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Os Dentes Um conto de amor paranoico nos tempos de WhatsApp Por Walter Disney

(Prefácio: todo mundo tenta ver o autor em algum ponto da própria obra. O que vocês não contariam é que a) esse texto é feito sob pseudônimo e b)esse não sou eu)

Então ele desatou a dormir. Porque tudo que o Natã podia fazer ali era dormir. Aquele retardado não podia ter escolhido outra coisa além de dormir? O desgraçado tira o sono do prédio inteiro, causa um alvoroço que me fizeram aparecer síndico, sub-síndico, contador, tesoureiro, zelador, cuidador da piscina, todos no 12º andar – e todos entupindo o elevador social, quando tudo o que eu queria era descer e pegar a porra da Folha. Tomar uma porra de café. Ir levar a joça do lixo. Porra! Porque tudo o que rondava o edifício Mirnea no sábado de manhã era aquilo: um prédio tranquilo, numa rua paralela de uma rua paralela de uma avenida, virado de ponta cabeça, apenas porque um bostinha adolescente, que mal saiu do Ben 10, não conseguiu impor seu cérebro em relação ao seu pau, ó grande pau, tão imperativo e mandão, que fez com que o elevador social parasse de andar em andar; que o wi-fi do prédio ficasse congestionado; e, menos importante, que eu ouvisse passos de botas salto-fino do lado de fora da porta. Porque o bostinha do Natã... * Natã. Natã. Natã Zwilberstein. O intempestivo pentelho do 1201. O moleque mais mimado de todo o Mirnea. Não sei o porquê de tanto rolo em cima das peripécias dele. Como os pais não tinham tempo pro próprio rebento – Zwilbs pai era um senhor muito importante na empresa em uma empresa muito importante, que trabalha com siglas e nomes em inglês extremamente importantes; ela, a madame Zwilbs, uma gerente comercial independente, dessas que nunca saíram da mancha urbana, dirigem verdadeiros tanque de guerra e batem ponto na academia- coube à empregada, dona Mirtes de Sousa, tentar colocar arreios no potrinho chucro. Deu com os burros n’água, óbvio, pois nada como uma TV de LCD, uma assinatura de Cartoon Network e uma cômoda com todos os brinquedos desejáveis para que o potro não desse sossego a ninguém. Com 9 anos o primeiro palavrão! Oy Vey! 1 Com doze anos a primeira olhada torta na Torá! Mas que personalidade forte aquele moleque! E na escola? Ah, na escola o cenário era diferente: igual, porém dez vezes pior. Cem vezes pior. Em um colégio judaico, cheio de judaiquinhos tão filhos únicos como ele, uma geração tão “post” e tão “compartilha as repostas cara”, cheio de cordeirinhos que foram tão 1

“Minha nossa” em hebreu.


