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MODA |ARTE | CULTURA | ANO I | NOV 2009

01 Roupas e

Modas

Muito além da função protetora Patrimônio

A história do Theatro Municipal inspira estilista

Brasis

Cores e texturas da Chapada Diamantina

Leo Gilson

Janelas Abetas: Ribeiro, sobre cultura e comunicação


Expediente: Revista XXXXX Tiragem: 5000 Edição: Novembro 2009

Editorial O projeto de arte de uma revista é fator importante no conjunto de elementos que compõem o todo da publicação. O leitor geralmente não atenta para o detalhe da família tipográfica utilizada, do corpo em que o texto é escrito, tamanho dos títulos, posicionamento das fotos, nem mesmo para os recursos disponíveis, cada vez maiores na diagramação eletrônica, que permitem melhorar fotos, criar compo¬sições que só existem no computador, além de integrar melhor textos e ilustrações. E quando há uma mudança na arte, o leitor estranha a princípio, mas logo se acos¬tuma com o que ficou melhor e percebe que o editor procurou facilitar a leitura, dar mais vida à publicação, destacar bas¬tante o editorial da publicidade. No auge da utilização dos recursos do Macintosh abusou-se da máquina, a pon¬to de se produzir diagramações tão satu¬radas de soluções gráficas, que o próprio leitor passou a rejeitá-las, em nome de seu conforto visual. Foi o que aconteceu com a conhecida revista norteamerica¬na Wired, que saiu do auge do modismo para um projeto de arte elegante e menos audacioso. Até a revista inglesa The Economist, uma das mais prestigiosas do mundo, resolveu trocar de vestimenta, explican¬do para os seus leitores, na edição de 18 de maio de 2001, que está mudando a sua diagra¬mação, inalterada desde 1987, introdu¬zindo fotos em cores, entre outras coisas. Para o seu editor, “um bom projeto de ar¬te é como um bom texto: não deve se des¬tacar do todo; tem que servir aos editores e aos leitores, não escravizá-los”. Como você já deve ter percebido, dis¬semos tudo isso para apresentar esta revista, procurando aplicar todos esses concei¬tos apresentados acima. E esperando an¬tes de tudo agradar a você, leitor amigo.

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Revista XXXX é uma publicação, com apresentação em forma de layout impresso, utilizada para avaliação individual dos conhecimentos da disciplina de Projeto Gráfico de Periódicos, do Curso Técnico em Design Gráfico do Senai-AG. Professora: Cristina Mara Monteiro Projeto Gráfico: Gustavo Garcez Impressão: Senai-AG Conselho Editorial Antonio Deodato Cardoso João Alberto Sachett Áureo Dias Caldeira José Paulo Salles Editor Ingrid R. Schmitt Editor de Arte Renata Amorim Fotografia Naldo Mesquita Redação Gleice Pacheco Revisão Cláudia Pereira

MODA |ARTE | CULTURA | ANO I | NOV 2009

01 Roupas e

Modas

Muito além da função protetora Patrimônio

A história do Theatro Municipal inspira estilista

Brasis

Cores e texturas da Chapada Diamantina

Leo Gilson

Janelas Abetas: Ribeiro, sobre cultura e comunicação


Sumário 04 – Editorial 08 – Janelas Abertas: Leo Gilson Ribeiro, sobre cultura e comunicação 10 – Artes e Artistas: Marcos Benjamin, um gênio do ferro-velho 16 – Patrimônio: A história do Theatro Municipal inspira estilista 20 – Modos e Modas: Paulo Freire conta como é a Folia de Reis no Urcuia 24 – Brasis: Cores e texturas da Chapada Diamantina 32 – Especial: Roupas e Modas. Muito além da função protetora 44 – Cultura: Uma visita ao Museu da Borracha no Acre 48 – Entrevista: Ciro Pessoa propõe um canal de TV humano 56 – Revelação: José Márcio Penido e o Brasil divido em dois 60 – Humor: Luís Fernando Veríssimo e a mesmice nacional 72 – Livros 78 – Quem: O pensamento vivo de Ignácio de Loyola 86 – Papo Cabeça: Pedofilia. Os limites entre Arte e Moral

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Especial

Roupas e

Modas Regina Moura

A moda e a roupa são estabelecidas por dois referenciais distintos, a moda como um movimento, estimulado pela sociedade de consumo e de bens materiais, fruto do capitalismo, enquanto que a roupa pode assinalar uma necessidade humana na medida em que é construída para vestir, proteger, adornar, significar ou comunicar.

