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Marvin (Gaye), 74 Ou “o limite da segurança numa estrada russa” Por Davi Gilmar, enviado especial

Todos do Audi preto afivelaram o cinto há pelo menos duas horas e meia. A estrada, firme como concreto – era de concreto mesmo – seguia numas curvas fechadas, descendo alguma serra de nome impronunciável. E todos estavam ali, a 119 milhas numa via de 75. O sol já deu descanso, mas os pneus do furgão não. Ele segue a toda. O engraçado é que, numa terra tão branca como a Rússia, o furgão é pilotado por um senhor de idade, dreads à meia altura e um sotaque arrastado do sul estadunidense. Aquele que disse maaaaaaan e shiiiiiiiiit quando um carro da polícia o fez ir ao acostamento. Do senhor gordo de moletom e gorro – acompanhado da assistente loira, fez-se um dos diálogos mais improváveis do planeta: “Вы говорите на русском?” “Sorry maaan, I just speak english and you know, no one here talks in russian” “Ok, that’s no trouble, sir. You was runnin’ in 119 in a 75 mph highway. May I see your documents, please?” “Ok, lemme take it... is it in somewhere, I don’t remember, I take it in Moscow when we begin to... yes, there it is.” O guarda analisou por um minuto e de repente ele aponta pra loira e a loira vem e a loira então analisa e, finalmente, deixa o queixo cair. “Are you...are you really Marvin Gaye? You know, the american singer?” “Yes, I’ve played a two-night concert in Moscow and now I’m going to a gig in St. Petersburg tonight.” “Gosh, are you fucking me?” “Oh, I wish I could. I wish I could.” “So, please, mr. Gaye, go slower. The expectation is for heavy rain tonight. And sing ‘ Sexual Healing’ for me, at least once? I am a huge fan of yours” “Ok, but darlin’, call me Marvin. Or your Marvel”. Ele solta um “baaaaaaaaaaaaaby” e a loiraça tira os braços da janela do carro. E o deixam ir. Ela volta pra viatura e solta um olhar seco, fulminante, com todos aqueles dois olhos azuis claros das boas russas. No fim, ele se vira contra todos no carro: “Por aquele traseiro fodido eu me mudava pra Sibéria já”.

*


A turnê europeia de Marvin Gaye marca o retorno da grande voz americana aos palcos depois de cinco anos. Depois de lotar o teatro Bolshoi para dois concertos, era a vez do grande teatro de São Petersburgo. Como ele desenvolveu pavor crônico de aviões, acabou por usar um Audi Q6, modelo do ano. E aí a cena com a loira, o medo de todos nós dentro do carro enquanto ele mantinha altas velocidades mesmo nas zonas de serra, nos 700 km entre as duas cidades. O tempo médio, de 8 horas, caiu para cinco – com direito a pausa pra gasolina e o evento transcrito acima. Marvin hoje é um senhor respeitável: aos 74 anos ainda se dá ao luxo de fazer shows de duas horas, cinco noites por semana. Só nos últimos sete dias foram escalas em Dubai, Ucrânia e no distante Quirguistão (em um show fechado ao primeiro-ministro e convidados da máfia local). Ele diz que sua maior preocupação, a essa hora da vida, é apenas o fuso horário. “Já nem acerto mais essa beleza”, mostrando um Breguet prata no pulso esquerdo. De símbolo negro nos anos 60 e 70, autor de hits como I heard it trough the grapevine e Let’s Get it on, sobrou pouca coisa: o que há é uma face negra, com algumas rugas que o botox confesso não esconde; os dreads brancos quase sempre soltos; vestindo um uniforme esportivo e um tênis de corrida azul, ele salta agora do carro, acompanhado pelo também Marvin – seu segurança particular de 31 anos e nomeado assim devido a uma música do chefe. Na porta do imponente Hilton, do lado do aeroporto, ele corre mesmo é pra cama. Ou é pra sacada? Pois ele me pediu umas horas pra descansar e, enquanto eu contatava a redação a partir de um ponto de ônibus na porta do hotel, de lá do chão eu aceno para ele, numa janela do 22º andar, fumando o que parece um bong de vidro, com detalhes marrom-escuro, talvez de epóxi. Ele me reconhece e devolve o aceno, como alguém segurando um regador pra mostrar “hey, olha, estou regando as flores do 22º andar de um hotel comercial numa praça cheia de neve, acho que rola na sua reportagem”. Horas depois ele preferiu não comentar sobre isso. Marvin Petz Gay Jr. precisou, pelos idos dos anos 60, trocar seu sobrenome para um comercial e menos jocoso “Gaye”, parte por ordens de Berry Gordy, chefão da Tamla-Motown, em parte por causa de seu ídolo, Sam Cooke, que seguiu o mesmo caminho . Após a crise com seu pai em 1984 ele preferiu cortar os laços com qualquer sobrenome, considerando-se famoso o suficiente para ser chamado apenas de “Marvin”. Em 1998, após conhecer dois pastores evangélicos brasileiros que se declararam fãs inconfessos do cantor, que o chamaram de “o éter de deus na música mundial”, ele se converteu à igreja destes e trocou seu nome. Trocou seu nome para esse no outdoor na porta do hotel: hoje à noite, Marvin Heter. * O mesmo cartaz estampa hoje a entrada do Mariinsky Theatre onde, pelas minhas contas, o primeiro cantor negro subirá em seu palco desde a queda da União Soviética (não me lembro de cantores negros antes da queda também). Os shows de Marvin são em teatros e auditórios grandiosos – a única exceção foi em Londres, onde ele encheu o Hyde Park com 140 mil pagantes para a gravação de seu DVD. Ao público seleto quase sempre resta pagar preços de entradas que chegam a US$1200. O pior setor do show de hoje pode ser adquirido, por atravessadores – já que está esgotado há meses – por quase 200 mil rublos – cerca de US$6100. Lá dentro, se escondendo de uma tarde típica do janeiro russo –21 graus negativos, 14 centímetros de neve na praça central, metrô e trólebus funcionando normalmente – Marvin está sentado num banquinho, no centro do palco, cercado de produtores e pessoas que levam o cabo pra lá e pra cá. A voz, aos 74 anos, sob pressão de um bong e da neve que caía lá fora, ainda era um veludo. Quando ele puxa acapella a clássica Trouble Man, do álbum de mesmo nome, o som ecoa pela plateia,


