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bodisatva edição 18 4 setembro 2009

o olhar budista

dimensões ocultas da consciência ensinamentos de alan wallace no brasil

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lama padma samten educação associada à espiritualidade visão ação budista no mundo & ecologia e a construção de uma cultura de paz corpo os diferentes tipos de ioga clássico mestre dogen e o ensinamento sobre o tenzo, o cozinheiro zen


editorial No editorial da Bodisatva número 1, exatos 19 anos atrás, José Fonseca escrevia: “o leitor notará que alguns textos lembram mais um capítulo de livro do que um artigo de revista (...) o que importa é que nada se perderá com sua leitura”. E seguia expressando a missão de que todas as correntes do budismo vejam Bodisatva como um veículo de sua própria expressão. Desse tempo aos dias de hoje, tivemos o surgimento do aparelho celular, da internet, emails e redes de comunicação. O budismo tornou-se conhecido mundialmente, começa a ser incorporado a nossa cultura de várias formas e progressivamente assume responsabilidades frente aos desafios globais contemporâneos. Nesta edição podemos ver a Bodisatva do budismo dos tempos que correm. A seção 12 Elos aborda o sétimo elo, vedana, nossa mente limitada ao comportamento binário de “gostar” ou “não gostar” ou à indiferença. A coluna Meditando a Vida apresenta o propósito da Escola Caminho do Meio — e do cebb como um todo — de introduzir a educação como caminho para a lucidez no mundo. No tema de capa, Liane Alves fala da presença de Alan Wallace entre nós e das dimensões ocultas da realidade simplista do samsara, tanto na ciência como no mundo. Na entrevista de José Fonseca, o professor Alan Wallace aborda, entre outros assuntos, a unificação da ciência e espiritualidade, a prática de meditação shamata e os benefícios dos ensinamentos diretos da Grande Perfeição (Dzogchen) para o povo brasileiro. Ricardo Aveline nos fala das

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várias formas de ação que diferentes mestres têm encontrado para trazer benefícios de forma coletiva. Clítia Martins reflete sobre a crise ambiental e a quebra de paradigma baseada no surgimento de uma cultura de paz. Bhante Rahula, em seus ensinamentos no cebb Caminho do Meio, apresenta o caminho do ouvinte e dialoga sobre as diferentes escolas budistas. Ver na seção Encontro. Thareja Fernandes, na seção Corpo, aborda a prática de ioga e os vários métodos de silenciar a mente, esclarece as dúvidas mais comuns e relaciona os benefícios e funções dessa atividade. O texto clássico desta edição apresenta Instruções para o Tenzo, de Dogen, mestre que levou o budismo da China para o Japão e criou o Soto Zen. Veja também as dicas da seção Aliás, humor em Vida Leve e a participação dos leitores na seção Janela. Que todos leiam, se alegrem e se encham de ideias e sonhos positivos para suas próprias vidas. Escrevam para nós com suas sugestões de como a Bodisatva poderá ser melhor, agora que está na maioridade. Nos ajudem a levar seus sonhos e a energia do Darma do Buda para todas as direções e para todos os seres.

revista@bodisatva.org.br


12 elos da originação dependente Diz-se que no momento em que o Buda atingiu a liberação final, ele se perguntou como os seres sencientes, ainda que manifestem a natureza ilimitada, se atrapalham. Compreendeu então que isso acontece em 12 etapas e passou a explicar o processo de construção da nossa experiência convencional, do dia-a-dia, através dos 12 Elos da Originação Dependente. Por outro lado, os 12 elos nos conectam com a natureza última, ou natureza de Buda, pois é dela que nasce este processo. O primeiro dos 12 elos é avidya, ignorância. É a inteligência dual, separativa, que dá origem às experiências da roda da vida. O segundo elo é samskara, as marcas mentais sutis que condicionam nossos pensamentos e emoções. O terceiro é vijnana, o surgimento do primeiro embrião de identidade e das escolhas baseadas nos elos anteriores. O quarto elo é nama-rupa, que direciona nosso futuro renascimento em um corpo. O quinto é shadayatana, a mente operando em um corpo embrionário. É aqui que surge o corpo humano. O sexto elo é spasha e representa o contato do nosso corpo com o mundo exterior.

