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Com rolanças e mergulhos pelos divinos roteiros secretos dos índios Guarani Texto de Josely Vianna Baptista Desenho de Guilherme Zamoner


Arnoldus Florentius (sĂŠc. XVII).


Com rolanças e mergulhos pelos divinos roteiros secretos dos índios Guarani

Texto de Josely Vianna Baptista Desenho de Guilherme Zamoner


“Aqui poucas letras bastam, pois tudo é como papel em branco”, disse o padre português Manuel da Nóbrega ao desembarcar nas terras da América, em 1549. Chefe da primeira missão jesuítica enviada ao Brasil para “catequizar” os nativos,1 ignorava inteiramente a grande multiplicidade de culturas dos mais de mil povos indígenas que aqui viviam há milênios,2 e – embora não possuíssem escrita – sua riqueza sutil. Para os colonizadores e evangelizadores europeus desembarcados das caravelas, seu “Novo Mundo” era um lugar povoado por homens primitivos, selvagens, “sem fé, sem lei, sem rei”. Muito rio e muito sangue teriam de correr para o mar antes de alguns começarem a perceber que os habitantes do continente americano formavam verdadeiras sociedades, com seus próprios costumes, crenças, hábitos, tradições, em suma, suas próprias culturas. Uma das crenças indígenas que mais intrigaram os europeus aqui aportados (e que segue desafiando os estudiosos) foi a da yvy marã’ey. O termo guarani yvy marã’ey significa, ao pé da letra, “terra que não se estraga”, “terra que não se acaba”, “terra que não se corrompe”. Mas muitos o têm interpretado como “terra sem mal” e, por extensão, “paraíso” – superpondo ao termo um conceito judaico-cristão totalmente alheio à cultura indígena. O jesuíta Ruiz de Montoya o traduz, em seu Tesoro de la Lengua Guarani, por “solo intacto, que não foi edificado”, “solo virgem”, interpretação defendida atualmente por um grande conhecedor da cultura guarani, o antropólogo e lingüista Bartomeu Melià, para quem as migrações em busca da Terra sem Mal possuem motivação mítica, mas também estão estreitamente ligadas à procura de terras novas onde estabelecer, ainda que provisoriamente, aldeias e roças. A despeito das controvérsias sobre o sentido do termo, incontáveis deslocamentos se deram por matas e rios da América por conta dessa crença. Embora se saiba de migrações semelhantes realizadas por outros grupos indígenas, as mais conhecidas são as longas caminhadas dos Tupi-Guarani em busca desse “não-lugar”. Vamos falar aqui, principalmente, das migrações dos Guarani – etnia pertencente à grande família lingüística tupi-guarani, e que inclui subgrupos como os Ñandeva, os Kaiowá e os Mbyá. No século XVI os Guarani ocupavam um grande território, que corresponde hoje às áreas dos estados brasileiros de Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo e Mato Grosso do Sul, além de partes dos países vizinhos,3 particularmente Paraguai, Argentina e Uruguai. Embora ninguém saiba exatamente quando as migrações guarani tiveram início, elas começaram antes da chegada dos europeus, estendendo-se pelo século XVI (quando começaram a ser documentadas) e seguindo, de modo diverso, até nossos tempos. O certo é que quando os navegantes do Velho Mundo desembarcaram na América, elas já existiam. Se não por outros motivos, sabemos disso porque na época já existiam os grandes pajés. E uma das grandes preocupações dos grandes pajés era, justamente, a yvy marã’ey. Relatos de viajantes mencionam que eles não gostavam de se fixar num local: viviam andando pelas florestas, de aldeia em aldeia. Quando paravam em algum lugar por certo tempo, moravam em choupanas construídas à margem da comunidade. Conta-se que eram bem recebidos mesmo em aldeias inimigas, podendo transitar livremente por qualquer território. Reza o mito que eles se metamorfoseavam em jaguar e eram capazes de transformar homens em pássaros ou em outros animais. Às vezes acreditavam ter visões ou ver em sonhos a localização da Terra sem Mal. Então seguiam para a aldeia, ao alvorecer, e lá falavam aos índios sobre sua “visão”, considerada de inspiração divina. Numa de suas Cartas do Brasil, o missionário Manuel da Nóbrega reproduziu, à sua moda, o discurso de um pajé ouvido na clareira de uma floresta brasileira em meados do século XVI: Rugendas, Desmatamento, 1835. Ao fundo, foto de G. Sequera.

2


Em chegando o feiticeiro lhes diz que não curem de trabalhar, nem vão à roça, que o mantimento por si crescerá, e que nunca lhes faltará que comer, e que por si virá à casa, e que as enxadas irão a cavar e as frechas irão ao mato por caça para seu senhor e que hão de matar muitos dos seus contrários, e cativarão muitos para seus comeres e promete-lhes larga vida, e que as velhas se hão de tornar moças, e as filhas que as dêem a quem quiser e outras coisas semilhantes lhes diz e promete [...].

