - disse-lhes o pai. - Devem ensinálos. O mestre do canil não vai querer ter nada a ver com esses monstros, garanto a vocês. E que os deuses os protejam se negligenciarem, maltratarem ou treinarem mal esses animais. Esses não são cães que peçam festas ou se esquivem a um pontapé. Um lobo gigante é capaz de arrancar o braço de um homem com tanta facilidade como um cão mata uma ratazana. Têm certeza de que querem isto? - Sim, pai - disse Bran. - Sim - concordou Robb. - Os filhotes podem morrer de qualquer modo, apesar de tudo o que fizerem. - Eles não morrerão - disse Robb. - Não deixaremos que morram. - Fiquem então com eles, Jory, Desmond, recolham os demais. É tempo de regressarmos a Winterfell. Foi só depois de terem montado e de se terem posto a caminho que Bran se permitiu saborear o doce ar da vitória. Nessa altura, seu filhote estava aconchegado entre seus couros, quente contra seu corpo, a salvo durante a longa viagem para casa. Bran perguntava-se como haveria de chamá-lo. No meio da ponte, Jon puxou subitamente as rédeas. - Que se passa, Jon? - perguntou o senhor seu pai. - O senhor não ouviu?


Bran ouvia o vento nas árvores, o ruído dos cascos nas tábuas de pau-ferro, os lamentos da cria faminta, mas Jon escutava outra coisa. - Ali - disse Jon. Fez o cavalo dar meia-volta e galopou pela ponte, pelo caminho por onde viera. Viram-no desmontar onde a loba gigante jazia morta na neve e ajoelhar-se. Um momento mais tarde, cavalgava de regresso, sorrindo. - Deve ter se afastado dos outros - ele disse. - Ou sido afastado - disse o pai, olhando a sexta cria. A pelagem desta era branca, enquanto a do resto da ninhada era cinzenta. Seus olhos eram tão vermelhos como o sangue do homem esfarrapado que morrera naquela manhã. Bran achou curioso que só aquele cachorro tivesse aberto os olhos, enquanto os outros ainda estavam cegos. - Um albino - disse Theon Greyjoy com um perverso divertimento. - Este ainda vai morrer mais depressa do que os outros. Jon Snow deitou sobre o protegido de seu pai um olhar longo e gelado. - Penso que não, Greyjoy - disse. - Este me pertence.

Catelyn Catelyn nunca gostara daquele bosque sagrado. Nascera entre os Tully, em Correrrio, mais ao Sul, nas margens do Ramo Vermelho do Tridente. O bosque sagrado que lá havia era um jardim, luminoso e arejado, onde grandes árvores de pau-brasil espalhavam sombras sarapintadas por córregos que rumorejavam entre as margens, aves cantavam em ninhos escondidos e o ar era perfumado pelo odor de flores.


Os deuses de Winterfell mantinham um tipo diferente de bosque. Era um lugar escuro e primordial, três acres de floresta antiga, intocada ao longo de dez mil anos, enquanto o castelo se levantava a toda sua volta. Cheirava a terra úmida e a decomposição. Ali não crescia o pau-brasil. Aquele era um bosque de obstinadas árvores sentinelas, revestidas de agulhas cinza-esverdeadas, de poderosos carvalhos, de árvores de pau-ferro tão velhas como o próprio reino. Ali, espessos troncos negros enroscavam-se uns aos outros, enquanto ramos retorcidos teciam um denso dossel elevado e raízes deformadas batalhavam sob o solo. Aquele era um lugar de profundo silêncio e sombras meditativas, e os deuses que ali viviam não tinham nomes. Mas ela sabia que naquela noite encontraria ali seu marido. Sempre que ele tirava a vida de um homem, procurava depois o sossego do bosque sagrado. Catelyn fora ungida com os sete óleos e fora-lhe dado o nome no arco-íris de luz que enchia o septo de Correrrio. Pertencia à Fé, tal como o pai e o avô, e o pai deste antes dele. Seus deuses possuíam nomes, e seus rostos eram-lhe tão familiares como os de seus pais. O serviço religioso era um septão com um turíbulo, o cheiro do incenso, um cristal de sete lados animado com luz, vozes erguidas em canto. Os Tully mantinham um bosque sagrado, como todas as grandes casas, mas era apenas um lugar para passear, ler ou ficar deitado ao sol. A prece pertencia ao septo. Por ela, Ned tinha construído um pequeno septo onde podia cantar às sete caras de deus, mas o sangue dos Primeiros Homens ainda corria nas veias dos Stark, e seus deuses eram os antigos, os deuses sem nome nem rosto da mata verde que partilhavam com os filhos desaparecidos da floresta.


No centro do bosque, um antigo represeiro reinava pensativo sobre uma pequena lagoa onde as águas eram negras e frias. Ned chamava-lhe "a árvore-coração". A casca do represeiro era branca como osso e suas folhas, vermelhas como um milhar de mãos manchadas de sangue. Uma cara tinha sido esculpida no tronco da grande árvore, de traços compridos e melancólicos, com os olhos profundamente escavados, vermelhos de seiva seca e estranhamente vigilantes. Aqueles olhos eram velhos; mais velhos do que a própria Winterfell. Se as lendas falavam a verdade, tinham visto Brandon, o Construtor, assentar a primeira pedra; tinham visto as muralhas de granito do castelo crescer à sua volta. Dizia-se que os filhos da floresta tinham esculpido as caras nas árvores durante os séculos de alvorada, antes da chegada dos Primeiros Homens, vindos do mar estreito. No sul, os últimos represeiros tinham sido derrubados ou queimados havia mil anos, exceto na Ilha das Caras, onde os homens verdes mantinham sua vigilância silenciosa e as coisas eram diferentes. Aqui cada castelo possuía seu bosque sagrado, e cada bosque sagrado tinha sua árvore--coração, e cada árvore-coração, seu rosto. Catelyn encontrou o marido sob o represeiro, sentado numa pedra coberta de musgo. Tinha Gelo, a espada, pousada sobre as coxas, e limpava-lhe a lâmina naquelas águas, negras como a noite. Mil anos de húmus jaziam numa grossa camada no solo do bosque sagrado, engolindo o som dos pés da mulher, mas os olhos vermelhos do represeiro pareciam segui-la enquanto se aproximava. - Ned - ela chamou, com suavidade. Ele ergueu a cabeça para olhá-la. - Catelyn - disse. Sua voz era distante e formal. - Onde estão as crianças? Ele sempre lhe perguntava aquilo.


- Na cozinha, discutindo nomes para as crias de lobo - ela estendeu o manto sobre o chão da floresta e sentou-se junto à lagoa, de costas voltadas para o represeiro. Podia sentir os olhos a observá-la, mas fez o melhor que pôde para ignorá-los. - Arya já está apaixonada, e Sansa, enfeitiçada e apiedada, mas Rickon não está muito seguro. - Tem medo? - Ned perguntou. - Um pouco - admitiu ela. - Só tem três anos. Ned franziu as sobrancelhas. - Ele tem de aprender a enfrentar seus medos. Não terá três anos para sempre. E o inverno está para chegar. - Sim - concordou Catelyn. As palavras provocaram-lhe um arrepio, como sempre. As palavras Stark. Todas as casas nobres tinham as suas palavras. Lemas de família, pedras de toque, espécies de orações, que alardeavam honra e glória, prometiam lealdade e verdade, juravam fé e coragem. Todas, menos a dos Stark. O inverno está para chegar, diziam as palavras Stark. Refletiu sobre como aqueles nortenhos eram um povo estranho, e já não era a primeira vez que o fazia. - O homem morreu bem, posso lhe assegurar - disse Ned. Tinha na mão um bocado de couro oleado com o qual fazia percorrer com leveza a espada enquanto falava, polindo o metal até soltar um brilho escuro. - Fiquei contente por causa de Bran. Teria ficado orgulhosa dele. - Estou sempre orgulhosa de Bran - Catelyn respondeu, observando a espada enquanto ele a esfregava. Conseguia ver as ondulações profundas do aço, onde o metal fora dobrado sobre si próprio cem vezes durante a forja. Catelyn não sentia qualquer amor por espadas, mas não podia negar que Gelo possuía sua beleza. Tinha sido forjada em Valíria antes de a destruição ter caído sobre a antiga cidade franca, quando os


ferreiros trabalhavam seus metais tanto com feitiços como com martelos. Tinha já quatrocentos anos, e era tão aguçada como no dia em que fora forjada. O nome que ostentava era ainda mais antigo, um legado da era dos heróis, quando os Stark eram reis no Norte. - Foi o quarto este ano - disse Ned sombriamente. - O pobre homem estava meio louco. Algo lhe incutiu um medo tão profundo que minhas palavras não o alcançaram - suspirou. Ben escreveu-me dizendo que a força da Patrulha da Noite já não tem mil homens. Não são só deserções. Tem também perdido homens nas patrulhas. - São os selvagens? - ela perguntou. - Quem mais poderia ser? - Ned ergueu Gelo e observou o aço frio ao longo de todo seu comprimento. - E só vai piorar. Pode chegar o dia em que eu não tenha escolha a não ser reunir os vassalos e marchar para o norte a fim de lidar de uma vez por todas com esse Rei-para-lá-da-Muralha. - Para lá da Muralha? - a idéia fez Catelyn estremecer. Ned viu o terror no seu rosto. - Mance Rayder não é nada que devamos temer. - Há coisas mais escuras para lá da Muralha - ela olhou de relance a árvore-coração às suas costas, a casca clara e os olhos vermelhos, observando, escutando, pensando seus longos e lentos pensamentos. O sorriso dele era gentil. - Você ouve em demasia as histórias da Velha Ama. Os Outros estão tão mortos como os filhos da floresta, desaparecidos há oito mil anos. Meistre Luwin lhe diria que nunca sequer chegaram a estar vivos. Nenhum homem vivo alguma vez viu um.


- Até hoje de manhã, nenhum homem vivo tinha visto um lobo gigante - recordou Catelyn. - Já devia saber que não se pode discutir com uma Tully - ele disse com um sorriso triste e devolveu Gelo à sua bainha. Não veio até aqui me contar histórias de embalar. Sei bem como gosta pouco deste lugar. Que se passa, minha senhora? Catelyn tomou nas suas a mão do marido. - Hoje chegaram dolorosas novas, meu senhor. Não quis incomodá-lo até se ter purificado - não havia maneira de suavizar o golpe, e ela o disse sem rodeios. - Lamento tanto, meu amor. Jon Arryn está morto. Os olhos dele encontraram os dela, e Catelyn viu como lhe custou, como sabia que custaria. Na juventude, Ned tinha sido acolhido no Ninho da Águia, e Lorde Arryn, que não tinha filhos seus, tinha se tornado um segundo pai para ele e para o seu outro protegido, Robert Baratheon. Quando o Rei Aerys n Targaryen, o Louco, exigira suas cabeças, o Senhor do Ninho da Águia erguera em revolta os seus estandartes da lua e do falcão em vez de entregar aqueles que jurara proteger. E um dia, há quinze anos, seu segundo pai tinha se transformado também num irmão, quando ele e Ned se juntaram no septo de Correrrio para desposar duas irmãs, as filhas de Lorde Hoster Tully, -Jon... - Ned disse. - Esta notícia é segura? - Trazia o selo do rei, e a carta vinha escrita na caligrafia do próprio Robert. Guardei-a para você. Diz que Lorde Arryn partiu depressa. Nem Meistre Pycelle pôde fazer alguma coisa, mas trouxe o leite da papoula, para que Jon não ficasse por muito tempo em sofrimento. - Isto foi uma pequena misericórdia, suponho - ele disse. Catelyn via o pesar em seu rosto, mas mesmo nesse momento


seu primeiro pensamento era-lhe dedicado. - A sua irmã disse Ned. - E o filho de Jon. Que notícias há deles? - A mensagem dizia apenas que estavam bem e que tinham regressado ao Ninho da Águia - ela respondeu. - Eu preferia que tivessem ido para Correrrio. O Ninho da Águia é um lugar alto e solitário, e sempre foi o lugar de Jon, não deles. A memória de Lorde Jon assombrará cada pedra. Conheço minha irmã. Ela precisa do conforto da família e dos amigos ao seu redor. - Seu tio espera no Vale, não é verdade? Ouvi dizer que Jon o nomeou Cavaleiro do Portão. Catelyn anuiu com a cabeça. - Brynden fará por ela e pelo rapaz o que puder. E algum conforto, mas mesmo assim... - Vá ter com ela - Ned tentou animá-la. - Leva as crianças. Encha aqueles salões de ruído, gritos e risos. Aquele rapaz precisa de outras crianças a sua volta, e Lysa não deve ficar só na sua dor. - Gostaria de poder fazer isso - disse Catelyn. - A carta trazia outras notícias. O rei viaja para Winterfell à sua procura. Ned precisou de um momento para ver o sentido daquelas palavras, mas, quando as compreendeu, a escuridão abandonou seus olhos. - Robert vem para cá? - quando ela anuiu, um sorriso abriu-se no seu rosto. Catelyn desejou poder compartilhar da alegria do marido. Mas ouvira o que se dizia pelos pátios; um lobo gigante morto na neve, com um chifre partido na garganta. O terror retorcia-se no seu interior como uma serpente, mas forçou-se a sorrir para aquele homem que amava, aquele homem que não punha fé alguma nos sinais.


- Sabia que te agradaria - disse. - Deveríamos enviar uma mensagem ao seu irmão, na Muralha. - Sim, claro - ele concordou. - Ben vai querer estar aqui. Direi a Meistre Luwin para enviar sua ave mais rápida - Ned ergueu-se e ajudou a esposa a pôr-se em pé. - Demônios, quantos anos já se passaram? E não nos dá mais notícias do que estas? A mensagem dizia quantos homens traz na comitiva? - Penso que um cento de cavaleiros, pelo menos, com todos os seus servidores, e vez e meia este número de cavaleiros livres. Cersei e as crianças viajam com eles. - Robert virá em passo moderado por causa delas - disse Ned. - Ainda bem. Teremos mais tempo para nos preparar. - Os irmãos da rainha também vêm na comitiva - ela completou. Ao ouvir aquilo, Ned fez um trejeito. Catelyn sabia que pouca simpatia havia entre ele e a família da rainha. Os Lannister de Rochedo Casterly tinham chegado tarde à causa de Robert, quando a vitória era praticamente certa, e ele nunca os perdoara por isso. - Bem, se o preço a pagar pela companhia de Robert é uma infestação de Lannister, que seja. Parece que Robert traz metade da corte. - Aonde o rei vai, o reino segue - ela respondeu. - Será bom ver as crianças. O mais novo ainda mamava da teta da Lannister da última vez que o vi. Agora deve ter o quê? Cinco anos? - O Príncipe Tommen tem sete anos. A mesma idade de Bran. Por favor, Ned, tenha tento na língua. Lannister é nossa rainha, e diz-se que seu orgulho cresce a cada ano que passa. Ned apertou-lhe a mão.


- Terá de haver um festim, bem-composto, com cantores, e Robert vai querer caçar. Enviarei Jory para o sul com uma guarda de honra ao seu encontro, a fim de escoltá-los no caminho até aqui pela estrada do rei. Deuses, como iremos alimentar a todos? Maldito seja o homem. Maldito seja o seu real couro.

Daenerys O irmão ergueu o vestido para que ela o inspecionasse. - Isto é uma beleza! Toque-o. Vamos. Acaricie o tecido, Dany o tocou. O tecido era tão macio que parecia correr-lhe pelos dedos como água. Não conseguia se lembrar de alguma vez ter usado algo tão suave. Assustou-se. Afastou a mão. - É mesmo meu? - Um presente de Magíster Illyrio - disse Viserys, sorrindo. Seu irmão estava de bom humor naquela noite. - A cor realçará o violeta dos seus olhos. E você também terá ouro e jóias de todos os tipos. Illyrio prometeu, Esta noite deve se parecer uma princesa. Uma princesa, pensou Dany. Já se esquecera de como aquilo era. Talvez nunca tivesse realmente sabido. - Por que ele nos dá tanto? - ela perguntou. - O que quer de nós? - há quase meio ano que viviam na casa do magíster, comiam da sua comida, eram paparicados pelos seus criados. Dany tinha treze anos, idade suficiente para saber que tais presentes raramente vêm sem preço ali, na cidade livre de Pentos. - Illyrio não é nenhum tolo - Viserys respondeu. Era um jovem magro com mãos nervosas e um ar febril nos olhos de


um tom claro de lilás. - O magíster sabe que não esquecerei os amigos quando subir ao trono. Dany não disse nada. Magíster Illyrio era um comerciante de especiarias, pedras preciosas, ossos de dragão e outras coisas menos palatáveis. Tinha amigos em todas as Nove Cidades Livres, dizia-se, e mesmo para lá delas, em Vaes Dothrak e nas terras das fábulas junto ao Mar de Jade. Também se dizia que nunca tinha tido um amigo que não fosse capaz de vender alegremente pelo preço justo. Dany escutava o falatório nas ruas e ouvia essas coisas, mas também sabia que era melhor não questionar o irmão enquanto tecia suas teias de sonho. Quando era despertada, a ira de Viserys era algo terrível. Ele a chamava "o acordar do dragão". O irmão pendurou o vestido ao lado da porta. - Illyrio enviará as escravas para lhe darem banho. Assegurese de se livrar do fedor dos estábulos. Khal Drogo tem mil cavalos e hoje vem à procura de um tipo diferente de montaria - estudou-a criticamente. - Ainda tem as costas tortas. Endireite-se - pôs-lhe as mãos nos ombros e puxou-os para trás. - Deixe-os ver que tem agora a forma de uma mulher - os dedos do irmão roçaram levemente seus seios em botão e apertaram num mamilo. - Não me falhará esta noite. Senão, será mau para você. Não quer acordar o dragão, quer? - os dedos torceram-se, um beliscão cruel e duro através do tecido grosseiro da túnica. - Quer? - ele repetiu. - Não - respondeu Dany docilmente. O irmão sorriu. - Ótimo - tocou-lhe os cabelos, quase com afeição. - Quando escreverem a história do meu reinado, minha doce irmã, dirão que começou esta noite. Quando ele saiu, Dany foi até a janela e olhou, melancólica, as águas da baía. As torres quadradas de tijolo de Pentos


eram silhuetas negras delineadas contra o sol poente. Ela conseguia ouvir os sacerdotes vermelhos cantando, enquanto acendiam as piras noturnas, e os gritos de crianças esfarrapadas que jogavam para lá dos muros da propriedade. Por um momento desejou poder estar lá fora com elas, de pés nus, sem fôlego e vestida de farrapos, sem passado nem futuro, sem banquete para ir na mansão de Khal Drogo. Em algum lugar para lá do pôr do sol, do outro lado do estreito mar, havia uma terra de colinas verdes e planícies cobertas de flores e grandes rios caudalosos, onde torres de pedra negra se erguiam por entre magníficas montanhas azulacinzentadas e cavaleiros de armadura cavalgavam para a batalha sob os estandartes dos seus senhores. Os dothrakis chamavam a essa terra Rhaesb Andahli, a terra dos ândalos. Nas Cidades Livres, falavam de Westeros e dos Reinos do Poente. O irmão tinha um nome mais simples. Chamava-lhe "nossa terra". Para ele, as palavras eram como uma prece, Se as dissesse o número de vezes suficientes, os deuses certamente ouviriam. "É nosso direito de sangue, usurpado por meios traiçoeiros. Não se rouba um dragão, ah, não. O dragão se lembra." E o dragão talvez recordasse mesmo, mas Dany não. Nunca vira aquela terra que o irmão dizia que lhes pertencia, este domínio para lá do estreito mar. Aqueles lugares de que falava, Rochedo Casterly e o Ninho da Águia, Jardim de Cima e o Vale de Arryn, Dorne e a Ilha das Caras, para ela eram apenas palavras. Viserys era um rapaz de oito anos quando fugiram de Porto Real para escapar ao avanço dos exércitos do Usurpador, mas Daenerys não passava de uma partícula de vida no ventre da mãe. Mesmo assim, por vezes, Dany conseguia visualizar os acontecimentos, tantas tinham sido as ocasiões em que ouvira


o irmão contar as histórias. A fuga no meio da noite para a Pedra do Dragão, com o luar cintilando nas velas negras do navio. Seu irmão, Rhaegar, combatendo o Usurpador nas águas sangrentas do Tridente e morrendo pela mulher que amava. O saque de Porto Real por aqueles a quem Viserys chamava os cães do Usurpador, os senhores Lannister e Stark. A princesa Elia de Dorne suplicando misericórdia quando o herdeiro de Rhaegar lhe fora arrancado do seio e assassinado perante seus olhos. Os crânios polidos dos últimos dragões a olhar sem ver do alto das paredes da sala do trono quando o Regicida abrira a garganta do Pai com uma espada dourada. Nascera em Pedra do Dragão quatro luas depois da fuga, durante a fúria de uma tempestade de verão que ameaçava destroçar a estabilidade da ilha. Diziam que aquela tempestade tinha sido terrível. A frota Targaryen fora esmagada enquanto estava ancorada e enormes blocos de pedra foram arrancados dos parapeitos e precipitados sobre as águas encapeladas do mar estreito. A mãe morrera ao dá-la à luz, e por este fato o irmão Viserys nunca a perdoara. Tampouco se lembrava de Pedra do Dragão. Tinham fugido de novo, imediatamente antes de o irmão do Usurpador zarpar com sua nova frota. Por essa altura, dos Sete Reinos que tinham pertencido aos seus, apenas Pedra do Dragão restava, a antiga sede de sua Casa. Mas não por muito tempo, A guarnição estava preparada para vendê-los ao Usurpador, mas, uma noite, Sor Willem Darry e quatro homens leais invadiram o quarto das crianças, raptaram-nas e sua ama de leite, e zarparam sob a escuridão da noite em busca da segurança da costa bravosiana. Lembrava-se vagamente de Sor Willem, um homem que mais parecia um grande urso cinzento, meio cego, a rugir e berrar


ordens de sua cama de doente. Os criados tinham vivido aterrorizados por causa dele, que sempre fora bondoso para Dany. Chamava a "pequena princesa" e, por vezes, "minha senhora", e suas mãos eram suaves como couro velho. Mas nunca deixava a cama, e o cheiro da doença impregnava-o de dia e de noite, com um odor quente, úmido, de uma doçura doentia. Nessa altura viviam em Bravos, na casa grande de porta vermelha, Dany tinha seu próprio quarto, com um limoeiro junto à janela. Depois da morte de Sor Willem, os criados roubaram o pouco dinheiro que lhes restava e em breve os irmãos foram postos fora da casa grande, Dany chorara quando a porta vermelha se fechara às suas costas para sempre. Desde então, tinham andado de um lado para outro, de Bravos para Myr, de Myr para Tyrosh e daí para Qohor, Volantis e Lys, sem nunca ficarem muito tempo no mesmo lugar. O irmão não permitia. Insistia que os traidores contratados pelo Usurpador viriam atrás deles, embora Dany nunca tivesse visto nenhum. A princípio, os magísteres, arcontes e príncipes mercadores tinham se sentido felizes por dar as boas-vindas aos últimos Targaryen às suas casas e mesas, mas, à medida que os anos foram passando e o Usurpador continuou sentado no Trono de Ferro, as portas foram se fechando e suas vidas tornaramse mais pobres. Anos antes, tinham se visto forçados a vender os últimos tesouros, e agora, até o dinheiro que tinham obtido pela coroa da mãe desaparecera. Nas vielas e tabernas de Pentos chamavam o irmão de "rei pedinte". Dany não queria saber do que a chamavam. "Um dia teremos tudo de volta, minha doce irmã", prometialhe Viserys. Às vezes as mãos tremiam-lhe quando falava daquilo. "As jóias e as sedas, Pedra do Dragão e Porto Real, o


Trono de Ferro e os Sete Reinos, tudo o que nos roubaram, teremos tudo de volta." Ele vivia para esse dia. Tudo o que Daenerys queria de volta era a grande casa de porta vermelha com o limoeiro em frente à janela do seu quarto, a infância que nunca conhecera. Ouviu-se um suave toque na porta. - Entre - disse Dany, virando as costas à janela. As criadas de Illyrio entraram com reverências e começaram a tratar de suas tarefas. Eram escravas, um presente de um dos muitos amigos dothrakis do magíster. A escravatura não existia na cidade livre de Pentos. E, no entanto, elas eram escravas. A mulher mais velha, pequena e cinzenta como um rato, nunca dizia uma palavra, mas a moça compensava. Era a favorita de Illyrio, uma jovem de dezesseis anos, cabelos claros e olhos azuis, que tagarelava sem cessar enquanto trabalhava. Encheram a banheira com água quente trazida da cozinha e perfumaram-na com óleos odoríferos. A moça puxou a túnica de algodão grosseiro pela cabeça de Dany e a ajudou a entrar na banheira. A água escaldava, mas Daenerys não hesitou nem gritou. Gostava do calor. Fazia-a sentir-se limpa. Além disso, o irmão dissera-lhe com frequência que nunca nada estava quente demais para um Targaryen. "A nossa é a Casa do dragão", dizia. "O fogo está em nosso sangue." A mulher mais velha lavou seus longos cabelos esbranquiçados e removeu suavemente os nós com uma escova, sempre em silêncio. A moça esfregou-lhe as costas e os pés e disse-lhe como tinha sorte. - Drogo é tão rico que até seus escravos usam colares de ouro. Seu khalasar tem cem mil cavaleiros, e seu palácio em Vaes Dothrak, duzentos quartos e portas de prata sólida - e houve mais do mesmo gênero, muito mais; como o khal era um homem bonito, alto e feroz, destemido em batalha, o melhor


cavaleiro que alguma vez montara um cavalo, um arqueiro demoníaco. Daenerys nada disse. Sempre assumira que se casaria com Viserys quando chegasse à idade adulta. Durante séculos, os Targaryen tinham se casado irmão com irmã, desde que Aegon, o Conquistador, tomara as irmãs como noivas, Viserys dissera-lhe mil vezes que a pureza da linhagem devia ser mantida, que o sangue real era deles, o sangue dourado da antiga Valíria, o sangue do dragão. Os dragões não acasalavam com os animais dos campos, e os Targaryen não misturavam seu sangue com o de homens menores. E, no entanto, agora Viserys conspirava para vendê-la a um estranho, a um bárbaro. Quando ficou limpa, as escravas ajudaram-na a sair da água e secaram-na com toalhas. A moça escovou-lhe os cabelos até fazê-los brilhar como prata derretida, enquanto a mulher mais velha a untava com o perfume de flores de especiarias das planícies dothrakianas, um salpico em cada pulso, atrás das orelhas, na ponta dos seios e, por fim, um refrescante, lá embaixo, entre as pernas. Vestiram-lhe a roupa de baixo que Magíster Illyrio lhe enviara e depois o vestido, de seda, com um profundo tom de ameixa para realçar o violeta dos seus olhos. A moça enfiou-lhe as sandálias douradas nos pés enquanto a mulher mais velha lhe fixava a tiara na cabeça e fazia deslizar pulseiras douradas incrustadas de ametistas em seus pulsos. O último adorno foi o colar, um pesado cordão de ouro torcido ornado com antigos glifos valirianos. - Agora, sim, se parece com uma princesa - disse a moça, sem fôlego, quando terminaram. Dany olhou de relance para sua imagem no espelho prateado que Illyrio tão previdentemente lhe fornecera. Uma princesa, pensou, mas lembrou-se do que a moça dissera, de como Khal Drogo era tão rico que até seus


escravos usavam colares de ouro. Sentiu um súbito arrepio percorrer os braços nus. O irmão a esperava na frescura do átrio, sentado na margem da fonte, arrastando a mão pela água. Pôs-se em pé quando ela surgiu e observou-a com olhos críticos. - Venha aqui - disse. - Vire-se. Sim. Ótimo. Você tem um ar... - Real - disse Magíster Illyrio, entrando por uma arcada. Movia-se com uma delicadeza surpreendente para um homem tão corpulento. Sob vestimentas soltas de seda cor de fogo, nuvens de gordura oscilavam enquanto ele caminhava. Pedras preciosas cintilavam em todos os dedos, e seu criado oleara-lhe a barba amarela bifurcada até que brilhasse como ouro verdadeiro. - Que o Senhor da Luz a banhe em bênçãos neste tão afortunado dia, Princesa Daenerys - disse o magíster quando lhe tomou a mão. Inclinou a cabeça, mostrando um fino relance de dentes amarelos e tortos através do dourado da barba. - Ela é uma visão, Vossa Graça, uma visão - exclamou, dirigindo-se a Viserys. - Drogo ficará arrebatado. - É magra demais - disse Viserys. Seus cabelos, do mesmo tom louro-prateado dos dela, tinham sido puxados para trás e bem atados com uma presilha de osso de dragão. Era um visual severo que dava ênfase às linhas duras e magras de seu rosto. Pousou a mão no punho da espada que Illyrio lhe emprestara e disse: - Tem certeza de que Khal Drogo gosta das suas mulheres assim tão novas? - Ela já teve o seu sangue. Tem idade suficiente para o khal respondeu Illyrio, e já não era a primeira vez que dizia aquilo. - Olhe para ela. Aqueles cabelos louro-prateados, aqueles olhos púrpuros... ela é do sangue da antiga Valíria, sem dúvida, sem dúvida... e bem-nascida, filha do antigo rei, irmã


do novo, não é possível que não arrebate nosso Drogo quando Illyrio largou sua mão, Daenerys percebeu que estava tremendo. - Suponho que sim - disse o irmão em tom duvidoso. - Os selvagens têm gostos estranhos. Rapazes, cavalos, ovelhas... - É melhor não sugerir isso a Khal Drogo - disse Illyrio. A ira flamejou nos olhos lilás de Viserys. - Toma-me por tolo? O magíster fez uma ligeira reverencia. - Tomo-o por um rei. Aos reis falta a cautela dos homens vulgares. Minhas desculpas se o ofendi - virou-se e bateu palmas para chamar os carregadores. As ruas de Pentos estavam escuras como breu quando saíram na liteira elaboradamente esculpida de Illyrio. Dois criados iam à frente para alumiar o caminho, transportando ornamentadas lanternas a óleo com vidraças de um vidro azul-claro, e uma dúzia de homens fortes conduziam a liteira aos ombros. O espaço lá dentro, por trás das cortinas, era quente e apertado. Dany conseguia sentir o fedor da carne pálida de Illyrio sob seus pesados perfumes. O irmão, esparramado em almofadas a seu lado, nada notava. Sua mente estava longe, do outro lado do mar estreito. - Não necessitaremos de todo o seu khalasar - disse Viserys. Os dedos brincavam no punho da lâmina emprestada, embora Dany soubesse que ele nunca usara uma espada a sério. - Dez mil serão suficientes, posso varrer os Sete Reinos com dez mil guerreiros dothrakis. O domínio se erguerá em nome do seu rei de direito. Tyrell, Redwyne, Darry, Greyjoy não sentem mais amor pelo Usurpador do que eu. Os homens de Dome ardem pela possibilidade de vingar Elia e os seus filhos. E as pessoas simples estarão conosco. Elas choram pelo seu rei olhou ansioso para Illyrio. - Choram, não é verdade?


- São o vosso povo, e o amam bastante - disse amavelmente Magíster Illyrio. - Em povoados por todo o território, os homens fazem brindes secretos à vossa saúde, enquanto as mulheres cosem estandartes do dragão e os escondem até o dia do vosso regresso do outro lado das águas - encolheu os maciços ombros. - Ou pelo menos é o que me dizem meus agentes. Dany não tinha agentes, nenhuma maneira de saber o que alguém estaria fazendo ou pensando do outro lado do mar estreito, mas desconfiava das palavras doces de Illyrio do mesmo modo que desconfiava de tudo o que dizia respeito a ele. Mas o irmão acenava com ardor. - Matarei eu próprio o Usurpador - prometeu, ele que nunca matara ninguém -, tal como ele matou meu irmão Rhaegar. E também Lannister, o Regicida, pelo que fez ao meu pai. - Isso será muito adequado - disse Magíster Illyrio. Dany viu a minúscula sugestão de sorriso que brincava nos lábios cheios do homem, mas o irmão não reparou em nada. Acenando, ele afastou uma cortina e perdeu o olhar na noite, e Dany soube que estava lutando de novo a Batalha do Tridente. A mansão de nove torres de Khal Drogo erguia-se junto às águas da baía, com hera de tons claros cobrindo seus grandes muros de tijolo. Tinha sido oferecida ao khal pelos magísteres de Pentos, Illyrio lhes disse. As Cidades Livres eram sempre generosas com os senhores dos cavalos. - Não é que temamos esses bárbaros - explicava Illyrio com um sorriso. - O Senhor da Luz poderia defender nossas muralhas contra um milhão de dothrakis, ou pelo menos é isso que prometem os sacerdotes vermelhos... Mas para que correr riscos quando a amizade deles sai tão barata?


A liteira em que seguiam foi parada ao portão e as cortinas, puxadas rudemente para trás por um dos guardas da casa. Possuía a pele acobreada e os olhos escuros e amendoados de um doth-raki, mas tinha o rosto livre de pelos e usava o capacete guarnecido de pontas agudas dos Imaculados. Avaliou-os friamente. Magíster Illyrio rosnou-lhe qualquer coisa no rude idioma dothraki; o guarda respondeu-lhe no mesmo tom e lhes deu passagem com um gesto através dos portões. Dany reparou que a mão do irmão estava cerrada com força no punho de sua espada emprestada. Parecia quase tão assustado como ela se sentia. - Eunuco insolente - murmurou Viserys enquanto a liteira subia aos balanços até a mansão. As palavras de Magíster Illyrio eram mel. - Esta noite estarão muitos homens importantes no banquete. Homens assim têm inimigos. O khal deve proteger seus convidados, vós acima de todos, Vossa Graça. Não há dúvidas de que o Usurpador pagaria bem pela vossa cabeça. - Ah, sim - disse sombriamente Viserys. - Ele tentou, Illyrio, asseguro-lhe. Seus traidores contratados nos seguem para todo o lado. Sou o último dragão, e ele não dormirá descansado enquanto eu viver. A liteira desacelerou e parou. As cortinas foram puxadas e um escravo ofereceu a mão para ajudar Daenerys a sair. Seu colar, reparou ela, era de bronze comum. O irmão a seguiu, com uma das mãos ainda cerrada com força no punho da espada. Foram precisos dois homens fortes para pôr Magíster Illyrio de pé. Dentro da mansão, o ar estava pesado com o cheiro de especiarias, noz-de-fogo, limão-doce e canela. Foram levados através do átrio, onde um mosaico de vidro colorido retratava


a Destruição de Valíria. Óleo ardia em lanternas negras de ferro dispostas ao longo das paredes. Sob uma arcada composta por folhas de pedra interligadas, um eunuco cantou a chegada: - Viserys da Casa Targaryen, o Terceiro de seu Nome - gritou numa voz doce e aguda -, Rei dos Ândalos, dos Roinares e dos Primeiros Homens, Rei dos Sete Reinos e Protetor do Território. Sua irmã, Daenerys, Filha da Tormenta, Princesa de Pedra do Dragão. Seu honorável anfitrião, Illyrio Mopatis, Magíster da Cidade Livre de Pentos. Passaram pelo eunuco e entraram num pátio orlado de pilares cobertos de hera clara. O luar pintava as folhas em tons de osso e prata enquanto os convidados vagueavam por entre elas. Muitos eram senhores dos cavalos dothrakis, grandes homens de pele vermelho-acastanhada, com os bigodes pendentes presos por anéis de metal e os cabelos negros oleados, trançados e atados a campainhas. Mas por entre eles moviam-se sicários e mercenários de Pentos, Myr e Tyrosh, um sacerdote vermelho ainda mais gordo que Illyrio, homens peludos vindos do Porto de Ibben e senhores das Ilhas do Verão com a pele negra como ébano. Daenerys olhou a todos maravilhada... e compreendeu, com um súbito sobressalto de medo, que era a única mulher ali presente. Illyrio sussurrou-lhes: - Aqueles três são os companheiros de sangue de Drogo, ali ele mostrou. - Junto ao pilar está Khal Moro com o filho Rhogoro. O homem de barba verde é irmão do Arconte de Tyrosh, e o homem que está atrás dele é Sor Jorah Mormont. O último nome capturou a atenção de Daenerys. - Um cavaleiro? - Nem mais, nem menos - Illyrio sorriu sob a barba. - Ungido com os sete óleos pelo próprio Alto Septão.


- Que faz ele aqui? - ela perguntou. - O Usurpador quis vê-lo morto - disse-lhes Illyrio. - Uma afrontazinha qualquer. Vendeu alguns caçadores furtivos a um negociante de escravos de Tyrosh em vez de entregá-los à Patrulha da Noite. Uma lei absurda. Um homem deve ser autorizado a fazer o que bem entenda com seus bens. - Quero falar com Sor Jorah antes do fim da noite - disse Viserys. Dany deu por si olhando com curiosidade o cavaleiro. Era um homem velho, com mais de quarenta anos e perdendo cabelo, mas mantinha-se forte e em forma. Em vez de sedas e algodão, trajava lã e couro. Sua túnica era verde-escura, bordada com a imagem de um urso negro em pé sobre duas patas. Ainda observava aquele estranho homem vindo da pátria que nunca conhecera quando Ma-gíster Illyrio colocou a mão úmida em seu ombro nu. - Ali, doce princesa - sussurrou -, está o próprio khal. Dany quis fugir e se esconder, mas o irmão a estava observando, e ela sabia que se lhe desagradasse acordaria o dragão. Ansiosa, virou-se e olhou o homem que Viserys esperava que pedisse para desposá-la antes de a noite acabar. A jovem escrava não se enganara muito, pensou. Khal Drogo era uma cabeça mais alto do que o mais alto dos presentes na sala, mas de certo modo leve de pés, tão gracioso como a pantera que havia na coleção de Illyrio. Era mais novo do que ela pensara, não tinha mais de trinta anos. A pele era da cor de cobre polido, e o espesso bigode estava preso com anéis de ouro e bronze. - Devo ir fazer as minhas apresentações - disse Magíster Illyrio. - Esperem aqui. Eu o trarei até vós.


O irmão tomou-lhe o braço quando Illyrio se dirigiu, bamboleante, até o khal, e seus dedos apertaram-na com tanta força que a machucaram. - Vê a sua trança, querida irmã? A trança de Drogo era negra como a meia-noite, pesada de óleo perfumado e repleta de minúsculas campainhas que tiniam suavemente quando ele se movia. Chegava-lhe bem abaixo do cinto, até mesmo abaixo das nádegas; a ponta roçava-lhe a parte de trás das coxas. - Vê como é longa? - continuou Viserys. - Quando os dothrakis são derrotados em combate, cortam as tranças em desgraça para que o mundo saiba da sua vergonha. Khal Drogo nunca perdeu um combate. É Aegon, o Senhor do Dragão regressado, e você será a sua rainha. Dany olhou Khal Drogo. Seu rosto era duro e cruel, os olhos tão frios e escuros como ônix. O irmão às vezes a magoava, quando acordava o dragão, mas não a assustava como aquele homem. - Não quero ser sua rainha - ouviu sua voz dizer num tom fraco e agudo. - Por favor, por favor, Viserys, não quero. Quero ir para casa. - Para casa? - ele manteve a voz baixa, mas ela conseguia ouvir a fúria na entoação. - Como havemos de ir para casa, minha doce irmã? Eles roubaram nossa casa! - levou-a para as sombras, para fora da vista dos convidados, com os dedos enterrados em sua pele. - Como havemos de ir para casa? repetiu, referindo-se a Porto Real, à Pedra do Dragão e a todo o território que tinham perdido. Dany se referira apenas aos seus quartos na propriedade de Illyrio, que certamente não seria uma casa verdadeira, mas era tudo o que possuíam; no entanto, seu irmão não quis ouvir assim, Ali não havia para ele uma casa. Mesmo a casa


grande com a porta vermelha não tinha sido uma casa para ele. Seus dedos enterravam-se com força no braço dela, exigindo uma resposta. - Não sei... - Dany disse por fim, com a voz perdendo a firmeza. Lágrimas jorraram-lhe dos olhos. - Mas eu sei - disse ele com voz cortante, - Vamos para casa com um exército, minha doce irmã. Com o exército de Khal Drogo, eis como vamos para casa. E se para isso tiver de se casar com ele e com ele dormir, é isto o que fará. - sorriu-lhe. Deixaria que todo o seu khalasar a fodesse se fosse preciso, minha doce irmã, todos os quarenta mil homens e também os seus cavalos, se isto fosse necessário para obter o meu exército. Fique grata que seja só o Drogo. Com o tempo, pode até aprender a gostar dele. Agora seque os olhos. Illyrio o está trazendo para cá, e ele não vai vê-la chorar. Dany virou-se e viu que era verdade. Magíster Illyrio, todo sorrisos e reverências, escoltava Khal Drogo em direção ao lugar onde se encontravam. Afastou com as costas da mão as lágrimas que não tinham saído dos seus olhos. - Sorria - murmurou Viserys nervosamente, com a mão caindo sobre o punho da espada. - E fique ereta. Deixe que ele veja que você tem seios. Bem sabem os deuses que os tem bem pequenos. Daenerys sorriu e se aprumou.

Eddard Os visitantes entraram pelos portões do castelo como um rio de ouro e prata e aço polido, trezentos homens, um esplendor de vassalos e cavaleiros, soldados juramentados e cavaleiros livres. Sobre suas cabeças, uma dúzia de estandartes dourados


abanavam de um lado para outro ao sabor do vento do Norte, adornados com o veado coroado de Baratheon. Ned conhecia muitos dos cavaleiros. Ali vinha Sor Jaime Lannister com os cabelos tão brilhantes como ouro batido, e ali estava Sandor Clegane com a face terrivelmente queimada. O rapaz alto ao seu lado só podia ser o príncipe herdeiro, e aquele homenzinho atrofiado ao lado era certamente o Duende, Tyrion Lannister. Mas o homem enorme que vinha à cabeça da coluna, flanqueado por dois cavaleiros que usavam os mantos brancos como a neve da Guarda Real, pareceu a Ned quase um estranho... Até saltar de cima de seu cavalo de guerra com um rugido familiar e o esmagar num abraço de partir ossos. - Ned! Ah, como é bom ver essa sua cara congelada - o rei o observou de cima a baixo e soltou uma gargalhada. - Não mudou nem um bocadinho. Ned gostaria de poder dizer o mesmo. Quinze anos antes, quando tinham cavalgado juntos para conquistar um trono, o Senhor de Ponta Tempestade era um homem sem barba, de olhos claros e musculoso como um sonho de donzela. Quase com dois metros de altura, erguia-se acima dos outros homens e, quando punha a armadura e o grande capacete provido de chifres de sua Casa, transformava-se num autêntico gigante. Também tinha a força de um gigante, e sua arma predileta era um martelo de batalha com ponta aguçada que Ned quase não conseguia erguer do chão. Nesses tempos, o cheiro do couro e do sangue aderia à sua pele como perfume. Agora era perfume mesmo que aderia à sua pele, e ele tinha uma largura que se equiparava a altura. Ned tinha visto o rei pela última vez nove anos antes, durante a rebelião de Balon Greyjoy, quando o veado e o lobo gigante tinham se juntado para acabar com as pretensões do auto-proclamado Rei das


Ilhas de Ferro. Desde a noite em que estiveram lado a lado no quartel-general caído de Greyjoy, quando Robert aceitara a rendição do senhor rebelde e Ned tomara seu filho Theon como refém e protegido, o rei ganhara pelo menos cinquenta quilos. Uma barba tão grosseira e negra como fio de ferro cobria-lhe a face, escondendo o duplo queixo e o descaimento das reais bochechas, mas nada conseguia esconder seu estômago ou os círculos escuros sob os olhos. Mas Robert era agora o rei de Ned, e não apenas um amigo; portanto, limitou-se a dizer: - Vossa Graça. Winterfell é vossa. Por essa altura já os outros estavam também a desmontar, e avançavam moços de estrebaria para lhes recolher as montadas. A rainha de Robert, Cersei Lannister, entrou a pé com seus filhos mais novos. A caravana em que tinham vindo, uma enorme carruagem de dois pisos feita de carvalho untado e metal dourado, puxada por quarenta cavalos de tração pesada, era larga demais para passar pelo portão do castelo. Ned ajoelhou-se na neve a fim de beijar o anel da rainha, enquanto Robert abraçou Catelyn como a uma irmã há muito perdida. Depois as crianças foram trazidas, apresentadas e aprovadas por ambas as partes. Assim que aquelas formalidades de saudação se completaram, o rei disse ao anfitrião: - Leve-me à sua cripta, Eddard. Quero apresentar os meus respeitos. Ned o adorou por isso, por se lembrar ainda dela, depois de tantos anos. Gritou por uma lanterna. Não foram necessárias mais palavras. A rainha começara a protestar. Que tinham viajado desde a madrugada, que estavam todos cansados e com frio, que decerto deveriam descansar primeiro. Que os mortos podiam esperar. Não disse mais que isso; Robert


olhou-a, o irmão gêmeo Jaime pegou-lhe calmamente no braço e ela não disse mais nada. Desceram juntos para a cripta, Ned e seu rei, que quase não reconhecia. Os degraus de pedra em espiral eram estreitos. Ned seguiu à frente com a lanterna. - Já começava a pensar que nunca mais chegaríamos a Winterfell - queixou-se Robert enquanto desciam. - No Sul, do modo como falam dos meus Sete Reinos, um homem se esquece de que a sua parte é tão grande quanto as outras seis juntas. - Espero que tenha apreciado a viagem, Vossa Graça. Robert resfolegou. - Lodaçais, florestas e campos, e quase sem uma estalagem decente a norte do Gargalo. Nunca vi um vazio tão vasto. Onde estão todas as suas gentes? - Provavelmente estavam muito acanhadas para sair brincou Ned. Sentia o frio que subia as escadas, a respiração gelada vinda das profundezas da terra. - Os reis são uma visão rara no Norte. Robert resfolegou. - O mais certo é que estivessem escondidas debaixo da neve. Neve, Ned! - o rei pôs a mão na parede para se manter firme enquanto descia. - As neves do fim do verão são bastante comuns - disse Ned. Espero que não lhe tenham causado problemas. São geralmente suaves. - Que os Outros carreguem as suas neves suaves - praguejou Robert. - Como será este lugar no inverno? Estremeço só de pensar. - Os invernos são duros - admitiu Ned. - Mas os Stark os suportarão. Sempre os suportamos.


- Tem de vir até o Sul - disse Robert. - Precisa experimentar o verão antes que ele fuja. Em Jardim de Cima há campos de rosas douradas que se estendem até perder de vista. Os frutos estão tão maduros que explodem na boca: melões, pêssegos, ameixas-de-fogo, nunca saboreou tamanha doçura. Verá, eu trouxe algumas. Mesmo em Ponta Tempestade, com aquele bom vento da baía, os dias são tão quentes que quase não conseguimos nos mexer. E precisa ver as vilas, Ned! Flores por toda parte, os mercados a rebentar de comida, os vinhos estivais tão bons e baratos que podemos nos embebedar só de respirar o ar. Toda a gente é gorda, bêbada e rica - soltou uma gargalhada e deu uma palmada no amplo estômago. - E as moças, Ned! - exclamou com os olhos faiscando. - Juro, as mulheres perdem toda a modéstia ao calor. Nadam nuas no rio, mesmo por baixo do castelo. Até nas ruas está calor demais para lã ou peles, e elas andam por aí com aqueles vestidos curtos de seda, se tiverem prata, ou algodão, se não tiverem, mas é tudo igual quando começam a suar e o tecido lhes adere à pele, é como se andassem nuas - o rei riu, feliz. Robert Baratheon sempre fora um homem de enormes apetites, um homem que sabia como conquistar seus prazeres. Essa não era uma acusação que alguém pudesse deixar à porta de Eddard Stark. No entanto, Ned não podia deixar de notar que esses prazeres estavam cobrando seu preço do rei. Robert respirava pesadamente quando chegaram ao fundo das escadas, e com a cara vermelha à luz da lanterna quando penetraram na escuridão da cripta. - Vossa Graça - disse Ned respeitosamente. Moveu a lanterna num largo semicírculo. As sombras moveram-se e balançaram. A vacilante luz tocou as pedras do chão e roçou numa longa procissão de pilares de granito que marchavam em frente a eles, dois a dois, na direção das trevas. Entre os


pilares sentavam-se os mortos nos seus tronos de pedra apoiados nas paredes, de costas voltadas para os sepulcros que continham seus restos mortais. - Ela está lá ao fundo, com o Pai e Brandon. Indicou o caminho por entre os pilares e Robert seguiu-o sem uma palavra, estremecendo com o frio subterrâneo. Ali fazia sempre frio. Seus passos soavam nas pedras e ecoavam na abóbada que se erguia sobre suas cabeças enquanto caminhavam por entre os mortos da Casa Stark. Os Senhores de Winterfell viam-nos passar. Suas imagens tinham sido esculpidas nas pedras que selavam as tumbas. Sentavam-se em longas filas, olhos cegos virados para a escuridão eterna, enquanto grandes lobos gigantes de pedra se aninhavam junto aos seus pés. As sombras móveis faziam com que as figuras de pedra parecessem mover-se quando os vivos passavam por elas. Seguindo um costume antigo, uma espada de ferro tinha sido colocada sobre o colo de todos os que tinham sido Senhores de Winterfell, a fim de manter os espíritos vingativos em suas criptas. A mais antiga já há muito enferrujara até a inexistência, deixando apenas algumas manchas vermelhas onde o metal tocara na pedra. Ned perguntou a si próprio se isso significava que aqueles espíritos estavam agora livres para passear pelo castelo. Esperava que não. Os primeiros Senhores de Winterfell tinham sido homens tão duros como a terra que governavam. Nos séculos anteriores à vinda dos Senhores do Dragão do outro lado do mar, não tinham jurado fidelidade a ninguém, fazendo tratar-se por Reis do Norte. Ned parou, finalmente, e ergueu a lanterna de óleo, A cripta continuava à sua frente, mergulhando na escuridão, mas para lá daquele ponto as tumbas estavam vazias e por selar;


buracos negros à espera de seus mortos, à espera dele e de seus filhos. Ned não gostava de pensar naquilo. - Aqui - disse ele ao seu rei. Robert acenou em silêncio, ajoelhou-se e inclinou a cabeça. Havia três tumbas, dispostas lado a lado. Lorde Rickard Stark, o pai de Ned, tinha um rosto longo e austero. O esculpidor conhecera-o bem. Estava sentado com uma calma dignidade, com os dedos de pedra agarrados com força à espada que tinha no colo, mas em vida todas as espadas lhe tinham falhado. Em dois sepulcros menores, de ambos os lados, estavam seus filhos. Brandon morrera com vinte anos, estrangulado por ordem do Rei Louco Aerys Targaryen, poucos dias apenas antes de se casar com Catelyn Tully de Correrrio. O pai fora obrigado a vê-lo morrer. Era ele o verdadeiro herdeiro, o mais velho, nascido para governar. Lyanna tinha apenas dezesseis anos, uma menina-mulher de inigualável encanto. Ned amara-a de todo o coração. Robert amara-a ainda mais. Ela estava destinada a ser sua noiva. - Era mais bela que isto - disse o rei após um silêncio. Seus olhos demoravam-se no rosto de Lyanna, como se pudesse trazê-la de volta à vida por um esforço de vontade. Por fim, ergueu-se, com o peso a torná-lo desajeitado. - Ah, maldição, Ned, tinha de enterrá-la num lugar como este? - sua voz estava enrouquecida com a lembrança do desgosto. - Ela merecia mais que trevas... - Ela era uma Stark de Winterfell - disse Ned calmamente. Este é seu lugar. - Podia estar em algum lugar numa colina, sob uma árvore de fruto, com o sol e nuvens acima dela e a chuva para lavá-la.


- Eu estava com ela quando morreu - lembrou Ned ao rei. Queria regressar à nossa casa para descansar ao lado de Brandon e do Pai - por vezes ainda conseguia ouvi-la. Promete-me, suplicara, num quarto que cheirava a sangue e a rosas. Promete-me, Ned. A febre levara-lhe as forças e a voz era tênue como um suspiro, mas quando ele lhe dera sua palavra, o medo saíra dos olhos da irmã. Ned recordava o modo como então sorrira, a força com que seus dedos agarraram os dele quando ela desistira de se agarrar à vida, as pétalas de rosa que se derramaram de sua mão, mortas e negras. Depois daquilo, não se lembrava de mais nada. Tinham-no encontrado ainda abraçado ao seu corpo, silenciado pela dor. O pequeno cranogmano, Howland Reed, retirara a mão dela da dele. Ned nada recordava. - Trago-lhe flores sempre que posso - disse. - Lyanna era... amiga das flores. O rei tocou o rosto da estátua, roçando os dedos na pedra áspera tão suavemente como se fosse carne viva. - Jurei matar Rhaegar pelo que lhe fez. - E foi o que Vossa Graça fez - lembrou-lhe Ned. - Só uma vez - disse Robert amargamente. Tinham chegado juntos ao baixio do Tridente enquanto a batalha rugia em seu redor, Robert com seu martelo de batalha e seu grande elmo dos chifres de veado, e o príncipe Targaryen revestido de armadura negra. No peitoral trazia o dragão de três cabeças de sua Casa, todo trabalhado com rubis que relampejavam como fogo à luz do sol. As águas do Tridente corriam vermelhas sob os cascos de seus cavalos de batalha, enquanto eles andavam em círculos e entrechocavam as armas, uma e outra vez, até que, por fim, um tremendo golpe do martelo de Robert abriu um rombo no dragão e no


peito que estava por baixo. Quando Ned finalmente chegou ao local, Rhaegar jazia morto na corrente, enquanto homens de ambos os exércitos escarafunchavam as águas rodopiantes em busca de rubis que se tivessem soltado de sua armadura. - Nos meus sonhos mato-o todas as noites - admitiu Robert. Mil mortes ainda serão menos do que ele merece. Não havia nada que Ned pudesse responder àquilo. Depois de uma pausa, disse: - Devemos regressar, Vossa Graça. Sua esposa está à espera. - Que os Outros carreguem minha esposa - murmurou Robert em tom azedo, mas encaminhou-se com passos pesados na direção de onde tinham vindo. - E se ouvir mais alguma vez "Vossa Graça", enfio sua cabeça num espeto. Somos mais que isso um para o outro. - Não me esqueci - respondeu Ned calmamente. - Fale-me dejon. Robert sacudiu a cabeça. - Nunca vi um homem adoecer tão depressa. Organizamos um torneio no dia do nome do meu filho. Se tivesse visto Jon nesse dia, poderia jurar que viveria para sempre. Uma quinzena depois, estava morto, A doença foi como um incêndio em suas tripas. Queimou-o todo por dentro - fez uma pausa junto a um pilar, em frente à tumba de um Stark há muito morto. - Adorava aquele velho. - Ambos o adorávamos - Ned fez uma pausa momentânea. Catelyn teme pela irmã. Como Lysa está suportando a dor? A boca de Robert fez um trejeito amargo. - Não muito bem, na verdade - admitiu. - Penso que a perda de Jon levou a mulher à loucura, Ned. Levou o rapaz de volta para o Ninho da Águia. Contra os meus desejos. Tinha planejado criá-lo com Tywin Lannister em Rochedo Casterly.


Jon não tinha irmãos nem outros filhos. Deveria eu deixá-lo ser educado por mulheres? Ned mais depressa confiaria uma criança a uma víbora do que ao Lorde Tywin, mas guardou para si essa opinião. Algumas velhas feridas nunca chegavam a sarar de verdade, e voltavam a sangrar à primeira palavra. - A mulher perdeu o marido - disse cuidadosamente. - Talvez a mãe tema perder o filho. O rapaz é muito novo. - Tem seis anos, é enfermiço e Senhor do Ninho da Águia, que os deuses o salvem - praguejou o rei. - Lorde Tywin nunca antes tinha tomado um protegido. Lysa devia se sentir honrada. Os Lannister são uma Casa grande e nobre. Ela recusou até ouvir falar do assunto. E, depois, foi-se embora na calada da noite, sem sequer um com-licença. Cersei ficou furiosa - soltou um profundo suspiro. - O rapaz é meu homônimo, sabias? - "Robert Arryn". Jurei protegê-lo. Como poderei fazer isso se a mãe o rapta e o leva? - Posso tomá-lo como protegido, se assim desejar - disse Ned. - Lysa certamente consentirá. Ela e Catelyn eram próximas quando moças, e ela própria também será aqui bem-vinda. - Uma oferta generosa, meu amigo - disse o rei -, mas chegou tarde demais. Lorde Tywin já deu seu consentimento. Criar o rapaz em outro lugar seria uma grave afronta. - Preocupa-me mais o bem-estar do meu sobrinho que o orgulho de um Lannister - declarou Ned. - Isto é porque não dorme com uma Lannister - Robert soltou uma gargalhada, fazendo o som chocalhar por entre as sepulturas e ressoar no teto abobadado. - Ah, Ned, continua sério demais - pôs um braço maciço em torno dos ombros de Ned. - Tinha planejado esperar alguns dias antes de falar


contigo, mas agora vejo que não há necessidade. Venha, acompanhe-me. Os dois voltaram por entre os pilares. Olhos cegos de pedra pareciam segui-los quando por eles passavam. O rei manteve o braço ao redor dos ombros de Ned. - Deve estar curioso sobre o motivo que me fez finalmente vir para o norte até Winterfell depois de tanto tempo. Ned tinha suas suspeitas, mas não disse nada. - Pela alegria da minha companhia, certamente - disse, com ligeireza. - E há também a Muralha. Tem de vê-la, Vossa Graça, tem de caminhar entre suas ameias e falar com aqueles que a guarnecem. A Patrulha da Noite é uma sombra do que já foi. Benjen diz... - Sem dúvida que ouvirei o que diz seu irmão muito em breve - respondeu Robert. - A Muralha está ali há, o quê?, oito mil anos? Pode esperar mais alguns dias. Tenho preocupações mais urgentes. Estes são tempos difíceis. Necessito de bons homens ao meu redor. Homens como Jon Arryn. Ele serviu como Senhor do Ninho da Águia, como Protetor do Leste, como a Mão do Rei. Não será fácil substituí-lo. - Seu filho... - começou Ned. - Seu filho herdará o Ninho da Águia e todos os seus rendimentos - disse Robert bruscamente, - Nada mais. Aquilo apanhou Ned de surpresa. Parou, surpreso, e virou-se para olhar o rei. As palavras saíram-lhe espontâneas: - Os Arryn sempre foram Protetores do Leste. O título vem com o domínio. - Talvez quando tenha idade a honraria lhe seja restaurada disse Robert. - Tenho este ano e o seguinte para pensar no assunto. Um rapaz de seis anos não é um líder de guerra, Ned.


- Em tempo de paz, o título é apenas uma honraria. Deixe que o rapaz o mantenha. Pelo seu pai, se não por ele. Decerto deve isto ajon pelos seus serviços. O rei não estava contente. Tirou o braço dos ombros de Ned. - Os serviços de Jon constituíram seu dever para com seu senhor. Não sou ingrato, Ned. Você, de todos os homens, deveria sabê-lo. Mas o filho não é o pai. Um mero rapaz não pode defender o Leste - então o tom suavizou-se. - Basta disto. Há um cargo mais importante sobre que conversar, e não desejo discutir contigo. - Robert agarrou Ned pelo cotovelo. - Preciso de você, Ned. - Estou às vossas ordens, Vossa Graça. Sempre - eram palavras que tinha de pronunciar, e ficou apreensivo com o que poderia vir a seguir. Robert quase não pareceu ouvi-lo. - Aqueles anos que passamos no Ninho da Águia... deuses, foram bons anos. Quero você de novo a meu lado, Ned. Quero-o lá embaixo, em Porto Real, e não aqui no fim do mundo, onde não tem utilidade para ninguém - Robert olhou a escuridão, por um momento tão melancólico como um Stark. - Juro-lhe, estar sentado num trono é mil vezes mais difícil que conquistar um. As leis são uma coisa entediante, e contar tostões é pior. E o povo... não tem fim. Sento-me naquela maldita cadeira de ferro e ouço-os se queixarem até ficar com a mente embotada e o rabo em carne viva. Todos querem qualquer coisa, dinheiro, terra ou justiça. As mentiras que contam... e os meus senhores e senhoras não são melhores. Estou rodeado de aduladores e idiotas. Aquilo pode levar um homem à loucura, Ned. Metade deles não se atreve a me dizer a verdade, e a outra metade não é capaz de encontrá-


la. Há noites em que desejo que tivéssemos perdido no Tridente. Ah, não, não de verdade, mas... - Compreendo - disse Ned com voz suave. Robert olhou para ele. - Penso que compreende. E se compreende, é o único, meu velho amigo - sorriu. - Lorde Eddard Stark, é meu desejo nomeá-lo a Mão do Rei. Ned caiu sobre um joelho. A oferta não o surpreendera; que outra razão teria Robert para viajar até tão longe? A Mão do Rei era o segundo homem mais poderoso nos Sete Reinos. Falava com a voz do rei, comandava seus exércitos, esboçava suas leis. Por vezes até se sentava no Trono de Ferro para fazer a justiça do rei, quando este se encontrava ausente, ou doente, ou indisposto de outra maneira qualquer. Robert agora oferecia uma responsabilidade tão grande quanto o próprio reino. Era a última coisa no mundo que desejava. - Vossa Graça, não sou merecedor de tal honra. Robert grunhiu com uma impaciência bem-humorada. - Se quisesse honrá-lo, deixaria que se aposentasse? Planejo fazê-lo gerir o reino e lutar as guerras enquanto eu como, bebo e fornico a caminho de uma cova antecipada - deu uma palmada no estômago e deu um sorriso. - Conhece aquele ditado sobre o rei e a sua Mão? Ned conhecia o ditado: - Aquilo que o rei sonha a Mão constrói. - Uma vez dormi com uma peixeira que me disse que os de baixo nascimento têm uma versão mais refinada. O rei come, dizem eles, e a Mão recolhe a merda - atirou a cabeça para trás e rebentou em sonoras gargalhadas. Os ecos ressoaram pela escuridão, e, ao seu redor, os mortos de Winterfell pareceram observar com olhos frios e desaprovadores.


Por fim, o riso diminuiu e cessou. Ned continuava sobre o joelho, sem alegria nos olhos. - Que diabos, Ned - queixou-se o rei. - Podia ao menos brindar-me com um sorriso. - Dizem que fica tão frio por aqui no inverno que as gargalhadas dos homens congelam em suas gargantas e os sufocam até a morte - disse Ned em tom monocórdio. - Talvez seja por isso que os Stark possuem tão pouco humor. - Vem comigo para o Sul e o ensino de novo a rir - prometeu o rei. - Ajudou-me a ganhar este maldito trono, ajude-me agora a mantê-lo. Estamos destinados a governar juntos. Se Lyanna tivesse sobrevivido, teríamos sido irmãos, ligados pelo afeto e também pelo sangue. Pois bem, não é tarde demais. Eu tenho um filho. Você tem uma filha. Meu Joff e sua Sansa unirão as nossas Casas, como Lyanna e eu poderíamos ter feito em tempos. Aquela oferta o surpreendeu. - Sansa tem apenas onze anos. Robert fez um gesto impaciente com a mão. - Tem idade que chegue para ficar prometida. O casamento pode esperar alguns anos - ele sorriu. - Agora, ponha-se em pé e diz que sim, maldito. - Nada me daria maior prazer, Vossa Graça - respondeu Ned. Mas hesitou. - Todas estas honrarias são tão inesperadas. Posso ter algum tempo para refletir, Preciso contar à minha esposa... - Sim, sim, claro, conta a Catelyn, durma sobre o assunto se for preciso - o rei estendeu a mão, agarrou a de Ned e puxou-o rudemente, pondo-o em pé. - Basta que não me deixe à espera tempo demais. Não sou o mais paciente dos homens.


Por um momento Eddard Stark sentiu-se atacado por uma terrível sensação de mau presságio. Aquele era seu lugar, ali no Norte. Olhou as figuras de pedra que o rodeavam, inspirou profundamente no silêncio gelado da cripta. Conseguia sentir os olhos dos mortos. Sabia que todos eles escutavam. E o inverno estava a caminho.


Jon Havia momentos - não muitos, mas alguns - em que Jon Snow ficava feliz por ser um bastardo. Enquanto enchia uma vez mais sua taça de vinho de um jarro que ia passando, deuse conta de que aquele poderia ser um desses momentos. Voltou a se instalar no seu lugar ao banco, entre os escudeiros mais novos, e bebeu. O sabor doce e frutado do vinho estival encheu-lhe a boca e trouxe-lhe um sorriso aos lábios. O ar no Salão Grande de Winterfell estava nevoento de fumo e pesado com os cheiros de carne assada e pão acabado de cozer. As grandes paredes de pedra do salão estavam adornadas com estandartes. Bianco, dourado, carmesim: o lobo gigante de Stark, o veado coroado de Baratheon, o leão de Lannister. Um cantor tocava harpa e recitava uma balada, mas nesta ponta do salão quase não se conseguia ouvir sua voz acima do rugir do fogo, do clangor de pratos e taças de peltre, e do burburinho grave de uma centena de conversas ébrias. Estava-se na quarta hora do banquete de boas-vindas oferecido ao rei. Os irmãos e irmãs de Jon tinham sido postos junto dos filhos do rei, por baixo da plataforma elevada onde o Senhor e a Senhora Stark recebiam o rei e a rainha. Em honra da ocasião, o senhor seu pai iria sem dúvida permitir a cada filho um copo de vinho, mas não mais que isso. Ali, nos bancos, não havia ninguém para impedir que Jon bebesse tanto quanto sua sede exigisse. E estava descobrindo que tinha uma sede de homem, para a áspera satisfação dos jovens que o rodeavam e que o incentivavam a cada vez que esvaziava um copo. Eram boa


companhia, e Jon apreciava as histórias que contavam, histórias de batalha, de cama e de caça. Tinha certeza de que os companheiros eram mais divertidos do que a prole do rei. Saciou sua curiosidade a respeito dos visitantes quando estes entraram. A procissão passara a não mais de um pé do local que lhe fora atribuído no banco, e Jon deitara um forte e demorado olhar em todos eles. O senhor seu pai viera à frente, acompanhando a rainha. Ela era tão bela como os homens diziam. Uma tiara cravejada de jóias brilhava entre os seus longos cabelos dourados, e as esmeraldas que continha combinavam perfeitamente com o verde de seus olhos. O pai de Jon a ajudou a subir os degraus que levavam ao tablado e indicou-lhe o caminho até seu lugar, mas a rainha nunca chegou sequer a olhar para ele. Mesmo com catorze anos, Jon era capaz de ver para lá do seu sorriso. A seguir veio o próprio Rei Robert, trazendo a Senhora Stark pelo braço. O rei foi uma grande desilusão para Jon. O pai falara dele com frequência: o inigualável Robert Baratheon, demônio do Tridente, o mais feroz guerreiro do reino, um gigante entre os príncipes. Jon viu apenas um homem gordo, com o rosto vermelho sob a barba, transpirando através de suas sedas. Caminhava como um homem meio embriagado. Depois vieram os filhos. Primeiro o pequeno Rickon, dominando a longa caminhada com toda a dignidade que um rapazinho de três anos era capaz de reunir. Jon teve de incentivá-lo a seguir quando parou ao seu lado. Logo atrás veio Robb, vestido de lã cinzenta ornamentada de branco, as cores dos Stark. Trazia pelo braço a Princesa Myrcella. Era uma pequena menina, com quase oito anos, o cabelo feito uma cascata de caracóis dourados sob uma rede cravejada de jóias, on reparou nos olhares acanhados que ela dirigia a


Robb enquanto passavam por entre as mesas e no modo tímido como lhe sorria. Decidiu que a menina era insípida. Robb nem tinha o bom--senso de notar quão estúpida ela era, e sorria como um tolo. Suas meias-irmãs acompanhavam os príncipes reais. Arya tinha como par o roliço jovem iommen, cujos cabelos louroesbranquiçados eram mais longos que os dela. Sansa, dois anos mais velha, puxava o príncipe real, Joffrey Baratheon. Ele tinha doze anos, menos que Jon ou _-\obb, mas era mais alto que qualquer um deles, para sua grande frustração. Príncipe Joffrey tinha os cabelos da irmã e os profundos olhos verdes da mãe. Uma espessa mata de caracóis louros caía para lá de sua gargantilha dourada e da alta gola de veludo. Sansa parecia radiante enquanto caminhava a seu lado, mas Jon não gostou dos lábios mal-humorados de Joffrey nem do modo aborrecido e desdenhoso com que avaliou o Salão Grande de Winterfell. Interessou-lhe mais o par que veio a seguir: os irmãos da rainha, os Lannister de Rochedo Casterly. O Leão e o Duende; não havia forma de confundi-los. Sor Jaime Lannister era gêmeo oa Rainha Cersei; alto e dourado, com flamejantes olhos verdes e um sorriso que cortava como uma faca. Trajava seda carmesim, botas negras de cano alto, um manto de cetim negro. No peito da túnica, o leão de sua Casa estava bordado em fio de ouro, rugindo em desafio. Chamavam-lhe Leão de Lannister na sua presença e "Regicida" às suas costas. Jon sentiu dificuldade em desviar o olhar do homem. É este o aspecto que um rei deve ter, pensou consigo mesmo quando o príncipe passou por ele. Então viu o outro, bamboleando ao lado do irmão, meio escondido pelo seu corpo. Tyrion Lannister, o mais novo dos


filhos de Lorde Tywin e de longe o mais feio. Tudo o que os deuses tinham dado a Cersei e Jaime negaram a Tyrion. Era um anão, com metade da altura do irmão, .utando para acompanhar seu passo sobre pernas atrofiadas. A cabeça era grande demais para o corpo, com uma cara animalesca esborrachada por baixo de uma sobrancelha saliente. Um olho verde e um negro espreitavam sob uma cascata de cabelos corredios e tão louros que pareciam brancos. Jon o observou fascinado. O último dos grandes senhores a entrar foi seu tio, Benjen Stark, da Patrulha da Noite, e o protegido do pai, o jovem Theon Greyjoy. Benjen dirigiu a Jon um sorriso caloroso quando passou por ele. Theon o ignorou por completo, mas nisso nada havia de novo. Depois de todos se terem sentado, foram feitos brindes, dados e devolvidos agradecimentos e, então, deu-se início ao festim. Jon começara a beber nesse momento e ainda não parara. Algo roçou sua perna sob a mesa. Ele viu olhos vermelhos que o encaravam. - Outra vez com fome? - perguntou. Ainda havia meia galinha com mel no centro da mesa. Jon esticou o braço para arrancar uma perna, mas depois teve uma ideia melhor. Espetou uma faca na ave inteira e a deixou escorregar para o chão por entre as pernas. Fantasma a atacou em silêncio selvagem. Não tinham permitido aos irmãos e irmãs que trouxessem seus lobos para o banquete, mas naquela ponta do salão havia mais rafeiros do que Jon conseguia contar, e ninguém dissera uma palavra sobre seu cachorro. Disse a si próprio que também nisto era afortunado. Seus olhos ardiam. Jon os esfregou furiosamente, amaldiçoando o fumo. Engoliu outro trago de vinho e observou seu lobo gigante devorando a galinha.


Cães moviam-se por entre as mesas, perseguindo as criadas. Um deles, uma cadela preta vira--lata com longos olhos amarelos, detectou o cheiro da galinha. Parou e meteu-se por baixo do banco para obter uma parte. Jon observou o confronto. A cadela soltou uma rosnadela profunda e aproximou-se. Fantasma ergueu os olhos quentes e rubros, em silêncio, e se fixou nela. A cadela soltou um desafio irado. Tinha três vezes seu tamanho, mas Fantasma não se afastou. Ergueu-se sobre ela e abriu a boca, mostrando as presas. A cadela ficou tensa, ladrou uma vez mais, e depois pensou melhor a respeito da luta. Virou-se e escapuliu, com um último latido desafiador para salvar o orgulho. Fantasma voltou a prestar atenção à refeição, Jon sorriu e esticou o braço para lhe acariciar o pelo branco. O lobo gigante olhou para ele, deu-lhe uma dentadinha gentil na mão e novamente pôs-se a comer. - Este é um dos lobos gigantes de que tanto ouvi falar? perguntou perto dele uma voz familiar. Jon ergueu seus olhos, feliz, quando tio Ben lhe pôs a mão na cabeça e desalinhou seus cabelos tanto quanto ele fizera com os pelos do lobo. - Sim - disse. - Chama-se Fantasma. Um dos escudeiros interrompeu a história obscena que estava contando para abrir lugar na mesa para o irmão de seu senhor. Benjen Stark escarranchou-se no banco com pernas longas e tirou a taça de vinho da mão de Jon. - Vinho de verão - disse depois de provar. - Não há nada tão doce. Quantas taças já bebeu, Jon? Jon sorriu. Ben Stark soltou uma gargalhada. - Tal como eu temia. Ah, bem, Acho que era mais novo do que você da primeira vez que fiquei verdadeira e sinceramente


bêbado - surrupiou de uma travessa próxima uma cebola assada que pingava molho de carne e mordeu-a. A cebola estalou. O tio de Jon tinha feições angulosas e era descarnado como um penhasco, mas havia sempre uma sugestão de riso em seus olhos azul-acinzentados. Vestia-se de negro, como era próprio de um homem da Patrulha da Noite. Hoje trajava um rico veludo negro, com grandes botas de couro e um cinto largo com fivela de prata. Uma pesada corrente de prata curvavase em torno do seu pescoço. Benjen observou Fantasma, divertido, enquanto comia a cebola. - Um lobo muito sossegado - observou. - Não é como os outros - disse Jon. - Nunca solta um som. Foi por isso que o chamei Fantasma. Por isso e porque é branco. Os outros são todos escuros, cinzentos ou pretos. - Ainda há lobos gigantes para lá da Muralha. Ouvimo-los nas nossas patrulhas - Benjen Stark olhou longamente para Jon. Não costuma comer à mesa dos seus irmãos? - Na maior parte das ocasiões - respondeu Jon em voz monocórdia. - Mas hoje a Senhora Stark pensou que poderia ser um insulto para a família real se um bastardo se sentasse entre eles. - Estou vendo - o tio olhou por sobre o ombro para a mesa elevada na outra ponta do salão. - Meu irmão não parece muito festivo hoje. Jon também notara. Um bastardo tinha de aprender a reparar nas coisas, a ler a verdade que as pessoas escondiam por trás dos olhos. Seu pai observava todas as cortesias, mas havia nele uma rigidez que Jon raramente vira antes. Pouco falava, olhando o salão com olhos cobertos, sem nada ver. A dois lugares de distância, o rei estivera toda a noite bebendo


muito. O rosto largo estava corado por trás da barba negra. Fizera muitos brindes, rira sonoramente com todas as brincadeiras e atacara todos os pratos como um faminto, mas, ao seu lado, a rainha parecia tão fria como uma escultura de gelo. - A rainha também está zangada - disse Jon ao tio com uma voz calma e baixa. - Meu pai levou o rei às criptas esta tarde. A rainha não queria que ele fosse. Benjen deitou ajon um olhar cauteloso e avaliador, - Não deixa passar muitas coisas, não é, Jon? Podíamos fazer uso de um homem como você na Muralha. Jon inchou de orgulho. - Robb é um lanceiro mais forte que eu, mas sou melhor espadachim, e Hullen diz que me sento num cavalo tão bem como qualquer outro no castelo. - Notáveis realizações. - Leve-me consigo quando regressar à Muralha - disse Jon com súbita precipitação. - Meu pai me dará licença para ir se lhe pedir, eu sei que dará. Tio Benjen estudou seu rosto com cuidado. - A Muralha é um lugar duro para um rapaz, Jon. - Sou quase um homem feito - Jon protestou. - Vou fazer quinze anos no próximo dia do meu nome, e Meistre Luwin diz que os bastardos crescem mais depressa que as outras crianças. - Isso é verdade - disse Benjen, retorcendo a boca para baixo. Tomou a taça de Jon, encheu-a de um jarro que encontrou ali perto e bebeu um longo gole. - Daeren Targaryen tinha só quinze anos quando conquistou Dorne - disse Jon. O Jovem Dragão era um dos seus heróis.


- Uma conquista que durou um verão - o tio ressaltou. - Seu Rei Rapaz perdeu dez mil homens na conquista do lugar e outros cinquenta ao tentar mantê-lo. Alguém devia ter-lhe dito que a guerra não é um jogo - bebeu outro gole de vinho. Além disso - disse, limpando a boca -, Daeren Targaryen tinha só dezoito anos quando morreu. Ou será que se esqueceu dessa parte? - Não me esqueço de nada - vangloriou-se Jon. O vinho o estava deixando ousado. Tentou sentar-se muito ereto para parecer mais alto. - Quero servir na Patrulha da Noite, tio. Tinha refletido sobre o assunto longa e duramente, deitado na cama à noite enquanto os irmãos dormiam à sua volta. Robb um dia herdaria Winterfell, comandaria grandes exércitos enquanto Protetor do Norte. Bran e Rickon seriam vassalos de Robb e governariam castros em seu nome. As irmãs, Arya e Sansa, se casariam com os herdeiros de outras grandes Casas e iriam para o sul como senhoras dos seus próprios castelos. Mas a que lugar podia um bastardo aspirar? - Não sabe o que está pedindo, Jon. A Patrulha da Noite é uma irmandade juramentada. Não temos famílias. Nenhum de nós será algum dia pai. Somos casados com o dever. Nossa amante é a honra. - Um bastardo também pode ter honra - disse Jon. - Estou pronto para prestar o juramento. - Você é um rapaz de catorze anos - disse Benjen. - Não é um homem. Ainda não. Até ter conhecido uma mulher, não pode compreender o que estará deixando para trás. - Isto não me interessa! - Jon respondeu ardentemente. - Mas poderia se interessar se soubesse a que me refiro - disse Benjen. - Se soubesse o que o juramento lhe custará, estaria menos ansioso por pagar o preço, filho.


Jon sentiu a ira crescer no peito. - Não sou seu filho! Benjen Stark pôs-se em pé. - Maior é a pena - pôs uma mão no ombro de Jon. - Venha ter comigo depois de ter sido pai de alguns bastardos seus e veremos então como se sente. Jon estremeceu. - Nunca serei pai de um bastardo - disse com cuidado. Nunca! - cuspiu a palavra como se fosse veneno. De súbito, percebeu que a mesa caíra em silêncio e que todos o estavam olhando. Sentiu que as lágrimas começavam a jorrar por trás de seus olhos e pôs-se em pé. - Devo me retirar - disse, com o resto de sua dignidade. Virouse e fugiu antes que o vissem chorar. Devia ter bebido mais vinho do que se dera conta. Seus pés emaranhavam-se debaixo do corpo quando tentou sair do salão e cambaleou de lado, esbarrando numa criada, atirando ao chão um jarro de vinho com especiarias. Gargalhadas trovejaram por todo o lado à sua volta, e Jon sentiu lágrimas quentes nas bochechas. Alguém tentou equilibrá-lo, mas ele saiu com violência daquelas mãos e correu meio cego para a porta. Fantasma o seguiu de perto para a noite. O pátio estava silencioso e vazio. Uma sentinela solitária estava bem no alto, nas ameias da muralha interior, bem enrolada no manto contra o frio. O homem parecia aborrecido e infeliz ao apertar-se ali, sozinho, mas Jon teria rapidamente trocado de lugar com ele. Além da sentinela, o castelo estava escuro e deserto. Jon vira certa vez um castro abandonado, um lugar lúgubre onde nada se movia além do vento e as pedras mantinham o silêncio acerca de quem ali vivera. Hoje, Winterfell lembrava-lhe esse dia. Os sons de música e cantos derramavam-se pelas janelas abertas em suas costas. Eram as últimas coisas que Jon


queria ouvir. Limpou as lágrimas na manga da camisa, furioso por tê-las deixado fluir, e virou-se para ir embora. - Rapaz - chamou uma voz. Jon voltou-se. Tyrion Lannister estava sentado na saliência por cima da porta do grande salão, assemelhando-se por completo a uma gárgula. O anão sorriu-lhe. - Esse animal é um lobo? - Um lobo gigante - disse Jon. - Chama-se Fantasma - pôs-se a olhar o homenzinho, de súbito esquecido do desapontamento. - O que faz aí? Por que não está no banquete? - Está demasiado quente, demasiado ruidoso e bebi demasiado vinho - disse o anão. -Aprendi há muito que se considera má-educação vomitar por cima do irmão. Posso ver o seu lobo mais de perto? Jon hesitou, mas depois concordou devagar. - Consegue descer daí ou devo ir buscar uma escada? - Ah, que se dane - disse o homenzinho. Atirou-se da saliência para o ar vazio. Jon sobressaltou-se, depois viu com um temor respeitoso como Tyrion Lannister rodopiou numa bola apertada, aterrissou ligeiro sobre as mãos e depois volteou para trás, caindo em pé. Fantasma afastou-se dele com receio. O anão sacudiu o pó e soltou uma gargalhada. - Creio que assustei seu lobo. Minhas desculpas. - Não está assustado - disse Jon. Ajoelhou-se e chamou seu lobo. - Fantasma, vem cá. Anda. Isso mesmo. A cria de lobo aproximou-se e encostou o focinho no rosto de Jon, mas manteve um olho cuidadoso em Tyrion Lannister, e,


quando o anão estendeu a mão para lhe fazer uma festa, afastou-se e mostrou os caninos num rosnado silencioso. - É tímido, não é? - observou Lannister. - Senta, Fantasma - ordenou Jon. - Isso mesmo. Quieto ergueu os olhos para o anão. - Pode tocá-lo agora. Ele não se mexerá até que eu lhe diga para fazê-lo. Eu o tenho treinado. - Compreendo - disse o Lannister. Esfregou o pelo branco como a neve entre as orelhas de Fantasma e disse: - Bonito lobo. - Se eu não estivesse aqui, ele rasgaria sua garganta - disse Jon. Ainda não era bem verdade, mas viria a ser. - Nesse caso, é melhor que fique por perto - disse o anão. Inclinou a cabeça grande demais rara um lado e observou Jon com seus olhos desiguais. - Chamo-me Tyrion Lannister. - Eu sei - disse Jon. Ergueu-se. Em pé, era mais alto que o anão. Mas isto o fazia sentir-se estranho. - E você é o bastardo de Ned Stark, não é? Jon sentiu-se atravessado por uma sensação de frio. Apertou os lábios e não disse nada. - Eu o ofendi? - disse Lannister. - Perdão. Os anões não têm de ter tato. Gerações de bobos Tiriegados conquistaram para mim o direito de me vestir mal e de dizer qualquer maldita coisa que me venha à cabeça - ele sorriu. - Mas você é o bastardo. -Lorde Eddard Stark é meu pai - admitiu Jon rigidamente. Lannister estudou-lhe o rosto. - Sim - disse. - Consigo ver. Você tem em si mais do Norte que seus irmãos. - Meios-irmãos - Jon corrigiu. O comentário do anão o agradara, mas tentou não mostrar.