bem planejados que parecem ter saído duma planilha de Excel, ele emergia como o Grande Irmão com um quipá bordado, seguro com uma presilha preta. Nenhum professor tinha sossego. Nenhum mesmo. Nem eu. Ano passado mesmo, descendo pra ir buscar o jornal, encontro, me fitando do pé da escada, o elemento. Olhos vidrados, semicerrados, cara amarrada. Eu continuei assoviando Caetano, Tom, hoje não lembro o que era. Então me viro, chamo o elevador, que está lá no 12º. Começa ali as 12 estações o meu martírio. “Por que você me deu 6,5, seu mala?” “Ah, olá Natã. Deixa isso pra segunda, a gente disc...” “Fala logo cassete, por que um 6,5 quando eu preciso de 8 pra passar? Hein, Sr. Antares, precisa disso?” O elevador agora no 7º. “Meu filho, não sou eu quem te dou a nota. É você quem tira.” Sexto. Ele sai do sério. “Caralho meu, não precisa disso. Cê quer me fuder é? Quinto. Hora de panos quentes. “Calma, a gente resolve. Sem palavrões tá?” Terceiro. Não adiantou “Se eu quiser falar eu falo É meu pai? Mãe? Aquele rabino mala? Então não enche.” O elevador chega, prefiro dar as costas. Mas, quando o elevador para, ao me virar e apertar aquele botão preto com um 5 já ensebado, com o número branco quase sumindo, me vejo a menos de dois centímetros de Natã, sua respiração bufando na minha barba, as mãos em cima dos jornais, uma pose até romântica vista por fora. Por dentro, entre nós dois, eu já não sabia onde aquilo ia parar. E era pra parar? * A escola, no meio do bairro de Higienópolis, era a cara do entorno. Se o meio influencia a mensagem, aquela branqueleza toda, aquela candura toda, aquela coisa toda certinha, aquela gente que chama outras gentes de “diferenciada” estava distribuída, em forma mirim, nos corredores e alas do Jacob Wilberstein, o colégio que homenageava algum sionista, algum expansionista, algum desses. Todos ali, usando camisas limpadas com Omo – se bem que eles também pareciam ter sidos passados na máquina. Dali saíram rabinos, banqueiros, joalheiros, financistas, todo o tipo de gente que ganha dinheiro. Na década de 70, quando os grandes bancos se reuniam, o assunto não era o Delfim Netto, não era o petróleo, mas sim era o rabo da dona Laura, a antiga professora de artes que saiu pra se casar com um ex-aluno. Era esse o assunto dos gatos gordos de terno e gravata, reunidas em algum ristoranti. Se era esse o assunto em 1970 e tantos, em 2013 o que existe, pelo menos para Natã, número 26 da chamada do 3º colegial B, é aquela garota, a número 26 do 3º Colegial A, a dos cabelos escuros, mechas loiras claríssimas nas pontas, olhos azuis que mais parecem o Peyto Lake, aquela coisa maluca no Canadá. Mariã. Mariã. Mariã. Mariã Guttermann. Durante uns meses, pra Natã só existiam esses dois nomes. Em casa, no clube de tênis, no curso de inglês, na sinagoga do bairro. O Universo inteirinho se resumia aos olhos azuis de aquário. Que ele estava louco pra ver seus peixinhos nadarem nele. Ele iniciou sua aproximação – esta aproximação, senhoras e senhores, deixaria Dwight Einsenhower, o pai dos desembarques na Normandia, escondido debaixo de sua cama no quartel


- quando ela, calça tactel e aquele uniforme branco do Wilbersterin, sentou-se do outro lado da mesa e o encarou fundamente. Disse um “oi”, mas não o oi que ele esperava, não o oi que ele planejava receber desde que se trombaram na ala leste, ele indo pra quadra e ela voltando do banheiro. O oi afetado, formal, não era, definitivamente, o que ele queria. Mas era o que podia unir os dois na hora. O amor não compreendido tem dessas. Para desuni-los, em cima da mesa, um tabuleiro, 64 quadradinhos. Cada um no seu reino. Ela com as negras. Ele com as brancas. Ele procurando alguma visão maior do sutiã negro dela. Desiste do sutiã quando nota que ela também desistiu dele e veio sem. Ela, despreocupada, um toque no jogo, outro mais atento no WhatsApp. Ela não nota, mas debruça os peitos na mesa. Aí já viu: Natã vai de 0 a 100 em dois segundos, e de 100 a 200 em menos que isso, e a progressão geométrica aumenta. Os peitos não amassam na mês, parece até que a física não permite que isso aconteça. A mesa parece dobrarse às curvaturas certeiras do esquerdo e direito. Ele olha pra torre, ainda no a1, e se abaixa, como que pra ter a vista do topo da torre, mas o que ele tem é uma vista incomparável do Central Park adolescente, a torre Eiffel da puberdade: ela não está com nada esse dia, e a prova são as duas bolinhas que saltam, da ponta do seio esquerdo, pra fora da baby doll.Ele fica ali dez segundos, como quem analisando a porra toda para perpretar um ataque mortal, feroz e irrecusável rumo àquele corpo. Mas agora ele precisa por os hormônios no lugar. Precisa esperar o pau descer e parar de dar aquele pequeno escândalo fisiológico. Edepois que isso acontece, a liquida, em dois minutos, num mate-pastor, * A fórmula explosiva. Junte dois mols de um garoto que, com 16 anos, já roubou o cartão internacional da mãe 4 vezes pra atualizar suas contas Premium de sites pornôs (os 2,99 dólares vinham descontados no Amex da madam Zwilbs, sempre junto à maquiagens, periquitices que ela não se importava em pagar, achando que eram taxas), junta esse garoto que tinha uma lista de site especializados em bonecas infláveis, uma porrada de fantasias, junta essa nitroglicerina toda com Mariã, a Voluptas de qualquer garoto de tumblr: bela, branca, propensa às badaladas baladas da vida e, quando os pais estão longe, acender um pedacinho de seda, apenas pra relaxar com os amigos. A dose de cada um é 16 anos. Natã e Maria. Por que sim, os dois tinham 16 anos, os dois eram o 26 da sala, os dois tinham pais que tinham que homenagear os antecedentes – a vó dela e o vô dele fugiram de Bikernau, mas deram o desgosto de ter filhos hippies que amavam aquela Augusta do fim dos anos 90. A turma de 1987 no colegial sempre comentou daquele quarteto tão unido, daqueles quatro ripongas que, em pleno 1992, caíram juntos na calçada da Piauí com a Consolação, com tanta LSD no sangue que viam nada além de cimento colorido. A ligação entre os Zwilbertein e os Guttermann ia longe. Tão longe que, numa roda de whisky, formaram o pacto de lembrar os loucos anos hippies e colocar o “ã” no nome, pra sempre a marca humana em nomes tão sofridos. Isso muito antes da existência conceitual de Natã. E de sua amada. Antes de ser, ele já tinha algo. E que “algo” ele julgava ter. Pra ele era questão de tempo até que a segunda geração desse resultado, que aquele cavaleiro espartano invadisse e conquistasse aquela Pérsia toda. A neura dele seguia em disparate, um gráfico inverossímil de tão vertical, e só piorou quando, ao ir jogar o lixo pra fora, viu uma bolinha de papel escapar pelo vento e cair do outro lado da


