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O INCRIVEL MAR DE GUILHERME CANDIDO por Giulia Cremenddeh

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o último feriado tive a adorável oportunidade de entrevistar um dos novos nomes do cinema alternativo de São Paulo: Guilherme Candido, conhecido por seus ideais feministas, pelo apreço ao mundo infantil e infanto-juvenil e por sua peculiar visão intimista em seus filmes. Entre xícaras de café e alguns docinhos de uma linda e aconchegante cafeteria da Alameda Itú, Guilherme me contou sobre sua vida com a seriedade de um profissional e o carinho de um amigo, passando desde sua adolescência à sua atual vida e perspectivas.

Quem é você? Tipo uma bio de Twitter? Simples assim? (risos) Que pergunta difícil. Lembro que na adolescência eu respondia muito “Sou aquilo que como” mas logo depois de ler Alice no País das Maravilhas, tive minha resposta desestruturada por um dos personagens que retruca a afirmativa com “Se somos aquilo que comemos, então comemos aquilo que somos.” e como eu não sou esse muffin de chocolate com banana, opto por responder que sou aquilo que eu construo com o que me é dado, seja em termos filosóficos ou físicos. Eu sou eu, aqui, agora. Guilherme, cineasta, fotógrafo, designer, escritor, máquina, pessoa, colorido, p&b. Não sei se isso responde bem a pergunta, queria que fosse tão fácil quanto jogar tags em uma foto, ou dizer que sou as músicas do Belle & Sebastian ou algum personagem do Bergman... Tá aí, hoje em dia diria que eu sou a mistura das minhas referências com o meu background da infância.

E qual seria esse seu background da infância? Bem, acredito que quando a gente nasce é uma coisa meio crua, sabe? Aí nossos pais enchem nossa cabeça com suas esperanças e medos e todo lugar que visitamos deixa uma marca bem forte até em nossa visão. Aí chega a adolescência e tudo isso que nos foi ensinado conflita com nossa verdadeira personalidade e começam todas aquelas brigas por ideais dentro e fora de casa. Entendi. E quais eram essas brigas por ideais dentro de casa? Praticamente tudo se tornava brigas idealizadas dentro de casa – desde o que eu podia ou não podia escrever nas paredes do meu quarto até em quem eu podia ou não trazer em casa, coisas do tipo. É claro que meus sonhos sempre foram muito grandes e eu nunca fui de ficar muito quieto, no começo foi difícil andar sozinho já que meus pais faziam tudo por mim. Você culpa os seus pais por algo? Por algumas coisas, como todo mundo. Mas estou ciente de que eu sou educado do jeito que sou por causa deles também, sem falar que todas as coisas que me irritavam na adolescência que vinham da parte deles me fizeram não me tornar aquilo que eu não gostava neles, sabe? Meio que minha esponja emocional serviu pra absorver as coisas boas como a educação e para me deixar ciente das atitudes e escolhas que eu não gostaria de tomar, já sabendo cvdos resultados. Mas agradeço muito minha mãe e

Eu ficava do lado do feminismo e me sentia muito triste quando as pessoas não entendiam minha posição.” 19


meu pai por tudo que fizeram por mim e por meu irmão, eles me ajudaram muito a alcançar meus sonhos. E quais sonhos eram esses? Os mesmos de hoje. Essa coisa meio inocente de mudar o mundo, de encontrar meu modo de ser ouvido e de ouvir o que os outros ao meu redor têm a dizer. A arma que consegui pra fazer isso foi a cultural: roteiro, direção, edição... O cinema e a arte em geral. É incrível como as pessoas conseguem entrar na cabeça de um filme ou de um quadro e sair com um pouco daquele mundo mágico dentro delas. E o cinema pode tanto te levar pra um outro país como também pode te mostrar diferentes classes sociais – passando pelos sonhos e dificuldades de todas as diferentes pessoas, sem falar do mundo surreal, ah, é incrível! Nos tempos da adolescência, quais eram seus ideais? Quais eram as pessoas que você amava e tomava como inspiração e quais eram as que não suportava? Eu ficava do lado do feminismo e me sentia muito triste quando as pessoas não entendiam minha posição. Nada de feminazi ou algo muito extremista, eu sempre acreditei nos direitos iguais para todos, mas também acreditava que cada ser humano tinha o seu tempo para assimilar as informações que lhe eram trazidas. Sempre fui muito encantado pelo lado difícil da vida, pelas chamadas minorias, até porque eu fazia e ainda faço parte das mesmas. O cinema, a pintura, o teatro e a música me ajudaram muito a ter uma voz, a alcançar um patamar. E eu tinha muitos amigos em cada uma dessas casas: Kate Nash e Belle & Sebastian na música; na pintura Sebastian Bieniek, Van Gogh, meu melhor amigo Asaph Luccas; no teatro eu considero toda peça que vi como amiga, mas não tenho nomes em mente; no cinema tinha Ingmar Bergman, Chantal Akerman, Leos Carax, Eduardo Coutinho, Agnes Varda, Goddard... Ah! No cinema sempre foram muitos amigos, pais, tios, primos, avós (risos) esses nomes todos foram como família para mim, uma religião, não sei. Tinham meus amigos de verdade e alguns parentes também cujo quais estão comigo até hoje, aturando meus surtos e secando minhas lágrimas. Todos foram muito importantes para minha criação e formação, os puxões de orelha, os abraços, as lágrimas,