sensação vedana O sétimo elo, Vedana, é simbolizado por uma pessoa enfiando uma flecha no próprio olho. Avidya já a havia cegado, no primeiro elo, mas agora ela mesma enfia a flecha no olho. Se todas as etapas anteriores eram inconscientes, a partir do sétimo elo elas se tornam conscientes. Ao entrar em contato com o

mundo exterior através dos órgãos dos sentidos, julgamos o objeto e imediatamente o classificamos em bom, ruim ou indiferente. A partir disso, definimos se gostamos, não gostamos ou somos indiferentes a ele. Com vedana reduzimos todo o conjunto de operações mentais a gostar e não gostar.

Frequentemente dizemos: “Gosto disso. Quero isso. Não quero aquilo”. Assim formamos nossa identidade. A partir do gosto, nos definimos e dizemos: “Eu sou aquela pessoa que gosta de cinema, de praia, que odeia montanhas” e assim por diante. Estreitamos um pouco mais a nossa mente. 3


meditando a vida lama padma samten

Vis達o Espiritual cebb e escola caminho do meio

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meditando a vida

na educação Por lama padma samten

O tema da educação é maravilhoso. Na verdade, é nosso tema cotidiano. Com o projeto da Escola Caminho do Meio estamos refletindo muito sobre a questão da educação associada à espiritualidade. Observamos que existe a noção de que há uma vida espiritual e uma vida no mundo. No budismo não conseguimos pensar assim. Quase não tem sentido imaginarmos que teremos uma educação espiritual na escola, pois a escola não tem sentido sem a educação espiritual. Acredito que a maioria de nós pensa que esses mundos (o espiritual e o real) sejam diferentes. Temos uma verdade espiritual que não se aplica bem ao mundo no qual vivemos. Podemos dizer que temos um mundo terrível, um mundo bom ou mais ou menos, mas é o mundo real e não tem consistência espiritual. Nós acreditamos na espiritualidade ligada a momentos especiais da vida ou a alguma coisa relacionada ao céu. Algo que não diz respeito propriamente ao andamento do mundo, que apenas está lá. Quando as coisas não vão bem, nos valemos de um recurso extraordinário para poder avançar, sustentar ou passar pelos períodos piores. Mas, claramente, o mundo é uma coisa e a visão espiritual se aplica a outro âmbito. Na perspectiva budista não é assim. Tenho refletido e vejo que o Centro de Estudos Budistas Bodisatva (cebb), que é uma instituição, é uma escola aberta para alunos livres. Todo mundo pode sair a qualquer hora. A porta está aberta, não é verdade? Não há nada que nos prenda aqui. Não tem nenhuma ficha de aluno, inscrição, relatório, nada. Se alguém precisar de um atestado de participação

em tais meditações ou tais retiros, será difícil. Não temos registro, é uma escola sem registro. Também não atribuímos grau. Nosso objetivo não é esse, nosso objetivo é que as pessoas melhorem. Se as pessoas melhoram e sentem-se bem, elas seguem. A avaliação, na verdade, é da escola e não da pessoa. Se há expansão e a vida das pessoas melhora, não precisa outro atestado. Não precisa nenhum grau, nenhuma prova, a não ser a prova da própria vida. Assim, não conseguimos separar a nossa vida cotidiana do mundo espiritual. Por quê? Porque o ensinamento espiritual nos ajuda a andar melhor na vida e não há nada na vida que não tenha a questão da cognição profunda, especialmente na perspectiva budista. Sua Santidade o Dalai Lama se rendeu aos cientistas. No livro O Universo em um Átomo, ele diz que o aspecto mais elevado é a ciência. Se as religiões se defrontarem com a ciência, e a ciência apontar em uma direção e a religião para outra, é melhor esquecer a religião e seguir a ciência. Ao ouvir isso, pode ser que alguém sinta um arrepio. Na verdade, quando li, não gostei. Mas depois o Dalai Lama diz que várias visões filosóficas equivocadas foram incorporadas à ciência e que ela não precisa seguir com esses pensamentos. Ele usa ciência como sinônimo de lucidez, ela é o ponto mais elevado, com certeza. Se as religiões vão contra a lucidez, pior para as religiões. Porque, inevitavelmente, a lucidez vai ultrapassando todos esses aspectos. Nesse sentido, colocamos a religião como inseparável da nossa própria vida, pois na essência, a questão é a lucidez.