ruela. Quando já ia voltando, eis que, numa atitude improvável, nossa Vênus aparece com Bubba, o yorkshire. Ela com uma singela camisa do Metallica, rasgada vagabundamente mas propositalmente, uma melissa com uma dessas tachinhas da moda, e um shorts que caía da esquerda pra direita, e deixava aquele lobo, branco, preto e creme, tatuado em segredo de toda a família, tomando o ar fresco das árvores de Higienópolis. Natã ainda ajoelhado, agora boquiaberto, não conseguia saber de onde aparecem, pra onde vão, o que são as deusas. “Oi” “Ah, oi pra você também”, ela parou o cachorro, recolheu o fone ao buraco da regata e sorriu. “Você mora aqui?” “É...aqui...aqui sim...aqui na frente...lá em cima olha” “Ah, minha mãe falou. Eu sou ali da Vilaboim, não dá umas três ou quatro ruas daqui.” “É...pertinho mesmo...realmente...”. Aí nesse ponto as palavras dele cessaram. Ele já não tinha mais poder de raciocínio. Não tinha neurônios funcionando. Mas hesitava em olhar pra outra coisa que não fossem aqueles olhos que penetravam como agulhas de tricô. E também não hesitava em olhar para os peitos, marcados como que com compasso. “Pô cara, bom saber. Me procura amanhã na aula vaga. A gente faz alguma coisa”. “Ah...ahn..tá...tá bom. Aula vaga. Te vejo lá”. Pra ele, ao contrário do que parece, estava tudo claro e limpo como um assovio. Não precisava de mais provas. Ela estava linda porque estava solteira, ela passou naquela rua porque queria vê-lo. Então, nas matemáticas simplórias natânicas, ela era dele e ninguém pode negar. * Novos ricos são assim: formatura com a galera, diversão, uma semana com as baladas mais libertinas e sádicas eu um adolescente pode agüentar – e o bolso dos pais pode pagar – em algum paraíso do nordeste. E assim foi. E assim foram, porque Natã e sua Voluptas aproveitaram como deu: ela ficando bêbada seis das nove noites e ele tentando mostrar o que Charlie Sheen tinha em comum com seus genes importados de Tel-Aviv. Mas tanto ele voltou emburrado por não ter a atenção dela quanto ela voltou estranhamente cabisbaixa. Pelo menos foi a versão dele. Versão essa que foi dada quando, numa tarde sem luz no prédio e eu estava entre o segundo e o terceiro lance de escada, vejo a sombra desse tarado de estatura mediana, barbicha enrolada mediana, quipá mediano, com olhos fixos na luz que refletia no vitrô. Ia passando assoviando qualquer coisa, mas a mão dele me segura pela canela. “Antares, aqui, entre nós: o que você olha quando vê minha cara?” Ia falar que via um jovem tarado, respondão e excessivamente mimado, mas me contive “olha, vejo alguém com potencial pra seguir história clássica, estudar Homero, Platão...”