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os risos... Devo muito a todos. Sobre pessoas que eu não suportava, eram poucas, mas garanto a você que todas tinham seus motivos e sempre eram coisas bem fortes que me deixavam bem triste ou irritado, mas em sua maioria figuras públicas. E foi difícil conquistar suas metas? Como tudo que vale a pena, foi sim. No começo eu não sabia muito bem o que fazer, sair do colégio foi uma das experiências mais aterrorizantes que tive, meus pais não tinham dinheiro para pagar uma faculdade para mim então tentei trabalhar, fiquei em uma livraria (Saraiva) por três meses como funcionário temporário e com o salário que consegui paguei com a ajuda do meu pai um ano de cursinho, mas acabei não conseguindo passar em nenhuma das três faculdades que prestei. Então comecei a fazer vários cursos livres de roteiro, redação, edição... Lembro-me até hoje que os que mais me ajudaram foram o de Roteiro na Biblioteca Roberto Santos onde comecei meu projeto Menarca e no ano que se seguiu o finalizei com a ajuda do outro curso que me ajudou muito em minha carreira profissional e na minha bagagem cultural, o Instituto Criar de TV, Cinema e Novas Mídias, onde fiz uma oficina de edição entre várias outras que me ajudaram muito a entender a linguagem do cinema e a me expressar dentro desse meio. Como foi isso? Os cursos, as escolhas...? Foi incrível, durante o colégio eu fiz um curso técnico pelo Instituto Paula Souza em Comunicação Visual – que é o chamado Design Gráfico aqui no Brasil ou pelo menos foi o que me disseram na época. Foi um ano e meio de muita cultura e amadurecimento, foi lá onde descobri que eu queria muito algo na área das artes mas no final das contas não era bem minha praia – ainda guardo um dos desenhos que fiz de mim mesmo usando aquarela. No técnico foi onde conheci meu melhor amigo (Asaph Luccas, que também fez o Criar comigo e que me acompanha até hoje em meus filmes e como uma grande inspiração) e pessoas incríveis. Então entrei no Ressoar Multimeios que me prometeu um grande ideal de coisas, mas que no final não me acrescentou em muita coisa; por motivos de falta de verba, a ONG não podia pagar professores e equipamentos e isso me fez perder muitas aulas, mas foi por lá que conheci a ONG Projeto Escola Aprendiz cuja qual me pediu ajuda para montar o design do site Nossa Barra – um site dedicado às periferias da Barra Funda, Bom

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Retiro e Luz. Fiquei lá por aproximadamente oito meses, ajudando também a cobrir um evento para jovens chamado Aprendiz Congás através das lentes de uma câmera. Foi aí que comecei a pegar gosto por ajudar os outros através da arte e da comunicação. Também passei pelo CEDECA Interlagos visitando palestras e ajudando como podia em organizá-las e divulga-las. Logo em seguida fiquei meio desmotivado pois não consegui passar em nenhuma das faculdades que eu tinha planejado e fiquei alguns meses sem fazer muita coisa além de ver muitos filmes – lembro-me que vi filmografias inteiras em um mês; Passolini, Fellini, Bergman, Goddard, Coutinho. Foi então que entrei como voluntário no Cineclube Latino-Americano Juan Carlos Arch – eu tinha feito um curso de como montar um Cineclube na 8º Mostra de Cinema Latino-Americano e um dos membros do cineclube pegara meus dados para me manter informado para programações e outros e me mandou um e-mail avisando que estavam precisando de voluntários. Lá foi um lugar que consegui me expressar e ajudar os outros de uma maneira muito incrível, para ser sincero, foi lá que o trabalho voluntário finalmente fez sentido para mim, pois eu e mais três amigos fica-

