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Vicente Bojovski

2013, Ilha de Vit贸ria, ES


Copyright: Vicente Bojovski Todos os direitos reservados. A reprodução de qualquer parte desta obra, por qualquer meio, sem a autorização do autor ou da editora, constitui violação da LDA 9610/98

Editor: Christoph Schneebeli Capa: Aldivan Casotto Projeto Gráfico: Christoph Schneebeli Impressão: Dossi Editora Grafica

Coordenação de Produção: Flôr & Cultura Editores Rua Antônio Aleixo, 645 Horto Tel.: (27) 3322-4777 florecultura@gmail.com Vitória – ES


Uma hist贸ria de vida.


Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo... Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer Porque eu sou do tamanho do que vejo E não, do tamanho da minha altura...


A pintura e os desenhos de Vicent Vojnilo Bojovski partem de temática simples e sua inspiração vem da natureza. Peixes, crustáceos, flores e folhas ganham formas abstratas, lúdicas, algumas vezes geométricas, outras vezes orgânicas, mas sempre com uma infinidades de detalhes. Vicent expressa aos olhos o que sua culinária possibilita na degustação: experiências infinitas de texturas e sabores. Retrata no visual aquilo que sua cozinha possibilita aos outros sentidos. Em seus desenhos e pinturas há uma riqueza estonteante de cores e de estilos, algo como as nuances de Franz Mark se fundindo com os traços de Klimt, ou como as formas de Kandinsky se misturando com as de Pollock, e tudo resultando em trabalhos expressivos e intensos, que exigem calma e atenção aos seus recortes, contornos e formas. Para ele o ato de pintar ou desenhar é, como sua culinária, puro prazer e alegria. E isto está muito bem registrado neste catálogo, com suas duas centenas de pinturas e desenhos produzidos nos últimos cinco anos. As obras, expostas em seu ateliê, vêm sendo adquiridas por clientes e amigos em visita ao restaurante de sua propriedade - o Guaramare.


No verão de 2008 transpus para a tela, a pedido de uma cliente e amiga, um de meus afrescos que decora as paredes de meu restaurante. O resultado deve ter encantado mais a mim do que a qualquer outra pessoa, pois desde aquela data não mais parei de pintar e desenhar. Acabei por resgatar – e aprimorar – a técnica aprendida ao longo dos anos passados na França. Lembro com nitidez da minha infância e juventude, quando na primavera os camponeses esvaziavam suas casas e as pintavam de azul, amarelo e de muitas outras cores, inspiradas pelas terras coloridas das redondezas. Aplicavam nas paredes imagens com motivos campestres e florais, simples e primitivas, mas de uma beleza que seria para sempre representada em meus desenhos e pinturas. O bucolismo e a simplicidade dessa terra também despertaram em mim a poesia, a pintura e um singular padrão estético. Muitas das minhas poesias foram escritas tendo como tema principal a nossa vida pobre e as paisagens verdejantes de nosso pequeno vilarejo, onde um belo riacho, ainda hoje, corre ao lado de uma estrada de pedra. Apesar desse bucolismo, a vida no campo era dura e, quando chegava o inverno, isto só piorava. Mas foi nesse lugar que aprendi a trabalhar e a conhecer o mundo por meio de muita leitura, o que sempre me fez sonhar com uma vida melhor. Lembro-me de um inseparável amigo de infância que, na juventude, mudou-se para Skopje, a capital do país, para estudar Belas Artes. Foi um talentoso artista, mas que nunca conseguiu vender seus quadros, pois nossos conterrâneos, além de não possuírem condições financeiras, não compreendiam sua arte. Percebendo isso, aos 25 anos de idade, abandonei tudo e todos e decidi seguir outro destino. Fui perseguir meus sonhos e ele decidiu lá ficar. Foi assim que acabei desembarcando na França. Cheguei a Paris trazendo na bagagem apenas sonhos e a força da juventude. Trabalhei muito, muito mesmo. Comecei como garçom, depois trabalhei na indústria, mas logo fui fazer o que mais gostava e me encantava: restauração e decoração. Como sempre fui muito dedicado e cuidadoso com meus trabalhos, logo surgiram muitos clientes. A França me ensinou as coisas boas da vida: os museus de arte esplen-