Ele entendeu a ironia: “E acabar assim. Barbudo, solteiro e com uma lata de guaraná Jesus na mão. Tá.” “Mas então desembucha. Que você quer que eu veja na sua cara?” “É que...meu, a Mariã... aquela do B.” “Aquela do fundão, que nem parece mais adolescente?” “Hmm... essa mesmo.”. Ele estava encafifado. “Não sei o que é, mas parece que estou viciado nela.” “Viciado? Como um jogo? Como uma tara?”. Queria propor um jogo, vamos ver como ele se sai. “É, viciado. Tudo o que eu faço tem alguma faceta voltada nela. As nossas vidas são geminadas, tudo bate, parece que há a...a...parece que tem Beezrat Hashem2 nas nossas vidas. E ela é tão diferente. E ela me completa tanto. E eu não sei o que fazer. Puta que o pariu, não sei.” Me arrependi. No jogo, parecia que aquele principiante tinha tirado o duplo seis nos dados. E me deixado um par de ases sobre a mesa. E veio todo o solilóquio. Todos esses fatos. Todas as insinuações, pensamentos, aforismas, reflexões, filosofias de privada, tudo que saiu da boca de Natã era fruto de algo que o corroía por dentro. Alguma coisa que a falta simplesmente fazia com que entrasse em colapso, e cuja presença derretia seus miolos. Apesar de ser o mesmo Natã, aquele mesmo que com três anos matou o gato do Sr. Emmanuel Goldstein, que com dez destruiu o lustre da entrada, um presente da sra. Portnoy, apesar de ser um legítimo Zwilbs, um sacal de primeira, uma fagulha de romance atingiu o sistema central. E o deixou ireeconhecível. “Olha, não se acue cara. Se você a acusa de ser deprimida e reprimida, viver num mundo que não é seu, chame-a pro baile, faça valer seu papel de homem, faça valer essas horas suas diante de sites pornôs e faça dela uma mulher. O que ela não quer, certeza, é ser tratada como menina, como esse amor platônico seu, essa coisa chorosa tua.” “Você acha?” “Caralho meu, olha pra você: dezesseis anos, um galo pronto pra cantar pra granja toda e você fica aí piano baixinho piu piu piu”. Aí notei que estava piando mesmo e que a cena seria ridícula vista de fora. “Cara, se você acha que ela é a mulher da sua vida, vai lá e ganhe-a como se ganham mulheres. Agora, se não for, saia com ela, e depois vai mais longe... o mundo não é só Higienópolis.” “E o que mais seria?” Me abstive de responder. Dei boas tardes e subi para meu apartamento, que, pelos próximos dias, serviria de tela de proteção contra a provável explosão do Incrível Hulk de Judá. * De quem foi a culpa? Quem iria assinar, no fundo da página de ocorrências, como o orgulhoso mentor daquela débâcle, daquela Atlantis, daquela diatribe que foi a formatura da 2

Algo como “ a mão de Deus” em hebreu (N. do A.).