Em seguida a um desses discursos sobre essa terra de abundância, liberdade e imortalidade (que podia ser encontrada em vida), os índios iniciavam os preparativos rituais para, tendo o pajé como guia, partir em sua busca. Eles acreditavam poder alcançála através de práticas rituais, como o jeroky ñembo’e (a dança-oração) e os jejuns prolongados – o sofrimento do corpo levando ao triunfo do espírito e tornando o corpo tão leve que ele poderia voar sobre os mares e pousar, finalmente, na yvy marã’ey. A Terra sem Mal estaria, assim, ao alcance daqueles que enfrentassem coletivamente a árdua viagem. E também estaria destinada àqueles que, fortalecendo rituais antropofágicos que tiveram importância central em sua cultura, matassem e comessem muitos inimigos. Ainda que essas viagens fossem extremamente difíceis, milhares de índios costumavam enfrentá-las. Andavam vagarosamente, comendo os frutos e raízes que encontrassem pelo caminho. Quando a fome começava a reinar, eles às vezes paravam e faziam uma roça para depois seguir viagem. É interessante refletir, a esse respeito, sobre a tradição guarani da reciprocidade, lembrada até hoje pelos anciãos de diversas aldeias. Um deles, na aldeia guarani de Ocoí, Paraná, contou que, para que as árvores produzam bons frutos, elas têm de ser plantadas por outros e deixadas para quem está vindo pela floresta. Este seria o motivo de suas constantes mudanças: upare ore ro va meme. Na origem da crença na Terra sem Mal encontram-se antigos mitos sobre a destruição do universo, como o de Guyraypotý, um grande pajé, que ao ser avisado por Ñanderuvuçú (o “pai grande”) de um desastre iminente, cumpriu os rituais recomendados e salvou sua família extensa de um terrível dilúvio (que destruiu a Primeira Terra – yvy tenonde), alcançando a yvy marã’ey. (Um dos cantos que narram esse evento, coletado nos anos 50 por Leon Cadogan no Guairá, foi traduzido por mim diretamente do original em mbyá-guarani, em cotejo com a tradução castelhana de Cadogan, e encontra-se no corpo deste livro.) Curt Nimuendajú4 descreveu em detalhes uma versão desse mito, que procurarei resumir aqui: Descendo à terra para avisar Guyraypotý de que iria destruir o universo, Ñanderuvuçú lhe ordenou que organizasse uma dança de pajelança. Com seus seguidores, Guyraypotý dançou durante quatro anos, até que se ouviu à distância o trovão (Tupã) anunciando o fim. A oeste, a terra já estava desmoronando, pois Ñanderuvuçú tinha retirado um dos esteios que a seguravam. Um fogo subterrâneo começou a destruir o subsolo a partir de sua borda ocidental, que desabou logo depois que as labaredas chegaram à superfície, avançando em seguida para o leste. Guyraypotý então saiu caminhanho com seu grupo nessa direção, rumo ao mar. Plantaram roças enquanto foi possível, e depois passaram a comer o que Guyraypotý encontrava, ou seja, aquilo que criava com seus poderes mágicos. Alcançaram a Serra do Mar, onde Guyraypotý mandou construir uma casa de paus chatos, e ali recomeçaram a dança. Mais quatro anos se passaram e veio o dilúvio, “isto é: a água do mar ergueu-se como uma muralha e, inundando a Serra do Mar, rolou sobre a escora incandescente da terra, para arrefecê-la – pois Ñanderuvuçú

3


edificaria sobre ela um mundo novo”. As águas começaram a inundar a casa. Guyraypotý pôs-se a chorar, mas sua mulher pediu que ele subisse no telhado e abrisse os braços, para que os pássaros em apuros pudessem ali pousar. Ele devia impelir para o zênite todos os pássaros bons que pousassem em seus braços. Quando as águas inundaram a casa, atingindo os joelhos dos índios, a mulher continuou batendo a taquara ritual numa de suas vigas. Então Guyraypotý começou a cantar o Ñeengaraí (momento mais importante da dança de pajelança). Em breve a casa se soltou do chão, flutuou um pouco à tona d’água e logo subiu para o céu. Assim que a casa cruzou as portas celestes e ficou a salvo, o dilúvio investiu sobre o céu.

Variações desse mito sempre se ouviram ao redor da fogueira ou na opy, a casa de rezas. Os anciãos das comunidades, com a visão cataclísmica típica da cultura guarani, nunca deixaram de lembrar que o mundo acabaria de novo, da noite para o dia. Isso, ao lado das predições dos pajés, certamente contribuiu para que aldeias inteiras partissem em busca da yvy marã’ey. Também os Guarani modernos acreditam que a destruição do mundo está próxima, afirma o antropólogo suíço Alfred Métraux (1902-1963) em seu livro A religião dos Tupinambás (São Paulo: Ed. Nacional/EDUSP, 1979). Ele conta que os índios vêem em toda catástrofe um sinal do desastre: “Quando os sonhos, visões ou simples fenômenos naturais insólitos fazem pressentir a algum feiticeiro a aproximação do perigo, este, seguindo o exemplo de Guyraypotý, procura escapar-se-lhe, reunindo em torno de si e sob sua direção os mancebos, que se entregam ao jejum e à dança; todo um ano consagrado à dança mal chega para revelar a orientação ou caminho a seguir”. Embora algumas fontes refiram que a yvy marã’ey ficaria a oeste, ou no “centro da escora da terra”, em geral as trilhas de perambulação pegavam o rumo leste, no prumo do sol nascente. É curioso que para os Guarani o fim do mundo também esteja ligado ao sol. Nesse tempo a terra começará a ruir pelo poente, e o sol não surgirá mais, pois será devorado, juntamente com a lua, pelo morcego Mbopí recoypý. Então o jaguar azul será solto, e acabará com toda a gente, em meio a grandes chuvas e incêndios. Não deve ser à toa, portanto, que o termo guarani “ko’eramo”, usado para nomear o “amanhã”, traduza-se literalmente por “se amanhecer”. Há diversas nuances interpretativas desse mito, nas quais não cabe demorar neste brevíssimo percurso pelo tema. Menciono, de passagem, a abordagem de Hélène e Pierre Clastres, que vêem as migrações como resultado de crises internas às próprias sociedades indígenas, descartando a idéia de que a religião guarani seja a resposta de um povo oprimido pelo colonizador. Outros autores defendem a tese de que elas teriam sido deflagradas justamente por uma crise nas sociedades indígenas pós-conquista (com a escravização e o extermínio de índios, a dolorosa catequização jesuíta, a tentativa forçada de minar as culturas nativas, entre outros fatores). Retomo, ainda, a interessante interpretação da yvy marã’ey defendida por Bartomeu Melià, que vê essa “mobilidade social” (um dos eixos da cultura guarani, como vimos) de um ponto de vista também ecológico. Ele pondera que, sendo a Terra sem Mal uma “terra”, e não um paraíso que só se encontra depois da morte, ela não é imaginada pelos índios como um “Além”:

(...) Isto é muito importante, porque começamos a dialogar com uma concepção que está fora de nossas concepções cristãs. Ao ser terra, ela tem de ser boa. O guarani tem uma visão estética, inclusive, da terra. Para o guarani a terra é um corpo belo, na qual as árvores são como a cabeleira, a pele, é, às vezes, resplandecente, brilhante, e os fenômenos de erosão são as doenças. Isto está na concepção que nós chamamos mítica, mas que é uma concepção muito real para Rugendas, Desmatamento (detalhe), 1835. Ao fundo, foto de G. Sequera.

4


Notas Os padres da Companhia de Jesus aportaram na América para converter os índios à fé católica. Fundaram as primeiras “reduções”, formando um grande “sistema de missões” (vinculadas ao poder colonial espanhol), a partir de 1609, no Guairá. Por volta de 1767 a Companhia de Jesus foi expulsa. Nas Missões, os jesuítas impunham muitas proibições aos índios, ameaçando as bases mesmas de sua cultura. Um dos chefes indígenas, Potirava, revoltou-se com a situação e passou a dizer aos outros líderes indígenas que os jesuítas tentavam acabar com as tradições que herdaram de seus pais: “O patrimônio que nos deixaram não foi, por acaso, nossa liberdade? Por que concordamos em que nosso exemplo aprisione nossos índios, e, o que é pior, nossos sucessores, neste disfarçado cativeiro de reduções?” (MELIÀ, Bartomeu. El Guaraní, conquistado y reducido: ensayos de etnohistoria. 2 ed. Assunção: Universidad Católica, 1988.)

1

Estima-se que havia, na época, de dois a quatro milhões de índios. Hoje em dia, eles estão reduzidos a cerca de 220 povos com algo em torno de 370 mil indivíduos. Há mais de 180 línguas sendo faladas atualmente no país.

2

MONTEIRO, John Manuel. “Os Guarani e a história do Brasil Meridional”. In: História dos índios no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras/Secretaria Municipal de Cultura/ FAPESP, 1992. Org. Manuela Carneiro da Cunha. p. 476-7.

eles. Inclusive hoje o guarani estabelece relações com esta concepção da terra. Ante o desmatamento, diz: “vocês estão deixando a terra doente”. Quando vêem que estão loteando a terra para vendê-la, dizem: “vocês não vêem que estão vendendo pedaços do corpo humano, ou seja, estão carneando a terra?”5 Atualmente, cerca de 12% das terras do Brasil estão reservadas aos povos indígenas, sendo que menos de 1,40% nas regiões Nordeste, Sudeste, Sul e no estado do Mato Grosso do Sul. Os Guarani vêm sofrendo com a paulatina e drástica diminuição de seus territórios, pois toda sua organização gira em torno do tekoha, qualificado pela pesquisadora Maria Inês Ladeira “como o lugar que reúne condições físicas (geográficas e ecológicas) e estratégicas que permitem compor, a partir de uma família extensa com chefia espiritual própria, um espaço político-social fundamentado na religião e na agricultura de subsistência”. Com o desmatamento feroz a que vêm sendo submetidas as florestas sul-americanas, esse “lugar” está deixando de existir, e uma das conseqüências recentes disso é, por exemplo, o trágico caso das crianças Guarani que morreram de fome no Mato Grosso do Sul. Por coincidência, enquanto eu escrevia este texto estava acontecendo um debate no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina sobre questões fundiárias das terras guarani no litoral e sobre a conservação da Mata Atlântica, vistas como duas faces de uma mesma moeda. Vale transcrever, sobre esse assunto, estas palavras de Ladeira: “Os índios Guarani Mbyá do litoral procuram fundar suas aldeias com base nos preceitos míticos que fundamentam especialmente a sua relação com a Mata Atlântica, na qual, simbólica ou praticamente, condicionam sua sobrevivência. Esses lugares, procurados ainda hoje pelos Mbyá, apresentam, através de elementos da flora e da fauna típicos da Mata Atlântica, de formações rochosas e mesmo de ruínas de edificações antigas, indícios que confirmam essa tradição. Formar aldeias nesses lugares ‘eleitos’ significa estar mais perto do mundo celestial, pois, para muitos, é a partir desses locais que o acesso a yvy marã’ ey,  ‘terra sem mal’, é facilitado – objetivo histórico perpetuado pelos Mbyá através de seus mitos”.6

3

Curt Nimuendajú, em seu As lendas da criação e destruição do mundo como fundamentos da religião dos Apapocúva-Guarani. São Paulo: HUCITEC/EDUSP, 1987. Trad. Charlotte Emmerich e Eduardo Viveiros de Castro.

