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ARQUITETURA CENOGRAFICA

INTERAÇÃO CORPO E ESPAÇO

CENOGRAPHIC ARCHITECTURE

BODY INTERACTION AND SPACE

Guilherme Martins Rodrigues UnilesteMG - Centro Universitário do Leste de Minas Gerais. Trabalho de conclusão de curso. Timoteo. Minas Gerais.


RESUMO Este artigo aborda sobre a influência da cenografia no corpo humano levando em consideração conceitos da arquitetura e urbanismo contemporâneos. Para isso, a pesquisa descreve sobre o entendimento de cenografia, arquitetura de interiores, fenomenologia e semiótica. Traça um paralelo da história da cenografia desde o início da civilização, sobre as influencias arquitetônicas, manifestações urbanas e a aplicação no momento contemporâneo. A metodologia aplicada a pesquisa é teórica qualitativa de procedimento exploratório, foi utilizado como estratégia de estudo a leitura de livros, artigos, dissertações e obras de referências. A pesquisa contribuiu para entender se através do auxílio de artifícios da arquitetura contemporânea os espaços cenográficos são capazes de causar estímulos corporais e emoções. PALAVRAS-CHAVE: Arquitetura, Espaço, Interação.

This article discusses the influence of scenography on the human body taking into account concepts of contemporary architecture and urbanism. For this, the research describes about the understanding of scenography, interior architecture, phenomenology and semiotics. It draws a parallel to the history of scenography from the beginning of civilization, on architectural influences, urban manifestations and contemporary contemporary application. The methodology applied to the research is qualitative theoretical exploratory procedure, it was used as a study strategy the reading of books, articles, dissertations and reference works. The research contributed to understand if the scenographic spaces are capable of causing bodily stimuli and emotions through the aid of contemporary architectural devices. KEYWORDS: Architecture, Space, Interaction.

INTRODUÇÃO A cenografia abrange parte do estudo da arte, sendo uma ciência de projetar e executar instalações e cenários Fósforo (2015) onde se relaciona o contexto, o corpo e o espaço, demandando uma série de fatores que se aglutinam para chegar ao objetivo idealizado. Entretanto, a cenografia ainda é um elemento pouco explorado na arquitetura, uma vez que pode ser associada diretamente a questões fantasiosas ou ilusórias. O propósito da pesquisa é entender qual a influência da cenografia na arquitetura e no urbanismo e como potencializar as relações do corpo com o espaço para promover sensações, emoções e estímulos. A cenografia esteve presente na vida humana de maneira muito intuitiva, através de fenômenos naturais os povos primitivos promoveram as primeiras manipulações do espaço. Com o passar do


tempo, na Grécia antiga iniciou um processo de aprimoramento gerando espaços destinados ao uso da cenografia. Após a revolução industrial, deu-se início a um período de grandes mudanças na humanidade, os espaços cênicos se tornaram ainda mais sensíveis e puros ao público, uma vez que a aplicação de novas técnicas ampliava a capacidade fenomenológica nos espaços. No modernismo as vanguardas definiram a cenografia como expressões e comunicação através da exploração do som, da cor, luz e movimento. De acordo com o blog do escritório de Arquitetura Fósforo (2015) atualmente através dessas comunicações a cenografia tem se tornado nova forma de manifestação contemporânea. Usada para planejamento, criação e desenvolvimento de espaços contemporâneos lúdicos e efêmeros, visando o objetivo conceitual. A arquitetura se torna cada vez mais uma atividade importante em todas as escalas de produção e é também neste momento que se compreende que a cenografia está atingindo grandes proporções, inclusive em escala urbana, através da manifestação da arte contemporânea, dos teatros, museus, eventos e intervenções urbanas. O artigo busca compreender a seguinte questão: qual a forma de potencializar a produção cenográfica a partir de interferências de artifícios arquitetônicos para garantir relações pessoais e espaciais? Elementos arquitetônicos podem contribuir para potencializar as relações sensoriais do usuário com o espaço, podendo desenvolver afetividade e pertencimento espacial, gerando vínculos sólidos entre eles. Isso garante o valor simbólico sobre a produção, tornando-a elemento essencial para o usuário. O artigo trata-se de uma investigação teórica, de caráter exploratório de natureza qualitativa, com procedimentos bibliográficos. A pesquisa irá analisar as relações entre corpo e espaço na arquitetura e cenografia, analisar as relações entre espaço e o sentimento que transmite, além de estudar obras de referências cênicas e realizar análise sobre elas. O objetivo geral do artigo é identificar como a arquitetura contemporânea pode potencializar a produção da cenografia. Para isso, será investigado como a cenografia se relacionou com a arquitetura ao longo da história. Serão analisadas a ciência fenomenológica e a semiótica para entender como podem ser promotoras de valores, sensações e estímulos. Além de entender quais os artifícios contemporâneos podem ser utilizados para promover espaços cenográficos.