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moda não existe propriamente como produto individual, porque um único indivíduo, isolado de seu contexto social, não representa e nem faz a moda. Esta se produz basicamente no contexto cultural em meio a fatores sociais, econômicos, históricos e estéticos. Sem dúvida a moda tanto determina como sinaliza o estilo, o gosto e o comportamento de cada época, como também é determinada por estes valores, subjugada a uma rede de inter-relações que impõe tendências, formas e cores, cada coleção e cada maneira de vestir. Assim ela se constitui em um fenômeno subjetivo que transforma o indivíduo e o grupo através das aparências, impondo-se muitas vezes como uma máscara. Por outro lado, a roupa é um aparato estético, construído na intenção de um segundo corpo

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ou mesmo de uma segunda pele. Nesse aspecto nos remetemos às pinturas corporais, trajes folclóricos e religiosos, fantasias, figurinos e o vestuário da moda. As roupas tanto constroem personagens como papéis sociais ou simbólicos - o vestido de noiva, o uniforme, a mortalha. Nota-se que algumas épocas apresentam um estilo próprio, uma marca que identifica e expressa a forma especial desse tempo. Apesar de em momentos de guerra e revoluções, não existir a moda no sentido dinâmico, de mudanças rápidas e tendências, entretanto a preocupação com a estética da aparência e com o corpo permaneçam sempre. Nesses termos, vale acrescentar o fato de que o cangaceiro Lampião, mesmo em meio a constantes batalhas e fugas dentro do sertão inóspito, costurava e bordava suas roupas e objetos


de uso pessoal, criando um estilo próprio de vestir e adornar adotado por todo o grupo. Os caminhos da moda são muitos e se entrecruzam em diversos pontos e conceituações, envolvidos por uma complexidade e por uma lógica própria que a constrói e estrutura pontuada pela fantasia, pelo lúdico, o gosto e a sensibilidade estética. Lipovesky, procura situar a questão da moda dentro de uma visão da pós modernidade. Em seu enfoque a moda não tem forma nem conteúdo próprio, ela é um dispositivo social caracterizado por uma temporalidade particular e por reviravoltas cíclicas. Uma de suas características predominantes é a inconstância e a permanente mutação estética incentivada pela tecnologia e pela globalização. Em contrapartida nas eras de costume, anteriores a instituição da moda, reinava o prestigio da tradição e a imitação dos valores simbólicos repassados de geração em geração. A moda foi significativamente inserida no processo sócio-histórico do ocidente pela ascenção da burguesia, como emblema de poder e não do efêmero e da fantasia, como se pensava até bem pouco tempo. Ela quebra com as tradições impondo o culto ao novo, a novidade. Observa-se nas sociedades, anteriores ao sistema da moda um modelo fundamentado na submissão ao passado coletivo, um modelo que estabelecia normas e padrões de religião, costumes, vestimentas, adornos, etc. As poucas mudanças nos trajes desses grupos sociais geralmente eram trazidas pelo líder ou pelos povos conquistadores quando impunham um vestimentário aos vencidos.

Foto acima: índia brasileira com roupas da tribo. Foto abaixo: Lampião e seu bando com roupas típicas.