sobe para os camarotes, o foyer, e as poltronas vazias todas vibram. Alguém ao fundo pede um retorno mais perto do cantor. Ali o Bolshoi subiu incontáveis vezes. O Quebra-Nozes ficou a temporada de 1951 inteira naqueles palcos – sob o olhar entediado de um Joseph Stalin cada vez mais severo e doente. Agora era a vez dele e sua banda de 14 músicos juntarem a alta sociedade local para uma confraternização. Terminado o ensaio, portando jaquetões verde-claro da Nike e uma calça jeans, uma touca ressuscitada dos anos 70 e uns óculos prismáticos muito finos, ele sentou-se, no sofá de camurça verde, ao lado de duas belas louras russas , uma garrafa de vodca e de seu notebook – ele mesmo comanda a página oficial de “Marvin Heter – the Voice” no Facebook. Pouco depois de entrar na sala, Marvin avisa suavemente: “ou você sai ou então vai ficar sentado, vendo o espetáculo dos outros”. Eu resolvi sair. E a porta se fecha.

* Quando as loiras saem eu posso retornar para continuarmos a entrevista. O local, há pouco organizado, agora lembra uma trincheira da guerra do Kosovo: a garrafa, vazia, jaz no chão; a samambaia não está mais no lugar que estava. Alguma coisa foi rabiscada em russo, com batom vermelho, no espelho – ao lado de uma marca de beijo. Marvin parece estar feliz – e inclusive ofegante. Talvez agora a ranzinzice dele passe e falemos de mais coisa. E falamos mais coisas. Coisas demais. Álbum novo? “Desde 1989 não produzo um álbum decente, talvez agora eu sente e repense isso tudo”. Turnê mundial? “Meu corpo pede que não, minha mente diz que sim. Veremos quem vence”. Um recado aos nossos fãs da revista e do senhor no Brasil? “Abraços a todos, sempre quis voltar ao Brasil depois do show de 89”, referindo-se ao show no Maracanã com 155 mil pessoas e quatro horas, sob intensa chuva, “mas a velhice impede os grandes sonhos. Espero um dia voltar para o colo das brasileiras”. Quando ele serve um Bourbon, ele me oferece uma dose e , quando eu seguro o copo, ele não o solta. Encaramos-nos nos olhos, e quando isso acontece, ele interpela: “Você quer saber sobre eu e meu pai, né, seu repórter safado?”. Eu argumentei que a entrevista estava concluída, mas que cabia a ele essa decisão. “Todo repórter é safado. Então beba que é seu dia de sorte”. Jogado no sofá, ele resolveu exorcizar alguns fantasmas. * Era 1º de abril de 1984. Após uma sequência terrível de tentativas de suicídio e de voltar a morar com os pais, no centro de Los Angeles, o senhor Marvin Gaye Sr., cansado de discussões sobre contratos com o filho (que culminaram com Jr. agredindo o pai frente aos irmãos e mãe), resolveu dar um fim rápido numa discussão que se arrastava desde o dia anterior: usando uma revólver que ganhou de presente do Junior e enfiou-lhe uma certeira bala no peito, fazendo-o cair num dos quartos da casa South Gramercy Place, 2101 . Após isso, sua carreira mudou. “Foi uma fase completamente perdida para mim. Sabia que ocorreu algo, que eu estava no chão de taco e minha mãe gritava ‘Você matou o Marvin’, mas algo me recusava a lembrar o quê. Ficou tudo escuro por uns 20 dias” ,relembrou o cantor no camarim. Levado ao hospital pelos parentes – enquanto o pai era levado pelos policiais a outro canto, o cantor passou por diversas cirurgias e, por um mês, esteve em coma profundo. Mas sobreviveu. Após a