Relação da cenografia e a arquitetura e seus caminhos até as dimensões contemporâneas. A cenografia palavra de origem grega skénegraphein, que em sua definição é “a arte e ciência de projetar e executar a instalação de cenários” (URSSI, 2009, p.14). Vitrúvio (1946) também define cenografia em sua quinta edição do livro De Architetura como a arte de desenhar e compor lugares. A arquitetura é definida por uma ciência responsável pelo planejamento e projetos de edificações de diferentes ambientes para diferentes tipos de atividades, também é definida por Costa (1940) como uma arte compostas pelo conjunto de princípios, normas, técnicas e materiais utilizados para projetar o espaço, visando determinada intenção plástica. Dentre os diferentes tipos de seguimentos, a arquitetura de interiores segundo Civil (2011) se define como arte de projetar espaços internos, sendo capaz de melhorar a relação do indivíduo ao seu ambiente baseado no conhecimento de suas necessidades, sendo ela funcional, estética, tecnológica e social. Por ter soluções muita detalhistas e que se atenta também a pequenas escalas de projeto, a cenografia é constantemente associada a dimensão de interiores, entretanto, ela tem sido uma solução que é capaz de promover espaços destinados a manifestações artísticas de caráter efêmero criando um campo específico de atuação. Eliminando as fronteiras dos espaços fechados, a cenografia tem chegado à escala urbana, provando que se tais técnicas forem utilizadas em comunhão as questões sociais, ao urbanismo e a arquitetura podem promover espaços capazes de instigar o corpo e a mente a desejos, afetos, medos, e diversos outros sentimentos. A cenografia ao longo da história Com sua origem na era primitiva, a cenografia esteve ligada aos xamãs, “criavam espaços compostos por uma ambientação mística para que de certa maneira demonstrasse sua autoridade sobre o povo em suas apresentações” (URSSI, 2009, p.18). A natureza era a principal matéria para esses eventos, assim, utilizavam da força do sol, do fogo, da luz e da fumaça, além de folhagens e pelos de animais para a formatação dessas manifestações. A arquitetura também esteve presente nesse contexto cenográfico com as edificações em pedra dos monumentos denominados ‘Menir’ ou ‘Megálito’ que era grandes pedras alinhadas em posições lineares ou circulares colocadas sobre o solo verticalmente, apontando para o céu. Para Haag (2011)


Estes espaços tinham significados religiosos, formando recintos sagrados ou lugares místicos, mas era sempre um elemento que definia um espaço importante e significativo. Os primeiros resquícios de cenografia se limitavam ao que a natureza oferecia, e isso ocorreu até o início do século VI a.C, que foi se transformando até chegar em sua segunda fase, onde o homem era capaz de criar e manipular novas técnicas de representação. No século IV a.C. em Atenas, um saltimbanco chamado Téspis apareceu em um carro com muitas mascaras juntamente com um grupo nômade de dançarinos e cantores. Em um festival aos deuses gregos, de forma inédita viu-se um homem atuar, e não prestar culto a deuses. Assim, uma nova cultura se formava perante a sociedade. Para Urssi (2009) a cenografia ainda efêmera, porém, totalmente independente da natureza, começava a solidificar, o homem iniciava um processo de aprimoramento dessas manifestações, criando novos diálogos e questões. Perante a definição de Vitrúvio em seu livro ‘De Architetura’ entendesse que a partir de Téspis a cenografia se tornava arquitetura, Urssi (2009) uma vez que era formulado desenhos e lugares para a ocorrência de performances. Então começaram a surgir construções no estilo de anfiteatro, edifícios destinados a manifestações culturais e produções artística, aderindo um papel importante e fundamental na sociedade. Então a partir do século X na Roma antiga, Afirmou Magald (1986) que nessa época se iniciou a implantação de elementos físicos nas performances em palcos, levando a cenografia a se desenvolver como uma técnica de representação, trazendo para as cenas: ação, lugar e tempo, através de brigas e veículos para combates romanos e que os cenários se constituíam em fachadas de palácios, templos e tendas de campanha. Na idade média a arquitetura contribuiu com estilo gótico que ocuparam um novo olhar nos espaços urbanos deixando de ser somente edifícios religiosos, se tornando em um novo ambiente de experimentações pessoais e coletivas. Assim as construções das catedrais do período gótico desempenharam um novo panorama no contexto cenográfico que se percebe através da força desempenhada por esses espaços. O ambiente era um cenário totalmente sensorial e intimista, as rosáceas, os vitrais com figuras bíblicas que emantavam o espaço junto da luz do sol, a dualidade causada pelo claro e escuro e a supervalorização da estrutura intensificava no homem extrema variação de sensações e sentimentos de extremo êxtase. A retratação feita no livro “A história da arte”, por Gombrich demonstra tais justificativas de forma ilustrativa:


Mostraram-me na igreja de minha aldeia Um Paraíso pintado com harpas E o Inferno onde ferviam as almas danadas; Um enche-me de júbilo, o outro assusta-me. (GOMBRICH, 1999, p.117)

Com as evoluções culturais, os espaços destinados a cenografia se modificava, em meados do século XV surgiram os painéis pintados com perspectivas bidimensionais a partir dos significados e dos objetivos buscado pelas cenas. As telas de fundo de cena estabeleciam as representações do espaço cartesiano em um plano bidimensional. “A arte pictórica e a cenografia ampliavam elementos ilusórios em cena, unindo a arquitetura e a cenografia”. (URSSI, 2009, p.71). As ilusões de ótica criadas por telas pintadas em perspectivas na cena, trazia para o palco uma espécie de terceira dimensão, provocava expressões físicas e sentimentais nos espectadores pelas novas linguagens expressadas envolvendo significâncias contidos nos cenários. Conforme apontado por Donis: Toda a ciência e a arte da perspectiva foram desenvolvidas durante o Renascimento para sugerir a presença da dimensão em obras visuais bidimensionais, como a pintura e o desenho. Mesmo com o recurso do trompe d’oeil aplicado à perspectiva, a dimensão nessas formas visuais pode estar implícita, sem jamais explicitar-se. (DONIS, 1997, p.52)

O barroco foi um período onde o gesto do criador se refletia na sua produção, o desenho a inventividade era maior que a ideia de imitar, dessa maneira a arquitetura barroca expressa sua beleza. Nesse período o dinamismo plástico, a simetria e a imponência reforçava as emoções, conseguiam passar através de elementos claro-escuro, pelas saliências sinuosas, lisas, contorcidos e espirais um efeito ilusório tanto nas fachadas e nos desenhos de plantas das edificações. Surgiu uma nova linguagem com a interpenetração que resultava em uma visão espacial unitária. De acordo a Zevi: O barroco é a liberação espacial, é libertação mental das regras dos tratadistas, das convenções, da geometria elementar e da estaticidade, é libertação da simetria e da antítese entre espaço interior e exterior. Por essa sua vontade de libertação, o barroco assume um significado psicológico que transcende o da arquitetura dos séculos XVII e XVIII, para significar um estado de espírito de liberdade, uma atitude criativa liberta de preconceitos intelectuais e formais, que é comum a mais de um momento da história da arte [...] (ZEVI, 2000, p.144)

Na revolução industrial, entre os séculos XVIII e XIX, onde a luz elétrica enfatizava as sombras criando espaços com maiores profundidades e distancias e as vanguardas artistas mudam os cenários apresentando uma fluidez no espaço, unindo a sensibilidade e os fascínios e alternando o jogo do lúdico a realidade. Urssi (2009) entretanto os cenários em perspectivas já não atendiam mais a todas as ações em palco, assim os painéis foram trocados por novos planos definidos pelas novas possibilidades de volumes geradas pela iluminação elétrica.