4

“A evangelização guarani do cristianismo”. TVE Regional/ Secretaria da Cultura do Mato Grosso do Sul. 7/5/2004. Trad. Douglas Diegues. 5

6

Site do Instituto Socioambiental. www.socioambiental.org.

Em sintonia com o próprio tema a que se dedicam, os estudiosos da yvy marã’ey parecem percorrer territórios em trânsito, excêntricos, cujas fronteiras (se é que se pode utilizar este termo aqui) ou são de ordem natural ou de ordem mítica. Talvez as verdadeiras motivações que deram origem a esse mito estejam para sempre soterradas na pré-história do continente e sob o emaranhado de relatos de viajantes e de análises que se cruzam e se contrapõem. Mas para além das sombras e incertezas que cercam a yvy marã’ey, parece-me que o maior mistério continua sendo, afinal, o modo como os Guarani, depois de cinco séculos de opressão, conseguem sobreviver à margem da “barbárie” contemporânea. Olhando a névoa, a nuvem, o orvalho, o alento do roçado em que respira a neblina vivificante, eles vêm mantendo com dificuldade seu tekoha, onde praticam o teko (modo de ser) de seus antepassados, enquanto buscam preservar, na pouca terra que lhes restou, a natureza e a “fala indestrutível” (ayvu marã’ey) que seus deuses lhes pediram para cuidar. Josely Vianna Baptista Março de 2005

5


carunchos e cupins roem,

(lus cofu

sco

)

G

úsc ulo

uirá Nhandu crep

(sob a Constelação da Ema, cujas penas são desenhadas por claro-escuros da Via Láctea)

e nada parec

claro

nem escuro

pode que a noite, hoje, se furte a amanhecer, a terra desmorone

Canção-tema do eterno

viajante

Ribeyrolles, Floresta virgem, circa 1858.

S o u u m Ve l h o M a r u j o , u m Ve l h o C a r a m u j o , e d o s m a r e s n ã o f u j o , m e s m o q u a n d o a m a r é n ã o e s t á p a r a p e i x e . 6


vorazes, a choupana de ripas

No

do céu fundo

negr o

um

jo: l ampe

o

latejan escuro

do no

mp m relâ u e d estalo

ago.

nos bordos do po ente e outra vez o sol, como antes, não desponte.

No e s c u r o d e s c u b r o o s r o t e i r o s n o t u r n o s p r a n a v e g a r s e g u r o : o l h a n d o o c é u e s c o l h o o t r a ç a d o d e e s t r e l a s q u e m e 7


pendem do esteio ramos de trigo,

A Primeira Terra

1

Yvy Tenonde

1

Ñamandu Ru Ete tenondegua oyvy ruparã i oikuaámavy ojeupe, oyvárapy mba’ekuaágui, okuaararávyma opopygua rapyta íre yvy ogueromoñemoña i oiny.

Pindovy ombojera yvy mbyterãre; amboae ombojera Karai ambáre; Pindovy ombojera Tupã ambáre yvytu porã rapytáre ombojera Pindovy; ára yma rapytáre ombojera Pindovy; Pindovy pete˜ı ñuru˜i ombojera: Pindovýre ojejokua yvy rupa.

Canto traduzido diretamente do mbyá-guarani ao português, a partir da versão coletada por León Cadogan entre os Guarani do Guairá, publicada inicialmente em 1953. Narra a criação da Primeira Terra, que depois seria destruída pelo dilúvio e substituída por Yvy Pyau, a Nova Terra.

O verdadeiro Pai Ñamandu, o primeiro, seu leito na terra para si mesmo concebendo, com o saber de seu ser divino, e sob o sol de seu poder criador, fez com que da ponta de seu bastão fosse surgindo a terra.

em busca de outro sol pode alguém se perder, abandonando o humano 2

Yvytu porã rapyta: a origem dos ventos bons, norte e noroeste, que anunciam a chegada da primavera. Ára: dia de 24 horas; horas de luz durante o dia; tempo determinado, estação. Ára yma rapyta: origem ou alicerce do espaço do começo. Os índios dizem que os deuses mudam esses alicerces para que se dê a mudança das estações.

2

Uma palmeira azul criou no futuro centro da terra; outra na morada de Karaí; uma palmeira azul na morada de Tupã; na fonte dos bons sopros da terra, uma palmeira azul; na fonte do tempo antigo criou uma palmeira azul; criou cinco palmeiras azuis: a morada na Terra está atada a essas palmeiras eternas. As palmeiras pindo fornecem óleo e palmito, fibras para as cordas dos arcos, que são talhados em sua madeira, e palmas que servem para cobrir as casas. Tupã: nome de divindade que rege o relâmpago e o trovão. A morada de Tupã fica no oeste.

mostram o rumo. Com a mala de conchas estourando de histórias, só viajo sozinho, de carona ou escondido no 8


Estudos de Guilherme Zamoner sobre aquarelas de Antonio Giuseppe Landi (feitas no Brasil entre 1758 e 1825).