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Além da fina camada da psique humana, o que mais existe na mente, e além dela? Alan Wallace nos dá um mapa preciso dos diferentes níveis internos de consciência, as diversas dimensões ocultas que podem ser acessadas por meio das práticas contemplativas.

mergulho no infinito

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capa Por liane alves Da janela do 26º andar do hotel, é possível se ver dois enormes shoppings centers, edifícios com vidros espelhados e grandes cúpulas, mega-lojas de material de construção e pistas de alta velocidade. A vista poderia ser de Dallas ou Chicago, mas por acaso, é de uma das zonas mais novas e modernas de São Paulo. Ali está hospedado por apenas alguns dias o físico e ex-monge budista americano Alan Wallace, que veio à cidade para falar com médicos do sofisticado centro de pesquisas do Hospital Albert Einstein, dar uma palestra pública e lançar seu último livro, Dimensões Escondidas. O horizonte amplo contrasta com o mergulho cada vez mais profundo a que ele me conduz durante a entrevista. Com voz calma e raciocínio claro, Alan fala dos pontos em comum de todas as tradições espirituais contemplativas e da tecnologia metafísica que se pode empregar para atingir dimensões escondidas de onde, segundo ele, emerge nossa realidade. Vamos, então, resumir esse mergulho, sem deixar de oferecer as pistas necessárias que balizam seu percurso.

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perfil alan wallace

quem é alan wallace? Dr. B. Alan Wallace, Ph.D., é presidente do Instituto Santa Bárbara para Estudos da Consciência, na Califórnia, eua. Nasceu em Pasadena, Califórnia, em 1950. Cresceu e foi educado nos Estados Unidos, Escócia e Suíça. Em 1968 entrou para a Universidade da Califórnia, em San Diego, para preparar uma carreira em ecologia secundariamente aberta para filosofia e religião. Mas foi para essas duas áreas que seus interesses convergiram no terceiro ano de estudos de graduação, na Universidade de Göttingen, Alemanha. Começou então a estudar budismo tibetano e a língua tibetana. Em 1971, suspendeu sua educação ocidental formal e partiu para Dharamsala, Índia, onde estudou budismo tibetano, medicina e a língua tibetana por quatro anos. Durante o primeiro ano em Dharamsala, morou na casa do Dr. Yeshi Dhonden, médico pessoal de Sua Santidade o Dalai Lama, e a quem Alan

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Wallace muitas vezes serviu de intérprete. Sob a orientação do Dr. Dhonden, traduziu um dos textos clássicos da medicina tibetana para o inglês. Em 1973, começou a treinar no Instituto de Dialética Budista, onde todos os ensinamentos, estudos e debates são conduzidos em tibetano. Em 1975, a pedido do Dalai Lama, foi encontrar o estudioso do budismo tibetano Geshe Rabten, na Suíça, primeiro no Tibet Institute, em Rikon, e mais tarde no Centro de Estudos Superiores Tibetanos, em Monte Pèlerin. Nos quatro anos seguintes, continuou seus próprios estudos e o treinamento monástico, traduziu textos, foi intérprete de Geshe Rabten e muitos outros lamas tibetanos, inclusive o Dalai Lama, ensinou filosofia budista e meditação na Suíça, Itália, Alemanha, França e Inglaterra. No final de 1979, deixou a Suíça para iniciar um período de quatro anos de retiros contemplativos, primeiro na

