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O auê rosa e o anauê verde Alceu A. Sperança

Leonel Brizola

Algumas lideranças trabalhistas “comemoraram” o 90º aniversário de nascimento do líder Leonel de Moura Brizola (1922–2004), no ano passado, envolvidos em graves denúncias de corrupção, alguns já cassados e outros até presos. Claro, muitos também governando felizes, administrando com empáfia e pompa a crise que afeta gravemente o Brasil, embora a propaganda oficial dos governantes dos três níveis não admita. Reconhecer a crise seria sinceridade, fator descartado por 99 entre cem marqueteiros. O solitário discordante é tido por maluco e não arranja emprego. Neste 22 de janeiro, quando ocorre o 91º aniversário, a memória de Brizola, como a do presidente João Goulart, já foi amplamente atraiçoada por aqueles que deveriam ser os primeiros a defendê-la e cultivá-la. De “trabalhistas” que se diziam, passaram a encarecer a vida para os trabalhadores, esquecendo princípios e compromissos. Até aceitaram a imoralidade do “Mensalão” como justa, sob a alegação de que alguns tucanos e demos também a praticaram. Talvez fosse o caso da turma desumana antidireitos voltar ao passado para corrigir defeitos de formação, em manobra preventiva para a proteção da própria honra. Evitariam enveredar para o fascismo explícito, como se deu com o Partido dos Trabalhadores Nacional-Socialista da Alemanha (nazista).


Tanto se disseram defensores dos trabalhadores que desandaram a oprimi-los, alegando que isto levaria à salvação da Pátria. Voltar lá atrás, corrigir os defeitos, evitar o posterior arrependimento e o torturante mea-culpa diante da besteira cometida poderia ser o sonho de 99 entre cem errados, já que alguns preferem persistir no erro. Mas como fazer isso, se a regra do jogo da vida não permite regressar ao passado? Vírgula, não permitia! Os cientistas acabam de descobrir um jeito de voltar de certo modo ao passado a bem de corrigir um bocado de coisas. Não dá pra rejuvenescer o bastante, mas o modelo proposto permite a reprodução invertida do que aconteceu para analisar eventos correlatos. Você segue em frente, porque assim é a vida, mas provoca uma reprodução invertida até chegar ao nó que, no passado, deu na besteira feita em seguida. Parece mais maluco que o marqueteiro sincero ou o sujeito que prefere persistir em erro? Entenda-se lá com os pesquisadores da Universidade de Maryland (EUA). Eles acham que fazer esse retorno ao passado permite destruir tumores antes que eles progridam e danem sua saúde e até evitar celulares em prisões. A reversão no tempo, dizem os cientistas, tem a ver com ondas eletromagnéticas: você reverte a direção da onda até sua origem e verifica assim tudo aquilo com que ela se relacionou nesse percurso.


João Goulart

Plínio Salgado

O tempo continua passando, até porque se trata de coisa relativa (hora de namoro apaixonado passa logo e segundo de dor aguda parece eterno), mas se você reencontra o ponto lá atrás, de onde aquela onda partiu, pode corrigir o busílis do problema. Continua maluco, certo, porque já se sabe que pedra atirada e palavra dita não têm retorno, mas os pesquisadores garantem ter feito ondas manipuladas em laboratório voltar ao ponto de partida, revelando suas conexões e permitindo que elas se tornem visíveis. As aplicações possíveis para essa descoberta são fantásticas, a começar pela medicina. Liquidar tumores malignos antes que derrubem vovô é tudo de bom. Não se tem notícia ainda de que haja aplicação prática dessa descoberta na política, porque uns e outros preferem maquiar e justificar os erros a corrigi-los. Por isso os “trabalhistas” que não respeitam a memória de Jango e Brizola estão aproximando perigosamente o “auê” do poder efêmero ao “anauê” das velhas galinhas-verdes de Plínio Salgado do século XX. Impostos regressivos e transporte caro são o próprio inferno, senhores trabalhistas.


O auê rosa e o anauê verde