No século XX surge os movimentos artísticos influenciando os conceitos de comunicação, projeções em telas ampliavam a cenografia, os sons definiam espaços, a cor e o movimento eram exaltados. Os cenários expressionistas, eliminou tudo que fosse supérfluo e não consideravam os cenários como lugares, mas como espaços de manipulação dos sentidos, o tocar da alma do espectador era o objetivo principal. Para o arquiteto Appia (1908) o cenário era único e efêmero para cada espetáculo, definido pelas luzes, cores contrastadas que proporcionavam cenas bidimensionais e múltiplas. As cores projetadas deveriam provocar emoções que não podem ser provocados por palavra nem por gesto. Os espetáculos eram baseados em estímulos eróticos para provocar a imaginação e principalmente a participação do público. Com a contemporaneidade tem ampliado as possibilidades arquitetônicas que se completam com projeções cenográficas. O auxílio das novas tecnologias tem possibilitado a criação de espaços efêmeros e reutilizáveis para proporcionar ao homem novos comportamentos e estímulos. Assim, a arquitetura cenográfica está ganhando novas dimensões e isso tem possibilitado a descoberta de novos símbolos social, cultural e sensorial. Entendesse que a arquitetura vai mais além das dimensões tangíveis, onde o espaço projetado possa dar um significado e agregar valores a pessoa em suas atividades. Afirma Pallasmaa: A qualidade da arquitetura não reside na sensação de realidade que expressa, mas, ao contrário, em sua capacidade de despertar novas imaginações. A arquitetura é sempre habitada por espíritos. A primeira condição para a produção de uma boa arquitetura é a criação de um cliente ideal para a encomenda em questão. (PALLASMAA, 1986, 488)

Arquitetura como estratégia em gerar estímulos no corpo e espaço. Os elementos simbólicos têm um importante papel dentro da arquitetura cenográfica. Para produzir cenografia é importante imaginarmos uma microescala pois cada detalhe faz muita diferença na conformação total do espaço. Esse tipo de produção demanda de uma atmosfera sensível, sendo necessárias soluções especificas para o projeto. Existem artifícios da arquitetura contemporânea utilizados para potencializar a cenografia ao ponto de garantir uma forte comunicação entre corpo, tempo e espaço. As sensações podem ser estimuladas pelas cores, para Lovato (2014) compreende que o funcionamento do nosso organismo está diretamente influenciado pela aplicação das cores no dia a dia. Cada cor possui um significado, em exemplo o verde que simboliza harmonia e equilíbrio,


entretanto cada cor tem suas afinidades com determinadas emoções e oferecem muitas leituras visuais: A cor exerce uma ação tríplice: a de impressionar, a de expressar e a de construir. A cor é vista: impressiona a retina. É sentida: provoca uma emoção. E é construtiva, pois tem valor de símbolo e capacidade, portanto, de construir uma linguagem que comunique uma ideia. (FARINA, 2016, p.13)

Além da cor, aplicasse junto outro elemento marcante: as texturas, Zimerer (2016) afirmava que todo elemento possui sua textura e quando aplicado em determinado espaço se torna mais evidente em alguns itens, como os moveis, objetos e adornos. Dessa maneira a textura proporciona volumes ao ambiente com possibilidades visuais e táteis, proporcionando diferentes sensações. É necessário levar em conta o objetivo desejado para aplicar a melhor maneira de destacar as texturas no espaço. O layout do espaço é um elemento usado para estabelecer fluxo e influenciar na locomoção dentro do ambiente, afirmava Zimerer (2016) que o layout possui capacidade de envolver o ambiente com o usuário e provocar sensações atingindo um objetivo. Outro artifício primordial é a iluminação, podendo ser aplicada de forma natural ou artificial, possui dimensão sensorial valorizando o espaço. Para Urssi (2009), a luz é a mais importante ferramenta na cenografia, ela influencia os outros elementos da arquitetura, ela induzir e potencializa os estímulos corporais. A luz transforma a capacidade de uso e apropriação dos espaços, possibilita o destaque de formas e texturas. Através da tonalidade aplicada ao ambiente tem a capacidade de enfatizar os estímulos corporais, um exemplo são as luzes incandescentes de tonalidade mais amarelada, que são mais aconchegantes e acolhedoras. Afirmava Barnabé: [...] a luz é capaz de transformar-se em elemento linguístico no momento inventivo do projetar, retornando não só como material específico da arquitetura, mas como a própria arquitetura. Não só iluminando a mensagem, mas sendo a própria imagem (BARNABÉ, 2002, p. 4).