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Sentidos da Roupa Em função da fragilidade de seu corpo, nu e desprotegido diante do frio e das intempéries, o ser humano criou o objeto roupa, na intenção de um segundo corpo ou de uma segunda pele. De acordo com Roque Laraia o ser humano sobreviveu apesar de um equipamento fisico muito pobre, graças aos suportes extraorgânicos que criou, entre eles as vestimentas. A espécie humana sobreviveu. E no entanto o fez com um equipamento fisico muito pobre. incapaz de correr como um antílope, sem a força de um tigre, a acuidade de um lince mas ao contrário de todos eles, dotado de um instrumental extra­organico de adaptação, ele muda seu ambiente e pode assim conservar inalterado seu corpo original com camisas e calças ou luvas está provido da proteção que o urso polar e a lebre ática levam longos períodos a adquirir. Entretanto a roupa vai além dessa função especificamente protetora na direçâo também do adorno, do viés estético ou mais subjetivamente na intenção de uma identidade, quando vestir pode representar um ato de significar e também de comunicar. Nem toda roupa se configura como moda, por exemplo, as vestimentas religiosas e militares, os uniformes e outras roupas diferenciadas entre conotações místicas, tradicionais e folclóricas, fantasias ou figurinos relacionadas a códigos próprios, alheios ao contexto da moda. As roupas trazem sempre uma possibilidade de dizer algo, de acrescentar formas, códigos e linguagens.

“Entretanto a roupa vai além dessa função especificamente protetora na direçâo também do adorno, do viés estético ou mais subjetivamente na intenção de uma identidade, quando vestir pode representar um ato de significar e também de comunicar.” Além das interfaces com o sistema da moda e de seus aspectos de proteção e adorno a roupa de certa forma também constrói identidades visuais e imagens do indivíduo. Nesse sentido, a moda e a roupa adquirem valores de comunicação. Para Umberto Eco o vestuário fala. “A linguagem do vestuário, tal como a linguagem verbal, não serve apenas para transmitir certos significados, mediante certas formas significativas, Serve também para identificar posições ideológicas, segundo os significados transmitidos e as formas significativas que foram escolhidas para os transmitir. Nesses termos da roupa como linguagem que se concretiza na comunicação, ela pode ser portadora e transmissora de códigos determinando padrões, estilos ou ainda diferentes momentos históricos, de acordo com os valores sociais, culturais e estéticos. Umberto Eco diz que “existe sempre no interior de cada grupo uma vestimenta minima histórica e cul-

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Bob dylan usava roupas irreverentes que motivaram uma época.


turalmente determinada sem a qual a existência social, e mesmo biológica, do indivíduo se aniquilaria.” O figurino cênico, as fantasias, as roupas festivas, religiosas e folclóricas possuem uma linguagem simbólica e signos próprios capazes de caracterizar ou identificar um grupo, uma etnia e uma tribo, pois a roupa compõe uma linguagem visual. “A semiologia veio aperfeiçoar esta tomada de consciência e agora permite-nos inserir a nossa noção de comunicabilidade do vestuário num quadro de uma vida em sociedade onde tudo é comunicação”. A abordagem de Alison Lurie amplia essa discussão na medida em que traça um paralelo entre a linguagem das roupas e as outras linguagens, observando que em ambas existe uma constante transformação, “como a maioria das línguas escritas e faladas, o

Uniforme militar russo utilizado como proteção.

idioma das roupas está sempre mudando. Novas idéias e fenômenos exigem além de palavras novas, estilos novos. Para essa autora a roupa é um signo através do qual os seres humanos vem se comunicando além da comunicação verbal. Para Sapir, a relação da vestimenta com o ser humano passa por questões tão complexas como o fato de existir no sujeito um constante desejo de acrescentar novas possibilidades a si próprio. “Em tais casos, seriam as mulheres as mais desejosas de acrescentarem atrativos a suas pessoas, através de novas modas capazes de as favorecerem com tais acréscimos.”

Através de outro enfoque, Gilberto Freyre diz que, até bem pouco tempo no Brasil, o corpo e a imagem da mulher pertenciam ao marido, que a ostentava como um símbolo de prosperidade, a ponto de medir-se a riqueza e o poder do homem pelas roupas de sua mulher, que “passiva ante o marido, tocava a distinção de ser uma espécie de objeto quase religiosamente ornamental e inspirador de toda uma série de modas de vestir, calçar, pentear assim elas passaram a constituir testemunho do apreço dos homens, seus senhores.” Nesse caso tanto Sapir como Freyre apontam duas direções subjetivas da roupa feminina, seu poder de atração e sedução como adorno e as propriedades de objeto ornamental. Ambas reduzem a aparência feminina a um objeto estético construído As mulheres japonesas pintavam os kimonos manualmente.

para o olhar masculino. Nesse ponto podemos acrescentar com Bourdieu o conceito de bem simbólico.

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