- Deixe-me lhe dar um conselho, bastardo - disse Lannister. Nunca se esqueça de quem é, porque é certo que o mundo não se lembrará. Faça disso sua força. Assim, não poderá ser nunca a sua fraqueza. Arme-se com esta lembrança, e ela nunca poderá ser usada para magoá-lo. Jon não estava com disposição de ouvir conselhos de ninguém. - Que sabe você de ser um bastardo? - Todos os anões são bastardos aos olhos dos pais. - Você é filho legítimo de Lannister. - Ah, sou? - respondeu o anão, sarcástico. - Vá dizer isso ao senhor meu pai. Minha mãe morreu ao dar-me à luz, e ele nunca teve certeza. - Nem sequer sei quem foi minha mãe - disse Jon. - Uma mulher qualquer, sem dúvida. A maior parte delas é isso - dirigiu a Jon um sorriso tristonho. - Lembre-se disto, rapaz. Todos os anões serão bastardos, mas nem todos os bastardos precisam ser anões - e, com aquelas palavras, virou as costas e regressou vagarosamente ao banquete, assobiando uma canção. Quando abriu a porta, a luz vinda de dentro atirou sua sombra bem definida pelo pátio afora e, só por um momento, Tyrion Lannister ergueu-se alto como um rei.

Catelyn Entre todos os quartos da Torre Grande de Winterfell, os aposentos de Catelyn eram os mais freqüentes. Ela raramente tinha de acender uma fogueira. O castelo tinha sido construído sobre nascentes naturais de água quente, e as águas escaldantes corriam pelas suas paredes e quartos como sangue pelo corpo de um homem, afastando o frio dos salões


de pedra, enchendo os jardins de vidro com um calor úmido, impedindo o congelamento da terra. Lagoas ao ar livre fumegavam noite e dia numa dúzia de pequenos pátios. Isso, no verão, era coisa pouca; no inverno, era a diferença entre a vida e a morte. O banho de Catelyn era sempre quente e cheio de vapor, e suas paredes, mornas ao toque. O calor lembrava-lhe Correrrio, dias ao sol com Lysa e Edmure, mas Ned nunca conseguira se habituar. Os Stark eram feitos para o frio, dizialhe, e ela ria e respondia que neste caso tinham certamente construído seu castelo no lugar errado. Por isso, quando terminaram, Ned rolou e saltou para fora da cama, como já fizera mil vezes antes. Atravessou o quarto, afastou as pesadas tapeçarias e abriu as altas e estreitas janelas uma a uma, deixando entrar o ar da noite. O vento rodopiou à sua volta quando parou para olhar a escuridão, nu e de mãos vazias. Catelyn puxou as peles até o queixo e o observou. Parecia de certo modo menor e mais vulnerável, como o jovem com quem se casara no septo de Correrrio havia quinze longos anos. Seus rins ainda doíam da urgência do amor. Era uma dor boa. Conseguia sentir a semente dele dentro de si. Rezou para que pudesse aí brotar. Tinham-se passado três anos desde Rickon. Ela não era velha demais. Podia lhe dar outro filho. - Vou dizer-lhe que não - disse Ned quando se voltou de novo para ela. Tinha os olhos assombrados por fantasmas e a voz espessa de dúvidas. Catelyn sentou-se na cama. - Não pode. Não deve. - Meus deveres estão aqui no Norte. Não tenho nenhum desejo de ser a Mão de Robert.


- Ele não o compreenderá. E agora um rei, e os reis não são como os outros homens. Se se recusar a servi-lo, ele quererá saber por que, e mais cedo ou mais tarde começará a suspeitar de que se opõe a ele. Não vê o perigo em que nos colocaria? Ned abanou a cabeça, recusando-se a acreditar. - Robert nunca me faria mal, nem a nenhum dos meus. Éramos mais próximos que irmãos. Ele me adora. Se lhe disser que não, ele rugirá, praguejará e estrondeará, e uma semana mais tarde estaremos juntos a rir do assunto. Conheço o homem! - Conhece o homem - disse ela. - O rei é um estranho para você - Catelyn recordava o lobo gigante morto na neve, com o chifre quebrado profundamente alojado na garganta. Tinha de fazê-lo compreender. - O orgulho é tudo para um rei, meu senhor. Robert percorreu toda esta distância para vê-lo, para lhe trazer estas grandes honrarias, não pode atirá-las à cara. - Honrarias? - Ned soltou uma gargalhada amarga. - Aos seus olhos, sim - disse ela. - E aos seus? - Aos meus também - exclamou ela, agora zangada. Por que ele não compreendia? - Oferece o próprio filho em casamento à nossa filha, que outro nome daria a isso? Sansa pode vir um dia a ser rainha. Os filhos deles poderão governar da Muralha até as montanhas de Dorne. O que tem isso de errado? - Deuses, Catelyn, Sansa tem só onze anos - Ned respondeu. E Joffrey... Joffrey é... Ela acabou a frase por ele. - ... príncipe da coroa e herdeiro do Trono de Ferro. E eu só tinha doze anos quando meu pai me prometeu ao seu irmão Brandon. Aquilo trouxe um trejeito amargo aos lábios de Ned.


- Brandon. Sim. Brandon saberia o que fazer. Sabia sempre. Tudo estava destinado a Brandon. Você, Winterfell, tudo. Ele nasceu para ser Mão do Rei e pai de rainhas. Eu nunca pedi para que este cálice me fosse transmitido. - Talvez não - disse Catelyn -, mas Brandon está morto, o cálice foi transmitido, e agora você deve beber dele, goste ou não. Ned virou-lhe as costas, devolvendo o olhar à noite. E ficou observando talvez a lua e as estrelas, talvez as sentinelas na muralha. Então Catelyn enterneceu-se ao ver sua dor. Eddard Stark casara com ela ocupando o lugar de Brandon, como mandava o costume, mas a sombra do irmão morto ainda pairava entre eles tal como a outra, a sombra da mulher que dera à luz seu filho bastardo. Preparava-se para se aproximar dele quando alguém bateu à porta, sonora e inesperadamente. Ned virou-se, franzindo o olho. - Que é? A voz de Desmond soou através da porta. - Senhor, Meistre Luwin está lá fora e suplica uma audiência urgente. - Disse-lhe que deixei ordens para não ser incomodado? - Sim, senhor. Ele insiste. - Muito bem. Mande-o entrar, Ned atravessou o quarto na direção de um roupeiro e enfiouse num roupão pesado. Catelyn subitamente percebeu como tinha ficado frio. Sentou-se na cama e puxou as peles até o queixo. - Talvez devêssemos fechar as janelas - sugeriu.


Ned anuiu de forma ausente. Meistre Luwin foi introduzido no aposento. O meistre era um pequeno homem cinzento, como seus olhos, rápidos, que viam muito. Os cabelos, o pouco que os anos lhe tinham deixado, eram cinzentos. Sua toga era de lã cinza ornamentada com pelo branco, as cores dos Stark. As grandes mangas pendentes tinham bolsos escondidos no interior. Luwin passava a vida a enfiar coisas nessas mangas e a delas extrair outras mais: livros, mensagens, estranhos artefatos, brinquedos para as crianças. Com tudo o que mantinha escondido nas mangas, Catelyn surpreendia-se de o Meistre Luwin ser capaz de erguer os braços. O meistre esperou até que a porta fosse fechada atrás de si antes de falar. - Meu senhor - disse a Ned -, perdoe-me por perturbar seu descanso. Foi-me deixada uma mensagem. Ned parecia irritado. - Foi-lhe deixada? Por quem? Chegou um cavaleiro? Não fui informado. - Não houve nenhum cavaleiro, senhor. Apenas uma caixa de madeira esculpida, deixada sobre a mesa do meu observatório enquanto eu cochilava. Meus servos não viram ninguém, mas deve ter sido trazida por alguém da comitiva do rei. Não recebemos nenhum outro visitante vindo do Sul. - Uma caixa de madeira, você diz? - falou Catelyn. - Lá dentro vinha uma nova lente de qualidade para o observatório, aparentemente proveniente de Myr. Os fabricantes de lentes de Myr não têm igual, Ned franziu a testa. Catelyn sabia que ele tinha pouca paciência para aquele tipo de coisa. - Uma lente - disse. - Que tem isso a ver comigo?


- Fiz-me a mesma questão - disse o Meistre Luwin. - Era claro que havia ali mais do que parecia. Sob o peso de suas peles, Catelyn estremeceu. - Uma lente é um instrumento para auxiliar a visão. - De fato, é - o meistre levou os dedos ao colar da sua ordem; uma corrente pesada, apertada em torno do pescoço sob a toga, com cada elo forjado de um metal diferente. Catelyn podia sentir o terror a agitar-se de novo dentro dela. - O que é que eles querem que vejamos mais claramente? - Foi isto mesmo o que me perguntei. - Meistre Luwin retirou um papel muito bem enrolado de dentro da manga. Encontrei a verdadeira mensagem escondida num fundo falso quando desmantelei a caixa em que a lente tinha vindo, mas não é para os meus olhos. Ned estendeu a mão. - Então dê-me. Luwin não se mexeu. - Meus perdões, senhor. A mensagem também não é para o senhor. Está marcada para os olhos da Senhora Catelyn, e apenas para ela. Posso me aproximar? Catelyn anuiu, faltando-lhe a confiança necessária para falar. O meistre colocou o papel na mesa ao lado da cama. Estava selado com uma pequena gota de cera azul. Luwin fez uma reverência e começou a retirar-se. - Fique - ordenou-lhe Ned. Sua voz era grave. Olhou para Catelyn. - Que se passa? Senhora, está tremendo. - Tenho medo - ela admitiu. Esticou o braço e pegou na carta com mãos trementes. As peles caíram, revelando sua nudez olvidada. Na cera azul encontrava-se o selo do falcão e da lua da Casa Arryn, - É de Lysa - Catelyn olhou para o marido. -


Não o deixará contente - ela disse ao marido. - Há dor nesta mensagem, Ned. Posso senti-la. Ned franziu a sobrancelha, e uma sombra cobriu seu rosto. - Abra-a. Catelyn quebrou o selo. Seus olhos moveram-se sobre as palavras. A princípio pareceu não encontrar nenhum sentido. Mas depois se recordou. - Lysa não deixou nada ao acaso. Quando éramos meninas, tínhamos uma língua privada. - Consegue lê-la? - Sim - admitiu Catelyn. - Então nos conte o que diz. Talvez deva me retirar - disse o Meistre Luwin. - Não - Catelyn pediu. - Precisaremos do seu aconselhamento - atirou as peles para o lado e saiu da cama. Ao caminhar pelo aposento, sentiu na pele nua o ar da noite, tão frio como uma sepultura. Meistre Luwin afastou o olhar. Até Ned pareceu chocado. - Que está fazendo? - perguntou. - Estou acendendo o fogo - ela informou. Encontrou um roupão e encolheu-se para dentro dele, ajoelhando-se depois junto à lareira fria. - O Meistre Luwin... - começou Ned. - O Meistre Luwin pôs no mundo todos os meus filhos - disse Catelyn. - Isto não é hora para falsos pudores - enfiou o papel entre os gravetos e colocou os troncos mais pesados por cima. Ned atravessou o quarto, agarrou-lhe o braço e a pôs de pé. Segurou-a assim, com o rosto a polegadas do dela. - Minha senhora, diga! O que era esta mensagem? Catelyn ficou tensa sob o aperto.


- Um aviso - disse com suavidade. - Se tivermos perspicácia para escutá-lo. Os olhos dele perscrutaram seu rosto. - Prossiga. - Lysa diz que Jon Arryn foi assassinado. Os dedos dele endureceram no seu braço. - Por quem? - Os Lannister - ela disse. - A rainha, Ned largou o braço. Havia profundas marcas vermelhas na pele dela. - Deuses - murmurou. Sua voz estava rouca. - Vossa irmã está doente de dor. Não pode saber o que diz. - Mas sabe - disse Catelyn. - Lysa é impulsiva, sim, mas esta mensagem foi cuidadosamente planejada, e inteligentemente escondida. Ela sabia que, se a carta caísse nas mãos erradas, isto significaria a morte. Para arriscar tanto, deve ter mais que meras suspeitas - Catelyn olhou para o marido. - Agora realmente não temos escolha. Você tem de ser a Mão de Robert. Tem de ir com ele para o Sul e saber a verdade. Viu de imediato que Ned tinha chegado a uma conclusão muito diferente. - As únicas verdades que conheço estão aqui. O Sul é um ninho de víboras que eu faria bem em evitar. Luwin puxou a corrente de seu colar no local onde lhe irritara a pele suave da garganta. - A Mão do Rei possui grande poder, senhor. Poder para descobrir a verdade sobre a morte de Lorde Arryn, para trazer seus assassinos à justiça do rei. Poder para proteger a Senhora Arryn e seu filho, se o pior se confirmar. Ned olhou desamparado em torno do aposento. O coração de Catelyn apiedou-se dele, mas sabia que ainda não podia tomá-


lo nos braços. Primeiro a vitória tinha de ser conseguida, para o bem de seus filhos. - Você diz que ama Robert como a um irmão. Gostaria de ver seu irmão rodeado pelos Lannister? - Que os Outros levem os dois - murmurou Ned em tom sombrio. Virou-lhes as costas e foi até a janela. Ela nada disse, assim como o meistre. Esperaram, calados, enquanto Eddard Stark dizia um silencioso adeus à casa que amava. Quando por fim se afastou da janela, tinha a voz cansada, repleta de melancolia, e um leve brilho úmido nos cantos dos olhos. - Meu pai foi uma vez para o Sul, a fim de responder à convocatória de um rei. Nunca mais regressou para sua casa. - Um tempo diferente - disse Meistre Luwin. - Um rei diferente. - Sim - disse Ned com uma voz entorpecida. Sentou-se numa cadeira perto da lareira. -Catelyn, você ficará aqui em Winterfell. As palavras foram como um sopro gelado que atravessava seu coração. - Não - respondeu, de súbito temerosa. Seria aquela a sua punição? Nunca voltar a ver o rosto dele, nem sentir seus braços em volta do seu corpo? - Sim - disse Ned, num tom de quem não toleraria discussões. - Deve governar o Norte em meu nome enquanto trato dos recados de Robert. Tem de haver sempre um Stark em Winterfell. Robb tem catorze anos. Em breve será homem feito. Tem de aprender a governar, e eu não estarei aqui para ajudá-lo. Faça-o tomar parte dos conselhos. Ele tem de estar pronto quando sua hora chegar. - Que os deuses permitam que ela não chegue por muitos anos - murmurou Meistre Luwin.


- Meistre Luwin, confio em vós como no meu próprio sangue. Dê à minha esposa a sua voz em todas as coisas grandes e pequenas. Ensine a meu filho aquilo que ele precisa saber. O inverno está para chegar. Meistre Luwin anuiu com gravidade. Então caiu o silêncio, até Catelyn reunir coragem e colocar a questão cuja resposta mais temia. - E as outras crianças? Ned levantou-se e tomou-a nos braços, trazendo-lhe o rosto para junto do seu. - Rickon é muito novo - disse, com suavidade. - Deve ficar aqui contigo e com Robb. Os outros levarei comigo. - Eu não suportaria - disse Catelyn, tremendo. - Tem de suportar - disse ele. - Sansa deverá desposar Joffrey, isto é agora claro; não devemos lhes dar bases para suspeitar da nossa devoção. E já é mais que tempo de Arya aprender os costumes de uma corte do Sul. Dentro de poucos anos também ela estará em idade de casar. Sansa brilharia no Sul, pensou Catelyn para si própria, e os deuses bem sabiam como Arya precisava de requinte. Relutantemente, abriu mão delas no coração. Mas Bran não. Bran nunca. - Sim - disse -, mas, por favor, Ned, pelo amor que me tem, deixe que Bran fique aqui em Winterfell. Ele só tem sete anos. - Eu tinha oito quando meu pai me enviou para ser criado no Ninho da Águia - ele respondeu. - Sor Rodrik me disse que existem maus sentimentos entre Robb e o Príncipe Joffrey. Isto não é saudável. Bran pode construir uma ponte sobre essa distância. É um rapaz amável, rápido para rir, fácil de amar. Deixe que cresça com os jovens príncipes, deixe que se


torne seu amigo como Robert se tornou meu. Nossa Casa ficará mais segura assim. Ele tinha razão, e Catelyn sabia. Mas isto não tornava a dor mais fácil de suportar. Então perderia todos os quatro: Ned e ambas as meninas, e o seu doce, amoroso Bran. Só lhe restariam Robb e o pequeno Rickon. Já se sentia só. Winterfell era um lugar tão vasto. - Então mantenha-o longe das muralhas - ela disse com bravura. - Você sabe como Bran gosta de escalar. Ned secou-lhe as lágrimas nos olhos com beijos, não lhes dando tempo de cair. - Obrigado, senhora minha - murmurou. - Isto é duro, bem sei. - E quanto ajon Snow, senhor? - perguntou Meistre Luwin. Catelyn retesou-se ao ouvir a menção ao nome. Ned sentiu a ira nela e afastou-se. Muitos homens eram pais de bastardos. Catelyn crescera com esse conhecimento. Não tinha sido surpresa para ela, no primeiro ano do casamento, saber que Ned fora pai de uma criança nascida de uma mulher qualquer, encontrada por acaso em campanha. Afinal de contas, tinha as necessidades de um homem, e os dois tinham passado aquele ano afastados, com Ned no Sul, na guerra, enquanto ela permanecia em segurança no castelo do pai, em Correrrio. Seus pensamentos iam mais para Robb, o bebê que amamentava, do que para o marido, que pouco conhecia. Qualquer consolo que ele encontrasse entre batalhas era-lhe indiferente, e se algum bebê vingasse, ela esperava que Ned assegurasse as necessidades da criança. Ele fez mais do que isso. Os Stark não eram como os outros homens. Ned trouxe o bastardo para casa consigo e chamou-o de "filho" para que todo o Norte ouvisse. Quando as guerras


enfim terminaram e Catelyn viajou para Winterfell, Jon e sua ama de leite já tinham estabelecido residência. O golpe foi profundo. Ned não falava da mãe, nem uma palavra, mas um castelo não tem segredos, e Catelyn escutou suas aias repetirem histórias que tinham ouvido dos maridos soldados. Segredavam sobre Sor Arthur Dayne, a Espada da Manhã, o mais mortífero dos sete cavaleiros da Guarda Real de Aerys, e sobre o modo como seu jovem senhor o tinha matado em combate singular. E contavam como Ned levara depois a espada de Sor Arthur à bela jovem irmã que o esperava num castelo chamado Tombastela, na costa do Mar do Verão. A Senhora Ashara Dayne, alta e de pele clara, com assombrosos olhos cor de violeta. Levara uma quinzena para reunir coragem, mas, por fim, uma noite na cama, Catelyn perguntara ao marido se aquilo era verdade, confrontando-o com a história. Fora a única vez em todos os anos passados juntos em que Ned a assustara. - Nunca me pergunte sobre Jon - ele dissera, frio como gelo. É do meu sangue, e é tudo o que precisa saber. E agora vou saber onde ouviu esse nome, minha senhora - ela tinha jurado obedecer. Cumprira a promessa. E a partir daquele dia os segredos pararam, e o nome de Ashara Dayne nunca mais voltou a ser ouvido em Winterfell. Quem quer que tivesse sido a mãe de Jon, Ned devia tê-la amado ferozmente, pois nada do que Catelyn dizia era capaz de convencê-lo a mandar o rapaz embora. Era a única coisa que nunca lhe perdoaria. Tinha acabado por amar o marido de todo o coração, mas nunca encontrara em si lugar para amar Jon. Por Ned, poderia ter ignorado uma dúzia de bastardos, desde que fossem mantidos longe de sua vista. Jon nunca estava longe da vista, e à medida que crescia ficava


mais parecido com o pai do que qualquer um dos filhos legítimos que lhe dera. De algum modo isso tornava as coisas piores. - Jon tem de ir - ela dizia agora. - Ele e Robb são próximos - disse Ned. - Tive esperança... - Ele não pode ficar aqui - disse Catelyn, interrompendo-o. - É seu filho, não meu. Não o quero aqui - ela sabia que era duro, mas não menos verdade por isso. Ned não faria bem algum ao rapaz deixando-o em Winterfell. O olhar que Ned lhe deitou foi de angústia. - Sabe que não posso levá-lo para o Sul. Não haverá lugar para ele na corte. Um rapaz com nome de bastardo... Sabe o que dirão dele. Será posto de lado. Catelyn fortificou o coração contra o apelo mudo nos olhos do marido. - Diz-se que seu amigo Robert foi pai de uma dúzia de bastardos. - E nenhum deles foi algum dia visto na corte! - exclamou Ned. - A Lannister assegurou-se disso. Como pode ser tão cruel, Catelyn? Ele não passa de um rapaz. Ele... Ele tinha a fúria no corpo. Poderia ter dito mais, e pior, mas Meistre Luwin intrometeu-se: - Outra solução se apresenta - disse, com voz calma. - O vosso irmão Benjen veio há alguns dias falar-me de Jon. Parece que o rapaz aspira a vestir negro. Ned pareceu chocado. - Ele pediu para se juntar à Patrulha da Noite? Catelyn nada disse. Que Ned trabalhe sozinho a ideia em sua mente; sua voz não seria agora bem-vinda. Mas de bom grado teria beijado o meistre naquele momento. Aquela era a solução perfeita. Benjen Stark era um Irmão Juramentado. Jon seria para ele um filho, o filho que nunca teria. E a seu


tempo, o rapaz faria também o juramento. Não seria pai de filhos que poderiam um dia competir com os netos de Catelyn pela posse de Winterfell. Meistre Luwin disse: - Existe grande honra no serviço na Muralha, senhor. - E mesmo um bastardo pode erguer-se a grande altura na Patrulha da Noite - refletiu Ned. Apesar disso, sua voz estava perturbada. - Jon é tão novo. Se o tivesse pedido depois de ter se tornado homem feito, seria uma coisa, mas um rapaz de catorze anos... - É um sacrifício duro - concordou Meistre Luwin. - Mas estes são tempos duros, senhor. O caminho dele não é mais cruel que o vosso ou o da vossa senhora. Catelyn pensou nos três filhos que teria de perder. Não foi fácil se manter em silêncio. Ned virou-lhes as costas para olhar pela janela, com o longo rosto silencioso e pensativo. Por fim, suspirou e voltou a virar-se. - Muito bem - disse a Meistre Luwin. - Suponho que é o melhor. Falarei com Ben. - Quando devemos dizê-lo ajon? - perguntou o meistre. - Quando tiver de ser. Há que se fazer preparativos. Passará uma quinzena antes de estarmos prontos para partir. Prefiro deixar Jon usufruir destes últimos dias, O fim do verão já está próximo, e o da infância também. Quando o momento certo chegar, comunicarei a ele eu próprio.

Arya Os pontos de Arya estavam de novo tortos. Franziu a sobrancelha, desapontada, e olhou de relance para onde a irmã Sansa estava entre as outras moças. Os bordados


de Sansa eram magníficos. Todos assim diziam. "O trabalho de Sansa é tão belo como ela" dissera uma vez Septã Mordane à senhora sua mãe. "Ela tem mãos tão bonitas e delicadas." Quando a Senhora Catelyn lhe perguntara por Arya, a septã fungara: "Arya tem as mãos de um ferreiro". Arya atravessou a sala com um olhar furtivo, com receio de que Septã Mordane pudesse ter lido seus pensamentos, mas hoje a septã não lhe prestava atenção. Estava sentada junto da Princesa Myrcella, toda sorrisos e admiração. Não era frequente que a septã fosse privilegiada com a instrução de uma princesa real nas artes femininas, como ela própria afirmara quando a rainha trouxera Myrcella, A Arya pareceu que os pontos de Myrcella também estavam um pouco tortos, mas ninguém o adivinharia pelo modo como a Septã Mordane tanto elogiava. Voltou a estudar o trabalho, procurando alguma maneira de salvá-lo, mas então suspirou e pousou a agulha. Olhou, carrancuda, para a irmã. Sansa tagarelava enquanto trabalhava, feliz. Beth Cassei, a filha mais nova de Sor Rodrik, estava sentada a seus pés, escutando cada palavra que ela dizia, e Jeyne Poole inclinava-se para lhe segredar qualquer coisa ao ouvido. - De que vocês falam? - perguntou Arya de súbito. Jeyne olhou-a com ar sobressaltado, e depois soltou um risinho. Sansa pareceu atrapalhada. Beth corou. Ninguém respondeu. - Digam-me - disse Arya. Jeyne olhou de relance para a Septã Mordane, a fim de se assegurar de que não a ouviria. Myrcella disse então qualquer coisa, e a septã riu como o resto das damas. - Estávamos falando do príncipe - disse Sansa, com a voz suave como um beijo.


Arya sabia a que príncipe se referia: Joffrey, claro. O alto e bonito. Sansa pudera sentar-se a seu lado no banquete. Arya tivera que se sentar ao lado do pequeno e gordo. Naturalmente. -Joffrey gosta da sua irmã - segredou Jeyne, tão orgulhosa como se tivesse alguma coisa a ver com o assunto. Era filha do intendente de Winterfell e a melhor amiga de Sansa. Disse-lhe que é muito bonita. - Vai casar com ela - disse a pequena Beth em tom sonhador, abraçando-se ao ar. - Depois Sansa será rainha de todo o reino. Sansa teve a delicadeza de corar, E corava lindamente. Fazia tudo lindamente, pensou Arya com um ressentimento surdo. - Beth, não devia inventar histórias - Sansa a censurou, afagando-lhe suavemente os cabelos para retirar a rispidez das palavras. Olhou para Arya: - Que pensa do Príncipe Joff, irmã? E muito galante, não acha? - Jon diz que parece uma moça - Arya respondeu. Sansa suspirou enquanto dava um pesponto. - Pobre Jon. Ele tem ciúmes porque é um bastardo. - Ele é nosso irmão - disse Arya, alto demais. Sua voz cortou o sossego da tarde na sala da torre. Septã Mordane ergueu os olhos. Tinha o rosto ossudo, olhos aguçados e uma fina boca sem lábios, feita para ser franzida. E agora assim estava. - Do que estão falando, crianças? - De nosso meio-irmão - respondeu Sansa, suave e precisa. Sorriu para a septã. - Arya e eu estávamos observando como é agradável termos a princesa hoje conosco - disse. Septã Mordane acenou com a cabeça, - De fato. Uma grande honra para todas nós - a Princesa Myrcella recebeu o cumprimento com um sorriso pouco firme.


- Arya, por que você não está trabalhando? - perguntou a septã. Pôs-se de pé, fazendo restolhar as saias engomadas ao atravessar a sala. - Deixe-me ver os seus pontos. Arya quis gritar. Era mesmo do feitio de Sansa atrair a atenção da septã. - Aqui está - disse, entregando o trabalho. A septã examinou o tecido. - Arya, Arya, Arya - disse. - Isto não serve. Isto não serve de modo nenhum. Todas estavam a olhá-la. Era demais. Sansa era demasiado bem-educada para sorrir da desgraça da irmã, mas havia o sorriso afetado de Jeyne no seu lugar. Até a Princesa Myrcella parecia ter pena dela, Arya sentiu que seus olhos se enchiam de lágrimas. Saltou da cadeira e correu para a porta. Septã Mordane a chamou. - Arya, volte aqui! Nem mais um passo! A senhora vossa mãe saberá disto. E na frente da nossa princesa real! Envergonhanos a todos! Arya parou à porta e voltou-se, mordendo o lábio. As lágrimas corriam-lhe agora pelo rosto. Conseguiu fazer uma pequena reverência rígida a Myrcella. - Com a vossa licença, minha senhora. Myrcella pestanejou e olhou para suas damas em busca de orientação. Mas onde faltava segurança à princesa, não faltava à Septã Mordane. - Exatamente aonde pensa que vai, Arya? - quis saber a septã. Arya lançou-lhe um olhar furioso. - Tenho de ir ferrar um cavalo - disse com doçura, obtendo uma breve satisfação da expressão chocada no rosto da septã. Então rodopiou e saiu, correndo pelos degraus abaixo tão depressa quanto os pés a conseguiam levar.


Não era justo. Sansa tinha tudo. Sansa era dois anos mais velha; talvez, quando Arya nasceu, já nada restava. Era frequente sentir-se assim. Sansa era capaz de costurar, dançar e cantar. Escrevia poesia. Sabia como vestir-se. Tocava harpa e sinos. Pior: era bela. Sansa recebera as belas maçãs do rosto altas da mãe e os espessos cabelos arruivados dos Tully. Arya saía ao senhor seu pai. Os cabelos eram de um castanho sem lustro, e o rosto, longo e solene. Jeyne costumava chamá-la Arya Cara de Cavalo, e relinchava sempre que ela se aproximava. A única coisa que Arya fazia melhor que a irmã era andar a cavalo, e isso doía. Bem, andar a cavalo e gerir uma casa. Sansa nunca tivera grande cabeça para números. Se se casasse com o Príncipe Joff, Arya esperava, para o bem dele, que o príncipe tivesse um bom intendente. Nymeria estava à sua espera na casa da guarda que se erguia na base da escadaria, e pôs-se em pé de um salto assim que a viu. Arya sorriu. A cria de lobo a amava, mesmo se ninguém mais o fizesse. Iam juntas para todo o lado, e Nymeria dormia no seu quarto, aos pés da cama. Se a Mãe não o tivesse proibido, Arya teria levado de bom grado a loba para a sala de costura. Gostaria de ver então Septã Mordane queixar-se de seus pontos. Nymeria mordiscou-lhe a mão, ansiosa, enquanto Arya a desatava. O animal possuía olhos amarelos. Quando capturavam a luz do sol, cintilavam como duas moedas de ouro. Arya dera-lhe o nome da rainha guerreira dos roinares, que levara seu povo para atravessar o mar estreito. Também isso fora um grande escândalo. Sansa, naturalmente, chamara à sua cria "Lady". Arya fez uma careta e abraçou a lobinha com força. Nymeria lambeu-lhe a orelha e ela soltou um risinho.


Àquela altura, Septã Mordane já teria por certo mandado uma mensagem à senhora sua mãe. Se fosse para o quarto, a encontrariam. Arya não queria ser encontrada. Teve uma ideia melhor. Os rapazes estavam treinando no pátio. Queria ver Robb atirar o galante Príncipe Joffrey ao chão. "Anda", sussurrou a Nymeria. Levantou-se e correu, com a loba a morder-lhe os calcanhares. Havia uma janela, na ponte coberta entre o armeiro e a Torre Grande, de onde se podia ver rodo o pátio. Foi para lá que se dirigiram. Chegaram, coradas e sem fôlego, e foram encontrar Jon sentado no parapeito, com um joelho onguidamente erguido até o queixo. Observava a ação tão absorvido que pareceu não se dar conta da aproximação da irmã até que o lobo branco foi ao encontro delas. Nymeria aproximou-se em patas cautelosas. Fantasma, já maior que os companheiros de ninhada, farejou-a, deu-lhe uma dentada cuidadosa na orelha, e voltou a instalar-se. Jon deitou-lhe uma olhadela curiosa. - Não devia estar trabalhando nos seus pontos, irmãzinha? Arya fez-lhe uma careta. - Queria vê-los lutar. Ele sorriu. - Então vem para cá. Arya trepou na janela e sentou-se ao lado do irmão, no meio de um coro de estrondos e grunhidos vindos do pátio, lá embaixo. Para sua desilusão, eram os rapazes mais novos que se exercitavam. Bran estava tão almofadado que parecia que tinha se afivelado a um colchão de penas, e Príncipe Tommen, que já era naturalmente rechonchudo, parecia


definitivamente redondo. Fanfarronavam, ofegavam e atacavam-se um ao outro com espadas almofadadas de madeira, sob o olhar vigilante de Sor Rodrik Cassei, o mestre de armas, um robusto homem em forma de barril, com magníficas suíças brancas. Uma dúzia de espectadores, homens e rapazes, os encorajavam, e, entre todas, a voz de Robb era a mais forte. Arya reconheceu Theon Greyjoy ao lado do irmão, de gibão negro ornamentado com a lula gigante dourada de sua Casa, ostentando no rosto um ar de retorcido desprezo. Ambos os combatentes cambaleavam. Arya concluiu que já lutavam havia algum tempo. - É um nadinha mais cansativo que o trabalho de agulhas observou Jon. - É um nadinha mais divertido que o trabalho de agulhas Arya retorquiu. Jon sorriu, esticou o braço e despenteou-lhe os cabelos. Arya corou. Sempre tinham sido próximos. Jon tinha o rosto do pai, tal como ela. Eram os únicos. Robb, Sansa, Bran e até o pequeno Rickon, todos saíram aos Tully, com sorrisos fáceis e fogo nos cabelos. Quando pequena, Arya tivera medo de isso querer dizer que também ela fosse bastarda. Fora a Jon que contara o medo, e fora ele quem a sossegara. - Por que não está no pátio? - perguntou-lhe Arya. Ele lhe deu um meio sorriso. - Não se permite a bastardos danificar jovens príncipes disse. - Quaisquer hematomas que recebam no pátio de treinos devem provir de espadas legítimas. - Ah - Arya sentiu-se envergonhada. Devia ter compreendido. Pela segunda vez naquele dia pensou que a vida não era justa. Observou o irmão mais novo bater em Tommen.


- Podia sair-me tão bem como Bran - disse. - Ele tem só sete anos, Eu tenho nove. Jon olhou-a com toda sua sabedoria de catorze anos. - Você é magra demais - disse. Pegou seu braço para apalpar o músculo. Então suspirou e abanou a cabeça. - Duvido até que conseguisse levantar uma espada, irmãzinha, quanto mais brandi-la. Arya recolheu o braço e lançou-lhe um olhar furioso. Jon voltou a despentear-lhe os cabelos. Observaram Bran e Tommen, que andavam em círculos ao redor um do outro. - Vê o Príncipe Joffrey? - perguntou Jon. Ao primeiro relance não o tinha visto, mas quando voltou a olhar, descobriu-o atrás dos outros, à sombra do alto muro de pedra. Estava rodeado por homens que não reconheceu, jovens escudeiros com librés dos Lannister e dos Baratheon, todos eles estranhos. Havia entre eles alguns homens mais velhos; cavaleiros, presumiu. - Olhe o brasão de sua capa - sugeriu Jon. Arya olhou. Um escudo ornamentado tinha sido bordado na capa almofadada do príncipe. Não havia dúvida de que o bordado era magnífico. O brasão estava dividido ao meio: de um lado tinha o veado coroado da Casa real; do outro, o leão de Lannister. - Os Lannister são orgulhosos - observou Jon. - Seria de se pensar que a chancela real seria suficiente, mas não. Ele faz a Casa da mãe igual em honra à do rei. - A mulher também é importante! - protestou Arya. Jon soltou um risinho. - Talvez devesse fazer o mesmo, irmãzinha. Casa Tully e Stark no seu brasão.


- Um lobo com um peixe na boca? - a idéia a fez rir. Pareceria disparatado, Além disso, se uma moça não pode lutar, por que haveria de ter um brasão de armas? Jon encolheu os ombros. - Às moças dão as armas, mas não as espadas. Aos bastardos dão as espadas, mas não as armas, Não fui eu que fiz as regras, irmãzinha. Ouviu-se um grito no pátio, embaixo. Príncipe Tommen rebolava na poeira, tentando sem sucesso pôr-se em pé. Todos aqueles almofadados faziam-no assemelhar-se a uma tartaruga virada de costas. Bran estava sobre ele, com a espada de madeira erguida, pronto a bater-lhe de novo assim que se levantasse. Os homens desataram a rir. - Basta! - gritou Sor Rodrik. Ofereceu a mão ao príncipe e o pôs de novo em pé. - Uma boa luta. Lew, Donnis, ajudem-nos a tirar as armaduras - olhou em volta. - Príncipe Joffrey, Robb, querem mais um assalto? Robb, já suado de uma luta anterior, avançou com ardor. - De bom grado, Joffrey saiu para o sol em resposta à chamada de Rodrik. Seus cabelos brilharam como ouro tecido. Parecia aborrecido. - Este é um jogo para crianças, Sor Rodrik. Theon Greyjoy soltou uma súbita gargalhada. - Vocês são crianças - disse, com ironia, - Robb pode ser uma criança - disse Joffrey. - Eu sou um príncipe. E já estou cansado de dar pancada nos Stark com uma espada de brincar. - Você levou mais pancada do que deu, Joff - disse Robb. Será que tem medo? Príncipe Joffrey olhou para ele:


- Ah, estou apavorado - disse. - Você é tão mais velho - alguns dos Lannister deram risada. Jon afastou os olhos da cena com um olhar carrancudo. -Joffrey é um verdadeiro merda - disse a Arya. Sor Rodrik puxou, pensativo, pelas suíças brancas. - O que sugere? - perguntou ao príncipe. - Aço vivo. - Feito - disparou Robb em resposta. - Vai se arrepender! O mestre de armas pôs a mão no ombro de Robb, tentando acalmá-lo. - Aço vivo é demasiado perigoso. Permitirei espadas de torneio, com gumes embotados. Joffrey não disse nada, mas um homem que era estranho a Arya, um cavaleiro alto com cabelos negros e cicatrizes de queimaduras no rosto, avançou para a frente do príncipe. - Este é o seu príncipe, Quem é você para lhe dizer que não pode ter um gume na espada, sor? - Sou o mestre de armas de Winterfell, Clegane, e faria bem se não se esquecesse disto. - Está aqui para treinar mulheres? - quis saber o homem queimado. Era musculoso como um touro. - Treino cavaleiros - respondeu severamente Sor Rodrik. Eles terão aço quando estiverem prontos. Quando tiverem idade. O homem queimado olhou para Robb. - Que idade você tem, rapaz? - Catorze anos - disse Robb. - Matei um homem aos doze. E pode ter certeza de que não foi com uma espada sem fio. Arya conseguia ver que Robb se irritava. Seu orgulho estava ferido. Virou-se para Sor Rodrik. - Deixe-me fazê-lo. Posso vencê-lo.


- Então, vença-o com uma lâmina de torneio - respondeu Sor Rodrik. Joffrey encolheu os ombros. - Venha ter comigo quando for mais velho, Stark. Se não já for velho demais - soaram gargalhadas vindas dos Lannister. As pragas de Robb ressoaram pelo pátio. Arya cobriu a boca, chocada. Theon Greyjoy agarrou o braço de Robb a fim de mantê-lo afastado do príncipe. Sor Rodrik coçou as suíças, consternado. Joffrey fingiu um bocejo e virou-se para o irmão mais novo. - Venha, Tommen - disse. - A hora da brincadeira terminou. Deixe as crianças com seus divertimentos. Aquilo provocou mais risos entre os Lannister, e mais pragas de Robb. O rosto de Sor Rodrik, por baixo do branco das suíças, estava vermelho como uma beterraba em fúria. Theon manteve Robb preso com mão de ferro até que os príncipes e sua comitiva se fossem em segurança. Jon observou-os partir, e Arya observou Jon. Seu rosto tinha ficado tão imóvel como a lagoa no coração do bosque sagrado. Por fim, ele desceu da janela. - O espetáculo acabou - disse. Dobrou-se para coçar Fantasma atrás das orelhas. O lobo branco pôs-se em pé e esfregou-se contra ele. - E melhor correr para o seu quarto, irmãzinha. Septã Mordane está sem dúvida à espreita. Quanto mais tempo ficar escondida, mais severa a penitência. Ficará a coser durante todo o inverno. Quando chegar o degelo da primavera, encontrarão seu corpo ainda com uma agulha bem presa entre os dedos congelados. Arya não achou graça. - Detesto costura! - disse com paixão. - Não é justo! - Nada é justo - disse Jon. Voltou a despentear-lhe os cabelos e afastou-se, com Fantasma a caminhar em silêncio ao seu


lado. Nymeria também começou a segui-los, mas depois parou e regressou quando viu que Arya não ia. Arya virou-se relutantemente na outra direção. Foi pior do que Jon pensara. Não era Septã Mordane quem a esperava no quarto. Eram Septã Mordane e sua mãe.

Bran Os caçadores partiram de madrugada. O rei desejava javali para o festim da noite. Príncipe Joffrey ia com o pai, e, por esse motivo, Robb foi também autorizado a juntar-se ao grupo. Tio Benjen, Jory, Theon Greyjoy, Sor Rodrik e até o pequeno e engraçado irmão da rainha iam com eles. Afinal, era a última caçada. Na manhã seguinte partiriam para o Sul. Bran fora deixado para trás com Jon, as meninas e Rickon. Mas Rickon era só um bebê, as meninas eram apenas meninas, e não encontravam Jon e seu lobo em lugar nenhum. Bran não o procurou com muita força. Pensava que Jon estivesse zangado com ele. Por aqueles dias, Jon parecia estar zangado com todo mundo. Bran não sabia por quê. Ele ia com Tio Ben para a Muralha, juntar-se à Patrulha da Noite. Isso era quase tão bom como ir para o Sul com o rei. Era Robb quem ia ser deixado para trás, não Jon. Ao longo de vários dias, Bran quase não conseguia esperar pela partida. Ia percorrer a estrada do rei montado num cavalo seu, não um pônei, mas um cavalo verdadeiro. O pai seria Mão do Rei, e viveriam no castelo vermelho em Porto Real, o castelo que os Senhores do Dragão tinham construído. A Velha Ama dizia que havia lá fantasmas, e masmorras onde tinham sido feitas coisas terríveis, e cabeças de dragão nas paredes. Bran arrepiava-se só de pensar nisso, mas não tinha


medo. Como podia ter? O pai estaria com ele, e também o rei, com todos os seus cavaleiros e homens de armas. O próprio Bran um dia seria um cavaleiro, um membro da Guarda Real. A Velha Ama dizia que eram os melhores espadachins de todo o reino. Eram apenas sete, usavam armaduras brancas e não tinham esposas nem filhos, viviam apenas para servir o rei. Bran conhecia todas as histórias. Os nomes deles eram como música para os seus ouvidos. Serwyn do Escudo Espelhado; Sor Ryam Redwyne; Príncipe Aemon, o Cavaleiro do Dragão; os gêmeos, Sor Erryk e Sor Arryk, que tinham morrido pelas espadas um do outro havia centenas de anos, quando irmãos lutavam contra irmãs na guerra que os poetas chamavam a Dança dos Dragões; Touro Branco, Gerold Hightower; Sor Arthur Dayne, a Espada da Manhã; e Barristan, o Ousado. Dois dos Guardas do Rei tinham vindo para o Norte com Rei Robert. Bran observara-os, fascinado, sem chegar a se atrever a dirigir-lhes a palavra. Sor Borós era um homem calvo com um maxilar largo, e Sor Meryn tinha olhos inclinados e uma barba cor de ferrugem. Sor Jaime Lannister parecia-se mais com os cavaleiros das histórias e também pertencia à Guarda do Rei, mas Robb dizia que ele tinha matado o velho rei louco e já não contava. O maior cavaleiro vivo era Sor Barristan Selmy, Barristan, o Ousado, o Senhor Comandante da Guarda do Rei. O pai prometera que conheceriam Sor Barristan quando chegassem a Porto Real, e Bran marcara a passagem dos dias na parede do quarto, ansioso por partir, por ver um mundo com que só sonhara e começar uma vida que quase nem conseguia imaginar. Mas agora que o último dia se aproximava, repentinamente Bran sentia-se perdido. Winterfell era a única casa que conhecera. O pai dissera-lhe que devia fazer hoje as suas


despedidas, e ele tentou. Depois de os caçadores terem partido, vagueou pelo castelo com o lobo a seu lado, tencionando visitar aqueles que ficariam ali, a Velha Ama e o cozinheiro Gage, Mikken na sua forja, Hodor, o cavalariço que sorria tanto, cuidava de seu pônei e nunca dizia nada que não fosse "Hodor"; o homem nos jardins de vidro que lhe dava uma amora silvestre sempre que ia visitá-lo... Mas foi inútil. Dirigiu-se primeiro ao estábulo e viu seu pônei na baia, mas já não era seu pônei, pois teria um cavalo verdadeiro e deixaria o pônei para trás, e de repente quis apenas sentar e chorar, Virou-se e fugiu dali antes que Hodor e os outros moços da estrebaria lhe vissem as lágrimas nos olhos. Foi o fim das despedidas. Em lugar delas, passou a manhã sozinho no bosque sagrado, tentando sem sucesso ensinar o lobo a buscar um pedaço de pau. O lobinho era mais inteligente que qualquer dos cães no canil do pai, e Bran juraria que entendia cada palavra que lhe era dita, mas mostrava muito pouco interesse em perseguir pedaços de pau. Ainda andava à procura de um nome. Robb chamara ao seu cão Vento Cinzento porque ele corria muito depressa. Sansa chamara Lady ao seu, e Arya dera ao seu o nome de uma rainha qualquer feiticeira das canções, e o pequeno Rickon chamara ao seu Cão Felpudo, o que Bran julgava ser um nome bastante estúpido para um lobo gigante. O lobo de Jon, o branco, chamava-se Fantasma. Bran gostaria de ter pensado primeiro nesse nome, apesar de seu lobo não ser branco. Tentara cem nomes ao longo da última quinzena, mas nenhum lhe parecera ideal. Por fim, cansou-se do jogo do pau e decidiu escalar. Havia semanas que não subia à torre quebrada, por causa de tudo o que acontecera, e aquela poderia ser sua última oportunidade.


Atravessou correndo o bosque sagrado, escolhendo o caminho mais longo a fim de evitar a lagoa onde crescia a árvorecoração. Ela sempre o assustara; as árvores não deveriam ter olhos, pensava Bran, nem folhas que se parecessem com mãos, O lobo corria junto aos seus calcanhares. - Fica aqui - disse ao animal na base da árvore sentinela que crescia ao lado da parede do armeiro. - Deita. Isso. Agora fica. O lobo fez o que lhe foi ordenado. Bran coçou-o atrás das orelhas e depois se virou, saltou, agarrou um ramo baixo e içou-se. Estava no meio da árvore, deslocando-se com facilidade de ramo em ramo, quando o lobo se pôs em pé e começou a uivar. Bran olhou para baixo. O lobo calou-se, olhando-o através das fendas de seus olhos amarelos. Um estranho arrepio o atravessou, mas recomeçou a trepar. Uma vez mais o lobo uivou. - Quieto - gritou. - Senta. Fica. Você é pior que a minha mãe os uivos seguiram-no até o topo da árvore quando, por fim, saltou para o telhado do armeiro e para fora de vista. Os telhados de Winterfell eram a segunda casa de Bran. A mãe dizia frequentemente que ele já era capaz de escalar antes de aprender a andar. Bran não se lembrava de quando começara a andar, mas tampouco se lembrava do momento em que começara a escalar; portanto, supunha que devia ser verdade. Para um rapaz, Winterfell era um labirinto de pedra cinzenta, com paredes, torres, pátios e túneis que se estendiam em todas as direções. Nas partes mais antigas do castelo, os salões inclinavam-se para cima e para baixo, de modo que nem era possível saber ao certo o andar em que se estava. Meistre Luwin dissera-lhe uma vez que o edifício fora crescendo ao longo dos séculos como se fosse uma monstruosa árvore de


pedra, com ramos nodosos, grossos e retorcidos, e raízes que se afundavam profundamente na terra. Quando saía de baixo dessa espécie de árvore e subia até perto do céu, Bran conseguia ver todo Winterfell de um relance. E gostava do aspecto do lugar, estendido à sua frente, apenas com aves a rodopiar sobre sua cabeça enquanto toda a vida do castelo prosseguia lá embaixo, Bran podia ficar horas empoleirado entre as gárgulas sem forma, desgastadas pela chuva, que matutavam no topo da Primeira Torre, observando tudo: os homens que se exercitavam com madeira e aço no pátio, os cozinheiros que cuidavam de suas plantas no jardim de vidro, cães irrequietos que corriam para um lado e para outro nos canis, o silêncio do bosque sagrado, as moças que mexericavam junto ao poço das lavagens. Fazia-o sentirse senhor do castelo, de um modo que nem mesmo Robb conheceria. E também lhe revelava os segredos de Winterfell. Os construtores nem sequer tinham nivelado a terra; havia colinas e vales por trás dos muros de Winterfell. Havia uma ponte coberta que ligava o quarto piso da torre sineira ao segundo piso do aviário. Bran a conhecia. E também sabia que podia entrar na muralha interior pelo portão sul, subir três pisos e correr por todo Winterfell dentro de um túnel estreito aberto na pedra, e depois sair ao nível do chão no portão norte com trinta metros de muralha a elevar-se acima da sua cabeça. Bran estava convencido de que nem — esmo Meistre Luwin sabia disso. A mãe andava aterrorizada com a possibilidade de Bran um dia escorregar de um muro e matar-se. Ele dissera-lhe que isso não aconteceria, mas ela nunca acreditou. Uma vez o fez prometer que permaneceria no chão. Ele conseguiu cumprir a promessa durante quase uma quinzena, infeliz todos os dias,


até que uma noite saiu pela janela do quarto quando os irmãos estavam mergulhados no sono. Confessou o crime no dia seguinte, num ataque de remorso. O Senhor Eddard ordenou-lhe que fosse se purificar no bosque sagrado. Foram destacados guardas para assegurar que Bran permaneceria lá toda a noite, sozinho, a refletir sobre sua desobediência. Na manhã seguinte, Bran não se encontrava em lado nenhum. Foram finalmente encontrá-lo, profundamente adormecido, nos ramos superiores da mais alta árvore sentinela do bosque. Por mais zangado que estivesse, o pai não conseguiu evitar uma gargalhada. - Você não é meu filho - disse a Bran quando o trouxeram para baixo -, é um esquilo. Que seja. Se tem de escalar, então escale, mas não deixe que sua mãe o veja. Bran fez o melhor que pôde, embora achasse que nunca conseguira realmente enganá-la. Como o pai não o proibia, ela virara-se para outros lados. A Velha Ama contou-lhe uma história sobre um mau rapazinho que escalou alto demais e foi atingido por um relâmpago, e sobre o modo como os corvos vieram depois bicar-lhe os olhos. Bran não se impressionou. Havia ninhos de corvo no topo da torre quebrada, onde nunca ninguém ia, além dele, e às vezes enchia os bolsos de milho antes de escalar até lá, e os corvos comiam de sua mão. Nenhum jamais mostrou alguma vez a mais leve intenção de lhe bicar os olhos. Mais tarde, Meistre Luwin moldou um pequeno rapaz de barro, vestiu-o com as roupas de Bran e atirou-o do muro para o pátio a fim de demonstrar o que aconteceria a Bran se caísse. Foi divertido, mas depois da demonstração Bran limitou-se a olhar para o meistre e dizer: - Não sou feito de barro. E, seja como for, nunca caio.


Depois disso, durante algum tempo os guardas o perseguiam sempre que o viam nos telhados e tentavam puxá-lo para baixo. Foi a melhor época de todas. Era como brincar com os irmãos, exceto que naquele jogo era sempre Bran quem ganhava. Nenhum dos guardas era capaz de escalar tão bem como Bran, nem metade, nem mesmo Jory. E, fosse como fosse, a maior parte das vezes nem sequer o viam. As pessoas nunca olhavam para cima. Era outra coisa que apreciava em escalar; era quase como ser invisível. E também gostava da sensação de se içar por um muro acima, pedra a pedra, com os dedos das mãos e dos pés enterrando-se com força nas pequenas fendas que havia entre elas. Quando escalava, tirava sempre as botas e subia descalço; aquilo o fazia se sentir como se tivesse quatro mãos em vez de duas. Gostava da dor profunda e doce que sentia depois nos músculos. Gostava do sabor que o ar tinha lá em cima, doce e frio como um pêssego de inverno. Gostava dos pássaros: os corvos na torre quebrada, os minúsculos pardais que faziam ninho nas fendas entre as pedras, a velha coruja que dormia no sótão poeirento que ficava por cima do antigo armeiro. Bran conhecia-os todos. E acima de tudo gostava de ir a lugares onde ninguém mais podia ir e de ver a extensão cinzenta de Winterfell de um modo que nunca ninguém vira. Transformava todo o castelo no lugar secreto de Bran. Seu local favorito era a torre quebrada. Antigamente tinha sido uma torre de atalaia, a mais alta de Winterfell. Há muito tempo, cem anos antes mesmo que seu pai tivesse nascido, um relâmpago a incendiara. O terço superior da estrutura tinha tombado para dentro, e a torre nunca fora reconstruída. Por vezes, seu pai mandava caçadores de ratos até a base dela para limpar os ninhos que encontravam sempre por entre a confusão de


pedras caídas e traves queimadas e podres. Mas agora nunca ninguém ia até o topo irregular da estrutura, salvo Bran e os corvos. Conhecia duas maneiras de chegar lá. Podia-se ir diretamente, escalando o lado da própria torre, mas as pedras estavam soltas, a argamassa que as mantivera juntas havia muito que tinha se transformado em cinzas, e Bran nunca gostara de pôr todo seu peso em cima delas. A melhor maneira era partir do bosque sagrado, escalar a grande sentinela, atravessar o armeiro e o salão dos guardas, saltando de telhado em telhado descalço, para que os guardas não ouvissem. Depois disso, estava-se no lado oculto da Primeira Torre, a mais antiga parte do castelo, uma fortaleza quadrada e atarracada que era mais alta do que parecia. Só ratos e aranhas ali viviam agora, mas as velhas pedras ainda davam uma boa escalada. Podia-se ir diretamente até o local onde as gárgulas se inclinavam, cegas, sobre o espaço vazio, e balançar de gárgula em gárgula, uma mão depois da outra, até o lado norte. Daí, caso se esticasse bem, podia alcançar a torre quebrada e içar-se em direção a ela no lugar onde se inclinava para mais perto. A última parte era engatinhar pelas pedras enegrecidas até o ponto mais elevado, não mais que três metros, e então chegariam os corvos, para ver se tinha trazido milho. Bran estava passando de gárgula em gárgula com a facilidade de uma longa prática quando ouviu as vozes. Ficou tão sobressaltado que quase perdeu o apoio. A Primeira Torre estivera vazia toda sua vida. - Não estou gostando - uma mulher dizia. Havia uma fileira de janelas por baixo de Bran, e a voz saía da última janela daquele lado. - Você é que devia ser a Mão.


- Que os deuses o proíbam - respondeu indolentemente uma voz masculina. - Não é honra que eu deseje. Dá um trabalho desmedido. Bran ficou ali, pendurado, à escuta, com medo de prosseguir. Eles poderiam ver de relance seus pés se tentasse passar pela janela. - Não vê o perigo em que isto nos coloca? - disse a mulher. Robert adora o homem como a um irmão. - Robert quase não tem estômago para os irmãos. Não que o censure. O Stannis seria suficiente para dar uma indigestão a qualquer um. - Não se faça de tolo. Stannis e Renly são uma coisa, Eddard Stark é outra totalmente diferente. Robert escutará Stark. Malditos sejam ambos. Eu devia ter insistido para que ele o nomeasse, mas tinha certeza, de que Stark lhe diria não. - Deveríamos agradecer por nossa sorte - disse o homem. - O rei podia perfeitamente ter nomeado um de seus irmãos, ou mesmo o Mindinho, que os deuses nos protejam. Dê-me inimigos honrados em vez de ambiciosos e dormirei melhor à noite. Bran compreendeu que falavam de seu pai. Quis ouvir mais. Mais alguns pés... mas o veriam se balançasse na frente da janela. — Teremos de vigiá-los cuidadosamente - disse a mulher. - Eu preferiria vigiar você - disse o homem, soando aborrecido. - Volte aqui. - Lorde Eddard nunca mostrou nenhum interesse em nada que acontecesse ao sul do Gargalo - disse a mulher. - Nunca. Escute-me bem, ele planeja uma jogada contra nós. Por que turro motivo aceitaria abandonar a sede do seu poder?


- Por cem motivos. O dever. A honra. Deseja escrever seu nome em letras grandes no livro rk História, fugir da mulher ou ambas as coisas. Talvez não queira mais do que estar quente por ama vez na vida. - A mulher é irmã da Senhora Arryn. É um milagre que Lysa não esteja aqui para nos receber com suas acusações. Bran olhou para baixo. Havia um estreito parapeito por baixo da janela, só com algumas polegadas de largura. Tentou abaixar-se até lá. Estava longe demais. Nunca o alcançaria. - Aborrece-se em demasia. Lysa Arryn é uma vaca assustada, - Essa vaca assustada partilhava a cama dejon Arryn. - Se soubesse alguma coisa, teria ido falar com Robert antes de fugir de Porto Real. - Depois de já termos concordado em criar aquele fracote do seu filho em Rochedo Casterly? Não me parece. Ela sabia que a vida do rapaz ficaria refém do seu silêncio. Mas pode se tornar mais ousada, agora que está a salvo no topo do Ninho da Águia. - Mães - o homem fez a palavra soar como uma praga. - Acho que dar à luz faz qualquer coisa às vossas mentes. São todas loucas - ele riu, um som amargo. - Que a Senhora Arryn se torne tão ousada quanto desejar. Seja o que for que ela sabe, seja o que for que ela pensa que sabe, rio tem provas - fez uma pausa momentânea. - Ou será que tem? - Você julga que o rei precisará de provas? - disse a mulher, Já te disse que ele não me ama. - E quem tem culpa disso, querida irmã? Bran estudou o parapeito. Podia cair. Era demasiado estreito para aterrisar nele, mas se conseguisse se segurar ao passar por ele e depois içar-se... Mas isso faria barulho e os traria até


a janela. Não tinha certeza do que estava ouvindo, mas sabia que não se destinava aos seus ouvidos. - É tão cego como Robert - dizia a mulher, - Se quer com isso dizer que vejo as mesmas coisas, então, sim - disse o homem. - Vejo um homem que mais depressa morreria do que trairia seu rei. —Já traiu um, ou será que se esqueceu? - disse a mulher. Ah, não nego que ele é leal ao Robert, isto é óbvio. O que acontecerá quando Robert morrer e Joff subir ao trono? E, quanto mais depressa isso acontecer, mais seguros estaremos todos. Meu marido fica dia a dia mais inquieto. Stark a seu lado só o fará ficar pior. Ainda ama sua irmã, a insípida miudinha morta de dezesseis anos. Quanto tempo demorará para decidir me pôr de lado em favor de alguma nova Lyanna? Bran ficou de súbito muito assustado. Nada mais desejava do que regressar pelo caminho de onde tinha vindo e ir à procura dos irmãos. Mas o que poderia dizer a eles? Compreendeu que tinha de se aproximar mais. Tinha de ver quem estava falando. O homem suspirou. - Devia pensar menos no futuro e mais nos prazeres próximos. - Para com isso! - disse a mulher. Bran ouviu o súbito som de carne batendo em carne, e em seguida o riso do homem. Bran içou-se, escalou a gárgula, rastejou para o telhado. Era a maneira mais fácil. Deslocou-se ao longo do telhado até a gárgula seguinte, que ficava mesmo por cima da janela do quarto onde os dois conversavam. - Todo este falatório está se tornando muito cansativo, irmã disse o homem. - Venha cá e se cale.


Bran sentou-se na gárgula com uma perna para cada lado, apertou-as em redor dela e deslizou até ficar de cabeça para baixo. Pendurou-se pelas pernas e esticou a cabeça lentamente até a janela. O mundo parecia estranho de pernas para o ar. Um pátio nadava vertiginosamente lá embaixo, com as lajes ainda úmidas da neve derretida. Bran olhou pela janela. Dentro do quarto, um homem e uma mulher lutavam. Estavam ambos nus. Bran não conseguia ver quem eram. As costas do homem estavam voltadas para ele, e seu corpo ocultou a mulher quando ele a empurrou contra a parede, Ouviam-se sons suaves e úmidos. Bran percebeu que se beijavam. Observou, assustado e de olhos esbugalhados, com a respiração apertada na garganta. O homem tinha uma mão entre as pernas da mulher, e a devia estar machucando, porque ela começou a gemer, com voz profunda. - Para - disse ela - para, para. Ah, por favor... - mas a voz era baixa e fraca, e ela não o empurrava para longe. As mãos enterraram-se nos emaranhados cabelos dourados dele e puxaram--lhe o rosto para o peito. Bran viu-lhe o rosto. Os olhos dela estavam fechados e a boca aberta, gemendo. Os cabelos moviam-se de um lado para o outro quando a cabeça dela se deslocava para a frente e para trás, mas, mesmo assim, reconheceu a rainha. Deve ter feito algum ruído. De súbito, os olhos dela abriramse e fitaram-no. Ela gritou. Então, tudo aconteceu ao mesmo tempo. A mulher empurrou precipitadamente o homem, gritando e apontando. Bran tentou içar-se, dobrando-se sobre si próprio ao tentar alcançar a gárgula. Mas o fez com muita pressa. A mão arranhou inutilmente a pedra lisa, e no seu pânico as pernas deslizaram e, de repente, viu-se caindo. Houve um instante de vertigem,


um desamparo nauseante quando a janela passou por ele. Esticou a mão, agarrou o parapeito, perdeu-o, voltou a agarrá-lo com a outra mão. Bateu com força no edifício. O impacto tirou-lhe o fôlego. Bran ficou suspenso por uma mão, arquejando. Rostos surgiram na janela acima dele, A rainha. E agora Bran reconhecia o homem a seu lado. Eram tão parecidos como reflexos num espelho. - Ele nos viu - disse a mulher com voz esganiçada. - Pois viu. Os dedos de Bran começaram a deslizar. Agarrou o parapeito com a outra mão. Suas unhas enterraram-se na pedra dura. O homem estendeu um braço. - Agarre a minha mão - disse. - Antes que caia. Bran agarrou-lhe o braço com toda sua força. O homem o puxou até o umbral. - Que está fazendo? - quis saber a mulher. O homem a ignorou. Era muito forte. Pôs Bran em pé sobre o parapeito. - Que idade tem, rapaz? - Sete anos - disse Bran, tremendo de alívio. Seus dedos tinham marcado profundas estrias no braço do homem. Largou-o, envergonhado. O homem olhou para a mulher. - As coisas que faço por amor - disse, com repugnância. Deu um empurrão em Bran. Gritando, Bran caiu da janela de costas para o vazio. Nada havia a que se pudesse agarrar. O pátio correu ao seu encontro. Em algum lugar, ao longe, um lobo uivava. Corvos voavam em círculos sobre a torre quebrada, esperando por milho.


Tyrion Em algum lugar no grande labirinto de pedra de Winterfell um lobo uivou. O som pairou sobre o castelo como uma bandeira de luto. Tyrion Lannister ergueu os olhos dos seus livros e estremeceu, apesar de a biblioteca estar quente e aconchegante. Há algo no uivar de um lobo que tira um homem do seu aqui e agora e o deposita numa floresta escura da mente, correndo nu à frente da matilha. Quando o lobo gigante voltou a uivar, Tyrion fechou o pesado livro encadernado a couro que estava lendo, um discurso com cem anos de um meistre há muito morto sobre a mudança das estações. Cobriu um bocejo com as costas da mão. Sua lanterna de leitura bruxuleava, com o óleo quase gasto, enquanto a luz da madrugada se esgueirava pelas janelas elevadas. Tinha passado a noite inteira lendo, mas nada havia de novo. Tyrion Lannister não era homem de dormir muito. Quando deslizou do banco, sentiu as pernas rígidas e doloridas. Devolveu-lhes alguma vida com uma massagem e mancou pesadamente até a mesa onde o septão ressonava baixinho, com um livro aberto a servir-lhe de almofada. Tyrion deitou um olhar de relance ao título. Não admirava: era uma biografia do Grande Meistre Aethelmure. - Chayle - disse, em voz baixa. O jovem ergueu-se de um salto, pestanejando, confuso, com o cristal de sua ordem balançando vigorosamente na ponta de sua corrente de prata. - Vou quebrar o jejum. Trate de pôr os livros de volta nas prateleiras. Tome cuidado com os rolos valirianos, porque o pergaminho está muito seco. O Máquinas de Guerra de Ayrmidon é bastante raro, e a sua é a única cópia completa


que já vi - Chayle olhou-o de boca aberta, ainda meio adormecido. Pacientemente, Tyrion repetiu as instruções, depois deu ao septão uma palmada no ombro e o deixou com suas tarefas. No exterior, Tyrion encheu os pulmões com o ar frio da manhã e começou sua laboriosa descida dos íngremes degraus de pedra que se enrolavam em torno do exterior da torre da biblioteca. Era um avanço lento; os degraus eram altos e estreitos, ao passo que as pernas eram curtas e torcidas. O sol nascente ainda não iluminava os muros de Winterfell, mas os homens já estavam muito ativos no pátio, lá embaixo. A voz áspera de Sandor Clegane vagueou até seus ouvidos. - O rapaz leva muito tempo para morrer. Gostaria que se fosse logo. Tyrion olhou para baixo de relance e viu o Cão de Caça em pé ao lado de Joffrey, enquanto escudeiros formigavam em redor. - Pelo menos morre em silêncio - respondeu o príncipe. - E o lobo que faz barulho. Quase não consegui dormir esta noite. Clegane lançou uma longa sombra sobre a terra bem batida quando seu escudeiro levantou o elmo negro sobre sua cabeça. - Posso silenciar a criatura, se o agraciar - disse através do visor aberto. O ajudante colocou-lhe uma espada na mão. Clegane testou o seu peso cortando o ar frio da manhã. Atrás dele, o pátio ressoava com o som estridente de aço a bater em aço. A idéia pareceu encher o príncipe de prazer. - Mandar um cão matar um cão! - exclamou. - Winterfell está tão infestado de lobos que os Stark nunca se darão conta da falta de um. Tyrion saltou do último degrau para o pátio.


- Permita-me discordar, sobrinho - disse. - Os Stark são capazes de contar até seis. Ao contrário de certos príncipes que eu poderia citar. Joffrey teve pelo menos a educação de corar. - Uma voz vinda de lugar algum - disse Sandor. Espreitou através do elmo, olhando para um lado e para outro. Espíritos do ar! O príncipe riu, como ria sempre que o guarda-costas fazia aquela farsa de pantomimeiro. lyrion já estava habituado. - Aqui embaixo. O homem alto espreitou para o chão e fingiu reparar nele. - O pequeno senhor Tyrion - disse. - As minhas desculpas. Não o vi aí, - Hoje não tenho disposição para a sua insolência - Tyrion virou-se para o sobrinho. - Joffrey, íá é mais que tempo de ir falar com Lorde Eddard e sua senhora para lhes oferecer seu consolo. Joffrey pareceu tão petulante como só um jovem príncipe podia ser. - E que bem lhes faria o meu consolo? - Nenhum - disse Tyrion. - Mas espera-se que faça isto. Sua ausência foi notada. - O rapaz Stark não me é nada - disse Joffrey. - Não consigo suportar os choros das mulheres. Tyrion Lannister ergueu o braço e deu no sobrinho um forte tapa na cara. A bochecha do rapaz começou a corar. - Uma palavra - disse Tyrion -, e bato outra vez. - Vou contar para minha mãe! - exclamou Joffrey. Tyrion bateu-lhe de novo. Agora ambas as bochechas ardiam. - Vai lá contar para ela - disse-lhe Tyrion. - Mas primeiro vá falar com o Senhor e a Semora Stark, ponha-se de joelhos e


lhes diga o quanto lamenta e que está a seu serviço se houver alguma coisa que possa fazer por eles nesta hora desesperada, e que lhes dedica todas as suas preces. Compreende? Compreende? O rapaz fez cara de quem ia chorar. Mas, em vez disso, deu um fraco aceno com a cabeça. Depois se virou e fugiu correndo do pátio, com as mãos cobrindo o rosto. Tyrion ficou vendo-o correr. Uma sombra caiu-lhe sobre o rosto. Virou-se e deparou com Clegane, que se erguia acima ia sua cabeça como uma falésia. A armadura negra como fuligem do cavaleiro parecia embotar o sol. Ele tinha baixado o visor do elmo, moldado de forma a parecer-se com a cabeça de um cão de caça negro, de dentes arreganhados, assustador ao olhar, mas Tyrion sempre o considerara uma grande melhoria comparado à cara horrivelmente queimada de Clegane. - O príncipe se recordará disto, pequeno senhor - preveniu o Cão de Caça, e o elmo transformou sua gargalhada num estrondo oco. - Rezo para que se recorde - respondeu Tyrion Lannister. Caso se esqueça, seja um bom cãozinho e o relembre - passou os olhos pelo pátio. - Sabe onde posso encontrar meu irmão? - Está no desjejum com a rainha. - Ah - respondeu Tyrion. Inclinou negligentemente a cabeça para Sandor Clegane e afastou-se, assobiando, com tanta vivacidade quanto suas pernas deformadas permitiam. Sentia pena do primeiro cavaleiro a medir forças hoje com o Cão de Caça. O homem tinha mau gênio. Uma refeição fria e triste tinha sido servida na sala de estar da Casa de Hóspedes. Jaime estava sentado a uma mesa com Cersei e as crianças, conversando em voz baixa e abafada,


- Robert ainda está deitado? - perguntou Tyrion ao sentar-se à mesa sem ser convidado. A irmã o olhou com a mesma tênue expressão de desagrado que ostentava desde o dia em que ele nascera. - O rei não chegou a dormir - informou. - Está com Lorde Eddard. O desgosto do amigo o atingiu profundamente no coração. - Tem um grande coração o nosso Robert - disse Jaime com um sorriso indolente. Eram muito poucas as coisas que Jaime levava a sério. Tyrion conhecia essa característica do irmão, e o perdoava. Durante todos os terríveis longos anos da infância, só Jaime lhe mostrara o menor sinal de afeto ou respeito, e por isso Tyrion estava pronto a perdoar-lhe quase tudo. Um servo aproximou-se. - Pão - disse-lhe Tyrion -, e dois daqueles peixinhos, e uma caneca daquela bela cerveja preta para empurrá-los para baixo. Ah, e algum bacon. Queime-o até ficar preto - o homem fez uma reverência e afastou-se. Tyrion voltou a virar-se para os irmãos. Gêmeos, um homem e uma mulher. E, naquela manhã, pareciam-se muito. Ambos tinham escolhido um verde profundo que combinava com seus olhos. Os caracóis louros eram em ambos uma confusão elegante, e ornamentos de ouro brilhavam em seus pulsos, dedos e gargantas. Tyrion perguntou a si próprio como seria ter um gêmeo, mas decidiu que preferia não saber. Já era suficientemente ruim encarar-se todos os dias no espelho. Outro dele era uma idéia terrível demais para imaginar. Príncipe Tommen falou: - Tem notícias de Bran, tio?


- Passei ontem à noite pela enfermaria - anunciou Tyrion. Não havia alterações. O meistre acha que é sinal esperançoso. - Não quero que Brandon morra - disse Tommen timidamente. Era um bom rapaz. Não era como o irmão, mas também Jaime e Tyrion não eram propriamente a imagem um do outro. - Lorde Eddard tinha também um irmão chamado Brandon meditou Jaime. - Um dos reféns assassinados por Targaryen. Parece ser um nome sem sorte. - Ah, certamente não é assim tão desafortunado - disse Tyrion. O servo trouxe-lhe o prato, e ele partiu um bocado de pão escuro. Cersei o estava estudando com prudência. - O que quer dizer? Tyrion deu-lhe um sorriso torto. - Ora, apenas que Tommen pode ver realizado seu desejo. O meistre pensa que o rapaz pode sobreviver - e bebeu um trago de cerveja. Myrcella fez um arquejo de contentamento, e Tommen sorriu nervosamente, mas Tyrion não estava observando as crianças. O olhar que Jaime e Cersei trocaram não durou mais de um segundo, mas não lhe passou despercebido. Então, a irmã deixou cair seu olhar sobre a mesa. - Isto não é nenhuma misericórdia. Estes deuses nortenhos são cruéis ao deixar que crianças passem por tamanha dor. - Quais foram as palavras do meistre? - Jaime perguntou. O bacon estalou ao ser mordido. Tyrion mastigou por um momento, pensativo, e disse: - Ele pensa que se o rapaz fosse morrer, já teria acontecido. E já se passaram quatro dias sem nenhuma alteração.


- Será que Bran ficará melhor, tio? - perguntou a pequena Myrcella, que tinha toda a beleza da mãe, mas nada da sua natureza, - Ele quebrou a coluna, minha menina - informou Tyrion. - O meistre só tem esperança - Tyrion mastigou mais um pouco de pão. - Eu seria capaz de jurar que é aquele seu lobo que o mantém vivo. A criatura fica junto à sua janela dia e noite uivando. E sempre que o afugentam, ele volta. O meistre disse que uma vez fecharam a janela, para abafar o barulho, e Bran pareceu ficar mais fraco. Quando voltaram a abri-la, seu coração bateu com mais força. A rainha estremeceu. - Há qualquer coisa que não é natural nesses animais - disse. São perigosos. Não quero que nenhum deles venha para o Sul conosco. Jaime interveio: - Teremos dificuldade em impedi-los de ir, irmã. Eles seguem aquelas moças para todo lado. Tyrion atacou o peixe. - Vão então partir em breve? - Não será breve o suficiente - disse Cersei. Então franziu a sobrancelha. - Não vamos partir? - ela disse alto. - Então, e você? Deuses, não me diga que vai ficar aqui? Tyrion encolheu os ombros. - Benjen Stark regressará à Patrulha da Noite com o filho bastardo do irmão. Penso em ir com eles e ver esta Muralha de que tanto ouvimos falar. Jaime sorriu. - Espero que não esteja pensando em vestir o negro, querido irmão. Tyrion soltou uma gargalhada.


- O quê, eu, celibatário? As prostitutas passarão a pedintes entre Dorne e Rochedo Casterly. Não, só quero subir ao topo da Muralha e mijar do limite do mundo. Cersei se pôs abruptamente em pé. - As crianças não têm de ouvir esta nojeira. Tommen, Myrcella, venham - Cersei saiu da sala re estar em passo vivo, seguida pela cauda do vestido e pelas crias. Jaime Lannister observou o irmão, pensativo, com seus frios olhos verdes, - Stark nunca consentirá em abandonar Winterfell com o filho pairando sob as sombras da morte. - Ele consentirá se Robert ordenar - disse Tyrion. - E Robert ordenará. De qualquer forma, não há nada que Lorde Eddard possa fazer pelo filho. - Poderia pôr fim ao seu tormento - disse Jaime. - Era o que eu faria se fosse meu filho. Seria um ato de misericórdia. - Aconselho-o que não sugira essa idéia a Lorde Eddard, meu querido irmão - disse Tyrion. - Ele não a receberá de bom grado. - Mesmo que o rapaz sobreviva, será um aleijado. Pior que um aleijado. Uma coisa grotesca. Eu preferiria uma morte boa e limpa. Tyrion respondeu com um encolher de ombros que acentuou o modo como eram torcidos. - Falando em nome das coisas grotescas - disse -, permito-me discordar. A morte é terrivelmente final, ao passo que a vida está cheia de possibilidades. Jaime sorriu. - Você é um duendezinho perverso, não é?


- Ah, sim - admitiu Tyrion. - Espero que o rapaz acorde. E vou ficar muito interessado em ouvir o que ele pode ter a dizer. O sorriso do irmão coagulou como leite azedo. - Tyrion, meu querido irmão - disse ele em tom sombrio -, há momentos em que você me dá motivo para duvidar de que lado esteja. A boca de Tyrion estava cheia de pão e de peixe. Bebeu um trago da forte cerveja preta para empurrar tudo para baixo e dirigiu a Jaime um sorriso de lobo. - Ora, Jaime, meu querido irmão - disse -, assim você me magoa. Bem sabe como amo minha família.

Jon Jo n subiu os degraus devagar, tentando não pensar que aquela podia ser a última vez. Fantasma caminhava em silêncio ao seu lado. Lá fora, a neve rodopiava através dos portões do rasteio, e o pátio era um lugar de barulho e caos, mas dentro das espessas paredes de pedra ainda havia calor e silêncio. Muito silêncio para o gosto de Jon. Chegou ao patamar e ficou ali por um longo momento, com medo. Fantasma encostou o focinho em sua mão e Jon conseguiu coragem por causa do contato. Endireitou-se e entrou no quarto. A Senhora Stark estava lá, junto à cama. Estivera ali, noite e dia, ao longo de quase quinze dias. Nem por um momento abandonara a cabeceira de Bran. Ordenara que as refeições lhe fossem trazidas, e também os banhos e uma pequena cama dura para dormir, embora se dissesse que quase não tinha dormido. Ela própria o alimentava com a mistura de


mel, água e ervas que lhe sustentava a vida. Nem uma vez deixara o quarto. Por isso Jon mantivera-se afastado. Mas agora não havia mais tempo. Parou à porta por um momento, com medo de falar, de se aproximar. A janela estava aberta, lá embaixo um lobo uivava. Fantasma o ouviu e ergueu a cabeça. A Senhora Stark olhou para ele. Por um momento não pareceu reconhecê-lo. Por fim, pestanejou. - O que você está fazendo aqui? - perguntou numa voz estranhamente monótona e despida de emoção. - Vim ver Bran - Jon respondeu. - Dizer-lhe adeus, O rosto dela não se alterou. Seus longos cabelos ruivos estavam opacos e emaranhados. Parera ter envelhecido vinte anos. - Acabou de dizer. Agora, vá embora. Parte dele só desejava fugir, mas sabia que se o fizesse podia nunca mais ver Bran. Deu um nervoso passo para dentro do quarto. - Por favor - ele pediu. Algo frio se moveu nos olhos dela. - Eu disse para sair. Não o queremos aqui. Tempos atrás, aquilo o teria posto a correr, até talvez o tivesse feito chorar. Mas agora só o neixou zangado. Seria em breve um Irmão Juramentado da Patrulha da Noite, e enfrentaria peri-ps maiores que Catelyn Tully Stark. - Ele é meu irmão - disse. - Terei de chamar os guardas? - Chame-os - disse Jon, em desafio. - Não pode me impedir de vê-lo - atravessou o quarto, mantendo a cama entre ele e a Senhora Stark, e olhou para Bran. Ela segurava uma das mãos do filho. Parecia uma garra. Este não era o Bran de que Jon se lembrava. A carne tinha


desaparecido toda. A pele esticava-se, apertada, sobre ossos espetados. Por baixo do cobertor, as pernas dobravam-se de uma maneira que o enchia de náusea. Os olhos estavam profundamente afundados em poços negros; abertos, mas nada viam. A queda de algum modo o encolhera. Quase parecia uma folha, como se o primeiro vento forte o fosse levar para a tumba. E, no entanto, sob a frágil gaiola daquelas costelas estilhaçadas, o peito subia e descia a cada respiração pouco profunda. - Bran - disse Jon -, lamento não ter vindo antes. Tive medo conseguia sentir as lágrimas rolarem pelo rosto. Já não se importava. - Não morra, Bran, Por favor. Estamos todos à espera que você acorde. Robb e eu, e as meninas, todos... A Senhora Stark observava. Não tinha gritado pelos guardas, e Jon tomou o fato por aceitação. Fora da janela, o lobo gigante voltou a uivar. O lobo a que Bran não tivera tempo de pôr um nome. - Tenho agora de ir embora - disse Jon. - Tio Benjen está à espera. Vou para o Norte, para a Muralha. Temos de partir hoje, antes da chegada das neves - lembrou-se de como Bran estivera excitado com a perspectiva da viagem. O pensamento de deixá-lo para trás assim era mais do que conseguia suportar. Jon limpou as lágrimas, inclinou-se e deu um beijo ligeiro nos lábios do irmão. - Eu quis que ele ficasse aqui comigo - disse a Senhora Stark em voz baixa. Jon a observou, desconfiado. Ela nem sequer o olhava. Não estava falando para ele, mas para uma parte de si, era como se ele nem estivesse no quarto. - Rezei para que isso acontecesse - disse ela em voz baça. - Ele era o meu rapazinho especial. Fui até o septo e rezei sete vezes


aos sete rostos de deus para que Ned mudasse de idéia e o deixasse aqui comigo. Por vezes as preces são respondidas. Jon não sabia o que dizer. - A culpa não foi da senhora - conseguiu falar, depois de um silêncio incômodo. Os olhos dela o encontraram. Estavam cheios de veneno. - Não me faz falta a sua absolvição, bastardo. Jon baixou os olhos. Ela embalava uma das mãos de Bran. Ele pegou na outra e a apertou. Dedos como ossos de pássaro. - Adeus - ele se despediu. Já tinha chegado à porta quando ela o chamou. - Jon - ele devia ter continuado a andar, mas ela nunca antes o chamara pelo nome. Virou-se e a viu olhando-o no rosto, como se o visse pela primeira vez. - Sim? - ele respondeu, - Deveria ter sido você - ela disse, e então voltou a virar-se para Bran e começou a chorar, todo o corpo a estremecer com os soluços, Jon nunca antes a vira chorar. Foi uma longa descida até o pátio. Lá fora, tudo era barulho e confusão. Carregavam-se carroças, homens gritavam, eram postas armaduras e selas em cavalos que eram tirados da cavalariça. Começara a cair uma neve ligeira, e toda a gente estava mergulhada no tumulto da partida. Robb encontrava-se no meio da confusão, gritando ordens com os melhores desses homens. Parecia ter crescido ultimamente, como se a queda de Bran e o colapso da mãe o tivessem de algum modo tornado mais forte. Vento Cinzento estava a seu lado. - Tio Benjen anda à sua procura - ele disse a Jon. - Queria ter partido há uma hora.