De acordo com Urssi (2009), o som possui uma ligação simultânea com a luz que atribui um suporte para o estimulo corporal, sendo capaz de motivar e definir uma ação em determinado tempo. Os efeitos sonoros, a frequência sonora e o volume do som, estabelece uma atmosfera combinada para a produção sensorial. Afirma Valbuza (2015), que há pessoas mais sensíveis ao sentido da visão, e a essas a arquitetura deve comunicar a mensagem, porque a imagem é uma linguagem universal. Cada espaço tem suas


peculiaridades, sendo necessário a aplicação de teorias para que os artifícios se torne algo tangível na produção, para isso temos o auxílio da fenomenologia e semiótica. A fenomenologia interpretada como o ”espírito do lugar”, ou “a expressão máxima da influência da arquitetura no corpo”, é responsável por gerar emoções ligadas à nossa alma, dessa maneira ela é capaz de dar significado ao ambiente. De acordo com Pallasmaa (1986), os espaços são percebidos através de cada usuário, de modo individual ou coletivo, sendo uma natureza introspectiva. Fenomenologia é da natureza introspectiva e contrasta com o desejo de objetividade do positivismo. A fenomenologia busca descrever os fenômenos recorrendo diretamente à consciência como tal [...] Logo, a fenomenologia da arquitetura é ‘olhar, contemplar’ a arquitetura a partir da consciência que a vivencia, [...] a fenomenologia da arquitetura busca a linguagem interna da construção. (PALLASMAA, 1986, p.485)

A semiótica é a ciência que estuda os símbolos e signos, capaz de dar significados e sentido a linguagem e comunicação no qual está intimamente ligada ao homem. O signo é a junção desses aspectos que podem atribuir a relação do homem ao espaço. Afirmou Gandelsonas: Semiótica é a ciência dos diferentes sistemas de signos linguísticos. Ela estuda a natureza dos signos e as regras que governam seu comportamento no interior de um sistema. A semiótica ocupa-se, portanto, do processo de significação, ou da produção de sentido, que se realiza por intermédio da relação entre os dois componentes do signo: o significante (como uma palavra) e o significado (o objeto denotado). (GANDELSONAS, 2006, p.443)

Todo indivíduo tem a sua linguagem e é capaz de comunicar-se com outro, podendo ela ser por palavras, desenhos, sons, gestos e numerosos outros meios. Para Pignatari (2004) a semiótica ajuda o a ler o mundo sendo possível compreender o que está em nossa volta. A semiótica consegue estimular vários sentidos corporais ao mesmo tempo, então a arquitetura é uma das maneiras mais eficientes para essa produção. A arquitetura cênica é capaz de potencializar o espaço definido por uma ação em um determinado período de tempo. A tríade: espaço, tempo e ação determina as configurações dos elementos para ampliar o foco das relações entre os indivíduos. É importante levar em consideração o entendimento de como será o processo de apropriação dos espaços criados pelos novos cenários, tornando importante no panorama da arquitetura atual, pois a criação desses espaços efêmeros tem contribuindo para a cultura contemporânea, como livre expressão no processo de concepção do projeto, materializando o sonho, realizando vontades, as necessidades transitórias e construindo memórias.