saída do California Hospital Medical Center, nunca mais falou com o pai. Seguiu de volta ao Havaí, onde morou no velho trailer em que passou o começo dos anos 80. Dali saíram duas das maiores obras de sua carreira: Marvin Gaye is back e The bullet that it’s in me – do mesmo lugar de onde saiu Midnight Love e seu último hit, Sexual Healing. Os dois renderam mais de 10 Grammys, outros tantos discos de platina, e uma rotina de shows lotados em estádios ao redor da América. Porém, em 1998, meses após a troca de nome, o pai do cantor morreu. Dizem as más línguas que de desgosto. “Não acredito nessa merda toda. Ele tinha uma gravíssima pneumonia e você quer vir falar de desgosto? Caralho!” respondeu com aspereza o cantor, que não compareceu ao funeral do pai. Mas aquilo marcou profundamente Marvin. “Sim, eu quase pensei em retomar o sobrenome antigo. Mas não dá, é um passado sombrio e estranhamente radical que eu quero deixar pra trás. Eu apanhava demais”, tornando ao assunto. Aí ele cessou de produzir discos, focando-se em coletâneas e numa longa temporada de cinco anos tocando no cassino Bellagio, na strip de Las Vegas. Finalmente, em 2008, a batalha final: após sete anos de batalhas contra sua ex-gravadora, ele pode obter o direito na justiça de se apresentar como “Marvin Heter – a voz da Motown”, como é apresentado até hoje. Isso tirou umas boas noites de sono dele, mas finalmente serviu para que ele tivesse motivação para trabalhar: “Eu não sei como será o próximo trabalho, mas já sei o nome: What do you Want for me? Sabe, muita coisa pode estar pro detrás de um título desse, acho que ele completa meus sentidos.” Pergunto se isso é um sinal da falta de confiança que um cantor pode ter na velhice. Ele fica surpreso, dá uma risada de canto de boca onde aparecem uns 4 dentes, depois coça os dreads soltos. “Ya man...Parte disso é verdade. A gente envelhece e acha que, como já passou por tudo, começa a pensar se aquilo realmente vale a pena. Tem gente que vai há mais de 45 anos nos meus shows! Um dia desses mesmo... ah, o show pro primeiro-ministro. Eu notei, conversando com ele, que eu já toquei pra ele, um asiático amarelo do caralho, no meio de negões no Centro Cívico do Harlem, lá pra 71, 72. O tal estudava na NYU, Darthmouth, Harvard, qualquer uma dessa. Ele chegou pra mim no canto e falou ‘Ma’vin, por favor, toque Inner City Blues que nem você fez naquele show do Centro Cívico’. Eu prometi que sim, a banda começou a tocar mas aí eu pensei: que raios eu devia estar tocando sendo que eu tinha quatro garotas me esperando e uma sacola de cocaína trazida pelo Miles? Toda noite era assim, logo como eu toquei naquela noite? Aí me perdi, não consegui me concentrar na letra. Enfim. Minha carreira anda nessa desconfiança toda de uns tempos pra cá.” Acenamos um ao outro com cara de “c’est la vie”. Então a loira apareceu de novo. Ele, já dentro de um terno branco finíssimo de gabardine e mocassins pretos, pediu apenas um minuto. Passaram-se vinte e dois até que eu ouvisse uns gemidos na parede do lado. E, quarenta minutos após a interrupção, já o ouvia dando boa noite e entoando os primeiros versos de Sexual Healing: “baaaaaaaaaaaby, I’m hot like na oveen, I need some lovin’ yeah...”


(mezzo fiction, mezzo report) Marvin (Gaye), 74