feito amuleto para celeiros cheios;

rente a beiras

roça de milho pássaros e espantalho maltrapilho

arenosas

pinheirais

riachuelos

lajedos

para encontrar seu deus – o

e piraís

mesmo que, ao nascer, deu-lhe os ventos

em mutirão

(entre os capões

de araucária)

sopram as brasas

da mata:

ramos de grimpa

caindo

pinhas se abrind

o

em rosácea

c a s c o d o s n a v i o s . Q u a n d o o s b a r c o s , n o i n v e r n o , v ã o p a r a m a r a b e r t o , e u s a i o d o “t e r r a ç o” e v o u p a r a o p o r ã o , 9


tachos esfarelam crostas de grãos moídos

Jaguaretê

3

Mboapy meme rire o˜ı yva; yva ijyta irundy: yvyra’ípy ijyta. Yva itui va’e yvytúpy oayña imondóvy Ñande Ru.

3

com uma pintura no rosto em forma de meia-lua o menino brinca na palhoça com sua onça de guarabu em miniatura

Existem sete céus; o céu se assenta sobre esteios: seus esteios são cetros. O céu que se estende com os ventos Nosso Pai empurrou, mandou embora.

e noite adentro o escuro rugindo (os raios arranhando a pele do céu preto)

um nome secreto, de sua divindade perfeito e repleto. 4

Yvyra’i mboapýpy range˜ omboupáramo, oku’e poteri yva; a’éramiramo, omboyta irundy yvyra’ípy; a’éramo ae oî endaguãmy, ndoku’evéima.

4

Primeiro colocou três esteios no céu, e o céu ainda oscilava. Por isso, fincou-lhe quatro esteios-cetros, e ele ficou no lugar certo, sem se mover.

e noite afora o lanho dos lampejos dando talhos no olho de uma onça-pintada que espreita o menino ( cuia cheia de chuva pra felina malhada) pelas frestas molhadas (silêncios de permeio um trovão estremece as redes e o braseiro)

Os índios Mbyá-Guarani costumam fazer pequenas esculturas em madeira, reproduzindo animais que aparecem em seus mitos da Criação do Mundo. A onça-pintada é um dos bichos preferidos para as brincadeiras dos piás. Acima vemos uma dessas “felídeas” malhadas, no desenho de Maria Angela Biscaia.

mas lá tem muito rato e não é bom o espaço. Se me sinto perdido me lembro do que disse um marinheiro amigo: 10


e redes balançam seus esgarços,

Da saudade “(...) entre espinhos crepúsculos pisando” Dom Luis de Góngora

nesta rota sem rumo

sua semente mareja sal de lágrimas

pode que na viagem, no trajeto disperso, um homem adivinhe a vereda possível vem brotar (soledad) da própria rocha

(murmúrio (à flor) choupana de palha o som da sanfona alegra as frestas

de olho -d’água em grota)

u m m a p a - m ú n d i e u m á t o m o s ã o , o s d o i s , i n v i s í v e i s , d e n t r o d e u m g rã o d e a re i a c a b e o d e s e r t o i n t e i r o , o s a l e m n o s s a s 11


pretume de pez lavores de prata zinabre na cruz

perto do chão onde uma nódoa preta

inscrições solares passo após passo: antúrios murchos no basalto lodo ou folhedo: sobre o restolho

5

Yvy rupa mongy’a ypy i are mbói yma i; a’anga i tema ñande yvýpy ãngy oiko va’e: a’ete i va’e o˜ı ãngy Ñande Ru yva rokáre.

5

couro vermelho

Quem primeiro sujou o leito terreno foi a serpente do começo; só sua imagem persiste agora em nossa terra: a verdadeira vive fora do céu de Nosso Pai.

Michaud, Mata Atlântica, 1901.

dos pedregulhos na sola os talhos

sem fim, de sol a sol, até que a fome e a febre, o êxtase à flor da pele, a intempérie,

6

Ñande Ru Tenonde yvy rupa ogueroñe’e˜ ypy i va’ekue, oguerojae’o ypy i va’ekue, yrypa i, ñakyrã pytã i.

o A brasa d

6

No leito terreno de Nosso Pai o primeiro canto, o primeiro lamento, foi da yrypa, a pequena cigarra vermelha.

cima gua lá pra á a a v e l meio-dia

o solo árduo – mas

seco; re o chão b o s i a c a a chuv alado noitinha e

eira; numa pen

v e i a s t a m b é m v e i o d o m a r – , e e u d e n o v o m e e n c o n t r o , v e n d o m e u p r ó p r i o r o s t o n o r o s t o d o s a n t i g o s . Po d e t e r 12


mostra o antigo fogo

a foz do rio o riso do menino o óleo no miolo da noz

a prece , a dança em excesso, transportem o corpo adverso e o espírito pulse

s. re os dedo t n e o d n e r escor areia fina

Michaud, Nuvens baixas na Serra, 1885.

r: (Cf. estojo do pequeno colecionado trie élitros de besouros / sementes s / asas fólios / conchas de rio / graveto rasecas de insetos / alguns esca velhos / penas / seixos / ocelos)

maremoto, temporal, meteoros, pode ter furacão e chover pedregulho, mas não tem susto ou escuro que me ti r e m 13


Al

gu

ém

tudo abandono, e, no entanto,

7

Yrypa yma oime Ñande Ru yva rokáre: a’anga i tema ãngy opytya va’e yvy rupáre.