Artifícios contemporâneos na arquitetura cenográfica. A contemporaneidade é definida como a “época presente”, ela tem possibilitado novas tecnologias e técnicas construtivas, tem ampliado a busca por princípios sustentáveis, e, além disso, tem proposto novas soluções que buscam desenvolver o sentimentalismo dentro do espaço. A arquitetura cenográfica é responsável por auxiliar através de seus artifícios em questões intangíveis e sensíveis cobertas de significados, contribuindo na produção das experiências físicas baseadas em sentimentos do indivíduo, mantendo-o em contato participativo no evento, construindo experiências únicas. Dessa forma, são necessários o espaço e o ser, concebendo uma abordagem complexa em percepção e constituição da espacialidade elaborada. Segundo Sousa (2015) os significados são revelados quando o lugar é vivido em toda sua dimensão, sendo ele sentido, apropriado e vivido. A forma como o homem se apropria faz com que o lugar vá ganhando o significado dado pelo seu uso. Considerando a importância do papel do arquiteto em projetar espaços que propicie ao usuário uma identificação com os mesmos, é importante que o arquiteto tenha conhecimento e interação com o que está proposto e qual o público alvo. Pois a relação entre corpo, mente e espaço estão totalmente associadas no contexto da identidade do local. (SOUSA. 2015, p. 33) As possibilidades de uso da cenografia têm se estendido e as escalas de projeto não possuem limites, de acordo com Fósforo (2015) o atual momento está sendo aplicada o uso da cenografia em espaços promocionais, estandes em feiras, showrooms, shows, museus, eventos, intervenções e exposições. Segundo Mantovani (1989) em termos práticos, os cenários efêmeros concretizam-se perante o arquiteto como o desafio de transformar muito com pouco, independente da escala, do público alvo ou do conceito. Em Milão, através do uso de alguns artifícios arquitetônicos, Koolhas potencializou o cenário do desfile da marca de roupas Prada, alterou a relação uso / espaço para o desfile, criando um novo layout para atingir a sua proposta e causar uma experimentação individual no meio coletivo. A distribuição dos acentos em blocos azuis individuais é capaz de causar em cada indivíduo uma sensação particular, garantindo participação intensa e principalmente a sedução pelas roupas. O objeto se aproxima do olhar, e o objeto passa a pertencer ao indivíduo, desconstruindo qualquer setorização antes estabelecida nesses espaços.


Figura 01 - Desfile Prada Men Show, Milão

Fonte: OMA.EU/PROJECTS/2011-SS-PRADA-MEN-SHOW, 2011

A alteração do fluxo propõe uma nova forma de interação com os modelos e as roupas, dessa forma o contato se estreita. A altura dos bancos direciona a visão para a peça de roupa, diminuindo o protagonismo dos modelos e ampliando o das peças de roupa. A iluminação indireta por holofotes de campo de futebol destacando a cor das roupas Citizen é uma empresa de relógios que explorou de forma icônica a relação da arquitetura com a cenografia, em uma apresentação de seus produtos. O de caráter intimista, recebeu artifícios como luz, cor e material dourado que valorizava a construção do produto. A composição desse espaço foi feita pelas peças internas do relógio, o ambiente preto, somente com luz incidida sobe as peças


refletiam nos nobres materiais do relógio, atraindo o olhar do usuário para adentrar ao centro da exposição. Figura 02 - Light is time, Milão

Fonte: DGTARCHITECTS.COM/PROJECT/DETAIL/IT11/EN, 2014

Essa aplicação de luz e sombra gera uma profundidade no espaço, a sensação de imensidão e imersão faz com que o usuário perca a clareza espacial, sendo levado para uma nova dimensão, em uma atmosfera lúdica, gerando um sentimento de desejo sobre o produto e sobre o espaço. Figura 03 - Light is time, Milão


Fonte: DGTARCHITECTS.COM/PROJECT/DETAIL/IT11/EN, 2014

No vale do aço, através do uso de um conceito desconstrutivista, Osamu potencializou o espaço de uma exposição gerando uma incógnita nos visitantes: qual a função do espaço. Para isso, utilizou de uma estrutura que se adaptava a diferentes usos. O projeto despertava a sensações primaria de estranheza, entretanto isso se alterava ao longo do percurso e das várias percepções. O uso extremo de vazio e do cheio com volumes e texturas foi de artifício arquitetônicos aplicado nesse cenário que se construía a cada novo uso. Figura 04 - Galeria Osamu, Ipatinga


Fonte: FACEBOOK.COM/GALERIAFLAVIOOSAMU/PHOTOS, 2016

As diversas possibilidades de uso do espaço apontavam infinitos modos de se apropriar, criando um cenário plural e muito simbólico.

Conclusão Conclui-se que após identificar as relações entre a cenografia e arquitetura durante todo o panorama histórico, em quase todos os momentos foi necessária a contribuição de artifícios arquitetônicos aplicado na produção, atribuía novos conceitos e significâncias para os espaços. Na contemporaneidade as novas possibilidades adquiridas com o surgimento de novas tecnologias e técnicas contribuem para projetos singulares com alta capacidade fenomenológica. Para o projeto se tornar algo material ou tangível é relevante que o projeto cenográfico seja nutrido por questões imateriais, como a cultura, o conceito, a fenomenologia, a semiótica, o tempo, e a relação homem e meio, entendesse que a aplicação desses artifícios arquitetônicos nesse processo serve para potencializar os estímulos causados na cenografia do espaço.


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