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CALÇADA CILADA

FOTOS: ALEXANDRE SOUZA/FOLHA DA REGIÃO

Calçada deteriorada na rua Saldanha Marinho, em Araçatuba; mulher sai do passeio público e disputa espaço com carros

Por um caminho

digno

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Guilherme Leal/ Especial para Viver Bem

iariamente somos estimulados a deixar o carro em casa e procurar outros meios de transporte que sejam menos agressivos ao meio ambiente. Nas grandes e pequenas cidades, as pessoas têm passado a utilizar transporte público e ciclovias para se locomover. Porém, quem opta por andar a pé encontra obstáculos nas calçadas. Percebendo esse problema, o grupo “Corrida Amiga” desenvolveu uma campanha para conscientizar a população e o poder público sobre a importância de manter as calçadas em boas condições. O “Corrida Amiga” surgiu da iniciativa de um grupo de corredores acostumados a utilizar os pés como principal meio de locomoção. O intuito é disseminar a corrida como forma de mobilidade urbana para que as pessoas melhorem sua qualidade de vida. Surgiu então o projeto “Calçada

Grupo desenvolveu campanha para conscientizar sobre importância de manter calçadas em boas condições Cilada”, que em 2016 chegou em sua terceira edição. O objetivo dos organizadores foi convidar todos os cidadãos que utilizam o passeio público a divulgarem as inadequações com que se deparam diariamente. O termo “cilada” foi utilizado justamente para indicar as armadilhas a que os passantes estão suscetíveis. Segundo a gestora ambiental pela USP (Universidade de São Paulo), Silvia Stuchi Cruz, 31 anos, e uma das fundadoras do projeto, o grupo quis lançar luz sobre um problema que tem se naturalizado

perante a população. “Embora ele esteja escancarado, visível, parece que as pessoas pensam que é normal ter uma calçada com imperfeições. Nós queremos mudar essa visão,” afirma. O projeto teve sua primeira edição em 2014, quando os voluntários do “Corrida Amiga” foram desafiados a tirar uma “selfie com careta” em uma “calçada cilada”. Em 2015, o grupo recebeu um convite do site Cidadera para que as manifestações fossem registradas na plataforma on-line. Sendo registrado e compartilhado pelas redes sociais, o alcance dos protestos foi ainda maior. Neste ano, a campanha teve participações em mais 80 municípios, de 17 Estados, totalizando 2017 ocorrências. Segundo levantamento da campanha, feito com base nas reclamações dos usuários, os maiores problemas das calçadas brasileiras são: calçadas estreitas, esburacadas, irregulares com degraus e obstruídas (por postes, comerciantes, carros, entulhos, etc.).

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CALÇADA IDEAL Pouca gente sabe, mas existem padrões a serem seguidos na hora de se construir uma calçada. Ela deve ter no mínimo 2 metros de largura subdivididos em três faixas. Quem explica é o arquiteto urbanista, Anderson Kazuo Nakano, 41 anos, que também participou da campanha. “Na primeira faixa junto à sarjeta, de no mínimo 60 cm de largura, devem ficar os mobiliários urbanos, como postes e árvores. Na faixa central, de no mínimo 80 cm de largura (para que duas pessoas possam caminhar lado a lado), fica o passeio, que serve para a circulação dos pedestres. A terceira faixa, junto à frente das casas ou comércios, de no mínimo 60 cm de largura, serve para as pessoas acessarem o interior das edificações”, explica. Também não é todo material que pode ser utilizado no momento da construção. Qualquer elemento que ofereça risco aos passantes deve ser evitado, dando preferência para pisos antiderrapantes.

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ALEXANDRE SOUZA/FOLHA DA REGIÃO

Cidadera é uma ferramenta digital para mapear imperfeições nas calçadas

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Outra dica do professor para o momento da construção é com a espécie de árvore a ser plantada, para que ela não transforme a calçada em cilada. “Elas (árvores) podem crescer muito e se tornar obstáculos aos transeuntes. Alguns tipos de árvores têm raízes que se estendem nas superfícies dos solos rompendo a pavimentação.” Nakano também foi um dos acadêmicos envolvidos com a divulgação da campanha. Ele diz que atualmente a mobilidade urbana se insere nas discussões sobre a humanização das cidades. Fazendo com que as pessoas voltem a ocupar os espaços públicos, antes dominados pelos carros. “É de suma importância abrir espaço nas cidades e especificamente nas ruas e calçadas para os pedestres e ciclistas se deslocarem com mais conforto e segurança,” salienta. CIDADERA Para servir como subsídio para essa abertura de espaço público e

Internauta pode denunciar os problemas de infraestrutura dos municípios, por site ou app

um semáforo na rua Seis de Junho, na região central de Guararapes, há dois anos. À época, ele disse que a via não tinha sinalização de trânsito necessária. “Aquela é uma rua muito confusa e eu aproveitei o aplicativo para reclamar”, lembra. Ele ficou feliz ao saber que sua solicitação foi atendida pela Prefeitura. Quando isso acontece, é o usuário quem deve voltar ao site e trocar o status da denúncia de “não conscientização, o Cidadera foi a resolvido” para “resolvido.” ferramenta digital utilizada para Silvia Stuchi, do “Corrida Amiga” mapear as imperfeições nas calçadas lembra que o trabalho junto às aubrasileiras. toridades não para. As reclamações A plataforma foi criada para que são levadas até o poder público e, em qualquer internauta denuncie os 2015, três Prefeituras deram retorno: problemas de infraestrutura dos mu- Florianópolis, São José dos Campos e nicípios, tanto pelo site como pelo Recife. Um número pequeno, mas que aplicativo. Mas ele também dispõe de não desanima a turma que idealizou o outras temáticas que podem rece“Calçada Cilada.” ber denúncias como: saúde, energia, “Nós acreditamos e queremos que trânsito, segurança, entre outras. as pessoas acreditem nas microrreE foi para reclamar que o estudan- voluções urbanas. Assim elas irão te Renan Caike Silva, 21, usou o Citransformar os espaços públicos no dadera. Ele solicitou a instalação de que elas desejam.”

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Calçada cilada  
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