7

ca

m

in

ha

ao

u

so

br

e

ág

A cigarra vermelha originária está fora do céu de Nosso Pai: apenas sua imagem resta agora no leito terreno.

ua

s

fo

rr

ad

no rumo de seu desfecho um homem ouve o som rouco que vem do sopro nos colmos longos e ocos do torém

as

de

ua

s

e

ag

ua

sem remo só em silêncio seu bote transpõe

s;

a esmo

e respire e confronte o mar que o separa da terra indestrutível. 8

Yamai ko yja, y apo are. Ñande yvýpy o˜ı va’e a’ete ve’ey˜ma: a’ete va’e oime Ñande Ru yva rokáre; a’anga i téma ãngy ñande yvýpy oiko va’e.

8

Já o yamai por muito tempo fez as águas. Aquele que existe em nossa terra Esta passagem simboliza a criação das águas dos rios e dos mares da Terra. não é mais o verdadeiro: o verdadeiro está fora do céu de Nosso Pai; só sua imagem persiste agora em nossa terra.

so

br

e

o curso do termo extremo

o

qu

(treno)

e

o

to

to

rn

do p r u m o : s o u u m Ve l h o M a r u j o , u m Ve l h o C a r a m u j o , e d o s m a r e s n ã o f u j o . Nã o v i v o p r o f u t u r o : m e u r u m o 14

ou


lá fora o pomar semeado yvy marã’ey terra de paranás

o ouro, o outro o trapo roído pelos ratos

e raízes aéreas, de rezas intransferíveis e secretas que os deuses ensinam a cada um em sonho

quem sabe o paraíso que descrevem os antigos não esteja além do vasto terra em que o fôlego e o ar, a palavra e a alma,

em

ba

são um só corpo

rr

o

que se ergue

fo

fo

ca

com as roupas puídas

m

in

do sentido

ha

ao

André Thevet, De l’Arbre Choine,

u

al

gu

ém

1575.

.

é a viagem, e os mares não têm muro. Eu quero é descobrir outros mundos no mundo. E se bate a tristeza vou 15


para os que agora cruzam

9

Ñande Ru, yvy ojapóvy, ka’aguy meme araka’e: ñuu jipói araka’e. A’éramiramo, ñuu ruparãre omba’apo va’erã tuku pararã i ombou. Tuku pararã i guevi oikotu i ague, kapi’i rembypy i oñemoña: a’égui mae˜ oiko ñuu. Ñuu ogueropararãrã, oguerochiri tuku pararã i. A’ete va’e Ñande Ru yva rokárema oime: ãngy opyta va’e a’anga i téma.

9

Quando Nosso Pai fez a terra, tudo era mata: não existiam campos. Por isso, para que fosse elaborando prados fez vir o tucura. No lugar em que o tucura fincou as patas traseiras foram brotando brenhas de biurás e só então despontaram os prados. E no campo tiniram, tilintaram os sons do tucura comemorando. O tucura originário está fora do céu de Nosso Pai: agora resta apenas sua imagem.

Tuku pararã i: espécie de gafanhoto verde que se eleva muito alto no ar e solta um chiado agudo e penetrante, e outro chiado menos agudo (parãrã). Biurá: capim da família das gramíneas, de cujos frutos se fazem colares e outros adornos.

nevoeiro e sargaço , mas no árduo percurso vencido passo a passo , 10 Ñuu ojekuaa i mavy,

ogueroñe’endu ypy i va’ekue, oguerovy’a ypy i va’ekue, inambu pytã. Inambu pytã ñuu ogueroñe’endu ypy i va’ekue, oime ãngy Ñande Ru yva rokáre: yvy rupápy oiko i va’e, a’anga i téma. Inambu pytã: perdiz grande vermelha, ou martinete dos campos, chamada ynambu guasu em guarani.

10 Quando o sol iluminou o prado,

os primeiros sons que se ouviram, quem primeiro se alegrou foi o inhambu vermelho. Desfolhou o fôlego O inhambu vermelho – seu pio o primitivo som no prado – agora está fora do céu de Nosso Pai: hoje no leito terreno perdura apenas sua imagem.

s; seco entre espinho abrindo um trilho s u o s o o b r o v e o ( v

e s e c o e o c o o t e b u l b n t e p ó l e e n t r

d o

r d o o

p o ç o

c e p o d o

f r u t o

p o e n t o n e )

s o l e t r a n d o , a o v e n t o , l e t r a p o r l e t r a , a t e n t o , a p a l a v r a e - s - t - r - e - l - a , a t é s o n h a r s e r e i a s e s e n h a s p a r a o s s o n h o s . Nã o 16


ao rés da relva cores acordam amarelas quem sabe sejam só

(garapuvu

guaperubu)

(g u a p i v u ç u

guaperevu)

(trouxas vazias), um

flores dispersas, flores

rente ao limo do açude

(guapurubu guarapuvu)

ou um viés do sol réstia de alvorecer a rebelar-se (a sós) g u a p u r u v u s

pétalas

sem bússola ou mapa do céu em pergaminho; talvez além do zênite adrugada. élia guardou de m m o r b a e u e v o h c goles que a nuvem logo encontrou os

Francisco Faria, Fímbria 1 (no alto) e Guapuruvus, 2005.

vivo pro futuro: meu rumo é a viagem, e os mares não têm muro. Eu quero é descobrir outros mundos no mundo. 17


por um, os onze mil

11 Ñande Ru yvy rupa omboai ypy i va’ekue, 11 Aquele que primeiro feriu a terra na morada de Nosso Pai

tatu i. A’ete va’ey˜ma tatu i ãngy reve oiko i va’e ñande yvýpy: a’e va’e a’anga i reitéma.