Índia, sob a orientação do Dalai Lama, e mais tarde no Sri Lanka e Estados Unidos. Após uma ausência de 13 anos, retornou ao meio acadêmico ocidental, matriculando-se na Faculdade de Amherst para terminar seus estudos de graduação. Estudou física, sânscrito e as bases filosóficas da física moderna. Graduou-se com louvor em 1987. Sua tese foi publicada em dois volumes: Choosing Reality, uma visão budista da física e da mente, e Sabedoria Transcendente, um comentário do nono capítulo do Guia do Caminho do Bodisatva, de Shantideva. Depois de Amherst, passou nove meses em retiros contemplativos no deserto elevado da Califórnia. Em 1988, junto com o contemplativo tibetano Gen Lamrimpa, ajudou a liderar um grupo em retiro durante um ano perto de Castle Rock, Washington, explorando maneiras de refinar e estabilizar a atenção. No outono de 1989, entrou para o programa de pós-graduação


em estudos religiosos na Universidade de Stanford, pesquisando a interface entre o budismo e a ciência e filosofia ocidentais. Estes estudos estão profundamente relacionados com seu papel de intérprete e organizador das conferências “Mind and Life”, com o Dalai Lama e cientistas ocidentais, que começaram em 1987 e continuam até hoje. Em 1992, patrocinado pelo Mind and Life Institute, que ajudou a fundar, Alan Wallace viajou pelo Tibete, fazendo um levantamento preliminar dos contemplativos budistas vivos. Em 1995, terminou sua dissertação de doutorado sobre o treinamento da atenção no budismo tibetano e sua relação com as teorias psicológicas e filosóficas modernas da atenção e da consciência. Uma versão do trabalho foi publicada com o título A Ponte da Quiescência: experiência de meditação budista tibetana. Entre 1992 e 1997, foi o principal intérprete de Gyatrul Rinpoche, um grande lama da tradição tibetana Nyingma.

Neste período, traduziu cinco tratados tibetanos clássicos sobre métodos contemplativos para explorar a natureza da consciência. De 1995 a 1997, foi professor visitante nos departamentos de estudos religiosos e psicologia da Universidade de Stanford. Com sua esposa, Dra. Vesna A. Wallace, fez uma nova tradução para o inglês do texto clássico Um Guia para o Modo de Vida do Bodisatva, a partir do sânscrito e do tibetano, conduziu também pesquisas para seu principal trabalho acadêmico até então, O Tabu da Subjetividade: Para uma Nova Ciência da Consciência.

no âmbito popular, o livro Budismo com Atitude: O Treinamento Mental Tibetano de Sete Pontos (2001). Após deixar a universidade, fez um retiro contemplativo solitário de seis meses no alto deserto da Califórnia. Hoje vive em Santa Bárbara, à frente do instituto do qual é co-fundador, e leciona filosofia budista e meditação na Europa e América do Norte.

De 1997 a 2001, Alan Wallace lecionou no Departamento de Estudos Religiosos da Universidade da Califórnia, Santa Bárbara, dando aulas sobre estudos budistas tibetanos e a interface entre ciência e religião. Além do Tabu da Subjetividade (2000), suas publicações acadêmicas mais recentes incluem o livro Budismo e Ciência: Explorando Novos Territórios (2003) e,

= Alan Wallace e Sua Santidade o Dalai Lama. Faculdade de Amherst. ma, eua. 1984.

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= Adolescentes de um dos orfanatos do Sarvodaya, no Sri Lanka. Um dos muitos exemplos de budismo engajado encontrados em diversos paĂ­ses, inclusive no Brasil.

