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Nome: Aliria Ferreira de Souza Nelson Pereira de Souza

Vim diretamente da Bahia, com sete filhos, eu e minha esposa. Cheguei de uma vez, não conhecia nada aqui. A vida aqui era ruim, só cê vendo. Tinha algumas casinhas, as casinhas mui-

to ruins. E a gente muito fracassado também, não tinha pra onde ir. Fui obrigado a chegar e

me colocar aqui. Cheguei e fui trabalhar em construção civil, apesar que eu já era marceneiro.

Toda vida minha profissão foi marceneiro. Mas eu trabalhava por conta própria na Bahia e não tinha carteira fichada. Aí eu chegava na marcenaria e eles pediam carteira, e eu não podia comprovar que era marceneiro.

Trabalhei seis anos na construção civil. Com seis anos, consegui achar emprego na marcenaria

e me deram experiência de 30 dias, e graças a Deus deu pra mim passar bem. Aí foi que eu con-

tinuei na marcenaria e trabalhei até a idade que eu aposentei. Depois de aposentado, ainda trabalhei dez anos na mesma firma, até que vi que não tava aguentando trabalhar e tava ocupando lugar de outros; aí parei de trabalhar. Com 75 anos, mais ou menos.

Eu trabalhava na firma e de noite eu trabalhava aqui no serviço meu, trazia um pouquinho de material. Tinha dia que eu comprava um saco de cimento, na outra semana comprava tijolo, e fui levando

devagarinho. Levei cinco anos pra construir isso aqui. Eu mesmo construindo. Trabalhando fora e construindo. Até que foi indo, dei como pronto e vim terminando de fazer alguma coisa.

Aqui não tinha rua. Tinha um trilhozinho, muito ruim da gente descer. Era os barrancos, cheio de barro, a gente descia com dificuldade. Tinha que pegar água longe; tinha três chafarizes aqui: um ali na

entrada da rua, outro atrás da igreja, o outro nem sei onde era. A mulher saía daqui e ia pegar água lá embaixo, naquele canão, carregando tudo. Foi um bocado de tempo assim e depois foi melhorando.

Era poucas casas aqui, era tudo salteado. Naquele tempo, ventava muito e chovia muito também.

Quando dava vento, descobria as casas, que era tudo provisório. E como tinha aquele negócio

deles falar que ia desapropriar a gente, a gente ficava com medo de mexer. Aí fomos criando cora-

gem, um ia fazendo, outro também. Até que conseguiram resolver urbanizar a vila, colocar a luz. Aí

o povo animou, algum que não tinha feito, fez também. E continuaram a vida aqui mesmo. Porque a gente não tinha pra onde ir... se fosse pra outro canto, era a mesma coisa.

Porque naquela época, em 79, qualquer favela era desorganizada; tudo era ruim mesmo. E a gente,

todos que entraram em favela, veio do interior. Quem vem do interior, de qualquer maneira tem

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