- Eu sei - Jon respondeu. - Em breve - olhou em volta, para todo o ruído e confusão. - Partir é mais difícil do que eu pensava. - Para mim também - disse Robb. Tinha neve nos cabelos, que derretia com o calor do corpo. - Você o viu? Jon fez um aceno, por não confiar na voz. - Ele não vai morrer - disse Robb. - Eu sei. - Vocês, os Stark, são difíceis de matar - concordou Jon. A voz saiu sem entoação e cansada. A visita tinha levado toda sua força. Robb percebeu que havia algo de errado. - A minha mãe,.. - Ela foi... muito amável - disse-lhe Jon. Robb pareceu aliviado. - Ótimo - sorriu. - Da próxima vez que o vir, estará todo de negro. Jon forçou-se a devolver o sorriso. - Sempre foi a minha cor. Daqui a quanto tempo pensa que isso acontecerá? - Não muito - prometeu Robb. Puxou Jon para si e lhe deu um forte abraço. - Até a vista, Snow. Jon devolveu o abraço. - Até a vista, Stark. Cuide de Bran. - Cuidarei - afastaram-se e olharam um para o outro, embaraçados. - Tio Benjen disse para mandá-lo para os estábulos se o visse - disse Robb por fim. - Tenho mais uma despedida a fazer - informou Jon. - Então não o vi - respondeu Robb. Jon o deixou ali, na neve, rodeado de carroças, lobos e cavalos. Era uma curta caminhada até o armeiro. Recolheu seu embrulho e dirigiu-se pela ponte coberta até a Torre.


Arya estava no seu quarto, enchendo uma arca de pau-ferro polido que era maior que ela. Nymeria a ajudava. Arya só tinha de apontar, e a loba atravessava o quarto de um salto, abocanhava algum bocado de seda e o trazia de volta. Mas quando farejou Fantasma, sentou-se e soltou um ganido. Arya olhou para trás, viu Jon e pôs-se em pé de um salto. Atirou-lhe os braços magros com torça ao pescoço. - Temia que já tivesse partido - ela disse, com um nó na garganta. - Não me deixaram sair para dizer adeus. - O que foi que você fez agora? - a voz de Jon soava divertida. Arya o largou e fez uma careta. - Nada. Estava de malas feitas e tudo - indicou com um gesto a enorme arca, que não estava mais que um terço cheia, e as roupas espalhadas por todo o quarto. - Septã Mordane diz que tenho de fazer tudo outra vez. Não tinha as coisas dobradas como deve ser, uma senhora respeitável do Sul não se limita a atirar a roupa para dentro da arca como trapos velhos, ela me disse. - E foi isso o que você fez, irmãzinha? - Bem, a roupa vai ficar toda bagunçada de qualquer modo disse Arya. - Quem se importa como está dobrada? - Septã Mordane - Jon respondeu. - E também não me parece que ela goste de ver Nymeria ajudando - a loba olhou-o em silêncio com seus escuros olhos dourados. - Mas ainda bem. Tenho uma coisa que quero que leve contigo, e tem de ser muito bem embalada. O rosto dela iluminou-se. - Um presente? - Pode dar-lhe esse nome. Feche a porta. Desconfiada, mas excitada, Arya verificou o átrio.


- Nymeria, aqui. Guarda - deixou a loba do lado de fora a fim de avisá-los se intrusos se aproximassem e fechou a porta. Nessa altura, Jon tinha já removido os panos em que embrulhara a coisa. Apresentou-a à irmã. Os olhos de Arya abriram-se muito. Olhos negros, como os dele. - Uma espada - disse ela numa voz baixa e segredada. A bainha era de suave couro cinzento, tão maleável como o pecado. Jon desembainhou a lâmina devagar, para que ela visse o profundo brilho azul do aço. - Isto não é um brinquedo - disse-lhe. - Tenha cuidado para não se cortar. O gume é suficientemente afiado para fazer a barba. - Moças não fazem a barba - disse Arya. - Mas talvez devessem. Já viu as pernas da septã? Ela riu. - É tão fininha. - Tal como você - disse-lhe Jon. - Mandei Mikken fazer isto especialmente para você. Os espadachins usam espadas destas em Pentos, Myr e nas outras Cidades Livres. Não arrancará a cabeça de um homem, mas pode enchê-lo de buracos se for suficientemente rápida. - Eu posso ser rápida - disse Arya. - Terá de treinar todos os dias - colocou a espada em suas mãos, mostrou-lhe como pegar e deu um passo para trás. Como você a sente? Gosta do equilíbrio? - Acho que sim - disse Arya. - Primeira lição - disse Jon. - Espete neles a ponta aguçada. Arya deu-lhe uma pancada no braço com a parte plana da lâmina. O golpe doeu, mas Jon começou a sorrir como um idiota.


- Eu sei qual é a ponta que se usa - disse Arya. Um olhar de dúvida atravessou-lhe o rosto. - Septã Mordane vai tirá-la de mim. - Não, se não souber que a tem - disse Jon. - Com quem hei de treinar? - Há de encontrar alguém - prometeu-lhe Jon. - Porto Real é uma verdadeira cidade, mil vezes maior que Winterfell. Até encontrar um parceiro, observe como lutam no pátio. Corra, ande a cavalo, fortaleça-se. E, faça o que fizer... Arya sabia o que vinha a seguir. Os dois disseram ao mesmo tempo: - ... não... conte... a... Sansa! Jon afagou-lhe os cabelos. - Vou sentir sua falta, irmãzinha. De súbito, ela pareceu quase chorar. - Queria que viesse conosco. - Por vezes, estradas diferentes vão dar no mesmo castelo. Quem sabe? - estava se sentindo melhor agora. Não ia permitir a si próprio ficar triste. - Tenho de ir. Acabarei passando o primeiro ano na Muralha a despejar penicos se deixar Tio Benjen à espera mais tempo. Arya correu para ele para um último abraço, - Largue a espada primeiro - Jon a preveniu, rindo. Ela pôs a arma de lado quase timidamente e o encheu de beijos. Quando ele se virou, já na porta, ela estava de novo com a espada na mão, testando seu equilíbrio. - Ia me esquecendo - disse. - Todas as melhores espadas têm nomes. - Como a Gelo - disse ela. Olhou a espada que tinha na mão. E esta, tem nome? Ah, diga-me. - Não adivinha? - brincou Jon. - A sua coisa favorita.


Arya a princípio pareceu desorientada. Mas depois compreendeu. Era assim: rápida. Os dois disseram juntos: - Agulha! A memória da gargalhada dela o aqueceu ao longo da demorada viagem para o Norte.

Daenerys Targaryen desposou Khal Drogo com medo, e um esplendor bárbaro, num descampado para lá das muralhas de Pentos, pois os dothrakis acreditavam que todas as coisas importantes na vida de um homem deviam ser feitas a céu aberto. Drogo chamou seu khalasar para servi-lo e eles vieram, quarenta mil guerreiros dothrakis e um número incontável de mulheres, crianças e escravos. Acamparam fora das muralhas da cidade com suas vastas manadas de gado, erguendo palácios de erva trançada, comendo tudo o que encontravam e tornando o bom povo de Pentos mais ansioso a cada dia que passava, - Meus colegas magísteres duplicaram o tamanho da guarda da cidade - informou Illyrio certa noite na mansão que pertencera a Drogo, entre bandejas de pato com mel e laranjas-pimenta. O khal juntara-se a seu khalasar, e sua propriedade fora oferecida a Daenerys e ao irmão até o casamento. - É melhor que casemos depressa a Princesa Daenerys, antes que entreguem metade da riqueza de Pentos a mercenários e sicários - brincou Sor Jorah Mormont. O exilado pusera a espada a serviço do irmão de Dany na noite em que fora


vendida a Khal Drogo; Viserys aceitara-a com avidez. Mormont tornara-se desde então uma companhia constante. Magíster Illyrio soltou uma ligeira gargalhada através da barba bifurcada, mas Viserys nem sequer sorriu. - Pode tê-la amanhã, se assim desejar - disse o príncipe. Olhou de relance para Dany e ela abaixou os olhos. - Desde que pague o preço. Illyrio ergueu uma mão lânguida, fazendo cintilar anéis nos seus gordos dedos, - Já lhe disse, tudo está acertado. Confie em mim. O khal lhe prometeu uma coroa, e a terá. - Sim, mas quando? - No momento que o khal escolher - Illyrio respondeu. - Ele terá primeiro a donzela, e depois do casamento terá de fazer sua procissão pela planície para apresentá-la a dosh khaleen em Vaes Dothrak. Talvez depois disso. Se os presságios favorecerem a guerra. Viserys fervilhou de impaciência. - Eu cago nos presságios dothrakis. O Usurpador está sentado no trono de meu pai. Quanto tempo terei de esperar? Illyrio encolheu os enormes ombros. - Já esperou a maior parte da vida, grande rei. Que são mais alguns meses, mais alguns anos? Sor Jorah, que viajara para o leste até Vaes Dothrak, concordou com um aceno. - Aconselho-o a ser paciente, Vossa Graça. Os dothrakis cumprem com a palavra dada, mas fazem as coisas ao seu próprio ritmo. Um homem inferior pode suplicar um favor ao khal, mas nunca deve ter a presunção de censurá-lo. Viserys eriçou-se.


- Cuidado com a língua, Mormont, ou ainda acabará por ficar sem ela. Não sou nenhum homem inferior, sou o Senhor de direito dos Sete Reinos. O dragão não suplica. Sor Jorah baixou respeitosamente os olhos. Illyrio deu um sorriso enigmático e arrancou uma asa do pato. Mel e gordura escorreram-lhe pelos dedos e pingaram-lhe na barba quando mordiscou a carne tenra. Já não há dragões, pensou Dany, de olhos fixos no irmão, embora não se atrevesse a dizê-lo em voz alta. Apesar disso, naquela noite sonhara com um. Viserys batia nela, a machucava. Ela estava nua, atrapalhada de medo. Fugiu dele, mas o corpo parecia pesado e desajeitado. Ele bateu nela de novo. Ela tropeçou e caiu. "Você acordou o dragão", gritava ele enquanto lhe dava pontapés. Acordou o dragão, acordou o dragão." Tinha as coxas escorregadias de sangue. Fechou os olhos e choramingou. Como que em resposta, ouviu-se um hediondo som de rasgar e o estalar de um grande fogo. Quando voltou a olhar, Viserys tinha desaparecido, grandes colunas de chamas trguiam-se por toda a parte e, no meio delas, estava o dragão. Virou lentamente a grande cabeça, guando os olhos fundidos do animal encontraram os dela, acordou, tremendo e coberta por uma fina película de suor. Nunca tivera tanto medo... ... Até o dia em que seu casamento por fim chegou. A cerimônia iniciou-se de madrugada e prosseguiu até o crepúsculo, um dia que parecia não ter fim de bebida, comida e luta. Um monumental talude de terra fora erguido entre os palácios de erva e Dany foi colocada ali sentada, ao lado de Khal Drogo, sobre o fervente mar de dothrakis. Nunca vira tantas pessoas no mesmo lugar, nem pessoas tão estranhas e assustadoras. Os senhores dos cavalos podiam vestir tecidos ricos e usar doces perfumes quando visitavam as Cidades


Livres, mas a céu aberto mantinham os velhos costumes. Tanto os homens quanto as mulheres trajavam vestimentas de couro pintado sobre os peitos nus e polainas de pelo de cavalo cilhadas por cintos com medalhões de bronze, e os guerreiros untavam suas longas tranças com gordura que tiravam de fossas abertas. Empanturravam-se de carne de cavalo assada com mel e pimentões, bebiam leite fermentado de égua e os vinhos delicados de Illyrio até cair e cuspiam ditos de espírito uns aos outros, por cima das fogueiras, com vozes ásperas e estranhas aos ouvidos de Dany. Viserys estava sentado logo abaixo dela, magnífico numa túnica nova de lã negra com um oragão escarlate no peito. Illyrio e Sor Jorah sentavam-se ao seu lado. Era deles o lugar de maior honra, logo abaixo dos companheiros de sangue do khal, mas Dany percebia a ira nos olhos lilás do irmão. Não gostava de estar sentado abaixo dela, e exasperava-se sempre que os escravos ofereciam os pratos primeiro ao khal e à noiva, e lhe davam para escolher entre as porções que eles recusavam. Nada podia fazer além de embalar o ressentimento, e foi isso que fez, com o humor a tornar-se mais negro com o passar das horas e dos insultos à sua pessoa. Dany nunca se sentira tão só como enquanto esteve sentada no meio daquela vasta horda. Seu irmão lhe dissera para sorrir, e portanto sorriu até lhe doer o rosto e as lágrimas lhe subirem ros olhos sem serem convidadas. Fez o melhor que pôde para escondê-las, sabendo como Viserys ficaria zangado se a visse a chorar, aterrorizado com a possível reação de Khal Drogo. Era-lhe trazida comida, peças fumegantes de carne, grossas salsichas negras, tortas dothraki de sangue, e mais tarde frutos, guisados de erva-doce e delicadas tortas doces vindas das cozinhas de Pentos, mas afastou tudo com


gestos. Seu estômago dava voltas e sabia que não conseguiria manter nele qualquer alimento. Não havia ninguém com quem falar. Khal Drogo gritava ordens e brincadeiras aos companheiros de sangue, e ria de suas respostas, mas quase não olhava para o seu lado. Não tinham nenhuma língua em comum. O dothraki era incompreensível para ela, e o khal sabia apenas algumas palavras do valiriano adulterado das Cidades Livres, e nem uma única do Idioma Comum dos Sete Reinos. Ela até teria acolhido bem a conversa de Illyrio e do irmão, mas estavam demasiado afastados para ouvi-la. E assim ali ficou, sentada em suas sedas nupciais, embalando uma taça de vinho com mel, com medo de comer, falando em silêncio consigo mesma. Sou do sangue do dragão, disse a si própria. Sou Daenerys, Filha da Tormenta, Princesa da Pedra do Dragão, do sangue e semente de Aegon, o Conquistador. O sol estava apenas no primeiro quarto do céu quando viu o primeiro homem morrer. Soavam tambores acompanhando algumas das mulheres que dançavam para o khal. Drogo assistia sem expressão, mas seus olhos seguiam-lhes os movimentos e, de vez em quando, atirava-lhes um medalhão de bronze para que elas o disputassem. Os guerreiros também assistiam. Por fim, um deles entrou no círculo, agarrou uma dançarina pelo braço, atirou-a no chão e montou-a ali mesmo, como um garanhão monta uma égua. Illyrio dissera-lhe que aquilo poderia acontecer. "Os dothrakis acasalam como os animais de suas manadas. Não há privacidade num khalasar, e eles não compreendem o pecado ou a vergonha como nós." Dany afastou o olhar da união, assustada ao compreender o que estava acontecendo, mas um segundo guerreiro avançou,


e um terceiro, e em breve não havia maneira de desviar os olhos. Então dois homens agarraram a mesma mulher. Ouviu um grito, viu um empurrão, e num piscar de olhos tinham sido empunhados os arakhs, longas lâminas afiadas como navalhas, meio espadas, meio foices. Começou uma dança de morte, e os guerreiros andaram em círculos, dando golpes, saltando um sobre o outro, fazendo rodopiar as lâminas sobre as cabeças, guinchando insultos a cada entrechocar de metal. Ninguém fez um gesto para interferir. Acabou tão depressa como começou. Os arakhs estremeceram um contra o outro mais depressa do que Dany conseguia acompanhar, um dos homens falhou um passo, o outro brandiu a lâmina num arco horizontal. O aço mordeu a pele acima da cintura do dothraki e o abriu da espinha ao umbigo, derramando-lhe as entranhas na poeira. Enquanto o perdedor morria, o vencedor agarrou-se à mulher mais próxima - nem sequer aquela por quem tinha lutado - e a possuiu ali mesmo. Escravos levaram o corpo para longe e a dança recomeçou. Magíster Illyrio também prevenira Dany sobre aquilo. "Uma boda dothraki sem pelo menos três mortes é considerada aborrecida" dissera. O casamento dela devia ter sido especialmente abençoado; antes de o dia terminar, tinha morrido uma dúzia de homens. A medida que as horas foram passando, o terror cresceu em Dany, até que se transformou em tudo o que a impedia de gritar. Tinha medo dos dothrakis, cujos modos pareciam estranhos e monstruosos, como se fossem animais em pele humana, e não verdadeiros homens. Tinha medo do irmão, do que ele poderia fazer se ela lhe falhasse. Acima de tudo, tinha medo do que poderia acontecer naquela noite, sob as estrelas, quando o irmão a desse ao pesado gigante que bebia a seu


lado, com um rosto tão imóvel e cruel como uma máscara de bronze. Sou do sangue do dragão, disse de novo a si mesma. Quando o sol por fim baixou no céu, Khal Drogo bateu palmas, e os tambores, os gritos e o festim chegaram a um súbito fim. Drogo ergueu-se e pôs Dany de pé a seu lado. Tinha chegado o tempo dos seus presentes de noiva. E ela sabia que depois dos presentes, depois do sol desaparecido no horizonte, chegaria o momento da primeira cavalgada e da consumação do casamento. Dany tentou afastar esse pensamento, mas ele não a abandonava. Apertou os braços contra o corpo, tentando evitar tremer. O irmão Viserys ofereceu-lhe três aias. Dany sabia que nada lhe tinham custado, que sem dúvida fora Illyrio quem tinha oferecido as mulheres. Irri e Jhiqui eram dothrakis de pele acobreada, cabelos negros e olhos amendoados, Doreah era uma jovem lysena de cabelos claros e olhos azuis. - Estas não são criadas comuns, minha doce irmã - disse-lhe o irmão enquanto as traziam uma por uma. - Illyrio e eu as selecionamos pessoalmente para você. Irri a ensinará a montar, Jhiqui a treinará na língua dothraki e Doreah a instruirá nas artes femininas do amor - ele deu um tênue sorriso. - É muito boa. Tanto Illyrio como eu podemos jurar. Sor Jorah Mormont desculpou-se pelo presente. - É coisa pouca, minha princesa, mas é tudo aquilo de que um pobre exilado pode dispor - disse, ao pôr-lhe à frente uma pequena pilha de velhos livros. Viu que eram canções e histórias dos Sete Reinos, escritas no Idioma Comum. Agradeceu-lhe de todo o coração. Magíster Illyrio murmurou uma ordem e quatro corpulentos escravos apressaram-se a avançar, trazendo entre eles uma grande arca de cedro com aplicações em bronze. Quando a


abriu, encontrou pilhas dos mais finos veludos e damascos que as Cidades Livres podiam produzir... e, em cima de tudo, aninhados nos suaves panos, três enormes ovos. Dany ofegou. Eram as coisas mais belas que já vira, diferentes uns dos outros, com padrões de cores tão ricas que ela a princípio pensou que estivessem incrustados de jóias, e tão grandes que precisava de ambas as mãos para pegar num. Ergueu um delicadamente, à espera de encontrá-lo feito de algum tipo de fina porcelana ou delicado esmalte, ou até de vidro soprado, mas era muito mais pesado do que julgara, como se todo ele fosse rocha sólida. A superfície da casca estava coberta de minúsculas escamas, e quando rodou o ovo entre os dedos elas cintilaram como metal polido à luz do sol poente. Um ovo era de um verde profundo, com manchas de lustroso bronze que iam e vinham, dependendo do modo como Dany o virava. Outro era creme-claro listrado de dourado. O último era negro, tão negro como o mar da meia-noite, mas vivo, com ondulações e remoinhos escarlates. - O que são? - perguntou, com a voz baixa e maravilhada. - Ovos de dragão, vindos das Terras das Sombras para lá de Asshai - disse Magíster Illyrio. — As eras os transformaram em pedra, mas ainda possuem uma beleza ardente e brilhante. - Serão preciosos a mim para sempre - Dany ouvira histórias sobre aqueles ovos, mas nunca vira nenhum, nem pensara chegar a vê-los. Era um presente realmente magnífico, se bem que ela soubesse que Illyrio tinha possibilidade de ser generoso. Ganhara uma fortuna em cavalos e escravos pelo papel que desempenhara na sua venda a Khal Drogo. Os companheiros de sangue do khal ofereceram-lhe as três armas tradicionais, e que estupendas armas eram. Haggo deulhe um grande chicote de couro com cabo de prata; Cohollo,


um magnífico arakh com relevos em ouro; e Qotho, um arco de dupla curvatura, feito de osso de uragão, mais alto que ela. Magíster Illyrio e Sor Jorah tinham-lhe ensinado a recusa tradicional daquelas oferendas. - Este é um presente digno de um grande guerreiro, ah, sangue do meu sangue, e eu não passo de uma mulher. Que o senhor meu marido o use em meu nome - e assim Khal Drogo também recebeu os seus "presentes de noiva". Dany ainda ganhou uma profusão de outros presentes, oferecidos por outros dothrakis: chinelos, jóias e anéis de prata para o cabelo, cintos de medalhão, vestes pintadas e peles suaves, tecidos de sedareia e potes de perfume, agulhas, penas e minúsculas garrafas de vidro púrpuro, e um vestido feito da pele de mil ratos. - Um belo presente, khaleesi - disse Magíster Illyrio deste último, depois de lhe dizer o que era. - Muito afortunado. Os presentes amontoavam-se em seu redor em grandes pilhas, mais presentes do que poderia imaginar, desejar ou usar. E, no fim de tudo, Khal Drogo trouxe-lhe o seu próprio presente de noiva. Um silêncio de expectativa se alastrou a partir do centro do acampamento quando ele saiu do lado dela, crescendo até engolir todo o kbalasar, Quando regressou, a densa multidão de ofertantes abriu-se à sua frente, e ele levou o cavalo até ela. Era uma potranca jovem, espirituosa e magnífica. Dany sabia apenas o suficiente sobre cavalos para reconhecer que aquele não era um animal vulgar. Havia algo nela que cortava a respiração. Era cinzenta como o mar de inverno, com uma crina que parecia fumo prateado. Hesitante, estendeu a mão e afagou o pescoço do cavalo, fazendo correr os dedos pelo prateado da crina. Khal Drogo disse qualquer coisa em dothraki e Magíster Illyrio traduziu.


- Prata para o prateado de vossos cabelos, disse o khal. - É belíssima - murmurou Dany. - É o orgulho do khalasar - disse Illyrio. - O costume decreta que a khaleesi deve conduzir uma montaria digna de seu lugar ao lado do khal. Drogo avançou e pôs-lhe as mãos na cintura. Levantou-a com tanta facilidade como se fosse uma criança e a pousou sobre a fina sela dothraki, muito menor do que aquelas a que estava acostumada. Dany ficou ali sentada, por um momento, incerta. Ninguém lhe falara daquela parte. - O que devo fazer? - perguntou a Illyrio. Foi Sor Jorah Mormont quem respondeu. - Pegue nas rédeas e cavalgue. Não precisa ir longe. Nervosa, juntou as rédeas nas mãos e fez deslizar os pés para os pequenos estribos. Não passava de uma cavaleira razoável; passara muito mais tempo viajando em navios, carroças e liteiras do que sobre o dorso de cavalos. Rezando para não cair e envergonhar-se, deu à potranca o mais tímido dos toques com os joelhos. E pela primeira vez nas últimas horas esqueceu-se de ter medo. Ou talvez pela primeira vez desde sempre. A potranca cinzenta prateada avançou com um porte suave e sedoso, enquanto a multidão abria alas para deixá-la passar, com todos os olhos postos nelas. Dany deu por si avançando mais depressa do que tencionara, mas isso, de algum modo, era excitante, em vez de aterrador. O cavalo pôs-se a trote e ela sorriu. Os dothrakis precipitavam-se para abrir caminho. A mais ligeira pressão com as pernas, ao menor toque de rédeas, a égua respondia. Dany a colocara a galope, e agora os dothrakis assobiavam, gargalhavam e gritavam-lhe enquanto saltavam para longe do seu caminho. Quando virou para


regressar, uma cova de fogueira surgiu-lhe à frente, diretamente em seu caminho. Estavam cercadas de ambos os lados, sem espaço para parar. Uma coragem que nunca conhecera encheu então Daenerys e ela deu liberdade à potranca. O cavalo prateado saltou sobre as chamas como se tivesse asas. Quando refreou o animal junto a Magíster Illyrio, disse: - Diga a Khal Drogo que me ofereceu o vento - o gordo pentoshi repetiu as palavras em dothraki enquanto afagava a barba amarela, e Dany viu o novo marido sorrir pela primeira vez. A última fatia de sol desapareceu por trás das grandes muralhas de Pentos, para oeste. Dany perdera por completo a noção das horas. Khal Drogo ordenou aos companheiros de sangue para lhe trazerem o cavalo, um esguio garanhão vermelho. Enquanto o khal selava o cavalo, Viserys esgueirou-se até junto de Dany, enterrou os dedos em sua perna e disse: - Dê-lhe prazer, minha doce irmã, senão juro que verá o dragão acordar como nunca acordou antes. O medo regressou com as palavras do irmão. Sentiu-se de novo uma criança, apenas com reze anos e completamente só, mal preparada para o que estava prestes a lhe acontecer. Cavalgaram juntos sob as estrelas que surgiam, deixando para trás o khalasar e os palácios de erva. Khal Drogo não lhe dirigiu uma palavra, mas fez o garanhão atravessar a penumbra que se aprofundava num trote duro. As minúsculas campainhas de prata na longa trança ressoavam baixinho enquanto cavalgava.


- Sou do sangue do dragão - murmurou ela enquanto o seguia, tentando manter a coragem. Sou do sangue do dragão. Sou do sangue do dragão - o dragão nunca tinha medo. Mais tarde não soube dizer até que distância ou durante quanto tempo cavalgaram, mas a noite tinha já caído por completo quando pararam num gramado junto a um pequeno riacho. Drogo saltou do cavalo e a tirou do dela. Sentiu-se frágil como vidro nas mãos dele, com membros tão fracos como a água. Ficou ali, desamparada e tremendo sob as sedas nupciais enquanto ele prendia os cavalos. Quando Drogo se virou para olhá-la, ela começou a chorar. Khal Drogo ficou olhando as lágrimas, com o rosto estranhamente vazio de emoção. - Não - disse. Ergueu uma mão e limpou rudemente as lágrimas com um polegar calejado. - Fala o Idioma Comum - disse Dany, espantada. - Não - disse ele de novo. Talvez soubesse apenas aquela palavra, pensou ela, mas era uma palavra, mais do que podia Kipor, e de algum modo a fez sentir-se um pouco melhor. Drogo tocou-lhe levemente os cabelos, fazendo deslizar as madeixas louras prateadas entre os dedos e murmurando suavemente em dothraki. Dany não compreendeu as palavras, mas havia calor na entoação, uma ternura que nunca esperara daquele homem. Pôs um dedo sob seu queixo e ergueu-lhe a cabeça, para que ela o olhasse nos olhos. Drogo erguia-se acima dela como se erguia acima de toda a gente. Pegando-a agilmente por baixo dos braços, ergueu-a e sentou-a numa rocha arredondada ao lado do riacho. Depois, sentou-se no chão na frente dela, de pernas cruzadas sob o corpo, com os rostos por fim ao mesmo nível.


- Não - disse ele. - Esta é a única palavra que conhece? - ela perguntou. Drogo não respondeu. Sua longa e pesada trança estava enrolada na terra ao seu lado. Puxou-a por sobre o ombro direito e começou a remover as campainhas do cabelo, uma a uma. Depois de um momento, Dany inclinou-se para a frente para ajudar. Quando terminaram, Drogo fez um gesto. Ela compreendeu. Devagar, com cuidado, começou a desfazer-lhe a trança. Levou muito tempo. E durante todo o tempo, ele ficou ali sentado em silêncio, observando-a. Quando acabou, ele abanou a cabeça e o cabelo espalhou-se pelas costas como um rio de escuridão, oleoso e cintilante. Nunca vira cabelos tão longos, tão negros, tão espessos. Depois foi a vez dele. Começou a despi-la. Seus dedos eram hábeis e estranhamente ternos. Removeu-lhe as sedas, uma por uma, com cuidado, enquanto Dany permanecia sentada, imóvel, silenciosa, a olhá-lo nos olhos. Quando desnudou seus pequenos seios, não conseguiu evitálo. Desviou o olhar e cobriu-se com as mãos. - Não - disse Drogo. Puxou-lhe as mãos para longe dos seios, com gentileza, mas firmemente, e depois ergueu-lhe de novo o rosto para fazer com que o olhasse. - Não - ele repetiu. - Não - ela ecoou. Então, ele a pôs de pé e a puxou, a fim de remover a última de suas sedas. Sentia o ar noturno frio na pele nua. Estremeceu, e um arrepio cobriu-lhe os braços e as pernas. Temia o que viria a seguir, mas durante algum tempo nada aconteceu. Drogo ficou sentado de pernas cruzadas, olhandoa, bebendo-lhe o corpo com os olhos. Um pouco mais tarde, começou a tocá-la. A princípio ligeiramente, depois com mais força. Ela sentia o feroz poder


de suas mãos, mas ele nunca chegou a machucá-la. Segurou uma mão na dele e afagou-lhe os dedos um a um. Correu-lhe a mão suavemente pela perna. Afagou-lhe o rosto, delineando a curva de suas orelhas, percorrendo-lhe a boca gentilmente com o dedo. Tomou--lhe os cabelos com ambas as mãos e os penteou com os dedos. Virou-a de costas, massageou-lhe os ombros, deslizou o nó do dedo ao longo da coluna. Pareceu que se passaram horas antes que as mãos dele se dirigissem por fim aos seus seios. Afagou a suave pele da base até deixá-la num torpor. Rodeou os mamilos com os polegares, beliscou-os entre o polegar e o indicador, depois começou a puxá-los, muito levemente a princípio, depois com maior insistência, até que enrijeceram e começaram a doer. Então parou, e puxou-a para o seu colo. Dany estava corada e sem fôlego, com o coração a palpitar no peito. Ele envolveu seu rosto nas mãos enormes e ela o olhou nos olhos. - Não? - disse ele, e ela soube que era uma pergunta. Tomoulhe a mão e a dirigiu para a umidade entre as coxas. - Sim - sussurrou ao introduzir o dedo dele dentro de si.

Eddard A convocatória chegou na hora que precede a alvorada, quando o mundo estava quieto e cinzento. Alyn arrancou-o rudemente dos sonhos com um abanão, e Ned cambaleou para o frio da madrugada, tonto de sono, indo encontrar seu cavalo selado e o rei já montado. Robert vestia grossas luvas castanhas e um pesado manto de peles com um capuz que lhe cobria as orelhas, e estava igualzinho a um urso sentado em cima de um cavalo.


- De pé, Stark! - rugiu. - De pé, de pé! Temos assuntos de Estado a tratar. - Com certeza - disse Ned. - Entre, Vossa Graça - Alyn ergueu a aba da tenda. - Não, não, não - disse Robert. Saía-lhe vapor da boca a cada palavra. - O acampamento está cheio de ouvidos. Além disso, quero afastar-me e saborear este seu país - Ned viu que Sor Borós e Sor Meryn esperavam atrás dele com uma dúzia de guardas. Nada havia a fazer a não ser esfregar o sono para longe dos olhos, vestir-se e montar. Robert marcou o passo, puxando com seu enorme cavalo de batalha negro, enquanto Ned galopava ao seu lado, tentando acompanhá-lo. Gritou uma pergunta enquanto cavalgavam, mas o vento levou suas palavras para longe e o rei não o ouviu. Depois disso, Ned seguiu em silêncio. Em breve abandonavam a estrada do rei e avançavam por planícies onduladas escuras de névoa. A essa altura, a guarda tinha ficado uma pequena distância para trás, suficiente para não ouvi-los, mas mesmo assim Robert não abrandava. A alvorada chegou quando subiam ao cume de uma pequena elevação, e o rei finalmente parou. Nessa altura, estavam várias milhas ao sul do grupo principal. Robert estava corado e animado quando Ned puxou as rédeas do cavalo a seu lado. - Deuses - o rei praguejou, rindo -, faz bem sair e cavalgar como é suposto que um homem raça! Juro, Ned, este rastejar por aí é o suficiente para deixar um homem louco - Robert Barameon nunca fora um homem paciente. - Aquela maldita casa rolante, o modo como range e geme, subindo cada aclive na estrada como se fosse uma montanha... prometo-lhe que, se aquela miserável coisa partir mais algum eixo, queimo-a, e Cersei que ande!


Ned soltou uma gargalhada. - De bom grado acenderei a tocha por Vossa Graça. - Bom homem! - o rei deu-lhe uma palmada no ombro. - Parte de mim quer deixá-los todos para trás e simplesmente continuar a andar. Um sorriso tocou os lábios de Ned. - E acho que fala a sério. - Falo, falo - disse o rei. - Que lhe parece, Ned? Só você e eu, dois cavaleiros vagabundos na estrada do rei, com as espadas ao nosso lado e só os deuses sabem o que à nossa frente, e talvez uma filha de lavrador ou uma rapariga de taberna para nos aquecer a cama esta noite. - Gostaria que fosse possível - disse Ned -, mas agora temos deveres, meu suserano... para com o reino, para com nossos filhos, eu para com a senhora minha esposa e vós para com a vossa rainha. Não somos os rapazes que fomos. - Você nunca foi um rapaz - resmungou Robert. - Maior é pena. E, no entanto, houve aquela ocasião... Como se chamava aquela plebeia que teve? Becca? Não, essa foi uma das minhas, que os deuses a adorem, de cabelos negros e aqueles doces olhos grandes, podia-se afogar neles. A sua chamava-se... Aleena? Não. Você me disse uma vez. Seria Merryl? Sabe a quem me refiro, a mãe do seu bastardo. - O nome era Wylla - respondeu Ned com fria cortesia -, e eu prefiro não falar dela. - Wylla. Sim - o rei sorriu. - Devia ser uma mulher incomum, pois foi capaz de fazer Lorde Eddard Stark se esquecer de sua honra, ainda que por uma hora. Nunca me falou do seu aspecto... A boca de Ned apertou-se em ira.


- Nem o farei. Deixe este assunto, Robert, pelo amor que diz ter por mim. Desonrei-me e desonrei Catelyn, aos olhos dos deuses e dos homens. - Que os deuses sejam louvados, quase nem conhecia Catelyn. - Tinha-a tomado por esposa. Ela esperava meu filho. - É demasiado duro consigo, Ned. Sempre foi. Que diabo, nenhuma mulher quer ter na cama Baelor, o BemAventurado - deu uma palmada no joelho. - Bem, não falarei mais no assunto se guarda sentimentos tão fortes a esse respeito, se bem que, juro, por vezes é tão espinhoso que devia adotar o ouriço como selo. O sol nascente lançava dedos de luz através das pálidas neblinas brancas da alvorada. Uma larga planície estendia-se abaixo deles, nua e castanha, com a planura interrompida aqui e ali por longos outeiros baixos. Ned indicou-os ao seu rei. - As elevações tumulares dos Primeiros Homens. Robert franziu a sobrancelha. - Viemos dar em um cemitério? - No Norte há elevações tumulares por todo o lado, Vossa Graça - Ned informou. - Esta terra é antiga, - E fria - resmungou Robert, apertando melhor o manto em redor do corpo. A guarda tinha parado bem atrás deles, na base da elevação. - Bem, não o trouxe aqui para falar de sepulturas ou discutir sobre o seu bastardo. Chegou um mensageiro durante a noite com uma mensagem de Lorde Varys em Porto Real. Tome - o rei tirou um papel do cinto e o entregou a Ned. Varys, o eunuco, era o mestre dos segredos do rei. Servia agora Robert da mesma forma que servira antes Aerys Targaryen, Ned desenrolou o papel, agitado, pensando em


Lysa e sua terrível acusação, mas a mensagem não dizia respeito à Senhora Arryn. - Qual é a fonte desta informação? - Lembra-se de Sor Jorah Mormont? - Gostaria de poder esquecê-lo - disse Ned sem cerimônia. Os Mormont da Ilha dos Ursos eram uma Casa antiga, orgulhosa e honrosa, mas suas terras eram frias, distantes e pobres. Sor Jorah tentara encher os cofres da família vendendo alguns caçadores furtivos a um negociante de escravos tyroshi. Como os Mormont eram vassalos dos Stark, seu crime tinha desonrado o Norte. Ned fizera a longa viagem para o oeste até a Ilha dos Ursos só para descobrir, ao chegar, que Jorah havia zarpado, escapando do alcance de Gelo e da justiça do rei. Desde então tinham se passado cinco anos. - Sor Jorah está agora em Pentos, ansioso por ganhar um perdão real que lhe permita regressar do exílio - explicou Robert. - Lorde Varys faz bom uso dele. - Então o negociante de escravos transformou-se em espião disse Ned com antipatia. Devolveu a carta ao rei. - Preferia que tivesse se transformado em cadáver. - Varys me disse que os espiões são mais úteis que os cadáveres - disse Robert. - Jorah à pane, que acha do relatório? - A Daenerys Targaryen desposou um senhor dos cavalos dothraki qualquer. E então? Devemos enviar-lhe um presente de casamento? O rei franziu a sobrancelha. - Talvez uma faca. Uma boa faca afiada e um bom homem para manejá-la. Ned não fingiu surpresa; o ódio de Robert pelos Targaryen era nele uma loucura. Lembram-se das palavras iradas que


tinham trocado quando Tywin Lannister presenteara Robert com os cadáveres da esposa e dos filhos de Rhaegar em sinal de fidelidade. Ned chamara àquilo assassinato; Robert chamara-lhe guerra. Quando protestara que o jovem príncipe e a jovem princesa não eram mais que bebês, o recém-coroado rei respondera: "Não vejo bebês. Somente filhotes de dragão". Nem mesmo Jon Arryn fora capaz de acalmar essa tempestade. Eddard Stark cavalgara para longe nesse mesmo dia, a fim de lutar sozinho as últimas batalhas da guerra no Sul. Fora preciso outra morte para reconciliá-los, a de Lyanna, e a dor que partilharam com o seu falecimento. Desta vez, Ned resolveu dominar o gênio. - Vossa Graça, a moça é pouco mais que uma criança. Não é Vossa Graça um Tywin Lanniszer para chacinar inocentes dizia-se que a filha de Rhaegar chorava quando a arrastaram de debaixo da cama para enfrentar as espadas. O rapaz não era mais que um bebê de peito, mas os soldados de Lorde Tywin arrancaram-no dos braços da mãe e esmagaram-lhe a cabeça contra uma parede. - E quanto tempo esta jovem permanecerá inocente? - a boca de Robert endureceu. - Esta criança irá em breve abrir as pernas e começar a parir mais filhotes de dragão para me atormentar. - Seja como for - disse Ned -, o assassinato de crianças... seria vil... inqualificável... - Inqualificável? - rugiu o rei. - O que Aerys fez ao seu irmão Brandon foi inqualificável. O modo como o senhor seu pai morreu, isso foi inqualificável. E Rhaegar... quantas vezes acha que ele violou sua irmã? Quantas centenas de vezes? sua voz tornara-se tão alta que o cavalo que montava relinchou nervosamente. O rei puxou as rédeas com força,


sossegando o animal, e apontou um dedo irado para Ned. Matarei cada Targaryen em que puser as mãos até estarem tão mortos como os seus dragões, e então mijarei em suas tumbas. Ned sabia que não era boa idéia desafiá-lo quando estava sob o domínio da ira. Se os anos não tinham amenizado a sede de vingança de Robert, nenhuma palavra sua poderia ajudar. - Mas não pode pôr as mãos nesta, está bem? - disse ele em voz calma. A boca do rei retorceu-se num trejeito amargo. - Não, malditos sejam os deuses. Um pustulento queijeiro pentoshi qualquer mantém, ela e o irmão, fechados em sua propriedade com eunucos de chapéus bicudos por todo o lado, e agora os entregou aos dothrakis. Devia ter mandado matálos há anos, quando era fácil chegar até eles, mu Jon era tão mau como você. Maior tolo fui eu, por lhe dar ouvidos. - Jon Arryn era um homem sensato e uma boa Mão. Robert resfolegou. A ira o estava deixando tão subitamente como tinha chegado. - Diz-se que este Khal Drogo tem cem mil homens em sua horda. O que diria Jon a isso? - Diria que mesmo um milhão de dothrakis não são ameaça para o reino desde que fiquem do outro lado do mar estreito replicou Ned com calma. - Os bárbaros não têm navios. Odeiam e temem o mar aberto. O rei moveu-se desconfortavelmente na sela. - Talvez. Mas podem obter navios nas Cidades Livres. Digolhe, Ned, este casamento não me agrada. Ainda há nos Sete Reinos quem me chame Usurpador. Esqueceu-se de quantas casas lutaram pelos Targaryen durante a guerra? Por enquanto esperam a sua hora, mas dê-lhes meia hipótese e me assassinarão no leito, e a meus filhos também. Se o rei pedinte


atravessar o mar com uma horda dothraki atrás dele, os traidores a ele se juntarão. - Não atravessará - prometeu Ned. - E, se por algum azar atravessar, nós o atiraremos de volta ao mar. Uma vez escolhido um novo Guardião do Leste... O rei soltou um gemido. - Pela última vez, não nomearei Guardião o rapaz Arryn. Sei que o rapaz é seu sobrinho, mas com os Targaryen usufruindo a cama dos dothrakis seria louco se deixasse um quarto do reino nas mãos de uma criança enfermiça. Ned estava preparado para aquilo. - E, no entanto, ainda precisamos de um Guardião do Leste. Se Robert Arryn não serve, nomeie um dos seus irmãos. Stannis decerto provou seu valor no cerco à Ponta Tempestade. Deixou o nome pairar por um momento. O rei franziu a testa e nada disse. Parecia desconfortável. - Isto é - terminou Ned em voz baixa, observando -, a não ser que já tenha prometido a posição a outra pessoa. Por um momento Robert teve a elegância de parecer surpreso. Quase no mesmo momento, o olhar passou a denotar aborrecimento. - E se o fiz? - É Jaime Lannister, não é? Robert pôs de novo o cavalo em movimento com os calcanhares e desceu a colina em direção aos outeiros. Ned o acompanhou. O rei prosseguiu a cavalgada, com os olhos fixos em frente. - Sim - disse por fim. Uma única palavra dura para pôr uma pedra sobre o assunto.


- O Regicida - retrucou Ned. Então os rumores eram verdadeiros. Sabia que trilhava agora terreno perigoso. - Um homem apto e corajoso, sem dúvida - disse com cuidado -, mas seu pai é Guardião do Oeste, Robert. A seu tempo Sor Jaime irá sucedê-lo neste título. Nenhum homem deve defender tanto o leste como o oeste - deixou de dizer sua real preocupação; que a nomeação iria pôr metade dos exércitos do reino nas mãos dos Lannister. - Tratarei dessa luta quando o inimigo aparecer no campo de batalha - disse o rei teimosamente. - De momento, Lorde Tywin paira eterno sobre Rochedo Casterly; portanto, duvido que Jaime lhe suceda em breve. Não me aborreça com isto, Ned, a pedra foi colocada. - Vossa Graça, posso falar com franqueza? - Pareço ser incapaz de te impedir - resmungou Robert. Cavalgavam através do mato alto e castanho. - Pode mesmo confiar em Jaime Lannister? - É irmão gêmeo de minha mulher, um Irmão Juramentado da Guarda Real, com a vida, a fortuna e a honra sujeitas às minhas. - Tal como estavam sujeitas às de Aerys Targaryen - Ned ressaltou. - Por que hei de desconfiar dele? Fez tudo o que lhe pedi. Sua espada ajudou a conquistar o trono em que me sento. Sua espada ajudou a manchar o trono em que senta, pensou Ned, mas não permitiu que as palavras lhe atravessassem os lábios. - Fez o juramento de proteger a vida do rei com a dele próprio. Depois abriu a garganta desse mesmo rei com uma espada.


- Pelos sete infernos, alguém teria de matar Aerys! - disse Robert, puxando as rédeas da sua montaria e fazendo-a parar abruptamente junto a um antigo outeiro. - Se Jaime não o tivesse feito, teríamos de ter sido você ou eu. - Nós não éramos Irmãos Juramentados da Guarda Real Ned respondeu. Decidiu naquele local que tinha chegado o tempo de Robert ouvir toda a verdade. - Recorda-se do Tridente, Vossa Graça? - Conquistei aí a minha coroa. Como posso esquecê-lo? - Vossa Graça foi ferido por Rhaegar - recordou-lhe Ned. - E assim, quando a tropa Targaryen cedeu e fugiu, deixou a perseguição nas minhas mãos. O que restava do exército de Rhaegar apressou-se em regressar a Porto Real. Nós os seguimos. Aerys estava na Torre Vermelha com vários milhares de lealistas. Eu esperava encontrar os portões fechados às nossas forças. Robert abanou impacientemente a cabeça, - E, em vez disso, descobriu que os nossos homens já tinham conquistado a cidade. E então? - Nossos homens, não - Ned disse pacientemente. - Os homens dos Lannister. Era o leão de Lannister que flutuava sobre os baluartes, e não o veado coroado. E eles conquistaram a cidade pela traição. A guerra durara perto de um ano. Senhores, grandes e pequenos, tinham se agrupado sob os estandartes de Robert; outros tinham permanecido leais aos Targaryen. Os poderosos Lannister de Rochedo Casterly, os Guardiães do Oeste, tinham permanecido à margem da luta, ignorando os apelos às armas vindos quer dos rebeldes quer dos lealistas. Aerys Targaryen devia ter pensado que os deuses respondiam às suas preces quando Lorde Tywin Lannister apareceu perante


os portões de Porto Real com um exército de doze mil homens, declarando-lhe lealdade. E, assim, o rei louco ordenou seu último ato de loucura. Abriu sua cidade aos leões que estavam à porta. - A traição era uma moeda que os Targaryen conheciam bem - disse Robert. A ira lhe subia novamente. - Os Lannister pagaram-lhes na mesma moeda. Não foi menos do que mereciam. Não será isso que perturba meu sono. - Você não estava lá - disse Ned, com amargura na voz. O sono perturbado não lhe era estranho. Vivera suas mentiras durante catorze anos, e à noite ainda o assombravam. - Não houve honra naquela conquista. - Que os Outros carreguem a sua honra! - praguejou Robert. Quando foi que algum Targaryen conheceu a honra? Desça à sua cripta e interrogue Lyanna sobre a honra do dragão! - Vingou Lyanna no Tridente - disse Ned, parando ao lado do rei. Promete-me, Ned, sussurrara ela. - Isto não a trouxe de volta - Robert afastou o olhar para o horizonte cinzento. - Malditos iram os deuses. Foi uma vitória oca, a que me deram. Uma coroa... foi pela donzela que orei a eles. A sua irmã, salva... e minha de novo, como estava destinada a ser. Pergunto-lhe, Ned, de que serve usar uma coroa? Os deuses zombam tanto das preces de reis como das dos vaqueiros. - Não posso responder pelos deuses, Vossa Graça... só por aquilo que encontrei quando entre: na sala do trono naquele dia - disse Ned. - Aerys estava morto no chão, afogado no próprio sangue. Seus crânios de dragão observavam das paredes. Havia homens dos Lannister por toda parte. Jaime trajava o manto branco da Guarda Real por cima da armadura dourada. Ainda o vejo. Até a espada era dourada.


Estava sentado no Trono de Ferro, bem acima dos cavaleiros, usando um elmo em forma de cabeça de leão. Como brilhava! - Isto é bem sabido - protestou o rei. - Eu ainda estava montado. Percorri todo o salão em silêncio, entre as longas fileiras de crânios de dragão. De algum modo, parecia que me observavam. Parei em frente ao trono, olhando-o por baixo. Tinha a espada dourada pousada sobre as pernas, com a lâmina vermelha do sangue do rei. Meus homens começavam a encher a sala atrás de mim. Os de Lannister afastaram-se. Nunca disse uma palavra. Olhei-o, ali sentado no trono, e esperei. Por fim, Jaime soltou uma gargalhada e se ergueu. Tirou o elmo e disse-me: "Nada tem a temer, Stark. Estava apenas mantendo-o quente para o nosso amigo Robert. Temo que não seja uma cadeira muito confortável". O rei atirou a cabeça para trás e rugiu. Suas gargalhadas assustaram um bando de corvos que saltaram do meio da alta grama castanha num frenético bater de asas. - Pensa que devo desconfiar de Lannister porque se sentou no meu trono por momentos? - voltou a sacudir-se de riso. Jaime não tinha mais de dezessete anos, Ned. Era pouco mais que um rapaz. - Rapaz ou homem, não tinha direito àquele trono. - Talvez estivesse cansado - sugeriu Robert. - Matar reis é trabalho pesado. Os deuses sabem que não há mais lugar nenhum onde descansar o traseiro naquela maldita sala. E ele falou a verdade: é uma cadeira brutalmente desconfortável. De todas as maneiras - o rei abanou a cabeça. - Bem, agora conheço o negro pecado de Jaime e o assunto pode ser esquecido. Estou mortalmente farto de segredos, questiúnculas e assuntos de Estado, Ned. É tudo tão entediante como contar moedas. Vem, vamos cavalgar, você


costumava saber fazer isso. Quero voltar a sentir o vento nos cabelos - voltou a pôr o cavalo em movimento e galopou sobre o outeiro, fazendo saltar terra atrás de si. Por um momento Ned não o seguiu. Tinha ficado sem palavras e sentia-se cheio de uma grande sensação de impotência. Uma vez mais perguntou a si próprio o que fazia ali e qual o motivo de ter vindo. Não era nenhum Jon Arryn, capaz de pôr freio à impetuosidade do rei e de lhe inculcar sabedoria. Robert faria o que lhe apetecesse, como sempre fizera, e nada do que Ned pudesse fazer ou dizer mudaria isso. Seu lugar era em Winterfell. Seu lugar era com Catelyn, na sua dor, e com Bran. Mas um homem nem sempre podia estar no seu lugar. Resignado, Eddard Stark bateu com as botas no cavalo e foi atrás do rei.

Tyrion O Norte parecia não ter fim. Tyrion Lannister conhecia os mapas tão bem como qualquer outra pessoa, mas uma quinzena no trilho irregular que naquela região se passava pela estrada do rei bem incutira nele a lição de que o mapa era uma coisa, mas o terreno, outra bem diferente. Tinham partido de Winterfell no mesmo dia que o rei, entre toda a agitação da partida real, saindo ao som dos gritos dos homens e do resfolegar dos cavalos, entre a algazarra das carroças e os gemidos da enorme casa rolante da rainha, enquanto uma neve ligeira caía ao redor. A estrada do rei ficava logo à saída do castelo e da vila. Aí, os estandartes, as carroças e as colunas de cavaleiros da guarda e cavaleiros


livres viraram para o sul, levando o tumulto com eles, enquanto Tyrion virava para o norte com Benjen Stark e o sobrinho. Depois disso ficou mais frio, e muito mais silencioso. À oeste da estrada estendiam-se colinas de sílex, cinzentas e escarpadas, com altas torres de vigia erguidas nos seus cumes rochosos. Para leste o terreno era mais baixo, achatando-se até se transformar numa planície ondulada que se estendia até onde a vista alcançava. Pontes de pedra transpunham rios rápidos e estreitos, e pequenas chácaras espalhavam-se em anéis em torno de rastros com fortificações de madeira e pedra. A estrada tinha muito tráfego, e à noite, para seu conforto, podia-se encontrar rudes estalagens. Mas após três dias de viagem de Winterfell, as terras de cultivo deram lugar à densa floresta, e a estrada do rei transformou-se num lugar solitário. As colinas de sílex tornavam-se mais altas e lervagens a cada milha, até se terem transformado em montanhas pelo quinto dia, gigantes frios, azuis-acinzentados, com promontórios irregulares e neve sobre os ombros. Quando o vento soprava do norte, longas plumas de cristais de gelo voavam dos picos mais altos como se fossem estandartes. Com as montanhas a fazer às vezes de muro, a oeste, a estrada desviava-se para nor-nordeste através da floresta, uma mistura de carvalhos com sempre-verdes e sarças negras, que parecia mais antiga e sombria que qualquer outra que Tyrion tivesse visto. "Mata de lobos" chamara-lhe Benjen, e, de fato, as noites do grupo eram animadas com os uivos de alcatéias distantes, e de outras não tanto assim. O lobo gigante albino de Jon Snow erguia as orelhas ao ouvir os uivos noturnos, mas nunca levantava a própria voz em


resposta. Para Tyrion, havia qualquer coisa muito perturbadora naquele animal. Aquela altura, o grupo era composto por oito membros, sem contar com o lobo, Tyrion viajara com dois de seus homens, como era próprio a um Lannister. Benjen Stark tinha apenas o sobrinho bastardo e algumas montarias novas para a Patrulha da Noite, mas no limite da mata de lobos haviam passado uma noite protegidos pelos muros de madeira de um castro de floresta e juntou-se a eles outro dos irmãos negros, um tal Yoren. Yoren era corcunda e sinistro, e escondia as feições atrás de uma barba tão negra como as roupas que trajava, mas parecia resistente como uma velha raiz e duro como pedra. Com ele estava um par de jovens camponeses esfarrapados originários dos Dedos. - Violadores - disse Yoren com uma olhadela fria aos rapazes a seu cargo. Tyrion compreendeu. Dizia-se que a vida na Muralha era dura, mas era sem dúvida preferível à castração. Cinco homens, três rapazes, um lobo gigante, vinte cavalos e uma gaiola com corvos oferecidos a Benjen Stark pelo Meistre Luwin. Sem dúvida que constituíam uma irmandade incomum, para a estrada do rei ou para qualquer outra. Tyrion reparou quejon Snow observava Yoren e os seus carrancudos companheiros com uma expressão estranha no rosto, que se parecia desconfortavelmente com desalento. Yoren tinha um ombro torcido e um cheiro fétido, os cabelos e a barba emaranhados, oleosos e cheios de piolhos, o vestuário era velho, remendado e raramente lavado. Os dois jovens recrutas cheiravam ainda pior, e pareciam tão estúpidos como cruéis. Não havia dúvida de que o rapaz cometera o erro de pensar que a Patrulha da Noite era composta por homens como o tio. Se assim era, Yoren e os companheiros constituíam um rude


acordar. Tyrion sentiu pena do rapaz. Escolhera uma vida dura... ou talvez fosse mais correto dizer que uma vida dura fora escolhida para ele. Tinha bastante menos simpatia pelo tio. Benjen Stark parecia partilhar do desagrado do irmão pelos Lannister e não ficara contente quando Tyrion lhe declarara suas intenções. - Previno-lhe, Lannister, de que não irá encontrar estalagens na Muralha - dissera, olhando--o de cima de toda a sua altura. - Não duvido de que encontrará algum lugar onde possa me enfiar - respondera Tyrion. - Como talvez tenha notado, sou pequeno. Não se dizia não ao irmão da rainha, claro, e isso pusera um ponto final no assunto, mas Stark não ficara feliz. - Não vai gostar da viagem, isso lhe asseguro - dissera ele de modo conciso, e desde o momento da partida fizera tudo o que pôde para cumprir a promessa. Pelo fim da primeira semana, as coxas de Tyrion estavam em carne viva devido à dura cavalgada, as pernas ardiam de cãibras e sentia-se congelando até os ossos. Não se queixou. Que fosse maldito se desse a Benjen Stark essa satisfação. Obteve uma pequena vingança com a pele de montar, uma coçada pele de urso, velha e malcheirosa. Stark lhe oferecera num excesso de galanteria ao jeito da Patrulha da Noite, sem dúvida à espera de vê-lo declinar com elegância. Tyrion a aceitara com um sorriso. Ao partir de Winterfell, trouxera consigo suas roupas mais quentes, e em breve descobriu que não eram, nem de longe, suficientes. Ali em cima fazia frio, e estava esfriando ainda mais. De noite, a temperatura descia agora bem abaixo do ponto de congelamento, e quando o vento soprava era como uma faca a trespassar suas lãs mais quentes. Decerto que Stark já se tinha arrependido de seu impulso cavalheiresco. Talvez tivesse aprendido uma lição. Os


Lannister nunca declinavam, com ou sem elegância. Os Lannister aceitavam o que lhes era oferecido. As chácaras e os castros eram cada vez mais escassos e menores à medida que prosseguiam para o norte, penetrando cada vez mais profundamente na escuridão da mata de lobos, até que finalmente deixou de haver tetos onde pudessem se abrigar, e foram atirados para a necessidade de se valerem de seus próprios recursos. Tyrion nunca fora de grande utilidade para montar ou desmontar um acampamento. Pequeno demais, manco demais, demasiado no caminho dos demais. E assim, enquanto Stark, Yoren e os outros erguiam rudes abrigos, tratavam dos cavalos e faziam uma fogueira, tornou-se seu hábito pegar a pele e um odre de vinho e afastar-se sozinho para ler. Na décima oitava noite da viagem, o vinho era um raro âmbar doce das Ilhas do Verão que trouxera consigo ao longo de toda a viagem para o norte desde Rochedo Casterly, e o livro, uma meditação sobre a história e as propriedades dos dragões. Com a autorização de Lorde Eddard Stark, Tyrion pedira emprestados alguns volumes raros da biblioteca de Winterfell e os empacotara para a viagem ao norte. Encontrou um lugar confortável para lá do ruído do acampamento, ao lado de um córrego rápido cuja água era transparente e fria como gelo. Um carvalho grotescamente antigo o abrigava do vento cortante. Tyrion enrolou-se na sua pele com as costas apoiadas no tronco, bebeu um gole de vinho e pôs-se a ler acerca das propriedades do osso de dragão. O osso de dragão é negro devido à grande quantidade de ferro que contém, dizia o livro. É forte como aço, mas é também leve e muito mais flexível, e, claro, completamente à prova âefogo. Os arcos de osso de dragão são muito


apreciados pelos dothrakis, e sem surpresa. Um arqueiro assim armado pode alcançar mais longe do que com qualquer arco de madeira. Tyrion sentia um fascínio mórbido por dragões. Quando chegara pela primeira vez a Porto Real para o casamento da irmã com Robert Baratheon, fizera questão de procurar os crânios de dragão que haviam decorado as paredes da sala de trono dos Targaryen. O rei Robert os substituíra por estandartes e tapeçarias, mas Tyrion insistira, até que encontrou os crânios na cave úmida e fria onde tinham sido armazenados. Esperava achá-los impressionantes, talvez mesmo assustadores, mas não belos. Porém, eram. Negros como ônix, polidos até ficarem lisos, o osso parecia tremeluzir à luz de seu archote. Sentiu que gostavam do fogo. Atirara o archote para dentro da boca de um dos crânios maiores e fizera as sombras saltar e dançar na parede atrás de si. Os dentes eram longas facas curvas de diamante negro. A chama do archote não era nada para eles; tinham-se banhado no calor de fogos muito maiores. Quando se afastou, Tyrion podia jurar que as órbitas vazias do animal o tinham visto partir. Havia dezenove crânios. Os mais antigos tinham mais de três mil anos; os mais recentes, não mais de século e meio. Estes últimos eram também os menores: um par de crânios, não maiores que os de mastins, e estranhamente deformados, tudo o que restava das últimas duas crias nascidas em Pedra do Dragão. Eram os últimos dos dragões Targaryen, talvez os últimos dragões em todo o mundo, e não tinham vivido muito tempo. A partir desses dois crânios, os outros aumentavam em tamanho até os três grandes monstros das canções e das histórias, os dragões que Aegon Targaryen e as irmãs tinham


soltado sobre os Sete Reinos de antigamente. Os poetas tinham-lhes atribuído nomes de deuses: Balerion, Meraxes, Vhaghar. Tyrion estivera entre suas maxilas escancaradas, sem palavras e cheio de respeitoso temor. Podia ter entrado a cavalo pela garganta de Vhaghar, embora não fosse possível voltar a sair, Meraxes era ainda maior. E o maior de todos, Balerion, o Terror Negro, podia ter engolido um auroque inteiro, ou até mesmo um dos mamutes peludos que diziam viver nas frias extensões para lá do Porto de Ibben. Tyrion ficou naquela cave úmida durante muito tempo, de olhos fixos no enorme crânio de olhos vazios de Balerion, até o archote se gastar, tentando abarcar o tamanho do animal vivo, imaginar a aparência que podia ter tido quando estendia as grandes asas negras e varria os céus, a exalar fogo. Seu remoto antepassado, Rei Loren do Rochedo, tinha tentado lutar contra o fogo quando uniu forças com o Rei Mern, da Campina, a fim de se opor à conquista Targaryen. Isso acontecera havia perto de trezentos anos, quando os Sete Reinos eram reinos, e não meras províncias de um reino mais vasto. Entre ambos, os dois Reis tinham seiscentos estandartes, cinco mil cavaleiros montados e dez vezes esse número em cavaleiros livres e homens de armas. Diziam os cronistas que Aegon, o Senhor dos Dragões, possuía talvez um quinto dessa força, e que a maioria de seus homens tinha sido recrutada das fileiras do último rei que matara, homens de fidelidade incerta. As tropas encontraram-se nas planícies da Campina, entre campos dourados de milho pronto para a colheita. Quando os dois reis se apresentaram, o exército Targaryen tremeu, estilhaçou-se e começou a fugir. Por alguns momentos, escreviam os cronistas, a conquista esteve por um fio... mas só


por esses breves momentos, antes que Aegon Targaryen e as irmãs se juntassem à batalha. Foi a única vez que Vhaghar, Meraxes e Balerion foram todos soltos ao mesmo tempo. Os poetas os chamaram o Campo de Fogo. Quase quatro mil homens morreram queimados naquele dia, e entre eles contava-se o Rei Mern da Campina, Rei Loren escapou e viveu tempo suficiente para se render, prestar vassalagem aos Targaryen e gerar um filho, fato que deixava Tyrion devidamente grato. - Por que lê tanto? Tyrion ergueu os olhos ao ouvir aquela voz. Jon Snow estava a alguns pés de distância, olhando-o com curiosidade. Fechou o livro sobre um dedo e disse: - Olhe-me e diga o que vê. O rapaz olhou-o com suspeita. - Isto é algum truque? Vejo você. Tyrion Lannister. Tyrion suspirou. - Você é notavelmente gentil para um bastardo, Snow. O que vê é um anão. Você tem o quê? Doze anos? - Catorze - disse o rapaz. - Catorze, e é mais alto do que alguma vez serei. Minhas pernas são curtas e tortas, e caminho com dificuldade. Necessito de uma sela especial para não cair do cavalo. Uma sela de minha própria concepção, talvez te interesse saber. Era isso ou montar um pônei. Meus braços são suficientemente fortes, mas, uma vez mais, demasiado curtos. Nunca serei um espadachim. Se tivesse nascido camponês, provavelmente me teriam expulsado para que morresse, ou vendido para a coleção de aberrações de algum negociante de escravos. Mas, ai de mim! Nasci um Lannister de Rochedo Casterly, e as coleções de aberrações são das mais pobres. Esperam-se coisas de mim. Meu pai foi Mão do Rei durante


vinte anos. Aconteceu que, mais tarde, meu irmão matou esse mesmo rei, mas minha vida está cheia dessas pequenas ironias. Minha irmã casou-se com o novo rei e o meu repugnante sobrinho será rei depois dele. Devo cumprir minha parte pela honra da minha Casa, não concorda? Mas como? Bem, poderei ter as pernas pequenas demais para o corpo, mas minha cabeça é grande demais, embora eu prefira pensar que tem o tamanho certo para minha mente. Possuo um entendimento realista das minhas forças e fraquezas. A mente é a minha arma. Meu irmão tem a sua espada, o Rei Robert, o seu martelo de guerra, e eu tenho a mente... e uma mente necessita de livros da mesma forma que uma espada necessita de uma pedra de amolar se quisermos que se mantenha afiada - Tyrion deu uma palmada na capa de couro do livro. - Ê por isso que leio tanto, Jon Snow. O rapaz absorveu tudo aquilo em silêncio. Possuía o rosto dos Stark, mesmo que não tivesse o nome: comprido, solene, reservado, um rosto que nada revelava. Quem quer que tenha sido sua mãe, pouco dela havia ficado no rapaz. - E está lendo sobre o quê? - Dragões - disse-lhe Tyrion. - De que serve isso? Já não há dragões - disse o rapaz, com as fáceis certezas da juventude. - É o que dizem - respondeu Tyrion. - É triste, não é? Quando tinha a sua idade, costumava sonhar em ter um dragão meu. - Ah, sim? - perguntou o rapaz com suspeita na voz. Talvez pensasse que Tyrion estava zombando dele. - Ah, sim. Até um rapazinho enfezado, torcido e feio pode olhar o mundo de cima quando está sentado no dorso de um dragão - Tyrion afastou a pele de urso e pôs-se de pé. Costumava acender fogueiras nas entranhas de Rochedo


Casterly e ficar horas olhando as chamas, fazendo de conta que eram fogos de dragão. Por vezes imaginava meu pai a arder. Outras, minha irmã - Jon Snow olhava-o fixamente, submerso em partes iguais de horror e fascínio, Tyrion soltou uma gargalhada rude. - Não me olhe assim, bastardo. Conheço o seu segredo. Você sonhou o mesmo tipo de sonhos. - Não - Jon Snow rebateu, horrorizado. - Nunca sonharia... - Não? Nunca? - Tyrion ergueu uma sobrancelha, - Bem, sem dúvida que os Stark foram ótimos para você. Estou certo de que a Senhora Stark o trata como se fosse um de seus filhos. E seu irmão Robb sempre foi amável. Por que não? Ele fica com Winterfell e você com a Muralha. E seu pai... deve ter bons motivos para enviá-lo para a Patrulha da Noite... - Pare com isso - Jon Snow ordenou, o rosto escuro de ira. - A Patrulha da Noite é uma vocação nobre! Tyrion deu uma risada. - Você é demasiado esperto para acreditar nisso. A Patrulha da Noite é uma pilha de estrume para todos os inadaptados do reino. Vi-o olhando para Yoren e seus rapazes. São aqueles os seus novos irmãos, Jon Snow, que tal lhe parecem? Camponeses mal-humorados, devedores, caçadores furtivos, violadores, ladrões e bastardos como você acabam todos na Muralha, à espreita de gramequins e snarks e todos os outros monstros contra os quais a sua ama de leite lhe preveniu. A parte boa é que não existem gramequins nem snarks e, portanto, o trabalho pouco perigo oferece. A parte má é que por causa do frio torna-se estéril, mas como, seja como for, não está autorizado a se reproduzir, suponho que isso não importa.


- Pare com isso! - gritou o rapaz. Deu um passo em frente, com as mãos dobradas em punho, prestes a arrebentar em lágrimas. De súbito, absurdamente, Tyrion sentiu-se culpado. Deu um passo em frente, tencionando dar ao rapaz uma palmada tranquilizadora no ombro ou murmurar uma palavra qualquer de desculpa. Não chegou a ver o lobo, onde estava nem como se aproximou. Num momento caminhava para Snow e no seguinte estava caído de costas no duro chão pedregoso, com o livro a rodopiar para longe na queda, o fôlego a desaparecer com o súbito impacto, a boca cheia de terra, sangue e folhas apodrecidas. Quando tentou se colocar em pé, sentiu um doloroso espasmo nas costas. Devia tê-las torcido na queda. Rangeu os dentes com frustração, agarrou-se a uma raiz e conseguiu puxar-se até uma posição sentada. - Ajude-me - pediu a Jon, estendendo uma mão. E de repente o lobo estava entre eles. Não rosnou. A maldita coisa nunca soltava um som. Limitou-se a olhá-lo com aqueles brilhantes olhos vermelhos, mostrou-lhe os dentes, e isso foi mais que suficiente. Tyrion deixou-se cair de novo ao chão com um gemido. - Pronto, não me ajude. Fico aqui sentado até que vá embora. Jon Snow afagou o espesso pelo branco de Fantasma, agora com um sorriso. - Peça-me com bons modos. Tyrion Lannister sentiu a ira retorcer-se no seu interior, mas a esmagou com sua força de vontade. Não era a primeira vez na vida em que era humilhado, e não seria a última. Esta até talvez fosse merecida. - Ficaria muito agradecido pela sua amável assistência, Jon ele disse com uma voz branda,


- Para baixo, Fantasma - disse o rapaz. O lobo gigante sentou-se. Aqueles olhos vermelhos nunca deixaram Tyrion. Jon veio por trás do anão, passou as mãos por baixo de seus braços e o pôs em pé com facilidade. Então pegou o livro e o entregou. - Por que ele me atacou? - perguntou Tyrion com um olhar de relance ao lobo gigante. Limpou sangue e terra da boca com as costas da mão. - Talvez tivesse pensado que você fosse um gramequim. Tyrion lançou-lhe um olhar penetrante. Depois riu, um grosseiro resfolego divertido que saiu de suas narinas completamente sem sua autorização. - Ah, deuses - ele disse, estrangulando o riso e abanando a cabeça. - Suponho que realmente me pareço bastante com um gramequim. O que ele faz aos snarks? - Não vai querer saber - Jon recolheu a pele de urso e a entregou a Tyrion. Tyrion puxou a rolha, inclinou a cabeça e despejou um longo jorro de vinho na boca. O vinho era como fogo frio a gotejar pela garganta abaixo e aqueceu-lhe a barriga. Depois, apresentou o odre a Jon Snow. - Quer? O rapaz pegou no odre e experimentou engolir um pouco, com cautela. - É verdade, não é? - disse, quando terminou. - O que disse da Patrulha da Noite. Tyrion anuiu. Jon Snow fez da boca uma linha severa. - Se isso é o que ela é, então é isso que é. Tyrion deu um sorriso. - Isso é bom, bastardo. A maioria dos homens mais depressa nega uma verdade dura do que a enfrenta. - A maior parte dos homens - Jon respondeu. - Mas não você.


- Não - admitiu Tyrion. - Eu não. Já raramente sonho com dragões. Não existem dragões - recolheu a pele de urso do chão. - Vem, é melhor regressarmos ao acampamento antes que seu tio chame os estandartes. A caminhada era curta, mas o terreno que tinha sob os pés era irregular, e tinha as pernas cheias de cãibras quando regressaram. Jon Snow ofereceu-lhe uma mão para ajudá-lo a ultrapassar um espesso emaranhado de raízes, mas Tyrion recusou. Abriria seu próprio caminho, como fizera toda a vida. Apesar disso, ver o acampamento na sua frente foi agradável. Os abrigos tinham sido erguidos contra o muro em ruínas de um castro havia muito abandonado, um escudo contra o vento. Os cavalos tinham sido alimentados e uma fogueira feita. Yoren estava sentado numa pedra, esfolando um esquilo. O saboroso cheiro de guisado encheu as narinas de Tyrion. Arrastou-se até onde um de seus homens, Morrec, estava cuidando da panela. Sem uma palavra, Morrec estendeu-lhe a concha. Tyrion provou e a devolveu. - Mais pimenta – disse. Benjen Stark emergiu do abrigo que partilhava com o sobrinho. - Aí está você. Jon, que diabos, não desapareça sozinho dessa maneira. Pensei que os Outros o tivessem apanhado. - Foram os gramequins - disse Tyrion, rindo. Jon Snow também sorriu. Stark deitou um olhar severo a Yoren. O homem mais velho grunhiu, encolheu os ombros e regressou ao seu sangrento trabalho. O esquilo emprestou algum corpo ao guisado e, naquela noite, comeram-no com pão escuro e queijo duro à volta da fogueira. Tyrion partilhou seu odre de vinho, fazendo até mesmo Yoren relaxar. Um a um, os homens e rapazes foram


se retirando para os abrigos e para o sono, todos, menos Jon Snow, que ficara com a primeira vigia da noite. Tyrion foi o último a se retirar, como sempre. Quando entrou no abrigo que seus homens tinham construído, parou e olhou para Jon Snow. O rapaz estava em pé junto à fogueira, com o rosto imóvel e duro, e os olhos perdidos nas profundezas das chamas. Tyrion Lannister deu-lhe um sorriso triste e foi se deitar.

Catelyn Ned e as meninas tinham partido havia oito dias quando Meistre Luwin veio ter com Catelyn uma noite, no quarto de doente de Bran, transportando uma candeia de leitura e os livros de contas. - Já é mais que tempo de rever os números, minha senhora ele disse. - A senhora vai querer saber quanto nos custou esta visita real. Catelyn olhou Bran em sua cama, afastou-lhe o cabelo da testa e percebeu que tinha crescido muito. Teria de cortá-lo em breve. - Não tenho nenhuma necessidade de olhar para números, Meistre Luwin - ela respondeu, sem nunca afastar os olhos de Bran, - Sei o que esta visita nos custou, Leve os livros daqui. - Minha senhora, a comitiva do rei tinha apetites saudáveis. Temos de voltar a fornecer os nossos armazéns antes que... Ela o interrompeu. - Eu disse para levar os livros daqui. O intendente tratará das nossas necessidades. - Não temos intendente - lembrou-lhe Meistre Luwin.


Como uma pequena ratazana cinzenta, pensou ela, o homem não a largava. - Poole foi para o Sul a fim de organizar a casa de Lorde Eddard em Porto Real. Catelyn anuiu de forma ausente. - Ah, sim. Lembro-me - Bran parecia tão pálido. Perguntou a si própria se poderiam deslocar a cama até junto da janela para que recebesse o sol da manhã. Meistre Luwin depositou a candeia num nicho perto da porta e ajustou seu pavio. - Há várias nomeações que requerem a vossa atenção imediata, minha senhora. Além do intendente, precisamos de um capitão dos guardas para o lugar dejory, um novo mestre dos cavalos... Os olhos dela dardejaram em redor e o encontraram. - Um mestre dos cavalos? - sua voz era um chicote. O meistre ficou abalado. - Sim, minha senhora. Hullen foi para o Sul com Lorde Eddard, por isso... - Meu filho jaz aqui partido e morrendo, Luwin, e quer conversar sobre um novo mestre dos cavalos? Acha que me importa o que acontece nos estábulos? Acha que isso tem alguma importância para mim? De bom grado mataria com as minhas próprias mãos os cavalos de Winterfell um a um se isso fizesse com que os olhos de Bran se abrissem. Compreende isso? Compreende? Ele inclinou a cabeça. - Sim, minha senhora, mas as nomeações... - Eu farei as nomeações - disse Robb. Catelyn não o ouvira entrar, mas ali estava ele, na soleira da porta, olhando-a. Compreendeu com um súbito ataque de


vergonha que estava gritando. O que estava acontecendo com ela? Estava tão cansada, e sua cabeça doía constantemente. Meistre Luwin desviou o olhar de Catelyn para o filho. - Preparei uma lista daqueles em que podemos querer pensar para os cargos vagos - disse, oferecendo a Robb um papel retirado de dentro da manga. O filho de Catelyn olhou os nomes. Ela percebeu que ele viera de fora: tinha as bochechas vermelhas do frio e os cabelos desgrenhados pelo vento. - São bons homens - disse. - Falaremos deles amanhã devolveu a lista de nomes. - Muito bem, senhor - o papel desapareceu dentro da manga. - Agora, deixe-nos - disse Robb. Meistre Luwin fez uma reverência e partiu. Robb fechou a porta atrás dele e virou-se para ela. Catelyn reparou que o filho usava uma espada. - Mãe, o que está fazendo? Catelyn sempre achara que Robb se parecia com ela; tal como Bran, Rickon e Sansa, possuía as cores dos Tully, os cabelos ruivos, os olhos azuis. Mas agora, pela primeira vez, via algo de Eddard Stark no seu rosto, algo tão resistente e duro como o Norte. - Que estou fazendo? - respondeu num eco, confusa. - Como pode me perguntar isso? O que imagina que estou fazendo? Estou cuidando do seu irmão, Estou cuidando de Bran. - É esse o nome que dá a isto? Não saiu deste quarto desde que Bran se machucou. Nem sequer foi ao portão quando o Pai e as meninas partiram para o Sul. - Dei-lhes as minhas despedidas aqui e os vi partir daquela janela - ela suplicara a Ned que não partisse, não agora, não depois do que acontecera; tudo tinha mudado, ele não


compreendia isso? Sem sucesso. Ele dissera-lhe que não tinha escolha, e então saíra, fazendo sua escolha. - Não posso deixálo, nem por um momento, quando qualquer momento pode ser o último. Tenho de estar com ele, se... se... - pegou na mão flácida do filho, deslizando seus dedos entre os dele, Ele estava frágil e magro, não lhe restava nenhuma força na mão, mas ainda podia sentir o calor da vida na sua pele. A voz de Robb suavizou-se. - Ele não vai morrer, mãe. Meistre Luwin diz que o maior perigo já passou. - E se Meistre Luwin se enganar? E se Bran precisar de mim e eu não estiver aqui? - Rickon precisa da senhora - disse Robb em tom penetrante. - Só tem três anos, não compreende o que está se passando. Pensa que todos o abandonaram, e por isso me segue para todo o lado, agarrando-se à minha perna e chorando. Não sei o que fazer com ele - fez uma pequena pausa, mordendo o lábio inferior como fazia quando era pequeno. - Mãe, eu também preciso da senhora. Estou tentando, mas não posso... não posso fazer tudo sozinho - sua voz quebrou-se com súbita emoção, e Catelyn lembrou-se de que ele tinha apenas catorze anos. Quis levantar-se e ir falar com ele, mas Bran ainda segurava sua mão, e não podia se mover. Fora da torre, um lobo começou a uivar. Catelyn estremeceu, só por um segundo. - É o de Bran - Robb abriu a janela e deixou entrar o ar da noite no abafado quarto da torre. Os uivos ficaram mais fortes. Era um som frio e solitário, cheio de melancolia e desespero. - Não - disse ela. -Bran precisa ficar quente. - Ele precisa ouvi-los cantar - disse Robb. Em outro ponto, em Winterfell, um segundo lobo começou a uivar em coro


com o primeiro. Depois um terceiro, mais perto. - Cão Felpudo e Vento Cinzento - disse Robb enquanto as vozes dos lobos se erguiam e caíam em conjunto. - É possível identificálos se ouvirmos com atenção. Catelyn estava tremendo. Era a dor, o frio, os uivos dos lobos gigantes. Noite após noite, os uivos, o vento frio e o vazio castelo cinzento continuavam, imutáveis, e o seu rapaz jazendo ali, quebrado, o mais doce dos seus filhos, o mais gentil, o Bran que gostava de rir, de escalar, de sonhos de cavalaria, tudo agora desaparecido, nunca mais o ouviria rir. Soluçando, libertou sua mão da dele e cobriu os ouvidos contra aqueles terríveis uivos. - Faça-os parar! - gritou. - Não aguento mais, faça-os parar, faça-os parar, mate-os todos se for preciso, mas faça-os parar! Não se lembrava de ter caído ao chão, mas era no chão que estava, e Robb erguia-a, segurando-a com braços fortes. - Não tenha medo, mãe. Eles nunca lhe fariam mal - ajudou-a a caminhar até sua estreita cama no canto do quarto de doente, - Feche os olhos - disse, em voz branda. - Descanse. Meistre Luwin disse-me que quase não tem dormido desde a queda de Bran. - Não posso - ela chorou. - Que os deuses me perdoem, Robb, mas não posso, e se ele morre enquanto durmo, e se ele morre, e se ele morre... - os lobos ainda uivavam. Ela gritou e voltou a tapar os ouvidos. - Ah, deuses, feche a janela! - Se me jurar que vai dormir - Robb foi até a janela, mas ao estender as mãos para os postigos, outro som foi acrescentado ao fúnebre uivar dos lobos gigantes. - Cães - ele disse, escutando. - Os cães estão todos ladrando. Nunca antes tinham agido assim... - Catelyn o ouviu prender a respiração. Quando ergueu os olhos, o rosto estava pálido à luz da candeia.