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visão Por ricardo aveline Budismo engajado é o termo que vem sendo cunhado internacionalmente para designar um fenômeno social ocorrido a partir da década de 50 do século xx. Em função de uma série de fatores como o fim da Segunda Grande Guerra, a modernidade e a globalização, ampliou-se a influência da cultura ocidental no mundo, exigindo uma organização dos budistas asiáticos para atuação no meio social e político a fim de proteger a cultura budista e seus praticantes. O budismo que vinha sendo traduzido pela sociologia da religião como uma religião introspectiva, de transformação pessoal e de busca do nirvana, passa a agregar mais uma manifestação: o engajamento social e político no mundo. Problemas ambientais, criminalidade, desigualdade social entram na pauta budista e passam a ser enfrentados através dos princípios budistas.

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visão

ecologia e cultura de paz Por Clitia Helena Backx Martins Imagens de Guilherme Erhardt

“Estamos marcados como a sociedade que aportou no século xxi na emergência de uma crise ambiental. A extinção de espécies, a contaminação do ar e da água, o efeito estufa não são a crise ambiental. São apenas seus indicadores. A crise ambiental é a nossa crise. De valores, relacionamento, identidade e conhecimento. E a ponta de lança do nosso comportamento em xeque é o consumo inconsequente que coloca o planeta em risco”. — Céu D’Ellia, cineasta e ambientalista.

O debate que apresentamos nesse breve artigo tem como eixo central uma proposta de mudança de paradigma, que remete à seguinte questão inicial: como refletir sobre a atual situação ecológica, tendo por referência a construção de uma cultura de paz? Quando nos referimos à “questão ecológica”, não podemos deixar de mencionar as frequentes manifestações sobre a iminência de crise ambiental em vários níveis e esferas: local, regional, nacional, global, na esfera privada, no espaço público, nas formas de produção e de consumo, nos estilos de vida, no cotidiano das relações humanas e dos homens

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Por carmen padma jinpa

budismo teravada e mahayana

dialogam no templo caminho do meio A tradição Teravada foi a única a preservar os discursos do Buda Sakiamuni e de seus discípulos na língua original, o páli, e a manter os antigos preceitos da ordem monástica, como o hábito de mendigar para conseguir alimento e o jejum durante a tarde. Um encontro do público leigo com as formas de visão, ação e meditação da escola Teravada foi realizado pelo Centro de Estudos Budistas Bodisatva (cebb) no templo Caminho do Meio, em Viamão (rs), com a visita do monge Yogavacara Rahula, da Sociedade Bhavana, centro de meditação localizado em West Virginia, nos Estados Unidos. Chamado de bhante (palavra respeitosa que equivale a venerável senhor), o monge nasceu na Califórnia (eua), em 1948. É autor de livros sobre meditação e também da autobiografia One Night´s Shelter (Abrigo para uma Noite), sobre sua vida durante o auge do movimento hippie, nos anos 60, quando ainda se chamava Scott Joseph DuPrez, e a descoberta do caminho espiritual. O budismo o levou a lugares tão distintos quanto o Nepal, onde praticou por algum tempo na tradição tibetana, e o Sri Lanka, onde morou depois da ordenação no Teravada, em 1975. No templo Caminho do Meio, bhante Rahula realizou um treinamento rápido em meditação vipássana da forma como é praticada na Sociedade Bhavana. Esta forma de meditação é utilizada pelos seguidores do Teravada para estabilização da mente e acesso ao insight, que seria uma compreensão profunda dos fenômenos.

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Aliás

Por miguel berredo

ktc

peregrinação

shambala sun

A sociedade budista Karma Theksum Chokorling (ktc), em Vargem Grande, RJ, fundada no Brasil no final da década de 80 e sede oficial de Sua Santidade Karmapa na América do Sul, está expandindo sua biblioteca que hoje conta com 1050 publicações. Com exceção de livros didáticos, a biblioteca da ktc aceita doações budistas e não budistas. Estas últimas são trocadas em sebos por literatura budista. Mais informações: www.ktc.org.br Há também a ktc-sp: www.ktcsp.org

