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Profissões que resistem ao tempo Atividades comuns durante todo o século XX que ainda permanecem no mercado, tendem a desaparecer em conseqüência do modo de vida contemporâneo Guilherme Popolin A partir da década de 1950, no pós-guerra do segundo grande conflito mundial do século XX, o processo industrial viu suas principais características potencializadas, como serialização, mecanização e produção em massa. No Brasil, a intensificação desse sistema de produção veio na década de 70, época em que o número de migrantes das regiões norte e nordeste do país em direção ao sudeste, grande centro industrial, foi um dos maiores da história. Ao mesmo tempo em que mudanças de aspecto econômico aconteciam, a sociedade também se ajustou aos moldes de uma forma de vida ditada pela indústria. Os mais variados segmentos, como a produção e consumo de alimentos, roupas, calçados e utensílios, sofreram, de alguma forma, o impacto da indústria de massa. Algumas profissões e profissionais passaram por transformações, já que muitos deixaram de atender às necessidades da sociedade, e foram quase, ou totalmente, extintos do mercado. Entretanto, algumas atividades resistiram ao tempo e às mudanças, e permaneceram com seu espaço, mesmo reduzido, oferecendo serviços que tendem à extinção devido ao baixo interesse de procura pela população. O sapateiro Sebastião Picotti, 68, dono de uma sapataria na cidade de Rolândia, a cerca de 20 km de Londrina, trabalha há 53 anos produzindo e consertando calçados. Acompanhou todas as mudanças que aconteceram durante todo esse tempo. Aos 15, começou a trabalhar em uma sapataria que hoje não existe mais, onde aprendeu o ofício e as técnicas da profissão. "Comecei aos poucos com alguns consertos simples. Depois, passei a fazer até algumas botinas", relembra Mais tarde foi para o exército, e quando voltou começou a trabalhar em outra sapataria. "Foi minha primeira e única carteira assinada", diz, orgulhoso, pois logo depois abriu seu próprio estabelecimento e passou a contribuir para a previdência através do carnê. Como está há mais de meio século no ramo, Seo Picotti, como é conhecido na cidade, percebeu que com a popularização das lojas que vendem calçados industrializados o movimento começou a diminuir. "Antes eu até fabricava, hoje, apenas conserto", diz o sapateiro que acredita na queda da qualidade dos produtos industrializados. "A maioria é feita de plástico e tecidos sintéticos e unidos somente por uma cola. Quando eu produzia os sapatos de couro a qualidade era ótima e garantida", conta, Seo Picotti, lembrando que antigamente o uso de tênis não era popular. "Os jovens usavam sapatos no estilo social, isso criava um movimento e uma quantidade grande de trabalho", diz. "Sempre quando o taquinho de algum sapato se solta, ou precisa de uma pequena colagem, trago aqui para consertar", conta a vendedora Marlene Pires, 29, que se lembra, desde pequena, dos pais levando os calçados da família para algum reparo, e aprendeu a fazer o mesmo quando o dano não é grande. Ao contrário, a contabilista Márcia Alves, 32, não costuma levar ao conserto seus sapatos. "Geralmente, quando alguma coisa estraga, mando embora ou jogo fora. É até bom porque posso renovar um pouco meu guarda-roupa comprando algum sapato novo", diz, rindo. Além da falta de interesse e da facilidade da compra de produtos novos, Seo Picotti


acredita que o principal motivo do ofício de sapateiro caminhar para a extinção é a falta de novos profissionais exercendo a atividade. "Os velhos vão morrendo, e os mais jovens não se interessam por isso", reflete e completa que um grande empecilho é a lei que não permite ao menor de idade trabalhar, referindo-se ao artigo 402 ao 441 da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), que trata do trabalho do menor. "Eu transformei um dom em profissão, estudava e trabalhava. Não morri por isso, só me ajudou a me tornar um profissional e uma pessoa mais responsável", desabafa. Para o sapateiro, o que ainda sustenta sua profissão são os clientes que viraram amigos. "Muita gente que atendo até hoje são os mesmos que vêm há muitos anos. Laços de amizade acabam se formando, o que deixa o cliente mais fiel.” Explica que isso também é um dos principais fatores que sustentam o sua atividade. Esse vínculo do profissional com o cliente, principalmente quando se tem o respaldo de vários anos, é considerado pelo barbeiro José Gomes do Nascimento, 80, como fundamental para se manter na profissão há 54 anos. Nascimento cresceu no interior de Pernambuco e deixou toda a família para vir ao Estado do Paraná há cerca de 60 anos em busca de melhores condições de vida. Passou por algumas cidades, trabalhando na lavoura dos mais variados tipos de cultura. Levava duas profissões ao mesmo tempo: peão e barbeiro. A última, que servia para complementar a renda aos finais de semana, aprendeu com o pai e os tios, ainda em seu estado de origem. No início da década de 60, chegou a Rolândia e começou a trabalhar em um salão. Em 1962, adquiriu o seu próprio estabelecimento, onde trabalha até hoje. "Casei, criei os meus filhos e sustentei minha casa apenas com a renda do salão", se orgulha. O barbeiro, que em toda sua carreira fez apenas dois cursos, como o de técnico de cabeleireiro do SESC - Londrina, é aposentado, mas continua trabalhando porque gosta do que faz. Com tantos anos na mesma profissão, Nascimento avalia como está a situação atual: "Hoje, vivemos em uma época de imediatismo, em que o tempo, muitas vezes, vale mais que qualidade", diz, e conta que o número de clientes antigos é maior. "A maioria são os mesmos há muito tempo. É difícil um jovem procurar um barbeiro, ao invés de um salão de cabeleireiro. Muitos fazem a barba em casa", explica. Isso acontece, para Nascimento, por que hoje os salões de cabeleireiro investem e oferecem vários outros serviços. "Muita gente pensa que barbeiro é só para fazer a barba. Isso restringiu ainda mais o público, que antes era apenas formado por homens, mas hoje, vêm somente os mais velhos", conta. O aposentado Pedro Amaro, 71, frequenta a barbearia há cerca de 40 anos. “Comecei a fazer a barba com o José para ver se gostava”, lembra, “venho sempre que preciso. Além disso, é bom para colocar o papo em dia”. Já o jovem Leandro Marques, 19, foi a uma barbearia apenas duas vezes. “Cortei somente o cabelo, mas prefiro ir a um salão, com cabeleireiros mais requisitados. Os barbeiros são melhores para fazer a barba propriamente dita, e isso, eu faço em casa”, diz. Profissões e profissionais diferentes sempre oscilarão entre o popular e o que está fora de moda, dependendo das necessidades e da cultura de cada sociedade. Sapateiros, alfaiates, barbeiros, entre outros ofícios tão comuns no século XX, estão desaparecendo, como consequência de uma forma de encarar o mundo em que somente o que é novo e moderno é valorizado. Mas, não são apenas profissões que estão sendo extintas e esquecidas, o talento do homem e o contato pessoal têm cada vez menos espaço em uma sociedade em que, principalmente os mais jovens, só estimam pelo o que é imediato, cômodo e padronizado.



Profissões que resistiram ao tempo