- Fogo - murmurou o jovem. Fogo, pensou ela e, em seguida, Branl - Ajude-me - disse, com urgência na voz, sentando-se. Ajude-me com Bran. Robb não pareceu ouvi-la. - A torre da biblioteca está ardendo - ele disse. Catelyn podia ver agora a tremeluzente luz avermelhada pela janela aberta. Recostou-se, aliviada. Bran estava a salvo. A biblioteca ficava para lá do muro exterior do castelo, não havia maneira de o fogo chegar até ali. - Graças aos deuses - sussurrou. Robb a olhou como se tivesse enlouquecido. - Mãe, fique aqui. Volto assim que o fogo estiver extinto depois correu. Ela o ouviu gritar para os guardas que estavam do lado de fora do quarto, ouviu-os descer juntos as escadas em desenfreado ímpeto, saltando os degraus, dois ou três de cada vez. Lá fora, ouviam-se berros de "Fogo!" no pátio, gritos, passos em corrida, os relinchos de cavalos assustados e o frenético ladrar dos cães do castelo. Enquanto escutava aquela cacofonia, percebeu que os uivos tinham desaparecido. Os lobos gigantes tinham-se silenciado. Catelyn rezou uma silenciosa prece de agradecimento às sete caras de deus quando se encaminhou para a janela. Do lado de lá do muro do castelo, longas línguas de fogo jorravam das janelas da biblioteca. Viu a fumaça erguer-se para o céu e pensou com tristeza em todos os livros que os Stark tinham reunido ao longo dos séculos. Então fechou as janelas. Quando virou as costas a janela, o homem estava no quarto com ela. - Não devia estar aqui - ele murmurou amargamente. Ninguém devia estar aqui.


Era um homem pequeno e sujo, vestido com imundas roupas pardas, e fedia a cavalos. Catelyn conhecia todos os homens que trabalhavam nas cavalariças, e aquele não era nenhum deles. Era magro, com cabelos louros escorridos e olhos claros profundamente afundados num rosto ossudo, e trazia na mão um punhal. Catelyn olhou para a faca, e depois para Bran. - Não - disse. A palavra ficou-lhe presa na garganta, um mero sussurro. Ele deve tê-la ouvido. - É uma misericórdia - disse. - Ele já tá morto. - Não - disse Catelyn, agora mais alto depois de ter reencontrado a voz. - Não, não pode - girou de volta à janela, a fim de gritar por ajuda, mas o homem se moveu mais depressa do que ela teria acreditado ser possível. Uma mão fechou-se sobre sua boca e atirou-lhe a cabeça para trás, a outra trouxe o punhal até sua traqueia. O fedor que o homem exalava era opressivo. Ergueu ambas as mãos e agarrou a lâmina com todas as suas forças, afastando-a da garganta. Ouviu-o praguejar ao seu ouvido. Os dedos dela estavam escorregadios de sangue, mas não largava o punhal. A mão sobre sua boca apertou-se mais, tirando-lhe o ar. Catelyn torceu a cabeça para o lado e conseguiu pôr um pouco da carne do homem entre os dentes. Mordeu-lhe a palma da mão com força. O homem grunhiu de dor. Ela fez mais força e rasgou-lhe a pele, e, de repente, ele a largou. O gosto do sangue do homem enchia-lhe a boca. Ela bebeu uma golfada de ar e soltou um grito, e ele agarrou-lhe o cabelo e a empurrou para longe, fazendo-a tropeçar e cair. Então, saltou sobre ela, respirando com força, tremendo. A mão direita do homem ainda agarrava com força o punhal, escorregadio de sangue. - Não devia estar aqui - repetiu, estupidamente.


Catelyn viu a sombra deslizar pela porta aberta atrás dele. Houve um ruído surdo e baixo, menos que um rosnado, o menor murmúrio de ameaça, mas ele deve tê-lo ouvido, porque começou a virar-se no preciso instante em que o lobo saltou. Caíram juntos, meio estatelados, sobre Catelyn, que continuava estendida onde tombara. O lobo o tinha preso nas maxilas. O guincho do homem durou menos de um segundo antes que o animal atirasse a cabeça para trás, arrancando-lhe metade da garganta. O sangue dele foi como chuva quente quando se espalhou sobre o rosto de Catelyn. O lobo a olhava. Suas maxilas estavam vermelhas e úmidas, e os olhos brilhavam, dourados, no quarto escuro. Catelyn percebeu que era o lobo de Bran. Claro que era, - Obrigada - sussurrou, com a voz tênue e aguda. Ergueu a mão, estremecendo. O lobo aproximou-se, farejou-lhe os dedos e pôs-se a lamber o sangue com uma língua úmida e áspera. Depois de limpar todo o sangue de sua mão, ele virouse em silêncio e saltou para a cama de Bran, deitando-se a seu lado. Catelyn desatou a rir histericamente. Foi assim que os encontraram, quando Robb, Meistre Luwin e Sor Rodrik entraram num rompante no quarto com metade dos guardas de Winterfell. Quando o riso finalmente lhe morreu na garganta, enrolaram-na em cobertores quentes e a levaram de volta para a Grande Torre, para seus aposentos. A Velha Ama a despiu, ajudou-a a entrar no banho quente e a lavou do sangue com um pano suave. Mais tarde, Meistre Luwin chegou para fechar suas feridas. Os cortes nos dedos eram profundos, quase chegavam ao osso, e tinha o couro cabeludo em carne viva e sangrando no lugar onde o homem lhe arrancara um tufo de cabelo. O meistre


disse-lhe que a dor estava agora apenas começando, e deu-lhe leite de papoula para ajudá-la a dormir. E ela, finalmente, fechou os olhos. Quando voltou a abri-los, disseram-lhe que dormira durante quatro dias. Catelyn fez um aceno com a cabeça e sentou-se na cama. Agora, tudo lhe parecia um pesadelo, tudo desde a queda de Bran, um terrível sonho de sangue e desgosto, mas tinha a dor nas mãos para lembrá-la de que era real. Sentia-se fraca e entontecida, mas estranhamente resoluta, como se um grande peso tivesse sido tirado de cima de seus ombros. - Tragam-me um pouco de pão e mel - disse às criadas - e mandem um recado a Meistre Luwin, dizendo que minhas ataduras precisam ser trocadas - olharam-na, surpresas, e correram para cumprir suas ordens. Catelyn lembrava-se de como estivera antes, e sentiu-se envergonhada. Falhara para com todos, os filhos, o marido, a Casa. Não voltaria a acontecer. Ia mostrar àqueles nortenhos como uma Tully de Correrrio podia ser forte. Robb chegou antes dos alimentos. Rodrik Cassei veio com ele, bem como o protegido do marido, Theon Greyjoy, e por fim Hallis Mollen, um guarda musculoso com uma barba castanha e quadrada. Era o novo capitão da guarda, disse Robb. Reparou que o filho vinha vestido com couro fervido e cota de malha, e que trazia uma espada à cintura. - Quem era ele? - perguntou-lhes Catelyn. - Ninguém sabe seu nome - informou Hallis Mollen. - Não era homem de Winterfell, senhora, mas há quem diga que foi visto aqui e nas imediações do castelo ao longo destas últimas semanas.


- Então é um dos homens do rei - disse ela -, ou dos Lannister. Pode ter ficado para trás, à espreita, quando os outros partiram. - Pode ser - disse Hal. - Com todos aqueles estranhos a encher Winterfell nos últimos tempos, não há maneira de dizer a quem pertencia. - Ele esteve escondido nas cavalariças - disse Greyjoy. Podia-se sentir o cheiro nele. - E como pôde passar despercebido? - disse ela em tom penetrante. Hallis Mollen pareceu atrapalhado. - Com os cavalos que o Senhor Eddard levou para o Sul e os que enviamos para o Norte para a Patrulha da Noite, as cavalariças ficaram meio vazias. Não seria grande truque se esconder dos moços da cavalariça. Pode ser que Hodor o tenha visto, dizem que o rapaz anda esquisito, mas simplório como é... - Hal abanou a cabeça. - Encontramos o lugar onde ele dormia - interveio Robb. Tinha noventa veados de prata num saco de couro escondido debaixo da palha. - É bom saber que a vida do meu filho não foi vendida barato - disse Catelyn amargamente. Hallis Mollen a olhou, confuso. - As minhas desculpas, senhora, mas está dizendo que ele foi mandado para matar o seu rapaz? Greyjoy mostrou dúvida. - Isso é uma loucura. - Ele veio por Bran - disse Catelyn. - Ficou o tempo todo resmungando que eu não devia estar ali. Provocou o incêndio da biblioteca pensando que eu correria para tentar apagá-lo, levando os guardas comigo. Se não estivesse meio louca de desgosto, teria funcionado.


- Por que haveria alguém de querer matar Bran? - Robb perguntou. - Deuses, não passa de um rapazinho, indefeso, dormindo... Catelyn lançou ao seu primogênito um olhar de desafio. - Se quiser governar o Norte, Robb, precisa analisar estas coisas até o fim. Responda à sua pergunta. Por que haveria alguém de querer matar uma criança adormecida? Antes que Robb pudesse responder, as criadas regressaram com uma bandeja de comida fresca acabada de vir da cozinha. Havia muito mais do que ela pedira: pão quente, manteiga, mel e conservas de amoras silvestres, uma fatia de bacon e um ovo cozido, uma porção de queijo, um bule de chá de menta. E com os alimentos chegou Meistre Luwin. - Como está meu filho, Meistre? - Catelyn olhou toda aquela comida e descobriu que não tinha apetite. Meistre Luwin baixou os olhos. - Sem alterações, minha senhora. Era a resposta que ela esperava, nem mais, nem menos. As mãos palpitaram-lhe de dor, como se a lâmina ainda estivesse nelas, cortando-as profundamente. Mandou as criadas embora e voltou a olhar para Robb. -Já tem a resposta? - Alguém tem medo de que Bran acorde - disse Robb -, medo do que ele possa dizer ou fazer, medo de qualquer coisa que ele sabe. Catelyn sentiu orgulho do filho. - Muito bem - virou-se para o novo capitão da guarda. Temos de manter Bran a salvo. Se existiu um assassino, poderá haver outros. - Quantos guardas serão necessários, senhora? - perguntou Hal.


- Enquanto o Senhor Eddard estiver fora, é o meu filho quem governa Winterfell - ela respondeu. Robb pareceu crescer um pouco. - Ponha um homem no quarto, de noite e de dia, um junto à porta, dois ao fundo das escadas. Ninguém pode ver Bran sem minha autorização, ou a da minha mãe. - Certamente, senhor. - Trate disto já - sugeriu Catelyn. - E deixe que o lobo dele fique no quarto - acrescentou Robb. - Sim - disse Catelyn. E depois de novo: - Sim. Hallis Mollen fez uma reverência e deixou o quarto. - Senhora Stark - disse Sor Rodrik depois de o guarda sair -, teria a senhora, por acaso, reparado no punhal que o assassino usou? - As circunstâncias não me permitiram examiná-lo de perto, mas posso certificar que era afiado - respondeu Catelyn com um sorriso seco. - Por que pergunta? - Encontramos a faca ainda na mão do vilão. Pareceu-me uma arma boa demais para um homem daqueles, e olhei-a longa e atentamente. A lâmina é de aço valiriano e o punho, de osso de dragão. Uma arma assim não tem nada a ver com um homem como ele. Alguém lhe deu. Catelyn fez um aceno, pensativa. - Robb, feche a porta. Ele a olhou de um modo estranho, mas fez o que lhe foi pedido. - O que vou dizer não deve sair deste quarto - ela avisou. Quero que jurem. Se até mesmo parte daquilo de que suspeito for verdade, Ned e as minhas meninas viajaram para um perigo mortal, e uma palavra aos ouvidos errados poderá custar-lhes a vida.


- Lorde Eddard é como um segundo pai para mim - disse Theon Greyjoy. - Presto esse juramento. - A senhora tem o meu juramento - disse Meistre Luwin. - E o meu também, minha senhora - ecoou Sor Rodrik. Ela olhou para o filho. - E você, Robb? Ele consentiu com um aceno de cabeça. - Minha irmã Lysa acredita que os Lannister assassinaram o marido, Lorde Arryn, a Mão do Rei - informou Catelyn. Ocorre-me que Jaime Lannister não se juntou à caçada no dia em que Bran caiu. Permaneceu aqui no castelo - o quarto estava num silêncio mortal. - Não me parece que Bran tenha caído daquela torre - disse ela para o silêncio. - Penso que foi atirado. O choque era claro no rosto dos quatro homens. - Minha senhora, essa sugestão é monstruosa - disse Rodrik Cassei, - Até mesmo o Regicida hesitaria em assassinar uma criança inocente. - Ah, hesitaria? - perguntou Theon Greyjoy. - Tenho dúvidas. - Não há limites para o orgulho ou a ambição dos Lannister disse Catelyn. - O rapaz sempre teve antes a mão segura - Meistre Luwin disse, pensativo. - Conhece todas as pedras de Winterfell. - Deuses - praguejou Robb, com o jovem rosto escuro de fúria. - Se isto for verdade, ele pagará - puxou a espada e a brandiu no ar. - Eu próprio o matarei! Sor Rodrik irritou-se com ele. - Guarde isso! Os Lannister estão a cem léguas daqui. Nunca puxe a espada, a menos que tencione usá-la. Quantas vezes tenho de lhe dizer isto, meu tolo rapazinho?


Envergonhado, Robb embainhou a espada, subitamente transformado de novo numa criança. Catelyn disse a Sor Rodrik: - Vejo que meu filho agora usa aço. O velho mestre de armas respondeu: - Achei que era tempo, Robb a olhou ansiosamente: - Já era mais que tempo. Winterfell pode necessitar de todas as suas espadas em breve, e é bom que elas não sejam feitas de madeira. Theon Greyjoy pôs a mão no punho de sua espada e disse: - Minha senhora, se chegar a tanto, minha Casa tem uma grande dívida para com a vossa. Meistre Luwin puxou a corrente do colar onde lhe irritava a pele do pescoço. - Tudo o que temos são conjecturas. Quem queremos acusar é o irmão querido da rainha. Ela não o aceitará de bom grado. Temos de encontrar provas, ou ficar em silêncio para sempre, - Sua prova está no punhal - disse Sor Rodrik, - Uma bela lâmina como aquela não pode passar despercebida. Catelyn compreendeu que havia apenas um lugar onde a verdade podia ser encontrada. - Alguém tem de ir a Porto Real. - Eu vou - disse Robb. - Não - ela disse imediatamente. - Seu lugar é aqui. Deve haver sempre um Stark em Winterfell - olhou para Sor Rodrik com suas grandes suíças brancas, para Meistre Luwin com sua túnica cinzenta, para o jovem Greyjoy, magro, escuro e impetuoso. Quem enviar? Em quem acreditariam? Então soube. Catelyn esforçou-se por empurrar os cobertores, com os dedos tão rígidos e inflexíveis como pedra, e levantouse da cama. - Devo ir eu mesma.


- Minha senhora - disse Meistre Luwin -, será avisado? Decerto que os Lannister encararão a vossa chegada com suspeita. - E Bran? - perguntou Robb. O pobre rapaz parecia agora completamente confundido, - Não pode ter a intenção de abandoná-lo. - Fiz por Bran tudo o que podia fazer - ela disse, pousando sua mão ferida sobre o braço do filho. - Sua vida está nas mãos dos deuses e de Meistre Luwin. Tal como você mesmo me lembrou, Robb, tenho agora outros filhos em que pensar. - Minha senhora vai precisar de uma forte escolta - lembrou Theon. - Enviarei Hal com um pelotão de guardas - disse Robb. - Não - Catelyn respondeu. - Um grupo grande atrai atenções indesejadas. Não quero que os Lannister saibam que estou a caminho. Sor Rodrik protestou. - Minha senhora, deixe-me pelo menos acompanhá-la. A estrada do rei pode ser perigosa para uma mulher só. - Não irei pela estrada do rei - ela retrucou. Pensou por um momento e consentiu com a cabeça. - Dois cavaleiros podem deslocar-se tão depressa como um, e bastante mais depressa do que uma longa coluna sobrecarregada com carroças e casas rolantes. Aceito sua companhia, Sor Rodrik. Seguiremos o Faca Branca até o mar e alugaremos um navio em Porto Branco. Com cavalos fortes e ventos vivos, deveremos chegar a Porto Real bem antes de Ned e dos Lannister - e então, pensou, veremos o que tivermos de ver.


Sansa Sept ã M ordane in formou Sans a, d urante o desjej um, que Ed dard St ark partir a a ntes d a madr ug ad a. - O rei mandou ch amá-lo. O utr a caçada, crei o. Dizem que ain da há aur o ques s elv age ns n e stas terr as. - N unc a vi um a u r oq ue - d i ss e Sa ns a, d a nd o u m a fatia de bacon a Lad y por baixo da mes a. A loba selvagem a tir ou da mão tão delicadament e com o uma r ainh a. Sept ã Mord an e fu ng ou, de sa pro va n do. - Uma senh ora nobre não alime nt a cães à mes a repree nde u a me nina, parti ndo out ro bocado de f avo e deix and o o m el pin gar em su a fat i a de p ão. - Ela não é um cão, é um lobo sel vagem - Sans a a corrigi u e nquant o Lad y lhe lambia os ded os c om uma lí ngua ás per a. - Sej a com o f or, meu pai disse que po díam os m a ntê-los c o nosc o se quiséss emos. A septã nã o est av a satisfeit a. - Você é uma b oa moça, Sans a, m as, juro, no que toca a ess a criat ura, é tão teimos a como a sua irmã Arya - fr anziu a sobr ancelha. - E onde e stá Ar ya hoje? - Ela não tinha f ome - Sans a res ponde u, s abe nd o perfeit amente que a irmã tinha provavelme nte se esgueir ad o até a cozinha hor as antes e conve ncido alg um aj udante de cozi nheiro a d ar-lhe um café da manh ã. - Lembre-a de que hoje de ve se vest ir bem. Talve z o vestido de veludo cinz a. Estamos todas convi dad as par a ac om pa nhar a rainh a e a Pri ncesa M yrcella n a


casa rol ante real, e devemos apre sentar noss a melhor aparência. Sa nsa já apre senta v a sua m elhor ap arê ncia. Escovara os lo ngos cabelos rui vos até dei xá-los brilhando e esc olhera suas melhores sedas az uis. Esperava aquele dia havi a mais de uma se mana. Acompanh ar a r ainha er a um a grande h onr a e, alé m disso, Prí ncipe Joffre y t alvez lá estivess e. O seu prom etido. Só de pensar niss o se ntia uma es tranha agit ação no peit o, ainda que não pud es sem se casar antes de se passarem anos e anos, Sansa ai nda não conhecia r e a l m e n t e J o f f r e y , m a s j á e s t a v a a p a i x o n a d a por el e. Era t udo como s onh ara que s eu prí ncipe pode ria ser: alto, bonit o e forte, com cabelos que pareci am ouro. E ram-lhe preci osas as oport unidades de pas sar algum tempo c om ele, por poucas que fossem, A única coisa que a ass ustava naquele dia era Ar ya. Ar ya tinha te ndê ncia para e stragar tudo. Nunc a se sa bi a o que el a p oderi a fa zer. - Eu vou lhe dizer - disse Sans a, e m voz incert a -, mas el a vai vestir o mes mo de sempre - es per ava qu e nã o f osse muit o e mbar aç oso. - Com a su a licenç a. - Com certeza - Septã Mord ane ser viu-se de mais pão e mel, e Sans a ergue u-se do banc o. Lady a segui u de perto quando s aiu corre ndo da sala de estar da estalagem. Lá fora, paro u p or um mome nt o entre os grit os e pra gas e o ranger de rodas de mad eira e a conf usão dos home ns desmont ando a s tendas e pavilhões e carregando as car roças par a mais u m dia de mar cha. A estalagem er a uma vasta es trut ura d e pe dra cl ar a, com três an dare s , a mai or que S ans a já vira, ma s


mesmo assim só tivera lugar para menos de um terço da comiti va d o rei, que aume nt ara para m ais d e quatrocent as pes soas com a adição da comiti va do pai e os cavaleiros livres que a eles se junt aram na estrad a. Encontrou Arya na margem d o T ridente, te ntand o mant er Nymeria quiet a e nquant o limpava seu pel o de lam a se ca c om a ajuda de uma esc ova. A l oba gig ante não pare cia gost ar. Arya vestia os mesmos cour os d e m ont ar que vestira no dia anterior e no outr o a ntes de sse. - É melhor que vi s ta al gum a c oisa bonita - disse-lhe Sansa. - Foi Se ptã Mor dane que disse. H oje vam os viajar na cas a r olante da rai nha com a Princesa Myrcella. - Eu não vou - di s se Arya, te ntand o desf azer um nó no em aranhad o pelo cinze nto de N ymeria. - Mycah e eu vam os s ubir a cor rente e procurar no vau por rubis. - Rubis - diss e S ans a, pe nsati va. - Que ru bis? Arya a olho u co m o se ela f osse m ui to estú pid a. - O s r u b i s d e Rhaegar. F o i a q u i q u e o R e i R o b e r t o matou e conqui stou a cor oa. Sansa olhou s ua magric ela irm ã m ais n ov a, incré dul a, - Não pode ir à procur a d e rubis. A pri nces a nos esper a. A rainh a nos c on vid ou a a mbas. - Não me importa - disse Arya. - A c asa r ol ante ne m s e q u e r t e m janelas, n ã o s e p o d e v e r n a d a . - O que você poder ia querer ver? - pergunt ou Sans a, ab orrecid a. Fica ra excit ada c om o con vite, e a


estúpi da d a irm ã ia estragar tud o, tal com o teme ra. Só há c am pos, f az enda s e castr os. - N ã o , não é s ó - A r y a t e i m o u . - S e v i e s s e à s v e z e s con osc o, vo cê ver i a. - Detesto a n d a r a c a v a l o - S a n s a r e s p o n d e u c o m fervor. - Tudo o que isso f az é nos encher de terra, poeir a e d ores. Arya e ncolhe u os ombr os. - F i c a quieta - o r d e n o u a N y m e r i a - , n ã o e s t o u t e machuc ando - depois se dirigi u a Sansa: - Q uand o atravess amos o Gargalo, c ontei trinta e seis fl ores que nu nc a t i nh a vi s t o a nt e s , e Myc ah m e m os t r ou um la gart o-le ão. Sa nsa estrem ece u. Tinha m le vad o d oze dias p ar a atravess ar o Gar gal o, chacoalhando por um t alud e torto ao l ongo de um lodaç al preto sem fim, e ela detestar a c ad a mome nto da travessia. O ar era úmid o e pegajos o, o t alud e tão e streito que sequer podi am f azer um ac ampame nto di gno des te nome à noite, e ti veram de parar na própria estr ad a d o rei. Densas matas de árvores meio submersas a pertavamse contr a eles, com os ramos pi ngando sob o pes o d e cor ti nas de f ungos pál i dos. E normes fl or es desabroch avam n a lam a e flut uavam em poças de água parada, mas havi a arei as movedi ças à espera par a apanhar q uem fosse suficie ntemente est úpi do par a dei xar o talude e ir apanhá-las, e ser pente s à espreit a nas árvores, e lagar tos-le ões a fl utuar, meio subm ersos na ág ua, com o troncos negros c om olhos e dentes. Nada daquil o par ava Arya, clar o. Um dia re gress ar a com se u s orris o d e ca val o, o ca bel o tod o em ara nha d o


e as roupas cobertas de lam a, agarrada a um rud e buquê d e flores purpúre as e ver des para o pai. Sans a acale ntou a espe ranç a de que ele dissesse a Arya par a se port ar bem e agir com o a senhor a de boas famílias que er a suposto ser, mas ele assim não fez, limitou-s e a abr açá-la e a agradecer-lhe pelas fl ores. E isto só ref orço u seus ma us m od os . Então, descobri u-se que as flores pur púre as er am c o n h e c i d a s p o r beijos de veneno, e A r y a a c a b o u c o m uma irritaç ão nos braços. Sans a s upôs que aquilo lh e ensinaria um a lição, m as Arya riu do ass unt o e no dia se gui nte esfregou lama nos braços, de cim a a bai xo, c om o um a m ul h e r i gn o r ant e qu al q ue r d o pântano, só por que o amigo Mycah lhe dissera que faria d esapare cer a comi chão. Ta m bém ti nha nód oas negr as nos braç os e ombr os, vergões púr puros escur os e manchas de sbotadas verdes e am arel as; Sansa os viu qu a ndo a irmã se despiu par a dormir. C o m o t i n h a a r r a n j a d o aquilo, s ó o s s e t e d e u s e s sabi am. Arya ai nd a continuava a fal ar sob re coisas que vir a na vi age m par a o Sul enquant o desfazi a com a escov a o s nós n o pelo d e Nymeri a. - Na sem ana pass ada, enc ontram os um a torre d e vigi a ass om bra d a e, no dia ant erior, perse guimos uma manada de cavalos selvage ns. Devia tê-los vist o corre ndo quand o sentiram o cheiro de Nymeri a - a loba ret orceu-se e Arya ralhou c om ela. - P ara c om isso, te nho de li mpar o outro lado, você est á chei a de lama.


- Você não de ve aband onar a c oluna - relem brou-lh e Sansa. - Foi o que o pai disse. Arya encolheu os ombr os. - Não fui longe. Seja com o f or, Nymeria sem pre esteve c omi go. E nem sempre saio d a c oluna. Às vezes é di vertido c avalgar j unt o às carroç as e con vers ar co m as pesso as. Sansa s abi a tud o sobre o ti po de gente com que m Arya gos tava de falar: esc udeiros, cavalariços e criadas, home ns velhos e cri anç as nuas, cavaleir os livres de linguage m rud e e nas ci mento i ncert o. Ar ya f a z i a a m i z a d e c o m qualquer um. A q u e l e M y c a h e r a o pior; filho de um carniceir o, com treze anos e desenfre ado, d or mia na c arroça das car nes e cheir ava a matadouro. Bastava olhá-l o par a Sansa se ntir-se enjoada, mas Arya pareci a preferir a com panhia d o rap az à s ua. Sa nsa es ta va ag or a per dend o a p aci ência. - Você te m de vir c omigo - disse fir memente à irmã. - Não pode diz er não à rai nha. Septã Mord ane cont a conti go. Arya a ignor ou. Puxou c om f orça a escov a. Nymeri a rosn ou e r od opi ou par a lo nge, irrit a da. - V o l t a já a q u i ! - V a i t e r b o l o s d e l i m ã o e c h á - co n t i n u o u S a n s a , toda adult a e r ac ional. Lad y esfregou-se contra sua perna. Sansa coç ou-lhe as or elhas do m od o que a l ob a gos t ava, e L ad y s e ntou- s e ao s e u l ad o, obser vand o a per seguiç ão entr e A rya e N ymeri a. Por que moti vo i a querer m ont ar um velho caval o malcheiros o e fic ar to da dol orid a e su ada q ua nd o


pode se e ncost ar em alm ofadas de pe nas e com er bol os com a rai nh a? - Não gost o da rainha - Ar ya responde u com indifere nça. Sansa prendeu a res piração, ch ocada por a l g u é m , m e s m o q u e f o s s e Arya, p o d e r d i z e r u m a c o i s a daquel as, mas s ua irmã c onti nuou a tagarelar, sem cuidado algum. - Ela ne m se quer me dei xa l evar Nymeria - e nfi o u a esc ov a n o cinto e pass ou a perse guir a l oba. Nymeria vi giava com prudência s ua apr oxim aç ão, - U m a c a s a r o l a n t e r e a l n ã o é l u g a r p a r a u m lobo disse Sans a. - E você bem sabe que a Prince sa Myrcella tem m edo deles. - Myrcella é um bebezinh o - Arya agarro u Nymeria pelo pesc oço, m as no m ome nto e m que tir o u a esc ova do cinto, a loba gigante li be rtou-s e com uma cont orç ão e s altou par a l onge dela. Frustr ada, Arya a t i r o u a e s c o v a a o c h ã o . - L o b a má! - g r i t o u . Sansa não c onse gui u e vitar um p eque no s orriso. O mestre do c anil lhe dissera um a vez que um animal sai ao dono. De u a Lady um peque no e r ápido abr aço. Lad y la mbeu-lhe o r ost o. Sans a solt ou um risinho. Ar ya ouviu e deu meia- volt a, olhando- a furios a. - Não me int eressa o que você poss a dizer, eu vou mont ar - seu l ongo ros to de cavalo tinha a express ão teimos a q ue sig ni f icav a q ue fa ria a l go de pro p ósito. -Jur o pelos de use s, Arya, às vez es você não passa de u m a criança - S a n s a a r e p r e e n d e u . - S e n d o a s s i m , v o u soz i nh a. Vai ser mui to mai s a gradável . L ad y e eu vam os come r tod os os bol os de limão e p assar se m


você o melhor d os dias. - Virou-se par a se af astar, mas Arya grit o u à s suas co stas: - T ambém nã o vã o te deixar lev ar a Lady - e foi embora, antes de Sans a conseguir pensar numa respos ta, perse gui ndo N ymeri a a o l on go d o rio. Só e humilhad a, Sansa inici ou a longa cami nhad a de volt a à est alage m, ond e sabia que Se ptã M ordane estava à espera. Lady cami nhava em silêncio ao se u lado. Estava quase chorando. Tudo o que desejava era que as c oisas fossem agr ad áve i s e bonit as, com o eram nas c anç ões . Por que Ar ya não podi a ser d oce, delicad a e bond osa, com o a Princesa Myrcell a? Ela gost aria de um a i rmã assi m. Sa nsa n unc a c o nseg uira co mpre ender com o er a possí vel que d uas irmãs, nascidas ape nas com doi s anos de difere nç a, pudessem ser t ão difere ntes. Teria sido m ais fácil se Arya f osse bast a rda, co mo o mei oi r m ã o J o n . E l a a t é e r a parecida c o m J o n , c o m o r o s t o longo e os c abelos cast anh os d os St ark, e nad a de s ua mãe no ros to ou nas core s. E a mãe de Jon f or a uma m u l h e r plebeia, o u p e l o m e n o s e r a i s s o q u e s e segred ava. Uma vez, quando er a peque na, Sans a a té chegou a pergun tar à m ãe s e não t eria ha vid o algum eng ano. Tal vez os gr ame qui ns ti ve ssem r oubad o sua i r m ã verdadeira. M a s s u a m ã e l i m i t a r a - s e a r i r , dizend o que nã o, que Ar ya era sua filha e irmã legítima de Sans a, sangue d o sangue del as. Sans a não era capaz de imaginar um m otivo que levasse a mãe a querer m entir sobre aquilo, e assim c oncluír a que ti nha de s er v erdade. Ao se aproximar do cent ro do acampame nto, sua afliçã o foi ra pid amen te esq uecida. Uma multi dã o


tinha se re unido em tor no d a c asa rolante d a rai nha. Sansa ouvi u voze s excit adas que z umbi am c omo um a colmeia. Vi u que as port as tinh am sido esc anc ar adas e que a rai nha estava no topo dos de graus de madeir a, sorri nd o par a al guém. O u viu- a dizer: - O conselho nos presta uma gr ande ho nra, meus bo ns senh ores. - O que e stá acont ecend o? - per guntou Sans a a um escudeir o se u co n hecido. - O co ns el h o e n vi o u c av al e i r o s d e P or t o Re al p ar a nos e scolt ar pelo rest o do caminho - i nformou o homem. - Uma guarda de hon ra par a o rei. Ansios a por vê-los, Sans a deixou Lady abrir-lh e caminh o através da m ultid ão. As pessoas af ast avam se às pressas da loba gi gante. Q uando se a proxim ou, viu dois c avaleiros que se ajoelhavam per ante a rainha, usand o armad uras t ão boas e esple ndoros as que a fizer am pes tanej ar. Um dos cavaleir os usava um intricado c onj unt o de escam as brancas esmalt ad as, brilhante c om o um campo d e ne ve re cém-caíd a, c om relevos e fi velas d e prat a que brilhavam ao sol. Q ua ndo tirou o elmo, Sansa viu que er a um home m idoso, de cabelos t ão alvos com o a ar mad ura, m as, apesar disso, pare cia forte e gr acioso. De seus om br os pendia o mant o de um br an co pur o d a Gu arda Re al. O comp a nheiro e ra um homem co m pert o de vi nt e anos cuja ar mad ura era uma pl aca de aço de um prof undo verde- musgo. Era o home m mais bonito em que Sans a já pousar a se us olhos; alto e de constit uiç ão pode rosa, com cabelos negros como bre u que lhe c aí am so bre os om bros e r o dea v am um rost o


escanh oad o, e ris onhos olhos ver de s que co mbi navam com a armad ura. Aninhado de bai x o d o br aço, estava um elmo pr ovid o de chifres, cuja magnífica viseira brilhav a de our o. A princípi o, Sans a não re par ou no terceiro estranho. Não est ava aj oelhado c omo os out ros. Estava em pé, ao l ad o, junto aos cavalos d os rec ém-chegados, um homem magr o e sombri o que obser vava os aco ntecime nt os em silêncio. Tinha o r ost o sem bar ba, marc ado pela varíol a, olhos enc ovados e bochechas desc arnad as, Embor a não foss e velho, restavam-lhe poucas mad eixas de cabel o, brotando por cim a das orelhas, mas deixara-o crescer com o o de um a mulher. Sua ar madura era uma cot a de malha d e um t om cinze nt o de ferro, post a s obr e camadas de couro fervi do, sim ples e sem ador nos, que re velava a i dade e o uso d uro. Sobre o om br o direito vi a-se o manchado punh o d e couro d a l âmina que tr azia at ada às costas, uma espada de duas mãos, gra nde dem ais p ara ser pres a ao f l anc o. - O r ei f oi c aç ar, m as se i que f i c ar á f e li z em vê - l os quando regr essar - dizia a rainh a aos dois cavaleir os que se aj oelhavam perante el a, mas Sansa não conse guia tir ar os olhos do terceiro homem. Ele parec eu se ntir o peso do se u olhar. Lentame nte, virou a c abeça. Lady rosnou. Um terror t ão esmagad or c omo qualquer out ra coisa que Sans a Star k já se ntira e ncheu- a de re pente. Deu um passo par a trás e foi de enco ntr o a alg ué m. Fortes m ãos agarraram-lhe os ombros e, por um mome nto, Sans a pens ou que er a o pai, m as, quand o se vir ou, foi a fac e q ueima da de S andor Cleg ane q ue


enco ntr ou olha nd o-a de cim a, c o m a bo ca t orcid a num te rrível sim u lacro d e sorris o. - Está tremendo, menin a! - diss e ele, com vo z ásper a. - Assu sto- a ta nto assim? Assusta va, e ass usta va desd e q u e ela pu sera pel a primeir a vez os olhos na r uí na em q ue o fo g o transf orm ara se u rosto, emb ora a g or a lhe parecess e que n ão c aus av a nem meta de do t error da qu ela vez . Mesmo as sim, Sa nsa des vio u-se p ara l on ge dele. O Cão de Caç a s olto u um a g arg a lhada, e Lady interp ôs-se e ntre amb os, ru gi n do um a viso. Sa ns a caiu de j oelhos e enrol ou os br aç os em torn o d a lo ba . As pesso as reu n iram-se em v olt a dela, de boc a abert a. Sa ns a se n tia os olhos po sto s nel a, e a qui e al i ou vi a c ome ntári o s murm ura dos e f arra pos de risos. " Um lob o", disse um homem, e alg uém ec oo u "Pelos s ete infer nos, ist o é um lo b o gig a n te" e o primeir o homem p erg unt o u "Que faz ele n o aca mp ame nto ?" e a v oz á sper a d o Cão de C aça r e plico u: "Os St ar k usam- n os co mo a mas de leite" e Sans a c ompr eend e u que os d ois c av a leiros desc onheci dos olh av am par a ela e para Lady, com as e sp adas n as mãos, e então ficou n ovame nt e ass usta da e en verg onh ada. Lágrim as encher a m-lhe os olh os. Ouvi u a r ainha di zer: - Joffre y, vá f al ar com ela. E ali esta va se u p ríncipe. - Deixem- na em paz - disse Joffrey. Erguia-se acima dela, belo em sua lã azul e c our o negr o, c om os carac óis dourados brilhand o ao sol como um a cor oa. Ofereceu-lhe a mão e a aj ud ou a fic ar em pé. - Q ue se pass a, q uerid a senhor a? P or q ue ta nt o med o?


Ning uém lhe fará mal. Guar dem as espad as, tod os. O lob o é seu anim al de estimação, não pass a disso olh ou p ara S a ndor Clega ne: - E voc ê, cã o , desa pareç a d aq ui, está ass ust an do minha p rometi da. Cão de Caça, sem pre fiel, fez uma véni a e esgu eiro u se em silênci o atr avés d a m ultidã o . San sa lu to u p or firmar-se. S enti a -se tão p atet a. Era uma Star k de Winterfell, um a s enhor a n obre, e um di a seria um a rainha. - Não foi ele, me u querido prínci pe - ela te nt ou explic ar. - Foi o o utro. Os dois ca val eiros desco nhecidos t rocar am um olhar. - Payne? - disse c om um risinh o abaf ado o homem mais novo, d a ar mad ura verde. O homem mais velh o vestid o de b ra nco falo u ge ntilme nt e a S ans a. - Por vezes, Sor I lyn tam bém me assust a, querid a senhor a. Tem um aspec to temí vel. - E assim de ve s er - a rai nha descera da c as a rolante. Os espectadores af astaram-se a fim de lhe abrir cami nho. - Se os mal vad os não t emerem o Magistrado do R ei, isso quer dizer que o h omem errad o está no c ar go. Sa nsa fi nalm ente enco ntr ou o q ue d izer: - E ntã o, com cer teza Voss a Gra ça enc ontr ou o homem certo - el a terminou o que d izia e uma r aj ad a de gar g alhad as ex plodi u à s ua vol ta . - Bem dito, me ni na - disse o velho d e branc o, - Com o é pr ópri o de uma filha de Eddard St ark. Estou honrado por c onhecê-la, por mais irre gul ar que tenha sido o m o d o c om o nos e nc on tram os. So u S or


Barristan Selmy, da Guarda Real - o homem lhe fez uma re verê nci a. Sa nsa c onheci a o no me, e ag or a as cortesi as q u e Sept ã M ordane lhe ensi nar a ao longo dos anos vinha m-lhe à me mória. - O Senhor Comandant e da G uarda Real - disse - e conselheir o do nosso rei Robert, e antes dele de Aerys Targaryen, A honra é minha, bom c avaleiro. Mesmo no l ongín quo Norte, os cantores gabam os feitos de Ba rristan, o Ou sad o. O cav aleiro verde riu n ov ame nte. - Barristan, o Usado, a senh ora quer dizer. N ão o lisonjeie c om ta nta doç ur a, criança, pois el eja tem uma opi nião gr an de demais de si própri o - e sorri ulhe. - E agora, menina-lobo, se conse guir tam bém encontr ar um nome par a mim, então terei de reconhec er q ue é, sim, filha da noss a Mão. Joff re y em perti go u-se a se u l a do. - Tenha cui dad o com o m odo com o s e dirige à mi nha prom etida. - E u pos s o r e s p on d e r - d i ss e Sa ns a d e pr e s s a p ar a aquietar a ira de se u prínci pe. Sorriu para o cavaleiro ver de. - Seu c apacet e tem chifres dourad os, senhor. O ve ad o é o selo d a Casa Real. O rei Robe rt tem dois irm ãos. Por s ua ext rema juve ntude, s ó pode ser Renl y Bar atheon, se nhor de Ponta Tem pest ade e conselheir o d o rei , e assim o nom ei o. Sor Ba rrista n solt ou um risinh o. - Pela sua e xtrem a juvent ude, só pode ser um a r r o g a n t e e m p i n a d o , e é a s s i m q u e o n o m e i o eu. Ouvi u-se gar galh ada ger al, lider ada pel o pró pri o Lorde Re nly. A tens ão de m om entos a ntes ti nh a


desaparecido, e Sans a começava a se se ntir conf ort ável... até que Sor Ilyn Payne abriu caminh o entre d ois h omens à f orça de se u ombr o e sur giu à sua fre nte, sem sorrir. Não disse uma palavra. Lady mostr ou os de ntes e começ ou a r osnar, um rugido bai xo chei o de ameaç as, m as desta vez Sansa silenciou a loba pass ando suave m ente s ua mão na cabeç a del a. - L ament o se o of e ndi, S or Ily n - di s se. Esperou por uma resposta, mas nenh uma vei o. Enquanto o e xec utor a olhava, s e us olh os cl aros se m cor pareciam de spi-la, incl usive a pele, deixando-lh e a alma nua à sua frente, Ainda em silêncio, o homem se viro u e foi e mb ora. Sa nsa nã o co mpre ende u. Olhou par a seu prínci pe. - Disse al go de errado, V ossa Graça? Por que moti vo ele nã o fal ou c om igo? - Sor Ilyn não te m sido fal ador nestes últimos catorz e anos - come ntou Lorde Renl y, c om um sorriso ir ôni co. Joffre y lançou a o tio um olhar d e pur a repugnânci a, e dep ois tom ou as mãos d e S ans a n as su as. - Aerys Targarye n mandou arr anc ar-lhe a língu a com te nazes q uen tes. - No ent ant o, f ala de mod o bem e loquent e com a espada - disse a rainha -, e s ua devoç ão pelo nos s o reino est á for a de quest ão - então, sorri u amavelme nte e disse: - Sans a, os b ons c on selheiros e eu temos de conversar até que o re i regresse com seu pai. Tem o q ue tenham os de ad iar seu dia com Myrcella. Tra nsmita, po r fa vor, as minhas des cul pas


à sua querida irmã. Joffre y, t alvez poss a ter a ama bilida de de e n treter a noss a co n vida da. - C om todo o prazer, mãe - disse Joff rey, mui t o formal mente. T omou- a pelo braç o e af ast ou-- a d a casa r olante, e o est ado de espírito de Sansa leva nto u vo o. Um dia inteir o c om s eu prí ncip e! Olhou para Joffre y com ad oraç ão. Ele é tão gal ante, pens ou. O m od o c omo a sal var a d e Sor Ilyn e do Cão de Caç a, ora, fora quase c om o nas c anç ões, com o daquel a vez em que Serwyn d o Escudo Es pelhad o salvou a Princesa Daeryss a dos gi gantes, ou quand o Príncipe Aem on, o Cavaleiro d o D ragão, def end eu a honra da R ainh a Naer ys contr a as cal úni as do malvad o Sor Mor gil. O toqu e da m ão de Joffre y em s ua m an ga fez se u coraç ão b ater mai s depress a. - O que gost aria de fazer? Estar contigo, p en s o u S a n s a , m a s , e m v e z d i s s o , respo nde u: - O que quiser f az e r, meu prí nci pe. Joff re y refleti u p or um m ome nto. - Podíam os ir m ont ar a c avalo. - A h , e u adoro m o n t a r - e l a e x c l a m o u . Joff re y olh ou d e relance L ady, que os seg ui a d e perto. - O lobo pode ass ustar os c avalos, e meu cão parece assust á-l a. Deixemos am bos para trás e vam os os dois so zinhos, o q ue diz? Sa nsa hesit ou. - Se assim des ejar - disse, incerta. - Sup onho qu e pode ria amarr ar Lady - n o e n tant o, n ão ti nh a


certeza de ter compree ndido. - Não sabia que ti nha um cã o... Joff re y ri u. - Na verd ade, é da minha mãe. Ela o designou par a me gu ard ar, e é o que ele f az. - Fala d o Cão de Caça... - Sans a ente nde u. Qui s bater em si pr ópria por s er tão le nta. Se u prínci pe nunca a amari a s e par ecesse ser es túpid a. - É se gur o deixá-l o p ar a trás ? Príncipe Jof frey pare ceu aborrecido por el a ter perg un tad o. - Nada te ma, se nhora. Sou quase um homem feito, e não lut o c om m ad eira como s eus irmãos. T udo de qu e necessit o é i sto - dese mbainhou a es pad a e a mostr ou; uma espad a longa destramente enc olhida par a se ade quar a um r apaz de doze ano s, aç o az ul brilhant e, forj ada em castelo e de dupl o gume, c om um punho de couro e um bot ão de our o em f orma de cabeç a de leão. Sans a excl amou de admiraç ão ao vê la, e Joffre y pareceu satisfeito. - Chamo- a Dente de Leão - disse. E assim dei xar am para tr ás a loba gi gante e o guard a-cost as, e cavalgaram par a leste ao longo da marge m norte do Tridente sem out ra companhia que nã o Dente de Leã o. Estava um di a gl orios o, um dia m ágic o. O ar estava que nte e pe sad o com o odor das fl ores, e os bosque s tinham ali um a beleza suave que Sansa nunc a vir a no N orte. A montari a d o Prí ncipe Joffre y era um corcel baio vermelho, ligeiro como o ve nto, e ele o mont ava c om destemido abandono, tão d epress a que Sa nsa te ve dific ulda de em aco m pa nhá-lo em s ua


égua. Estava um dia par a aventur as. Explor aram as grut as pr óxim as da m ar gem do r io e seguiram os rastros de um gat o-das-sombr as até sua t oca, e quando fic aram com f ome Joff rey loc aliz ou um castro pel a sua f umaç a e, ao chegar, orde nou que trouxessem c omida e vi nho para o prí ncipe e sua senhor a. Jantar am trut as fres cas do ri o, e Sans a bebe u m ais vi nh o do q ue al gu ma v ez já be ber a. - Meu pai s ó nos de ixa be ber um a t aça, e apenas no s ba nq uetes - c onf e ssou ao se u p rínci pe. - M inha pr ometid a po de be ber ta nt o qu ant o d eseja r - disse J offrey, vo ltand o a e ncher-l he a taç a. Depois de c omer, pros seguiram mais lenta ment e seu caminh o. Joffrey cantou par a ela enquanto cavalgavam, com uma voz agud a, d oce e pura. Sans a estav a u m p ouc o tont a d o vi nho. - Não de vía mos re g ressar? - per gu nto u. - Em breve - ele re sponde u. - O campo de batalh a é log o ali à frent e, na curva do rio. Foi ali que me u pai matou Rhaegar Targar ye n, sabi a? Esmagou-lhe o peito, cr ás, mesmo atr avés d a armad ura - Joffrey bra ndi u um mart elo de gue rra imagi nári o par a lhe mostr ar com o se f azia. - Depois, tio Jaim e matou o velho Aerys e meu pai torn ou- se rei. Que bar ulho é esse ? Sansa t ambém o ouvi u, flut ua ndo atr avés dos b o s q u e s , u m a e s p é c i e d e r u í d o d e m a d e i r a , snac, snac, snac. - Não sei - ela r esponde u, já ner vos a. - Joff rey, vam os em bor a. - Quero ver o que é aquilo - Joffrey virou o caval o n a direçã o de on de vinha o so m, e San sa n ão te v e


escolha a não ser segui-l o. Os ruíd os for am fic and o m a i s f o r t e s e m a i s d i s t i n t o s , o clac d e m a d e i r a bate nd o em madeira, e quando se aproximaram ouviram t am bém respirações pes ad as e um gemid o d e vez em qu an do. - Tem alguém ali - Sansa disse ansiosam ente. Deu por si pens ando em Lady, de sejando que a l oba gig ante es tivess e ali. - Comigo est á a s alvo - Joffrey d esembainhou s ua Dente de Leão. O som do aç o r aspand o em cour o a fez tremer. - Por aqui - disse ele, levando o caval o por e ntre um gr u po de ár vores. Para l á delas, numa cl areir a aber ta ao lad o do rio, encontr aram um rapaz e uma men ina brincando de cavaleiros. Suas espadas eram paus, apa rente mente cabos de vass ou ra, e eles c orriam pela clar eira, bate nd o-se c om v igor. O rapaz er a bem mais velho, uma c abeç a mais alto, e muito m ais forte, e era el e quem atac ava. A menina, uma c oisinha m agric ela vestida de couro manchado, esquivava-se e conse guia pôr sua "espada" no caminho d a mai or parte dos gol pes do rapaz, mas não de t odos. Q uando ela tent ou uma es tocada, ele parou o pau dela c om o seu, varre u- o par a o lad o e golpe o u-lhe du rame nte os dedos. Ela grit ou e deix ou c air a "e s pad a". Príncipe Joffre y soltou um a gar galhada. O rapaz olhou em volt a, com os olhos muito abertos e sobres salt ado, e d eixou cair a"espada" sobre a rel va. A menina olhou par a eles furi os a, chupa nd o os nós dos de dos par a afast ar a dor , e Sansa fic ou horroriz ada.


- Arya? - g r i t o u , i n c r é d u l a . - Vá embor a - grit ou Ar ya de volt a, com l ágrim as d e fúria nos olh os. - O que você es tá fazend o aqui? Deixe-n os em paz . Joff re y olhou de relanc e p ara A rya, d ep ois p ar a Sa nsa, e dep ois de no vo par a Ary a. - É a sua irm ã? - ela c onfir mou com um aceno, cora nd o. Joffre y e xaminou o rapaz, um jovem des ajeitado com uma cara gr osseira, s arde nta, e espes sos cabelos ruivos. - E quem é você, rapaz? - per gunt ou, num tom de c omand o que não dava qua lquer im por tância ao f at o de o out ro ser um ano m ais velho que ele pró prio. - Mycah - o r apaz murm urou. Rec onheceu o prí ncipe e desvi ou os olhos . - Senhor. - É o filho do c arn i ceiro - disse Sa ns a. - É meu ami go - re trucou Arya em voz pene trante. Deixem- no em pa z. - Um filho de carniceiro que de seja ser cavaleir o, é isso? - Jo ffrey s al tou d a mo ntad a, de espa da n a mã o. - Pegue a s ua espada, filh o de c ar niceiro - dis se, com os olh os brilhant es de di ver timent o. - V amos lá ver como s e com porta, Mycah ficou imó v el, congelado de medo. Joff re y c aminh ou na s ua dir eçã o. - Vá lá, pega el a. Ou será que só luta com menini nhas ? - E l a m e p e d i u , s e n h o r - d i s s e M y c a h , - Ela pediu. S a n s a só te ve pr ecisou olh ar par a Ar ya e ver se u rost o cor ad o pa ra s aber q ue o ra paz fal av a a


verd ade, mas Joffrey não e stava com dis posiç ão d e ou vi-l o. O vi nho o deix ar a excit ad o. - Vai pe gar s ua es p ada ? Mycah a ba no u a c abeç a. - É s ó um pa u, s e n h or . Não é e s p ad a ne nh um a, é s ó um p au. - E você é s ó o fil ho do c arniceiro, não é ne nhum cavaleiro - Joffrey ergueu Dent e de Leão e pousou sua ponta na bochecha de Myc ah, abaixo do olho, enquant o o filho do c arnicei ro permanecia im óvel, tremendo. - Aquela em quem batia é a irmã da minha s enhor a, você sabe disso? - um brilhant e bot ão de sang ue rebent ou onde a espad a fazia pressão na pele de Mycah e uma lenta linha vermelha d eslizo u pela bochecha do rap az. - Para com isso! - gritou Ar ya, e agarrou se u pau no chão. Sa nsa se nti u med o. - Arya, m ant enh a- s e fora dis to. - Não vo u m achu c á-lo... m uit o - d isse o Prí ncip e Joffre y a Arya, sem desviar os olhos do filho do carnic eiro. Arya s alto u so bre ele, Sansa desliz ou de cima da é gua, mas f oi lenta demais. Arya brandi u a "es pada" com am bas as m ã o s . O u v i u - s e u m s o n o r o crac q u a n d o a m a d e i r a s e que brou c ontr a a nuca do prínci pe, e e ntão tudo aco ntece u ao mes mo tem po perante os h orrorizad os olhos de Sans a. Joffre y c ambal eou e r od opi ou, rugi nd o pragas. Mycah fugi u par a as ár vores t ão depress a qu ant o as pern as po di am le vá-l o. Ar y a


atac ou de novo o prí nci pe, m as desta vez Jof frey par ou o gol pe com a Dente de Leão e arra nc ou-lhe a "espada" das m ãos. Tinha a nuca cheia de sangue e os olhos em f og o. Sansa gri tava: - Não, não, pare m , pare m os dois, est ão estr agando tud o -, mas ningué m a o uvi a. Arya pe gou uma pedr a e atir ou-a na c abe ça de Joffre y. Em vez de ati ngi-lo, acertou o caval o, e o bai o ver melho empinou-se e parti u a galo pe atrás de M y c a h . - Parem, não, parem! - , g r i t o u S a n s a novam ente. Joffr ey avanç ou em direção de Arya, espada e m punho, grit ando obsc enidades, pal avr as terríveis, noje nt as. Arya s alt ou par a tr ás, agora assust ad a, m as Joffre y a s egui u, le vand o-a na direção do bos que, e ncurr alando-a c ontr a uma árvore. Sans a não sabi a o que fazer. Ficou ve nd o, impote nte, qu ase cega pela s lág rim as. Então, uma m an cha cinze nta pas sou por ela c om o um relâmpago e , de súbit o, Nymeria es tava ali , saltand o, cerr ando as m andíbulas em tor no do br aç o de Joffre y que manej ava a es pada. O aço cai u-lhe dos ded os quand o a loba o atir ou a o chão, e rol aram na rel va, c om a loba ros nand o e abocanhand o o prínci pe, que gui n cha va de dor. - T i r e m - n a daqui! - e l e g r i t o u . - T i r e m - n a daqui! A voz de Arya est alou com o u m chicote. - Nymerial A loba gi ga nte l arg ou J offre y e foi at é ju nt o de Arya. O príncipe ficou estendido na relva, chorami ngando, agarrado ao br aço retalh ado. Sua camisa e sta va e m pa pad a de s an g ue . Arya disse:


- Ela não te machucou... muit o - ela ergue u Dent e de Leão do luga r onde c aíra e levantou-se sobre ele, segur a ndo a esp a da co m as d ua s m ãos. Joffre y s oltou um som ch oros o e assus tad o quand o olh ou par a cim a, par a Ary a. - Não - diss e -, não me m achuque, Vou contar par a minha m ãe. - Deixe-o em paz! - g r i t o u S a n s a à i r m ã . Arya gir ou e atir ou a es pad a a o a r, coloca nd o tod o seu c orpo no m oviment o. O aç o azul re lampej ou à luz do s ol quand o a es pada r odopiou so bre o ri o. Atingi u a água e desapare ceu c om um bor bulhar . Joffre y geme u. Arya c orre u par a seu ca val o, c om Nymeria a tr otar logo atr ás. Depois de te rem desapareci do, San sa foi até junto do Príncipe Joffre y, que tinha os olh os cerrados de dor, a respir aç ão e ntre corta da, e ajoelho u-se a se u l a do. -Joffre y - sol uço u . - Ah, veja o que eles fizeram, veja o que eles fizer am. Meu pobre pr íncipe. Não tenh a medo. E u vou a c aval o até o c astr o e lhe trar ei aj uda - com ternura, ela estende u a m ão e afastou par a trás os s ua ves c ab elos lo uros. Os olhos dele abr iram-se de re pe nt e e olharam-na, e neles nad a havi a além de re pugnân cia, nada além d o mais vil de sprez o. - E n t ã o vai - e l e c u s p i u . - E não me toque.

Eddard - Enco ntrar am- na , senhor. Ned pôs -se em pé de um s alto.


- Os noss os home ns ou os dos L an nis ter? - Foi Jory - responde u o i nte nde nt e Vayon Poole. Não lhe fizer am mal. - Graças aos d euse s - Ned responde u. Se us home ns and avam à proc u ra de Arya já há quatro dias, m as os homen s da rai n ha també m par tic ipa vam d a b usca. - Onde ela e stá ? Diga a Jor y qu e a tr ag a par a c á imediat ame nte. - Lament o, senh or - disse Poole. - Os guar das d o port ão eram hom ens d os L annister e informaram a rainha quando Jor y a trouxe. Ela foi levada diretame nte pera nte o rei... - Maldita seja a q u e l a m u l h e r ! - N e d a m a l d i ç o o u , caminh ando a passos l argos para a port a. - Vá à proc ur a de Sans a e a traga à sal a d e audiê nci as. Sua versão pode s er necess ária - desceu os degr aus da torre submers o num a rai va r ubra. Ele próprio dirigira as bus cas dur ante os primeiros três dias, e quase não dormira uma hora desde o desapareci ment o de Arya. Naquel a manhã es tivera tão desanimado e cansad o que qua se não conseguira se levant ar, mas agor a ti nha no cor po sua f úria, enchend o- o de fo r ça. Home ns o cham aram quando atravessou o pátio d o castelo, mas, e m sua press a, Ned os igno rou. Teria corrido, mas ainda era a Mão do Rei, e uma Mão deve manter a digni dade. Estava cons ciente dos olhares que o s e gui am, d as vozes murm uradas que interro g av am so b re o q ue ele f aria, O castelo e ra um modest o d omínio a meio dia de via gem p ara s u l do Tridente. A comitiv a real


impuse ra-se como um h óspe de n ão c onvid ado do senhor do domí nio, Sor R aym un Darr y, enquant o eram c onduzid as as busc as por Arya e pel o filho do carnic eiro em ambas as mar gens do ri o. Não er am visitantes bem- vindos. Sor R aymun vivi a s ob a paz do rei, mas a família l utar a no Tridente pelos estandartes do dragão de Rhae gar, e os três irmãos mais velhos tinh am m or rido ali, uma ve rdade que nem Robert nem Sor Raym un tinham es queci do. Com os home ns do rei, os de Darry, os dos L annister e os dos St ark, t odos apinhados nu m castelo que er a muito me nor que o necess ário par a recebê-l os juntos, as tens ões ardia m que ntes e pesa da s. O rei apr op riar a -se da s ala de a udiên cias d e S or Raymun, e foi aí que Ne d os encontr ou. A sala estava cheia de gente quand o ent rou num i mpulso. Demasiado cheia, pe nsou; a s ós, ele e Robert pode riam ser c apazes de tr atar o assunto de form a amigável. Robert e sta va afu nda do na c adeir a alta de D arr y, n a extremid ade m a is distant e da sala, co m u ma expre ssã o fechad a e carr anc ud a. Cersei Lan nister e o filh o enc ont ra va m-se em pé ao s eu la do. A rai nh a tinha a mã o p ous ada no om br o de Joff re y, Espess as atad ur as de sed a aind a co bri am o b raço d o r ap az. Ary a est ava no centro d a sal a, só com Jor y Cassei , com to dos os olho s po usa dos nela. - Arya - chamo u Ned em voz alt a. E foi falar c om ela, f azendo ressoar as botas no chão de pedr a. Qua ndo o vi u, ela grito u e co meço u a sol uçar. Ned cai u sobre um joelho e a tomou nos br aços. El a tremia.


- L ament o - sol uço u -, lame nto, l a m ento. - E u sei - ele di ss e, E l a p ar eci a tã o mi n úsc ul a n os seus braç os, nada mais que uma meni ninha magric ela. Er a difícil compree nder como causara tant os pr o blemas. - Está ferida ? - Não - s eu r ost o es tava suj o, e as lágrimas deixar am t r il h os cor - de- r os a nas boc h e ch as . - T e nh o al gu ma fome. Comi um as frutinhas, mas não havia m ais nad a. - Em breve a alimentaremos - promete u Ned, ergue nd o- se par a enc arar o rei . - O qu e si g ni f i ca isto? - s eus olhos varrer am a s ala e m busca de ros tos amistos os. Se m c ont ar com se us h omens, eram m uit o poucos. Sor Raymun Darr y reservav a bem a expre ssão. Lorde Renly ostent ava um meio s orriso que podi a si gnifi car qualquer coisa, e o velh o Sor Barristan tinh a uma e xpressão gr ave; o rest o eram homens dos La nnister, hostis. Sua única sorte era que t ant o Jai me Lannis ter com o Sand or Clegane nã o se enc ontravam ali, por que ai nd a dirigiam busc as a norte do Tride nte, - Por que moti vo não f ui avisad o de que mi nha filha foi enc ontr ada? - Ned e xigi u saber, fazend o a voz ress oar. - P or que não me f oi trazid a de imedi ato? Falava para Ro bert, mas foi Cersei Lannister que m respo nde u. - C o m o ousa f a l a r a s s i m a o s e u r e i ? Ao o uvir aquilo, o rei a gito u-se. - Si l ê nc i o, m ul h er - e l e a si l e nc i o u. E nd i re i t ou- s e n o assent o. - Lame nto, Ned. N ão quis as sust ar a


menina. Parece u melhor trazê-l a aqui e despachar o assu nto r a pida me nte. - E que a ssu nto é e ste? - Ned ti nha a voz gela da. A rainha d eu um pass o à fre nte. - Sa be perfeitamente bem, St ark. Esta sua me ni na atac ou m eu filho. Ela e o filho de carni ceiro. Aquele animal que el a tem tent ou arr ancar o braç o de Joff re y. - Isso não é ver dade - disse Arya em voz alta. - El a só o mordeu um pouc o. Ele estava faz end o mal a Mycah. - Joff contou-nos o que ac onteceu - disse a rai nha. Você e o filho do car niceir o bateram nele c om paus enq ua nt o você ati çav a o l ob o. - Não foi as sim que as cois as se pass aram - disse Arya, de novo per to das lágrim as. Ned pôs-lhe a m ão no ombr o. - Foi, sim, senhor a! - insisti u Prí ncipe Joffrey. Todos me atac ar a m, e el a atirou a Dente d e Leão ao rio! - Ned re par ou que ele se quer olhava par a Ar ya enq ua nt o fal av a. - M entiros o! - grit o u Ary a. - Cale-se! - grit ou o prínci pe. - Basta! - r u g i u o r e i , e r g u e n d o - s e d a c a d e i r a , c o m a voz car regad a de irritação. Cai u o silêncio. Robert lanç ou um olh ar a meaç ador a Ary a. - E agora, criança, vai me contar o que aconteceu. Vai contar tudo, e some nte a verdade. Mentir a um rei é um grande crime - depois olhou para o filho. Quando el a ac ab ar, será a s ua v ez. Até lá, tenha cuida do c om a lí n gu a.


Quando Ar ya c o meçou sua história, Ned ouviu a port a abrir atr ás de si, olhou de relance por cim a do ombr o e vi u Vayo n Poole e ntrar com Sans a. Ficar am em silêncio no f undo d a s ala enqu ant o Ar ya f al ava . Quando chegou à part e em que at irava a espad a de Joffre y no meio do Tridente, Renly Bar atheon desat ou a rir. O r ei ficou irrit ad o. - Sor Barrist an, esc olte me u irmão para for a da s al a antes qu e se en ga sgue. Lorde Renl y a baf ou o riso. - M eu irmã o é d emasia do b ond os o. E u c o nsig o enco ntr ar a p ort a sozi nho - f ez uma r eve rênci a a Joff re y. - Tal vez mais tar de tenh a o port uni dad e d e me co nta r c omo f oi q ue um a me ni na de no ve an os e do tam anh o de u m rato-d ag ua c on segui u desa rmá-l o com um p a u de v asso ura e ati rar s ua es p ada a o rio qu an do a por ta s e fechav a atr ás d ele, Ned o o u viu dizer: - Dente de Leão - e sol tar ou tra g arg alhad a. Prí ncipe Joffre y estav a p álid o ao ini ciar s ua v ersã o mu ito difer ente d os aco ntecim ent o s. Quand o o filho aca bo u de f alar, o rei erg ueu -se pesad ame nte d a cadeir a com um a expre ssã o de que m queri a estar e m qu al q uer lug ar, m enos ali. - O que, c om t od os os sete i nfer nos, devo e u pens ar? Ele diz uma c ois a e ela, o utra. - E l es n ão e r am o s ú ni c os pr es e nt e s - di s s e Ne d. Sansa, ve nha c á - Ned ouvir a s ua versão d a históri a na noit e em que Arya desapare cera. Conhecia a verd ade. - Co nte-nos o q ue se pass o u. A filha mais velha de u um passo h esitant e à fre nte. Vestia veludo az ul de br uad o de branc o e us ava um a corre nte de prat a em volta do p es coço. Os espess os


cabel os rui vos ti nham sido esc ovados até brilh arem. Olh ou p ara a irm ã, e dep ois par a o j ovem prínci pe. - Não sei - disse com voz chor osa, com uma express ão de quem queri a fugir. - N ão me lembr o. Aconteceu tudo t ã o dep ressa, nã o vi... - Sua nojenta! - A r y a g u i n c h o u . S a l t o u s o b r e a i r m ã como uma set a, a tirand o Sans a ao chão, enche ndo- a de soc os. - Mentiros a, me ntirosa, mentir osa, mentir osa. - A r y a , pare com isso! - N e d g r i t o u . J o r y a p u x o u d e cima da ir mã ai nda agitand o os br aços. Sa nsa es tava pálid a e treme ndo quando Ned a coloc ou de novo e m pé . - E s t á mac h u c ad a ? - pe r gu nt o u, m as e l a es t a va de olhos fi xos e m Arya e nã o p arece u o uvi-l o. - A menina é tão selvagem como aquele se u animal noje nto - dis se Cersei Lannister. - Robert, quer o vêla p unid a. - Sete infer nos - praguej ou R ober t. - Cersei, olhe par a ela. É um a c rianç a. Que quer que e u faç a, que a chicoteie pel as ruas ? Com os di abos, as cri anç as lutam. Já ac abou. Não foi feito nenh um mal dura do uro. A rainha est a va f urios a. - Joff fic ar á com aquel as cic atrizes par a o r esto d a vida. Robert B arathe o n olho u p ara o f il ho mais v elho. - Pois que fi que. T alvez lhe ensi nem um a lição. Ne d, trate de disci plinar sua filha. Eu farei o mesm o com meu filho. - De bom gr ado, Vossa Gr aç a - Ned respondeu, bast ant e ali vi ad o .


Robert começou a se af astar, mas a rainh a ai nd a não tinha termi na do. - E o lobo gi gante? - ela gritou par a suas cost as. - E o a nim al que mordeu seu filho? O rei par ou, vir ouse, franzi u a s o br ancelh a. - T inha me esq ueci do d o maldit o lo b o. Ned p ôde ver Ar ya fic ar te ns a e ntre os b raç os d e Jor y, q ue fal ou ra pida mente. - Não encontramos nenhum si nal d o lobo gi gante , Vossa Gr aça. O rei nã o parece u infeliz com a n otí cia. - Não? P ois q ue as s im seja. A rainha er g ueu a voz. - Cem dragões de ouro ao homem que me trouxer s ua pele! - Uma pele bem c ara - resm ungou Robert. - N ão tomar ei parte disto, mulher. Bem pode com pr ar as suas peles c om o o ur o do s Lan niste r. A rainha o olho u com friez a. - Eu n ão o im ag i n av a c ap az de ta manh o a var o. O rei com quem pensei cas ar-me teria dispos to uma pele d e lobo sobr e a minha c ama antes de o sol se pôr. O rosto d e Ro bert escurece u de ir a. - Isso seri a um bel o truq ue sem um l o bo. - Nós temos um l obo - disse Cersei Lannister. Sua vo z estava muit o calma, mas seus olhos verdes brilhav am de t riu nfo. Precisaram tod os de um mome nto par a com pree nd er suas pal avras, mas, quand o consegui ram, o rei encolhe u os omb r os, irritad o.


- C omo q uiser. Q ue Sor Il yn tr ate d o assu nto. - Robert, não pode estar f aland o a sério - Ned protes to u. O rei não e stava com di sposição par a mais discuss ões. - B as ta, N e d, n ão que r o ou vi r m ai s na d a. U m l o bo gig ante é um a ni mal sel vagem. Mais ce do ou m ais tarde teri a se virado c ontra s ua filha tal com o o outr o se virou c o ntra meu filh o. A rranje-lhe um c ão, ela ficar á mai s fel iz assim. Foi ent ão que Sans a pare ceu fi nal m e nt e compreender. Se us olhos est avam ass ust ados ao dirigi-los par a o p ai. - Ele não est á fal and o da Lady, e stá? - ela viu a verd ade n o r osto de Ned. - Não - disse. - Não, a Lady não, a Lady não mordeu nin gué m, ela é bo a... - Lady não est ava lá - gritou Ar ya e m tom zangado. Deixem- na em pa z! - Impeç a-os - su pli cou S ans a. - N ão deixe qu e faç a m isto, por fa v or, por f a vo r, nã o f oi a Lady, foi a Nymeria, f oi Ary a, nã o p ode m, n ã o foi a L ady, nã o deixe que ele s ma chuq uem Lad y, e u faç o co m q ue el a sej a b oa, prom eto , promet o... - co m eçou a chor ar. Tu do o que Ned pôd e faz er foi to má-l a n os braç os e co ns ol á-l a e nq ua nto ch ora va. Ol hou p ar a o ou tr o lado d a s ala, p a r a R obert. Seu v elho ami go, ma is pró ximo q ue um i rmão. - Por favor, Robe rt. Pelo amor que me tem. Pelo amor q ue tinha à minha ir mã. Por f av or. O rei olhou


par a eles por um longo m ome nt o, depois virou-se par a a m ulher, - M aldita sej a, C ersei - disse com re pug nâ ncia, Ned pôs-se em pé, libert and o-se gentilme nte do abr aço de Sans a. Todo o c ans aç o d os últi mos quatr o dias tinh a regr ess ado. - Então o f aç a, R obert - disse, numa voz fria e afiad a c omo aço. - Pelo menos, tenha a c oragem d e fazê-lo. Robert olhou par a Ned com olhos baç os e mort os, e saiu sem um a palavra, c om pas sos pes ados como chumb o. O silênci o enche u a s ala. - Onde está o lobo gi gante ? - pergunt ou Cersei Lannis ter quando o marid o saiu. Ao seu lad o Príncipe Joffr ey s orria. - O anim al está acorre nt ado ao l ado d a casa d o port ão, Voss a Gr aça - res ponde u r elutante mente Sor Barrista n Sel my. - M ande cha mar Il yn Pa y ne. - N ão - di sse N ed. - Jory, l eve as meni n as p ara os quartos e me tra ga Gelo - as pal avr as tinham o gost o da bílis na gar ganta, m as ele as f orçou s air. - Se te m de ser feito, e u o f arei. Cersei Lannist er olhou- o co m sus p eita. - Você, St ark? Ist o é algum truque ? Por que faria uma c oisa dessa s? Todos o olhava m, mas era o olhar de Sansa que corta va. - Ela per tence a o Norte. Merece mais q ue um carras co.


Sai u d a sal a c om os olhos arde nd o e os l ame ntos d a filha ecoand o em seus ouvido s, e e ncontr ou a cri a d e lobo gi gante onde a tinham acorre ntado. Ned sento u-se a seu l a do p or u m mom en to. - Lady - disse, saboreand o o nome. Nunc a pre star a gra nde ate nç ão a os nom es que as crianças ti nham escolhido, m as olhand o-a agor a compreendeu que Sansa ti nha escol hido bem. Era a menor da ni nhad a, a mais bonit a, a mais gentil e confiante. A loba o olhou c om brilhantes olh os d our ados, e ele afagoulhe o espess o pel o cinzent o. Pouc o tem po de p ois, J ory tr ou xe-l he Gelo. Qua ndo ac ab ou, d isse: - Escolha quatro homens e orde ne que tr ans portem o corp o p ar a o No rt e. Enterrem- na e m Winterf ell. - T oda ess a dist ân c ia? - p erg unt ou J ory, es pa nt ado. - T oda ess a dist ân cia - Ned afirm ou. - A m ulhe r L a n n i s t e r n u n c a t e r á esta pele. R e g r e s s a v a à t o r r e par a se aband onar por fim ao sono, quand o Sand or Clegane e seus cavalei ros at ravess aram co m estr ond o o p ortã o d o castel o, regres sa ndo de sua c aça da. Havi a al go atirado sobre a garupa de seu c aval o d e bat alha, uma forma pes ad a enr olada num manto ensa ng ue nta do. - Nenhum sinal d a sua filha, Mão - disse o Cão de Caça c om voz áspera -, mas o dia não f oi um desper dício c om pleto. Enc ontr am os seu a nim alzinho de esti maç ão - esti cou o b raç o par a trás e ati ro u o fardo de cima do cavalo, faz end o-o cair com um ba que s urd o à fr e nte de Ned. Dobr ando-se, Ned af astou o m anto, teme ndo as pal avr as que ter ia de e nc ontr ar par a Ar ya, m a s


afinal não se tratava de Nymeri a. Era o filho do carnic eiro, Mycah, com o cor po cober to d e sangue seco. Tinha si do quase c ortado ao meio, d o om br o à cintur a, p or um t errível g olp e da do de cima. - Você o m ato u d e cima d o ca val o - disse Ned. Os olhos do Cão de Caça parecer am cintilar at ravés do aço daquele hediondo el mo em forma de c abeça de cão. - Ele fugiu - olhou par a a car a de Ned e soltou um a gar galha da. - Mas nã o muit o de pres sa.

Br an Er a c o m o s e e s t i v e s s e c a i n d o h á a n o s . Voe, sus surr ou uma voz na escuridão, mas Br an não sabi a voar e, portant o, t ud o o que podia faz er er a cair. Meistre Luwin moldou um r apazinho de bar ro, cozeu-o até fic ar duro e que bradiço, vesti u-o com a roupa de Bran e atirou- o de um telhado. Bran record ou o modo c omo s e estilhaç ara. - M as eu nu nca c ai o - disse, já c ain d o. O chão estava tão longe que quase não conseguia distingui-l o atr avés das névoas cinzentas que turbilhonavam à sua volta, mas podia s entir que caía m uito de pressa, e sabia o que o es perava l á embai xo. Mesmo nos s onhos, não é possí vel c air par a sempre. Sabia que ac ord aria um instante antes de atingir o sol o. Se mpre se ac ord a um inst ante antes de atingir o sol o. E se não acordar?, pe r g u n t o u a v o z .


O chão estava agor a mais pert o, ainda dist ante, a um milhar de milhas de distância, mas m ais pert o d o que estivera. Ali, na esc urid ão, f az ia frio. Não havia sol, ne m estrelas , ape nas o s olo, lá em bai xo, que subi a par a esma gá-lo, e as né voas cinzentas, e a voz sussur rad a. Desej ou chor ar. Não chore. Voe. - N ão p os s o v o ar - di ss e B r an. - N ão p os s o, n ão poss o... Como sabe? Alguma vez já tentou? A voz era aguda e fraca. Br an olhou em volt a para ver de onde vinha. Um c or vo d escia c om ele, em espiral, l onge de s eu alc anc e, seg uin do-o na qu eda. - Ajude-me - disse. Estou tentando, r e s p o n d e u o c o r v o . Olha, tem algum milho? Bran le vou a m ão ao bols o enquanto a esc uridão girava, est ont eante, à sua volta. Quando ti rou a mão, gr ãos dourados desli zar am por entre os dedos, par a o ar. E pas s aram a cair com e le. O corvo pouso u em sua mã o e p ôs -se a co mer. - É mesmo u m cor v o? - p erg unt o u Bran. Está mesmo caindo?, r e t o r q u i u o c o r v o . - É só um s onho - d isse Bran. - Será?, p e r g u n t o u o c o r v o . - Eu ac ord o quand o ati ngi r o chão - Bran responde u à a ve. Você morre quando atingir o chão, d i s s e o c o r v o . P ô s - s e de no v o a c omer milho. Bran olhou para bai xo. C onse gui a agor a disti ngui r mont anh as, co m picos bra nc os de neve, e as fitas


prate ad as de rios em bos que s escuros. Fechou os olhos e começou a chorar. Isso não serve para nada, d i s s e o c o r v o . Já te disse, a resposta é voar, não chorar. Quão difícil pode ser? Eu estou voando. O c o r v o e n t r e g o u - s e a o a r e e s v o a ç o u e m torn o d a mã o de Bran. - Você tem asas - fe z not ar Bra n. Talvez você também tenha. Bran a p alpou os ombr os, à pr ocur a de pe n as. Há diferentes tipos de asas, d i s s e o c o r v o . Bran olhava os br aços e as pernas. Era tão m agro, s ó pele, tod a estic ada por cim a de ossos. Teri a sido sempre assi m tão magr o? Tent o u se lembrar. Um rosto nadou até ele, saído da névoa cinz ent a, brilhan do, l umin o so, do ura do. - As coisas que e u f aço por am or - dis se o rost o. Bran g rito u. O corv o levant o u vô o, gr asn an do. Isso, não, g u i n c h o u p a r a B r a n . Esquece, não precisa disso agora, ponha-o de lado, faça-o desaparecer. P o u s o u n o ombr o de Bran, deu-lhe bic adas, e o brilhante r osto dour ad o des ap are ceu. Bran est ava cai ndo mais depre ssa do que nunc a. A s névoas ci nze nta s uivavam em se u redor enquant o merg ulhava p ara a terra, e mb aix o. - O que você est á me faze ndo? - per guntou ao cor vo, choros o. - Estou lhe ensinando a voar. - Não poss o voar! Está voando agora mesmo. - E s t o u caindo!


