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E o rei ficou feliz da vida... Quando James Brown subiu o morro e viu o funk. Por Walter Disney, enviado especial

Antes que me perguntem, sim. Sou muito fã, então sou suspeito de falar dele. Mas no octogésimo aniversário, comemorado numa sexta-feira insanamente quente, James Brown parecia um menino. Não obviamente o menino-símbolo da juventude negra americana, o negro com orgulho de sua origem que abalou a música americana nos anos 60. Ele já tem 80 anos né. Mas mesmo assim, lá estava ele, na porta do hotel no Leblon, comendo um pão de queijo. “How f***ing good is that”, soltou um “auuu” e levou os jornalistas ao delírio. “I need to produce this on US”. Brown veio ao Brasil para o lançamento do seu DVD “79 and some”, com uma sequência de shows de despedida na lendária casa Apollo, no bairro do Harlem, em Nova Iorque. O lugar que serviu para sua estreia, como uma supresa no Showtime, agora serve para o seu adeus dos grandes concertos. Mas isso não impede suas cantorias a capella, os gemidos quando alguém responde se está tudo bem (Ele responde com um sonoro “I feel good” e todos riem) e dar aquela xavecada na camareira que passa distraída – Brown se separou, pela sexta vez, em 2011. A mulher alegou seguidas tentativas de agressão. Depois da separação a pederastia não sumiu, mas o cantor converteu-se ao gospel, e chamou a atenção dos holofotes do planeta ao culto do pastor Silas Malafaia, na praia de Copacabana, quando apareceu de surpresa cantando “Living in the House of Lord”, uma versão alterada do seu hit “Livin’ in America”. Nessa estadia pelas terras cariocas, o músico devia apenas se apresentar, dar uma coletiva em uma livraria na Gávea e voltar para Atlanta, onde passa grande parte do ano. Mas, a pedido de uma equipe de TV brasileira – e do governo do estado, que queria provar a segurança do local -, Brown se deu um novo desafio: subir o morro do Vidigal, a dois quilômetros do hotel, e conhecer o funk carioca. O funk da Furacão 2000, dos morros cariocas e de outros lugares brasileiros pouco têm a ver com o daquele senhor negro que, agora dentro da van, masca três aspirinas de uma vez só. Enquanto sua música era um pilar para os negros e símbolo de uma luta contra a segregação – ao lado de nomes como Diana Ross, Stevie Wonder e Ray Charles -, o funk carioca, nascido da música das casas de show de Miami, tem conotação mais sexual e melodias menos melódicas, mais eletrônicas e que, na visão dos críticos, pouco agrega à cultura. Mas não foi isso que James achou quando chegamos à UPP do bairro, cercado de seguranças e ao som do sucesso “passinho do volante”, do MC Federado e os Lelekes. Na praça, esperando o mestre, estavam dois adolescentes: Jônatas e Adriellyn, 17 anos cada, campeões do bairro no campeonato de passinho. A recepção,


calorosa, foi aos poucos dispensando assessores e seguranças e, em pouco tempo, o piso era apenas dos três. James, com a escovinha absurdamente preta para a direita, repetiu o que disse na van para mim e outros repórteres: ama o funk carioca, pois as essências entre o funk americano e o brasileiro são os mesmos. “Todos nós [funk carioca e funk americano] sofremos preconceitos, fomos subjugados, e tivemos de lutar por anos pelo lugar ao sol. Nesses dias que eu estive no Brasil senti isso deles também. Por isso sei que somos irmãos”, disse, em tom sério, enquanto mascava mais três aspirinas. Já no tablado, em homenagem ao visitante, os garotos fizeram uma jam do “passinho” em Papa’s got a brand new bag, sucesso de 1965 do cantor. Tentando imitá-los, o rei do soul não foi longe: acabou dando um giro ou outro, e se perdeu ao girar os pés. Então resolveu fazer sua própria dança, que deixou todos de cabelo em pé. Pois, como dissemos, ele já tem 80 anos. Apenas 80 anos. E abrindo aquele quase-espacat que arrepiou todos os presentes, jornalistas, moradores, seguranças. Eu aqui, 45 anos, considerando complicado ir à academia três vezes por semana, ou fazer cooper uma vez por semana no lago perto de casa, vejo que ele se ergue do mesmo espacat como quem o fez pela trigésima vez hoje. Talvez seja essa a cena mais marcante de James Brown no Brasil. Talvez seja por isso que ele é, eternamente, um rei – não perde a majestade e ainda se contenta com novas ideias. E é por isso que, definitivamente, eu deva calar minha boca.


(mezzo fiction, mezzo report) E o rei ficou feliz da vida...