No início de 2010 o monge Gabriel, que estuda o budismo em mosteiros da Índia há mais de cinco anos, e o praticante e guia turístico Guilherme Samel, conduzirão uma peregrinação pelos locais sagrados do budismo na Índia e no Nepal. Além de visitas aos lugares onde o Buda Sakiamuni passou, o programa inclui ensinamentos com Sua Santidade o Dalai Lama, de 5 a 9 de janeiro, na cidade de Bodhigaya, na Índia. (www.dalailama.com). Mais informações: www.yatri.dharma.org.br

A revista budista Shambhala Sun tem um excelente site com matérias de mestres das diversas tradições do budismo, como Sua Santidade o Dalai Lama, Pema Chodron, Thich Nhat Hanh, Dzongsar Rinpoche, Sakyong Rinpoche, Mingyur Rinpoche, Chogyam Trungpa, John Tarrant, entre outros. E ainda muito material sobre meditação. Todo o arquivo está disponível desde 1995: www.shambhalasun.com (Em inglês).

matthieu ricard Matthieu Ricard é um monge francês aluno de Dilgo Khyentse Rinpoche com um grande dom, a fotografia. Seu foco principal é o budismo tibetano e as paisagens do Tibete, Nepal, Butão e Índia. Há dois sites onde podemos ver algumas significativas amostras do seu trabalho: www.shechen.org (gallery) www.matthieuricard.org (gallery).

“Quando o Buda foi perguntado se ele era um Deus, ele apenas respondeu que estava desperto. Buda quer dizer desperto. Se você não se vê como um Buda, você está dormindo.” Alan Wallace

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Meu altar A Bodisatva 17 abriu a janela para os leitores enviarem fotos de seus altares budistas. Veja aqui o resultado com as imagens mais bacanas escolhidas pela redação.

Roberto Fantini Brasília - df

vida leve

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Carla Verônica Gurgacz Florianópolis - sc


janela

você já parou para pensar sobre como anda consumindo? consumir é uma das coisas que mais fazemos no mundo de hoje. E como quase tudo que é rotineiro, normalmente compramos sem pensar, de forma automática. Há 26 séculos, o príncipe Sidarta percebeu que todas as pessoas — ricas ou pobres — tentavam encontrar alegria e contentamento em suas vidas, mas não chegavam a lugar algum. Nós também, com todo o aparato de que dispomos, não estamos chegando muito mais perto de nós mesmos, nem da felicidade: comemos mais do que deveríamos, compramos coisas que não precisamos, adiamos coisas importantes, nos distraímos com coisas menores o dia inteiro. Basicamente, perdemos tempo. Por isso, o Buda ensinou a meditação, para que possamos aprender a estar presentes de fato. Se prestarmos atenção à nossa mente, conseguiremos relacionar as intenções, ações e consequências dos nossos atos. Vamos andar no mundo despertos. Vamos respirar, viver, nos comunicar e consumir de forma consciente.

Por mel flores Com isso em mente, a Janela 18 propõe o seguinte exercício: 1. Escolha um objeto na sua casa (uma roupa, um enfeite, um livro, qualquer coisa) que não tenha sido usado nos últimos três meses e que você aprecie bastante. Um objeto novo. 2. Embale o objeto com cuidado, como um presente. 3. Escolha com atenção uma pessoa que provavelmente vai fazer bom uso do objeto e presentei-a. 4. Mande para nós uma foto do presente e uma breve descrição de como você se sentiu. Envie para revista@bodisatva.org.br Observação 1: não vale presentear uma pessoa que esteja fazendo aniversário. O presente deve ser espontâneo, sem motivo aparente. Observação 2: não espere nada em troca: é um exercício de generosidade. A própria oportunidade de presentear é a recompensa. Observação 3: quanto mais inusitada for a escolha da pessoa a ser presenteada, mais efetivo será o exercício. Divirta-se!

A felicidade está ligada à capacidade de estarmos presentes a cada momento. Presentes, inteiros, podemos direcionar nossos relacionamentos de forma positiva e construir a felicidade individual, familiar e social. Presentes, podemos mesmo curar todo o planeta.

Na próxima edição (e no blog da Bodisatva — bodisatva.com.br) publicaremos as respostas.