Todos os vôos começam com uma queda, d i s s e o c o r v o . Olhe para baixo. - T enho med o... - OLHE PARA BAIXO! Bran olhou para bai xo e senti u as e ntranhas s e transf ormarem em água. O chão c orria agor a em s ua direção. O mundo inteiro espalhava-se por bai xo dele, um a t apeçaria de br anc os, marrons e verdes. Via tudo c om tanta clare za que, por um m omento, se esque ceu de ter medo. Conse guia ver t od o o rei no e toda a ge nte que nele ha via. Viu Wi nterfell como as águi as o viam, as gr ande s torres que pareciam bai xas e atar racadas vist as de cima, as m ur alhas do c astel o transf orm adas em simples li nhas tr açad as na t erra. Viu Meistre Luwi n em sua var anda, estudand o o cé u através de um t ubo de bronze polido e franzi ndo a testa enquant o tomava not as num livro. Viu o irmão R obb, mai s alto e mais forte do que se le mbrava, pr aticand o esgrima no pátio com aç o ve rdadei ro nas mãos. Viu Hodor, o gi gante simplório dos e stábul os, trans portand o uma bigorna para a forja de Mikken, levand o-a ao omb ro c om t anta facil idade com o outr o homem le vari a um fard o de palh a. No cor aç ão d o bos que s agrad o, o grande represeiro branc o pair ava sobre o se u reflexo na l agoa ne gr a, com as f olhas a bater s ob um ven to gelado. Quand o sentiu que Bran o observava, ergueu os olhos d as águas par adas e devol ve u-lhe um olhar sá bio. Olhou par a leste e viu uma galé que se apres sava através das águas da De nt ada. Viu sua mãe, sent ad a, só, n uma c a bine, olhan do par a u m a fac a m anch ad a


de sangue pous ada sobre a mesa à sua fre nte, enquant o os remador es puxavam pelos remos e Sor Rodrik se dobrava sobre um a a murada, treme ndo com c onvul sões. Levantava -se uma tempest ade à frente d o barco, um vasto brami do escur o flagelado por relâmpagos, mas, de alguma maneir a, eles não conse g ui am vê-la. Olhou par a o sul e viu a grande corrente az ulesverde ad a d o Tridente. Vi u o pai suplic ar ao rei, com d or gr avad a no rosto. Viu Sansa ch orar at é ador mecer, à noite, e Arya guar dar seus se gred os bem fundo no c oraç ão. Havi a s ombr as a t oda a volt a. Uma das s ombr as er a esc ur a com o ci nza, com o terrí vel rost o de um c ão de caça. O utra estava arma da c omo o so l, dour ad a e bel a. Sobre am bas er guia-se um gigant e num a arm ad ur a de pe dra, mas, qu and o abri u a vise ira, nad a havia l á dentro a não ser escuridão e um espesso s angue negr o. Ergue u os olh os e viu c om clareza para lá d o m ar e s t re i to, vi u as C i dade s L i vr e s, o mar ve r d e d ot h r a ki e, mais além, at é Vaes Dothr ak, no s opé de s ua mont anh a, até as terras f abulos as do Mar de Jade, até Ashhai da Sombr a, onde se agit am dragões ao nasce r do s ol. Finalme nte olh ou para o nor te. Viu a M uralha brilhar c omo cris tal azul, e o irm ão ba stard o Jon dormir sozinho numa cama fria, com a pele fic ando bra nca e dura à medida que a m emória de t odo o calor ia esc apand o dele. E olhou para lá d a Muralh a, par a lá de fl orest as sem fim sob um mant o de neve , par a lá da co sta gelad a e dos g rand es rios az uis


esbranquiç ad os de gelo e d as pl anícies mortas onde nad a c rescia nem vi via. Olh ou par a o norte, e para norte, e par a no r te, par a a corti na de luz no fim d o mundo, e e ntão p ara lá dessa c ortina. Olhou para a s prof undezas do coraç ão do i nverno, e e ntão gritou, com med o, e o calor das l ágrimas queim ou-lhe o rosto. Agora você sabe, s u s s u r r o u o c o r v o a o p o u s a r n o s e u o m b r o . Agora sabe por que deve viver. - Por quê? - disse Bran, sem com pr eender, e cai ndo, caind o. - Porque o inverno está para chegar. Bran olh ou par a o corvo em se u ombr o, e o cor vo devol ve u-lhe o ol har. Poss uía três olhos, e o t erceiro estava cheio de uma t errível sabedoria. Br an olhou par a bai xo. Nad a havia agor a ab aixo dele alé m de neve, fri o e mor te, um vazio gelado ond e agulhas dente adas de gelo az ul esbranqui çado es per avam par a abr açá-l o. V oavam em sua dir eção com o lanç as. Viu os ossos de mil outros s onhadores empal ados em suas po nt as. Se nt i a um me do d eses pera dor. - Pode um homem continuar a ser vale nte se tiver medo? - ouvi u s ua voz dizer, uma voz pequena e distante. E a voz de seu p ai lhe respo nde u. - E ssa é a úni ca m aneir a de um homem ser val e nte. E agora, Bran, i n s is t i u o c o r v o . Escolhe. Voa ou morre. A morte este nde u as mãos par a ele, g r itand o. Bran a bri u os bra ços e v oo u. Asas invisí veis beberam o ve nt o e encher am-se, e empurrar am- no p ara cima. As t erríveis agulhas de gelo af asta ram-s e lá embaix o. O c éu abri u-se lá em


ci ma. Bran pai r ou. E r a melh or que es cal ar. E ra melhor que qual quer outra c ois a. O mund o e ncolhe u por bai xo d ele. - Estou vo and o! - g ritou, d eliciad o. Já percebi, d i s s e o c o r v o d e t r ê s o l h o s . L e v a n t o u v ô o , bate nd o as as as contr a o rost o de Bran, reduzi nd olhe a velocidade, cegando-o. O rapaz hesit ou no ar quando as asas d a ave bat eram no seu r ost o. O bic o do cor vo apunh al ou- o feroz mente, e Bran senti u uma súbit a d or ceg an t e no mei o d a test a, entre os olh os. - O que est á fa zen d o? - g ui nchou. O corv o abri u o bico e gr asn ou, u m estride nte g rito de med o, e as név o as cin zent as estre me ceram, rodo pia ram à su a volt a e ras ga ram -se com o um vé u, e ele viu que o c orv o era n a reali dade um a mulher , u m ac r i a d a c om lon gos ca bel os ne gros, e ele a conheci a de al gu m lu gar, de Wi nt e rfell, sim, er a iss o, ag ora se lembr a v a dela, e ent ão comp reen deu qu e estav a em Wi nt erfell, num a ca ma, n um q uart o gelad o q ual qu er, num a torre, e a mulher de ca belos negr os deixar a u ma baci a de ág u a estilh açar-s e n o chão e c orri a pe los de gra us ab ai xo grita nd o: "El e está ac ord ad o, ele está ac ord ad o, el e está ac ord ad o". Bran le vo u a mã o à te sta, e ntre os olho s. O lu gar onde o co rv o bi cara aind a a rdia , mas n ão ha via n a d a , n e m s a n g u e , n e mf e r i d a . S e n t i u - s e f r a c o e tont o. Tent ou s ai r da ca ma, m as n a da aco ntece u. E então se nti u um movime nto ao lad o d a c ama, e algo pous ou a gi lmente sobre s uas per nas. N ada sentiu. Um par de olh os amar elos olhava os se us, brilhan do com o o sol. A ja nela estav a abert a e fa zi a


frio no quart o, mas o calor que vinh a do lobo env olve u- o com o um b anh o q uent e. Bran co mpree nde u qu e se trata va de sua cria... o u n ã o ? O l o b o e s t a v a t ã o grande. E s t e n d e u a m ã o p a r a lhe fazer uma festa, uma m ão que tremia com o uma folha. Quando o irmã o Robb e ntr ou corrend o no quart o , sem fôle go por caus a d os degr aus da torre acima, o lob o gi ga nte lam b ia o r osto d e Bran . Bran er gue u os ol hos calm amen te. - O nome d ele é Verão - ele disse.

Ca tel y n - Chegaremos a Porto Re al de ntro de uma hora. Cately n af asto u-s e da a mur ada e fo rçou-s e a s orrir. - Vossos remador e s trabalh aram bem por nós, capit ão. Cad a u m receber á um v eado de prat a, em sinal d a minh a gr atidã o. Capitão More o Tumitis concedeu-lhe uma meia reverê ncia. - E demasi ado ge nerosa, Se nhor a St ark. A honr a d e t r ans po r t ar um a gr a nd e s e nh or a c om o vó s é t o d a a recom pens a de qu e necessit am. - M as mesmo assim receber ão a pr ata . Moreo so rriu. - Como desejar - falava a língua c omum fluente ment e, com não mais que um ligeir o sinal de sotaque tyr oshi. Dissera-lhe que já perc orria o mar estreito havia trinta anos, como remador, contr amest re e, finalme nte, c apit ão de suas pr ópri as


g a l é s c o m e r c i a i s . O Dançarino da Tempestade era s e u quarto navio, e o mais r ápi do, uma galé de dois mastr os e sesse nt a remos. Fora certame nte o mais rápido dos navios disponí veis em Porto Branco quando Catel yn e Sor Rodrik Cas sei ch egar am d o se u im petuos o galope ao longo do rio. Os tyr oshis er am célebres pel a s ua av ar e z a, e S or R odri k ar gume nt ar a e m f av or de contr at arem um a corvet a de pesca vinda d as Três Irmãs, m as Catelyn i nsistira na galé. Ainda bem. Os vent os ti nham soprad o contrári os dur an te a m aior parte da vi age m , e sem os remos da galé ai nd a estariam tent ando ultr apass ar os Dedos, em vez de deslizarem em direção a Port o R eal e ao fim da traves sia. Tão perto, p e n s o u . S o b a s a t a d u r a s d e l i n h o , s e u s dedos ai nda late javam nos lugar es onde o punhal penet rar a. Catel yn se ntia a dor c omo seu chicote, que exi stia para que não es que ces se. Não c onseguia dobr ar os úl timos dois dedos d a mão esquer da, e os outr os nunca mais seriam destr os. Mas era um preç o bem p eq uen o a pa gar pela vid a de Bran. Sor Rodri k esc olheu aquele m omento para apare ce r no c on vés. - Meu bom amigo - disse Moreo através d a barba verde e bif urcada. Os tyroshis ador avam cores vi vas, m e sm o n os pe l os f ac i ai s . - É t ão bom v ê - l o c o m melhor as pect o. - Sim - concor do u Sor Rodri k. - Já há quase d ois di as que n ão d e s ej o m or re r - f ez um a r eve r ênc i a a Cately n. - Minha senhor a.


E estava c o m m e l h o r a s p e c t o . U m p o u c o m a i s m a g r o do que era quan do partiram de Porto Branco, mas quase ele pr óprio de novo. Os vent os forte s da Dentada e a durez a do mar estreito não se conj ugavam com ele, e quase fora atirado borda afor a quando a tempestade os apanh ar a inespe rad ame nte ao l argo de Pedra do Dr agão, mas de al gum mod o conse guir a agarr ar -se a um a c ord a, até que três dos homens de Mor eo logr ar am s alvá-l o e o lev ara m em se gur anç a p ar a o i n terior d o n avi o. - O ca pi t ã o ac a ba d e d i ze r- m e que a n os s a vi a ge m está quase no fim - disse ela. Sor Rodrik conse guiu lhe dar um s orris o fati gad o. - T ão de press a? - pareci a estr anh o sem as gra nde s suíças branc as; de certo m odo m enor, me nos feroz e dez anos m ais velho. M as na Dentada parecera prud ente s ubm etê-las à navalha de um tripulante depoi s de tere m se sujado irremediavel mente, pela terceira vez, quando ele se incli nou sobre a am urada par a v omit ar co n tra os t ur bilhões de ve nto. - Vou deixá-l os di scutindo seus ass unt os - disse o capit ão More o. F ez um a véni a e afastou-se. A galé deslizava sobre a água c omo um a libélul a, c om os remos s ubi ndo e descendo em per feita cad ênci a. Sor Rodrik apoi ou-s e na am ur ada e obs ervou a cost a que ia p assa nd o. - Não t e nh o si do o mai s val e nt e dos pr ot e tor es . Cately n toc ou-lh e o br aço. - Estamos aqui, Sor Rodrik, e em se gur anç a. É tud o o que re alment e import a - s ua mão t ate ou s ob o mant o, com os d edos rígid os e desajeitad os. Aind a trazia o punhal j unt o a si. Desc o brira q ue precis av a


tocá-l o d e vez em quand o par a se tranquiliz ar. Agor a te mos de e ncontr ar o mes tre de arm as do rei e rezar par a que ele seja de confi anç a. - Sor A r o n Sa nt a gar é u m h om e m v ai d os o, m as honest o - a mão de Sor Rodrik subiu ao rost o para afa gar as suíç as e descobriu uma vez mais que el as tinham desaparecido. P arece u atrapalhad o. - Ele pode conhecer a lâmina, sim..., m as, minha se nhor a, no m ome nto em que desem barc ar mos, ficaremos em risco. E há que m , na c orte, a reconheça à pri meira vista. A boc a de Catel y n a perto u-se. - Mindinho - mur murou. Se u rost o surgi u-lhe em frente aos olh os; um rost o de rapaz, embor a já não o fosse. Seu pai morrera havia vários anos, e ele era agora Lorde Baelish, mas ai nda o chamavam Mindinho. O irmão de C atelyn, Edmure, dera-lhe esse nom e, há muito te mpo, em Correrrio. Os modest os domí nios d a f amília de Petyr fic avam no menor d os Dedos , e ele ti nha sido baixo e magro par a su a id ade. Sor R odrik lim po u a gar ga nta. - Uma vez, Lorde Baelish, ah... - seu pens ame nto parti u, i ncert o, em busc a d as palavras delic ad as. Mas Catelyn p are cia b usca r mais q ue delic adez a. - Ele foi prote gid o de meu pai. Crescemos juntos em Correrrio. Eu pe nsava nele com o um irmão, mas se us sentime ntos por mim eram... mais do que frate rnai s. Quando foi anunciado que e u d everia me cas ar c om Brand on Star k, Petyr lançou um d esafio p elo direito à minha m ão. E r a uma lo uc ura. Br and on ti nha vinte


anos, Pet yr, po uco m ais de quinz e. Tive de suplicar a Brandon que p oupass e a vida d e Petyr. Mas ele o deixou com uma cicatriz. Depois disso, meu pai o mandou embor a. Nunc a m ais o vi - ergueu o rosto contr a os borrifos das ond as, com o se o ve nto f resco pud esse levar as record ações par a longe. - Escreveume par a Corre rrio depois de Br andon ser mort o, mas queim ei a cart a sem ler. Já e ntão sabi a que Ned casari a co mig o n o lug ar do irm ã o. Os dedos de Sor Rodrik t atear am uma vez m ais em busc a d as suíç as i nexist entes. - Hoje Mindi nho t e m asse nto no peq uen o co nselho. - Eu sabi a que ele iria longe - disse Catelyn. - Sem pre foi inteligente, mesmo ai nd a rapaz , mas um a cois a é ser inteligente, e outr a é ser s ábi o. Pergunto a mim mesma o q ue os a nos lhe ter ão feit o . Bem acima de su as cab eças, o s vi gias ca nt aram d o topo d as velas. Capitão More o p recipito u--se pel o c o n v é s , d a n d o o r d e n s , e o Dançarino da Tempestade rebentou numa atividade frenética enquant o Port o Real sur gia à vi sta em cim a de suas trê s gr and e s colinas. Catelyn sabia que treze ntos anos antes aquelas elevaç ões estavam cobert as por florestas, e só um punhad o de pesc ador es vi via na marge m norte d a Torrente da Água Negra, onde esse rio rápido e prof undo desaguava no mar. Então, Aegon, o Conquist ador, z ar par a de Pedr a do Dragão. For a ali que seu e xércit o desembarc ara, e no topo da c olin a mais alt a c ons truíra seu prim eiro e rude bal uarte de madeir a e terr a.


Agor a a cid ade cobri a a c osta até tão longe quant o Catelyn conse gui a ver; m ans ões, car amanchões e celeiros, armazéns feitos de tijolo e est alage ns e estábulos comerciais de madeira, t aber nas, cemitérios e bor déis, tud o e mpilhado, uns e difícios sobre os outr os. Mesmo àquel a di stânci a, conse guia ouvir o cl amor do merc ad o de peixe. E ntre os edifícios, e stendiam-se e strad as l argas de bruad as de árvores, si nuosas ruas vazi as e vielas tã o estreit as que d ois homens não poderiam nel as cami nhar lad o a lado. A c olina de Visenya est ava c oroad a pel o Grand e Septo de Baelor, com suas sete torres de cristal. Do outro lado da cidade, na c olina de Rhaenys, er gui a m-se os muros enegre cidos d o Poço dos Dragões, c om sua enorme cúpula caída em r uína, as portas de bronze fechadas havia já um sécul o. A Rua d as Irmãs corria e ntre os dois edifícios, reta como um a s eta. As mur alhas da c idade erguiam -se a distância, altas e fortes. Uma cente na de desembarc adour os cobri a a mar ge m da ci dad e, e o porto est ava replet o de navios. B arc os de pesc a de águas pr ofundas e correi os do rio chegavam e partiam, bar queir os remavam de um lado para o out ro na Torre nte da Água Negra, galés comerci ais descarregavam pr od utos vi ndos d e Bravos, Pentos e Lys. Catelyn es pi ou a orname ntad a barc aç a d a r ainh a, amar rad a ao l ado de um gord o baleeir o vi nd o do Port o de I bben, com o c asco enegr ecido de piche, enquant o a m ont ant e uma dúzi a de esbelt os navi os de guerr a d our ados repousava em suas docas, com as vel as e nr oladas e os cruéis espor ões de f erro a af agar a água,


E acima de t ud o, lanç ando um ol h ar c arrancudo da grande c olina de Aegon, est ava a Fort aleza Vermelha, sete enorm es t orres cilíndricas c oroad as por baluartes de ferro, um imens o e s ombrio contr af orte, salões abobadados e ponte s cobertas, caser nas, masm or ras e celeir os, m aciças m uralh as de barr age m cravej adas de guarit as par a ar queir os , tudo c onstr uíd o de pedra vermelha-clar a, Ae gon, o Conquist ador, or denara s ua c onst rução. Se u filho, Maegor, o Cruel, a com plet ara, E depois exi gira a cabeç a de t odos os pedreir os, car pinteiros e constr ut ores que nela tr abalhar am . Jur ara que s ó o sangue do dr agão podia c onhec er os segr edos da fortalez a que os Senhores do Dragão tinh am constr uíd o. E, no ent ant o, os estandartes que agora esvoaç avam em suas ameias e ram d our ad os, não ne gr os, e onde o dragão de três cabeç as antes e xalara fogo, agor a curve tea va o ve a d o cor o ado da Cas a Bara th eon. Um navi o de grande s m astr os das Ilhas do Ver ão estava sai ndo do port o com s uas velas brancas e n o r m e s . O Dançarino da Tempestade p a s s o u p o r e l e , apr oxim a ndo-s e fi rmement e da c ost a. - Minha se nhora - disse Sor Rodr ik -, e nquant o estive acamado, planejei a melhor forma de proce der. Não deve e ntrar no castelo. Eu irei em voss o l ugar e trar ei Sor Ar on até algum l ugar se gur o. Ela estudou o velho cavaleir o e nquant o a galé se apr oxim ava do cais. More o gritava no valiriano vul gar d as Cida de s Livres. - C orrerá t ant os ris cos co mo e u. Sor R odrik s orriu .


- Jul go que não. Há pouc o olhei meu refle xo n a água e quase não me reconheci a m im mes mo. Minha mãe f oi a últim a pessoa a me ver sem s uíças, e es tá morta há quar enta anos. A credito que est ou suficien teme nte segur o, minh a sen hora. Moreo berrou uma ord em. Com o se fossem um único, s e s se nt a r em os e r gue r am - s e d o r i o, d e poi s i n ve r t e r am a rot aç ão, e c aír am. A galé per deu veloci dade. Outr o grito. Os remos deslizaram par a de ntro d o casc o. No mome nto em que o navi o esbarrava na doca, marinheir os tyr oshis saltar am para terra a fim de amarr á-lo. More o aproxim ou-se e m grande az áfam a, todo s orris os. - Porto Real, mi nha senhor a, t al c omo havia orde nad o, e nunc a ne nhum navio fez viagem mais rápida e segura. Necessitar á de assistê nci a no trans po rte de vos sas cois as p ar a o c astelo ? - Não vam os par a o cast elo. Tal ve z me po ssa s ugerir uma estal age m, u m lugar lim po e c onfortável, e não muito l onge d o ri o. O tyroshi passou os dedos pel a bar ba verde e bifurc ad a. - Com certeza. Conheço vári os estabeleciment os que pode m lhe c onvi r. Mas primeir o, se me permite a ous adi a, h á o as s unt o d a s egund a par t e do pagame nt o que acor dam os. E, bem ente ndid o, a prat a extr a que teve a bond ade de prometer. Sesse nta vea dos, j ulg o q ue era esse o mo nta nte. - Para o s rema dore s - lembro u-lhe Cately n. - Ah, com certe za - disse More o. - Embor a e u tal vez deva g ua rdá-l os p ara eles até r egre ssar mos a Tyr osh .


Para o bem de s uas es pos as e filhos. Se a prat a lhes for d ada aqui, minha se nhor a, irão perdê-l a par a os dados ou gast á- la por complet o numa noite de praze r. - Há cois as piore s em q ue g asta r di nheiro - i nter veio Sor R odrik. - O invern o est á p ara c hegar. - Um homem deve fazer as s uas pr ópri as escolh as disse Catel yn. - Eles ganharam a prat a. Como a gast am n ã o me di z respeit o. - Como desej ar, minha senh ora - re sponde u Moreo, fazen do uma r eve rência e s orri nd o. Para se ass egurar de que o di nh eiro chegari a ao destino, Catel yn pagou el a própri a aos rem adores, um ve ad o par a c ada h omem e um a moe da d e cobre par a os d ois homens que tr ans por taram suas arcas até o mei o d a encost a d e Visenya, onde fi cava a estalagem que Moreo sugerira. Era um velho edifício de perfil irre gul ar que se ergui a na Viela das Engui as. A d ona era um a velha enrugada com um olho pre guiç oso, que os mirou c om suspeit a e mordeu a moeda que Catelyn lhe ofereceu a fim de se certificar de que era verd adeir a. Mas seus quart os eram gr andes e arejad os, e Moreo jurava que seu guis ado de pei xe era o m ais s aboroso em t odos os Sete Rei nos. O melhor de tudo era que não tinh a nenh um inter esse em seus nome s. - Jul go s er melh or que s e ma nte nha af ast ad a d a sal a comum - disse Sor Rodrik, depois de terem se i n s t a l a d o . - M e sm o n u m l u g a r c o m o e s t e , n u n c a s e sabe quem pod e estar à es preit a - us ava cota d e malha, um punh al e um a espada sob um m ant o escur o com ca p uz que p odia pu xar sobre a c abeç a. -


Estarei de volt a a ntes de cair a noi te com Sor Aron prom eteu. - A gor a desc anse, mi nha senhor a. C a t e l y n estava c a n s a d a . A v i a g e m f o r a l o n g a e fatigante, e já não era tão jovem. As janel as d e se u quarto d avam pa ra a viel a e para telhados, c om um a vista do Água N egra por cim a deles. Obser vou Sor Rodrik partir e caminhar em pass o vivo pelas r uas movim ent ad as at é se perder na multid ão, e depois decidiu se guir seu conselho. O c ol chão er a de palh a, não de penas, mas não teve dificuldade em ador mecer. Acordo u c om u m toq ue n a p ort a. Catelyn sent ou-se de repente. D a janel a viam -se os telhados de Por to Real, vermelhos à luz do sol poe nte. Dor mira durante mais tempo do que pla nejar a. Um punho volt ou a m artelar na port a e uma voz grit ou: - Abra, em no me d o rei. - Um momento - el a gritou. Envol ve u-se no manto. O punhal enc ontrava-se s obre a mesa de c abe ceira. Agarr ou- o antes de destranc ar a pesad a port a d e madeir a. Os homens que entraram no quart o usavam a cot a de malha ne gr a e os mant os dour ados da Patr ulha da Cidade. Se u líder sorri u ao ver o punhal na m ão d e Catelyn e disse: - N ão h á ne c e s s i d ad e d i ss o, mi nh a s e nh or a. T e m os orde ns de esc oltá- la até o cast elo. - So b a utori dad e d e quem ? - ela per g unt ou. Ele lhe mostro u uma fit a. C atel y n senti u q ue s ua respiração estava presa na garganta. O selo era um tej o, em cer a cinz enta.


- Petyr - disse. Tão depressa. Algo de via ter aco ntecido a Sor Rodrik. Olhou par a o chefe dos gu ard as: - S abe q uem e u so u? - Não, se nhor a - d isse ele. - O Se nhor Mindinh o só disse par a le vá-la até ele, e evit ar que seja maltrat ad a. Cately n a nui u. - Pode esperar l á fo ra en qu an to me v isto. Lavou as mãos na bacia e enr olou- as em linho limpo. Senti u os dedos gross os e des ajeitados enquanto lutava para atar o c orpet e e pr ender um pes ad o mant o marr om e m torno do pes c oço. Com o podia Mindinho ter sabido que est ava ali? Sor Rodrik nunca lhe diria. Podia ser velho, mas er a teimoso e impecavelme nte leal. Teriam che gado t arde demai s? Teriam os Lanni ster chegad o a Porto Real ant e s deles? Não. Se fosse isso, Ned também estari a ali, e sem dú vida q ue v iria vê-l a. C omo ?. . . E n t ã o p e n s o u : Moreo, O m a l d i t o t y r o s h i s a b i a q u e m eles eram e onde estavam. Catel yn espe rava que o h om em t i ves se obt i d o um bom pr e ç o pe l a inform aç ão. Tinham lhe tr azido um caval o. Os candeei ros estavam se nd o acesos ao l ongo das r uas por que caminh avam e Catelyn senti u os olhos da cid ade post os nela enquant o avançava, rodeada pel os guard as de ma nt os dourados. Q uand o chegaram à Fortalez a Vermelha, a port a levadi ça estava abaixada e os grand es port ões tranc ad os par a a noite, m as as ja nelas do c astelo m ostrava m-se vi vas com l uzes tre meluzent es. Os guar das dei xaram as mont aria s fora d a mu ralha e escol taram- n a por um a


estreita port a lateral, e de pois ao longo de uma infinid ade d e degr aus até u ma t orre . Ele estava sozi n ho na sal a, sent ado a um a pes ad a mesa de madeir a, com um a c andeia de azei te a seu lado enquanto escrevia. Quando a intr oduziram no ap osen to, po uso u a pe na e olh o u-a. - C at - d i s s e e m v oz ba i x a. - Por q ue moti vo f ui a qui tr azid a de sta ma neir a? Ele se le va nto u e fez um g est o brusc o pa ra o s guard as. - Deixem- nos - os homens partiram. - Não foi maltrat ada, es per o - disse, depois de os outros terem saído. - Dei instr uções firmes - re p aro u nas at ad uras . - Suas mã os... Cately n ignor ou a perg unt a im plíci ta. - Não est ou habi t uad a a ser c onvocad a c omo um a meretriz - disse com voz gelada. - Aindr: rapaz s abi a o q ue sig nifica v a cortesi a. - Zanguei- a, mi nha senhora. Ess a nunc a f oi mi nha intenç ão - parecia contrito. A expressão trouxe a Catelyn vivas memórias. Fora uma criança malicios a, m as depois de s uas travess ur as parecia sempre contrito; era um d om que pos suí a. Os anos não o tinham m udado m uito. Petyi tinha sido um rapaz pe que no, e crescera até transfor mar-se num homem pe que no, quatr o ou cinc o centímetros mais bai xo que Catel yn, esbelt o e rápido, com as feiçõe s intelige ntes que ela recor dava e os mesmos olhos risonhos cinza- esverde ados. Usava agor a um a peque na bar bich a ponti agud a, e tinha tr aços de prat a n o c abel o escur o, emb or a a inda nã o ti vesse


trinta anos. Combinavam bem c om o tejo de prat a que pre ndi a a o manto. Mesm o quando c rianç a, sempre gost ar a de sua prat a. - Como soube que eu estava na cidade? - ela perg un to u. - L orde Var ys sabe tudo - di s se Petyr com um sorriso m alicios o. - Ele se juntará a nós em breve, mas eu quis vê-la a sós primeiro. Foi há tant o temp o, Cat. Qu an tos a nos ? Catelyn ignorou a familiarid ade do homem. H avia perg un tas m ais i mport a ntes. - E nt ã o f oi a Ar a nh a d o R e i que m e e nc o nt r ou . Mindinho e nc olh eu-se. - Não d eve cham á -lo assi m. Ele é muito sensí vel . Imagi no que po r ser um eunuc o. Nad a ac ontece nesta cid ade sem que Var ys fique sabe ndo. Por v e z e s , e l e s a b e d a s c o i s a s antes d e e l a s a c o n t e c e r e m . Tem informante s por t odo o lad o. Chama-os de se us pass arinh os. Um de seus pass ari nhos ouvi u fal ar d a sua visit a. Felizmente, V arys veio fal ar c omigo primeir o. - Por q ue você? Ele encolhe u os o mbros. - E por que não? Sou o mestre da moe da, o conselheir o d o rei. Selm y e Lorde Renly for am par a o N orte ao e ncontro de Robert, e Lor de Stannis parti u para Pedr a do Dragão, deixando s ó Meistre Pycelle e e u. Era a escolh a óbvi a. Sempre fui amigo de su a irmã Ly sa, e Varys s abe diss o. - Sa berá V ary s so b re...


- L or de Var ys s a be t ud o. . . e xce t o o m ot i v o d e es t ar aqui - ergue u um a sobr ancelha. - E por que m otivo está a q u i ? - É permitido a uma esposa ansi ar pelo marid o, e se uma mãe precis ar das filhas por pe rto, quem lhe dirá que nã o? Mindinho s olto u uma gar galh ada. - Ah, muito be m, minha se nhora, mas com certez a não espera que eu acr edite nisso. Conheço- a bem demais. Com o er a m as p ala vra s dos Tully? A gar ga nta d ela e stav a sec a. - Família, Dever, Honra - r e c i t o u r i g i d a m e n t e . E l e d e fato a co nhecia b e m demais. - F amí li a, De ver, Honr a - rep etiu el e. - E t od a s estas c oisas requeriam que ti vesse perm anecido e m Winterfell, ond e a nossa Mão a de ixou. Não, mi nha senhor a, algo ac ontec eu. Est a sua s úbit a viagem suger e cert a urgê ncia. Suplic o-lhe, deixe-me ajud ar. Os velhos ami go s íntimos nunca de veriam hesitar e m apoiar-se uns nos outr os - ouvi u-se uma suave batid a na port a. - En tre - disse Mindinh o e m voz alt a. O h ome m que at r av e s s o u a por t a er a r oli ç o, perfumad o, empoado e tão desprovid o de cabelos como um ovo. T rajava um a vest e de fio de our o tranç ad o s obr e um vesti do lar go de sed a púr pura e, nos pés, tr azia chinelos pontiagudos de s uave velud o. - Senh ora Stark - disse, tom ando-lh e um a mão nas suas -, vê-l a de novo após tant os a nos é um a grande alegria - s ua pele era mole e úmida, e o h álito cheirava a lilases. - Ah, suas pobres mãos. Queima dur as, q u erida se nhor a? O s dedos s ão tã o


delicad os... N oss o b om Meistre Pycelle f az u m báls amo mar avilh oso, m an do busc a r um jarr o? Cately n p uxou a mão. - Agrade ço-lhe, se nhor, mas me u Meistre Luwin já trato u de mi nhas dores, Va rys i nclino u a c abe ça. - Fiquei atr ozmente triste quan do soube do qu e aco ntece u ao seu filho. E ele tão jovem. Os de uses são cr uéis. - Nisso conc ordam os, Se nhor V arys - ela disse. O título não pass ava de uma cortesia que lhe era devid a por ser membr o do conselho; Varys não era senhor de coi sa nenh uma, a não ser da tei a de aranha; me stre de ni nguém, a não ser de se us segred os. O eun uco e sten de u as m ãos s u aves. - Em mais do que isso, esper o eu, querida senhor a. Tenho grande estima pelo se u marido, noss a nova Mão, e sei que am bos ama mos o rei Robert. - Sim - foi f orça d a a dizer. - Com ce r teza. - Nunc a um r ei f oi tão am ad o c omo o noss o R ober t obser vou Mindinho, sorri ndo m ali ciosam ente. - Pelo meno s a o alc ance dos o uvi dos do Se nhor Var ys. - Minha boa senh ora - disse Var ys c om grande solicitude. - Há homens nas Cidades Livr es com assom br osos po d eres cur ativos. Basta que me di ga uma pal avr a e mandarei chamar um para o seu queri do Bra n. - Meistre Luwin e stá faze nd o tudo o que pode ser feito por Br an - ela inf orm ou. Não queri a fal ar de Bran, não ali, não com aquel es homens. Confi av a ape nas um p ou c o em Mindinh o, e abso lut amen t e


nad a em Var ys, Não queri a deixá-los ver s ua d or. Lorde Baelish disse-me que é a vós que devo agr adecer po r me trazerem até aq ui . Varys s olto u u m r isinho de m oça, - Ah, sim. Supo nho que sou culpad o. Espero que m e perd oe, bond osa senhor a - instalou-se numa cadeira e juntou as mã os. - Pergunto a mim mesmo se pode mos inc om odá-la pe dindo que nos m ostre o pu nhal? Catelyn Stark fitou o e unuc o com uma des crença a t o r d o a d a . E l e era u m a a r a n h a , p e n s o u p r e c i pitad ame nte, um encantad or, ou coisa pi or. Sabi a coisas que ningué m pode ria de m odo al gum s aber, a nã o ser q ue... - O que fez a S or R odrik ? Mindinho ti nha p erdido o fio d a me ada. - Sint o-me c omo o cavaleiro que che ga ao c ampo d e bat alha se m sua lanç a. De que punhal e stamos fala ndo ? Que m é Sor R odrik ? - Sor Rod rik Cas sei é mes tre d e arm as em Wi nterfell - Var ys res po nde u. - Ass eg uro-lhe , Se nh ora St ark , que abs olutame nt e nad a foi f eito ao bom caval eiro. Ele veio até aqui esta tarde. Visitou Sor Aron Santagar no arm eiro, e conve rsaram sobre um certo punhal. P or volt a d o pôr do s ol, saír am j unt os d o castelo e diri gir am-se àquele pavoroso c asebre onde estão alojados. Ainda est ão l á, be bendo na sal a de estar, à es per a do seu r egress o. Sor Ro drik fic ou muito aflito qu a n do n ão a en co ntro u lá. - C omo p ode s ab er tudo is so? - Os sussurros de pass ari nhos - disse Var ys, sorrin do. - Eu se i coisas, q uerid a senhor a. É essa a


nat urez a dos meus serviços - encolheu os ombros. Tem o p u n h a l c o n v o s c o , n ã o é ? Cately n p uxo u-o de de ntro d o m a nto e o a tiro u e m cima d a mesa à fr ente dele. - Aqui está. Tal vez se us pass arinhos poss am segredar o nome do homem a que m perte nce. Var ys ergue u a f aca com uma delic adeza e xager ada e perco rreu-lhe o g ume co m o pole ga r. Jorr ou s angue, e ele deixou escapar um gui ncho e larg ou o p unh al s obre a mes a. - C uidad o - disse-lh e Cately n -, é af i a do. - Nada manté m o gume com o o aço valiri ano - disse Mindinho e nqua nto Var ys sugava o pol eg ar ferid o e lanç ava a Catelyn um olhar de carrancuda adve rtênci a. Mindinho s opesou a f aca com ligeire za, sentindo- a. Atirou-a ao ar, e vol tou a apa nhá-l a com a o utr a m ão. - Que belo e quilíbri o. Quer e nc ontr ar o dono, é este o motivo de sta visita? Não há necessidade de Sor Aron para isso, minha se nhor a. Devia ter me pr oc urad o. - E se o tivesse fe ito - disse ela -, o que me teri a dito? - Teria dito que s ó exist e uma fac a como est a em Porto Real - pe gou na l âmina c om o polegar e o indicador, e rgueu-a sobre o om bro e atir ou-a pela sala c om uma torção hábil de puls o. O punhal atingiu a port a e enterrou-se prof undame nte na madeir a de c arv al ho, estremece nd o. - É minha. - Sua? - n ã o f a z i a s e n t i d o . P e t y r n ã o e s t i v e r a e m Winterfell. - Até o tor neio n o dia d o nome d e P ríncipe Joffre y disse ele, atra vessand o a sal a p ara arra n car o p unh al


da m adeir a, - Apostei em Sor Jaime na j ust a, t al como met ade da corte - o s orriso acanhad o de Pet yr fazia- o par ecer meio r apaz de nov o. - Q uand o L oras Tyrell o fez cair do c avalo, muit os de nós ficam os um nadi nha mais po b res. Sor Jaime pe rdeu cem dr agões de our o, a r ainha perdeu um pende nte d e esm eralda, e eu perdi a minha f aca. Sua Graç a obte ve a esmerald a de volta, m as o vencedor fi cou c om o resto. - Quem? - C a t e l y n e x i g i u s a b e r , c o m a b o c a s e c a d e medo. Seus dedo s lateja vam de do r. - O Duende - disse Mindinho enqu anto L orde V arys obser v av a o r osto dela. - Tyri on La nnister.

Jon O páti o resso a va com a c an çã o das espa das. Sob a l ã negr a, o cour o fer vid o e a cot a de malha, o suor corri a gelado pel o peito de Jon, e nquanto el e pressionava o at aque. Gre nn cambale ava par a tr ás, defendend o-se de form a des ajei tada. Quando e rgueu a espada, Jon fez pass ar por bai xo del a um golpe circular que se esmagou contra a parte de trás da pe r n a d o o ut r o r ap az e o d e i xo u m a nc and o. A estocada baixa de Grenn respondeu com um gol pe de cima que lhe a briu um cor te no elmo. Q uand o o outr o te ntou um gol pe lat eral, Jon af astou s ua lâmina e atingi u- lhe o peito com o braç o envolt o em cota de malha. Grenn dese quilibrou-se e cai u com força, de t raseir o na ne ve. Jo n arra nco u-lh e a es pad a


dos de dos c om um gol pe no puls o que o fez gritar d e dor. - Basta! - a voz d e Sor Alliser Thorne tinha um gum e que pareci a feit o de aç o valiri ano. Grenn agarr ou-se à mão. - O bast ard o q uebr ou me u p uls o. - O bastar do o c or tou, a briu- lhe ess e crâni o vazi o e decepou-lhe a mão. Ou o t eria feito, se essas l âmi nas tivessem gume. E sorte sua que a Patr ulha pre cise tant o de moç os de estrebaria como de patr ulheiros Sor Alliser fez um gesto par a Je r en e para o Sapo. Ponham o Auroque em pé, que ele tem preparativos funer ári os a f azer . Jon tirou o elmo enquanto os outr os rapaze s puxavam Grenn. O ar gelado da manhã no rosto lhe fez be m. Apoiou-se na espada, i nspi rou pr of un d am e nt e e pe r m i ti u- s e um m om e nt o p ar a sab orea r a vitóri a . - I ss o é um a e s pad a, n ão a b e ng a l a d e u m ve l h o repree nde u-o Sor Alliser com voz pene trante. - Suas pern as d oem, Lor de Sn ow? Jon odiava aque le nome, uma z ombaria que Sor Alliser pend urar a nele no primeir o dia em que vier a treinar. Os r apazes tinh am-no adotado e agora o ou vi a por t od o la do. Enfi ou a esp a da n a b ainh a. - Não - res po nde u. Th orne cami nhou em sua direçã o, com o dur o co uro negr o sussurr an d o levem ente e nquant o se m ovi a. Er a um home m compacto de ci nque nta anos, sec o e duro, com algum ci nza nos cabel os ne gros e olhos que er am como l asc as de ô n ix,


- Agor a a verd ade - orde no u. - Estou c ans ad o - Jon ad mitiu. Seu braç o ar dia po r caus a d o peso da longa espad a, e agora que a l ut a tinha ac a bad o co meça va a sentir a s cont us ões. - Você é fraco, - Ganhei. - Não. O Aur o que p erdeu. Um dos r ap azes solto u um risi nho a baf ad o, J o n sabi a que er a me lhor não res pond er. Venc era todos os que Sor Alliser enviar a par a lut ar c ontr a ele, mas nad a ganhar a c om iss o. O mestre de armas só ofereci a esc árni o. Thorne o odiava, concluír a Jon; e, claro, odiava ain d a mais os outr os r apazes. - Chega - disse-lhes Thorne. - Não suport o mais q ue certa quanti dade de iné pcia por dia. Se os O utros alg uma vez nos atac arem, rez o para que te nham arqueiros, por que vocês s ó servem par a alvos de palha. Jo n seg ui u os outr os de v ol ta ao armeir o, caminh ando s ó. Ali caminh ava s ó com fre quê nci a. Havi a quase vinte rapazes no grupo c om que m treinava, mas a nenh um podi a chamar de ami go. A maior parte deles era dois ou três anos mais velho, mas ne nhum che gava a ser se quer metade d o lut ad or que R obb for a a o s catorz e anos. Dareon era r ápi do, mas ti nha me do d e ser ati ngido. P yp us ava a es pada como um punhal, Jeren e ra fr aco c omo um a mulher e Grenn, lent o e de sas trado. Os gol pes de Halde r er am brut alme nte d ur os, mas atir ava-se diretamente aos ata que s do adver sário. Q uanto m ais tempo pas sava com eles, m ais J on os de sprez a va.


No armeiro, Jon pendurou a espada e a bainha num gancho na parede de pedra, ignorand o os outr os à sua volt a. Met odicamente, começou a despir a c ot a de malh a, o co uro e as l ãs e nchar cadas de s uor. Bocad os de car vão ardi am e m br as eiros de fe rro e m ambas as e xtremidades da longa sala, mas Jon começ ou a tre mer. Ali, o fri o o acom panhava sempre. Dentr o de al guns anos iria se es quece r de como e ra se ntir-s e que nte. O cansaço o ati ngiu subitament e enquant o vesti a os rudes tecidos negros que eram se u ves tuári o de todos os dias. Sent ou- se num banco, brinc ando c om a s atad ur as do ma nto. Tanto fri o, pensou, rec ord ando os salões de Winterfell, onde as águas quente s corriam pelas par edes com o sangue pelo cor po de um homem. Pouc o calor s e podi a e nc ontr ar e m Castelo Negro; ali, as par edes er am fri as, e as pess oas, m ais frias ai nda. Ninguém lhe dissera que a Patrulha da N oite se ria assim; ni nguém, excet o Tyri on L annister. O anão oferecer a-lhe a ve rdade na estr ada par a o norte, m as então j á er a tar de demais. Jon per guntava a si mesmo se o pai saberi a como era a Muralha. Achava que ti nha de s a be r; e isso só aum en tav a su a d or. Até o ti o o aband onara naquele l ugar fri o no fim d o mundo. Ali, o genial Be njen St ar k que c onheci a se transf orm ara numa pess oa diferente. Era Primeiro Patrulheiro, e passava os dias e as noites c om o Senh or Comand ante Mormont, o Meistre Aemon e os outr os alt os ofi ci ais, ao passo que Jon for a ent regue ao c oma nd o be m po uco af á vel de S or Alliser Thorne.


Três dias de pois da chegada, Jon ouvira dize r que Benjen Stark i a levar mei a d úzia de homens num a patr ulha pel a Fl oresta Ass ombr ada. N aq uela noit e, proc ur ou o ti o na grande sal a de e star de m adeir a e pediu p ara ir c om ele. Benjen rec us ou r udeme nte. - Isto não é Winter fell - disse-lhe, enquant o cor tava a car ne com um garfo e o punhal. - Na Muralha, um homem s ó obtém aquilo que ganh a, Você não é um patr ulheiro, Jon, não passa de um rapaz ver de ai nd a cheirand o a ver ão . Estupid ame nte, J on arg ume nto u: - Farei qui nze anos no di a do meu nome. Q uas e um homem feito. Benjen Star k fra n ziu a s obr an celha. - É e será um ra paz até que Sor Allis er dig a que est á apt o par a ser um homem da Pat r ulha d a Noit e. Se pens ava que se u sangue Stark l he traria favore s fáceis, enganou-se. Quand o fazemos nossos votos, pomos de lado as velhas famílias. Seu pai terá sempre um luga r no me u c oraç ão, mas me us irmãos a g o r a s ã o estes - i n d i c o u c o m o p u n h a l o s h o m e n s q u e os rode avam, t odos eles duros, frios e vestidos de negr o. Jon levantou-se no di a se gui nte de madr ugad a par a assistir à partida do ti o. Um de se us homens, grande e feio, cantava uma canç ão obsce na enquant o sel ava um pequeno ma s forte c aval o, com a res piraç ão formand o nuve ns no ar frio d a manh ã. Ben Star k sorriu ao ouvi-l o, mas não te ve sorrisos par a o sobri nho. - Quantas vezes te rei de lhe dizer que não, Jon? Conve rsare mos qu an do eu re g ressar. En qu ant o


obser vava o tio levar o c avalo para o túnel, Jon record ara as c ois as que Tyri on L a nnister lhe dissera na estrada do rei, e vir a, c om o ol ho da me nte, Be n Star k mort o, com o sangue ver melho na neve. O pens ame nto lhe provocou náusea. Em que e stava s e transf orm ando? Mais tarde, pr oc urou Fant asm a na solidão da c ela e enterr ou a c ar a no es pess o pel o bra nco do anim al. Se tinha de estar só, faria da soli dão sua arm ad ur a. Castelo Ne gro não poss uí a um bos que sagrad o, ape nas um pe que no se pt o e um se ptão bêbado, mas Jon não senti a vontade de rezar a deuses, fossem velhos ou novos. Se e xistissem, pensava, eram tão cruéis e im plac áv eis como o in ver n o. T i nh a s aud ad e d e s eus ve r d ad e ir os i rm ãos : o peque no Ric kon, com os olhos i nte ligentes bri lhand o enquant o supli c ava um d oce; Robb, seu rival, melhor ami go e const ant e companheiro; Bran, teimos o e curi oso, sempre querendo s eg uir Jon e Robb e junt ar-se ao que quer que fosse que estivessem f azendo. Tam bém sentia f alta d as meninas, até de Sans a, que nun ca o chamava de outr a cois a a nã o ser "o me u meio-irmã o", pois já t i n h a i d a d e p a r a s a b e r o q u e bastardo q u e r i a d i z e r . E Arya... ti nha ai nda m ais s audad es dela que de Robb, aquela c oisinh a magricel a, sempre de j oelhos esfolados, c abel os emaranhados e roupas r asgad as , feroz e vol untari osa. Ar ya nunc a parec era ajust ad a , nunca m ais do qu e ele..., mas conse gui a sempre fazer Jon sorrir. Daria qual quer coi sa par a est ar agor a com el a, des pent ear-lhe os c a belo s uma vez mais e


obser vá-la f azer uma c aret a, ouvi -la termi nar uma frase com ele. - Quebr ou meu p uls o, b astar do. Jon er gue u os olhos ao ouvir a voz c arranc uda. Grenn er gui a-se a seu lado, de pesc oço gr oss o e rost o vermelho, com três dos amigos atrás del e. Reconhece u Tod der, um rapaz bai xo e fei o com um a voz d esagradável. Todos os recrutas o chamavam Sapo. Lembr ou-se de que os outr os dois ti nham sido trazid os por Yore n, viol adore s apanhad os nos Ded os . Esquecer a-se de seus nomes. Q uase nunc a f alava c om eles, a não s er que não pudesse evi tar. Era m brut os e rufiões, s em um r esquíci o de h o nr a e ntre os dois. Jo n erg ue u-se. - E que bro-lhe o outro se pedir c om j eitinho - Gre nn tinha dezess eis anos e er a um a cabeça m ais alt o que Jon. Tod os os qu atro eram m ais altos que ele, mas nã o o assust a vam . Batera- os to dos no páti o. - Se n os f or c o nve ni e nt e , po d em os que br a r vo c ê disse um d os viol ador es. - Tentem - Jon puxou a m ão par a t rás em busc a da espada, mas um d eles agarr ou-lhe o br aço e t orce u- o atrás das c ostas. - Você n os faz p are cer ma us - q ueix o u-se S ap o. - Você já pareci a m au antes de co nhe cê-lo - disse-lhe Jon. O r apaz que agarr ava se u braç o de u-lhe um puxão para cima, com for ça. A dor ass olou-o, mas Jo n n ão que ria g r itar. Sa po apr oxi mo u-s e. - O fidal gote tem boa boc a - disse. Tinha olhos de porc o, pe que nos e brilhant es. - É a boc a da tua mamã e, bast ard o ? O qu e el a er a, alg um a r ameir a ?


Diga- nos se u nom e. Talvez e u a t e nha poss uído um a vez o u d uas - e ri u. Jo n ret orce u-se como um a e ng ui a e esm ag ou um calcanhar no peit o d o pé d o r apaz que o se gur ava. Ouvi u-se um grito de dor, e Jon se livrou. Salt ou sobre Sapo, atir ou-o para trás por cima d e um banc o e pisou s obre seu pei to, pre nde ndo-lhe a gargant a com am bas as m ã os, e batendo a c abeça dele na terra batid a. Os dois dos Dedos puxar am-no, atir ando- o rudeme nte ao chão. Grenn c omeçou a dar-lhe pontapés. Jon rolava, t ent and o af ast ar-se dos gol pes, quand o u ma voz tr ovej ant e soou na obsc uridade d o armeiro. - PAREM COM ISTO JÁ! Jo n p ôs-se em pé. Don al No ye os ol hava f urio so. - O local das lut as é o pátio - dis se o armeiro. Mante nham suas disputas longe d o meu ar meiro, ou a s t r a n s f o r m a r e i e m minhas d i s p u t a s . N ã o g o s t a r i a m que iss o ac o ntece sse. Sapo se ntou-se no chão, tate ando a nuc a com cuida do. Os de dos volt aram chei os de sa ng ue. - Ele tento u me ma tar. - Verdade. E u vi - i nterv eio um do s v iolad ores. - Quebr ou o meu puls o - disse de no vo Grenn, m ostr and o-o a N oye. O a rmeiro deu a o p uls o o m a is breve dos olhar es. - Uma c ont usão. T alvez um e nt or se. Meistre Aemon lhe dará um ungue nto. Vai c om ele, Sapo, essa cabeç a precisa ser trat ada. Os outr os voltem às celas. Você nã o, S now. Vo cê fica.


Jon se nt ou-se pesadamente no longo banc o de madeir a e nquant o os outr os s aíam, indife rente aos olhares dos out ros, às pr omessas silencios as de futur as desf orr as. Senti a seu br aço latejar. - A Patrulha nece ssita de t odos os home ns que consi ga arranjar - disse Donal Noye quand o ficar am a sós. - Mesmo de homens com o o Sapo. Não ganh ará honrarias se m at á-lo. A ira de J on r ela mpejo u. - Ele disse qu e min ha mãe er a... - ... uma r ameir a. Eu ou vi. E daí ? - Lorde Eddard St ark não era home m de dor mir com rameir as - disse Jon em t om gelad o . - Su a hon ra... - ... não o im pediu de ser pai de um bast ard o. Não é? Jo n esta v a gel ado de raiv a. - Posso ir? - Vai q ua ndo e u d is ser par a ir. Jo n o bservo u ca rranc ud o o f um o erg uen do-se d o braseir o, at é que Noye lhe tomou o queixo, com dedos gros sos que lhe virara m a c a beça. - Olha par a mim q ua ndo f alo com v ocê, ra pa z. Jon olh ou. O ar meiro ti nha um peito que er a c omo uma barrica de cerveja, e um estômago à al tura. O nariz er a lar go e achatado, e par ecia est ar sempre precisand o f azer a barba. A m anga esquer da de sua túnic a d e lã ne gra est ava pres a ao om bro com u m alfinete de pr ata em form a de es pa da. - As palavr as nã o farão da s ua m ãe uma rameira. Ela era o que era , e nad a q ue Sa po diga po de mu dar


isso. Sabe, temos homens na Muralha c ujas mães eram r a m e i r a s . A minha mãe não, p e n s o u J o n , t e i m o s a m e n t e . N a d a sabi a da mãe; Ed dard Star k não f alava dela. M as po r vezes s onhava c om el a, c om t anta fre quê nci a qu e quase podia ver seu rosto. N os sonhos, er a bel a, bem- nascid a e ti n ha olhos b o ndos os , - Você pens a que tem az ar por ser bast ard o de um grande se nhor ? - prosse guiu o armeiro. - Aquele rapaz, Jeren, é descende nte de um septão, e Cott er Pyke é filho ile gítimo de um a mulher de taberna. Hoje, com a nda A t alai aleste d o Mar . - Não me import a - disse Jon, - Não me impor to c om eles, e não me import o com você ou Thorne ou Benjen Star k, o u seja quem f or. Detesto ist o aqui. E muito... é fri o. - Si m . F r i o, d ur o e m i se r áve l , é as s i m a M ur al h a e assim s ão os homens que a perc orrem. Nada c omo as histórias que sua ama de leite te cont ou. Pois bem, cag ue nas histórias e cague na s ua am a de leite. É assim que as cois as são, e est á aqui par a a vid a tod a, tal com o o re sto d e nós. - Vida - repetiu Jon amar gament e. O armeir o podia falar d a vi da. Ti vera um a. Só vesti ra o negr o de poi s de per der um br aço no cerc o de Pont a Tempestad e. Antes diss o, f ora ferreiro de Stannis Bar atheon, o irmão do rei. Vira os Sete Rei nos de um a pont a à outr a, gozar a de festins e mulheres, e lutar a num a cente na de bat alhas. Dizia-se que fora Donal Noye quem f orjar a o mar telo de batalha do Rei Robert, aq uele qu e esm a gar a a vi da de Rhaega r Tar gar y en


no Tride nte, Fizera tudo aquilo que Jon nunca fari a, e depois, quand o envelhece u, bem par a lá dos t rint a anos, recebeu um golpe de ras pão de um mach ado, mas a f erida ulcer ou até que t od o o braç o te ve de lhe ser tirado. Só então, al eijad o, é que Donal Noye viera par a a Muralha, quand o tinha a vid a pratic ame nte a ca bad a. - Sim, vi da - di sse Noye, - Um a vida longa, ou c urt a, é conti go, Snow, Pelo cami nho que está se guind o, um do s teus ir mã os te a brirá a g ar ga nta uma n oite. - Eles não são meus irmãos - Jon retorquiu brusc ame nte. - Odeiam-me por que s ou melhor que eles. - Não. Odei am- no por que age como se fosse melh or que el es. O lh am par a v ocê e v eem um bas tard o educ ado num c as telo que pe nsa qu e é um fidalgo - o armeir o se apr oximou. - Não é fidalgo nenhum. Lembre-se diss o. É um Snow, não um St ark. É um bast ard o e um arr uaceir o. - U m arruaceiro? - J o n q u a s e s e e n g a s g o u c o m a pal avr a. A acus ação era t ão inj us ta que lhe tirou a respiração. - Foram eles que me at acar am. Os qu atro. - Quatr o que voc ê humilhou no p átio. Quatr o que pro vavelme nte o temem. Vi você lutar. Contigo não há treinos. Um bom gume na sua e spad a, e eles estão mortos; voc ê sabe, eu sei, eles sabe m. Não lhes deixa nad a. En verg o nh a-os. Iss o o deix a org ulhos o? Jo n hesito u. Se nt ia-se or gulh o so q ua ndo ga nha va. E por q ue n ão ha vi a de sentir ? Mas o ar meiro tam bé m


estava lhe tir ando isto, tent ando c onvenc ê-lo de qu e estava fazendo al go de e rrad o. - Eles são todos mais velhos que eu - disse, defensi vam ente. - Mais velhos, mai ores e m ais f ortes , é verd ade. M as aposto que se u mestre de armas em Winterfell o ensinou a l utar c ontr a home ns m aiores. Que m é ele, alg um velh o ca va leiro? - Sor R odrik Cassei - disse Jo n com prud ênci a. Ha vi a ali um a arm adilh a. Se ntia- a fechar - se em seu re dor. D on al No ye i ncli no u-se par a a fre nte, e ncar an do J o n d e pert o, - Pense agora nist o, rapaz. Ne nhum dos o utros te ve alg uma vez um mestre de ar mas até Sor Alliser. Os pais deles er am lavr ad ores, carr oceiros e caç ad ores furtivos, ferreir os, mineiros e re madores numa galé mercantil. O que conhece m d a l uta aprenderam e ntre os conveses, nas ruelas de Vil avelha e Lanisport o, em bordéis e ta bernas na estrada do rei. Podem ter dad o uns golpes com uns paus antes d e tere m chegad o aqui, m as garanto-lhe que nem um em cad a vi nte f oi s uf i c i enteme nte r ico para poss ui r uma espada verdadeira - seu olhar era sombri o. - Ent ão, que lhe p arece m a gor a as s uas vit ór ias, Lorde Sn ow? - Não me chame assim! - disse Jon em tom penet rante, m as sua ira per dera força. De re pe nte, sentiu- se enver gonhad o e cul pad o. - Eu nunc a... nã o pensei... - É melhor que c omece a pe nsar - Noye o pre veni u. É isto, ou pass ar a dormir c om um punhal na cabec eira. A gor a vá.


Quando Jon saiu do armeir o era quase meio- dia. O sol rom pera as nuve ns. Virou-lhe as cost as e ergue u os olhos para a Muralha, que ardi a azul e cris tali na à luz do sol. Mesmo de pois d e tod as aquelas semanas, vê-la ai nda o f a zia ar repi ar-se. Sécul os d e poeira sopr ad a pel o ve nto ti nham- na marcado e polido, cobri ndo-a como uma película, e parecia frequente mente ser de um cinza-claro, da c or d o cé u nublad o..., mas quando o s ol caí a sobre ela num dia l u m i n o s o , brilhava, v i v a d e l u z , u m c o l o s s a l p e n h a s c o azul-es br anquiç a do q ue e nchia me tade d o céu. A mai or estr ut ur a al guma vez c onstruí da por m ãos humanas, disser a Benjen Star k a Jon na estr ad a do rei quando, pela pri meira vez, vislumbr aram a Muralha a dist ância. "E, sem a menor d úvid a, a mai s inútil" acresce nt ara Tyri on Lannister com um sorriso, mas até o Due nde se remeteu ao silê ncio quando se apr oxi maram. Podia-se vê-la de milhas de distância, uma linha az ul--cl ara ao l ongo do horizonte norte, estende nd o-se para leste e oeste e desaparec end o na dist ância longínqua, imensa e c o n t í n u a . Isto é o fim do mundo, p a r e c i a d i z e r . Quando fi nalmente vir am Castelo Negr o, suas for tifi caç ões de madei ra e t or res de pedr a nã o pareci am mais que um punhad o de bloc os de bri ncar espalh ados na ne ve sob a vast a m uralha de gelo. A anti ga f ortale za dos irmãos negr os não era nenh um Winterfell, ne m sequer e ra um cas telo. Se m muralh as, não podia ser de fendida, não pelo s ul , leste ou oeste; mas era ape nas o norte que preoc u pa va a P a trul h a d a N oi te, e p ar a o nor t e ergui a-se a M ura lha. Ergui a -se a cerca de d u zento s


metros, três veze s a alt ura da m ais alt a torr e do forte que defe ndia. O tio dissera-lhe que o topo era suficienteme nte largo par a que uma dúzia de cavaleiros c avalgasse m l ado a lado ve stidos de armadur a. As esgui as silh uetas de enormes catapult as e monstruos as gr uas de madeira montavam guar da l á em cima, como esquelet os de gra ndes aves, e entre el as c aminhavam home ns de negr o, pe q uen os c omo f ormi gas. A port a do ar mei ro, olhando par a cima, Jon se ntiuse quase tão esmagado c omo naqu ele dia na estr ad a do rei em que vi ra a Mur alha pela primeir a vez. A Muralha er a assim. Por ve zes quase co nse gui a se esque cer de que e la estava ali, d o mesmo m odo que uma pess oa se esquec e d o cé u ou da terr a que pis a, mas havia outr as altur as em que pareci a que nad a mais e xistia no mundo. Er a mais velha que os Set e Reinos, e quando Jon olh ava pa ra cima, se ntia- se entontecido. Cons egui a sentir o enorme peso d e tod o aquele gel o f azendo pressão s obre ele, c omo se estivesse prest es a ruir, e de al gum mod o Jon s abi a que se a Mur alha caísse, o m u ndo c airia c om ela. - Faz-nos pe nsar no que está d o outro lad o - disse uma voz f amili ar. Jo n olho u em vol ta. - Lannis ter. Não vi ... quer dizer, pe nsei que esti vesse sozinh o. Tyrion Lannis ter estava enr olado em peles tão gross as q ue pare c i a um urso muit o peq ue no. - Muito se pode dizer em defesa de apanh ar as pessoas de spre venidas. N unca se sabe o que se pod e apre nder.


- Não aprenderá nada comigo - disse-lhe Jon. Pouco vira o anão desd e o fim da vi age m. Na qualidade de irmão da r ainh a, Tyrion Lannister era c onvidado d e honra d a Patr ulh a d a Noit e. O Se nhor Comandante destinara-lhe a posent os na Torre Real - embora, apes ar do nome, ne nhum rei a tivesse visit ado e m cem anos -, e La nnister j ant ava à mesa de Mor mont , pass ava os di as percorrendo a Muralha e as noites jogand o d ados e bebe nd o com Sor Alliser, Bowen Marsh e os o utro s oficiais de alta p atent e. - Ah, eu apre ndo coisas onde quer que vá - o homenzi nho indic ou a M uralha c om um cajado ne gr o e nod oso. - Como estava diz end o.. . por que será que quando um home m constr ói um a pare de, o homem segui nte precis a imediat ame nte saber o q ue est á do outr o lad o? - incl inou a cabeça e ol hou Jo n com se us o l h o s c u r i o s o s e d e s i g u a i s . - V o c ê quer saber o q u e e s t á do o utr o lad o, n ã o q uer? - Não é nada de es pecial - disse Jon. Desejava partir com Be njen St ark em s uas pat rulhas, penetrar prof undame nte nos mistérios da Floresta Assombr ada, desejava lut ar com os selvage ns d e Mance R ayder e defend er o rei no contr a os Outr os, mas era melhor não me ncionar as cois as que desejava. - Os patrulheiros dizem que é s ó flor esta, mont anh as e l agos gelad os, c om mont es de ne ve e gelo. - E o s g r a m e q u i n s e o s snarks - d i s s e T y r i o n . - N ã o nos es queç am os deles, Lorde Snow, caso contrário, par a q ue ser ve a q uela gra nde c oisa ? - Não me ch ame Lo rde S now.


O an ão er gue u u m a so bra ncelha. - Preferiria ser tr atad o por Duende? Se deixá-los perce ber que s uas pal avr as o mago am, nunca se ver á livre da troça. Se lhe quiserem atribuir um nome, aceite- o, faç a-o seu. Assim, não pod erã o volt ar a magoá-l o com ele - fez um gest o com o caj ad o. Vem, anda c omigo. A est a altura de vem e star servindo um guis ado noje nto na sala de estar, e não recus arei um a ti g ela de q u alq uer c oisa que nte. Jon tam bém tinh a fome, e assi m se pôs ao lad o d o L anni s t e r e m o d e rou o p as s o pa r a aj u st á- l o a os desajeit ados e bambole antes d o anão. O vent o est ava aume nt ando, e o uviam os velhos e d ifícios de madeira estalar em em to da a volta, e, a dis tânci a, um a port a pes a da bater, uma e o utra vez, es queci da. A certa a l t u r a o u v i u - s e u m tump a b a f a d o , q u a n d o u m a camada de neve deslizou de um telhado e cai u per t o deles. - Não vejo seu lobo - disse o Lannister enquanto caminh av am. - A mar r o- o nos v e lh os e s t áb ul os qu an d o e s t am os treinando. Agora aloj am todos os caval os nas cavalariç as orient ais e ningué m o i ncom od a. Durant e o rest o d o tem po, fica c omigo. Minha cel a fic a na Torre de H ardin. - Essa é a que tem a ameia partida, não é? Ped ra estilhaçad a no p átio abai xo e uma i nclinação que parec e o noss o nobre rei Robert depois de um a long a noite de bebid a? Pensei que t odos esses edifícios estivessem ab a nd on ado s. Jo n enc olheu os o mbros.


- Ninguém liga par a onde dormi mos. A maior part e das velhas torres está vazia, e pode-se esc olhe r qualquer cela que se deseje - em outros tempos , Castelo Ne gro al ojara ci nc o mil gue rreiros c om t od os os s e us c av al os , s e r vi d or es e ar m as . Agor a e r a o l ar de um décim o desse númer o, e partes do castelo estav am c ain do e m ruín a. A gar galhada d e Tyrion L anniste r evaporou como uma nu vem no ar frio. - Hei de dizer ao s eu pai para prender m ais alguns pedreir os, a ntes q ue su a tor re cai a. Jon podi a sentir a troç a que havi a naquel as pal avr as, mas n ão adi antava ne gar a ve rdade. A Patrulha cons truíra dezenove grand es fortes ao longo da Mur alha, mas apenas três se mantinh am ocupados: Atal aialeste, em sua costa ci nzent a varrida pelo ve nto; a Torre Sombri a, junto às mont anh as onde a Muralh a termi nava; e, e ntre elas, Castelo Negro, na extremid ade d a estrad a do rei. As outr as f ortific ações, há m uito desertas, er am l ugare s s ol i tár i os e as s om br ad os , ond e os ve nt os f r i os assobiavam atr a vés de janelas ne gras e os es píritos dos m ortos guar n eciam os bal uarte s. - É mel h or q ue eu est ej a s oz i nh o - di sse t e i m os am e nt e J o n. - O s o ut r os t e m em o F a nt as m a. - Rapazes sens at os - disse o Lannis t e r. Então, m udo u de assunt o. - Dizem que se u tio já e stá for a há tempo demais. Jon recor dou o d esejo que tiver a e m sua ira, a vis ã o de Benjen St ark morto na neve, e desviou o olhar rapid ame nte. O a nã o tinha ma neir as de se aperce be r


das cois as, e Jon não queria que ele visse a cul pa em seus olh os. - Ele disse que voltaria por volt a do dia do me u nome - admitiu. O dia do seu nome chegara e partir a, sem ser not ad o, havi a um a quinze na. - I am à p r oc ur a d e S or Wa ym ar R o yce , c uj o p a i é v as s al o de Lorde Arr yn. Tio Benje n diss e que poderi am ir à sua pr oc ura at é tão lo nge c omo a Torre So mbri a . Isso é to do o cami nho até as m ont a nhas. - Ouvi dizer que têm desaparecido muit os patr ulheiros nos últimos tempos - disse o Lannister enquant o s ubi am os degraus que levavam à s ala c om um . Sor r i u e abr i u a port a. - T al vez os grame q uins est eja m com fo me este an o. Lá de ntro, o sal ão er a ime ns o e ch eio de c orrent es de ar, mesmo com um fogo a r ugir na gr ande lareir a. C or vos f a z i am ni nh os na s vi g as d o m aj e s t os o t e t o. Jon ouviu seus gr itos, e nquanto ac eitava uma tigel a de guisado e um a fatia de pão preto d os c ozinheir os do di a. Grenn, Sapo e al guns dos outros est avam sentados no ba nc o mais pró xim o do cal or, rindo e lanç ando pr agas uns aos outr os com vozes r udes. Jon os obser vou por um mome nt o, pens ati vo. De poi s, escolheu um lo cal na ponta opos t a do s alão, be m afast ad o do re sto dos pr esent es. Tyrion Lannis ter sentou-se à sua frente, cheirand o, desco nfiad o, o gui sado. - Cevad a, ce bol a, cenour a - murm urou. - Alguém deveri a dizer aos cozinheir os q ue n ab o n ão é c ar ne.


- É guis ad o de car neiro - Jon desc alçou as luvas e aquece u as m ãos no vapor que subi a da ti gela. O cheiro lhe da va á gu a n a b oca. - Sn ow. Jon reconhece u a voz de Alliser Thorne, mas havi a nela um a c urios a not a que não ouvira antes. Vir ouse. - O Senhor C oma nd ante deseja vê-lo. Já. Por um momento, Jon fic ou muit o assust ado para se move r. Por que ia querer o Se nhor Coma ndante vêlo? Ti nham ouvido algo s obre Benjen, pe ns ou, descontrol ad o. Estava m ort o, a vis ão tinha s e tornad o realid ade . - É o meu tio? - proferiu at abalhoadame nte. Regress ou em s eg ura nça ? - O Senhor Co ma nd ante nã o está ha b ituad o a es per ar - foi a respost a de Sor Alliser. - E eu não estou habituad o a ver minhas or dens questi o nad as por bast ard os. Tyrion L annister salto u do b anc o e pôs-se em pé. - Pare com iss o, Thorne. Est á ass ust and o o r ap az. - Não se i ntr ometa em ass unt os que não lhe dizem respeit o, Lan niste r. Não tem l ug ar aq ui. - Mas tenh o um lugar na cort e - disse o anão, sorrindo. - Um a pal avr a ao ouvid o cert o e morrerá como um velho a margo antes que tenha o utro rapaz par a treinar. E agor a diga ao Sno w porque é que o Velho Urso pr ecisa vê-l o. Há notí cias do ti o? - Não - Sor Allis er respondeu. - É um ass unt o totalm ente difere nte. Um a a ve chego u est a m anh ã d e


Winterfell com uma me nsagem sobre se u irm ão depoi s, corri giu-s e : - De seu mei o-i rmão. - Bran - disse Jon sem fôlego, pond o-se em pé de um salto. - Alg um a c oisa aco ntece u a B ran. Tyrion L annister po uso u-lhe a m ão no braç o. - Jo n. Lame nto m u ito, Jo n q u ase nem o ou viu. Afast ou a mão de T yrio n e atravess ou o s al ão a pass os lar gos. Ao che gar às port as, j á est ava corre nd o. Preci pitou-se na direção da Torre d o Comandante, atravessando pe que nas nuvens de ne ve v elha soprada pel o ve nto. Quand o os guard as o deixaram pass ar, s ubi u o s degr aus da t orre dois a dois. Ao avanç ar pel o ap osent o do Senhor Comandante, ti nha as bot as em papad as, os olh o s agit ados, e ar quej ava. - Bran - disse. - Q u e diz a me nsa gem de Bran ? Jeor Morm ont, o Senh or Com an da n te da P atr ulha d a Noite, era um homem ás pero e velho com um a imensa cabeça calva e uma desgre nhad a barba cinzenta. Tinha um cor vo pousado no br aço e aliment a va- o com grã os de milho. - Ouvi dizer que sabe ler - sac udi u o cor vo, e a ave bate u as asas e voou até a janela, onde pousou, obser vand o Mormont tir ar do ci nto um rolo de papel e entre gá-l o a J on."Gr ão", resm ungou o cor vo em v o z r o u f e n h a . "Grão, grão", O dedo de J on pe rcorre u o co nt orn o d o lo b o gi ga nte de cer a br anca do selo que br ado. R econhece u a letra de Robb, m as as palavras pareciam sair de foc o e fugir quando te ntou lê-l as. Percebe u que estava chorando. Entã o, através das l ágr imas enc ontrou o sentid o das pal a v ras e erg ue u a c ab eça.


- Ele acord ou - di ss e. - Os deuses o d evol ver am. - Aleijado - disse Mormont. - Lame nto, r apaz. Lei a o resto da c arta. Olhou as pal avr as, m as não im portavam. Bran ia sobre vi ver. - Meu irmão vai vi ver - disse a Mor mont. O Se nhor Comandante bal anç ou a cabeç a, recolheu um punhad o de milho e assobiou. O corvo voou até seu ombr o, grit a ndo " Viver.' Viv er.'". Jon cor reu pela escad a abai xo, c om um sorris o no rosto e a carta de Robb na mã o. - Meu irmão vai viver - disse aos guardas. Os homens entreolharam-s e. Corre u de volt a à s ala comum, onde encontr ou Tyrion Lannist er t e rm i nand o s u a r e f ei çã o. A ga r r ou o h om e nz i nh o pelos sovac os, er g ueu- o no ar e r od opi ou c om el e nos braç os. - Bran vai viver! - berr ou. Lannis ter pareceu alarm ad o. Jon o coloc ou no chão e pôs-lhe o papel nas m ãos. - Est á aq ui, leia - diss e. Outros se juntavam e olhava m para el e com curiosi dade. Jon jrepar ou e m Grenn a poucos centímetr os. Trazia uma atadur a grossa de lã enrol ad a na m ão. Parecia ansios o e desconf ort ável , nad a ame açad or. Jon f oi fal ar c om ele. Grenn rec uou e ergueu as mãos. - F ica lon ge de mi m, bast ard o. Jo n sorri u p ar a el e. - Desculpe pel o pulso. Robb us ou c omig o o mesmo movim ent o um a vez, mas com uma lâmina d e madeir a. D oeu como os set e inf ernos, m as o se u d eve ser pi or. Olha, se quiser, poss o lhe mostr ar com o se defend er dele.


Alliser Thorne o o uvi u. - Lorde Snow quer agora ocupar me u lugar - fez um sorriso de esc ár nio. - Mais facilmente ensi naria eu um l obo a faz er malabaris mos do que você tr einaria este au ro que. - Aceito a apost a, Sor Alliser - disse Jon. - Ador ari a ver o Fantasma fazer mal abarismos. Jon ouvi u Grenn pre nder a respiração, choc ado. E o silêncio s e fez. Então, Tyri on Lannis ter s oltou um a gar galhada. Três dos irmãos negros junt aram-s e a ele numa mes a pró xima. O ris o espalh ou-se pelos bancos, até que mesmo os cozi nhe iros riam. Os pás saros agit aram-se nas traves e, finalme nte, até de Grenn s aiu um risinho. Sor Alliser não ti rou os olhos de Jon. Enquanto as gar galhadas ressoavam à sua volt a, seu rosto escurece u e a mã o da esp ad a fecho u -se nu m p unho. - I ss o f oi um e nor m e e rr o, L or d e S now - di s se, p or fim, no t om á cido de um ini mig o.

Ed d ar d Ed d a r d S t a r k e n t r o u a c a v a l o p e l a s g r a n d e s p o r t a s de br onze da F ortaleza Ve rmelha, d olorid o, c ans ad o, famint o e irritado. Ainda est ava mont ad o, sonh an d o com um l ongo ba nho que nte, um a gali nha ass ad a e uma cam a de pe n as, quand o o i nte nde nte d o rei lhe disse que o Gra nde Meistre Pycelle tinha convoc ad o uma reunião urge nte d o peque no c onselh o. A honra da pres enç a da Mão er a requisitada assim que fos se con veni ente.


- Será conve nie nt e amanhã - e xcl am ou Ne d enquanto desmontava. O intende nte fez um a reverê ncia muit o gra nde. - Transmitirei aos conselheir os as vossas desculpas, senhor. - Não, r aios me partam - dis se N ed. Não er a boa ideia of ender o conselh o ai nda antes de c ome çar. Irei vê-l os. Rogo que m e conced am alguns m ome nto s par a ves tir al go m ais a prese ntá vel . - Si m , s e nh or - d i s s e o i nte nd e nt e . - Se d ese j ar, oferecem os os ant igos apose ntos de Lorde Arr yn, na Torre da Mão. Mand arei que vossas c oisas sejam levad as par a lá, - Agrade ço - diss e Ned enquant o ar ranc ava as l uva s de montar e as enfiava no ci nto. O resto de sua comitiva vinha e ntrand o pel o port ão atrá s dele. Ned viu V ayon Po ole, seu própri o intendente, e o chamou. - Parece que o conselh o precisa urge nteme nte de mim. Certifique-s e de que minh as filhas enc ontram seus quart os e diga a Jor y par a mant ê-las lá. Arya não de ve sair - Poole fez uma reverê ncia. Ned volt ou a virar -se para o inte nde nte real. - Minhas carroç as ai nd a es tão vagando pel a cidade. Nec essitarei de vestim ent a s apr opri ad as. - Será um g ra nde p razer - o i nte nd e n te saiu. E assim Ned entrara em pas sos l argos na sal a do conselh o, c ans ad o até os oss os e ve stido c om roupas emprestadas, e enc ontr ar a quatro membros do peq ue no c onselh o à su a espe ra. O apose nt o estava ricament e mobiliado. Tapetes myria no s co briam o chão em lu gar de estei ras e, num


cant o, cem animais fabul os os sal tavam em tint as vivas num bi om bo ent alhad o vi ndo d as Ilhas do Verão. As pare des estavam c obe rt as por tapeç arias de Nor vos, Qohor e L ys, e um par de e sfinges valiri anas fl anqu eava a port a, com olhos de granad a polid a ar den do e m rosto s de m ármore ne gr o. O con selheiro de que Ned m en os g osta va, o eu nuc o Varys, o a bor do u no m ome nto e m q ue ent ro u. - Senh or Stark, fiquei imens ame nte triste ao saber de seus problemas na e strad a d o rei. Temos t odos visitad o o se pto a fim de acender velas pel o Príncipe Joffre y. Rez o pela sua recuper ação - sua mão esque rda deixou manch as de pó na manga de Ned, e exal ava um odor tão r epugnante e doce com o flores num a se pult ura. - Seus de uses ouvi ram s uas preces - respondeu Ned, frio, mas delic ado. - O prí ncipe fica mais f orte a cada dia que pass a - libertou-se d o e unuco e atravess ou a sala at é onde Lor de Renly est ava, junt o ao biom bo, convers ando calm amente com um homem bai xo que só podia ser Mindinho. Quand o Robert conquist ara o trono, Renl y não era mais que um rap az de oito anos, m as tr ansfo rmara- se num homem tã o parecido com o ir mão que Ne d o achava de sconcert ante. Sempre que o vi a, era com o se os anos tives sem desapareci do e estivesse per ante Robert, logo depois de ob ter a vitóri a no Tride nte. - Vejo q ue cheg o u em seg ura nç a, Lo rde St ark - disse Renly. - E você t ambém - responde u N ed. - Peço-lhe perd ão, m as por vezes parece a mim a viva imagem de seu irm ão R ob ert.


- Uma m á cópia - disse Renl y c om um e ncolher de ombr os. - Se bem que m u ito mais b em-v e stida - bri nco u Mindinho. - L orde Renl y gasta mais em vest uário que m etad e das se nhora s da c orte. E era ver dad e. Renly ves tia veludo verde-esc ur o, com uma dúzia de veados dourados bor dados no gibão. Uma mei a capa de fi o de ouro es ta va atirad a casualme nte por sobre um ombro, pre sa c om u m broche de esmer alda. - Há crimes pior es - diss e Re nly com uma gar galhada. - O mod o c omo se traja, por e xempl o . Mindinho i gnor ou a pi ad a. Obse r vou Ned com um sorriso nos l ábi os que beira v a à in s olênci a, - Há al guns anos que te nho ali mentado a esperanç a de conhecê-l o, L orde St ark. Certamente a Senhor a Star k fal ou de mi m. - Falou - res ponde u Ned com gel o na voz. A ast uta arrogância d o coment ário o infl amou. - Pelo que sei, tamb ém co nhece u meu irm ão Bra nd on. Renly Bar atheon solt ou uma g argalhad a. Var ys arrast o u os pés p ara m ais pe rto a f i m de escut ar. - Bem demais - disse Mindinho. - Ainda carre go comigo um sinal de s ua estima. Brand on t ambé m lh e falou de mim ? - Com frequê ncia, e com algum cal or - dis se Ned, esper and o que a frase pus esse fim à c onvers a. Não tinha paciê ncia para aquele jogo, par a aquel e duelo de pal av ras. -Jul ga va que o ca lor nã o se co ad un av a com o s Star k - disse Mindinho. - Aqui no Sul, diz em que sã o tod os


feitos de gelo, e que derr etem quand o vi ajam par a bai xo d o Gar gal o. - Não pre tend o d e rreter em brev e, Senh or Baelish. Pode cont ar com isso - Ned diri giu-se até a mesa do conselh o e disse: - Meistre P ycelle, confio que esteja bem de s aúde. O Grande Meistre sorri u gentilm ente no se u c adeir ão num a ex tremid ade da mes a. - Suficie nteme nte bem par a um homem d a mi nha idade, senh or - responde u -, mas re ceio que me canse facilme nte - finos fios de cabelo br anc o rod eavam a larga cúpul a calva da testa que se erguia s obre um rosto amável. Seu colar de meistre não er a uma simples gar gantilha de met al c omo o que Luwin usa va, m as sim duas d úzi as de pesadas c orrentes entreteci das num ponder oso c olar de metal que o cobri a d a gar gan ta ao peit o. Os elos ti nham sido forjad os de tod os os metais conhe cidos do homem: ferro negr o e ouro vermelho, cobre brilhante e chumbo baç o, a ço e estanho, prata, lat ão, br onz e e plati na. Gr anad as, ametis tas e pérol as ne gr as ador navam o m etal, e aqui e ali se via uma esmerald a o u u m rubi. - Talvez pos sam os começ ar em bre ve - disse o Gr ande Meistre, com as mãos entrel aç adas s obre a lar ga barri ga. - Temo que adormeç a se esper armos muito mais tem po. - Como des ejar - a cadeira do rei estava vazi a à cabec eira da mesa, com o veado c or oado dos Baratheon bordado a fi o de ouro nas al mof ad as. Ned ocu po u a ca deir a ao l a do, n a q ualid ade de m ão


d i rei t a do rei . - M eus se nh o re s - di ss e c o m formali dade -, l a ment o tê-los feit o espera r. - Sois a Mã o d o Re i - disse V arys. - Nós ser vimos à voss a v on tade, L orde Stark. Enquanto os outr os ocupavam seus lugare s habituais, Eddard Stark foi atingido viole nt ament e pelo pe ns amento de o seu lugar não ser aquele, naquel a s ala, co m aqueles home ns. Recor dou o que Robert disser a na cri pta por baixo de Wi nterfell. Estou rodeado de aduladores e idiotas, ele i n s i s t i r a . N e d ol h ou a m e s a d o c ons e l h o e pe r g unt ou a s i pr ó pr i o quais seri am os aduladores e quais os idi otas. Pens ou já sa bê-lo. - Não s omos mais q ue cinc o - Ned ob servo u. - Lorde St annis viajou para Pedr a do Dragão não muito tem po de p ois de o rei te r p artido pa ra o N ort e - disse Var ys -, e o noss o gal a nte Sor Barris ta n acom panha o rei na tr avessi a da cidade, c omo é pró prio do Senh or Coman da nte d a Guard a Real. - Talvez de vêssem os esper ar que Sor Barrist an e o rei se junt assem a nós - s ugeri u Ned . Renly Ba rathe on riu em v oz al ta. - Se e s per ar m os qu e m eu i r m ã o n os agr ac i e c o m s ua real pre senç a, p o derá ser uma l on g a esper a. - Nosso bom Rei Robert tem m uitas pre ocupaç ões disse Varys. - Ele nos confia al guns ass unt os d e meno r importâ nci a p ara lhe ali viar o fard o. - O que L orde Va rys quer dizer é que t o das estas convers as sobre moed a, colheitas e justiça aborrecem meu re al ir mão de morte - disse Lorde Re nl y. - P or isso cai s obre nós o go ver no d o rei no. Ele n os en via


uma orde m de ve z em quando - retirou da manga um papel muit o be m enrol ado e o pôs na mes a. - Esta manh ã orde nou- me que avançass e à col una a tod a pressa e pediss e ao Grande Meistre Pycelle para convoc ar ime diat amente este c onse lho. Tem par a nós uma t aref a ur gen t e. Mindinho sor riu e entregou o papel a Ned. Trazia o selo re al. Ned quebrou a cer a com o poleg ar e aliso u a c arta para anal isar a ordem ur gente do rei, le ndo as pal avr as c om descre nça cresc ente. N ão haveri a f i m p a r a a l o u c u r a d e R o b e r t ? E f a z e r aquilo e m s e u nome e ra pôr s al s obre a ferid a. - Que os d euses sejam b on dos os - pr ag uejo u. - O que o Se nhor Eddard q uer di zer - a nu nci o u Lorde Renl y - é que Sua Gr aça nos d á ins truções par a organiz arm o s um grande torneio em honra de sua nom eaç ão c o mo Mão do Rei. - Qua nto ? - per gu n tou bra nd ame nte Mindinho. Ned leu a r espost a da c art a. - Quare nta mil dr agões de our o para o campe ão. Vinte mil par a o homem que ficar em se gundo lugar , outr os vinte para o ve nced or d a luta cor po a c orpo e dez mil p ara o ve nced or da c om pet ição de ar queir os. - Nove nta mil peç as de ouro - Mindi nho s us pirou. - E não de vemos ne gligenci ar os outros c ustos. R obert certame nte vai querer um banque te prodi gios o. Ist o signific a cozi nheiros, car pinteiros, criadas, cantores, mala baris tas, bo b os... - Bobo s temos com fartur a - disse L o rde Renl y. O Grande Meistre Pycelle olhou par a Mindi nho e perg un to u: - O tesour o su p or ta a desp esa ?