dorosos, as galerias, o refinamento da gastronomia, a literatura, a arquitetura e a importância da arte. E se a Macedônia no início despertou o artista que havia em mim, com certeza foi a França que me fez pintor, desenhista e escritor. Voltei a escrever poesias – também em francês – e a desenhar. Meus trabalhos foram publicados e minha arte começou a ter projeção nas revistas e jornais franceses. O jornal Nouvelle Republique passou a publicar com exclusividade meus desenhos e ilustrações. Muito embora minha paixão pela arte aumentasse a cada dia, minha condição financeira era limitada e eu não tinha um lugar onde pudesse me dedicar a esse novo ofício. Era tudo muito caro. Então, houve uma época de muitas dificuldades e fui obrigado a retornar à Macedônia. Foi um retorno difícil, uma vez que eu já não me adaptava ao imobilismo do lugar. Nada havia mudado, era como se aquele pedaço do mundo tivesse permanecido parado no tempo. E, para deixar as coisas ainda piores, assim que cheguei recebi uma das notícias mais tristes de minha vida: Meu amigo, que lá ficara, havia se matado, decepcionado com a vida. Em sua homenagem escrevi um belo poema, que publiquei junto com outros em um livro intitulado “Kopnenija”, sob o pseudônimo de Vojnilo. Esse fato me tocou profundamente e me fez avaliar minha própria condição. Se eu permanecesse naquele lugar, desprovido de expectativas, a tristeza venceria meus sonhos e eu também não suportaria. Decidi ir embora mais uma vez. Minha alma livre queria ver mais. Tornei-me um viajante errante e visitei diversos países: Itália, Bélgica, Espanha, Iugoslávia e Alemanha, onde acabei desembarcando em 1981, na cidade de Berlim. Na Alemanha realizei algumas pinturas no interior de restaurantes, onde retratava o folclore e as cores da Macedônia. Sempre fui autodidata em tudo o que arrisquei e ainda me arrisco a fazer, aprendendo com muita observação e prática. Jamais frequentei cursos de desenho, pintura, gastronomia ou arquitetura. Foi o amor e a paixão pela estética, pelo belo, que forjaram em mim a capacidade de criar e produzir de forma espontânea. Nessa época muitos brasileiros visitavam a Alemanha e, após sucessivos convites, acabaram por me convencer a vir ao Brasil, país que


sempre fez parte de minha vida e de meus sonhos. Resolvi arriscar e desembarquei no Rio de Janeiro em meados de 1982. Fiquei encantado com a multidiversidade cultural do lugar e assim que comecei a fazer meus desenhos fui convidado a participar de uma exposição em Brasília, no Hotel Nacional – minha primeira exposição em território brasileiro. Fiquei impressionado com a receptividade que minhas obras alcançaram. Várias personalidades da cidade, empresários, políticos, jornalistas e artistas apaixonados pela arte elogiaram meus trabalhos. Mas nessa época, mais do que elogios, eu precisava mesmo era me sustentar e logo cheguei à conclusão de que viver somente de minha arte seria, mais uma vez, muito difícil. De volta ao Rio, comecei a trabalhar como desenhista. Logo me enturmei com artistas e empresários estrangeiros de várias nacionalidades. Eram italianos, espanhóis, franceses e libaneses que, na maioria, faziam sucesso com seus ofícios, principalmente restaurantes, onde ofereciam a culinária de suas terras de origem. E foi em um desses encontros de libaneses que fui apresentado à mulher por quem me apa-