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mos responsáveis por várias comissões e nós lutamos para que as pessoas fossem às sessões e frequentassem o cineclube com muita garra e amor. Fiz algumas capas dos boletins, participei de comissões de programações, trazendo mostras de diretores e temas ao cineclube e também, junto com a ajuda de alguns queridos amigos implantei a sessão Cineclubinho aos domingos, direcionado às crianças, dando uma introdução ao cinema e aos filmes latino-americanos voltados a esse público. E foi muito bom porque além do “trabalho nobre”, também fiz parte de outras como de ficar na bilheteria e de ficar atrás do bar servindo as pessoas. Enfim, foi uma época de muito crescimento para mim. Sobre o CRIAR, por que você decidiu tentar entrar na Instituição e por que escolheu Edição? Bom, o que mais me interessou na Instituição na época foi o fato de ela ser de graça, pois eu já estava bastante desiludido com o ensino no Brasil – ou extremamente caro ou incrivelmente difícil de entrar. Pra falar a verdade, eu estava apostando todas as minhas moedas no Criar, Deus sabe o quanto eu tentei fazer cinema, fazer arte desde meus

Meio que minha esponja emocional serviu pra absorver as coisas boas como a educação”


doze anos de idade. A segunda coisa que me chamou muita atenção foram os cursos que o Instituto disponibilizava e todas as outras coisas que eu iria ganhar o cursando, como equipamentos, ideias e o mais importante pra mim na época: encontrar pessoas que estavam dispostas a fazer cinema. E o Instituto sempre foi conhecido pelo contexto social, e seria perfeito para mim em prol de tocar para frente meus projetos sobre as minorias do mundo. Escolhi edição pois já havia passado muito pelo mundo do roteiro – o que amo até hoje – e queria tentar direção e foi o mais próximo do assunto que achei que deveria tentar. E de onde você consegue suas inspirações? Como funciona a sua cabeça? Ah, a maioria da minha inspiração eu pego dos meus passeios de ônibus e metrô, do dia-a-dia, observando as pessoas. Quando não eu entro no Tumblr, em blogs, folheio revistas, observo conversas. O meu audiovisual é a minha fonte maior de inspiração, tudo que ouço, vejo e falo serve como material. E sobre o funcionamento da minha cabeça, isso nem eu sei, só sei que tem muita coisa ali pedindo pra ser transformada em vídeo, texto e pintura, o que me falta às vezes é o material para tal.

cada minuto. Mas de novo, como tudo que é difícil de conquistar, vale muito a pena. Para finalizar, gostaria que você contasse uma experiência que lhe marcou e o que isso trouxe a você. Poxa, o momento que me veio à cabeça agora foi o de uma tarde na Paulista em 2014. Eu e mais dois amigos tínhamos acabado de sair da exibição do filme As Canções do Coutinho no Cinesesc e fomos ao banheiro de um café e ao correr os olhos pelo recinto, avistei dois velhinhos – um com gorro e outro dormindo em uma cadeira de rodas. Na hora eu tinha um filme restando em minha máquina e quis muito ir lá e tirar uma foto dos dois. Pedi para um amigo pedir permissão e quando o senhor que estava dormindo acordou, ele deu uma lição para esse meu amigo: ele disse que ele sempre correu atrás daquilo que sonhou e que só foi publicar seu primeiro artigo aos 40 anos de idade e que era para meu amigo se rondar de pessoas com cultura e não com dinheiro. Sentei na frente dos dois e dei o último flash. Foi um momento muito importante para mim pois me mostrou que nunca é tarde e que nossos sonhos são o maior tipo de combustível que podemos nos encher, assim como a cultura.

Quais são suas alegrias e desafios? Minhas alegrias estão nas conversas que tenho com as pessoas, estão comigo na cozinha enquanto preparo alguma refeição ou quando vejo algo culturalmente digno e inovador. Minhas alegrias são muitas, pra falar a verdade. Acho que a maior delas é trabalhar com aquilo que amo, respirando arte. Demorou tanto tempo para alcançar meus sonhos que hoje as coisas que conquistei são minhas maiores felicidades. Os desafios sempre estão aí, é desafiador se fazer ouvir, é desafiador dar a cara à tapa por uma ideia e também é desafiador correr atrás de todas as novidades e atualizações que estão acontecendo com o mundo a

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O Incrível Mar de Guilherme Candido