- Que tesouro? - responde u Mindinho com um trejeito d e boc a. - Poupe-me as toli ces, Meistre. Sabe tão bem c omo e u que o tesour o está vazio há anos. Terei de pe dir dinheiro empres tado. Não há dúvida de que os L annister o adi antar ão. Deve mos atualme nte ao Se nhor T ywin cerc a de t rês milh ões de drag ões, que im p ortam mais ce m mil? Ned fico u estu pefato. - E s t á d i z e n d o q u e a C o r o a t e m u m a d í v i d a d e três milhões d e p e ç a s d e o u r o ? - A C o r o a t e m u m a d í v i d a d e m a i s d e seis m i l h õ e s d e peças de ouro, Lorde St ark. Os Lannis-te r são os maiore s cred ores, mas t am bém pe dimos e mpres tado a Lorde Tyrell, ao B anc o de Ferro de Br avos e a vári os c artéis mercantis de Tyrosh. Nos últimos tempos, tive de me virar par a a Fé. O Alto Sept ão é pior no re gat eio d o q ue um pesc ad o r de Dor ne. Ned esta va ho rro rizado. - Aerys Tar garyen deixou um tes our o re pleto de our o. Como pôde deixar que isto acontecesse? Mindinho e nc olh eu os ombr os. - O mestre da moe da arra nja o di n heiro. O rei e a Mão o gast am. - N ão pos s o ac r ed i tar que J on A rr yn te nh a permitid o que Robert red uzisse o reino à miséri a exclam o u Ned em tom ac al or ad o. O Grande Meistr e Pycelle ab a no u a gra nde c abeç a calv a, faze nd o tili ntar as co rrent es sua ve mente. - Lorde Arr yn era um h omem pr udente, mas temo que Su a Graç a ne m sempre es cute con selhos sá bios.


- Meu real irmão ador a t orneios e festins - diss e Renly Bar atheon -, e abomina aquilo a que cham a "cont ar co bres". - Falarei com Sua Graça - disse Ned . - Este torneio é uma e xtr avag ânci a q ue o rei no nã o pode p ag ar. - Fale com ele c om o quiser - disse Lorde Re nl y -, mas aind a assi m tem os de fazer noss os pl a nos. - Outro dia - dis se Ned. Tal vez de for ma muito incisiva, a jul gar pelos olh ares que lhe lançaram. Teria de se recordar de que j á não estava em Winterfell, onde ape nas o rei tinha uma posi ção superi or; ali, não er a mais que o primeir o entre iguais. - Perdoe m-me, senhor es - disse, num t om mais suave. - Estou f atigad o. Paremos por hoje e recomece mos quando esti vermos mais de scansados não pedi u o conse ntimento d os out ros; em vez diss o, levantou-se abruptam ente, f ez a todos um ace no e dirigiu-s e à port a. Lá fora, c av ale iros e carr oç as ai nd a jorr av a m através dos portões do cas telo, e o páti o er a um c aos de lama, caval os e home ns grit and o. O r ei aind a não chegar a, dissera m-lhe. Desde os feios aconteci ment os no Tridente, os Stark e sua comitiva tinh am viaj ad o bem à frente da coluna principal, a fim de se distanciare m dos Lannis ter e da crescent e tens ão. Robert quase nã o fora visto; di zia- se que viaj ava na enor me c asa rol ante, mais f requenteme nte bê bad o que s óbrio. Se as sim era, pod eria estar vári as hor as atras ado, mas mesmo as sim chegaria ce do de mais par a a vont ade d e Ned. Bast ava-l he olhar o rost o d e Sa nsa p ara se ntir a rai va retor cer-se de n ov o d entr o


de si. A última quinze na da viage m fora mi serável. Sansa c ulpava A rya e dizia-lhe que devi a ter sido Nymeria a morrer. E Arya estava desnort eada depois de saber o que havi a ac ont ecido ao seu ami go, filh o do car niceir o. Sansa chorava até ador mecer, Arya cismava e m silêncio o dia inteir o, e Eddar d Star k sonhava com um inferno gelad o r eservado par a os Star k de Wi nterfe ll. Atraves sou o pát io exteri or e passou s ob uma port a levadi ça, entr ando no recint o do castelo, e, quando se enc aminh ava p ara aquilo que pe nsava ser a Torre da Mão, Mi ndinh o a parec eu à su a f rente. - Está indo na direção errada, Stark. Venha comigo. Hesitante, Ne d o seguiu. Mindi nho o le vo u até um a torre, desceram uma escada, atravess aram um peque no páti o r ebai xado e c ami nharam por um corredor de serto onde ar mad ur as vazi as m ont avam guard a ao l ongo das paredes. E ram relíquias dos Targar ye n, de aço negr o c om e scamas de dragão coro an do os elmo s, ag ora poeir ent o s e esqu ecido s. - Este não é o c aminho para os meus a pose nt os disse Ned. - E eu disse que era? Estou levando você para as masm orras, a fim de abrir s ua gar ganta e selar se u cadáver atr ás de uma parede - responde u Mindi nho, com a voz sarc ástica. - Não temos tempo para ist o, Star k. S ua es pos a o esper a. - Que jo go está jo g and o, Min dinho ? Cately n est á em Winterfell, a ce nt enas de lég uas da qui. - Ah ! - os ol h os ci nz a- e s ver de ad os d e M i nd i nh o cintilar am de di vertime nto. - E ntã o pare ce que


alg uém co nse gui u realizar uma es pa ntos a imita çã o . Pela última ve z, venha. Ou, ent ão, n ão, e eu a gu ard o p ara mim - e apres so u-se a d escer a es cad a. Ne d o se gui u, de sconfi ad o, pe rg un tand o a si mes mo se aq uele dia chegari a a o fim. Não ti nha ne nhum gos to por a que l as int rig as, m as c omeç av a a comp reen der q ue para um h ome m como Mindi nh o elas era m natur ai s como o ar qu e r espira va. Onde os de gr aus terminavam havi a uma pes ad a port a de c arvalho e ferro. Pet yr Baelish ergue u a tranc a e, com um gesto, indicou a Ne d que a atravess asse. Saíram para o aver melhado brilho do crepú scul o, n um a falésia r och os a b em acim a do ri o. - Estamos f ora do c astelo - Ne d o bser vo u. - Você é um home m difícil de eng a nar, St ark - disse Mindinho c om um sorriso afet ado. - F oi o s ol q ue o d e nu ncio u, ou t erá sido o cé u? Sig ame. Há vãos aber tos na rocha. Tente não cair par a a morte, Catelyn nunc a com pree nde ria - e, ao acabar de fal ar, est ava para l á d o limite da falési a, des cend o depress a como um macac o. Ned estud ou por um moment o a face d a escarpa, e depoi s o seguiu m ais devagar. Os nichos estavam lá, tal como Mindinho prome tera, ranh uras pouc o prof undas, invisí veis na part e de bai xo, a me nos que se soubess e onde procur á-las. O rio esprai ava-se a uma longa e entonte cedora distânci a lá embaixo. Ned manteve o r osto pressi onad o contr a a r ocha e tentou não olhar par a bai xo com mais frequê ncia d o que er a o bri gad o. Quando chegou fi nalme nte ao fim da d escida e a uma estreita trilha e nl amea da q ue se g ui a pela mar gem do


rio, Mindi nho espreguiç ava-se encost ad o a uma rocha, c omendo u ma maçã, já no c a roço. - E stá fica nd o velh o e le nt o, St ark - disse, atir a ndo a maçã, c om i ndifer ença, par a a c orre nte, - Não im por ta, o re sto d o caminho é a caval o - ti nh a dois c avalos à e spera. N ed m ont ou e tr ot ou atrás dele, ao l ongo da trilha, par a a ci d ade. Por fim, Baelish puxou as réde as na fr ente de um edifício que ameaçava r uir, de três andares de madeir a, com ja nelas que brilhavam com a luz das lâmpad as no lus c o-fusc o que se apr ofundava. Os sons de música e risos r udes abri am cami nho até o exterior e flut uavam por sobre a água. A o lad o da port a, uma or nament ada candei a de azei te os cilava na pont a de um a corre nte pesada, com um globo d e cristal de chu mb o vermelho. N e d St a r k d es m o nt o u f u r i os o . - Um bordel - disse , e agar rou Mindi nho pel o om br o, obri gand o-o a s e virar. - V ocê me trouxe por t odo este cami nho p ar a chega rmos a u m bord el. - Su a esp os a está l á dentr o - disse Mi ndinh o. Aquil o foi o i ns ul to fin al. - Brand on foi dem asiado ge ntil c om você - dis se Ned, e atir ou o hom enz inho c ontr a uma pare de e e nc ostou o punh al em s ua gar ganta, sob a peque na bar bicha po ntia gu da. - S e n h o r , não - g r i t o u u m a v o z . - E l e f a l a a v e r d a d e ou viram- se p asso s vind o n aq uel a di reção. Ned rodopiou, de faca na m ão, en quant o um velh o homem de cabel os br anc os c orri a par a eles. Estava vestido com tecido gr osseiro m arrom e a pele m ole sob o queixo os cil ava enquanto c or ria.


- Isto não é ass unt o seu - come çou Ned a dizer, mas então, de repe nte , ele reconheceu o homem. Abaixou o p u n h a l , e s p a n t a d o . - Sor Rodrik? R o d r i k C a s s e i c o n f i r m o u c o m a cabeça.. - Su a senh ora o e sp era lá em ci ma. Ned senti a-se p er dido. - C ately n est á mes mo aq ui? Ist o nã o é um a e stra nha brinc adeir a de M i ndinh o? - em bai n hou a f aca. - Bem g ostari a que foss e, S ta rk - Min dinh o respo nde u. - Sig a -me, e tente pare cer um po uco m ai s deva sso e um po u co men os com o a Mão do Rei. Nã o será bo m que seja reco nheci do. Tal vez p os sa acarici ar um peit o o u o utro, s ó de pass age m. Entrar a m p or u ma sal a de est ar ch eia, on de u m a mulher g ord a ca nta va c a nções o bscen as e n qua nt o bo nitas mulhere s vestid as c om ca misas d e linh o e pa nos de se da c ol orida se e nco sta vam n os am ante s e eram emb ala das em se us c olos. N ing uém prest ou a meno r at enç ão e m Ned. Sor Rod rik espe ro u em bai x o enq ua nt o Mindin ho o lev ou até o terceiro and ar p o r um cor redo r e atr avés de um a p ort a. Lá dentr o, Catel yn es per av a. Gri tou qu an do o vi u, corre u p ara ele e o a braç ou f erozm ente. - M inha senhor a - s ussurr o u Ned, as s ombr ad o. - Ah, muito be m - disse Mindinh o, fechand o a port a . - C onseg ui u reco n hecê-la. - Temi que nunc a mais chegasse, se nhor - s ussurrou ela, apertada c ontra se u peito. - Petyr tem me trazido notíci as. Contou-me os problemas c om Ar ya e o jov em prí nci p e. Como est ão mi nhas me nin as?


- Ambas d e luto, e cheias de rai va - Ned respond eu. Cat, não com preendo. O que f az e m Port o Real ? O que ac ontece u? - perguntou Ned à mulher. - E Bran? E l e e s t á . . . - morto f o i a p a l a v r a q u e v e i o a o s s e u s lábi os, mas não p odia di zê-la. - É Bran, mas não como pe nsa - di sse Catelyn. Ne d nã o com pree ndi a. - Então com o? Por que está aqui, meu amor ? Que lug ar é este ? - Precisame nte o que parece - disse Mindinh o, deixand o-se cair num a c adeir a per to d a j anel a. - U m bord el. Conseg ue imagi nar um l ugar onde seria menos provável encontr ar uma Catelyn Tull y? - ele sorriu. - Por ac aso, s ou dono deste estabelecime nto específic o, port anto, foi fácil fazer as combi naç õe s necess árias. Desejo m uito impe dir que os Lanniste r saib am d a pre sen ça de Cat aq ui em Porto Re al. - Por quê? - perguntou Ned. Ent ão viu a s mãos d a espos a, o mod o estranh o com o se dobravam, as cicatrizes de um vermelho cru, a rigidez dos últim os dois ded os d a mão es querda. - Você foi feri da tomou as mãos nas suas e as virou. - Deuses, estes gol pes são profundos... uma fe rida de um a espada ou... c omo aco nte ceu isto, mi nha se nhora ? Catelyn tirou o punhal de de nt ro do mant o e o coloc ou na mã o d ele, - Esta lâmi na estava des tinada a abrir a gargant a de B r an e derramar seu s angue. A cabe ç a de Ned ergue u-se abr u pta mente. - M as... que m... p o r que f aria... Ela po us ou um de do em se us lá bios.


- Deixe-me c ont ar tudo, m eu amor. Será m ais rápid o assim. Escut e. E ele escutou- a c ont ar-lhe tud o, d o incên dio n a torr e da bi bliotec a a Varys, aos g u arda s e ao M indinh o. E qu an do termi no u, Eddard St ark se nto u-se at ord oa d o junt o da mes a, co m o pu nhal n a mã o. O lobo d e Bran salv ara a vid a do rapa z, pen so u so mbria mente. Q ue tinha Jo n dito q ua ndo e nco ntr ara m os ca chorro s na n e v e ? Seus filhos estão destinados a ficar com esta ninhada, senhor. E e l e m a t a r a a l o b a d e S a n s a , p o r q u ê ? S e r i a culp a o q ue senti a? O u me do ? Se os de uses tinha m envi ad o a queles lob os, q ue lo uc ura ele tinh a feit o? D o lor osam ente, Ned forço u os pensa ment os a regress ar a o p unh al e à quil o q ue si gnific av a. - O punh al do Due nde - repe tiu. Não fazia se ntido. Sua m ão dobrou- se em t orno d o suave c abo de osso d e dr agão, e el e bat e u c om a l âm i na na m e s a, sentindo- a morder a madeira. Estava ali zom band o dele. - P or que ia querer T yrion Lannister ver Bran morto ? O ra pa z n unc a lhe fez ne nh um mal. - Será que os St ar k não têm mais que neve e ntre as orelhas? - per guntou Mindi nho. - O Duende nunca teria agid o sozi nh o. Ned ergueu-se e pôs-se a percorr er o quart o de pont a a p ont a. - Se a r ainha t eve um papel nist o ou, que os d euses não o permit am, o próprio rei... não, não acredit arei nisso - mas, mesmo enquanto dizia as palavras, recordou-s e daquela manhã gelada nas terr as acide ntad as, e da conversa de Robert a res peit o de envi ar ass assin os contr at ados no e n calço d a pri ncesa


Targar ye n. Lembrou-se do filho pequeno de Rhaegar, da r uína verm elha de seu crâni o e do m od o como o rei lhe virara as cost as, tal com o fizera na sala de audiê ncias de Darr y não há m uito t empo. Ainda ouvi a Sans a s uplic ando, como Lyann a suplic ara t emp os atrás. - O m a i s c e r t o é q u e o r e i não s o u b e s s e - d i s s e Mindinho. - N ão seria a primeir a vez. Nos so bom Robert te m com o prátic a fechar os olhos a cois as que prefere nã o ver. Ned não ti nha res post a par a aquil o . O rosto d o filho do car niceiro passou na frent e dos olhos, quas e rachad o em dois, e de pois o rei não disser a uma pal avr a. Sua ca beça latejava. Mindinh o caminhou vagar osament e até a mesa e arranc ou a f aca da madeir a. - Seja como f or, a acus aç ão constit ui traiç ão. Acus e o rei e dançar á c om Ilyn Payne a nt es de as palavr as aca bar em de s air de sua boca. A rainha... se f orem a p r e s e n t a d a s p r o v a s e se for possível fazer c o m q u e Robert e scute, e n tão, t alvez... - T emos pr ov as - di sse Ned, - Temos o p unhal. - Isto? -Min dinho atiro u o p u nh al ao ar c om o s e nad a f osse. - Um belo bo cad o de aç o, mas cort a par a dois lad os, se nh o r . O Duende sem dúvi da jur ar á q u e a lâmin a foi perdida o u rou ba da en qu a n to perm anece ram e m Win terfell e, c om o se u a ssassi no morto, n ão h aver á ni ng uém pa ra d esmenti-l o - atiro u a faca co m ligeir eza a Ned. - Meu conselh o é deix a r isto cair no ri o e e sque cer q ue cheg o u a ser f orja da. N ed o olhou c om fri eza.


- Senh or B ael i sh , sou um St ark d e Wi nt erf el l. M eu filho jaz aleijado, talvez à morte. Estaria morto, e Catelyn também, não f osse uma cria de lobo que encontr amos na neve. Se re almente acr edita que pos s o e s q ue c ê- l o, é u m t ol o t ã o gr a nd e h oj e c om o qu an do em pu nh o u um a es pad a co n tra me u irmã o. - Talvez seja um t olo, St ark... e, no e nta nto, ai nda aqui estou, ao p asso que se u irmão se desf az em pó na s ua se p ul tur a gel ad a j á h á cato rze an os. Se está assim t ão ansi oso para apod recer ao se u l ado, longe de mim diss uadi-lo, mas preferiria não ser incluí do na fest a, m uito o brig ado. - Você seri a o último homem que e u i ncluiria vol unt aria mente e m qu alq uer fes ta , Lorde Baelish. - Fere-me pr of und amente - Mi ndinho pous ou a mã o no c or ação. - P or minha parte, sempre os c onsi derei, aos St ark, ge nte cansati va, mas Cat parece ter se afeiçoad o a você, por m otivos que não s o u capaz d e entender. Te ntar ei mantê-lo vi vo par a o bem del a. Uma t arefa de t olo, ad mito, m as nunc a f ui capaz de recus ar o que que r que f osse à su a e spos a. - Contei a Pet yr nossas sus peit as sobre a da morte de Jon Arryn - disse Catelyn. - Ele pr ometeu aj udá-lo a desco brir a verd ade. Não er a uma no tícia que agr ad asse a Edd ard Star k, mas e ra bem verdade que neces sitavam de ajud a, e há muit o tem po Mindinho f ora qu ase como um irm ão par a Cat. Não s eria a primeir a vez que Ned era forçado a faz er caus a com um com um homem qu e desprez av a.


- M ui t o b em - dis s e, e nf i a nd o o pu nh al n o c i nt o. Você fal ou d e Var ys. O eu nuc o sa be de tud o isto ? - Não d os me us l ábios - disse Catelyn, - Você não s e casou c om um a t ont a, Edd ard St a rk, Mas V arys te m maneir as de descobrir cois as que ne nhum outro homem poderi a conhecer. Ele possui al gum a arte negr a, Ned, s ou c ap az de ju rar. - Ele tem espi ões, isto é bem c onhe cido - disse Ned, desv aloriz an do o assu nto, - É mais que isso - insistiu Catel yn. - S or Rodrik falou c om Sor Ar on Sant agar e m c omple to s egre do, e de algum mod o a Aranha fic ou sabendo da c onvers a. Aquele ho mem m e dá med o. Mindinho s orriu. - Deixe Lorde V arys comigo, querid a senhor a. Se m e permitir uma pe que na obsceni dade. E que lugar me lh or p ara uma q ue este ? T enh o os ba g os do homem na palma da mão - mostrou os dedos em taça, sorrindo. - Ou os teria, c as o ele fosse um homem e tivesse bagos. C ompr eend a que, se destapar mos a gai ola, os páss ar os começ ar ão a cant ar, e ele não gost aria de t al coisa. Em seu lugar , me preocuparia mais co m os La nn ister e men os co m o eu nuc o. Ned não precisava que Mindinho lhe dissesse aquilo. Recordava o dia em que Arya f ora e ncontr ada, o o l h a r n o r o s t o d a r a i n h a q u a n d o d i s s e r a : Nós temos um lobo, t ã o s u a v e e c a l m a . P e n s a v a n o r a p a z M y c a h , na m orte súbit a d e Jon Arryn, na queda de B ran, no velho e l ouc o Aer ys Tar gar yen a morrer no ch ão d e sua s ala do tr on o, enquant o o s a ngue de s ua vid a secav a n um a lâmi na d our ad a.


- Minha senhora - disse, vir and o-se par a Catel yn - , nad a m ais pode fazer aqui. Desejo que r egres se a Winterfell i mediatame nte. Se houve um assas sino, pode rá haver out ros. Quem quer que tenh a ord enado a morte de Bran saber á em breve que o rapaz ainda vive. - Eu tinha es pera nça de ver as menin as... - disse Cately n. - Isso seria muit o insens at o - interve io Mindinho. - A Fortalez a Vermelha está chei a de olhos curi osos, e as crianç as f alam. - Ele fala a verdade, me u amor - disse-lhe Ned, abr açand o-a. - Leve Sor Rodrik e corra para Winterfell. Eu vigiarei as me ninas. Vá par a cas a, par a ju nto d e n os sos filhos, e m ant enha- os a s alv o. - Como quiser, senhor - C atelyn ergueu o rosto, e Ne d a beijou. Os dedos estr opiad os dela apert ar am as costas dele com uma for ça desesperada, com o que par a mantê-l o para sem pre a s alvo no abri go de s eus braç os. - O senhor e a se nhora vão que r e r um quarto? perguntou Mindinho. - Devo pre veni-l o, Star k, de que por aqui ger alment e cobramos por esse ti po de coisa. - Um mome nto a sós, é tud o o que peço - Catel yn pediu. - Muito bem - Mind inho seguiu na d ireção d a port a. Sejam bre ves. J á passa da hor a em que a Mão e eu deverí amos est ar de volt a ao cast elo par a que noss a ausê nci a n ão sej a not ad a.


Catelyn foi até junt o dele e tomou-lhe as mãos nas suas. - Não me es qu ecer ei da su a ajud a, Petyr. Q ua nd o seus homens vier am me cham ar, não sa bi a se m e levavam até um a migo ou um i nimi go. Enc ontr ei em você m ais que um amigo. Enc on trei o irmão que julga v a per dido. Petyr Baelish sor riu. - Sou desesperadamente se ntime ntal, querida senh or a. E melh or n ão co ntar a ni n gué m. P as sei anos c onve nce nd o a c orte de que sou m al vad o e cruel, e detestaria ver t od o esse árduo t rabalho dar em na da. Ned nã o acre di tou num a p ala v r a da quil o, mas mant eve a v oz del icada pa ra dize r: - T em tam bém o s meus agr ade c imento s, Lorde Baelish. - O r a , aí e s t á u m t e s o u r o - d i s s e M i n d i n h o , s a i n d o d o qu arto. Depois de a porta se fech ar, Ned vir ou-se para a mulher. - Quando chegar e m cas a, m ande uma me nsagem a Heiman Tallhart e Galbart Glove r com o meu selo. Eles deve m recrutar cem ar queiros c ad a um e fortificar o Fosso Cailin. Duzentos ar queiros determinados po d em defe nder a Garganta contr a um exércit o. Diga a Lorde Manderl y que de ve f ort alec er e repar ar t odas as s uas defes as no Por to Br anco e assegur ar-se de que el as estão be m guar necid as de homens. E a par tir deste mome nt o quer o que um a vigilâ nci a c uida dosa seja ma nt i da s obre Theo n


Greyjoy. Se houver guerra, teremos grande necessid ade d a fr ota de s eu pai. - Guerra? - o m e d o e r a c l a r o n o r o s t o d e C a t e l y n . - Não chegará a tal ponto - prometeu-lhe Ned, rezando para que fosse verdade, e voltou a t om á-la nos br aços. - Os Lannister não têm mis ericór dia perante a fr aquez a, como Aer ys Targar ye n apre nde u par a sua des gr aç a, mas não se atreverão a at acar o Norte sem estarem suste ntados por tod o o poder do reino, e não o terão. D evo re presentar este embuste como se nada houvesse de errado. Recorde o que me trouxe aqui, me u amor. Se enc ontrar provas de que os Lan nister assa ssinar am Jo n Arry n... Senti u Catel yn t remer em seus braços. Suas mãos marcadas o agar r aram. - Se isso ac onte cer - disse -, que aconte cerá, me u amor ? Ned sabi a que ess a era a p arte m ais perig osa. - Toda a j ustiça parte do rei - disse-lhe. - Quando eu s o u b e r a v e r d a d e , t e r e i d e i r t e r c o m R o b e r t - e rezar para que seja o homem que penso que é, c o n c l u i u e m s i l ê n c i o , e não o homem em que temo que se tenha transformado. Tyrion - Está certo de que é precis o ir tão perg un to u-lhe o S enhor Com an da nt e. - M ais que cert o, Lorde Morm ont - respo nde u - Meu irmão Jaime deve querer saber o aco ntece u. Pode pens ar que me c onvenc eu negr o.

cedo? Tyri on . que me a vestir


- B em gos t ar i a d e f az ê -l o. - M or m ont p e g ou u m a pinç a de car ang uejo e a rachou com a mão. Apes ar de velho, o Senhor Comandante aind a poss uía a força de um urso. - E um homem as tuto, T yrion. Home ns assim f az em falta na M ural ha. Tyrion s orri u. - Então percorrer e i os Se te Reinos em busca de anões e os enviarei par a cá, Lorde Morm ont enquant o os outr os riam, ele sugou a c arne de uma perna de car anguejo e apanhou outra. Os caranguejos tinham chegad o de Atalai aleste naquel a manh ã, acondici onad os num bar ril de ne ve, e er am sucule nt os. Sor Alliser Thor n e foi o únic o ho mem da mesa qu e seque r esb oço u u m sorriso. - O Lannist er zom b a de n ós. - Só do senh or, Sor Alliser - disse Tyrion. Daquela vez, o ri s o que percorreu a me sa ti nh a um tom nerv os o e incert o. Os olhos negr os d e Thorne fixar am -se em Tyrion c om repu gn â ncia. - Tem um a lí ng ua ous ad a par a alguém que é me nos da m etad e de um homem. Talvez devês semos visit ar o p átio ju nt os, o s enhor e e u. - Por quê ? - perg unt ou Tyri on. - Os carang uejo s estão aqui. O coment ário arr anc ou m ais gargalhadas. Sor Alliser levantou-se, com a boca transformad a num a li nh a apert ad a. - Venha fa zer seus gracej os co m o a ç o n a mã o. Tyrion olho u com intenç ão pa ra a mão dir eita.


- O r a , m a s e u tenho a ç o n a m ã o , S o r A l l i s e r , e m b o r a pareç a ser um g arfo para c aranguejos. Fazemos um duelo? - salt ou par a cima da c adeira e pôs-se a espet ar o peit o de Thorne com o minúsc ulo garf o. Um rugid o de gar galhadas encheu a sala. Boc ad os d e caranguejo voaram da boc a do Se nhor Comand ant e quando come çou a arfar e e ngas gar -se, Até se u cor vo se juntou, gr asnando s onoram ente de seu pol eiro por c i m a d a j a n e l a . "Duelo! Duelo! Duelo!" Sor Alliser Thorne saiu d a sala t ão rigid amente que pareci a ter um p u nhal esp etad o no traseiro. Mormont ai nd a arquejava, t ent ando recuper ar o fôleg o. Tyrio n de u-lhe um a p alma d a n as cost as. - Os despoj os vã o para o v enc e d or - gritou. Reivindic o a p orç ão de c ar an guej os de Thorne. Po r fim, o Senho r C oman da nte ven ceu o e ng as go. - É um homem m aldos o para pr ovocar Sor Alliser assim - ce nsur ou. Tyrion s ent ou-s e e bebe u um tra go de vinh o. - Se um homem pinta um al vo no pei to, de ve es perar que mais cedo o u mais t arde al gué m lhe envie uma seta. J á vi m ort os com mais h umo r que Sor Alliser. - Não é verdade - objetou o Senhor Int endente, Bowen Marsh, um homem redondo e vermelho como uma romã. - Devi a ouvir os nomes engr aç ados que d á aos r ap azes que tr eina. Tyrion ou vir a al g uns d esses n omes engr aç ados. - Apost o que os r apazes tam bém tê m alg uns nomes par a ele - res po ndeu. - Arranquem o gelo dos olh os, meus b ons se nhor es. S or Alliser de via estar lim pa nd o


o esterc o das c avalariç as, não treinando s eus jove ns guerr eiros, - A Patrulha nã o t em falta de moços de estre bari a resmungou Lorde Mormont. - Parece ser tud o o que nos mandam n os di as que correm. Moç os de estrebaria, gat unos e viol adores. Sor Alliser é um cavaleiro ungi do, um dos poucos a vestir o ne gr o desde que so u C oma nd ante. Luto u br a vame nte e m Porto Re al. - Do lad o errado - coment ou secam ente Sor Je remy Rykker. - E u sei, pois est ava lá nas amei as ao seu lado. Tywi n Lannister nos de u uma excele nte escolha. Ves tir o negr o ou ver nos sas cabeç as espet adas e m espigões antes do fim do dia. N ão prete ndo ofe nder, Tyrion. - Não me ofe nde, Sor Jerem y. Meu pai g ost a muit o de cabeças es petadas e m espi gõe s , espe cialmente as de pess oas que o aborrecer am d e algum mod o. E u m rosto t ão nobre c omo o seu, bem, s em dúvida que vo s imagi nou a de corar a m uralha da c idade por cim a do Portão do Rei. Penso que teria ficado impressi onante l á em cima. - Obrigado - responde u Sor Je remy com um sorris o sard ônic o. Senh or Coma nd an te Mormo nt limp ou a gar ga nta. - Por vezes temo que Sor Alliser tenha visto a v e r d a d e e m v o c ê , T y r i o n . Realmente z o m b a d e n ó s e do n oss o n obre ob jetivo aq ui. Tyrion e nc olheu o s ombr os. - Todos precisa mos ser alvo de zom bari a de ve z em qu an do, Se nhor Mormont, p a ra evit ar qu e


comecem os a nos levar muit o a s ério. Mais vinh o, por f av or - este nd eu a t aça. Enq ua nto R ykker a enchia, B owen Marsh disse: - T em uma gra nd e sede p ara um hom em pe que no. - Ah, eu penso que o Senho r Tyrion é um homem bast ant e gr and e - disse Meistre Aemon d a pont a mais dist ante d a mesa. F alou em voz baixa, m as todos os grandes oficiais da Patrulha da Noite se calar am par a o u vir melhor o que o ancião ti nha a dizer. - Penso que é um gigante que surgi u entre nós, aq ui n o fim d o m und o. Tyrion r espondeu com delic adez a. - Já m e ch am ar a m d e m ui t as c oi s as , s e nh or , m as gigante r a r a m e n t e f o i u m a d e l a s . - Apesar disso - dis se Meistre Aemon enquant o se us olhos enevoados, brancos como o leite, se desloc avam par a o r osto de Tyrion -, pe nso que é verd ade. Por um a vez na v ida Tyri on Lannis ter deu por si se m pal avr as. Só conseguiu i nclinar a c abeça polid ame nte e diz er: - É bast ante am á ve l, Meistre Aemon. O ce g o s or ri u. E r a um h om e nz i nh o m i nús c ul o, enrugado e sem c abel o, enc olhido sob o pes o de ce m anos, de tal modo que seu c olar de meistre, com elos de muit os metais, pe ndi a solto em torno da gar ganta. -Já me cham ara m de muitas c ois as, senhor - disse -, m a s amável r a r a m e n t e f o i u m a d e l a s - d a q u e l a v e z f o i o pr ópri o Tyri on a liderar as g ar galhadas. Muito m ais t arde, depois de ac abar o assunt o séri o que era c omer e de os o utros s e terem reti rado ,


Mormont ofereceu a Tyrion um a cadeira junto à lareira e uma ta ça de uma be bida aquecid a tão forte que lhe tr ou xe lá grimas aos olhos. - A estrada d o rei pode ser peri gos a aqui tã o a norte disse-lhe o Se nh or Coman da nte e n qua nto bebi am. - Tenho Jyc k e M orrec - respondeu Tyrion -, e Yoren volt a p ara o sul. - Yoren é apenas um homem. A Patr ulha os escolt ar á até Winte rfell - anunciou Mormont num tom que nã o admiti a disc ussão. - Três homens de ver ão ser suficien tes. - Se insiste, se nhor - disse Tyrion. - Pode envi ar o jovem Snow. Ele ficar á feliz por ter a ch ance d e rever os irmãos. Mormont fez um olhar se vero por cima d a es pess a bar ba ci nze nta. - Snow? Ah, o bastard o St ark. Pe nso que não. O s jove ns precis am e squec er d a vida que dei xaram para trás, os irmãos, as mães e iss o tudo. Um a visit a à casa s ó irá agit ar sentime ntos que é melhor deixar em paz. Eu sei de stas cois as. Meus próprios pare ntes de sangue... minha irmã M arge governa ag or a a Ilh a d os U rs os, de sd e a de s o nr a de m e u fi lh o. T e nh o sobri nh os q ue nu nca vi - be be u u m tra go. - A l ém disso, Jon Snow não passa de um rapaz. O senhor terá três es pa das fortes p ar a ma ntê -lo a s alv o. - Sua pre ocupação toca-me, Senhor Mormont - a forte be bida est ava deixando Tyri on ale gre, m as não tão bêbado que n ão compree nde sse que o Velho Urso queri a q ual q uer c oisa del e. - E spero que po ssa pa gar s ua bo nd ad e.


- E pode - disse M ormont se m ceri môni a. - Sua irmã senta- se ao lado do rei. Se u ir mão é um gr ande cavaleiro e se u pai, o senh or mais poder os o dos Set e Reinos. F ale-lhes em noss o nome. Diga-lhes das noss as nece ssidades. O senhor as viu c om seus pró prios olhos. A Patrulha d a Noite está m orre ndo, Nossa f orça é agora d e menos de mil homens. Seisce ntos aqui, duze ntos na T orre Sombria, ainda menos em Atalaialeste, e só um escasso terço des ses homens está pr onto par a o combate. A Mur alha tem um com prime nto de cem léguas. Pense niss o. Se um ata que vier, tenho três homens para defender cada légu a de m uralh a. - T rês e um terç o - disse Tyrio n co m um b ocejo. Morm o nt par eceu quase nã o ou vi-l o. O velho aq ueci a as mã os no fogo. - Enviei Benje n St ark em b usc a do filho de Yoh n Royce, perdi do em sua primeir a patr ulha. O r apaz Royce e stava ve rde como a relva de verão, mas insistiu na h onr a de seu próprio comando, dize ndo que lhe era devido enquant o cavaleiro. Não desejei ofender o senh or seu pai e cedi. Enviei- o com d ois homens que c onsiderava dos melhores que tem os na Patrulha. Mas f ui tolo. "Tolo", c o n c o r d o u o c o r v o . T y r i o n e r g u e u o o l h a r . O páss aro o olh ou c om aquel es olhos ne gros, pequenos e b r i l h a n t e s , a g i t a n d o a s a s a s . "Tolo", g r i t o u d e n o v o . Sem dú vi d a, o v el h o M ormon t l evari a a mal se el e esga nas se a cri atu ra. Uma pen a. O Senh or Com andante não par eceu re parar na irritante a ve.


- Gared er a quase tão velho como e u, e ti nha mais anos de Muralh a - prossegui u -, mas parece que abj urou e fugiu. Nunca teria acr editad o, c om ele, não, mas Lorde Eddard me e nviou s ua c abe ça d e Winterfell. De R oyce não h á notíc i as. Um desert or e dois homens perdidos, e agor a t ambé m Ben St ar k está d esapare cido - s oltou um profund o s uspir o. Q u e m h e i d e e n v i a r e m b u s c a dele? D e n t r o d e d o i s anos f arei set ent a. Estou dem asiado velho e cansado par a o fardo que carrego, m as, s e o entre gar, quem o assumi rá? Alliser Thorne? B owen Marsh? Teria d e ser tão ce go como Meistre Aem on para não ver o que eles s ã o . A P a t r u l h a d a N o i t e t r a n s f o r m o u - s e n u m exércit o de r apazes rabuge ntos e velhos c ansad os. Além dos h ome ns que partilhar am noss a m esa e sta noite, te nho talvez vi nte que sabem ler, e ai nda menos capazes de pe nsar, planej ar ou lider ar. Ant es a Patr ulha passava os ver ões construindo, e c ada Senh or Comand ante erguia a mur alha mais alta d o que a enc ontrar a. Agor a, t ud o o qu e podem os f azer é ficar vi vos. Tyrion perce beu que o outro est ava sendo mortal mente sincero. Senti u-se vagame nte embaraçado pelo velho. Lorde Morm ont pass ara boa parte da vid a na Muralha e precisava acr editar que aq ueles a n os teria m alg um sig nific a do. - Prometo que o rei ouvirá falar de suas necessidades - disse Tyrion gr ave m ente -, e també m falarei ao me u pai e ao m eu i rmão Jaime - e fal aria. Tyrion Lannister era um homem de palavra. Deixou o resto p or dizer; que o Rei Ro ber t o ign orari a, q ue


Lorde Tywin pe rguntari a s e ele tinha pe rdido o juízo, e que Jaim e se limitaria a ri r. - É jovem, Tyrion - dis se Morm ont. - Quant os inver no s já vi u? Encolheu os ombr os. - Oito, n ove. N ão me lembr o. - E todos eles curt os. - É como disse, senhor - Tyrion nascera no auge do inver no, um inve rno terrí vel e cruel que os meistre s diziam que dur ara três anos, mas suas m ais antigas memóri as era m de prima ver a, - Quando eu er a rapaz, di zia-se que um longo verão signific ava sem pr e que um longo i n ver no se seguiria. E s t e v e r ã o d u r o u nove anos, T y r i o n , e u m d é c i m o chegar á em br eve . Pense niss o. - Q u a n d o eu e r a r a p a z - r e s p o n d e u T y r i o n - , m i n h a ama de leite me disse que um d ia, se os homens fossem bons, os deuses dari am ao mundo um ver ão sem fim. Talvez tenhamos sido melhores do que pens ávam os, e talvez te nha chegado, enfi m, o Grand e Verã o - sorriu. O Senhor C oma nd ante nã o p arece u divertid o. - N ão é t ol o o b as t ant e p ar a ac r e di t ar ni s s o, s e nh or . Os dias já est ão fi cand o mais curtos . Não pode have r dúvi da, Aemon recebe u cartas da Cidadela, com descobert as que e stão d e ac or do com as dele própri o. O fim do verão olha-nos nos olhos - Mormont estende u um braço e agarrou c om forç a a mão de T y r i o n . - T e m d e fazê-los c o m p r e e n d e r . D i g o - l h e , senhor, a escuridão est á chegando. Há cois as selva ge ns n os b o sques, l ob os gi ga ntes, ma mute s e


ursos- da- ne ve do tamanho de aur oques, e vi form as mais esc uras nos meus s onhos. - Nos se us sonhos - re peti u Tyrion, pens ando na urgê nci a que tinha de outra bebi da fort e. Mormont estav a c omplet am ente s urdo à v oz d o a nã o. - Os pesc adores da região de Atal aiale ste vislum br aram caminhantes brancos na c osta. Daq uela vez, Tyri on nã o co nse gui u segur ar a lí ng u a. - O s pe sc a dor es d e L ani s p or t o vis l um br am s e r ei as com fre quê ncia. - Denys Mallist er escreve que o povo d a mont anha está se desloc and o para o s ul, pas sand o pela T orre Som bria em m aio r númer o que em qual que r époc a. E s t ã o f u g i n d o , s e n h o r . . . , m a s f u g i n d o d e quê? - L o r d e Mormont diri giu-se à janela e olhou per dido par a a noite. - Estes meus ossos são velh os, Lannister, mas nunca se ntir am u m arrepi o com o este. Conte ao rei o q u e e u d i g o , r o g o - l h e . O i n v e r n o está p a r a c h e g a r , e quando a Longa Noite cair, s ó a Patrulha d a Noite se ergue rá e ntre o reino e a escuridão que vem d o norte. Que os deuses nos pr otejam a t od os se não estiverm os pr ep ar ados. - Q u e o s d e u s e s p r o t e j a m a mim s e n ã o d o r m i r u m pouco est a noite . Yoren est á decidido a parti r ao raiar do dia - T yrion pôs-se em pé, s onolent o do vinho e f arto de destinos l úgubres. - Agr adeç o-lhe por todas as cortesias que me conce deu, Senh or Mormo nt. - Di ga-l h es, T yri o n. Di ga-l h es e os faça acr edita r. Este é todo o agr adecime nt o de que preci so asso bio u e o cor v o foi emp oleira r- se em seu om bro.


Mormont sorri u e deu à ave algum milho que tirou do b olso, e f oi as s im que T yrio n o d eixo u. Estav a um fri o de rachar lá f ora. Bem enrol ad o n a s espess as peles, Tyrion Lanni ster calçou as l uvas e acenou c om a ca beça para os pobre s desgraç ad os que mont avam guarda à porta da Torre do Comand ant e . Atraves sou o pá tio na direç ão de seus apose ntos na Torre do Rei, caminhand o o m a is vivame nte que suas pernas permitiam. Agl omerad os de ne ve rangiam de baixo dos seus pés quando as bot a s que bravam a c rosta not urna, e a res pir aç ão condens ava-se à sua fre nte como um est andart e. Enfiou as mãos e mbai xo dos br aço s e cami nhou mai s depress a, rez ando para que M orrec se tivesse lembrado de aquecer sua cam a com tijolos que ntes retirad os da l arei ra. Por trás da T orre do Rei, a Mur al ha cintil ava à l uz da lua, ime nsa e misteriosa. Tyrion parou por um mome nto para ol há-la. As per nas doíam -lhe do frio e da pr essa. De repe nte, foi assaltado por uma estranha loucura, um d esejo de olh ar m ais um a vez par a l á d o fi m d o mundo. Seri a s ua úl tima oport unidade, pe nsou; no dia se gui nte iri a s e dirigir para o s ul, e não era capaz de imagi nar um moti vo para al gum a vez quere r regress ar àquel a gelad a des olação. A Torre do Rei estava à s ua frente, com sua promessa de cal or e de uma c am a suave, mas Tyri on de u por si cami nhando par a lá dela, na direção d a vasta paliç ad a de cor clara d a Mur alha. Uma esc ada de madeir a s ubi a a face s ul, anc orada em en ormes v igas r ude mente talhad as, qu e


penet ravam pr of und ame nte no ge lo. Ziguezagueava par a um l ado e par a o outr o, escalando a mur alh a tão t ort a c omo um rel âmpago. Os irmãos negr os tinham-lhe assegurad o que era muito m ais f orte do que pareci a, mas as per nas de Tyrion estavam c om cãibr as de mais para que sequer pensasse em s ubi-l a. Em vez diss o, dirigiu-se à gaiol a de ferro junt o ao poç o, pul ou par a dent ro dela e puxou co m f orça a cord a do si no, tr ê s sacu didela s rápi das. Teve de espe rar o que parece u ser uma eter nidade ali, at rás das grades e c om a M uralha nas cost as. Tempo suficie nte par a c omeç ar a i nterrog ar-se s obr e o motivo que o levava a f azer aquilo. Estava quas e decidido a esquecer aquele súbi to caprich o e ir par a a cama quando a gai ola deu um solavanc o e começou a su bir. Subiu le ntamente, a princípi o com paradas e arranques, mas depoi s mais s uaveme nte. O chão desaparec eu por bai xo de se us pés , a gai ola oscilou e T yr i on e nr ol ou as m ãos nas gr ad e s d e f er r o. Conse gui a senti r o frio do met al mesmo através das luvas. Percebe u, com aprovaç ão, que Morre c tinha um f ogo a ar der no seu quart o, mas a t orre do Senh or Comandante es tava às esc uras. Pare cia que o Velho Urso tinh a mais juíz o d o q ue ele. E, então, vi u-se acima das t orr es, aind a subi nd o lentamente. Castelo Ne gro j azia abai xo de si, deline ado ao lua r. Dali, via-se bem como er a um lug ar rígido e vazio, c om suas torres sem janel as, muros em r uínas, pátios e ntupid os de pedra partid a. Mais longe, consegui a ver as luzes da Vila da Toup eira, um p e que no p o vo ado a meia légu a par a


sul ao longo da estrada do rei, e aqui e ali a cintilaç ão brilhante d o luar na água onde córre gos gelados desciam dos cumes das mont anh as e cortavam as pl anícies. O rest o do mund o er a um vazi o des olado de colinas varridas pel o vent o e camp os pedre gos o s manch ado s de n eve. - Sete i nfernos, é o anão - di sse por fim uma voz gross a atr ás dele, e a jaul a par ou com um salt o súbit o e ali fic o u, oscilando l ent amente de um l ado par a o outr o, co m as cord as r an gen do. - Tragam-no, r aios - ouvi u-se um grunhido e um sonoro gemid o de madeira quand o a gaio la desliz ou de lad o e a mur al ha aparece u por bai xo de seus pés . Tyrion esper ou que a oscilaçã o par asse antes de abrir a porta d a gaiol a e saltar par a o gelo. Uma pes ad a figur a vestida de negr o apoiava-se no guinch o, enquant o um a se gunda segurava a gaiol a com um a mão enl uvad a. Seus rost os est avam co bert os por lenços de l ã que deixavam ver apenas os olh os, e estavam inchados com as camad as de lã e c ouro que trazia m, ne gro s o bre ne gr o. - E o que o senh or há de querer a est a hora da n oite ? - perg un to u o ho mem do gui ncho. - Um último olhar . Os homens tr oca r am olhar es carr a n cudo s. - Olhe o que qui se r - disse o outr o. - Tenha ape nas cuidado par a nã o cair, homenzi nho. O Velho Urso exigiri a a noss a pele - uma peque na cabana d e madeir a er gui a-s e sob a grande grua. Tyrion vi u o pálid o brilho de um br aseiro e sentiu um a bre ve lufad a de c alor qu and o o s ho mens d o g uinch o


abrir am a port a e voltar am par a dentr o. E então ficou s ó. Estav a um fri o medo nho ali e m cima, e o ven to o puxava pel a ro upa c om o um a am ante i nsis tente. O topo d a M uralh a era m ais l ar go qu e a mai or parte da estrad a d o r ei, e Tyrion não ti nha med o de c air, embora se us pés escorre gasse m mai s do que gostari a. Os irmãos e spalhavam pedr a esmag ad a pel as pass age ns, mas o peso de i nc ont áve is passos derreti a a Muralha nesses locais e o gel o parecia crescer em torno d o casc alho, engoli ndo-o, até que o c aminho ficava de novo l iso e era tempo de esmagar mais pedr a. Mesmo assim, n ão er a n ad a co m que T yrio n n ã o conse guisse lidar. Olhou para leste e oeste, para a Muralha que se estendi a à s ua f rente, um a vast a estrad a branc a sem princí pio nem fim e um abism o escur o de am bos os l ados. Oeste, decidi u, por nenh um moti vo em especial, e c ome çou a and ar nessa dire ção, segui ndo o caminh o mais pr óxim o d a beira nort e, o nde o casc alho pareci a mais re cente. As bochechas nuas estavam c oradas de frio, e as pernas quei xava m-se mais alto a cad a passo, mas Tyrion as ignorou. O vento r odop iava em seu redor, a brit a r angia sob as botas, enquanto à fre nte a fi t a bra nca se gui a o s cont or nos das col inas, erguendo-se cada vez mais alta, at é se pe rder par a lá do horizonte ocidental. Pas sou por uma maci ça catapult a, alt a c omo uma m uralh a de cidad e, com a base pr of und ame nte afund ad a na Muralha. O braço lanç ad or tinha sido rem ovid o par a p assa r p o r


repar os, e de pois fora es que cido; jazia ali c om o um brin que do parti d o, meio em b utido no gelo. Do lad o de lá da cata pult a, uma v oz a b afad a s olto u um grit o. - Quem ve m lá ? Alto! Tyrion pa ro u. - Se fizer alt o por muito tem po, c ongelo, Jon - disse , enquant o uma hi rsuta silhuet a clara desliz ava em silêncio na s ua direção e f arej ava suas pele s. - Ol á, Fanta sma. Jon Snow se aproximou. Pare c ia mai or e mais pesado de ntro de suas cam ad as de peles e couro e com o c ap uz d o m ant o so bre o rost o . - Lannis ter - disse, soltando o lenç o par a descobrir a boc a. - Este é o último lugar em que esper aria vê-l o carregava uma p esad a lança c om ponta de ferr o, maior que ele, e d a ci ntur a pendia uma espad a num a bai nha de cour o. Atravess ad o no peito tr azia um cintila nte c orn o d e guerr a negr o co m faix as de prat a . - E st e é o úl ti m o l ug ar o nd e e s pe r ar i a s er vi s t o admiti u Tyri on. - Fui tom ad o por um c a pricho. Se tocar no F ant asm a, ele arr anc a mi nha mão ? - C omigo aq ui, n ão - Jo n asse g uro u. Tyrion coç ou o l obo br anco atrás das orelhas. Os olhos vermelh os obser var am-no, impassí veis. O animal já lhe chegava ao peit o. Mais um ano e Tyrion ti nha a sensação som bria de que teria de o l h a r p a r a cima s e q u i s e s s e v e r s u a c a b e ç a . - Que faz aqui est a noite? - perguntou. - Além d e con gelar s eus órgãos viris? - Calhou-me a guarda not urna - Jon res pond eu. Outra v ez. Sor Al liser trato u ge ntil mente de arr a njar


as cois as de modo que o c oman dant e da guarda ganhasse um especial i nteresse por mim. Parece pens ar que, se me manti verem ac ordado met ade da noite, acabarei dormi ndo durant e o exercíci o da manh ã. Até a gor a o tenho desa po nt ado. Tyrion mostr ou o s dentes. - E o Fant asma j á apre nde u a f azer mala baris mos ? - Não - disse Jon, sorrind o -, mas hoje de manhã Grenn conse gui u ague ntar Halde r, e Pyp j á não deixa cair a esp ad a ta ntas vezes c o mo dei xa va. -Pyp? - Seu ver dadeiro nome é P ypar. O rapaz pe queno c om gra ndes orelhas. Ele me viu tr aba lhand o com Gr enn e me pediu aj ud a. Thorne nunca sequer lhe ti nha mostr ado a m ane ira cert a de se gurar um a es pada virou-se par a olh ar o norte. - Te nho uma milha de Muralha par a g ua rdar. Cami nha c o migo ? - Se cami nhar dev a gar - diss e Tyrio n . - O c om a nd ant e d a g uar d a d i z qu e d e v o c am i nh ar par a im pedir o sangue de congelar, mas nunca me disse n ada s ob re a velocid ade. Puseram- se a c aminho, c om Fant asma caminhand o ao l a do d e J on c o mo um a s ombr a b ranc a. - Parto de ma nh ã - disse Tyrio n. - E u sei - Jo n s oa v a estra nham ente triste. - Pretend o parar e m Winterfell a caminho do s ul. Se houver alguma mens agem que deseje que e u entre gue... - Diga a R ob b q u e vo u com an dar a Patrulha d a Noite e mantê-l o a salvo, e, p orta nto ele bem pode


apre nder a tric ot ar co m as moç as e dar a es pa da a Mikken para que a derret a para f er raduras. - Seu ir mão é m aior que eu - disse Tyrion com um a gar galhada. - Declino a entrega de qual que r mens agem qu e p o ssa me m atar. - Rickon perguntar á quando volt o para c asa. Tente lhe explic ar ond e estou, se for possí vel, Diga-lhe que pode ficar c om todas as mi nhas coisas e nquant o e u estiver f ora; ele g ostar á diss o, Tyrion pensou que as pe ssoas pareciam estar lhe pedin do m uit as c oisas na quel e dia. - Sa be q ue pode p ô r tudo is so num a carta, nã o sa be ? - Rickon ainda não s abe ler. B ran... - par ou subit ame nte. - N ão s ei que mens agem enviar a Bran. Ajude-o, Tyrion. - Que aj uda eu p oderia lhe dar? N ão s ou ne nhum meistre par a lhe ate nuar as dores. Não poss uo feitiços p ar a lhe devol ver a s per nas. - Ajudo u-me qu an d o precis ei - disse Jo n S now. - Não te d ei n ada - Tyrion r esp on deu . - Palavr as. - Nesse cas o, dê também a Bran as s uas pal avr as. - Você está pe dindo a um c oxo que e nsi ne um aleijado a danç ar - Tyrion retr ucou. - Por mais sincera que s eja a lição, é pr ováv el que o res ultad o seja grotesco. Mas sei o que é am ar um irmão, Lor d e Snow. Dar ei a Bran qualquer peque na aj ud a que esteja a o me u alc ance. - Obrigado, me u se nhor de Lannister - Jon tir ou a luva e oferece u a mão nua. - Amigo. Tyrion de u por si estranh ame nte como vid o.


- A mai or parte d e meus pare ntes são bastar dos disse com um s orriso c ans ado - , mas você é o primeir o que ti ve como ami go - de scalçou uma l uva com os de ntes e agarr ou a m ã o de Snow, c ar ne contr a carne. A m ão do r ap az era fir me e f orte. Depois de volt ar a calçar a luva, J on Snow virou-se abr upt ame nte e caminhou até o bai xo e gelad o par apeit o norte. Para lá dele a Muralh a caía brusc ame nte, h avia apenas escuridão e regi ões selvage ns. Tyrio n o segui u, e lado a lado erguer am-se no limite d o m un do. A Patrulha d a Noite não permitia que a fl orest a se apr oxim asse m ais de uma milha da face norte da muralh a. Os matagais de pau-fer ro, árvores s e nti n e l as e c a r val h os q ue e m out r os t e m pos cresceram ali, havi a sécul os tinham sido abatid os par a criar um a vast a extens ão de terreno aberto através do qual nenh um inimi go poderi a esperar pass ar sem ser visto. Tyrion ouvira dizer que em outr os loc ais da Muralha, entre as três fortalez as, a floresta vier a se apr oxim ando ao l ongo d as déc adas , que h avi a locais onde sentinel as cinza-es ver dead as e represeir os esbr anquiçados tinh am criado raízes à sombr a da própri a Muralha, mas C astelo Negro tinha um pr odi gios o a petite por le nha, e ali a floresta aind a era mantida af astada pelos mach ados dos irmãos ne gros. Mas nunca est ava longe. D ali, Tyri on podi a vê-l a, as árvores escuras que se er gui am para l á d a exte nsão de terreno aberto, com o uma segund a muralha constr uíd a em paralelo com a primeira, uma muralha de n oite. Po ucos machad os tinha m al gum a vez sido


b r a n d i d o s naquela f l o r e s t a n e g r a , o n d e a t é o l u a r n ã o conse guia pe netr ar o antigo em aranhado de r aízes, espinh os e ram os. Lá onde as árvores cresci am enor mes, e os patrulheir os diziam que pareci am meditar e que não c onheci am os home ns. P ouco surpr eendi a que a Patrulha d a Noite lhe chamasse a Floresta Ass omb rada. Ali, em pé, olhando par a toda aquela esc uridão sem um fogo a arder onde quer que f osse, com o ve nt o sopr ando e o frio que er a como uma lanç a na s entranhas, Tyrion Lannist er se ntiu que quase podi a acredit ar na c onversa s obre os Outros, os ini migos d a noi t e . S uas br i nc ad e i r as s ob r e gr am e q ui ns e snarksji. n ã o l h e p a r e c i a m a s s i m t ã o e n g r a ç a d a s . - Meu tio est á ali - disse Jon Snow em voz baixa, inclinand o a lanç a enquanto m antinha os olhos fi xo s na esc uridão. - Na primei ra noite em que me mandar am aqui par a cim a, pe nse i que Ti o Benjen volt aria, e u seria o primeir o a vê-lo e sopraria o corno. Mas ele não vei o. Nem ne ssa noite nem em nenh uma d as outr as. - Dê-lhe tempo - di sse Tyrio n. Longe, par a nort e, um lobo começou a uivar. Outr a voz juntou-se a o chamado, e de pois uma terc eira. Fanta sma i nclin o u a c abeç a e esc ut ou. - Se ele não regr essar - pr omete u Jon Snow -, Fantasma e e u vamos à sua proc u ra - pous ou a m ão na c abe ça d o lo bo giga nte. - Acredito - di sse Tyrion, mas o q ue pe ns ou f oi: E quem irá à sua procura? E s t r e m e c e u .


Ary a Seu pai tinh a estad o outra vez lutand o c om o conselh o. Arya podia ver isto em seu r osto quand o chegou à mes a, de novo atr asad o, c omo ac ont ecia tant as vezes. O primeir o pr ato, uma espes sa s opa sua ve f eita com abóbor a, j á f ora le vad o quando Ned Star k entrou a pass os lar gos no Pequeno Sal ão. Chamavam- no as sim par a distingui-lo d o Grande Sal ão, onde o rei podi a d ar um banquet e para mil pessoas, mas er a uma sala c ompr ida com um tet o alto e abobad ad o, e lugar para duz entos convi vas às mesas. - Senh or - disse Jory quando Stark entrou. Pôs-se de pé, e o rest o d a guard a ergue u-se com ele. Tod os os homens usavam mant os novos, de pesad a lã cinz ent a com um a bord a d e cetim branc o. Uma mão feita de prat a batida se agarr ava às dobr as de lã dos mant os e marca va q uem os usa va c omo m embr o da gu ard a pessoal d a Mão. Eram s ó cinquent a, e a m aior part e dos b an cos e nc ont rav a-se v azi a. - Sente m-se - disse Eddard St ar k. - Vejo que começ aram se m mim. Agrad a-me ver que ainda h á alg uns home ns de bom-sens o nest a cidad e - fez sinal par a a refeiç ão prosseguir. Os criados c omeç aram a trazer bandej as de costel etas assadas em cr osta de alho e er vas. - Dizem no páti o que vam os t er um tornei o, se nhor disse J ory qu an do volt ou a se se nta r.


- Dizem que virão cavaleiros de todo o rei no par a ajust a e par a um banquet e em honr a da voss a nome aç ão c omo M ão d o Rei. Arya perc ebe u que se u pai não e stava m uit o feliz com a quil o. - Também dizem que ist o é a últim a cois a no mund o que eu des ejari a? - o pai falou, e os olhos de Sans a se esbugalh aram. - U m torneio - s u s p i r o u . E s t a v a s e n t a d a e n t r e S e p t ã Mordane e Je yne Poole, o mais longe de Arya que podi a sem rece ber uma re prime nda do pai. - Vão nos deixa r ir, pai ? - C onh e c e os m e us s e nt i m e nt os , Sa ns a. P ar e c e q ue devo organizar os jogos d e Robert e fingir est ar honrado c om eles. Isso não quer dizer que de va subm eter minh as filhas a est a lo uc ura. - A h , por favor - S a n s a p e d i u . - E u q u e r o v e r . Sept ã Mord an e in terveio. - A Princesa Myrc ella estar á lá, se nhor, e é mais nova que a Se nho ra Sansa. Num gr ande e vent o com o este, esper a-se a presenç a de todas as senhoras da corte, e com o o tornei o é em vossa honr a, parec erá estranh o se v oss a família nã o co mp arecer. O pai fez uma e x p ressão s entid a. - Suponho que sim. Muito bem, arranjarei um l ugar par a v ocê, S a nsa - ele olhou pa ra A r ya. - Para as duas. - Não me i nteress a o estúpido t orne io deles - disse Arya. Sabi a que Príncipe Joffre y estaria lá, e el a o odia va. Sa nsa er g ueu a ca beça.


- S e r á u m e v e n t o magnífico. N ã o a q u e r e r ã o l á . Um relâm pa go de ira sur gi u no r ost o do pai. - Basta, S a n s a . D i g a m a i s u m a c o i s a d e s s a s e m u d o de i déi a. E sto u cans ad o de mor te desta guerr a sem fim que vocês d ua s travam. São irm ãs. Esper o que se comp ortem com o tal, ente ndid o? Sansa mordeu o lábi o e anui u. Ar ya baixou o rost o par a o pr at o e fit ou- o, c arranc uda. Se ntia l ágri mas a arder-lhe nos olhos. E sf r egou- as , z angada, determinada a não chor ar. O único som que s e ouvi a era o r uíd o das f acas e d os garfos. - Por fav or, descul pem-me - an u nc io u o pai à mes a . - Descobri que esta noite t enho pou co apetite - e s ai u do sal ão. Depois de ele par tir, Sans a trocou segred os c omjeyne Poole. Ao f undo da mes a, Jory riu de um a pi ad a e Hullen c omeç ou a falar de c aval os. - Seu c aval o d e gue rra, preste ate nção, po de não se r o melhor par a a j usta. Não é a mesma c oisa, ah, não , nã o é d e t od o a m e s m a c oi s a - os h om e ns ti nh a m ouvido t udo aqui lo antes; Desm ond, Jacks e o filho de Hulle n, Harwin, grit aram-lhe e m uníss ono que s e calasse, e P orther pediu mais vi nho . Ninguém fal ou com Arya. Ela não se importou. Gostava das c oisas assim. Teri a feito suas refeiç ões sozinh a no quarto se lhe fosse permitido. E por vezes permiti am, quando o pai tinha de jantar com o rei, com al gum senh or ou com os e nvi ados deste ou daquele l ugar. No resto do te mpo, comi am no se u solar, só ele, el a e Sans a. Era e ntão que Ar ya mai s sentia saudades dos ir mãos. Q ueria provoc ar Br an, brinc ar com o b e bê Ric ko n e faz er com q ue Ro bb lhe


sorrisse. Queri a que Jon despenteasse seu c abelo, chamasse- a de "irmãzinh a" e ac aba sse as fras es j unt o com ela. M as e stavam t odos longe. Não tinha ningué m, a não s er Sans a, e Sans a nem se quer lhe fala va, a não ser que o p ai a obri ga sse. Em Winterfell, quase met ade das refeições era feita no Sal ão Gr and e . O pai cost um ava dize r que um senhor de via c omer com se us homens se esper ava conse rvá-los. Arya um di a o ouviu diz er a R obb: "Conheça os homens que o seguem e deixe que eles o conheç am. Não peça aos se us homens para m orrer por um estr anh o" . Em Winterfell tivera sem pre um lug ar extr a à s ua mesa, e tod os os dias um homem diferente era convidado a j unt ar-s e a eles. Uma noite seria Vayon Poole e a cohversa vers aria sobre cobre s, reservas de pão e criad os. Na pró xima seria Mikken, e o pai o ouviria disc orrer sobre ar mad ur as e espadas, quão quente de via e star uma forj a e qual a melhor maneira de temperar o aç o. Outr o di a seri a Hullen com s ua infinit a conversa de c avalos, ou Sept ão Chayle da bibli oteca, ou Jor y, ou Sor R odrik, ou at é a V e l h a A m a c o m s u as h i s t ór i as . Não h avi a nada que Arya m ais gostass e do que s e sentar à mes a do pai e ouvi-los f alar. També m gost ava de ouvir os homens que se sentavam nos banc os : c aval e i r os l i vres , d ur os c om o c our o; cavaleiros cort esãos; j ove ns e ousados esc udeir os; velhos e grisalhos home ns de armas. Cost um ava atirar-lhes bolas de ne ve e ajud á-l os a r oubar tor ta s da cozi nha. As mulheres desses h omens ofere ciam-lhe boli nhos de avei a e trigo e el a inve ntava nom es para os seus bebê s e br inca va c om se us f ilhos de mon stros


e donzel as, ou busca do tes our o, ou ve m ao m eu castelo. Gor do Tom c ostumava c hama-lá de "Arya Debai xo dos Pés", porque dizia que er a aí que ela estava sempre. Gos tava m uito m a is desse nome d o que d e "Ary a Car a de Ca val o". Mas isso era Wi nterfell, a um mundo de distânci a, e agora tudo m udara. Aquel a era a primeira vez que tinham comi do uma ref eição com os homens desde a chegad a a Porto Real. E Arya detestou. Agora detestava o s om de suas vozes, o modo como riam, as h i s tóri as que c o ntav am. T i nh a m s i do se us ami go s, ti nh a se senti d o segur a j unt o del es, mas ago ra sa bi a que iss o er a uma mentir a. Tinham deixado a r ainh a matar Lady, e iss o já for a suficientemente horrí vel, mas de pois o Cão de Caça e ncontrara Myc ah. Je yn e Poole disser a a Arya que o ti nha c ortado em t ant os pe daços que o d evol ver am ao carniceiro de ntr o de um s aco, e a princípi o o pobre homem pe nsara tratar- se de um porc o mort o. E ningué m le vantar a u m a v o z o u p u x a r a u m a e s p a d a o u qualquer coisa, n e m Harwin, que f alava s empr e tão ousad ame nte, nem Alyn, que i a ser um caval eiro, ou Jor y, que er a capit ão da gu ard a . Nem mesmo se u pai. - Ele era me u amigo - s ussurr ou Arya para o prat o, tão baixo que ningué m a ouvi u. Suas cost eletas estavam ali, int ocadas, esfriando, uma fina pelíc ula de gordura soli dificand o por bai xo del as no pr at o. Arya as olhou e se senti u mal. Afastou a c adeir a da mesa. - Perdão, onde pe nsa que vai, j ovem se nhor a? perg un to u Se ptã Morda ne.


- Não te nho f ome - Arya s enti a dificuldade em lembrar-se da boa educ aç ão. - Com a sua lice nç a recitou rigid ame nte. - N ão a t em - di s s e a s e p t ã. - Q uas e nã o t o c o u n a comid a. Se nte-se e limpe o pra to. - Limpe-o você! - antes que alguém pud esse detê-la, Arya s alt ou para a port a e nquanto os homens riam e Sept ã Mor dane a chamava sonor amente, c om a voz cada vez m ais agu da. Gordo Tom esta va em seu pos to, guard ando a porta da Tor re da Mã o. Pestanejou ao ver Arya c orrer em sua dir eçã o p or e ntre os grit os da s eptã. - Ora bem, pe que na, es per a - co meço u a diz er , estende nd o a m ã o, m as Ar ya de slizou entr e s uas pern as e preci pit ou-se pel os de gra us em es piral da torre acim a, c o m os pés mart eland o a pedr a enq ua nt o Gord o Tom b ufa va d e irritaçã o atr ás del a . S eu q uart o er a o únic o lu ga r de qu e Arya g osta va e m t odo o Port o R eal , e aq uilo de q ue g os tav a mais nele e ra a por ta, uma maciça pr anch a d e carv alho esc ur o c om ref orços ne g ros de ferr o. Qu a ndo ba tia a q uela p ort a e deixav a c ai r a pes ad a tra n ca, nin g uém p odi a e ntrar n aquele qu arto, nem Se p tã Mord ane, ne m Gordo Tom, ne m Sans a, nem J or y, nem o Cão de C a ç a , ninguém! E a b a t i a . Depois de a tranca c air, Arya sentiu- se por fim suficienteme nte em seguranç a para chorar. F oi at é o assent o j unt o à janel a e se nt ou- se ali, f ungand o, odiand o t odos e a si mesm a acim a de tudo. Era t ud o culpa s ua, t ud o o que acontecer a. Era o que Sansa dizia, e Je yne ta mbém. Gordo T om esta v a a bate nd o à por ta.


- M enina Ar ya, o q ue se p ass a? - g r it ou. - E stá aí? - Não! - g r i t o u A r y a . A s b a t i d a s p a r a r a m . U m mome nto mais tarde, ouvi u- o part ir. Gord o Tom era sempre f ácil de e nga nar. Arya dirigi u-se à arca que tinha aos pés d a cam a. Ajoelhou-se, abriu o tampo e c omeçou a tir ar a roupa l á de dentro com am bas as mãos, agarr ando a mãos- cheias seda, cetim, vel ud o e l ã e atir ando- as ao chão. Ali est ava, no f undo d a arca, ond e a es conder a. Arya er gueu- a quase com ter nur a e tirou a estreita lâmin a de s ua bai nha. Agulha. Pensou de novo e m Mycah e os olh os se e ncheram de lágrim as. Cul pa s ua, c ulpa s ua, culpa s ua. Se nunc a lhe tivesse pedi do par a bri ncar d e espad as c om ela.. . Ouvi u-se uma bat ida n a p ort a, mai s alta que ant es. - Arya Stark, abra esta porta imediatamente, está ouvindo? A r y a rodo pio u, c om Ag ulha n a mã o. - É melhor não entrar aqui! - preveniu, e gol peou o ar feroz ment e. - A Mão ouvirá falar disto! - e n c o l e r i z o u - s e S e p t ã Morda ne. - Não me im po rta - grito u Ary a. - Vá embor a. - Vai se arrepender deste comportamento insolente, senhorita, é uma promessa que lhe faço - A r y a e s c u t o u à port a até ouvir o som dos passos da septã se afast ando. Regress ou p ara j u nto da ja nela, co m Ag ulh a na mã o , e olhou o páti o l á embaixo. Se ao menos f osse c apaz de escal ar c omo Bran, pens o u; sa iria pel a ja nel a e


desceria a t orre, fugiri a d aquele lugar horrí vel, de Sansa, d a Septã Mordane e do Príncipe Joffre y, de todos eles. R oubaria algum a com ida d a cozinha e levari a A gulha, bot as boas e um mant o que nte . Poderia enc ontrar Nymeri a nos bos que s selvagens abaixo do Tridente e regressariam junt as a Winterfell, ou correriam até Jon, na M uralha. Deu por si a desejar que Jon esti vesse ali consigo. Então talvez nã o se se nt isse tão s ó. Um suave toque na port a atr ás d ela fê-la vir ar as costas à ja nela e aos se us s onh os d e fug a. - Arya - soou a v oz do pai. - Abre a port a. Temos d e con vers ar. Arya atr avesso u o qu arto e erg ue u a tran ca. O pa i estav a s ó. P areci a m ais tris te que za ng ad o, f azen d o Arya se ntir-se ain da pi or. - Posso e ntrar? - Arya fez que sim com a c abeça e depoi s abaixou os olhos, envergonhada. O pai fe chou a p orta. - De que m é essa es pa da? - Minha - Arya quase esquec era que tinha Agulha na mão. - Dê-me. Reluta nteme nte, Arya e ntre go u a e spad a, perguntando a s i mesma se volt aria algum di a a peg ar nel a. O pai a fez rodar sob a luz, examinand o ambos os l ados da l âmina. Test ou a ponta com o pole gar. - Uma lâmi na de e spad achim - disse, - No entanto, parec e-me que conheç o est a m arca de fabricante. Isto é tr abalho de Mikken. Arya nã o podia m entir p ara o p ai. Abai xo u os olhos.


Lorde Edd ard St a rk sus piro u. - Minha filha de nove anos é arm ada pel a minh a pró pria forj a, e e u nad a sei sobre o as sunto. Esper ase que a Mão do Rei gover ne os Sete Rei nos, mas parec e que nem sequer é capaz de governar sua cas a. Como foi que se tornou d ona de uma espada, Ar ya? Onde ar ra njo u ist o? Arya trinc ou o l ábio e nada disse. Não queri a t rair Jon, ne m mesm o ao pai. De poi s d e algum tem po, o pai diss e: - Não me pare ce que real mente i mport e - olhou gra veme nte par a a espad a que ti nh a nas m ãos. - Isto não é brinque do par a um a criança, e muito me nos par a uma me ni na. Q ue diria Septã Mord ane s e sou besse que e stá brinc an do c om es pad as? - N ã o e s t a v a brincando - i n s i s t i u A r y a . - O d e i o S e p t ã Morda ne. - Basta - a voz do pai soou sec a e dura. - A se ptã não faz mais que o seu dever, embora os de uses bem saibam que voc ê o transf ormou num a lut a par a a pobre mulher. Sua mãe e e u a encarregamos da tarefa im p ossível de tra nsfor mar vo cê nu ma d am a. - E u n ã o quero s e r u m a d a m a ! - i n f l a m o u - s e A r y a . - Devia partir este brinque do no j oel ho aqui e agor a, e pôr fim a este di spar ate. - Agulha não se partiria - disse Arya em desafio, mas a v oz trai u-lhe as pal avr as. - Ah, até tem nom e? - o pai s uspir ou. - Ah, Arya. Tem um ardor dentr o de si, c rianç a. Meu pai costumava chamá-lo " o s angue do lobo". Lyann a tinha um pou co, e meu irmã o Bra ndo n, mais q ue u m


pouco. Este le vou am bos a uma s epult ur a prec oce Arya ouvi u tristeza na voz dele; não er a fre que nt e falar d o pai ou do irm ão e da irmã q ue ti nham morrido antes de ela nas cer. - Lyanna p oderi a ter usad o um a espad a, se o senhor meu pai o tivesse permitido. V ocê por vez es me faz lembr ar dela. Até se pare ce com ela. - L yan na e r a l i nd a - d is se A ry a, s ur pr e s a. T od os diziam aquil o. E não er a algo q ue algum a vez se dissesse de Ar ya. - Pois er a - c onc ordou Eddar d Stark -, linda e vol unt arios a, e morta antes d o tempo - ergue u a espada, se gur ou- a entre os d ois. - Arya, o que pe ns a fazer c om esta... Agulh a? Q uem planeja es petar nela? Sua irmã? Sept ã Mord ane ? Sabe al gum a cois a sobre e sgrim a? Apen as c ons eg ui u lem brar -se d a li ção q ue Jo n lh e dera. - Espeta-se com a p ont a a guç ad a - pr oferiu. O pai res po nde u c om um a g ar galha da. - Esta é a essê nci a da cois a, s up onh o . Arya q ueria desespera dame nte ex pl icar, par a que ele compreendesse. - Eu estava te nt ando apre nder, m as ... - seus olhos s e e nch er am d e l ágr i m as. - P e di a M yc ah par a pratic ar c omi go - o desgost o assaltou- a por inteir o. V i r o u - s e , t r e m e n d o : - E u lhe pedi - c h o r o u . - F o i culp a minh a, f ui e u... De súbit o, os br aços do pai est avam à sua volt a. Abraç ou- a ge ntil mente quand o ela se virou e desat ou a sol uçar c o ntra s eu peit o.


- Não, querid a - murmurou. - Chore pelo seu ami go, mas nunc a se culpe. Você não matou o filho do carnic eiro. Esse assassi nato c abe ao Cão de Caç a, a ele e à mulher cr uel que se rve. - Odeio-os - confidenci ou Ar ya, com o rosto vermelho, f unga ndo. - Ao Cão, à rainha, ao rei e ao P r í n c i p e J o f f r e y . O d e i o - o s t o d o s . J o f f r e y mentiu, a s coisas não se passaram com o ele disse. E também o d e i o S a n s a . E l a s e lembrava, s ó m e n t i u p a r a q u e Joff re y g ost asse d ela. - Todos me ntim os - seu pai disse. - Ou será que pens a mesmo que acreditei que N ymeri a t inha fu gid o? Arya c oro u. - Jor y pr omete u n ã o co ntar, - Jor y m anteve a promess a - confirm ou o p ai c om u m sorriso. - Há ce rtas c oisas que não preciso que me sejam dit as. Até um ce go podia ve r que a quel e lobo nu nca t e deix aria de bo a v o ntad e. - T i vemos de at i ra r-lh e pedras - di sse el a em tom infeliz. - Eu lhe disse para f ugir, par a ser livre, que já não a queri a. Havi a outr os lobos com quem brinc ar, ouví amos seu ui vo, e Jory disse que os bos que s est avam cheios de c aça, e ela teria ve ad os par a c açar. Mas ela c onti nuava a nos se guir, e por fim tivemos que lhe atir ar pedras. Atingi-a d uas vezes. Ela geme u e olhou par a mim, e eu me senti tão enver gonhad a , mas foi a c ois a certa a f azer, não foi? A rai nha a te ria mat ad o. - Foi a cois a certa a fazer - seu pai responde u. - E mesmo a mentir a foi... algo com c erta ho nra - Ned coloc ou A gulha d e lado p ar a abr a çar Ary a. Depoi s ,


volt ou a pe gar a arma e c ami nhou até a ja nela, onde par ou por um moment o, olhand o p ara além d o páti o. Quando se volto u vir and o, ti nha os olhos pe ns ativos . Sent ou-se no asse nto de janel a, c om Agulh a pousad a nas c o xas. - A rya, se nte-se. T enh o de te ntar l h e explic ar al gu mas coisas. Ela emp oleiro u-se ansi osam ente na beira d a c ama. - Você é nova dem ais par a ser sobr ecarre gad a com todos os meus pr oblemas - disse -lhe -, mas tam bém é uma Sta rk de Wi nterfell. Co nhece o n osso lem a. - O inver no es tá pa ra cheg ar - suss ur rou Ar ya. - Os tempos d uros e cruéis - disse o pai. - Provamolos no Trid ente, filha, e quando Bran cai u. V oc ê nasce u dur ante o longo ve rão, queri da, e nunc a conhece u nad a al ém dele, m as agora o in ver no es tá realme nte chegando. Lem bra-se do selo d a nos sa Casa, Arya? - O lobo gi gante - ela responde u, pens ando em N ymer i a. A br aç ou os j oe l h os c ont r a o pe it o, de repen te sentind o medo. - Deixe-me lhe diz er algum as c oisas acerc a de l obos, filha. Quand o as neves caem e os vent os brancos sopr am, o lobo solitári o morre , mas a alc atei a sobre vi ve. O ver ão é o tempo d as picui nhas. No inver no, de vem os prote ger uns aos o utros, nos mant er que ntes, partilhar nossas forças. P or iss o, s e tiver d e odiar, Arya, odeie aqueles que real mente nos quere m f azer m al . Septã M ordane é um a boa m ulher , e Sans a... Sans a é sua irmã. Vocês podem se r tão d i f e r e nte s c o m o o Sol e a L u a, m as o m e s m o s an g ue corre pelos s eus c oraç ões. V ocê pr e cisa del a, tal c om o


ela preci sa de você... e eu pr eciso de am bas, que os deuses m e pr otej am. Seu p ai so av a tão ca nsa do q ue fe z Arya sentir -s e triste. - Eu não od eio Sa nsa - disse-lhe. - Não de verd ade era só m eia me nti ra. - Não quero assust á-la, mas també m não vou me ntir. Viemos para um lugar escur o e perigoso, filha. Isto não é Winter fell. Temos i nimigos que n os desejam mal. Não pode mos travar um a guer ra entre nós. Ess a sua obsti nação, as fugas, as palavr as zangad as, a desobediê ncia... em casa, er am só os jogos de verão de uma c riança. Aqui e agor a, com o inverno par a chegar em bre ve, as cois as são dif erentes. É tem po de começ ar a cres cer. - E u c r es ç o - pr om e te u A r ya. N u nc a o a m ar a t an t o como naquele i nstante. - Tam bém pos so ser forte. Posso ser t ão f ort e como R obb. Ele lhe estendeu Agulha, e ntre ga n do-lhe o c ab o. - Toma. Ela olhou par a a espada com espanto nos olhos. Por um m ome nto tev e med o de toc á-l a, med o d e que, se estendes se a m ão, ela lhe seria de novo arrebat ada, mas então o pai d i sse: - Vá lá, é sua - e el a pe go u n a ar ma. - Posso fic ar co m el a? - p erg unt o u. - De verd ade? - De verd ade - ele sorriu. - Se a tirasse de você, não tenho d úvid as de que em menos de uma qui nzena encontr aria uma maça escondida debai xo d a sua almof ad a. Tente não apunhalar s ua irmã, seja qual for a pro voc aç ão.