ixonaria e com quem me casaria: Nádia. A convite dela, visitei Guarapari. Acabei me encantando com as belezas naturais, com o clima e com a abundância deste mar. Em 5 de outubro de 1986 e bem distante da fama nacional que eu viria a adquirir, juntamente com Nádia inaugurei, em um pequeno imóvel de sua família no centro de Guarapari, o nosso restaurante Guaramare. Dois anos depois nasceu Maritza, a filha que tanta alegria nos trouxe e que me proporcionou a verdadeira dimensão do que é ter uma família. Foram anos de trabalho intenso e contínuo. Mesmo sabendo que havia posto em prática tudo de bom que havia aprendido em minhas andanças, confesso que fiquei surpreso com o rápido sucesso do restaurante. A França havia me ensinado a perfeita apresentação dos pratos, a excelência no serviço, a montagem de cardápios, a distinção entre as variedades de peixes, a importância dos vinhos, dos licores, do champanhe e dos aperitivos. Os 15 anos lá vividos me levaram a compreender o conceito do savoir vivre. Logicamente o Guaramare acabou absorvendo muito de meu tempo e, como consequência, parei de desenhar, pintar e escrever por um longo período. Depois percebi que não havia abandonado minha arte, mas apenas havia mudado a forma de manifestá-la. Minha arte se expandia e se manifestava agora nas paredes e nos tijolos que eram parte de uma nova paixão: a arquitetura. Em 1992, com a chegada de minha irmã Ricima, pude começar a me aventurar em algumas reformas maiores, pois ela logo se tornou meu braço direito no restaurante e assim me sobrava tempo para construir e reformar. Fiz vários ambientes diferentes, que remetiam às arquiteturas antigas e belas do Mediterrâneo, da Alsácia e da Normandia. Em poucos anos não havia mais espaço para ampliações e muito menos para meus projetos e ideias. Necessitava urgentemente de um novo lugar e depois de muito procurar, adquiri uma área à beira da lagoa da Enseada Azul. Era um terreno baixo, encharcado e que alagava em época de chuvas. As dificuldades do lugar quase me renderam a fama de louco. Poucos – ou mesmo ninguém – acreditavam que


daquele charco pudesse nascer uma estrutura segura capaz de abrigar um restaurante. Mas eu estava decidido, pois a imagem do restaurante já se materializara em minha mente. Então, em dezembro de 1995, transferimos o Guaramare para o novo endereço e em todos os anos que se seguiram devotei meu tempo a inúmeras reformas, mudanças, alterações e ampliações no local em que hoje se ergue, não só o restaurante, mas a minha casa. Muito embora já fosse elogiado como restaurante de boa gastronomia, foi em 1999 que o Guia 4 Rodas contemplou o Guaramare com duas estrelas, e ainda o reconheceu como o melhor restaurante de pescados do Brasil. E muito me orgulha o fato de ainda recebê-las, pois isso mostra que criamos e mantivemos um novo padrão para a culinária com frutos do mar. Atualmente vivo em paz e realizado nesse lugar que construí de acordo com minha imaginação. O Guaramare é também minha casa, um mosaico de todas as minhas experiências de vida e cada canto desse lugar conta um pouco da minha história. E tenho muitas histórias, como a surpresa, em 2005, de reencontrar, após 25 anos sem notícias, minha filha Celine, que vive na França. O Brasil me proporcionou todos os ingredientes para uma vida feliz. Aqui encontrei tudo de que precisava, não só para montar um restaurante, mas para criar um belo lugar, uma linda família e tudo o mais necessário para transformar meus sonhos em realidade. Minha filha Maritza é outro orgulho em minha vida. Formada em gastronomia, muito me ajuda na hora do preparo dos pratos e na administração do restaurante. Minha alma de artista não me permite parar nunca. Portanto, continuo sempre com novos projetos, como a publicação de mais um livro de poemas na Macedônia, um romance em andamento, muitos outros quadros e uma imaginação cujo limite nem mesmo eu conheço. Por isso construí um ateliê à beira da lagoa, com um bom espaço para trabalhar e expor meus quadros e desenhos.

Há 25 anos fiz do Guaramare meu refúgio, meu mundo e é nesse local que tenho a alegria de receber os muitos amigos que conquistei em todo esse tempo. A minha família e a meus amigos dedico este livro. Vicente Bojovski


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Guaramare - Alma de Artista  
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