12 Pytu˜ ja, Urukure’a i.

Ñande Ru Kuaray, ko’e˜ ja.

foi o tatu. O tatu simboliza a criação do mundo subterrâneo. Não é mais o verdadeiro tatu que existe agora em nossa terra: este não passa de sua imagem.

12 O dono do escuro é o murucutu.

E o da aurora é Nosso Pai, o Sol.

moradas nômades carunchos e cupins roem, vorazes, a choupana de ripas pendem do esteio ramos de trigo, feito amuleto para celeiros cheios; tachos esfarelam crostas de grãos moídos e redes balançam seus esgarços, perto do chão onde uma nódoa preta mostra o antigo fogo

que ofusca o caminho, deixando um invisível roteiro para os olhos que enfrentam Urukure’a: espécie de coruja (Speotyto canicularia); caburé-docampo. Murucutu é uma coruja parecida.

S e s o u u m Ve l h o M a r u j o , u m Ve l h o C a r a m u j o , d o s m a r e s n ã o ! , n ã o f u j o ! 18

tudo abandono, e, no entanto, lá fora o pomar semeado para os que agora cruzam (trouxas vazias), um por um, os onze mil guapuruvus


Guirá Nhandu para Teodoro Tupã Alves, que foi cacique e é professor de guarani na aldeia de Ocoí, Paraná

guapuruvus

pode que a noite, hoje, se furte a amanhecer, a terra desmorone nos bordos do poente e outra vez o sol, como antes, não desponte em busca de outro sol pode alguém se perder, abandonando o humano para encontrar seu deus –o mesmo que, ao nascer, deu-lhe um nome secreto, de sua divindade perfeito e repleto pode que na viagem, no trajeto disperso, um homem adivinhe a vereda possível sem fim, de sol a sol,

o escuro entre os dois crepúsculos ne

nhum ge

se

m o o utro

o

st

m passado

o

se

até que a fome e a febre, o êxtase à flor da pele, a intempérie, a prece , a dança em excesso, transportem o corpo adverso e o espírito pulse e respire e confronte o mar que o separa da terra indestrutível quem sabe o paraíso que descrevem os antigos não esteja além do vasto nevoeiro e sargaço , mas no árduo percurso vencido passo a passo , sem bússola ou mapa do céu em pergaminho; talvez além do zênite que ofusca o caminho, deixando um invisível roteiro para os olhos que enfrentam o escuro entre os dois crepúsculos

Martius, 1823.

19

ne

nhum ros

t


Índice iconográfico Verso capa

p. 2, 3, 4 e quarta capa p. 4 p. 6

p. 6 e 19

p. 10

p. 12 p. 13 p. 15

p. 17 Verso quarta capa

FLORENTIUS, Arnoldus. Delineatio omnium orarum tocius Aus trasis partis Americae, dictae Peruvianae, à R. de la Plata, Brasiliam, Pariam, & Castellam auream, unà cùm omnibus Insulis Antillas dictis, Hispaniolam, item & Cubam comprehendentis, usa, ad promont: floridae, vulgo cabo de la florida: Item Isthmi inter Panamam & Nombre de dios, Terrae Peru auriferae, cum ejus metropoli Cusco, & cõmodissimo portu Limae: Orarum ectiam Chilae, freti inter terram Patagonum, & terram del fuego, vulgo Estrecho de Fernando Magallanes. Et omnium portum, Insolarum, scopulorum, pulvinorum, Evadorum, tractuso, ventorum, ex optimis Lusitanicis cartis hydrographicis delineata atq, emendata. Arnoldus Florentius, à Langren, Author & Scalptor. [mapa, século XVII] Acervo Biblioteca José Mindlin. Sequera, Guillermo. Fotos de índios Mbyá-Guarani feitas em comunidades da América do Sul entre 1980/90. RUGENDAS, Maurice. Voyage Pittoresque dans le Bresil par Maurice Rugendas. [...]. Paris, Publié par Engelmann & Cie, 1835. Acervo Biblioteca José Mindlin. Ribeyrolles, Charles. Brazil Pittoresco. Album de vistas, panoramas, paisagens, monumentos, costumes, etc., com os retratos de Sua Magestade Imperador Don Pedro II et da familia imperial, photographados por Victor Fond, lithographados pelos primeiros artistas de Paris [...] e acompanhados de tres volumes in-4º, sobre a historia, as instituições, as cidades, as fazendas, a cultura, a colonização, etc., do Brazil, por Charles Ribeyrolles. Paris, Lemercier, ImprimeurLithographe, 1861. Acervo Biblioteca José Mindlin. [Martius, Carl Friedrich Philipp von]. Genera et species Palmarum quas in itinere per Brasiliam annis MDCCCXVII-MCDCCCXX. Jussu et auspiciis Maximiliani Josephi I. Bavariae Regis Augustissimi suscepto. Collegit, descripsit et iconibus illustravit Dr. C.F.P. de martius, Ordinis Regii Coronae Bavaricae Eques... Monachii, Typis Lentnerianis. MDCCCXXIII [1823]. Acervo Biblioteca José Mindlin. BISCAIA, Maria Angela. Onça-pintada. Vinheta publicada originalmente no livro Soninho com pios de periquitos ao fundo, organizado e apresentado por Josely Vianna Baptista, com canção de ninar mbyá-guarani traduzida em colaboração com Luli Miranda. Tipografia do Fundo de Ouro Preto, 1996. (Cadernos da Ameríndia, 2) MICHAUD, William. Mata Atlântica, 1901. Lápis sobre papel, 25x20cm. Acervo Museu Oscar Niemeyer. MICHAUD, William. Nuvens baixas na Serra, 1885. Aquarela sobre papel, 16,5x26cm. Acervo Museu Oscar Niemeyer. THEVET, André. La Cosmographie Universelle d’André Thevet Cosmographe du Roy. Ilustrée de diverses figures des choses plus remarquables vevës par l’Autheur, & incogneuës de noz Anciens & Modernes. Paris: Pierre l’Huiller, 1575. 2. v. Acervo Biblioteca José Mindlin. FARIA, Francisco. Fímbria 1, 2005. Grafite sobre papel, 30x30cm. Guapuruvus, 2005. Grafite sobre papel, 28x35cm. Coleção particular. [MORENO, Diogo de Campos]. Livro que dá razão do estado do Brasil. Edição comemorativa do V centenário de nascimento de Pedro Álvares Cabral (manuscrito do século XVII, conservado no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Cartografia atribuída a João Teixeira Albernaz I, século XVII). Rio de Janeiro, Instituto Nacional do Livro, 1968. Acervo Biblioteca José Mindlin. As ilustrações não creditadas neste índice são de autoria de Guilherme Zamoner. Todas as reproduções foram autorizadas. Agradecimentos: Biblioteca José Mindlin, Museu Oscar Niemeyer, Fundação Vitae.