- Não apunh alo. Pr ometo - Arya ape rtou A gulh a com força c on tra o pei to en qu an to o p ai se retira va. Na manh ã seguinte, ao desjejum, pediu de scul pa à Sept ã Mordane. A septã a olhou com sus peita, m as o pai acen ou com a cabeç a. Três dias mai s tarde, ao mei o-dia, o intendente d o pai, V ayon Poole, mandou Arya até o Salão Peque no. As me sas tinham sido desmantelad as e os bancos, arr um ado s junt o às parede s. O salão pareci a vazi o, até que uma voz que não lhe era famili ar disse: - Está atras ad o, r apaz - um home m fra nzino com uma cabeç a cal va e um nariz que mais pareci a um gra nde bic o s aiu das s om bras segurand o um par d e estreitas es padas de madeir a. - Amanh ã deve es tar aqui ao meio- dia - seu sot aque ti nha a entoação das Cidades Livres, t alvez Bra vos, ou M yr. - Quem é o s enhor ? - perg unt o u Ary a . - Sou seu mestre de danç a - atir ou-lhe uma d as armas de madeir a. Ela tentou agarr á-la no ar, falh ou, e a ouviu c ai r com estr ondo no c hão. - Amanhã você a a garr ará. A gor a, a pa nhe-a. Não er a ape na s u m pa u, m as uma verd adeir a esp ad a de madeir a completa, com punho, guar da e bot ão. Arya a apanhou e a agarr ou nervos ame nte c om ambas as m ãos, ergue nd o-a à sua frente. Era mais pesada d o que parecia, muit o mais pesa da do que Agulha. O h omem cal vo fe z estalar os cie nte s.


- N ão é as si m , r ap az . I st o n ã o é um a e s p ad a l on ga, que pr ecisa de duas mãos par a ser brandida. Pega na arma c om uma m ão. - É pesad a dem ais - Arya ju stifico u. - É t ão pe s ad a q ua nt o pr e c i s a s e r pa r a d e i xá- l o f o r t e e para o equilíbrio. Um burac o aí dentr o est á cheio de chum bo e xatamente par a iss o. Agor a, um a m ão é tudo o q ue é preci so, Arya tirou a m ão direita d o punho e lim pou a palm a suada nas c alças. Segurou a es pada c om a mão esque rda. Ele par eceu a pr ov ar. - A e sq ue rd a é b oa. T udo o qu e s ej a i nve rt i do atrapalh ará mais seus i nimigos. Mas está na posiç ão errada. Vira o c orpo de l ado, i sso, assim. V ocê é magr o como o cabo de uma l ança, s abi a? Iss o também é bom, o alvo é menor. Agor a, o mod o d e agarrar. Mostre-me - apr oxi mou- se e es piou-lhe a mão, afast an do-l h e os dedos, re arra nj a nd o-os. Assim mesmo, sim. Não aperte c om muita f orça, não, deve se gur á-la de forma h ábil, delic ada. - E se a deix ar cai r ? - per gu nto u Ar y a. - O aço deve fa zer parte do se u br aço - disse-lhe o homem c alvo. - Pode deixar c air parte do seu br aç o? Não. D urante nove anos, Syrio Forel foi primei raespada d o Senh or do Mar de Bravos, ele sabe dest as coisas. Esc ute- o, rap az. Era a terceir a v ez que o homem a c hama va "r ap az". - So u um a me nin a - objet ou Ar ya. - Rapaz, me nina - disse Syrio F orel. - É uma espad a, é tudo - fez est al ar os de ntes. - Is so mesm o, é assi m


que s e segura. Não est á se gur and o um machado d e bat alha, m as um a ... - ... agulha - t e r m i n o u A r y a p o r e l e , f e r o z m e n t e . - Isso me smo. Agor a c omeçamos a d anç a. Lem bre-se, crianç a, não é a dança de ferr o de Wester os que estam os apre ndendo, a dança dos cavaleir os, que corta e bat e, não. Esta é a danç a do espad achim, a danç a d a água, r ápida e súbita. T odos os home ns s ão feitos de água, sabi a dist o? Q uan do os perf ur a, a água j orra e el es morrem - d eu um pass o para trás, ergue u a própria lâmina de madeira. - Agor a tent e me atingir. Arya t ent ou ati ngi-lo. Te ntou d ur ante quatr o hor as , até ficar com cada m úscul o do corpo d olori do, enquant o Syri o Forel fazia estalar os d entes e lhe dizia que faz er. No dia segui nte, começou o verd adeir o tra bal ho.

Dae ne ry s O Mar Dothraki - disse Sor Jor ah Mormont ao puxa r as réde as do cava lo e parar ao l ad o dela no t opo d a colina. A seus pés, a pl anície est endi a-se imensa e vazi a, uma vast a e xtens ão plana que atingia e ul trapass ava o h o r i z o n t e d i s t a n t e . Foi u m m a r , p e n s o u D a n y . P a r a lá do l ugar ond e estavam não havia c olinas ne m mont anh as, nem árvores, cidades ou estr ad as, ape nas a mata se m fim, c ujas f olhas altas ond ulavam como on das qu an do o ven to s opr av a. - É tão v erde - ela admir ou.


- Aqui e agor a - c oncor dou Sor Jor ah. - Tem de vêlo quand o fl ore sce, flores ve rmelhas esc uras de horizonte a horizonte, com o um mar de sangue. E quando che ga a e stação se ca, o mundo fica da cor d e b r o n z e v e l h o . E i s t o é a p e n a s a hranna, m e n i n a . H á ali cem tipos d e pl ant as, amar elas c omo limãosiciliano e es curas como í ndi go, azuis e c or de laranja, e as que são com o arc o-íri s. E dizem que nas Terras d as Som br as, para lá de Ass hai, há oc eanos d e erva-f antasm a, mais alta que um homem a caval o e com c aules t ão claros como vidr o l eitoso. Mat a t oda s as outras plant as e brilha no esc ur o com os es píritos dos c ondenad os. Os dothrakis dizem que um di a a erva-f antasm a c o brirá o m undo i nt eiro, e e ntão toda a vid a termi nar á. Essa idéia fe z Dany se arre piar. - N ão qu e r o f al ar d is so ag or a - e l a r e tr uc ou, - Is t o aqui é tão lind o que não quer o pe nsar na morte de tudo, - C o m o d e s e j a r , Khaleesi - S o r J o r a h d i s s e respeit osam ente. Dany ouvi u o som de voz es e virou-se par a olhar par a trás. Ela e Mormont tinh am se distanciado do resto d a c omitiva, e agor a os outros vinh am s ubi ndo a colina lá em bai xo. Os movime nt os da cri ada Ir ri e d o s j o v e n s a r q u e i r o s d e s e u khas er a m f l u i d o s c o m o centaur os, mas Viserys ai nd a lut ava c om os es tribos curtos e a sela pl ana. O irm ão era infeliz ali. Nunc a deveri a ter vindo. Magíster Illyrio insistira com ele par a que esperasse em Pent os, oferecera-lhe a hospitali dade de sua mansão, mas Viserys nem quiser a o uvir f al ar do assu nt o. Queria fic ar co m


Drogo até que a dívid a f osse paga, até ter a c or oa que lhe f ora pr om etida. "E se ele te ntar m e enganar , apre nder á, par a s ua des graç a, o qu e significa ac ord ar o dr agão", ele ga rantir a, pousand o a m ão na espad a emprest ad a. Illyrio pest anej ara ao ouvir a quil o e lhe desejar a boa s orte . Dany perce beu que naquele m omento não desej ava ouvir ne nhum a d as queixas do irmão. O dia est ava bast ant e perfeit o. O cé u er a de um az ul prof undo, e muito acima deles um falc ão caçador voava em círculos. O mar de pl ant as oscilava e sus pirava a cada s opr o do ven to, o ar batia-lhe morno no rost o, e D an y s e nt i a- s e e m p az . Nã o d eix ar i a q ue V i se r ys estrag asse t ud o. - Espere aqui - di sse Dany a Sor Jor ah. - Diga a todo s p ara fic ar. Diga que e u est ou orde na ndo. O cavaleiro s orriu. Sor Jorah nã o era um home m bonito. Ti nha pe scoço e ombros de touro e r udes pelos ne gr os c obriam-lhe os braços e o pe scoç o de uma for ma tão dens a que nada rest ava r ar a a cabeç a. Mas se us sorrisos da vam co nfort o a D an y. - Está aprendendo a fal ar c omo uma rai nha, Daener ys. - U m a r a i n h a , n ã o - e l a r e s p o n d e u . - U m a khaleesi fez girar o c aval o e galopou sozinha rela enc ost a abai xo. A descid a er a í ng reme e roch osa, mas D an y c a val g ou destemidame nte, e o júbil o e o pe rigo d aquilo er am um a c anç ão no s e u c or aç ã o. P or t od a s ua vi d a Viserys lhe dis sera que era um a princesa, m as só quando m ont ou s ua prat a é que D aener ys Tar gar ye n se sentir a com o u ma.


A p r i n c í p i o n ã o f o r a f á c i l . O khalasar l e v a n t a r a o acam pament o na manh ã seguint e ao c as amento, dirigindo-se par a leste em direção a Vaes Dothr ak, e n o t e r c e i r o d i a D a n y p e n s o u q u e ia m o r r e r . F e r i d a s pro voc ad as pel a sela abriram -se no se u tras eiro, hediond as e sangrentas. As coxas ficaram em c arne viva, as réde as fizeram nascer bol has nas m ãos, e o s músc ulos das pe rnas e d as c ostas estavam de tal for ma dol ori dos que qu ase n ão era ca paz de se sentar. Q uando c aía o cre púsc ul o, as criad as tinham de aju dá-l a a des mont ar, Nem mesmo as noites trazi am al ívio. Khal Dr ogo ignorava- a enquanto vi ajavam, t al como a ignor ara durante o cas amento, e pass ava o c omeç o d a noit e bebe nd o com seus gue rreiros e companheir os de sangue, competindo com se us melhores c avalos , vendo m ulheres danç ar e h omens morrer. D any nã o tinha lugar naquelas partes de sua vida. Era aband onada par a jantar sozi nha o u com Sor Jorah e o irmão, para depois chorar até adormecer. Mas todas as noites, em algum m oment o antes d a alvorad a, Dr ogo vinha à sua te nd a e a ac ordava na escurid ão par a mont á-la t ão impl acavelm ente c omo mont ava s eu ga ranhão. Poss uía- a s empre por tr ás, à moda dothraki, e Dany se ntia-se grat a por iss o; dessa m aneira, o senhor se u m arid o não podia ver as lágrim as que lhe molhavam o rost o, e podia us ar a almof ad a para a baf ar seus grit os de dor. Quando aca bava, ele fechava os olhos e c omeçava a ressonar bai xinho, e D any se deitava ao se u lado, c om o c orp o dolori do e machucad o, com d ores demais para dormir.


Os dias seg uiram- se a outr os, e as noites se guir am-s e a outr as, até Da ny co mpre ende r que n ã o cons eg ui a sup orta r aq uilo n em mais um mo ment o. Um a noit e decidiu que prefer ia se mat ar em ve z de co ntin uar... Mas, qu and o c onse gui u ad orm ecer ness a noit e, volt ou a so nhar o so nho do dra gã o. Da quel a ve z Viserys nã o est a va nele. S ó el a e o dra gã o. Su a s escam as er am ne gras com o a noit e, mas l uzi dias d e san gue. Da ny sen tiu q ue a quele sa ng ue er a del a. Os olhos do anim al e ram lagoas de ma gma de rretid o, e, qu an do abri u a b oca, a cham a sur giu, r ugi ndo, n u m jato qu ente. Da ny p odia o uvi-l o can tar p ara ela . Abriu o s br aços ao fo g o, ac olheu- o, pa ra q ue ele a eng olisse inteir a e a lav asse, tem pe rasse e p olisse até ficar limp a. Po di a sentir su a car ne secar, e negr ecer e descam ar-se, sent ia o sa n gue f erve r e tr ansf orm ar-s e em va po r, mas nã o havi a ne nhu ma dor. Se ntia-s e forte, nova e fer o z. E no dia segui nt e, estranhamente, parece u-lhe que não d oía tant o. Foi com o s e os deuses a tivessem escut ado e s e tivessem apie dad o. Até as criadas repar ar am n a mu danç a. - Khaleesi - d i s s e J h i q u i - , q u e s e p a s s a ? E s t á d o e n t e ? - Estava - ela res ponde u, em pé j unt o a os ovos de dragão que Ill yri o lhe oferecer a quando se c as ara. Tocou um deles, o mai or dos três, fazend o correr a m ã o s o b r e a c a s c a . Negro e escarlate, p e n s o u , como o dragão no meu sonho, A p e d r a p a r e c i a e s t r a n h a m e n t e que nte sob seus dedos... ou estaria aind a sonh ando? Retirou a mã o, n e rvos ame nte. Daquela hor a em diante, c ad a dia foi mais fácil qu e o a nteri or. As pe rnas ficar am m ai s fortes; as b olha s


arrebent aram e as m ãos ganhar a m cal os; as mol es cox as en rijecera m, flexíveis c om o c our o. O khal o r d e n a r a à c r i a d a I r r i q u e e n s i n a s s e D a n y mont ar à moda dothraki, mas sua verdadeir a profes sor a er a a potr anca. A égua parecia conhecerlhe os est ad os de alma, como s e partilhassem um a mente únic a. A cada dia que pass ava, Dany se ntia-se mais se gura sobre a sela. Os d othrakis eram um povo duro e se m sentimentalism os, e não tinham o costume de dar nomes aos animais; porta nt o, Dany pens ava no ani mal apenas c om o a prat a. Nunca amar a ta nt o cois a alg uma. À medida que a viagem foi deixando de ser uma pro vaç ão, D any começ ou a repar ar nas be lezas d a t e r r a q u e a r o d e a v a . C a v a l g a v a à f r e n t e d o khalasar com Dr ogo e se us com panheiros d e sangue, e as sim encontr ava todas as regi ões fresc as e intact as. Atr ás deles, a gr ande horda podia r as gar a terr a e enl ame ar os ri os e levant ar nuve ns de pó q ue dific ult avam a respiração, mas os c ampos à s ua fre nte e stavam sempre viços os e verdej antes. Atraves sar am as coli nas ond uladas de Norvos, deixand o par a t r ás f azendas de campos am urados e peque nas al deias onde o povo obse rvava ansi oso, d e cima d e muros brancos de est uque. Atr aves sar am pelo vau três largos rios pláci dos e um quarto que era r ápi do, estreito e traiç oeir o, acampar am ao lad o de um a gr ande c atar ata az ul e rodear am as ruí nas tombad as de um a vast a cid ade morta, onde se dizi a que os fantas mas gemiam por entre e ne grecidas colunas de mármore. C orreram por est radas valiri an as c om m il an os de id ade, retas co mo um a


seta dothraki. Ao longo de mei a lua, atr avess ar am a Floresta de Qohor, onde as folh as for mavam um a abóbad a dour ada muito acim a dele s e os tr onc os d as árvores er am t ão largos como por tõ es de uma cid ade. Havi a grandes alces naquele s bosques, tigr es malhad os e lé mur es de pelo pr ateado e e normes olhos p ú r p u r o s , m a s t o d o s f u g i r a m a n t e s q u e o khalasar s e apr oxim asse e D a ny nã o cheg ou a v islumbr á-l o s. Por ess a altur a, s ua agonia era uma mem óri a que se desvaneci a. Ai nda se ntia-s e d olorida d e pois de um longo dia de viagem, m as, de algum modo, a d or incor por ava agor a certa d oçur a, e ela s ubi a de boa vontade para a sela tod as as manhãs, a nsios a por saber que mar avi lhas a es peravam nas ter ras que se estendi am à fr ent e. Começ ou a enc ontr ar pr azer até mesmo nas noites, e embor a ai nd a grit asse quando Drog o a poss uía, nem sem pre er a d e dor. Na base da coli na, as plantas e rguer am-se à sua volt a, altas e fle xíveis. Trot ando, Dany pene trou na planície, dei xando-se perde r na relva, a b e n ç o a d a m e n t e s ó . N o khalasar n u n c a e s t a v a s ó . Khal Drogo s ó vi nha enc ontrá-l a depoi s de o sol se pôr, m as as cri adas a alime nt avam, a banhavam e dormi am junto à porta de sua te nda; os companheiros de sangue de Drogo e os home ns de se u khas n u n c a e s t a v a m m u i t o d i s t a n t e s , e o i r m ã o e r a uma sombr a i nde sejada, di a e noite. Dany conse gui a ouvi-lo no t opo d a coli na, c om a voz esg aniç ad a de raiva e nquant o g ritava a Sor Jor ah. Ela avançou, submergi ndo-se mais pr ofundame nte no Mar Dothraki.


O verde a engoliu. O ar estava e nriquecid o com os odor es da terra e das plantas, mistur ados c om o cheiro do cavalo, do suor de Dany e do óleo em se u cabel o. Cheiros dothrakis. P areci am perte ncer àquel e lug ar. Dany res pirou t udo aquilo, rindo. Teve uma súbit a vontade d e sentir o ch ão d ebai xo dos pés, d e fechar os de dos sobre aquele e spesso sol o negro. Desmontando, deixou a prat a pastando e nquanto descalç ava as bo t as de c ano alt o. Viserys che gou junt o del a t ão s ubit ame nte c omo uma te mpest ade de verão, c om o caval o se empinando quando puxou as rédeas com demasiada força. - C o m o s e atrevei - ele g r i t o u c o m e l a . - D a r o r d e n s a mim? A mim? — s a l t o u d o c a v a l o , t r o p e ç a n d o a o p i s a r no chão. Se u rost o estava c orado quando se pôs e m p é . A g a r r o u - a e a s a c u d i u , - E s q u e c e u - s e d e q u e m é? O l h e p a r a v o c ê . Olhe para você! Dany não precis ava se olhar. Estava des calç a, com o cabel o ol ead o, us and o c our os d oth rakis de montar e um vestido pi ntado que lhe f ora d ado com o presente de noi vad o. Pare cia perte ncer àquele lugar. Viserys estava suj o e enod oado, vestid o com suas sedas citadinas e c ota d e malha. Ele aind a grit av a . - V o c ê não dá o r d e n s a o d r a g ã o . E n t e n d e i s t o ? E u sou o Se nhor d os Sete Reinos, não rece berei or dens de um a put a qual quer de chefe de hord a, está ouvind o? - i ntroduziu a mão s ob o ferid o del a, e n t e r r a n d o d o l o r o s a m e n t e o s d e d o s n o s e i o . - Está ouvindo? Dan y o af ast ou c o m um f orte em p urrã o.


Viserys a fit ou, com os olhos lilás incré dul os. Ela nunca o desafi ar a. Nunc a l utar a. A raiva dist orce ulhe as feições. El a sabia que ele agora a machucaria, e m u i t o . Crac. O chicote fez um som de trovão. A ponta enrol ou- se no pe scoç o de Viserys e o atir ou par a trás. Ele se estatel ou na relva, at ordoado e estrangul ad o. Os cavaleiros dothrakis gritavam e nquanto ele lut ava por se libert ar. O dono d o chicote, o jovem Jhogo, ar r i s c o u um a pe r gu nt a . D a ny nã o c om p r e e n d e u s ua s pal avr as, mas então Irri che gou, com Sor Jor ah e o r e s t o d e s e u khas, - J h o g o p e r g u n t a s e d e v e m a t á - l o , Khaleesi - d i s s e I r r i . - Não - Da n y resp o nde u. - Não. Jhogo c ompreendeu aquilo. Um dos outr os l adrou um come nt ário, e os dothrakis riram. Irri disse a Viserys: - Quar o pe nsa que deve cor tar uma orelha para lhe ensin ar res peito. O i r mão e s t a va d e j oe l h os , c om os d e d os ent e r r ad os sob os anéis de cour o, gritando incoer ente mente, lutand o por ar. O chicote e nrol ava-se a pert ado na traq ueia, - Diga-lhes q ue nã o o q uero feri do - d isse Dan y. Irri re petiu su as p ala vras em do thraki. Jhog o de u um puxão no chicote, sac udi ndo Viserys com o uma marionete na ponta de uma cor da. Ele se es tatelou de novo, livre do abraço de c ouro, com uma fi na linha de sangue sob o queixo, no lo cal onde o chicote cortar a p rof un da mente a pele.


- Eu o preveni do que ac ontec eria, senhora - disse Sor Jor ah Mormont. - Disse-lhe para ficar na c olina , conf orme ha via o r den ado. - Eu sei que sim - responde u D any, obser vand o Viserys, que jazia no chão, i nspir and o rui dos ame nt e ar, cor ad o e s oluç and o. Era um a c o isa digna de pena. Sempre f ora. Por que nunc a antes tinha compreendido? Havi a um lugar o co de ntro dela, o lug ar o nde esti ver a seu m edo. - Tome o caval o d ele - ordenou Dany a Sor Jor ah. V i se rys a ol h o u d e b oc a a ber t a. N ão c o nse gui a acredit ar no que ouvia; e Dany t ampouc o consegui a acredit ar bem no que dizia. N o entant o, as palavr a s vieram. - Que meu irmão c aminhe atrás de nós até o khalasar - e n t r e o s d o t h r a k i s , o h o m e m q u e n ã o m o n t a a caval o não é homem nenh um, o mais vil dos s ere s vis, sem honra nem or gulh o. - Q ue todos o vejam tal como é. - Não! - V i s e r y s g r i t o u . V i r o u - s e p a r a S o r J o r a h , suplic ando na lí ngua c om um, c om palavras que os cavaleiros não compree nderi am, Bata-lhe, Mormont. Fira- a. É seu rei que es tá orde nando. Mat e estes cães dothra kis e dê-lhe um a l ição. Os olhos do c aval eiro exil ado s altaram de Dany par a o irmão; ela de pé s nus, c om te rra e ntre os dedos d os pés e óleo no c abelo, ele com s uas sedas e seu aço. Dan y co nse gui u v er a decis ão no r o sto do h omem. - E l e a n d a r á , Khaleesi - S o r J o r a h d e c i d i u . A g a r r o u as rédeas do cavalo do ir mão, enquant o D any mont av a s ua prat a.


Viserys o olhou de boca abert a e sentou-se na terra. Mante ve-se em silêncio, mas rec us ou-se a and ar, e seus olhos est avam cheios de veneno ao vê-los s e afast ar. Em breve estava perdido por ent re as pla ntas alt as. Quand o dei xaram de vê-lo, Dany fic ou com recei o. - Ele conseguirá descobrir o c ami nho de volt ai perg un to u a Sor J orah en q ua nto c a minha vam, - Mesmo um hom e m tão ce go com o seu ir mão de ve ser capaz de seguir noss o ras tro - res pondeu o cav aleiro. - Ele é orgulhoso. Pode se sentir muito enver g onha do par a regre ssar. Jor ah solt ou uma gar galha da. - Para onde mai s pode ir? Se não c onse gui r e n c o n t r a r o khalasar, c e r t a m e n t e o khalasar o encontr ará. É difícil morrer afogado no Mar Dothraki, me nin a . Dany com pree nd eu a verd ade d aquelas pal avr as. O khalasar e r a c o m o u m a c i d a d e e m m a r c h a , m a s n ã o marchava às ce gas. Batedores patrulhavam o terre no bem à fre nte da coluna pri ncipal, alerta a qualque r sinal de c aça ou ini migos, e nquanto os outros guard avam os fl anc os. N ão dei xavam passar nad a, especi alment e ali, naquela terra, naquele lugar que lhes dera orige m. Aquelas planícies eram um a part e deles... e ag or a ta mbém del a. - Eu bati nele - dis se ela, com es panto na voz. Agor a que o c onfr ont o terminara, par ecia um estranho sonho que tinh a t ido, - Sor Jor ah, pense... ele est ará tão z angado qu and o re gress ar... - estremece u. Acordei o dra gã o, nã o ac ordei ?


Sor Jor ah resfole go u. - E capaz de a cor d ar os mort os, pe q uen a? S eu irm ã o Rh aega r foi o últ imo dra gã o e m o rreu n o Trident e. Viserys é me nos q ue a s omb ra de u ma ser pente. Aque l as pal av ra s br usc as s obr es saltar am- na. Era como se t udo a qu ilo em que sem pr e acredi tar a fo sse subit ame nte p ost o em ca us a. - O senhor... lhe pr estav a v ass ala g e m... - É verdade, pe que na - disse Sor Jorah. - E se seu irmão é a som br a de um a serpe nte, em que é que isso transf orma os seus servos? - a voz dele soava amar ga. - Ele aind a é o ve r dadeir o rei. Ele é. .. Jor ah p ux ou as ré deas d o ca val o e o lhou p ara el a. - Agor a a verd ade. Gostari a de ver Viserys sentado num trono? Dany refletiu s obre a id eia. - Não seri a um r ei lá muit o b om, n ã o é? -Já hou ve pio res ..., mas nã o mui tos - o ca valeir o espor eou o caval o e ret omou a vi agem. D any se gui u log o atr ás dele. - Mas, mesmo ass im - dis se -, o povo o es per a. Magíster Illyri o diz que o povo bor da esta ndartes d o dragão e re za para que Viserys regresse at ravés do mar estreit o p ara libertá-l o. - O po vo r e z a p or c h uva , f i l h o s s a ud áve i s e um v e r ã o que nunca termine - disse-lhe Sor Jorah. - Não lhe interess a se os gr ande s senhores l utam suas gue rras de tronos, desde que s eja d eixado em paz - e ncolhe u os om bro s. - E nu nca é.


Dany se gui u e m silênci o d urante al gum tem po, trabalhando as pal avr as d o c om panheiro c om o s e fossem um quebr a-cabeç a. Pensar que o povo podia se i mport ar tã o po uco se se u so beran o era u m rei verd adeir o ou um usurpador ia contr a t udo o q ue Viserys lhe dis sera. Mas quanto mais refleti a s obre as p ala vras de J o rah, mais lh e so a vam a ver da de. - E p o r q u e m r e z a o senhor, S o r J o r a h ? - p e r g u n t o u . - Pela pá tria - diss e ele, a v oz ca rregada de sa ud ade. - Eu ta mbé m re zo pela p átri a - diss e el a, acredit ando no qu e dizia. Sor Jor ah solt ou uma gar galh ada. - E n t ã o o l h e e m v o l t a , Khaleesi, Mas não f or am as planícies que Dany viu ent ão. Foi Porto Re al e a grande Fortale za Verme lha que Aegon, o Conquis tador, tinha c ons truído. F oi Pedra do Dragão, onde nascer a. No ol ho de sua m ente, esses lugares ard iam com mil luzes, um fogo em bras a em c ad a jan ela. No olho de s ua ment e, tod as as port as er am ver m elhas. - Meu irmão nunca recuper ará os Se te Reinos - el a disse, compree ndendo que j á s abi a diss o havia mui to. Soube ra- o por toda a vi da. Nunc a se permitir a dizer as palavr as, nem mes mo num sussur ro, mas dizia-as agora par a que Jor ah Mormo nt e to do mun do as o uviss e . Sor Jor ah en vio u- lhe um olhar av al iador. - Pensa que nã o? - Ele não lideraria um exército mes mo se o senhor meu m arido lhe oferecesse - D any responde u. - N ão tem nem uma m oeda, e o únic o c av aleiro q ue o s egue o ins ulta dize nd o que é me nos que uma ser pe nte. Os


dothraki s z ombam de s ua fr aque za. Ele nunc a no s levar á para cas a. - C riança s ens ata - o ca valeir o so rriu . - Não s ou cri ança ne nhuma - disse-lhe com ferocid ade. Aperto u co m os calca nhares os flanc os de su a mont aria, pond o a prat a a gal ope. Correu m ais e m ai s de pr es s a, d e i xand o J or ah , I r ri e os out r os muito para tr ás, com o ve nto que nte no c abel o e o sol que se punha vermelho no rosto. Quand o a l c a n ç o u o khalasar, o c r e p ú s c u l o j á c h e g a r a . Os escravos ti nham er guid o s ua te nda junto à margem de uma lagoa alimentada por uma nascente. Ouvi am-se voz es rudes vindas do pal ácio de f olhas tranç ad as, na colina. Em breve se ouviriam g a r g a l h a d a s , q u a n d o o s h o m e n s d e s e u khas cont assem a história que ac ont e cera na base da colina. Quando Viserys chegasse, coxe ando, todos os homens, mulheres e crianç as d o acam pament o o reconhec eriam c omo um c ami nhante. N ão havi a s e g r e d o s n o khalasar. Dany entre gou prat a aos escravos par a que dela tratas sem e entrou em sua tend a. Sob a sed a fazi a frio, e estava esc uro. Ao deixar c air a porta de pan o atrás d as cost as, Dany viu um dedo de poeire nt a luz vermelha este nder-se para tocar os ovos de dragão do outro lad o da tend a. Por um inst ante, mil gotíc ulas de chama esc arl ate nadaram pe rante s eus olh os. Pesta nejo u , e elas des a parec eram. Pedra, d i s s e a s i p r ó p r i a . São apenas pedra, até Illyrio lhe dissera, os dragões estão todos mortos. P o u s o u a p a l m a d a mão no o vo n e gro, c om os d edos s ua veme nte


espalh ados pel a curva da c asc a. A pedr a es tava morn a. Qu ase que nte. - O sol - sussurrou Dan y. - O sol os aq uece u dur ant e a vi agem. O r de n ou às c r i ad as qu e l h e pr e p ar as s e m um ba nh o. Doreah fez uma fogueira for a d a tend a, e nquant o I r ri e Jh i q ui f or am b us c ar a gr a nd e b a nh ei r a d e cobre - outr o presente de noivado -, mont ad as em cavalos de car ga, e tr ouxer am água da lagoa. Quando o banh o começ ou a fume gar, Irri a aj ud ou a entrar e tam bém entro u lo go a se g ui r. -Já viu alguma vez um dragão? - perguntou, e nq ua nt o I r r i l he e sf re ga v a as c os t as e Jh i qui l h e lavava abundant emente o cabelo com água par a tirar a areia. Ouvira dizer que os primeir os dragões tinham vindo d o leste, das Terr as das Som bras para lá de Asshai e d as ilhas do Mar de Jad e. Talve z alguns ainda aí vivess em, em r einos es tranhos e selva ge ns. - D r a g õ e s j á n ã o h á , Khaleesi - d i s s e I r r i . - Estão mortos - conc ordou Jhiqui. - Há muitos, muitos anos. Viserys dissera-lhe que os últim os dragões Targar ye n não tinham mor rido há mais de século e mei o, durante o rei nado de Aegon ui , conhecido c omo Desgraç a dos Dragões. E, para ela, não pareci a t ant o tempo assim. - E m t od a a par t e ? - pe r gu nt ou, d e sa p ont ad a. Mesmo no leste ? - a magia morr er a no Oeste quand o a Perdiç ão c aíra sobre Valíria e as Terras d o Longo Verão, e nem o aço f orjad o co m feitiços, nem os


cant ores de te mpestade, nem os d r agões co nse guir am afast á-la, mas Da ny sem pre ouvir a dizer que o leste era difer ente. Diziam que ma nticor as 1 percorri am as ilhas do Mar de Jade, que basiliscos i nfest avam as selvas de Yi Ti, que encantadores, feiticeiros e aerom antes pr aticavam abert ame nte suas artes em Asshai, ao passo que magos ne gros e de sangue constr uí am terríveis feitiçarias na esc urid ão d a noite. P or q ue n ã o haveri a de te r t ambé m dra gõ es? - Dragão, não - disse Irri. - Br avos home ns os matam, por que dragões são terríveis, ani mais malvad os. É sabi do. - É sabid o - co nco r dou Jhiq ui. - Um merca dor de Qarth disse-me uma vez q ue os drag ões vinh am da Lu a - diss e a lo ur a Dore ah enq ua nt o a queci a uma t oalh a pert o da fo guei ra. Jhiq ui e Irri era m da mesma id ad e de Dany, j o ve n s doth raki s tom ad as com o escra v a squ and o Dro go d e s t r u i u o khalasar d o p a i d e l a s . D o r e a h e r a m a i s v elh a, com qu as e vinte a nos. M agíster Ill yrio a enco ntr ara nu m p aláci o dos pr azere s em Lys. Molhad os c abel os prate a d os caír am -lhe em frente a os olhos q ua nd o Da ny vir ou a ca beç a, curios a. - Da Lua ? - E l e d i s s e - m e q u e a L u a e r a u m o v o , Khaleesi responde u a j ove m lyse na. - A ntes havi a duas l uas no céu, mas uma delas s e apr oxim o u de mais do Sol e rachou com o calor. Mil milhares de dr agões jorrar am de dentro del a e beber am o fogo do Sol. É por isso que os dr ag ões ex alam cha mas. Um dia esta 1C r i a t u r a

mitológica com cabeça de homem e corpo de leão. (N. T.)


Lua tam bém bei jará o Sol, e então rach ará e os drag ões re gress ar ão. As duas j ove ns d o thrakis riram. - É uma tol a escr a va de c abel os d e palha - disse Irri. - L ua nã o é ov o. Lua é deus, mulh er espos a do S ol. Todos s abe m. - T odos s abe m - Jh iqui c onc ord ou. A pele de Dany e stav a cor ada e co r-de-ros a qu a nd o saiu da banheir a. Jhiqui a deit ou par a ol ear seu corpo e limpar os por os. Depois diss o, Irri as pergi u- a com flor-de-especiaria e canel a. Enquanto Doreah lhe escovava o c abel o até brilhar com o sed a fi ad a, Dan y refleti u so b re a Lua, os o vo s e os dra g ões. O jant ar foi um a simples refeição de frut as, queijo e pão frito, com um cântar o de vinho c om mel par a acom pa nhar. - Doreah, fiq ue e coma c omi go - orden o u Da n y quando m and ou embora as outras criadas. A l ysena tinha c abel o d a c or de mel e olhos que eram como o céu d o ver ão. Ela ab aix ou os ol hos qu a ndo fic ar a m sós. - H o n r a - m e , Khaleesi - d i s s e , m a s n ã o e r a h o n r a alg uma, a pen as serviço. Ficar am sent ad as, ju nta s, até muit o de pois de a lu a n ascer, c on vers and o. Naq ue la n oite, qua ndo Khal Dr og o cheg ou, Da ny o esper a v a. Ele pa rou à por ta da tend a e a olh ou, surpr e so. Ela se leva nt o u dev a gar, abriu su as sed as de dor mir e as dei xo u cair ao ch ão. - Esta noite, d eve mos ir lá para fora, meu se nhor disse-lhe, pois os dothraki s acreditavam q ue tod as as coisas com im portânci a na vi da de um homem de vem ser feitas a céu ab erto.


Khal Drogo a seguiu par a a luz ci o luar, com os sinos no cabelo a tilintar bai xinh o. A alguns metr os da tend a havia um a cam a c om um mole c olchão d e ervas, e f oi para lá que Dany o puxou. Quando ele tento u vi rá-l a, el a p ôs-lhe a m ão n o peit o. - Não. Esta noi te q uero olhá-l o n o ro sto. N ã o h á p r i v a c i d a d e n o c o r a ç ã o d o khalasar, D a n y sentiu olh os s ob re ela en qu a nto o despi a, ou vi u vozes b ai x as en q u ant o fazi a as cois as q ue Do reah lh e dissera p ara faz er . Não ti nha im po r tânci a. N ão er a a khaleesi? O s d e le e r a m o s ú n i c o s o l h o s q u e import a vam, e q ua ndo o mon to u viu al go nel es qu e nu nca vir a a ntes. Caval go u- o co m tant o vi go r co mo já cav alg ara a sua pra ta, e qu an do cheg ou o mome nto d o p raz e r, Khal Drog o gr i tou se u n ome. Est a v a m n ol a d o mais dist ante do Mar Dothra k i qu an do Jhiq ui af ag ou co m os ded o s o sua ve inchaç o na barri ga de Da n y e disse: - Khaleesi, e s t á à e s p e r a d e u m b e b ê . - Eu sei - Dan y res po nde u. Isso ac o ntece u n o décimo qu arto di a do se u n ome.

Bran No p á t i o , l á e m b a i x o , R i c k o n c o r r i a c o m o s l o b o s . B r a n ob serv ava, senta do em fr ent e à j an ela. O nde que r q ue se u irm ão f osse, Ve nto C inzent o est av a l á pri meir o, s alta n do na fre nte p ara lhe co rtar o caminh o, até que Rickon o vi a, gr i tav a de ale gria e desat av a a c orre r em ou tra direção. C ão Felp udo corria l og o atrás dele, rod o pia ndo e morde nd o se os


outr os l obos se ap roxim assem dem ais. Seu pêl o ti nha escurecid o até se tornar tod o ne gro, e seus olhos eram fo g ueiras ve rdes. O Verão, de Bran, vinha por últ imo. Er a prat a e fumo, c om olhos amarel o-ouro qu e viam t udo, m as era menor que Vento Cinze nto, e t ambé m mai s c aut e l os o. B r an o ac h av a o m ai s i nt e li ge nt e d a ninhada. Ouvia o riso sem fôle go d o irmão, enquanto corria pela terra batid a c om suas peque na s per nas d e crianç a. Seus olhos começaram a ar der. Queria est ar lá embai xo, ri nd o e corre ndo. Zangad o com aquel e pens ame nto, Bran esfregou as lágrimas antes que tivessem te mpo de cair. O oit avo dia do se u nome tinha che gad o e p artido. Era agor a quase um h omem feito, velh o dem ai s par a chor ar. - Era só um a me ntira - ele f alou amar gam ente, lembrand o-se d o corvo de se u sonho. - Não posso vo ar. Se quer p oss o corre r. - Os cor vos são todos m entir osos - conc ord ou a voz da Velha A ma d a cadeir a onde tricotava. - Conheç o uma hist ória s obr e um co rv o. - Não quero mai s histórias - Bran e xclam ou, com petul ância na voz . Antes, ele gost ava d a Velha Ama e de suas histórias. A ntes. A gora er a difere nte. Agor a a dei xava m junt o dele o dia inteir o, para vigi á-lo, lim pá-l o e evit ar que se s entisse s ó, m as ela só tor nava as coi sas pi ores. - Detesto suas históri as estúpi das. A velha mulher m ostro u-lhe um s or riso sem de ntes.


- Minhas histórias ? Não, me u pe que no se nhor , m i n h a s , n ã o . A s h i s t ó r i a s são, a n t e s d e m i m e d e p o i s de mim, e a ntes de você t am bém. Ela era uma velha muit o feia, pe ns ou Bran ranc orosame nte; encolhid a e e nrugad a, quase ce ga, demasi ado fr aca para subir escadas, sem lhe restarem mais que alguns fios de cabel o branco par a cobrir um c our o cabel ud o cor- de-rosa e pint algad o. Ninguém sabia be m que id ade tinh a, mas o pai dizi a que já a cham a vam Velha Ama quando ele pr ópri o aind a er a rapaz. Certament e era a pessoa m ais velh a de Wi nterfell, e talvez d os Se te Reinos. A Ama viera para o c astelo como am a de leite de um Brand on St ark cuj a mãe morrer a ao d á-lo à luz, tal vez o irmão m ais velho d e Lorde Rickard, o avô de Br an, ou o irmão mais novo, o u u m i r m ã o d o p a i d e Lorde Rickard. À s v e z e s a Velha Ama c ont a va a históri a de uma m aneira, às vezes, de out ra. Mas em todas o rapazinh o morr era aos tr ês anos de um resfri ad o de verão, mas a Velha Ama permanecera em Winter fell com se us próprios filhos. Perdera ambos os rapazes na guerr a em que Rei Robert conquistara o trono, e o net o for a m orto nas m uralhas de Pyke dur ante a r ebelião de Balon Breyjoy. As filhas já tinh am se casado havi a m uito tempo, ido vive r longe e morrido, T udo o que restava de se u s angue er a Hod or, o gigante sim plóri o que tr abalhava nas c avalariç as, mas a Velha Ama vivi a e c onti nua va a vi ver, c om s uas agulh as e s uas histórias. - Não me inter essa saber de quem s ão as históri as Bran r espondeu -, eu as detest o - não queri a a s


histórias e não qu eria a Velha Ama. Queria a mãe e o pai. Queri a c orrer com Ver ão aos saltos a se u l ado, subir a t orre que brada e dar milho aos c or vos, volt ar a m ont ar se u pô n ei com os i rmãos, e que t ud o f osse como antes. - Sei uma hist ória sobr e um rapaz que detes tava histórias - a Velha Ama insisti u com seu s orrisi nho e s t ú p i d o , e n q u a n t o a s a g u l h a s s e m o v i a m , clic, clic, clic, e B r a n s e n t i u - s e c a p a z d e g r i t a r c o m e l a . Sabia que as c oisas nunca volt ariam a s er como antes. O cor vo o l evar a par a voar, ledo e ngano, m as, quando acordo u, estava que brado, e o mundo mud ado. Tinham- no aband onad o todos, o pai, a mãe, as irmãs e até o irmão bast ardo Jon. O pai prom etera le vá-l o par a Port o R eal montad o num cavalo verd adeiro, mas tinh am partid o sem ele. Meistre Luwin enviar a uma ave c om um a m ens age m par a Lorde Ed dard, outr a par a a m ãe, e um a tercei ra par a Jon, na M uralha, mas não houve res postas. "Muitas vezes as aves se per dem, crianç a", disse ralhe o meistre. "Há muit as milhas e muitos f alcões daqui a Port o Real, e a me nsagem pode não t er chegad o." Mas, par a Bran, er a como se tivessem todos morri do enquanto dormi a... ou t alvez ele tivesse morrido e todos o ti nham esqueci do. Jory, Sor Rodrik e Vayon Poole tam bém tinham partido, e Hullen, Harwin e Gor do Tom, e um quarto da guard a. Só res tavam R o bb e o be bê Rick on, e Robb estava mud ado, e ra agor a o Senh or, ou tentava s ê-lo. Us ava uma es pada verd adeira e nunc a s orria. Passava os dias exercit a ndo a guar da e pr atica nd o esgrim a ,


fazendo o pátio ressoar com o som do aç o, e nquant o Bran observava, des am parado, da janel a, A noite fechava-se com Meistre Luwin, convers and o, ou revendo os livros de cont as. Por vezes saía a c aval o com H allis Mollen e perm ane cia l onge d urante dias, vi s i ta nd o f or ti f i cações di sta ntes. Semp re que est av a longe por mais de um di a, Rickon ch orava e perguntava a Bra n se o irm ão regr essaria. E me smo quando estava em Wi nterfell, Robb, o Senhor, pareci a ter mais tempo para Hallis Mollen e The on Greyjo y do qu e p ara os irmã os. - Eu podi a lhe c ontar a hist ória de Brandon, o Constr utor - diss e a Velha A ma. - Esta sem pre f oi a sua f av orita. Milhares e milhares de anos a ntes, Brandon, o Constr utor, er guera Wi nterfell e, segundo al gun s diziam, a Mur al ha. Bran conhecia a históri a, mas nunca for a s ua favorit a. Talve z um dos outros Brand ons tives se gost ad o del a. Por vez es a Ama f a l a v a c o m e l e c o m o s e f o s s e o seu B r a n d o n , o b e b ê que amame ntar a há tant os anos , e por vezes o conf undia c om o tio Brandon, que tinha sido m ort o pelo Rei Louc o antes de Bran nascer. El a vivera tant o tempo, diss era-lhe sua m ãe uma vez, que todos os Brand ons Star k se ti nham transformado num a s ó pesso a em s ua c ab eça. - Esta não é a mi nha favorit a - B ran res ponde u. Minhas favorit as são as assustadoras - ouviu uma agit ação qual que r lá fora e voltou a se virar para a janel a. Rickon corria par a a guarita, com os lobos atrás, m as a torre ficava f ora de se u cam po de vis ão,


por iss o não podia ver o que est ava ac ontece ndo, e soco u su a c ox a, fr ustra do, m as n ão sentiu na da. - Ah, minha querid a criança de ve r ão - disse a Velha Ama em voz b ai xa -, que sabe d e med o? O me do perte nce ao inve r no, me u pe que no senhor, quand o as neves se ac um ula m até três metr os de pr ofundid ade e o vent o gelado uiva do norte. O medo perte nce à lon ga n oite, q u a ndo o sol esc on d e o rost o dur ant e anos e as cri anç as nasce m, vivem e morrem sempre na es curidão, enquanto os l obos gigantes se t or nam magr os e f ami ntos, e os cami nhantes br anc os se move m pel os b os ques. - V ocê es t á f al a nd o d os O ut r o s - B r an f al ou, c om o que se l ame nta nd o. - Os Outros - conc o rdou a Velha Am a. - Há milhares e milhares de anos, c aiu um i nve rno que er a m ais frio, dur o e infi nito que qual quer outr o na memória do homem. Chegou uma noite que d urou um a ger aç ão, e t ant o tremeram e mo rreram os reis e m seus c astel os c omo os cri ad ores de porc os e m s uas cabanas. As mulheres preferir am asfixiar os filhos a vê-los pass ar fome, e choraram, e sentiram as lágrimas c ongel arem em seu rosto - a voz e as agulhas c alar am- -se, ela olhou Bran com seus olhos claros e vel ados e pergunt ou: - Ent ão, cri anç a? Est e é o tip o de históri a de q ue gost a? - Bem... - disse Bra n com r elut ânci a - sim, só q ue... A Velha Ama ace no u com a c abeç a . - Nessa es curidão, os O utr os vieram pel a primeir a vez - a velha começou, enquant o as agulhas fazi am clic, clic, clic. - E r a m c o i s a s f r i a s , m o r t a s , q u e o d i a v a m o ferr o, o f og o, o toq ue d o s ol e t odas as cri at uras


com sangue que nte nas veias. Arras aram fortificaç ões, cidades e reinos, derrubara m heróis e exércit os às cente nas, m ont ando se us páli dos cavalos mortos e lider ando hostes de assassi na dos. Nem todas as espad as dos homens juntas logr a vam deter seu avanç o, e at é donz elas e be bês de peit o nele s não encontr avam pi edade. Persegui am as donzel as através de flor estas c ongeladas e aliment avam seus servos mort os c o m a car ne de c ria nças h uma nas. A voz d a Am a tinha se tor nado m uito baixa, quase um suss urr o, e Bran de u por si inclinand o-se para a frente par a o uvir. - E ss es f or a m os t e m pos a nte s d a c h e gad a d os ând alos, e muit o antes de as mulheres terem f ugid o das cidades do Roine atr avés do mar estreit o, e os c e m r ei nos d es s e s tem pos e r am os re i nos dos Primeiros H ome ns, que tinham tomad o estas terr as dos filh os da fl oresta. M as aqui e ali, nos bos que s mais d ens os, os fi lhos ai nda vi viam em s uas cid ade s de madeira e col inas oc as, e os rostos das ár vores manti nham-s e vi gilantes. E assim, enquant o o fri o e a m orte e nchia m a t erra, o último her ói deci diu proc ur ar os filhos da flor esta, na esperanç a de que sua anti ga m agi a pud esse reconquis tar aquil o que o s exércit os dos h omens ti nham per dido. P artiu para as terras mort as com uma espad a, um caval o, um cão e uma dúzi a d e companheiros. Proc urou d urante anos, até perder a esperanç a de che gar al gum dia a encontr ar os filhos da florest a em suas cidades secretas. Um por um os amigos morreram, e t ambém o caval o, e por fi m até o c ão, e sua espad a c ongelou tant o que a l âmin a se que br ou qu a ndo tent o u us á-la .


E os Outros cheiraram nele o sangue quente e seguir am-lhe o r astro em silênci o, perse gui ndo- o c o m matilhas de ar anhas brancas, grandes com o cães de caça... D e r e p e n t e a p o r t a s e a b r i u c o m u m bang, e o c o r a ç ã o de Bran salt ou-lh e até a boc a num medo súbito, m as era ape nas Meistre Luwin, com Hod or parado na escad a atr ás dele. - Hodor! - anunci ou o cavalariç o, como era se u costu me, com um enor me sorris o p a ra tod os. Meistre Luwin n ã o esta va s orri ndo. - T emos vi si ta ntes - a nu nci ou - , e su a prese nça é solicitad a, Bran, - Mas agor a est ou ouvind o uma história - o meni no protes to u, - As histórias es peram, me u pequeno se nhor, e quando re gressar, elas estar ão aqu i - disse a Velha Ama. - Os visit antes não s ão assim tão pacie ntes, e muitas vezes t raz em sua s pr ópri as histórias. - Quem é? - Br an p ergu nt ou a Meistre Luwin. - T yr i on L an ni s t er e al g uns h om e ns d a P at r ul h a d a Noite, c om notícias de seu irmão Jon. Ro bb os está recebe nd o. Hod or , ajude Br an a des cer até o sal ão? - Hod or! - o moç o conc ord ou ale gre mente e abai xouse para pass ar sua grande cabeç a desgre nhad a pel a port a, H odor tinha quase dois metros e qui nze. Era difícil acredi tar que f osse parente da Velha Ama. Bran pe rgunt ou a si mesmo se, quando e nvelhecesse, e n c a r q u i l h a r i a a t é ficar t ã o p e q u e n o c o m o a b i s a v ó . Não parecia pro vável, mesm o que Hod or vives se at é os mil a nos.


Hod or le vantou Bran t ão facilm ente c omo se f osse um peque no am o ntoad o de feno e ani nhou- o no peit o maciço. H odor exalava um le ve od or de cavalos, m as não era um cheir o des agrad ável. Seus br aços e ram gross os, chei os de mús cul os e at apetados com pelos casta nhos. - Hodor - o gi gante disse uma ve z mais. Theon Greyjoy c ome ntara que Hodor não sabia muit o, m as ningué m podia d uvid ar de que c o nhecesse se u nom e. A Velha Ama cacarejar a c omo uma galinh a quando Bran lhe c onto u isso, e el a e ntão confess ou que o verd adeir o nom e de Hodor er a Walder. Ninguém sabi a de onde viera "Hodor", el a d isse, mas quand o ele começou a repetir Hodor, começaram a chamá-l o por e sse nome. Era a únic a pal avra que o gigant e conheci a. Deixar am a Velha Ama no quart o da t orre com suas ag ul h as e s u as m e mór i as. H o d or c ant a r ol a va desafi nad ame nte enquant o c arre gava Br an pel os degr aus e atr avé s da galeri a, com Meistre Luwin atrás, e sforç ando-se par a ac om panhar as longas pass ad as do c a val ariço. Robb estava sent ado no cadei rão d o pai, us ando c ot a de malha, couro fervid o e o rosto severo como o de um Senhor. Theon Greyj oy e H all is Mollen es tavam em pé a se u l ad o. Uma dúzia de guard as est ava dispos ta ao long o das paredes de pedra ci nze nta, sob j ane l as al t as e e s tre it as. N o c e ntr o d a s al a, encontr avam-se o anão c om seus criados e quatr o estranh os vesti dos com o negr o da Patrulh a da Noite. Bran sentiu a ira que pai rava no sal ão no mome nto em q ue Hod or o c arreg o u pela port a.


- Qual quer homem da Patr ulha da N oite é bem- vin do aqui em Wi nterfell pel o tem po que desejar ficar - seu irmão dizia c om a voz de Robb, o Se nhor. Tinha a espada pous ad a sobre os joelhos, mostrando o aç o par a que todo mund o vis se. Até Bran sa bi a o que signific ava receber um hós pede com um a es pad a desemb ainh ada. - Qual quer homem da Patr ulha da Noite - repe tiu o anão -, m as eu, não, perc ebo bem o que quer dizer, meu rapaz? Rob pôs-se de pé e apont ou par a o hom enzi nho com a espad a. - Eu aqui s ou senh or e nquant o mi nh a m ãe e me u pai estiverem f ora, L an nister. Nã o s ou seu ra pa z. - Se é um se nhor, bem podia aprender a cortesia de um - responde u o homenzinh o, ignorand o a pont a d a espada apontand o par a sua c ar a. - Seu irmão bast ardo ficou com toda a ele gânc ia do se u pai, ao que par ece. - Jon - B r a n a r q u e j o u n o s b r a ç o s d e H o d o r . O an ão viro u-se p ara olhá-lo. - Então é verdade , o r apaz es tá vivo. Quase não acreditei. V ocês, os St ark, s ão difíc eis de mat ar. - E é bom que voc ê s, os Lannist er, se lembrem disso disse Robb, bai xand o a espad a. - Hodor, traga meu irmão aq ui. - Hodor - o gigante repeti u, e tr otou em fre nte , sorrindo, e pousou Bran no cad eirão d os St ark, ond e os Se nhores de Winterfell s e sentavam desde os tempos em que chamavam a si próprios Reis do Norte. A cadeira era de pedr a fria, polida por


incontáveis tr aseiros; as c abeças esculpid as de l obos s e l va ge ns ros n avam n as po nt a s d e s eus m aci ç os braç os. Bran ag arrou- as ao se sentar, com as inútei s pernas a bal ançar . O gr ande c adeir ão o f ez se ntir-se qu ase co mo um b ebê. Rob b p ous ou -lh e a mã o n o om br o. - Você disse que tinha ass unt os a tr atar com Bran. Pois bem, aq ui es tá ele, Lan nister. Bran estava desconf ort avelm ente conscie nte dos olhos de Tyri on Lannis ter. Um era ne gro e o outr o, verde, e amb os o olhav am, est ud an do-o, pes and o- o. - Disseram-me que era um bel o es calad or, Bran disse o hom enzi nho. - Di ga-m e, como cai u naquel e dia? - E u nunca - i n s i s t i u B r a n . E l e n u n c a c a í a , n u n c a , n u n c a , nunca. - O rapaz não se record a nada da qued a, ne m d a escalada que a precedeu - diss e Meistre Luwi n com gentilez a. - C urioso - T yrio n Lannis ter res po n deu. - Meu irmão não está aqui par a responde r a perguntas, L anni ster - Robb foi concis o no avi so. Trate logo do que o tr ouxe aqui e ponha- se a caminh o. - T enho um prese nt e par a v ocê - dis s e o a nã o a Br an. - Gosta de m ont ar a ca val o, ra p az? Meistre Luwi n adia nto u-se. - Se nh or , a c r i a nç a pe r d e u o u s o d as pe r na s . Não pode se sent ar s o bre um ca val o. - Besteira - L annis ter responde u, - Com o caval o e a sela certos, at é u m aleijad o pod e mont ar. A pal avr a


foi como uma faca es petada no coraç ão de Br an. Senti u lágrimas a subir-lhe aos olhos sem serem con vid adas. - E u não sou u m a l e i j a d o ! - Neste cas o, e u n ão sou um anão - retruc ou o anão, torce ndo a b oca. - M eu pai se ale gr a rá q ua nd o so ube r - Greyjo y riu. - Que tipo de caval o e sela est á sugerindo? perg un to u Meistr e Luwin. - Um caval o i nteli gente - Lannister respondeu. - O rapaz não pode usar as per nas par a diri gir o anim al , port ant o, tem de se ajustar o caval o ao c avaleir o, ensinar-lhe a responder às r édeas, à voz. Eu começ aria com um potro não domado de um ano, s em ensiname ntos antigos - tirou do cinto um pape l enrol ad o. - Entre gue isto ao seu fa bricante de selas. Ele tratar á do res to. Meistre Luwin recebe u o papel da mão do anão , curios o como um pe que no esquil o cinze nt o. Desenr olo u-o e o estud ou. - E s tou ve nd o. D e s e nh a be m , s e nho r . Si m , i st o d e ve funci on ar. De veri a ter pe ns ado nist o. - Para mim é mais fácil, Meistre. Não é muit o diferente das mi nhas selas. - Serei mesmo capaz de m ont ar? - perguntou Bran, Queria acr editar neles, m as tinha medo. Talve z f oss e ape nas mais uma me ntira. O c orvo pr ometer a-lhe que po deria vo ar. - Será - disse-lhe o anão. - E juro, m eu rapaz, s obre o dors o de um c av alo, ser á t ão alt o como qualquer deles.


Rob b St ark pare c eu co nfu so. - Isto é al gum a ar madilha, Lannist er? O que Br an represe nta pa ra v ocê? P or q ue q uer ajud á-lo ? - Seu ir mão Jon m e pedi u. E tenho um ponto fr ac o no cor ação por aleijados, bas tardos e c oi sas que bradas - Tyri on Lannister pôs a mã o s obr e o coraç ão e mostr o u os de ntes. A port a que dava par a o pátio f oi e scanc ar ada. A luz do sol j orrou pelo salão no moment o em que Rick on entrou de repe nte, sem fôlego. O s lobos gi gantes vinham com ele. O rapaz par ou n a port a, de olhos muito abert os, mas os lobos entraram. Seus olhos encontr aram Lannister, ou talve z tivessem far ejado seu odor. Verão foi o primei ro a começ ar a ros nar. Vento Cinz ent o j unt ou-s e a ele. Aproximaram-s e do homenzi nho, u m pela dir eita, o o ut ro pel a esq uer da. - Os lobos não apreciam se u che iro, Lannister come nto u Theon Greyjo y. - Talvez s eja h ora de me r etirar - di sse Tyrion. Deu um passo par a trás... e Cão Felpudo sai u das sombr as atrás dele, rosnando. L annister rec uou, e Verão preci pito u-se sobr e ele, vi ndo do o utro l ado. Cambal eou para longe, sobre pernas i nst áveis, e Vento Cinze nt o atac ou-lhe o braço, rasg ando-lhe a manga com os dentes e arr ancando um ped aço d e pa no. - Não! - g r i t o u B r a n d o c a d e i r ã o a o m e s m o t e m p o e m que os h ome ns d e Lannister agarraram as arm as. V e r ã o , aqui. V e r ã o , v e n h a ! O lob o gi g ante o uvi u a v oz, deu uma olha dela em Bran, e de n ov o em Lannis ter. Rastejo u p ara tr ás ,


par a longe do h omenzinho, e sentou-se sob os pés oscila ntes de Br an. Rob b prendera a respira çã o. Lar go u-a n um s us piro e chamou: "Vento Cinzent o". Seu lobo gi gante moveuse em su a direç ão, rápid o e sile ncios o. Agor a restava ape nas Cão Felpud o rugindo ao peque no homem, com os olhos ardend o com o fogo verde. - Ri c k on, ch am e - o - gr i t o u B r a n p ar a o i r m ã o m ai s no vo, e Rick o n, c omo que ac orda n do, grit ou: - Para casa, Felpudo, anda, par a c asa - o lobo negr o dirigiu a Lannist er um último rosnad o e s altou par a Rickon, que lhe d eu um abr aç o ape rtad o em tor no d o pesco ço. Tyrion L annister desenr olou o cach ecol, limpou com ele a test a e disse em voz mo noc órdi a: - Que inter essa nte. - E s t á be m , s e nh or ? - pe r g unt ou um d e s e us h om e ns , de espad a na m ão. Olhava ne rvosamente os l obos gig antes e nqu ant o fal av a. - T e nh o a m a ng a r as g ad a e os c al ç õe s úm i d os p or motivos inconfessáveis, m as nad a f oi fe rido, além d a minha di gnid ade. Até Robb pareci a abalad o. - Os lob os... n ão s ei por que fiz eram i sso. - Não há d úvi da d e que me c on fu ndir am com o ja nta r - L annister fez uma re verê ncia rígida a Bra n. Agrade ço-lhe por tê-los chamado, me u jovem. Garanto-lhe que me teriam achado bas tant e i n d i g e s t o . E a g o r a , realmente, r e t i r o - m e .


- Um moment o, senhor - disse Meistre Luwin. A pr o xi m ou- s e d e R ob b e os d oi s c onf e r e nc i ar am muito, aos s ussurros. Br an tentou ouvir o que diziam, m as su as vozes eram bai xa s demais. Rob b St ark fi nal mente em bai nho u a esp ad a: - Eu... eu posso ter me precipit ad o c om o se nhor. Foi bondoso c om Bran e, bem... - Robb re co nciliava-se com esforç o. - Ofereço-lhe a hospitalidade de Winterfell se assi m desejar, L a nni s ter, - Poupe-me de s ua falsa cort esia, rapaz. N ão gosta de mim e não me quer aqui. Vi uma estalagem f or a das suas m ur alhas, na vil a de inver no. Enc ontr arei ali uma c ama e amb os dormir emos m ais facilme nte. P or alg uns c obres até talvez e ncontre um a mulher agr adável que m e aqueça os le nç óis - virou-se par a um d os irmãos negr os, um homem idos o com a coluna torcida e a barba emar anhad a. - Yoren, seguim os par a o sul ao nas cer do dia. Enc ontre- me na estr ada - e retirou-se, atravessand o o sal ão c om dificuldade s obre as c urt as pernas, pass ando por Rickon e pel a p or ta. Se us home ns o seguir am. Os quatr o da Patrulha d a Noite ficaram. Robb viro u-se p ar a eles ap arent a ndo i nce rteza. - Mandei pre par ar aposentos, e não l hes faltar á água que nte par a lavar a poeira da es trada. Es per o que nos honrem com sua pres enç a à mesa esta noite Robb disse aquelas palavras d e for ma tão des astrada que até Bran notou; er a um discurso que tinha apre ndid o, não p alavras que lhe viessem do c or ação, mas os irmãos negr os agr adec eram-lhe da mes ma forma.


Verão se gui u pel os degr aus da torre quando Hodor levou Bran de volta par a s ua c ama. A Velha Ama tinha ad ormeci do na cadeir a. Hodor disse"Hodor", recolheu a bis avó e a le vou, r essonand o bai xi nho, deixand o Bran com se us pens ament os. Robb lhe prom etera que poderia parti cipar do festim c om a Patrulha da Noi t e no Sal ão Gr an de . - Verão - ele cham ou. O lobo saltou par a junt o d a cama. Bran o a br açou c om t anta f orça que se nti u o hálito quente d o anim al na bochec ha. - Agora posso mont ar - suss urrou par a o ami go. - Em breve pode remo s ir caç a r na fl orest a, espe re e ver á. Não de mor ou e Bran adormece u. No sonho est ava de novo esc alando, alçand o-se para o alto num a velh a torre se m janelas, forç and o os dedos e ntre pedr as enegr ecidas, com os pés lut ando por um pont o de apoio. Escal ou mais alt o, e mais alto ainda, atravess ando as nuvens e pe ne trando no cé u not urno, mas a t orre c onti nuava a erguer-s e à s ua frente. Quando fez uma pausa para olhar para bai xo, sentiu a c abeç a gir ar, entontecida, e se us dedos escorre gare m. B ran gri to u e a gar rou-se à vi da. A terra est ava a mil milhas de seus pés, e ele não sabia v o a r . Não sabia voar. E s p e r o u a t é q u e o c o r a ç ã o par asse de salt ar no peit o, até pode r res pirar, e recomeç ou a escalada. Não havi a caminh o que não fosse para cima. Bem alto, delineadas contra uma lua es br anquiç ad a, parecia poder ver as form as de gár gul as. Tinha o s braç os m achuc a dos, d oendo, m as não se atre via a descansar. For çou-se a subir mai s depress a. As gárgul as o obser varam. Se us olhos brilha vam verme lhos com o ca rv õ es qu entes n um


braseir o. T alvez t ivessem sido leõe s antes, mas agora estavam ret orcid as e grotesc as. Bran conseguia ouvilas segred arem umas às outras em suaves vozes de pedr a, terrí veis de ouvir. Não d evi a ouvir, disse a si mesmo, não de via ouvir; desde que não as ouviss e, estaria a s alvo. Mas, quand o as gár gul as s e libertar am da pe dra e perc orrer am o l ad o d a torre até onde Br an se agarrava, c om preende u que afinal não estava a s alvo."Eu não ouvi" chorami ngou, enquant o elas se apr oxim avam c ada vez mais."Eu nã o o uvi, nã o o uv i." Acordou sem fôle go, per dido na escurid ão, e viu um a vast a so mbr a q ue se ergui a so bre el e. - Não ou vi - suss urro u, treme nd o de medo, ma s então a s om bra disse "Hod or" e acendeu a vela ao lado d a c ama, e B ran s uspir o u de al ívio. Hodor limpou-lhe o s uor c om um pano mor no e úmid o e o vesti u com mãos hábeis e gentis. Quando chegou a hor a, t rans por tou-o até o Sal ão Grande , onde uma l onga mesa tinha sid o montad a pert o da fog ueira. O l ug ar do se nhor à c abecei ra d a mesa estava vazi o, m as Robb se nt ava- se à direita, c om Bran à sua frent e. Naquel a noi te, comeram leitão, torta de pombo e nabos nad ando em mantei ga, e, par a de pois, o c ozinheir o prome tera f avos de mel. Verão aboc anha v a rest os d a mes a que Br an lhe dava, enquant o Vent o C inzent o e Cão Fel pud o lutavam por um oss o num c a nto. Os lobos de Winterfell já não vinham para j unto da me sa. Bran achar a aquilo estranh o a princípio, mas já começava a se habituar, Yoren era o irmão negro de maior patente, e assim o inten dente fiz era-o sent ar-se e ntr e Rob b e Meistre


Luwin. O velho tinha um cheiro azedo, c omo s e há muito não t omas se banh o. Rasgava a car ne com o s dentes, quebr ava as cost eletas para sugar o t utano dos oss os, e encolheu os om bros quand o o nom e dej on Sn ow foi m encio na do. - A d es gr aç a d e S o r A ll i s e r - gr un h i u, e d oi s d e s e us companheiros par tilharam um a gar galhada que Bran não com pree ndeu. Mas, quando Robb lhes perguntou por notíci as de seu tio Be njen, os irmãos negr os fecharam-s e n um silêncio ag our ent o. - O que est á a co nte cend o? - Bra n p er gu nto u. Yoren lim po u o s dedos e m su as ves tes. - H á m ás n otí c i as , se nh or e s, um a m ane i r a c r ue l d e retribui r-lhes a carne e o hidr omel, mas o homem que faz a per gunta deve aguent ar a res post a. O Star k desa parece u. Um dos o utr os h o mens disse: - O Velho Urso o envi ou p ara o ext e rior em busc a de Wa ymar R oyc e, e ele aind a n ão v ol tou, se nhor. - Está muit o atr as ado - disse Y oren. - O mais certo é que es teja m orto. - Meu tio não está morto - exclamou Robb Stark em voz alt a e num t om irrit ad o. Er gueu-s e no banc o e p o u s o u a m ã o n o c a b o d a e s p a d a . - O u v i r a m - m e ? Meu tio não está morto! - s u a v o z r e s s o o u n a s p a r e d e s d e pedr a, e Bra n su b itamen te senti u medo. O velho e malchei roso Yoren olh ou par a Robb sem se impressi onar: - C om certez a, senh or - res po nde u, e sug ou os de nte s par a solt ar um fia po d e car ne preso . O mais n ov o d os


irmãos ne gros move u-se desconfortavelme nte no assent o: - Não h á home m na Mur alha que conheça a Floresta Assombr ada melhor que Benjen St ark. He enco ntr ará o ca mi nho de volt a. - B e m - d i ss e Y or e n - , t al ve z s im , t al ve z nã o. Já houve bons homens que entrar am nesse s bos ques e jamais volt aram. Tudo em que Bran c onse gui u pe ns ar f oi na hist ória da Velha Ama s obre os Outr os e o últim o herói, perse guid o atr avé s dos bosques brancos por m ort os e ara nhas t ão gr andes como c ães de caça. Se ntiu medo por um mom ent o, até s e lem brar de com o a história terminava, - Os filhos o ajud arão - Br an excl amou -, os filhos da flore sta! Th eon Greyjo y s olto u um riso a baf ado, e Meistr e Luwin disse: - Bran, os filh os da fl orest a morrer am e desaparec eram há milhares de anos. Tudo o que de le s resta sã o a s car as nas árv ores. - Aqui pode s er que seja verdade, Meistre - Yoren responde u -, mas lá, depois da Muralha, quem pode dizer? Lá em ci ma, um hom em nem sempre c ons egue saber o q ue est á v ivo e o q ue est á m orto. Naquela noite, depois dos prat os retirados, Robb levou, ele próprio, Bran par a a cama. Ve nt o Cinzent o abri a caminho e Verão vinha log o atr ás. O irmão er a for te par a a id ade, e Bran er a tão leve como um a tro u xa de tr ap os, mas a esc ad a e ra


íngrem e e estreita, e Robb resfolegava quando chegar am ao topo . Rob b c oloc ou B r an na ca ma, c ob riu-o e so pr ou a vela. D urante algum t empo, ficou sent ad o ao seu lado no e scur o. Bran quis f alar com ele, mas não sou be o que dizer. - Vamos e nc ontr ar um caval o par a você, prometo Rob b lhe disse fin alment e. - Será que eles algum dia voltar ão? - Bran perg un to u. - Sim - Robb disse , com tam anha e speranç a na voz que Bran s oube que est ava ouvindo o irm ão, e não ape nas R obb, o S enhor. - Nossa mãe virá par a cas a em bre ve. Tal vez pos samos s air a cavalo ao s e u encontr o quando ela chegar. Não acha que a surpr eend eria vê -lo montado? - mesmo no quart o escur o Bran pod ia sentir o s orriso do irm ão. - E depoi s iremos para o norte, ver a Muralha. Nem seque r avisare mos Jon, um d ia simplesmente chegarem os lá, vo cê e eu. S erá uma ave ntu ra. - Uma ave ntur a - repeti u Bran e m tom ansi os o. Então ouvi u se u irmão sol uçar. O quarto estava tão escur o que não conseguia ver as l ág rimas no rost o de Robb, por is so estende u a m ão e enc ontr ou a do irmão. Seus ded os entrela çar am-se.

Ed d ar d A morte de Lord e Arryn foi um a gr ande tristez a par a todos nós, se nhor - disse o Grande Meistre Pycelle. Ficarei mais qu e feliz cont and o-lhe tudo o q ue pu der


sobre se u fal eciment o. Mas, por favor, sente -se. Aceita um refresco? Tal vez alguma s tâma ras ? Tenho também uns c aquis m uito bons. Temo q ue o vi nh o não seja bom para minha di gest ão, mas poss o lhe oferecer uma taça de leite gelado adoç ado com mel, na mi nha o pi ni ã o , muito ref resca nt e neste c alor, O calor era inegável. Ned se ntia a túnic a de seda aderir ao seu peito. Um ar pes ado e úmido cobria a cidade como um cobertor molhado de lã, e a margem do rio tinh a se tornado i ngove r nável quando os pobres fugiram de suas cas as que ntes e sem ar par a se acot ovelare m por um lugar par a dor mir pert o da água, onde o únic o sopro de vent o podia s er enco ntr ado. - E muita gentile z a - Ned agr adec e u, senta nd o-se. Py celle er gu eu u ma mi nús cul a c a mp ai nha de prat a co m o indicad or e o pole gar e a fez soar suave mente . U ma jo vem e es b elta ser va a press ou-se a e ntr ar no a p osen to priv ado. - Leite gelad o par a a Mão d o Rei e par a mim, por fav or, filha. Bem doce. Enquanto a jove m ia buscar as bebidas, o Grande Meistre entrel aç ou os ded os e pousou as m ãos na barri ga. - O po vo diz que o último a no do v erão é sem pre o mais que nte. N ão é bem assim, mas m ui tas ve zes parec e que é, não é verd ade ? Em dias com o este, invej o-os, nortenhos, por s uas ne ves de ver ão - a corre nte pes ad am ente c arregad a de jóias em t orno d o pescoço d o velho tilint ou s uave mente quand o el e mud ou de posiç ão. - O certo é que o verão d o Rei Maekar foi mais qu ente do q ue este, e qu ase t ã o


longo. Houve t olos, até mesmo na Cidadel a, que pens ar am que isso signific ava que o Grande Ver ão tinha e nfim che gado. O ver ão que nunc a termi na, mas, no séti mo ano, o tem po mudou s ubi tame nte e tivemos um curt o out ono e um i nve rno t errivelm ente longo. De qual quer modo, o calor foi feroz enquant o durou. Vilavelha fumegava e suf oc ava d urante o dia, e ganhava vida à noite. Cos tum ávamos pas sear nos jardins junt o ao rio e discutir sobre os deuses. R e c o r d o o s cheiros d e s s a s n o i t e s , s e n h o r , p e r f u m e e suor, mel ões pro n tos para es tourar , de tão m ad uros, pêsse gos e r om ãs, erva- moura e flor-de-l ua. E u era então um jovem, ainda f orjando minha corre nte. O calor e nt ão não me deixava e xausto como h oje em dia - os olhos de Pycelle tinham pál pebr as tão pesadas que ele pareci a mei o adormecido. - Mi nhas descul pas, Senhor Eddard. Não veio ouvir divagações disparatad as acerc a de um verão que j á tinha sid o es quecido antes do nascimento de se u pai . Perdoe-me, se possível, os de vane ios de um velho. Temo que as me ntes sejam como espadas. As velhas enferr ujam. Ah, e aqui está o nos so leite - a criad a depositou a band eja entre eles e Pycelle lhe conc ede u um sorriso. - Q uerida cri anç a - e rgue u uma t aç a, saboreou- a e ace n ou com a cabeç a: - Obri gado. Pod e ir. Depois de a jovem se retir ar, Pycelle dirigi u a Ned seus olh os clar os e cheios de remel a. - B em, o nde está vam os? Ah, sim . Falá vam os d e Lorde Arryn...


- É verd ade - Ned tom ou um gole bem-educ ado d o l e i t e g e l a d o . E s t a v a a g r a d a v e l m e n t e f r i o , mas d o c e demais par a se u g osto. - A bem da verdade, a Mão já não parecia bem h á a l g u m t e m p o - d i s s e P y c e l l e . - J á n o s s e n t á v amos j unt os no c onselh o h avi a m uitos anos, el e e eu, e os sinais e stavam à vista, mas os debitei na conta dos gra ndes f ard os que s uportar a t ão fielmente dur ant e tant o tempo. Aqueles l argos ombr os est avam sobre carre gados c om t odas as pre oc upaçõe s do rei no, e mais ainda. Se u filho andava sem pre adoe nt ado, e a senhor a sua es p osa, t ão ansi os a , que quase nã o deixava que a crianç a s aísse de baixo de s ua vista. Era o bast ant e para c ansar até um homem f orte, e L o r d e Jon nã o e r a j o v e m . N ã o e r a d e s e a d m i r a r q u e parecesse mel ancólico e cansado. Pelo menos era o que eu pensava nesse tempo. Agora, no ent anto, tenho me nos certe zas - a ba no u g ra v emente a ca beç a. - O que pod e me di zer de su a d oenç a final? O Grande Meistre abriu as m ãos num gest o de desam par ad a má g oa: - Ele veio ter comigo um dia em busca de certo livro, t ão robus to e s adio como s empre, e mbora me parec esse que al go o pe rtur bava pr ofund ament e. Na manh ã se gui nte, estava r etorci do de d ores, d oe nte demais para sair da cama. Meistre Colemon pensou que se tratasse de um calafrio no estômago. O tempo estiver a que nte, e a Mão cost um ava gel ar o vinho, o que pode perturbar a digestão. Quando L orde Jon conti nuou a e nfraquec er, fui até el e, mas os deus es nã o me co nce de ram o poder de sal v á-lo. - Ouvi dize r q ue af asto u Meistre Col emon.


O aceno do Gr and e Meistre foi tão lento e d eliber ad o como geleir a se de rretend o. - Sim, o af astei, e t emo que a Senh or a Lys a n un ca m e pe r d oe . T al ve z t i ve ss e c om et i do um e rr o, m as naquele mome nto foi o que me parece u melhor. M e i s t r e C o l e m o n é p a r a m i m c o m o um f i l h o , e n ã o h á ningué m que mais estime s uas capacidades, mas ele é jovem, e muit as vezes os jovens não se d ã o c ont a d a fragilidade de um corpo mai s velho. Ele estava tratand o Lorde Arryn c om poç ões desg astantes e sumo de pime nt a. Temi que pud ess e matá-l o. - Lorde Arryn lhe disse al guma cois a d urante s uas últimas h oras ? Pycelle enr u go u u ma so bra ncelha. - N o es t ági o f i n al d e sua f e br e , a M ão gr i t ou v ár i as v e z e s o n o m e Robert, m a s e u n ã o s a b e r i a dizer s e chamava pel o filho ou pelo rei. A Se nhora Lys a não permiti a que s eu filho entrasse no quarto, teme nd o que també m ele caísse doe nte. O rei veio e ficou sentado ao lad o da c ama durante horas, f aland o e gracej ando de tempos há muito pass ados, na esper anç a de ali ment ar o ânimo de Lorde Jon. Se u amor er a di gn o de se ver. - Nada m ais a co nte ceu? Ne nh um a úl tima p ala vra ? - Qua ndo vi q ue t oda a esp era nça tinha es ca pa do, dei à Mão o leit e de papoula, par a que nã o sofresse. Antes de f echar os olhos pel a última ve z, segredou alg o ao rei, e à senhora s ua esposa, um a bênção par a o f i l h o . A semente é forte, ele d i s s e . N o fim, s e u d i s c u r s o estava por dem ais conf uso par a se r compr eendi do. A morte só chego u na manhã seguinte, mas, de poi s disso, S or Jo n fi c ou em pa z. Não v olto u a falar.


Ned be be u m ais um pouco de leite, tent ando não s e eng asg ar c om su a doçu ra. - P ar e c e u- l h e h a ve r al g o d e n ão n a t ur al n a m or t e d e Lorde Arryn? - Não natural? - a voz do idoso meistre era fina como um sus piro. - Não, não diria iss o. Triste, com tod a a certeza. Mas, à sua maneira, a morte é a c oisa mais nat ural de todas, Lorde Eddard. Jon Arryn agora d e s c a n s a e m p a z , p o r fim a l i v i a d o d e s e u s f a r d o s . - Essa doe nç a que o ac omete u - Ned volt ou a falar. Algum a vez viu algo de semelhante em outr os homens ? - So u Gr and e Mei stre dos Sete R einos há quase quarenta anos - Pycelle respondeu. - Sob o rei nado do noss o bom Robert, ant es dele sob Aerys Targar ye n, sob o pai deste, Jaehaerys Se gund o, e at é durante curt os meses sob o reinad o d o pai de Jaehaerys, A eg on, o Af ort unad o, o Qui nt o de Se u Nome. Vi mais doenç a d o que gos taria de re cordar , senhor. Digo-lhe ape nas ist o: cada caso é difer ente, e todos os cas os são semelhantes. A morte de Lorde Jo n n ão f oi mais e stra nha q ue q u alquer out ra. - Sua espos a pe ns a o co ntrári o. O Grande Meistre acen ou c om a ca beça. - Agor a me lembr o, a viúva é irm ã de s ua nobr e espos a. Se se po de perd oar a um velho seu disc urso direto, permit a-me que lhe diga que a dor pod e desequilibr ar até a mais forte e disci plinada das mentes, e a da Senhora Lys a nunc a foi assim. Desde o seu últim o natimorto que vê inimigos em cada sombr a, e a m or te do se nhor se u espos o a dei xou destroç ad a e per d ida.


- Então, tem total certeza de que Jon Arr yn m orre u de um a doe nç a sú bita ? - T enho - Pycelle respo nde u g ra ve mente. - Se n ã o foi doe nç a, meu b om senh or, q ue m ais p oderi a ser? - Venen o - su geriu Ned com a v oz c a lma. Os olhos sonole nt os de Pycelle abriram-se de s úbit o. O idoso meistre agit ou-se desconfort avelment e no assent o. - Um pe nsament o pert urbad or. N ão e stam os nas C i d ad es L i vr es, ond e t ai s c oi s as s ão c o m uns . O Grand e Meistre Aethelmure escreveu que todos os homens carr egam o h omicídi o no c oraç ão, mas mesmo assim o enve nenad or m erece menos que desprez o - o velho cai u e m silê ncio por um moment o, pens ando de olhos perdi dos. - O que está sugerindo é possí vel, senhor, mas não pe nso que seja pr ovável. Qual quer meistre ignorante c on hece os ve ne nos comuns, e o Se nh or Arr yn não mos trava nenh um d os sintomas. E a Mão era amada por todos. Q ue tipo de monst ro em for m a humana se atr e veria a assassi nar um senh or tã o n o bre? - Tenho ouvi do dizer que vene no é um a arm a d e mulher. Pycelle af ag ou a bar ba pen sati vam ente. - É o que se diz. Mulheres, cov ard es... e eun ucos limpou a gar gan ta e cuspi u um espess o gl obo d e muco para os juncos. Acim a del es, um c orvo gras nou sonoramente. - Lorde Var ys nas ce u escravo em Lys , sabi a? N unc a de p osite confia nç a e m aranhas, se nho r. Aquil o não era pr opri ame nte algo que Ned precis ava que lhe fosse dito. Havi a qual que r coisa em Varys que o arr epi av a.