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praticante sincero Por frederico mattoso

É com reduzido embaraço que admito: não tenho meditado porcaria nenhuma. Esse pequeno texto é para você que, como eu, ainda não entendeu direito os ensinamentos budistas. Até porque se você tivesse realmente compreendido, e não só com seu cérebro, provavelmente não estaria aqui perdendo seu tempo lendo este conjunto tolo de palavras, enquanto poderia estar lendo um bom livro ou ajudando sua mulher a lavar a louça. Como reunir forças para sentar e meditar quando tenho que acordar às 7 da manhã? Como posso meditar quando chego em casa exausto e está passando Lost na tv? Não imagino alguém que realmente goste, alguém que fica contando os minutos para ir logo sentar na almofadinha. Faça um teste. Amanhã, se tiver coragem, no meio do seu trabalho, lá pelas seis da tarde, bem no horário do happy hour, experimente chamar seus colegas em voz

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alta para uma sessão de meditação para ver o que acontece. Seus colegas mais bem-educados talvez arregalem os olhos mostrando algum interesse, mas assim que você começar a contar um pouco sobre a prática, rapidamente verá a atenção deles vaguear rumo a Plutão, enquanto a boca e os olhos ainda farão algum esforço para manter uma cara simpática. Os mais sinceros simplesmente o tacharão de louco enquanto vão sugerir que a conversa gire em torno do Brasileirão. Alguns deles ainda poderão achar interessante e dizer “legal, um dia eu ainda preciso fazer isso”. Não adianta. Meditar, pelo menos a princípio, não é mais legal do que viajar, comer chocolate ou pegar um teatrinho. Então, como atingir a iluminação, como dar um pontapé definitivo nos problemas, se a base na qual a iluminação é possível está ancorada apenas na observação da nossa mente, ou seja, através da meditação? Certa vez, um monge budista me recomendou meditar 5 minutos todo dia, em vez de 30 minutos a cada 15 dias, e olha, deu certo.

Por três dias. Às vezes eu penso que seria mais fácil praticar se eu morasse numa masmorra, ou numa cela do Carandiru, porque aí, já que não haveria muito o que fazer, poderia me concentrar nos estudos e na meditação. E qual é a garantia de que, se eu eventualmente começar a meditar, vou me iluminar? E se eu meditar errado? Sinto que precisaria de um mestre ao meu lado o tempo todo, orientando minha meditação. Ué, não existe personal trainer para os esportistas? Por que não um personal meditator para os praticantes? Os mestres budistas até que tentam de tudo para fazer a gente meditar. Falam que se não alcançarmos a iluminação, permaneceremos no samsara, ou seja, nesse ciclo interminável de vidas permeadas pelo sofrimento incessante. Dizem que poderemos até renascer nos infernos dependendo do nosso carma, que seremos cabeçudos e viveremos suportando a vida, num patamar de dor e sofrimento inconcebíveis.


clássico

Instruções para o Tenzo, o cozinheiro zen

Na primavera de 1237, mestre Dogen, que levou o budismo Zen da China ao Japão, escreveu o ensinamento conhecido como “Instruções para o Tenzo”, dedicado “àqueles que em gerações futuras vierem a praticar o Caminho”. Nos mosteiros zen, o tenzo é responsável pelas refeições da comunidade. Embora seu trabalho envolva preparar e servir a comida, o tenzo não é apenas “o cozinheiro”. O tenzo prepara toda a comida com respeito, como se ela fosse para o imperador, e tanto o alimento cozido como o cru deve ser tratado dessa maneira. Ao preparar a comida, jamais considere os ingredientes a partir da mente comum. Se você tiver apenas ervas do campo para fazer uma sopa, não as despreze. Se tiver ingredientes para uma sopa cremosa, não se deixe enlevar. Onde não há apego, não pode haver aversão. Não seja descuidado com ingredientes grosseiros nem dependa de ingredientes finos para o seu trabalho, mas lide com todos eles com a mesma sinceridade. Não fazer isto é como mudar seu comportamento de acordo com a importância da