XLIV turma de formandos do Ensino Médio do Colégio Israelita Jacob Wilberstein. Enquanto os garotos, de fraque – e quipá, óbvio – dançavam aquelas valsas, aquelas polcas, para o deleite dos anciões, outros tantos estavam armando a própria festa no banheiro, cheirando alguma coisa, deixando o eletrônico rolar alto nos celulares, algumas meninas se pegando, outros meninos dividindo o mesmo box do banheiro, esse tipo de coisa. E no escuro corredor do segundo andar, atrás do armário da sala 10, ocorria o embate do século. Deste lado, pesando 75 quilos, 1 metro e 81 de altura, calça, camisa aberta, quipá preto jogado no chão embaixo do terno, temos Natã, o circuncidado mais indomável do lado de lá da avenida Angélica. Já estava excitado há duas horas atrás, quando sentaram juntos, quando beberam suco juntos, quando foram chamados, um atrás do outro, pra pegar aquele papiro imundo cheio de assinaturas digitalizadas. Já estava excitado há seis meses, quando ele foi ao banheiro, durante uma explanação de vetores, e a encontrou na porta do banheiro, fugindo de sujeitos e objetos diretos.Mas agora, agora já estava em outro nível, uns três níveis acima. Era uma máquina, de dimensões industriais, pronto pra por a produção em ordem. Do outro lado, bem escondida atrás do armário onde dentro ficavam os globos da aula de geografia, estava aquela baixinha de 1,69, peso obviamente não definido, sutiã com tachinhas pontudas e um decote com uma mão masculina indo cada vez mais e mais longe. Mariã o beijava, o acariciava, enchia a cara dele com um bator de cor indenominável. Ela, a algum custo, tentara tirar a mão dele dali. Mas, como dissemos, isso era uns níveis atrás. Agora já não havia recusa, mas sim algo de redenção. Mas ele queria mais. Ele queria tudo. Queria ter tudo antes mesmo do juiz soar o gongo do primeiro round. E deu no que deu. Lá pelas tantas, aquela mão insidiosa, sorrateira, baixou num limite inimaginável para namoro, imagina para ficadas. Ela ensaiou um “para, para” mas para ele não havia mais sinais vermelhos, ela era uma rodovia onde ele não poderia fazer nada a não ser acelerar, noite afora, até que alguém desse falta daquele casal esperto. Ela insinuou de novo, mas a dona aranha – aranha essa com cinco patas - continuou subindo pela parede. Era o limite. Era o máximo. Aí não. “Ta, já deu” “Mas como já deu Ma, eu mal começ...” “PARA! AGORA”. Ele recuou, com olhar sórdido. Ela tinha deixado os azuis-lago se perderem. “Mas o que foi?” “Você acha que eu sou o quê? Um brinquedo? Uma porra de um brinde por seu ensino médio? “Não, não, não, não, você é apenas minha.” “Hã? Sua?” – ela queria acreditar que não tinha sido ele quem disse isso. Preferia acreditar que tinha alguém na sala que estava de zombaria. “É, eu quero você como mulher mas você, ó só você aí se fazendo de difícil”


“Ah, Chass ve shalom3. Olha pra você: mal consegue manter esse pau discreto dentro da calça e ainda me quer pro resto da vida? Com 17 anos? Moleque, para com isso” “Mas você fala como se tivesse vinte. Me dá uma chance, por favor” a voz dava sinais de embargo. “Você vai sentir o que eu sinto por você” “E você vai ficar sentado aqui agora”. Sozinha, aquela loba empurrou aquele judeuzinho na cadeira da professora, “ e vai aprender que nenhuma menina quer ser sua puta” E bateu a porta com pressa. Não foi vista mais aquela noite. Ele foi visto mais tarde sim. Eu o vi, vagando pela quadra, visivelmente alterado, um olho extremamente aberto e outro quase fechando, as sobrancelhas arqueadas como que ostentassem duas flechas. Preferi não me intrometer. Ou preferi não ver? Virar as costas e ir, fingir que era só mais uma formatura, só mais um coração partido? Não sei, não lembro se tive a minha em condições assim. Não quero lembrar se fui eu quem deu os conselhos a ele. Simplesmente só quis mais uma caipiroska, ele que ficasse lá. Quem mandou ser Natã, quem mandou ser sincero, quem mandou ser, pra ela? * Foi difícil encontrá-los depois. Foi difícil e indesejável, pois eram férias. Ela, pois morava há quadras de distância. Ele, pois tinham me dito que a família tinha tirado um tempo pra ele – Israel, Paris, alguma dessas bossas. Só sei o que Arminda, a tia gorda e bigoduda do Natã que vivia tentando encontrar situações propícias – ou não - para se encontrar comigo, me disse. Que o Natã – aquele Natã endiabrado, com uma mente tão expansível quanto suas endiabruras; o moleque que mais causou depreciação nesse prédio, mais inclusive que o tempo; pois bem, ele morreu. Virou um ponto. Um ponto inútil, um peso pra família. E ele sabia disso. Ficava dias e dias e dias sem por a cara pra fora da cobertura. Apenas facebook – com o status invisível ainda aquele descabido! – e os amigos mais próximos as conversas eram triviais, os jogos da semana, aquela temakeria na esquina da Alagoas, coisas assim. Os pais, nas 51 horas semanais que estavam com o filho (o que deve dar, tirando a parte do sono, umas 2 ou 3 ou 4 horas com ele) achavam que era normal. Que era coisa de adolescente. Que ele devia estar se masturbando no quarto. Que era saudades do colegial recém-abatido. Que ia passar. Ele tem alguma coisa mesmo? Mas não, não estava ok. Mais inverossímil que acreditar no parafuso que se tornou aquele adolescente, mais inverossímil que a felicidade estampada nos olhos do senhor e senhora Zwilberstein era a incapacidade dele notar que sim, ela o deixou, sim, ela o rechaçou, no auge da sua forma; que ela tem aqueles piercings todos, aquele sutiã de tachinhas e caralho meu, precisava mesmo? Olha você: reclamando aos quatro ventos que a vida é uma droga, que a torá é uma droga, que a matéria é uma droga, família, a pizza meia calabresa meia muçarela, pra você nada presta. E que se sente sozinha. E que precisa de um amor. E que precisa de um pau pra sentar em cima. E, quando seu romeu aparece descendo as encostas das montanhas, pronto para atacar a torre onde você está presa e desferir golpes mortais contra tudo que aflige, para que depois você me golpeie também, com amor e prazer. Mas precisava que você me fizesse isso? Me poupe. 3