- Eu me lembr arei do c onselho, Meis tre. E agr adeç olhe pela ajud a. Já tomei bast ant e do seu tempo Ned pôs -se em pé. O Grande Meistre Pycelle er gue u- se lentament e da cadeir a e ac om pa nhou Ne d até a p orta. - Espero que tenh a ajud ad o um pouco a acalm ar a sua me nte. Se houver algum outr o serviço que e u lhe poss a pr estar, bas ta pe dir, - Há um a coisa - d isse-lhe Ned. - Tenho curi osid ade em exami nar o l ivro que em prestou a Jon um dia antes de cair e nfe rmo. - Temo que sej a de pouco inter esse - disse Pycelle. Foi um sole ne volume escrit o pelo Grande Meistre Malleon s ob re as l inhage ns d as gr a n des Casas. - De qu alquer m od o, go stari a de vê -l o. O velho a briu a p orta. - Como desejar. Te nho-o guardado por aqui. Q uand o enco ntr á-lo, m an d arei imedi at ame nte en treg ar-lhe. - O senhor f oi de grande c ortesi a - disse-lhe Ned. E então, c omo se al go lhe ti vesse ocorrido r.e r epe nte, disse: - Uma última per gunt a, se sua bondade me permite. O se nhor me nci onou que o rei este ve à cabec eira de Lor de Arryn quand o morreu. Pergunt o se a rai nha o ac o mpa nha va. - Ora, não - Pyce lle respond eu. - Ela e os filhos e s t a v a m a c a m i n h o d e R o c h e d o C a s t e r l y , em companh i a do pai . O Senh or Tywi n ti nha trazi d o um séquito até a cidade para o torneio do dia do nome do Prí ncipe Joff rey, se m d úvi da esper a ndo ve r o filho Jaime ganhar a coroa de campeão. Mas ficou tristement e des apont ad o. Caiu so br e mim a taref a d e


envi ar à r ainh a a notíci a d a nor t e súbita de Lorde Arryn. N unca antes enviei uma ave de cor aç ão mais pesa do. - A sas e s c ur as , pa l avr as e s c ur as - N e d m ur mur o u. Era um pr ové rbi o que a Velha Ama lhe ensinar a qu an do aind a er a um ra pa z. - É o que dizem as mulheres d os pesc ad ores conc ord ou o Grande Meistre Pyce lle -, mas sabemos que nem sem pre é assim. Quand o a ave de Meistre Luwin trouxe a notíci a sobre seu filho Bran, a mens agem aquece u todos os cor ações verdadeiros d o castelo, nã o é ver dade ? - É bem assim, M ei stre, - Os deuses são mi sericordi osos - P ycelle incli nou a c a b e ç a . - V i s i t e - m e s e m p r e q u e d e s e j a r , Senhor Eddard. Est ou aq ui p ara ser vir. Sim, p e n s o u N e d q u a n d o a p o r t a s e f e c h o u , mas a quem? No ca minho de volt a a os s eus a pose nt os, de par o u com a filha Ar ya nos de gr aus em e spiral d a Torre d a Mão, girando os br aços e nquant o l utava para s e equili brar sobre uma per na. A pedra ásper a ti nha esfola do se us p és nus. Ned p aro u e olhou par a el a. - Arya, o q ue est á f azen do ? - Syr i o d i z q ue um d anç ar i no d e ág ua é c ap az d e s e apoiar num ded o do pé durante horas - suas m ãos bater am o ar em busc a de e quilí bri o. Ned foi o brig ad o a sorrir. - Qual d os ded os? - ele brinc ou. - Qualquer d e d o - A r y a r e s p o n d e u , e x a s p e r a d a c o m a perg un ta. S alto u da per na direit a para a esq uerd a ,


oscilando perigosame nte antes de recuperar o equilí brio. - P reci sa fazer i ss o aq ui ? - el e pe rgu nto u. - Uma que d a por est es d egra us é lo n ga e d ura. - S y r i o d i z q u e u m d a n ç a r i n o d e á g u a nunca c a i - e l a abaixou a per na par a se apoi ar nas duas. - Pai, Bran virá ag ora vive r c on osco ? - Não dur ante m ui to tempo, q uerid a - ele res po nde u. - Ele preci sa r ecuper ar as f orç as. Arya mo rde u o lábi o. - O que Bra n f ará q ua ndo f or cres cid o? Ned ajoelh ou-se ao seu l ado. - Ele tem muitos anos para enc ontr ar est a res posta, Arya. Por or a, b a sta sa ber que vi ve rá - na n o i t e e m q u e a a v e c h e g a r a d e W i n t e r f e l l , E d d a r d S t a r k l e v a r a a s f i l h a s a o b o s q u e s a g r a d o do castelo, um acre de olmos, amieiros e choupos que pair avam sobre o rio. Ali, a ár vor e-coração era um gra nde car valh o , cujos anti gos ramos estavam cober tos de tre padeiras de bagas -fumo; eles ah s e ajoelhar am par a dar graç as, c omo se f osse um represeir o. Sansa ad ormec eu ao nascer da lua, Ar ya, várias horas m ais tarde, enrol ando-se na erva s o b o manto de Ned. Ele mant eve a vigília s ozi nho pel o rest o das horas de som br a. Quand o a m adr ugad a s urgi u s obre a cidade, os bot ões ver melho-escuros d e sopros -dedragão r ode avam as filhas. - Sonhei com Bran - segredar a-lhe Sansa. - Eu o vi sorrindo.


- Ele ia ser um cavaleir o - A rya agor a est ava dizend o. - Um c avaleir o d a Guard a Real. Ai nda pode ser um c avaleiro ? - Não - Ned respondeu. Não via ne nhuma razão para menti r. - M as um di a pode ser se nh or de um grande castelo e sentar-se no c onselho d o rei. Pode er gue r castelos como Br and on, o Cons trutor, ou diri gir um navio pelo Mar d o Poente, ou e nt rar pa ra a Fé da s u a m ã e e t o r n a r - s e A l t o S e p t ã o - mas nunca mais correrá ao lado de seu lobo, p e n s o u c o m u m a t r i s t e z a t ã o p r o f u n d a q u e a s p a l a v r a s n ã o e r a m s u f i c i e n t e s , ou deitar-se com uma mulher, ou tomar nos braços o próprio filho. A r y a i n c l i n o u a cabeça, para u m l a d o . - E eu p osso ser co nsel h ei ra do rei , c onstr ui r castel os ou me t or nar Alt a Sept ã? - Você - disse Ned, dan do-lhe um s u a ve beijo na test a - casará c om um rei e gover nar á s eu castel o, e seus filh os serã o ca va leiros, prí nci pes e senhores e, sim, talvez mesmo um Alto Se ptã o. Arya fez um trej e ito. - N ã o - e l a p r o t e s t o u - , e s t a é a Sansa - d o b r o u a perna dir eita e voltou aos exercí cios de equilíbri o. Ned sus piro u e a deixo u ali. No interior de seus apose nt os, despi u as sedas manch adas de s uor e despej ou água pela c abe ça abaixo. Alyn e nt rou no mome nt o em que secava o rosto. - Se nh or - di ss e - , L or de B ae l i sh es t á l á f or a e pe de audiê nci a.


- Acompanhe- o a o meu apose nt o pr i vad o - disse Ned, estende nd o a m ão para uma t úni ca fresc a do m ais leve linho que c onseguiu e nc ontr a r. - Eu o receberei de imediat o. Quando Ned entr ou, e nc ontr ou Mindi nho empoleirado no assent o na frente da janel a, obser vand o o tre ino com es padas dos cavaleir os da Guard a Real no p átio l á embaixo. - Se ao me nos a mente do velho Sel my fosse tão ágil como s ua arma - ele disse com mel ancolia na voz -, as reuniões do noss o conselho seriam be m mais anim ad as. - Sor B arrist an é tão valente e respeit ável c om o qualquer homem em Port o Re al - Ned ti nha um prof undo res peito pel o idos o e grisalho Senh or Coman da nte d a G uard a Re al. - E igualme nte cansati vo - acresce ntou Mindinho. Embor a me atr eva a dizer que el e de verá conseguir bons result ad os n o torneio. No ano passado derr ubou o Cão de C aça, e foi cam peão há não m ais de quatr o anos. A questão d e quem poderi a venc er o tor neio não interess av a ne m u m po uco a Edd ar d Star k. - Há al gum motivo par a est a visi ta, Lorde Petyr, ou está aqui ape nas par a apreciar a vista d a minha janel a? Mindinho s orriu. - Prometi a Cat que o aj udari a na s ua investigaç ão, e foi o que fiz. Ned foi a p anh ado de su rpres a. Com o u se m prom essas, nã o er a ca paz de c onfi a r em Lorde Petyr


Baelish, que lhe pareci a m uitíssimo m ais i ntelige nt e do q ue de veri a. - Tem algo para m i m? - Alguém - M i n d i n h o o c o r r i g i u . - Q u a t r o , n a v e r d a d e . Ch egou a pe nsa r e m interr og ar os cr iados da Mã o? Ne d fra nziu as so bra ncelhas. - Gostari a de pode r fazê-lo. A Senh ora Arr yn le vou sua comitiva de volta para o Ni nho da Águia. - Nisso Lysa não lhe fez nenh um f avor. Todos os que tinham sido próximos d o marid o par tiram com ela quand o fugi u: o mei stre de Jon, se u i ntendente, o capitão de sua gu ard a, seus c av aleiros e c riad o s. - A maior parte d a s u a c o m i t i v a - d i s s e M i n d i n h o - , mas não t oda. H á alguns que continuam aqui. Um a criada de cozi nha gr ávid a, c asada às pressas c om um dos cavalariç os d e Lorde Renly, um m oço que s e juntou à P atrulha da Cid ade , um aj udante de taber na e xpuls o por roubo t o escudeir o de Lor d e Arryn. - Seu es cudeiro? - Ned estava agr adavelme nte surpr eso. Um escudeir o sabi a frequente ment e r.uito das id as e vi nd as de seu se nhor. - Sor H u gh d o V al e - M i nd i nh o o id e nt i f i c o u. - O r ei o arm ou c a valeir o ap ós a m orte de lorde Arr yn. - M and arei b usc á- l o - disse Ned. - E os o utros. Mindinho est reme ceu. - Senh or, ve nha a t é aq ui à ja nel a, p o r fav or. - Por q uê? - Venha e lhe most rarei, senh or. De cenho fra nzi do, Ned atr aves sou a s ala até a janel a. Petyr Ba e lish fez um gest o casu al.


- Ali, do outro l ad o do páti o, em fr ente d a porta d o armeir o, vê o r ap az ac oc orad o j unt o aos de graus que pass a u ma pedr a de afiar pel a esp a da? - Que tem ele ? - Responde a Varys. A Ar anha tomou gr ande interesse pel o senhor e por t udo o que f az — m ud ou de lugar no asse nto. - Olhe agor a par a o mur o. Mai s atrás par a oeste, por cima das cavalariç as. Vê o guard a enc ost ado ao par apeit o? Ned viu o home m . - Outro d os s opr ad ores de se gred os d o eu nuc o? - N ão, est e pe r te nce à rai nh a. Note que el e se benefi cia de um a boa vis ão para a port a dest a t orr e a fim de melhor anotar quem o pr ocur a. H á outr os, muitos deles desconhecid os mesmo par a mim. A Fortalez a Vermelha está cheia de olhos. P or que ach a q ue esc on di Cat nu m b ordel? Eddard Star k não sentia ne nhum a preço por aquel as intrig as. - P e l o s s e t e i n f e r n o s - p r a g u e j o u . Realmente p a r e c i a que o homem sobre o muro o obser vava. Subitam ente desconf ort ável, Ned afast ou- se da janel a. - Será que tod o mundo é informante de alg uém n esta m al dita cid ade? - Quase - Mindi nho respond eu, e contou com os ded os da m ão. - Or a, o se nhor, e u, o rei... se bem que , agora que pe ns o nisso, o rei cont a à rainh a muit o mais d o que devia, e não est ou t otal mente se gur o a respeit o dele - pôs-se em pé e continuou: - H á algum homem a se u ser v iço em ru em co nfie por i nteiro ? - Sim - Ned res po n deu.


- Neste cas o, pos suo um paláci o enca ntador em Valíria que ad oraria lhe ve nder - disse Mindi nho com um s orriso irônico. - A r esposta mais se nsata s eria não, s e n h o r , m a s , q u e s e j a . E n v i e e s t e s e u m o d e l o d e perfeiç ão a Sor H ugh e aos outr os. Suas id as e vinda s serão detec tad as, mas nem mesm o Varys, a Aranha, é capaz de vi giar tod os os homens ao seu ser viço toda s as hor as d o dia - e ãiri giu-s e par a a port a. - Lorde Petyr - Ne d chamou. - ...Si nto-m e grato por sua aj ud a. Talvez tivesse sido errado de minha part e desco nfiar de v oc ê. Mindinho afa go u sua peq ue na bar b a p onti ag ud a. - É lento par a a pre nder, Se nhor Edd ard. Desconfiar de mim foi a c oisa mais se nsata que fez desde que desceu d e seu c a valo.

Jo n Jo n m o s t r a v a a D a r e o n a m e l h o r m a n e i r a d e d a r u m gol pe l ateral qua ndo o novo rec ruta e ntro u no pátio de treinos. - Seus pés precis am est ar mais afast ados - ele insistia. - Não va i querer per der o equilíbri o. Assim está bem. A gor a, gire ao golpe ar, ponha t od o o se u peso atrá s da arm a. Dareo n p aro u e le va nto u o visor. - Pelos sete de uses - Da reo n m urm uro u. - Olha s ó par a isto, Jo n. Jon se vir ou. Pel a fe nd a d o elm o c onte mpl ou o rapa z mais gordo que j á vir a, parado à port a d o arm eiro. Pelo as pecto, dev ia pes ar u ns ce nto e trinta quil os. O


colari nho de peles de s ua c apa bord ada pe rdia-s e s ob seus múlti plos quei xos. Olhos claros movi am-se nervos ament e na quel a grande c ara redond a que mai s pareci a uma l ua, e dedos rech onchudos e suados limpa vam -se n o v eludo do gib ão. - Diss... disseram- me que de via vir até aqui para... par a o trei no - ele disse, pa ra nin gu ém em espe cial. - Um fidal go - Pyp fal ou par a Jon. - Do Sul, mais pro vável da zona de Jardim de Cima - Pyp vi ajar a pelos Sete Reinos com um a trupe d e pantomim eiros e vangl oriava- se de ser capaz de dizer que m eram e de onde vinh am as pessoas com que m fala va só pelo som de s uas vo zes . Um caç ador and ante tinh a sid o borda do em fi o escarlate no peit o do mant o de pele s do ra paz gordo. Jon não rec onhe ceu o sím bol o. Sor Alliser Thorne deu u ma olhadel a no no vo r ap az a seu car g o e disse: - P are ce que f ic ar am s e m c aç ad or e s f ur ti vos e l ad r õe s l á no S ul . Ago r a n os m an d am p or c os p ar a guarne cer a Mur alha. Ser ão as pel es e o velud o s ua noç ão d e arm ad ur a, meu Se nh or d o Presunt o? Não dem orou muito e todos perceberam que o nov o recrut a trouxer a consi go s ua própria arm adura: um gibão almofadad o, c our o fer vido, cot a de malha, chapa met álica e um elmo, e até um gra nde esc udo de madeir a e couro de cor ado c om o mes mo caç ador and ante que us ava no m anto. Com o nada d aquilo er a negr o, Sor Alliser insistiu que o r apaz se ree qui pas s e no arm eiro, o que demorou metade da m anhã. Sua largura levou Donal N oye a ter de desm ont ar um a cota de m alha para nel a adici onar painéi s de couro dos dois lad os. P ara lhe p ôr um e lmo na ca beç a, o


armeir o teve de remover o vis or. Os cour os ficar am tão apert ados nas pernas e por bai xo dos braç os qu e o meni no quase não consegui a se mexer. Vesti do par a a batalh a, o novo r apaz par ecia um a salsich a inchad a depois de tanto cozimento, a pont o de arreb ent ar. - Esperemos que não sej a tão inept o com o parece disse Sor Alliser. - Halder, vej a o q ue Sor P orqui nho sabe f azer. Jon est remece u. Halder tinha nasc ido numa ped reira e f o r a a p r e n d i z d e p e d r e i r o . T i n h a d e zesseis a n o s , e r a alto e m usc ulos o, e se us gol pes eram os m ais d ur os que Jo n já e xp eri ment ara. - Isto vai ser m ais feio que a b un d a de um a put a murm uro u Py p. E foi mesm o. Demorou menos de um minut o de luta até o gordo cair no chão, com seu cor po tremend o enquant o sangue j orr ava a través do elmo estilhaçad o e por entre o s ded os rechonchud os, - Rendo-me - ele guinchou. - Bast a, rend o-me, não me batam - Rast e alguns d os outros rapaz es começ aram a rir. Mas mesmo assim Sor Alliser nã o p ôs fim a o ass u nto. - Em pé, Sor Por quinho - gritou. - Pegue a espad a ao ver que o rapaz conti nuava i ner te ze chão, Thor ne fez um g esto par a Halder. - B at a- l h e c om o l ad o d a e s pa d a at é e nc o nt r ar se us p é s - H a l d e r d e u u m a p a n c a d a e x p l o r a tória n a inchad a bochecha do ad versário. - Você é capaz de bater com mais força que iss o - censurou Thorne. Halder pe gou a espada com am bas as m ãos e a deixo u c air com tant a for ça que o g olpe r asg o u o


cour o, m esmo estand o do l ad o c on trário a o c orte. O no vo rec rut a g ui n chou de d or. Jo n deu um p a s so à fren te. Py p po us ou a m ão revestid a de c ota de malha em seu braç o. — J o n , não - o p e q u e n o r a p a z f a l o u e m t o m sussur rante, com um ansios o olhar de relanc e para Sor Alliser Thor n e. - Em pé - repetiu Thorne. O gord o lut ou par a s e ergue r, escorr eg ou e voltou a c ai r pesadame nte no chão. - S or Por qu inho c omeç a a co mpree nder a idéia - S o r A l l i s e r o b s e r v o u . - Outra v e z . Halder er gu eu a e spad a p ar a desfer ir outr o g ol pe. - C orte um pres unt o p ara nós! - ped i u Rast, ri ndo. Jo n af asto u a mã o de Py p. - H a l d e r , basta. Halder olhou pa r a Sor Alliser. - O bastar do fal a e os campones es tremem - disse o mestre de armas na sua voz aguç ada e fri a. Recordo-lhe que o mestre de armas aqui sou eu, Lorde S now. - Olhe para ele, Halder - pedi u Jon, ignorando Thorne o melhor que pôde. - Não há honra em espanc ar um adversári o c aído. Ele se rende u ajoelho u-se ao l a d o do r ap az gord o. Halder bai xo u a e spad a. - Ele se rende u - re petiu nu m eco. Os olhos cor de ô nix de S or Alliser estav am fixos e m Jo n S now: - Diria que noss o bastar do se apai xonou - ele disse , enquant o Jon aj udava o gor do a pôr-s e em pé. Mostre-me se u aç o, Lorde Snow.


Jon puxou a espada. Atre via-se a desafiar Sor Allise r só até cert o po nt o, e temia que tivesse scabado d e ultra pas sar m uito este po nt o. Thor ne sorri u. - O bast ardo desej a defe nder s ua amad a, portant o, vamos fazer dis to um exer cício. Rato, Borbulha, ajude m aqui o Cabeç a Dura - Rast e Albe tt junt aram- se a Halder. - Três de voc ês de vem ser suficientes par a f azer a Senhor a P o rqui nha gui nchar. Tudo o q ue têm a fazer é p ass ar pel o Bast ardo. - Fica atr ás de mi m - Jon disse para o gor do. Sor Alliser com frequê ncia e nvi ara dois adver sários contr a ele, mas nunc a três. Sabia que pr ovavelme nt e iria dormir f erido e ensangue ntad o naquel a noite. E prep ar ou-se par a o ass alto. De repe nte, Py p pôs-se ao s eu l ado . - Três contr a d ois fazem uma dis put a melhor - diss e alegre mente o peque no rapaz. Abai xou o vi sor e puxou a es pada. Antes que Jon conse guisse se quer pens ar em prot est ar, Gren n tinh a s e junt ado a eles. O pátio ficou m ortalme nte sile ncioso. Jon conse gui a sentir o olhar de Sor Alliser. - Estão à esper a d e quê? - pergunt ou o mestre de armas a Rast e aos outros, numa voz que s e tor nar a eng anad oram ente suave, m as foi J on que m se move u primeir o. Halder quase não consegui u er guer a espada a tempo. Jo n o fez rec uar, atac an do a c ad a gol pe, ma nten do o r a p a z m a i s v e l h o n a d e f e s a . Conheça o seu adversário, ensinara-lhe há tempos Sor Rodri k; e Jo n conheci a Halder, br utal mente f orte, mas de paciênci a curt a, sem gosto pela defesa. Frustre-o e ele se abre como o pôr d o sol.


O tinir do aço ressoou pel o páti o q uando os outros à sua volta se juntar am à batalh a. Jon par ou um viole nto gol pe l anç ad o à sua cabeç a, senti ndo o choque d o impact o a c orrer-lhe pelo br aç o quand o a s espadas se choc aram. Lanç ou um golpe later al nas costelas de Halder e foi recompens ad o com um grunhido abaf ad o de dor. O c ont r a-at aque apanhou Jon no ombr o. A cota de malh a ressoou com o se algo a tritur asse, e um relâm pago de dor s ubi u-lhe ao pescoço. Por um i nstante Hal der perdeu o equilíbri o, e Jon golpe ou-lh e a per na es querda, faze nd o-o c air com u ma pra ga e um estr ond o. Grenn manti nha-se firme com o Jon lhe ensi nara, dando m ais trabalho a Albett do que este gost aria. Mas Pyp est ava s ob grande pre ssão, Rast tinha d ois anos e quase vinte quil os a mais que ele. Jon apr oxim ou-se dele por tr ás e fe z ressoar se u elmo como se foss e um sino. Quando Rast começou a cambale ar, P yp pass ou por baixo de s ua guar da , atirou-o ao ch ão e apontou a es pada par a s ua gar ga nt a. P or e s s a al t ura Jo n j á t i nh a p as s ad o adia nte. Enfr ent a ndo du as esp ad as, Albett rec uo u, - Rendo -me - ele g r itou. Sor Alliser Thorne ins pecionou a cena c om repu gn â ncia. - A pant omim a j á se prolo ng o u o s uf iciente p or hoje - ele prote stou e se afast ou. A sessão ti nha chegad o ao fim. Dareon aj udou Halder a pôr-s e em pé. O filho do pedreir o arr ancou o elm o e atir ou-o par a o outr o lado d o páti o.


- P or u m i nst a nt e pe ns e i qu e f i na l m e nt e o ti nh a peg ad o, S now. - P or um i ns t an t e pe g ou m e s m o - Jo n r e s po nd e u. S o b a c ota de malh a e o couro seu ombro lat ejava. Embai nhou a espad a e tent ou ti rar o elmo, mas, qu an do er gue u o braç o, a d or o fez ran ger os dent es. - P e rm i te - me ? - pe r gu nt o u um a v o z . M ãos d e de d o s gross os des ataram o elmo do gor jal 2 e ergueram-no cuida dos ame nte. - Ele o feriu? -Já f ui feri do antes - Jon tocou no ombr o e estremece u. O p át io em red or se es vazia va. Sangue mancha va o cabelo d o rapaz gord o no loc al onde Halde r lhe q uebr ar a o elm o. -Meu nome é Sam well Tarly, de Monte... - c alou-se e l a m b e u o s l á b i o s . - Q u e r d i z e r , e u era d e M o n t e C h i f r e até que... parti. Vim vestir o negr o. Meu pai é Lord e Rand yll, um vas s alo dos Tyrell de Jardim de Cima. Era seu herdeir o, só q ue... - su a v oz se extin gui u. - So u Jo n Sn ow, b astar do de Ned S tark, de Winterfell. Samwell Ta rly fez um ace n o com a cabeç a. - Eu... se quiser pode me cham ar de Sam. Mi nha m ãe me chama assim. - E voc ê pod e c h am á- l o L o r de S n o w - d is se P yp enquant o se aproximava. - Não vai querer com o a mãe o ch ama. - Estes dois s ão Gr enn e P yp ar - diss e Jo n. - Grenn é o feio - di sse Pyp. Gre nn fr an ziu as sobr an celhas.

2

Gorjal: nas armaduras, a parte que protege o pescoço.


- Você é mais feio que eu. Pelo m enos não te nho orelhas de m orce go. - O s meus a gra dec i mentos a to dos - o rap az g ord o disse gr avem ente. - Por que não se levantou e lutou? - Grenn qui s saber. - Eu queria, garant o. Só que... não pude. N ão queri a q u e e l e m e b a t e s s e m a i s - o m e n i n o ir l i x o u o s o l h o s . – Eu... temo que seja um covard e. O senhor meu pai sempre dis se isto. Grenn pareceu at ingid o por um raio. Até Pyp não conse guiu enc ont rar pal avras para responder àquil o, ele, que tinh a pal avr as par a t udo. Q ue ti po de homem se pr ocl a ma um c o vard e? Samwell T arly deve ter lid o os pensame ntos naquele s rostos. Se us olh os enc ontr aram-se com os de Jon e fugir am, rá pid os c omo ani mais ass u sta dos. - Eu... eu lame nto - ele se desculpo u. - Não q ueri a ser... ser c om o sou - e cami nhou pes adament e na direção do armeir o. Jo n grit ou: - Você foi feri do - e le disse. - Ama nhã far á melhor. Sam olho u p or so bre o omb ro c om ar fú neb re. - Não, não far ei - o menino res ponde u, piscand o par a reter lágrimas. - Eu nunc a f aço me lhor. Depois de ele sair, Grenn franzi u as s obr ancelhas . - Ninguém gost a de covar des diss e desconfort avelmente. - Era melhor que não o tivésse mos aj ud ado. E se os outr os pe ns arem que tamb ém som os c o vard es?


- Você é est úpid o d emais p ar a ser co vard e - disse-lh e Pyp. - Não s ou nad a - G renn r eb ateu. - Ê, sim. Se um urso o atac asse nos bos que s, seria estúpi do d emais p ara f ugir. - Não seri a nada - Grenn i nsistiu. - Fugiria m ai s depress a que você - e parou de repente, risc ando os olhos ao ver o sorriso de Pyp e ao per cebe r o que aca bar a de di zer. Seu gr oss o pes coç o fic ou ver melhoescur o. Jon os deixou ali discutindo e vol tou ao armeir o, pend urou a espad a e tirou a arm adur a deform ad a. A vida e m Castelo Negr o se gui a certos pad rões; as manh ãs er am de dicad as à es grima, e as t ardes, ao trabalho. Os irmãos ne gr os atribuí am aos novos r e cr ut as m ui t as t ar e f a s di f e re nt es , par a v e r o q ue sabi am f azer. Jon ad orava as r aras tardes em que era envi ad o para a floresta com Fantasm a a fim de trazer caç a par a a mes a d o Se nhor Comand ante, mas par a cada di a passad o a c açar, doze eram de D onal Noye, no armeiro, gir ando a roda de amolar e n q u a n t o o f e r r e i r o d e um b r a ç o s ó a f i a v a m a c h a d o s cegos pel o us o, ou manejand o o fo le enquant o Noye bati a o met al ie uma nova es pada. Nos outr os dias, distribuía mens agens, montava guarda, limpava estábulos, col ocava penas nas s etas, dava assistê nci a a Meistre Aem on com s uas aves ou a B owen Marsh com su as c ont as e inve ntári os. Naq uela t arde, o coma nda nte d a guar da o en vio u p a r a a g a i o l a d o g u i n d a s t e c o m q u a t r o b a r ris de pedr a rec ém-esm agad a, par a q ue es palhass e c ascalh o


sobre os cami nhos gel ados do topo da M uralha. Era um trabalho s ol itário e abor rec ido, mesmo com Fantasma lhe faz endo c ompanhia, mas Jon desc obriu que não se impor tava. Num dia cl aro, podia-se ver metade do mundo do topo da Muralha, e o ar estava sempre frio e tonificante. Ali podi a pe nsar, e de u por si pens ando em Samwell T arly... e, estra nhame nte , em Tyrion Lannister. Gostaria de saber o que Tyrion f a r i a c o m o r a p a z g o r d o . A maioria dos homens mais depressa nega uma verdade dura do que a enfrenta, d i s s e r a lhe o anão com um sorriso. O mundo estava cheio de covardes que fi ngiam ser heróis; era precis o um a singular f orm a de coragem par a se admitir c ovarde, como fiz era Samw ell Tarly. O ombr o m achucado fazi a com que o tr abalho avanç asse le nt am ente. A t arde já chega va ao fim quando Jon ter minou de encher os caminh os de cascalh o. Deixou- se ficar lá em cima para ver o sol se pôr, col orind o o céu ocide ntal com a c or d o s angue. Por fim, enquant o o ocas o caí a s obre o norte, Jon rolou os barris vazios de volta à gaiola e fez sinal aos homens d o g ui nda ste par a q ue o b ai xasse m. A refeição da noit e tinha quase acabad o quand o ele e Fantasma cheg aram à s ala com um. Um grupo d e irmãos ne gros j ogava d ad os sob o efeito do vinh o que nt e pe r t o d o f og o. Se us am i gos , d a nd o r i s ad a, encontr avam-se no banc o m ais próxim o da pared e oeste. Pyp estava no mei o de uma históri a. O orelhud o filho d o pantomimeir o era um me ntiros o nat o, poss uía cem voz es difere ntes, e vi via s uas histórias mais que as contava, re present and o todos os p apéis à medi d a q ue iam s ur gin d o, n um m ome nt o


um rei e no seg ui nte u m cria dor de porc os. Q ua ndo o perso n agem er a uma cri ad a de c ervejari a o u um a prince sa virgem, usa va um a a gud a voz d e falsete qu e leva va to dos às lágrim as c om as g arg alhad as qu e eram i nca paz es de evit ar, e se us eu n ucos era m sempre c arica tu ras fant asm ag órica mente fiéis d e S o r Alliser. J on tira va ta nto pr azer das palh açad as d e Pyp c om o qu al quer o utro, ma s na q uela n oite afast ou- se e, em vez d e se ju ntar a os amig os, diri giu se p ara a po nt a d o b an co, on de Sa mwell Tarly esta v a senta do s ozinh o, t ão l on ge d os o ut r os com o podi a. Ter mina va aú l t i m a d a s t o r t a s d e p o r c o q u e o s cozinheir os ti nh a m servid o no j a ntar q ua ndo J on sento u-se à su a frent e. Os olhos d o g ord o esbu galh aram- se ao ver Fa ntasm a. - Isto é u m lo bo ? - Um lobo gi gant e - Jon res pondeu. - Chama-se Fantasma. O l obo gi gante é o sí mbol o d a Cas a d o meu pai. - O nosso é um c açad or a nda nte - disse Samwell Tarly. - Gosta d e caç ar? O gord o estrem ec eu. - Detesto - pareci a outr a ve z prest es a chora r. - Que se pass a ag or a? - perg u nto u-l h e Jon. - Por q ue está sem pre t ão a ssusta do ? Sam fixou os olh os no resto de sua t orta de porco e ab an ou a c ab e ç a d é bi l m e nt e, as s us t a do d e mai s at é par a fal ar. Um estrondo de gargalhad as enche u o salão. Jon ouviu Pyp guinch and o com voz agud a. Pôs-se em pé.


- Vamos l á para f or a. A gord a car a red o nda olho u-o c om suspeit a. - Por q uê? Q ue v a mos faz er lá f ora ? - C onve rsar - dis se Jo n. - J á vi u a M uralha ? - So u gord o, não sou cego - Samw ell Tarly retr uc ou. Claro que a vi, te m duzentos metros de altur a - mas levantou-se assim mesmo, enrolou um manto debr uad o de peles em volt a d os om bros e s ai u da s al a comum atrás de Jon, ai nda des confi ad o, c omo s e suspeit asse de que algum truque c ruel o es perava na noite. Fa nt asma c aminho u ao la do deles. - Nunc a pensei que fosse assi m - Sam disse enquanto caminh avam, c om as palavras transf orm and o-se e m vapor no ar fri o. Já buf ava e ar quejava, te nt and o acom panhar Jon. - Os edifíci os estão t od os r uind o, e é tão... t ão... - Frio? - uma dur a geada c aía sobre o cas telo, e Jon ouvia o suave ranger de er vas cinzent as sob s uas bot as. S a m c o n f i r m o u c o m a cabeça, o s t e n t a n d o u m a expre ssã o infeliz. - Detesto o fri o - disse. - Na noite passada acor dei na escurid ão e o f ogo tinha se apagad o, e tive certez a de que i a co ng elar a ntes q ue a ma nhã c hegasse. - Deve ser mais q ue nte n o l u gar de o nde v ocê vem. - N unc a t i nh a vi s t o ne v e at é o m ê s pa s s ad o. V í n h a m o s a t r a v e s s a n d o a s t e r r a s a c i d e n t a d a s , e u e os h omens que meu pai envi ou para me tr azerem para o norte, e esta coisa branca começou a cair como uma leve ch uva. A princípi o pens ei que er a belíssim a, como p enas cai ndo d o céu, m as conti n uo u, e


conti nuou, até que fiquei gelad o até os ossos. Os homens tinham crostas de ne ve barbas e m ais s obre os ombr os, e el a conti nuava a cair . Temi que nunc a mais parasse. Jo n sorri u. A Muralha erguia-se à fr ente deles, brilhand o fracamente à l uz de um a mei a-l ua. No cé u as ar diam, límpida s e nítid as . - Eles vão me obri gar a s ubir até lá em cima? - Sam p e r g u n t o u . S e u r o s t o a z e d o u c o m o l e i t e velho q u a n d o olhou par a as grandes escadas de madeir a. - Eu morro s e tiver de subir aq uilo. - Há um gui nda ste - Jon o apontou. - Pode m subi-lo num a g ai ol a. Samwell Ta rly f u ng ou. - Não gost o de l ugares altos. Aquil o f oi dem a is. Jon fr an ziu as sobr a ncelha s, incréd ulo. - M a s v o c ê t e m m e d o d e tudo? - p e r g u n t o u . - N ã o consi go e nte nder. Se é mesm o t ão c ovarde, o que está fazendo aqui ? Por que um co varde haveria de querer se junt ar à P atrul ha da Noit e? Samwell Tarly o olhou p or um lo n go m ome nt o, e s u a face re do nda p are ceu c air p ar a de n tro de si pr óp ria. Sent ou -se n o ch ão c ober to de g eada e des ato u a chorar, c om e nor mes sol uços e strang ul ad os que lhe estremecia m tod o o corp o. Jo n S no w só pôde par ar e ficar ven do. Tal com o a qued a d e ne ve n as terr a s acide ntad as, a q ue las lá grimas par ec iam n ão ter fi m. F oi Fanta sma qu e sou be o que f aze r. Silenci oso c omo u ma s omb ra, o l ob o gig a nte br an co a pro ximo u-se e c omeç ou a lam be r as lág rimas qu entes n o ro sto d e


Samwell Tarly. O rapaz gordo gritou, s urpr eso... E, por al gum mila gre, seus sol uç os transf orm aram-se em gar galh adas. Jon Snow riu com ele. De pois, s entar am-se no chão gelad o, aconchegados aos mantos com Fantas ma entre ambos. J on c ont ou a história de c omo ele e Robb tinham enc ontr ad o os lobinh os recém- nasci dos no meio da ne ve do fim do verão. Parecia agor a terem se passad o mil anos. P ouc o depoi s, de u por si fala ndo de Wi nter fell. - Às vezes sonh o com o castelo - ele disse. - Caminho p e l o s e u l o n g o s a l ã o v a z i o . M i n h a voz e c o a p e l o lug ar, mas ni nguém res ponde, e eu and o m ai s depress a, abri ndo p ort as, gri tan do nome s. Nem seque r sei quem procur o. N a m ai or parte das noites é meu pai, mas às vezes é R obb, ou minha irm ã mai s nova, Ar ya, ou meu ti o - pens ar em Benje n St ark o entristece u, ele conti nuava des apareci do. O Velho Urso e nvi ara pat rulhas à s ua pr ocura. Sor Jeremy Rykker li derara duas busc as e Quori n H alfhand partir a da T or re Sombria, mas nada ti nham encontr ado além de um punhad o d e sinais que o ti o deixara nas árvores par a m arcar o cami nho. Nas terras alt as pe dregosas do noroeste as marcas par avam abruptamente, e todos os si nais de Be n Star k esv ane ciam -se. - Algum a vez e nc ontra al gué m no s eu s onh o? - Sam quis s abe r. Jo n b ala nço u a ca beça. - N em uma s ó pess oa. O cas t el o est á sempre v azi o nunca fal ar a a n inguém sobre aquele sonh o, e não comp reen dia por que m otiv o o c on tav a a gor a a Sam ,


mas de algum modo senti a-se bem falando dele. - Até os cor vos des apar eceram d a c olônia, e as c aval ariças estão cheias de os sos. Iss o sem pre me ass usta. Ent ão começ o a correr, abrir portas com violê ncia, subir o s degr aus da torre três de cada vez, gritando por alg uém, por quem quer que seja. E ntão, do u por mi m em frente à porta para as cri pt as . Lá dent ro t ud o está negro, e vejo os degr aus que descem em espi ral. Sem saber com o, sei que tenho d e descer, mas não quer o f azê-lo. Te nho me do d o que pod e haver lá à minha es per a. Os velhos Reis do Inver n o est ão l á, sentados e m seus tronos c om lobos de pe dra a se us pés e espad as de ferro sobre os j oelhos, mas não é deles que te nho medo. Grito que não sou um St ar k, que aquele não é o meu l ugar, mas não se rve de nad a, te nho de ir, seja com o f or, e, port ant o, c omeç o a desc er, t ateando as paredes enquant o vou av a nç an d o, s e m um a t oc h a q ue m e al um i e o caminh o. Fica c ada vez m ais esc uro, até que me dá vontade de gritar - par ou, de cenho franzido, embaraç ado. - E é então que sempre acor do - c om a pele fri a e peg ajosa, treme nd o na escuri dã o d e s ua cela. Fantasm a s alta par a a c am a, ao se u lado, e se u calor é t ão rec o nfortante c omo o nasce r do di a. Ele volt a a adormecer com o rosto enterr ado no pel o br a nc o e gr os s o d o l ob o gi g an t e . - V oc ê s o nh a c o m Monte Chifre? - J on perg un to u. - Não - a boc a de Sam apert ou- s e e endure ceu. Detestava aquil o - coç ou Fantas m a at rás da orelh a, pens ando, e Jon d eixou o silê nci o respirar. De pois de um lo ng o temp o, Samwell T arl y começ ou a falar.


Jo n Sn ow esc uto u em silênci o, e fi cou sa ben do com o foi q ue um c o vard e con fesso veio pa rar n a Mur alha. O s T arly eram u ma família anti ga na honr a, vass al os d e M ace Tyrell, S enhor de Ja rdim de Cima e Prote to r d o Sul. Com o fil ho mais v elho d e Lorde Ra nd yll T arly, Sa mwell n ascera her deiro d e ricas terr as, um a f ortalez a f orte e uma gra nde espa da cheia de histórias cham ad a Venen o de Co raçã o, forja da d e aço valiri a no e p a ssad a de pai p ara filho h avi a q u ase qui nhent os a nos. Mas todo o orgul ho que o se nhor s eu pai poderi a te r sentid o com o nascime nto de Samwell desapareceu quando o rapaz cresceu r oliç o, mole e des ajeitado. Sam go s t a va d e ou vi r m ús i c a e c r i ar as pr ó pr i as canç ões, vestir s uaves vel ud os, bri ncar na cozi nha d o castelo ao l ado dos cozi nheiros, absor vendo os cheiros d oces enquanto ia rouband o bol os d e lim ão e tortas de mirtil o. Suas paixões eram os li vros, os gat os e a danç a, mesm o des astr ado c om o er a. Mas ficava d oe nte à v ista de sangue e c horava até ao ver uma galinha ser mort a. Uma dúzia de mestres de armas che gou e parti u de Monte Chifre tentand o transf ormar Sa mwell no c avaleiro que o pai desejava. O r apaz rece beu ins ul tos e bengal adas , bater am-lhe e fi z eram- no pas sar f ome. Um h omem o obri gou a d ormir vestido de cota de malh a par a deixá-l o mais belicoso. Outr o vestiu-lhe a roupa d a mãe e o obrigou a perc orrer o muro e xteri or do castelo, a fim de lhe inc utir val or através d a vergonh a. Mas ele só foi se tor nando m ais gord o e mais ass ust ado, até que o desapontame nto de Lor de Rand yll se tr ansf ormo u em ir a, e a ira em des prez o.


- Uma ve z - confide nciou Sam, com a voz transf orm ad a nu m murmúrio - vi eram dois homens ao c astelo, bruxos de Qarth, de pe le branca e l ábi os azuis. M atar am u m auroque mach o e obrig aram- me a tomar banh o no s angue quent e, mas isso não me deu a cor agem que tinham prom etido. Fiquei d oe nte e com vômit os. Meu pai ma nd ou aço it á-los. Por fim, depois de três me ninas em outr os t ant os anos, a Senhora Tarly de u a o senhor seu es pos o um segund o filho. Desse di a em di ante, Lorde Rand yll ignorou Sam, de dicando todo se u tempo ao rapaz mais novo, um a crianç a fer oz e robust a, m ais a seu gost o. Samwell conhece u vários anos de uma d oce paz, c om s ua m ús i ca e seus li vr os. Até a madrugad a do décimo quinto dia do se u nome, quando f oi ac or d ado e lhe apr ese ntaram o caval o selado e pr onto. Três h ome ns de armas o acom panhar am a té um bos que p róxim o de Mont e Chifre, onde o pa i esfolava um ve ado. "Vo cê é agora qu ase um h ome m f ei to, e o meu h erdei ro", di sse Lorde Randyll Tarly ao filho mais velho, enquant o ia tira ndo a p ele da car caç a. "Não me de u motivo algum par a deserdá-lo, m as também não lhe permitirei herd ar a terra e o tít ulo que de vem pertencer a Dickon. A Veneno de Coração deve passar para as mãos de um homem suficienteme nte forte par a brandi- la, e você nem é digno de lhe tocar o punh o. Por tant o, deci di que hoje anunci ar á s eu desej o de vestir o ne gro. Irá renunci ar a qual quer prete nsão à heranç a do se u irmão e partirá para o norte antes do cair da noite. Se assim n ã o fi zer, entã o am an hã teremos u ma


caça da, e em al g um l ug ar nesses bos que s se u c av a lo t r o p e ç a r á e v o c ê s e r á a t i r a d o d a sela p a r a a m o r t e . . . ou pelo me no s ser á isso que dir ei à sua m ãe. Ela tem um c oraç ão de m ulher, enc o ntra n ele lu gar até pa r a estimá-l o, e n ão t enho nenh um de s ejo de lhe ca usa r desg osto. M as q u e nã o passe p or s ua c ab eça q ue ser á realme nte assi m tão f ácil se pe nsa r em me desafi ar. Nada me d ará m ais prazer q ue caç á-lo co mo o p orc o que v ocê é." Se u s br aços est av am vermelh os até o s coto velo s q ua nd o po us ou a f aca de esfol ar. "E é assim. S u a esc olha é est a. A Patr ul ha da N oite" o p a i enfio u a m ão n o ve ado, arr a nco u -lhe o c ora çã o e apert o u- o na m ão , vermelho e a pi n gar, " ou ist o”. Sa m co nt ou a história co m uma voz cal ma e se m vi da, c omo se fo sse algo que ti v esse aco nte cido a o utr a p esso a, n ã o a ele. E estra nhame nte, pens o u J o n, n ão chor ou , nem m esmo u ma vez. Qu a ndo termin ou, fic ara m senta dos l ado a lad o escut an do o vent o por um te mpo. N ã o h a via mais nenh um s o m no m un do i nteiro. Por fim, Jon diss e: - Devíam os v olt ar par a a s ala c om u m. - Por q uê? - Sam p ergu nt ou. Jo n enc olheu os o mbros, - Há cidra quente par a be ber, ou vi nho tem perado, se preferir. Em algum as noites, Dareon cant a para nós, se lhe agr ad ar. Era um cantor antes... bem, não era mesm o, ma s quase; er a u m a pre ndiz de c ant or. - C omo v eio par a r aq ui? - Sam quis saber. - L orde Rowa n de Bosq uedo ur o o e n contr o u na c am a com s ua filha. A moç a er a dois a nos mais velh a, e


Dareon jur a que ela o aj ud ou a e ntrar pela j anel a, mas, aos olhos do pai, foi violação, e aqui está ele . Q ua nd o M e i s tr e A e m on o ou vi u c ant ar , d i s s e q ue tinha um a v oz q u e era mel derram ado so bre o tro v ão - Jon sorri u. - Sapo às vez es tam bém canta, se é que se pode ch amar aquil o c ant o. Canç ões de taber na que apre nde u c om se u pai bêbad o. Pyp diz que tem uma voz que é mijo de rramado s obr e u m peid o - e os doi s riram ju ntos da qu ilo. - Gostari a de ouvi- los - Sam admiti u -, mas ele s não vão me querer lá - ti nha o r ost o per turb ado. - Ele vai me f azer l utar outr a ve z am anh ã, n ão vai? - Vai - Jo n f oi for ç ado a dizer. Sam pôs- se des aje itada mente em pé . - É melhor qu e eu te nte dor mi r - e nrol ou- se ata balhoadame nte no m ant o e arrast ou-s e para lon ge. Os outr os est ava m aind a na s ala c omum quando Jo n regress ou, aco mp anha do ape nas p o r Fanta sma. - E o n d e você e s t a v a ? - P y p p e r g u n t o u . - C onve rsa nd o com Sam - ele r esp on d eu. - Ele é verdadeir amente covar de - Grenn int ervei o. Na hora do jant ar, aind a havi a lugares no banco quando ele re cebeu sua torta, mas estava as sust ado demais par a vir s e senta r co nosc o. - O Senh or do P res unt o pe nsa q ue é bom demai s p ar a se junt ar a gen te como nó s - su geriu Jere n. - Vi-o comer uma t orta de porc o - Sapo disse c om um sorrisinh o. - Acham que ele seri a um irmão? - e desat ou a solt ar g runhid os. - Parem com isso! - ex c l a m o u J o n c o m v o z z a n g a d a .


Os out ros r apaz es cal aram-se, surpre endi dos pela súbit a fúri a. - Ouçam- me - diss e Jon m ais calm o, e cont ou-lhes como as c oisas deveriam acontecer, Pyp o apoiou, como já s abia que fari a, m as, quando Hal der f alou, foi uma s ur presa agradável. Grenn a princípi o mostr ou-se preocupad o, mas Jon co nhecia as pal avr as qu e o f a riam m ud ar de id éia. Um p or um, todos cerrar am fileiras, Jon persuadi u al guns, lisonje ou outros, enver gonhou os restantes, e f ez am e a ç as on d e e r am n e c e ss ár i as . N o f i m , es t av am todos de ac ord o... Todos, me nos R a st. - Vocês, me ninas, f açam o que qui s e rem - ele disse -, mas se Thor ne me mandar lutar com a Senh or a Porq uinha, vo u c ortar pa ra mim u ma fati a de ba co n - riu na car a de J on e dei xou t odos ali. Horas m ais t arde , enq ua nto o cas telo dor mia, três dos rapazes fizer am uma visit a à cela de Rast. Gr enn segur ou-lhe os braços, enquant o Pyp se sent ava sobre suas pernas . Jon c onse guiu o uvir a res pir ação acelerada de Rast quand o Fant asma s altou par a cima de se u peito. Os olhos do lobo sel vagem ardi am como bras as e nqu ant o os de ntes m ordisc avam a pel e lisa d a gar gant a do r apaz, o s uficiente ape nas par a fazê-lo s angr ar. - L embra-se ? Nós sabe mos o nde v o cê dorme - disse Jo n em v oz bai xa . Na m anh ã se gui n te, Jon ouvi u R ast cont ar a Al bett e a Sapo c omo a navalha tinh a esc orregado e nquant o se bar be ava. Daquele di a em diant e, nem R ast nem ne nhum dos outr os mach uco u Samwell Tarl y. Qua ndo Sor Alliser


os fazia c onfr ont á-lo, defe ndi am-se e afastavam seus gol pes le ntos e desajeitados. Se o mestre de armas gritava por um at aque, d ançavam e m frente e davam uma pancadinha ligeira na pl aca de peito, no elmo ou na per na de Sam. Sor Alliser irritava-s e, ameaçava- os e os chamava de c ovardes, m ulheres e coisas pi ores, mas Sam permanece u inc ólume. Algum as noites m ais tar de, a pedido de Jo n, juntouse a eles para a refeição da noite, sentand o-se no banco ao lado de Halder. Pass aram-se mais quinze dias até ganhar coragem par a se j unt ar à conversa, e, ao fim de al gu m tempo, já ri a das care tas de Pyp e brinc av a c om Gre nn c omo q ual quer outr o. Samwell T arly podi a ser gor d o, des ajeitad o e assust ado, mas não er a nenh um tolo. Uma noit e visito u J on e m su a cela. - Não sei o que você fez - disse -, mas sei que fez alg uma cois a - e af astou ti midamente s eus olhos. Nunc a tinh a tido um ami go. - Nós não s om os a migos - disse Jon, pousa nd o a mão no ampl o om br o d e Sam. - So mos ir mãos. E eram, pens ou consi go mesm o d epois de Sam se retirar. Robb, Bran e Rickon er am os filhos de seu pai, e ai nda os a mava, m as Jon s a bia que nunca for a realme nte um d eles, Catelyn Stark assegur ara-se disso. Os muros cinze ntos de Winterfell podi am aind a ass om brar seus sonhos, m as Castelo Negro er a agora a s ua vi da, e seus irmãos e ram Sam, Grenn, Halder e P yp, e os outros rene gados que vestiam o negr o d a Patr ulh a da N oite.


- Meu tio disse a ve rdade - ele segred ou a Fantasm a, perguntando a si mesmo se algum dia voltaria a ver Benjen Star k p ar a lhe dizer isto.

Ed d ar d - É o tornei o da Mão que está c aus ando t odos o s pro blem as, se nhores - quei xou-se o Com andante da Patrulha da Cida de ao c o nselh o d o rei. - O tornei o d o rei - corrigi u Ned, já estremece nd o. Garanto-lhes, a Mão não desej a desempe nhar nele nenh um p apel. - C h am e com o d es ej ar , s e nh or. T êm ch egad o cavaleiros de todo o reino, e para cad a cavaleiro recebemos d ois cavaleiros li vres, três artes ãos, seis homens de armas, uma d úzia de mercad ores, duas dúzias de meretrizes e mais ladr ões do que me atrevo a adi vinh ar. Este maldito cal or já rinha tom ad o a ci dade i ntei r a n uma feb re, e a go ra , com to dos esses visitantes... na noite passada tivemos um afo game nt o, um a rixa de t aberna, três lutas c om facas, um est upro, dois incê ndios, i ncontáveis assalt os e uma c orrida bêbada de cavalos ao l ongo d a Rua d as Irm ãs. Na noite anterior uma c abeça d e mulher f oi e nco ntrad a no Gr ande Se pto, flut uand o na l agoa do arco -íris. Ninguém par e ce saber como f oi par ar lá ou a q ue m perte nce. - Que horror exclamou Varys com um estremecime nto. Lorde Renl y Bar a theon f oi men os c ompr eensi vo.


- Se não é capaz de manter a paz do rei, Janos, talvez a Patr ulha da Cidade deva s er com andad a por alg uém q ue sej a. Janos Slynt, um homem r obusto e de f ortes maxil ares, i nchou c omo um s apo irritad o, c om sua gra nde c abe ça c al va c omeç an do a e nru bescer. - Nem o próprio Aegon, o Dragão, seria capaz de mant er a paz, Senh or Renly. Preciso de mais homens. - Quantos ? - Ned perguntou, incli nando -se para a frente. C omo sempre, R ober t não se incom odar a e m estar prese nte na sessão do conselh o, e assim c abi a à sua Mã o fal ar p or ele. - T anto s qua ntos f or p ossível ob ter, Senh or Mão. - C ontra te ci nq ue n ta n o vos h omen s - disse-lhe Ned. - L orde Baelish lhe arra njar á o din h eiro. - Ah, sim? - Mindin ho retruc ou. - Sim. Se f oi c apaz de enc ont rar qu ar enta mil dragões de ouro para uma bols a de campeão, ce rtame nte também o s erá para re unir al guns cobr es a fim de mant er a paz d o rei - Ned volt ou a se virar par a Janos Slynt. - Também lhe d arei vinte boas espad as da guard a de minha pr ópri a Casa par a ser vir c om a Patrulha até que a multid ã o p arta. - Muito agr adeci do, Se nhor Mão - disse Sl ynt c om uma re verê nci a. - Prometo-lhe que será d ad o bom uso. Quando o Coma ndant e se retirou, Eddard vir ou-se par a o res to d o co nselho. - Quanto mais depress a esta loucur a termi nar, melhor me se nt irei - com o se a des pesa e os


pro blem as não fo ssem aborr ecime nto bast ante, tod os insistiam em diz er "o tornei o da M ão", como se foss e ele sua c ausa. E Robert parecia pensar honest ame nt e que d evi a se se nti r honra do! - O reino pr ospe ra com t ais event os , senhor - disse o Grande Meistre Pycelle. - Tr azem aos grandes a oportunid ade de alcançar a gl ória e aos peque nos u m interv alo e m su as aflições. - E põe m m oed as em muitos bolsos - acrescent ou Mindinho. - Todas as est alagens da ci dade est ão cheias, e as rameiras cami nham de pernas ar quead as, tinind o se us b olso s a cad a p ass o. Lorde Renl y solt o u um a g arg alhad a . - É uma sorte que meu irmão St annis não estej a entre nós. Lembram- se daquel a ocasi ão em que propôs que se proi bissem os bordéis? O rei lhe perguntou se gost aria t alve z de pr oibir t am bém que se comesse, c agas se e respir asse, já que est ava c om a mão na massa. A bem da ve rdade, por veze s pergunto a mim mesmo c omo foi que St annis conse guiu arr anj ar aquel a fei a mulher que tem. Vai par a a cama de casado c om o que m march a par a o campo de bat alha, c om uma expr essão so mbri a nos olh os e deter min ado a c um prir seu dever. Ned nã o se ju nt o u às gar galha das, - T am bé m me i nt e rr og o a re s peit o d e s eu i r mã o Sta nnis. Per gunt o a mim mesmo quando é que ele tenciona dar por finda sua visit a à Pedra d o Dr agão e recu perar s eu l u gar neste c onselh o.


- Sem d úvi da assi m que te nham os escorr açad o t od as estas pr ostit utas par a o m ar - Mindinho res ponde u, pro voc a ndo m ais gar galha das. - Já ouvi fal ar d e prostit ut as m ais que o sufici ente par a um dia só - disse Ned, le vant ando-se. - Até ama nhã. Harwin guard av a a p orta q ua nd o Ned regre sso u à Torre da Mão. - Chame Jor y aos meus aposent os e diga ao se u pai par a me selar o cavalo - disse-lhe Ned com demasi ada br usq u idão. - Será feit a a s u a v ont ade, se nhor. A F ortaleza Ver melha e o "tor nei o da Mã o" esta va m desg asta nd o-o at é o osso, refleti u Ned enq ua nt o subi a. A nsia va p elo c onf orto d os b raç os de Catel y n, pelos s ons d e Ro bb e Jo n cruz an d o esp ada s n o pá tio de trein os, pel os d ias fresc os e n oit es frias d o Norte. E m seus a po sent os , de spi u as se das q ue usa va n o c onselh o e s ent ou-se um mo me nto com o livr o e n q u a n t o e s p e r a v a a c h e g a d a d e J o r y . As linhagens e histórias das Grandes Casas dos Sete Reinos, com descrições de muitos grandes senhores e nobres senhoras e de seus filhos, pelo Gra nde M eistre Malleon. Pycelle falar a a verd ade: er a uma leitur a tedi osa. Mas J on Ar ry n lh e pedir a, e Ne d ti nha cer teza de q ue ele tinha se u s motiv os. Ali hav ia alg o, alg uma v erd ade ente rrad a na quel as que bra diças p ági nas ama r elas, se a o men os c o n s e g u i s s e v ê - l a . M a s , o quê? O v o l u m e t i n h a m a i s de u m séc ulo. Po ucos home ns de h oje er am na scido s qu an do Malle on c ompil ara su as p o eirent as list as d e casam ent os, n asci ment os e mort es.


Voltou a abri-lo na se ção sobre a Casa Lannis ter e virou as págin as lentamente, atento, me smo se m esperanç a de que al go lhe saltasse à vist a. Os Lannis ter er am uma f amíli a ant iga, se gui nd o sua linhage m até La nn, o Espert o, um trapaceir o da Er a dos Her óis que era, sem d úvi da, t ão le ndário c omo Bran, o Construt or, em bor a fosse muito mais am ad o por c ant ores e c ontad ores d e histórias. Nas c anç ões , Lann er a o tipo que ti nha arr anc ado os Casterly de Rochedo Casterly sem nenh uma arma além d a espertez a, e que roubar a ouro d o sol para t ornar mais cl aros os cabel os e nc arac ola dos. Ne d des ejou que o h omem es tivesse ali agora, para arr anc ar a verd ade d aq uele maldit o livr o. Uma sonora panc ada na porta anu nciou Jor y Cassei . Ned fechou o livro de Malle on e lhe disse para entrar. - Prometi à P atrulha da Cidade vinte homens d a minha guard a até o fim d o t ornei o - ele isse. - Confio em voc ê para f azer a escolha. Dê o comand o a Al yn e assegure-se de que os homens s ão nece ssári os par a dar fim às lut as, e não para i niciá- las - er guend o-se, Ned abriu um a arca de cedr o e tirou de l á uma l ev e túnic a int erior de linho. - Enc ontr o u o c av alariç o? - O guard a, s enhor - disse Jory. - Ele jura que nunc a mais toc ar á num cavalo. - Que tinha el e a d i zer? - Diz que conhecia bem Lorde Arryn. Que eram bons amigos - Jor y r esfolegou. - Diz que a Mão dava sempre aos rapa z es uma m oed a de cobre nos dias d e seus nom es. Que tinha jeit o par a os ca val os. Q u e


nunca exi gia de mais d as montarias, e lhes trazia cenour as e maç ãs par a que se s entissem sempre conte ntes por vê-l o. - Cenouras e maç ãs - repeti u Ned. Esse rapaz pareci a aind a m ais inútil que os outr os. E era : ultim o dos quatro que Mindinho tinh a desc oberto. Jory f alar a c o m t o d o s e l e s , u m d e c a d a v e z . Sor H u g h f o r a brusc o, pouco inf ormati vo e arrogante, com o s ó um homem que ac abara de ser armado cavaleir o sabe ser. Se a M ão des ejava f alar com el e, o re ceberi a c om agr ado, mas não seria mrerr ogado por um mer o capit ão d a guar d a... mesmo se o dito ca pitão fosse dez a nos m ais vel ho e cem vezes melhor esp adachim. A criad a f ora pelo me nos agr adáve l. Disse que Lorde Jon ti nha andado lend o mais do que seri a bom para sua saúde, que andar a pert urbad o e mela nc ólico por caus a da fr agilid ade d o filho e impacie nte c om a senhor a s ua esp osa. O ajud ante de taverna, agor a sapateir o, nunc a chegar a a tr oc ar uma pal avra c om Lorde Jon, mas estava cheio de retalhos de mexericos de cozinha: que o senhor andar a discuti ndo c om o rei, que só pr ovava a comi da, que ia enviar o filho para se r criado e m Pedra d o Dragão, que t om ara um grand e inte resse pela criação de c ãe s de caç a, que rmha visit ado um me stre armeir o a fi m de encome nd ar u ma nova arm ad ur a, toda trabalhad a em pr ata branca com um f alc ão az ul de jas pe e um a lua de madrepérola no pei to. O pr ópri o irmão do rei fora c om ele para aj udá-l o a es colher o d esenh o, dissera o c avalar iço. Não, não tinha sido o Se nhor Renly; ti nha sid o o o utro, o Se nhor Sta nnis.


- Nosso guard a di sse mais al gum a cois a di gna de not a? - O rapaz jura que Lorde Jon era t ão forte c omo um homem com metade da s ua id ade. Diz que m ontava frequ ente mente c om Lorde Sta n nis . De novo Stannis, pe n s o u N e d . A c h o u a q u i l o c u r i o s o . Jon Arryn e ele tinham tido uma relação c ordial, mas nunc a ami gá vel. E quand o R obert partir a par a o nort e, par a Wi nterfell, St annis arrast ar a-se para Pedra do Dragã o, a f ort aleza ins ular d os T argaryen que c onquist ar a em nome d o rmão. Não disser a um a pal avr a so bre qu a ndo po deria e star de volt a. - Onde ia m nesse s passei os? - Ne d p ergu nt ou. - O rap az diz que v isitav am u m b or d el. - Um bordel ? - Ne d excl am ou. - O Senh or d o Ni nh o da Águia e Mão do Rei visitava um bor del com Stannis Baratheon? - b a l a n ç o u a c a b e ç a , i n c r é d u l o , perguntando a si mesmo o que Lorde Re nly fari a daquele boato. Os desejos de Robert eram ass unto par a obsce nas c anções de t aberna por todo o rei no, mas Stannis pertencia a um t ipo dif erent e de homem; some nte um ano m ais novo que o rei, mas comple tame nte diferente dele, austero, se m se nso de humor, i nflexí vel, severo n a su a idé ia de de ver. - O rapaz i nsiste que é ve rdade. A Mão le vava consi go três guar das, e o rapaz diz que brinc avam à visita quando ele ia busc ar se us c avalos depois de regress arem. - Qual er a o bor de l ? - Ned per g unt o u . - O rap az não s abi a . Os gua rdas é q u e talvez s ai bam.


- É uma pena que Lysa os t enha levado para o Vale disse Ned secamente. - Os deuse s estão f azendo t ud o o que podem para nos contr ariar. Se nhor a Lys a, Meistre Colemon, Lorde Stannis... todos os que pode riam re almente conhecer a verdade s obr e o que acontece u a Jon Arr yn estão a mil lé guas de distância. - O senhor ir á co n v ocar L orde Sta nn is a regr essar de Pedra d o Dragão? - Ainda não - Ned responde u. - Só quando tiver uma noç ão mais pre cis a sobre o que se pass a aqui e onde ele se e nc aixa - o assunto o importunava. P or que Sta nnis partir a? Teria dese mpe nhado algum papel n o assassi nato de Jon Arr yn? O u estaria com receio? Ned achava difícil imaginar o que poderi a ass ust ar Stannis Bar atheon, que já aguent ar a Pont a Tempestade durante um ano de cerco, so bre vive nd o à cust a de rat az anas e botas de cour o enquanto os senhores Tyr ell e Redwyne esperavam for a do castelo c om suas tropas, banque teando- se à vist a das muralh as. - Traga- me me u gi bão, por f avor. O cinza, com o símbol o d o l obo gigante. Quer o que o ar meiro sai ba quem s o u. Talvez o tor ne m ais co op erant e. Jor y dirigi u-se ao gu arda- ro up a. - Lorde Re nly é ir mão tanto de Lorde St an nis quant o do rei. - No ent anto, par ece que não foi convid ado para esses passei os - Ned não sabi a be m o que pe ns ar de Renly, c om se us mod os amist os os e sorrisos fáceis. Algu ns dia s a ntes , ele o tinh a cha mado de ca nt o p ara


lhe mostrar um r equi ntado medalhão de ouro r os a. Lá dentr o e ncontrava-se uma mini atur a pi nt ada no vig oros o estilo myriano, mostr ando uma bela e jovem mulher c om olhos d e corç a e um a casc at a de sua ve ca bel o cast anho. Renly parecer a ansi oso por s abe r se a jovem lhe lembrava al gué m, e ficar a des apontado quando Ned não encontr ou re spost a melhor que um encolher de ombr os. Confess ara que a senh ora era irmã de Lor as Tyrell, Margaer y, mas havia que m dissesse que se pareci a com Lyanna. "Não", dissera-lhe Ned, assom br ado. Seri a possível que Lorde Renl y, que tant o se assemelhava a um Robe rt jovem, tives se imagi nado uma paixão por um a m ulher que ach ava ser um a Lyanna j ovem ? A quil o lhe par eceu mai s que um p ouc o bizarr o . Jor y ergue u o g ibão e Ned enfiou as mãos pel as cav as. - Lorde Stanni s t alvez re gresse par a o t ornei o de Robert - disse, enquanto Jory lhe atava a peça d e rou pa nas c ost as. - Isso seri a um gol pe de sort e, senhor - Jor y respo nde u. Ned afiv elo u um a espa da à cint ura. - Em outras pal avras, não é pr ovável - seu sorriso era som bri o. Jor y enrol ou o mant o de Ne d em torno de seus ombr os e o pre nd eu ao pescoço com o distintivo da Mão do Rei. - O armeir o vive e m cima de sua l oja, numa cas a gra nde que se ergue no topo d a Rua d o Aço. Alyn conhece o ca minh o, senho r.


Ned ace no u co m a cabeç a. - Q ue os de us es aj ud e m aq ue l e aju d ant e d e t e be r na se estiver me f azendo c orrer atrás de sombras - não s e r i a gr a nd e c oi sa c om o a poi o, m as o J on Ar r y n q ue Ned St ark c onhecera não era alguém que us ass e armadur as inc rus tadas de jói as e prata. Aç o era aço; destinava-se à prote ção, não à ostent aç ão. Era verd ade que po dia ter mudado de pont o de vista. Certament e não seria o primeir o homem a olh ar de forma difere nte para as c oisas de pois de alguns anos pass ados na c orte..., mas a mudanç a er a suficienteme nte marcada par a levantar d úvi das e m Ned. - Há mais al g um s e rviço que eu lhe p ossa prest ar? - Suponho que é melhor que c omece a visi tar prostí bul os. - Penos o de ver, s e nhor - J ory sor ri u, - Os h ome ns ficarão felizes por ajudar. Porther já fez cm bom começ o. O caval o preferido de Ned est ava selado e à espera no páti o. Varly e Jacks puser am-se a seu l ado quando avanç ou pelo pátio. Seus capacetes de aço e cotas de malha d eviam estar abrasadores, mas não soltar am uma palavra de quei xa. Qua nd o Lorde Eddard passou s ob o Port ão d o Rei e entr ou no fed or da cid ade, c om o mant o ci nza e br anc o pe nde nd o de seus ombr os, viu olhos em rod a a parte e es pore ou a mont aria até um t rote. Os g uar das o seg uira m. Foi olhand o par a tr ás c om frequênci a e nquant o abri am c aminh o pelas ruas cheias de gent e da cidade. Tom ard e Desmond ti nham deixad o o castelo mais ced o, de manhã, a fim de t omar posiç ões n o


caminh o que de vi a perc orrer e verificar se alguém os segui a, mas mesmo assim Ned não se se ntia confi ant e. A s ombra da Aranha d o Rei e dos seus pass arinh os o deixava i nquiet o c omo uma donzel a na noite d e n úpci as. A Rua d o Aç o c omeç ava na pr aç a d o m ercado, ao lado do P ort ão do Ri o, como era ch amado nos mapas, ou Portão da Lam a, o n ome que rece bia habitualme nte. U m saltim banco s obre pe r nas de pau caminh ava por e ntre a multi dão como um grande inseto, arr ast and o uma h orda de crianç as descalç as aos grit os. N outro lugar, dois r apazes e sfarr apados que não er am mais velhos que Br an d uel avam c om paus, per ante o s onoro e ncorajamento de alguns e a s furios as pr agas d e outros. Uma ve lha aca bou com a competição ao se debr uçar em uma janela e despejar um balde de restos de cozi nha sobre a cabeç a dos combate ntes, A sombr a d a muralha, agric ultores berravam ao l ado d e s uas carroças: "Maçãs, as melhores maç ãs, bar atas, met ade do preç o"; Melõesde-sangue, doc es como mel"; "Nabos, cebolas, raíz es, aqui tem, aqui, aqui temos nabos, cebol as, raízes, aqui tem". O Portão da Lama estava abert o e um esquadr ão de Patrulheiros da Cidade vestidos com se us mant os dour ad os apoi ava-se nas l anç as sob a port a levadiç a. Quando uma c ol una de homens a cavalo aparece u vind a d o lest e, os guard as d esat ara m numa ati vidad e frenétic a, grit and o ord ens e af astando as carr oças e o tráfego pe destre a fim de deixar e ntrar o cavaleir o e sua esc olt a. O primeir o cavalei ro a e ntrar pelo port ão tra nsp ort av a u m lo ng o es tand arte ne gro. A


seda ondeava ao vent o c om o uma c oisa vi va; o t ecido estava ornad o com um cé u not urn o cort ad o por um relâmp a go de c or púr pur a. - Abram alas para Lorde Berid - g r i t o u o c a v a l e i r o . Abram alas para Lorde Beric! - e l o g o a t r á s v i n h a o jovem senh or em pessoa, uma fogosa figur a m ont ad a num corc el ne gro, de cabelos ruivos alourados , vestindo um manto de c etim ne gro pontilhad o d e estrelas. - Veio para l utar no tornei o da Mão, senh or? grito u-lhe um gu a rda. - V i m p a r a ganhar o t o r n e i o d a M ã o - g r i t o u L o r d e Beric de volt a por entre as acl amaç ões da multid ão. N ed viro u as co stas à pra ça on de a Ru a d o Aç o c omeç ava e s egui u se u tr ajeto si nuoso por u ma l onga c olina acim a, pass and o por ferreiros q ue trab alha vam em forjas ab ertas, ca valeiros livres q ue regate a vam os p r eços de c ota s de malha e g risalhos ferrag eiros q ue v endia m lâmin as e nav alh as v elha s em suas c arro ças. Quant o mais s ub iam, mai ores iam ficand o os edifí cios. O h o mem q ue proc ur av a m enco ntr av a-se no po nto mais alt o da c olin a, n um a enor me ca sa de madeir a e est u q ue, c ujos an dare s superi ores pair av am p or cim a da rua estr eita. As port as duplas mos trav am um a cen a de c aça esculpi da em éb a no. Um par de c av aleiros de pe dr a mont av a g uar da à entr ada, e nv er ga ndo arm adur as e x t r a v a g a n t e s d e a ç ov e r m e l h o polid o q ue os 3 transf orm av am n um grif o e num unic órni o. Ned 3

Animal com cabeça, bico e asas de águia e corpo de leão. Ser fabuloso, como o unicórnio. (N. T.)


deixou o c aval o com Jac ks e abriu c aminh o à for ç a de seu om bro a té o interi or. A j ovem e esbelt a criad a de u um a r ápid a olh adel a n o distinti vo de Ned e no símbolo em seu gibão, e o mestre apr essou-se a vir ao seu enc ontr o, todo sorrisos e vê nias. - Vinho para a Mão do Rei - disse à jovem, indicand o c om gestos um s of á a Ned. - Cham o-me Tobho Mot t, senhor, por favor, por f avor, fi que à vontade - ele ves tia um c as aco d e velud o ne gro co m martel os bordad os nas mangas e m fio de pr ata. Em torno d o pescoço trazia uma pesada corre nte de prat a c om um a s afira tão grande como um ovo d e pom bo. - Se neces sitar de novas ar mas para o t ornei o da Mão, vei o à l oja certa - Ne d não se inc omodou em cor ri gi - l o. - M eu tra bal h o é di s p endi o so, e nã o m e descul po por i sso, senhor - o home m disse, enquant o enchia d ois cálices iguais de pr ata. - Não enc ontrar á trabalho igual ao meu em nenh um local d os Sete Reinos, gar ant o-l he. Visite cada uma das f orjas d e Porto Re al, se desejar, e c om pare com se us próprios olhos. Qualquer ferreiro de aldeia é capaz de faze r uma c ot a de malh a; o me u tra b alho é arte. Ned be beric ou seu vinho e deixou o homem conti nuar a fal ar . O Cavaleir o das Flores com prava ali tod as as suas armadur as, gabou-se To bho, assim como muit os grandes se nhores, aque les que conheci am o bom aço, até Lorde Renly, o irm ão do pr ó pr i o r e i . A M ão t eri a t al ve z vi s t o a n ov a armadur a de Lor de Renly, a de chapa verde c om os cornos d our ad os? Nenhum outr o armeir o da ci dade era ca paz de alc anç ar um verde tão prof un do; el e


conheci a o se gredo de dar c or ao pr ópri o aç o, a tinta e o esmalte eram as muletas de um ar tífice contr at ado. O u por ventur a a M ão de sejari a uma lâmina? T obho a p render a a trabalhar o aç o valiri ano nas forj as de Qohor, quand o ai nda rapaz. Só um homem que conhecia os feitiç os era capaz de pegar em arm as a ntig as e forjá-l as de no v o, - O lobo gigante é o sím bol o d a Casa St ark, não é assim? P oderi a fabricar um elmo c om um a f orma de lobo gigante tão perfeit a que as crianç as f ugiri am d o senhor na r ua - j u rou. Ned sorri u. - Você fez um elm o em f orm a de fa lcão p ara L ord e Arryn ? Tobho Mot t fez uma l onga paus a e pôs de l ad o seu vinho. - A Mão re alment e veio me pr oc urar, com Lorde Sta nnis, o irm ão do rei. Mas, lamento dizer, não me honra ram c om o s eu p atro cíni o, Ned o olhou sem expre ssão, calado, à esper a. Ao l on go dos an os, desco bri ra q ue o si l ênci o p or vez es recom pens ava mais que as perguntas, E f oi o que aco ntece u dest a v ez. - Pediram par a ve r o rapaz - disse o arm eiro -, e entã o os le vei até a forj a. - O rapaz - ec oou Ned. Não f azia i deia algum a d e quem poderia ser o rapaz. - Também gos tari a de ve r o ra paz. Tobho Mott dirigi u-lhe um olhar fri o e ca utelo so. - Será fei ta s ua vontad e, senh or - di sse, sem sinal de sua ant erior si mpatia. Le vou Ned por um a porta dos fund os e um páti o estreit o até o caver n oso edifíci o


de pedr a onde era realiz ad o o trabalho. Q uand o o armeir o abri u a p orta, o sopr o de ar quen te que veio de de ntro d o edifício fez com que Ned se ntisse que estava e ntrand o na boc a de um d ragão. Lá de ntro, uma forj a ardi a em cada cant o, e o ar fedia a f umaç a e enxofre. Armeiros contrat ad os erguer am o olhar de seus martelos e tenaz es apenas o tempo s uficie nte par a lim par o suor d as test as, e nquant o apre ndiz e s em tro nco nu m an usea va m os f oles. O mestre chamo u um rapaz alt o, mais ou menos da idade de R obb, com os braços e peito re pletos de músc ulos. - Este homem é Lorde Stark, a nova Mão do Rei - ele disse, quand o o r apaz obse rvou Ne d atr av és de olh os carranc udos e atirou par a trás, com os de dos, os cabel os ens opad os de suor. Cabel os espess os, espet ados e despente ad os, negros com o ti nt a. A sombr a de uma bar ba rece nte escureci a-lhe o maxil ar. - Este é Ge ndr y. Forte par a a idade, e trabalha d u r a m e n t e . M o s t r a à M ã o a q u e l e c a p a c e t e que v o c ê fez, rapaz - quase com timidez, o rapaz os levou at é sua banc ada e um elmo de aço em rorm a d e c abe ça de to uro, c om d oi s gra ndes c orn os c urv os. Ned virou o elmo nas mãos. Era de aço cru, não polid o, mas h abili dosa ment e escul p ido, - Este é um belo tr ab alho. Ficarei f e liz se me dei xar comprá-l o. O rapaz arr anco u o elmo d e su as mãos. - Não est á à ven da. Tobho Mott par ec eu horr oriza do.


- Rapaz, este homem é a Mão do Rei . E se ele deseja este elmo, ofereç a-o de prese nte. Ele o est á honr ando só por pe di-lo. - E u o fiz p a r a m i m - d i s s e o r a p a z t e i m o s a m e n t e . - Cem perdões, senhor disse o mestre apress ad ame nte a Ned. - O r apaz é rude c om o aço novo e, c omo o aço novo, s eria be néfico que le vas s e um pouc o de pan cada. A quele elmo é, quando m uit o, trabalho de contratad o. Perd oe- o, e eu prome to que fabric arei par a o se nhor um elmo difer ente de qu al q uer um q ue tenha visto. - Ele não fez nad a que requeir a meu perd ão. Gendry, qu an do Lor de Arr yn veio vê-lo, de que r alar am ? - Ele só me fez p erguntas, se nhor. - Que tip o de perg u ntas ? O rap az enc olheu os om bro s. - Como e u est ava, se era bem tr atad o, se gost ava d o t r ab al h o, e c oi s as s o br e m i nh a m ãe . Q ue m el a e r a, qu al era o seu as p ecto, e tu do iss o. - E que lhe disse ? - perg unt o u Ned. O rap az af asto u da testa u ma no va casc at a de cabel os negr os. - E l a m orr e u q uan d o e u e r a pe q ue n o. T i nh a c a be l os amarel os e lembro-me de que às vezes cant ava para mim. Trab alhav a num a cer vejari a. - L orde St an nis t a mbém o interr og o u? - O careca ? Nã o, el e nã o. Nã o di sse uma pal avr a, só olhou para mim como se e u fosse algum est upr ad or que lhe ti vesse de florad o a filh a. - Cuidad o c om ess a língua s uja - disse o mestre. Este homem é a Mão d o Rei - o rapaz abaixou os


olhos. - É um r apaz i nteli gente, mas teim oso. Esse elmo... quand o l he dizem que é teimos o como um tour o, ele o atira em sua s ca beça s. Ned tocou a c ab eça d o r apaz, passand o os de dos pelos es pess os c ab elos ne gro s, - Olhe par a mim, Gendr y - o aprendiz ergue u o rosto. Ne d estudou a forma de s eu maxilar, se us o l h o s , q u e e r a m c o m o g e l o a z u l . Sim, p e n s o u , agora vejo, - V o l t e a o s e u t r a b a l h o , r a p a z . P e ç o d e s c u l p a por tê-l o i ncomodado - e assi m Ned regressou à casa com o mestre. - Quem lhe pagou para contratá-lo como ap rendi z? - perg un to u em to m ame no. Mott par eceu i nq uieto. - O senhor viu o r apaz. É tão f orte . Aquelas mãos, aq ue l as m ãos f or am f e i t as p ar a o s m ar t e l os . E r a t ão promis sor que o r ecebi sem pa ga me nto alg um. - Agor a quer o a verdade - insis tiu Ned. - As r uas estão cheias de rapazes fort es. O dia em que você receber um apre n diz sem pagame nto será o di a em que a Mur alha cai rá. Quem pa go u p or ele? - Um senhor - diss e o mestre, com r elutância. - N ão deixou nom e, e não us ava ne nhum sím bol o no casac o. Pagou e m our o, duas vezes o mont ante habitual, e disse que estava pagando uma vez pel o rap az e u ma vez p elo meu silê nci o. - Descreva-o. - Era corpulent o, redondo de om br os, nã o t ão alt o como o se nhor. Com um a barba castanha, m as eu podi a jur ar que havia nel a um pouco de r uivo. Trajava um m anto rico, rec ordo bem, um pesado velud o p úr pur o t rab alhad o com fi os de pr at a, mas o


capuz escondi a-lhe o rosto e não cheguei a vê-lo claram ente - hesitou um mome nt o. - Senh or, não desejo p ro blema s. - Nenhum d e nós deseja problemas , mas temo que estejam os vi vendo tempos problemátic os, Mestre M ot t - N e d re s p o nd e u. - V oc ê s ab e q ue m o r a p a z é . - Eu sou ape nas um armeiro, se nhor. Sei aquilo que me é dito. - Você sa be que m o ra paz é - repe t i u p acien teme nte Ned. - Isto nã o é uma per gu nta. - O rapaz é me u aprendiz - disse o m estre. Olhou Ned nos olh os, obstinado c omo ferr o velho. - Quem ele era antes de vir trabalhar comi go não é d a mi nha cont a. Ned fez um ace n o. Decidi u que g osta va de To bho Mott, o mestre ar meiro. - Se chegar o dia e m que Ge ndr y pr efira empunhar uma es pada em vez de forjá-l a, envie-o até mim. Ele tem o olhar de um guerreir o. Até lá, tem os meus agr adecime nt os, Mestre Mott, e a minha promes sa. Se alguma ve z desejar um elmo par a assustar crianç as, este se r á o primeiro l ug ar que visitar ei. Seus gu ard as es pe rav am lá f ora co m os ca val os. - Encontrou al gu m a cois a, senh or? - pergunt ou Jack s enq ua nt o Ned m onta va. - E nco ntrei - di sse -lh e Ned, senti n do-se cu ri os o. O que t eria Jon Arryn querido de um bas tard o re al e por que ist o teri a valid o su a vi da ?

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