pessoa que você encontra. Um estudante do Caminho não age assim. Dia e noite, o trabalho de preparar a comida deve ser feito sem desperdiçar um só momento. Fazendo sempre de todo o coração, isto alimentará as sementes do Despertar, trazendo paz e alegria à prática da comunidade. Nos muitos mosteiros que conheci na China, os monges encarregados das várias funções treinam no trabalho durante um ano, e cada um deles, a cada momento, pratica de acordo com três normas. Primeiramente, beneficiar os outros traz benefícios. Em segundo lugar, fazer todo esforço para manter e renovar o ambiente monástico. Terceiro, seguir as normas estabelecidas pelo exemplo dos excelentes praticantes do passado e do presente e juntar-se a eles. Você deve entender que os tolos praticam sem considerar as outras pessoas e os sábios praticam considerando todas as pessoas como a si mesmos. Um antigo mestre disse: “Dois terços de sua vida se passaram, sem esclarecer quem você é.

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Os vários tipos de ioga Por thareja fernandes Há alguns anos, o Ocidente descobriu as propriedades curativas da ioga. A comprovação científica de que a prática constante ajuda no tratamento de doenças como estresse, hipertensão, diabetes, depressão, asma, artrite, irritações intestinais e alcoolismo, entre outros problemas, fez com que o preconceito e a desconfiança antes vigentes na nossa sociedade dessem lugar à prescrição por parte de alguns médicos e à adesão de milhares de pessoas.

aquietando, a curiosidade em relação à filosofia que sustenta a prática física pode surgir e com ela muitas dúvidas. Uma delas, a mais básica de todas, diz respeito à própria palavra.

A divulgação de tantos benefícios fez com que esta prática milenar entrasse na moda e o Brasil presenciasse uma explosão de estúdios, como passaram a se chamar os locais onde se pratica ioga. Até nas academias de ginástica é possível encontrar turmas com um número razoável de alunos.

Algumas pessoas dizem “a ioga”, outras “o yôga”. Qual seria a maneira correta? Em sânscrito, seu idioma de origem, yôga é um substantivo masculino e deve ser pronunciado com som fechado. Em português, é feminino e tem o som aberto. Mas qual o sentido da palavra? Yoga significa união, junção. Quase a mesma acepção do vocábulo latino religare, origem da palavra religião, que significa religar o homem a Deus. Assim, o objetivo da ioga é “a união da psique individual com o Si Mesmo transcendental”. E de que modo esta meta é atingida? Através “da cessação do turbilhão da mente”.

Embora a maioria dos praticantes ocidentais inicie suas aulas apenas com o objetivo de melhorar a saúde física ou de acalmar um pouco o espírito, à medida que o tempo vai passando e a mente vai se

De acordo com as escrituras sagradas do hinduísmo, onde se encontram os textos que tratam da ioga, existem várias maneiras de silenciar a mente e encontrar a união com o Todo. A Hatha-Yoga, usada

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normalmente como sinônimo de prática física, é apenas uma delas. As outras são a Jnâna-Yoga, em que a busca da iluminação se dá através do conhecimento, a BhaktiYoga, cujo caminho é o amor devocional, a Karma-Yoga, cujo objetivo é alcançar a liberdade em relação à ação, a MantraYoga, que tem o som como veículo de transcendência, e a Raja Yoga, cujo foco é a meditação. Embora cada um desses métodos enfatize um aspecto da prática espiritual, segundo as escrituras, todos incluem postura, controle da respiração, meditação e êxtase. De acordo com Georg Feuerstein, em seu clássico livro A tradição do Yoga, a proposta da Hatha, ou ioga vigorosa, é desenvolver o potencial do corpo, transformando-o num “corpo de diamante”, um veículo perfeito, para a realização transcendente. Afinal, a iluminação é um fenômeno que acontece em alguém que está encarnado em um corpo físico e que não ocorre apenas no âmbito da mente. O corpo também se ilumina.


Bodisatva Nº 18 - Versão WEB