Algo como “Deus me livre” em hebreu.


Esse era o raciocínio indo na mente de Natã. O raciocínio vindo era igualmente problemático: ainda que tentasse, ele não tinha senso de culpa. Não era culpa dela ter desistido de alguém como ele, ela é um ser humano, livre como as borboletas ou os outros judeus ou como qualquer outra pessoa. Se ela quiser ficar comigo, sortudo sou. Se não quiser, quem sou eu, por acaso, pra interferir? As mãos de deus? Para de chorumela. Ela é linda, bonita e tal, mas tem outras. Quem sabe mais completas que ela. Ela que é linda, bonita, inteligente, esperta, doce, simp... E aí voltava o parafuso. Um garoto que nunca teve culpa na vida. Nunca moveu os dedos além do scroll do mouse. Que sabia que nem os próprios pais podiam podar seus galhos autocráticos. Não ia ser agora que ia admitir culpa. Não é agora, seu trouxa. Vai lá, descobre quem é o culpado dessa peça toda. Descobre, vai. Duvido que você tenha noção disso. Foi essa escova de dente aqui? Foi esse fio dental? CONFESSA FIO QUE VC CONSPIROU PRA MIM, SEU TERRORISTAZINHO AMOROSO. E ele entendia que tinha perdido o centro. Que não estava batendo tão bem. Que estava interrogando uma pasta Colgate. E abriu um sorriso lascivo pra si mesmo no espelho. Então esse sorriso se tornou uma face séria. Seríssima. E então uma face pensante. Ele resolvera seu mistério. Sem Scobby-doo nem Salsicha, ele sabia o motivo de tudo aquilo. * Eram eles. Aqueles cretinos, certeza que eram eles, os cretinos dos dentes. Desde a infância, vivendo com a arcada inferior torta e a superior ligeiramente sobreposta, os incisivos como que por inteligência artificial tinham vontade – e ia cada um pra um lado. O siso nasceu mas não saiu, tímido como o dono hesitava em não demonstrar, e simplesmente destruía qualquer chance de aparelho ortodôntico. Mas agora não havia escolha. Ele achou os culpados. Tudo bem, encontrar os culpados todo mundo encontra. Os EUA dizem ter encontrado os responsáveis pelo ataque de Boston. Os europeus dizem ter encontrado os autores da crise toda – para os alemães, foram os gregos. Então não há motivo no mundo que seja injusto. Não há razão em achar que os dentes dele não seriam culpados por sua feiúra e sua ranzinzice, que derrubaram como um dominó todas as suas chances e que, só de pensar em como eram intratáveis – seus pais já tinham dado o braço a torcer – passava um calafrio ríspido entre os dedos. Eram eles. Tinham de ser eles. Eram eles, tinham de ser eles. Às 0h42 de um domingo onde caía o mundo, cada degrau da escada era uma afirmação. Ele descendo e eram eles. Pé esquerdo e tinham de ser eles. E assim, 122 vezes “eram eles” e 121 “tinham de ser eles”, Natã está parado, entre o Tucson preto da sua mãe e a Mercedes prata de seu pai, pela qual ele puxa uma chave, um blip e então temos no porta-malas a caixa vermelha, cheia de adesivos onde dizem “CAIXA DO PAPAI, NÃO MEXER”. Ele abre. Encontra aquele monte de playboys, algumas coladas, outras ainda intactas. Ele retira todas e puxa o fundo falso da pesada caixa de chumbo, de alça cromada. O fundo falso estofado tem os itens que fazem os olhos dele brilhar como nunca, fazem com que se tornem lanternas naquela garagem completamente escura, tomada pelo breu das árvores assoviando com o vento lá fora.