20

Coleção Cadernos da Ameríndia, 4

Copyright dos textos e traduções © Josely Vianna Baptista, 2005 Copyright dos desenhos © Guilherme Zamoner, 2005

dirigida por Josely Vianna Baptista

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Baptista, Josely Vianna Terra sem mal : com rolanças e mergulhos pelos divinos roteiros secretos dos índios Guarani / texto de Josely Vianna Baptista ; desenho de Guilherme Zamoner. -- Primeiro de Maio, PR : Edições Mirabilia, 2005. -- (Coleção Cadernos da ameríndia ; 4 / direção Josely Vianna Baptista)

Este livro integra a seção Ameríndia do Programa ParanAmérica: novas luzes do Brasil Meridional para a terra da América.

ISBN 85-89673-06-5

1. Arte indígena - América do Sul - Brasil 2. Índios da América do Sul - Cultura 3. Índios Guarani 4. Mitologia indígena - América do Sul 5. Poesia brasileira 6. Primeira Terra (Mito Guarani) 7. Terra sem mal (Mito Guarani ) I. Zamoner, Guilherme. II. Título. III. Série. 05-7614

CDD - 980.3 Índices para catálogo sistemático:

1. Índios Guarani : Mitologia : América do Sul 980.3 2. Mitologia indígena : Índios Guarani : América do Sul 980.3

Ilustrações, capa e projeto gráfico: Guilherme Zamoner Pesquisa iconográfica: Josely Vianna Baptista Logomarca da coleção: Maria Angela Biscaia Logomarca ParanAmérica: Celso Silva da Silva Foto da quarta capa: “Mujer y niño Mbyá” (Guillermo Sequera, 1988) O poema “ao rés da relva” é para Jero e Julia. 2005 Todos os direitos desta edição reservados a Edições Mirabilia Caixa postal 14 Primeiro de Maio, PR, Brasil, CEP: 86140-000 Tel.: (55-43) 3235-2431 mirabilia@edmirabilia.com.br Nenhuma parte deste livro poderá ser reproduzida, transmitida ou gravada, por qualquer meio mecânico, eletrônico, por fotocópia ou outros meios sem a prévia autorização, por escrito, dos detentores do copyright.


Mapa atribuído a Albernaz (séc. XVII).

taking notes “terra preta” é o sítio onde se encontram fragmentos de cerâmica indígena, lia no dicionário, imaginando cacos de louça de cozinha sob estratos de argila, lascas de urnas funerárias sob o claro calcário, plumárias enterradas nos capões desmatados, itãs, sambás, tambás entre tíbias e fêmures, lembrando o velho índio que proibiu à Espanha o açoite e a quebradura de cântaros de chicha, tudo isso pressentindo, e entre outros verbetes, o chuvisco divino sobre o solo crestado, um fervor de agáricos nos tocos do basalto, pontuando, aliás, os rastros que apagava (com o fatigado couro da sola dos sapatos) ao retornar ao asfalto


apresentando as trilhas

9 7 8 8 5 8 9 6 7 3 0 68

ISBN 85-89673-06-5

Tove, tove ju, roríto yma... Parana rakãre nde ygua. Ñu apy rupi ajaja ro’u roikówy!

Guirá Nhandu Moradas nômades Canção-tema do eterno viajante A Primeira Terra Jaguaretê Yvy marã’ey e alguns recantos e atalhos dispersos

Pintado, pintado, amarelo, o periquitinho primitivo... gostava de ir beber água nos braços do Rio Paraná. Nas barrancas de capim vamos comer aiaiás!

Cadernos da Ameríndia, 4

Disse um sábio Guarani: “O tempo feliz é o dos longos sóis eternos, em que os seres são homens e são deuses”.

Terra sem mal  
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