Os olhos brilham. O que não quer dizer muita coisa: os olhos dele tem brilhado por motivos torpes, ele olha pra baixo, e os olhos brilham. Pela janela e os olhos brilham. Para a dona Mirtes ele se desliga em momentos-chave fica em standby, perfeitamente imóvel, com os olhos brilhando. E assim ele está quando ele encara o fundo do fundo falso. Uma delas era uma Taurus calibre 38, com um tambor para seis balas, com quatro espaços cheios, aquelas cápsulas de fundo dourado, a numeração riscada por algo pontudo. A outra era uma marreta. Ele brincou com a arma, fez a roleta russa, pôs a mão dentro do gatilho, apontou no em direção ao nada escuro. Direcionou a culatra pra si. Mirou, fechou o olho esquerdo e fez um bang! com a boca. Ele se decidiu. Dali os dentes não passavam. Deixou o revólver, pegou a marreta e trancou tudo, como um serial killer limpa sua própria louça. * Sim, é essa a razão dessa história existir. É essa a razão de eu estar aqui, cogitando as razões, as culpas de cada um no cartório,as prepotências de cada personagem – incluso o meu. É essa a razão. A razão é esse momento, esse sublime momento que é protagonizado por nosso herói, nosso arremedo de herói, nosso herói colado com fita adesiva, olhando pela veneziana na janela, o indicador puxando uma pra cima e o dedo médio puxando uma pra baixo. Na outra mão a marreta e, entre o indicador e o médio, uma canetinha preta. Era a hora. Ele se volta, senta na cama, coloca os fones do iPod. Fuça uma música. Escolhe um Muse. Escolhe um Caetano Veloso. Escolhe até uma Banda Uó. Mas ele se decide. Vai ouvir Peter Gabriel. Vai ouvir Sledgehammer. E, enquanto aquela intro toca, ele toca a sua bochecha, abre a canetinha e marca um ponto minúsculo ali onde está o mindinho. É hora. Ele não precisa hesitar, afinal de contas, nunca foi ele mesmo. Ele vai, arqueia os braços. Abre o braço, e solta a força em direção ao minúsculo ponto preto. .

(“I wanna be...yout sledgehammer...”)

...

(“Why don’t you call my name)

...

(“Ohh, oh let me b

Foi um estouro só. Voou uma explosão de sangue na parede bege onde estavam alguns pôsteres. O edredom vermelho de letras japonesas, em fração de segundo, estava tomado por um banho de glóbulos e glóbulos e glóbulos. A bochecha direita agora ostenta um corte grave, além de um vergalhão roxo. Maxilar e mandíbula, desse lado, estão impraticáveis. Todos os dentes agora estão jogados, como búzios, no tapete felpudo. Ao menos, missão cumprida. Missão cumprida pois ali perto do chinelo direito, onde estava o mandibular inferior esquerdo, estavam todas as discussões com porteiros, professores, comigo. No canino superior – o que parara mais longe- foi parar o ciúme pelo seus pais, por aquele casal rico, incorruptível e que tinha o filho como um acessório, um enfeite de natal do próprio sucesso. E os quatro incisivos inferiores, espalhados debaixo da cama, foi-se Mariã, foi-se sua alma gêmea. Com raiz e tudo foi-se.


Agora sim Natã era Natã. Não tinha mais vícios de linguagem, recalque pelos amigos e autocracia por quem se aproximasse a menos de um metro dele. O ritual de purificação funcionou, ele estava curado, o doutor da consciência finalmente consentira em dar alta. Feliz, consciente, sem gritar de dor, apenas curado. Sem dentes, mas completamente curado. E deve ser, por isso, que o sorriso lascivo voltou à sua boca empapada de saliva e sangue. E então ele desatou a dormir.


[L'archivi di stato] Os dentes