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NOVEMBRO 2018

Pee

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Oi,

bem vindo(a) a edição de Novembro!

Pee

Original do Tupi, vós/vocês. Pessoa a que se refere.

Assim como um estado possui seu sotaque e maneirismos, o cenário alternativo fala o brasileiro num português claro e ressonante, mesmo que recheado de particularidades únicas - em sua mais singela redundância; por vezes reverbera pelo país, mas tende a se inflamar em seu nicho. Destacado, no entanto, inserido. Que se deixa influenciar, mas rebate com influência. A Peē se intenciona como referência do pertencente segregado; no nosso dialeto, nos dirigimos à aldeia, para a aldeia. Sem esquecer que a aldeia se fixa numa estrutura maior. E essa estrutura, hoje em dia, não encontra barreiras. Em suma, visamos criar conversa sobre a pluralidade individual. E por quê? Para peē.

Redação Editores:Ariadne Aquino Gabriela Siqueira Lucas Soares

Assistente de Redação: Word Indesign Idealizadora: Evlen Bispo

Redatoras: Ariadne Aquino Gabriela Siqueira

Anunciantes: Queremos

Diretor de Arte: Lucas Soares

Audiência: A que tiver

Estagiário: Precisamos

Intenção: A melhor possível

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Precisamos falar sobre elas

Webséries são mais comuns do que se pensa - e você talvez tenha uma favorita

Que as séries de tv são um fenômeno é algo indiscutível desde outrora, antes mesmo de Meredith Grey encontrar um estranho galante no bar. Da categoria, o streaming foi a cartada final: “assista o que quiser, quando quiser, onde quiser e, se quiser, veja TUDO de uma vez só!”. Maratona, o grego que correu por milhas para noticiar a vitória de uma guerra, ganhou um novo e queridinho signo para seu nome. Porém, um fenômeno “parente” do movimento não fica muito atrás quando o assunto é crescimento - e o Brasil está surfando na exponencialidade das webséries. Formatos similares às séries televisivas, exceto pelo tempo por episódio, que costumam ser menores. Essa mídia foi criada na tentativa de unir os distantes mundos da televisão e da internet, sendo amplamente usada na propaganda. E como toda boa mídia que gera resultado, continuou a crescer: não é incomum séries renomadas possuírem extensões em plataformas de vídeo - The Walking Dead, Pretty Little Liars, etc. Ou, então, webséries independentes que cativam e se tornam conteúdos maiores, como a brasileira 3%. Marcas se aventuram em

investir no formato e nomes como Nike, Adidas e Itaipava fazem parte das criadoras de Branded Webseries. Carmilla começou com uma

câmera-única e não parou de se expandir, garantindo um filme da trama e outros trabalhos paras as atrizes principais na Netflix - Kotex, um absorvente canadense, patrocinou desde o começo esse que é um dos maiores sucessos das webséries LGBT. Público esse que, especialmente no Brasil, é carente de conteúdo representativo - e aqui, com as webséries, acontece um boom. Tramas sobre atletas, ditadura, amores do passado, problemas do jovem adulto...Tudo que poderia acontecer com qualquer outro casal. O holofote, no entanto, cai em RED. Transmitida na

plataforma Vimeo, a websérie que iniciou independente e de baixíssimo orçamento conta a história de duas atrizes que, ao interpretar um casal se apaixonando, acabam apaixonando-se a vera. Por que o destaque? Além de ser a primeira sobre lésbicas no Brasil, é uma grande conquistadora internacional - sua primeira temporada conta com mais de 400 mil visualizações em 145 países. Hoje, com 4 temporadas lançadas, ostenta prêmios como da NY e Rio WebFest. E se tem uma websérie que partiu do indie e foi pro mundo, essa é Girls In The House. O curioso? A produção conta com gráficos feitos através do jogo de computador, The Sims 4. Criada por Raony Philips, a 5

comédia caiu nas graças do público, captando inclusive a atenção do canal TNT, que firmou parceria com o jovem e

garantiu, também, produções especiais em época de premiações. O carioca não poupa sua genialidade na produção - edição, montagem, roteiro, dublagem. E já lançou livro! Guerra, heróis, zumbis, distopias. Os formatos são inúmeros e o campo é fértil. Mas, mesmo assim, o futuro das webséries é incerto. É impossível não esbarrar nas acima citadas - as séries de streaming possuem a mesma liberdade criativa, contam com investimentos pesados e qualidade, muitas vezes, hollywoodiana. Além de não ser uma mídia tão disseminada, a forma de rentabilidade das webséries ainda precisa ser melhor estudada e explicada para possíveis patrocinadores. E, bom, sem patrocinadores os produtores não se sentem motivados. O que fica é o incentivo. É o exemplo. Não tem conteúdo que você goste? Então crie! Deu vontade de fazer? Então faça! Explore, tente, aprenda, construa. Busque profissionais atuantes, peça por dicas - use a internet a seu favor, criatura! Ideias são valiosas, mas quando saem do campo do pensamento se tornam inestimáveis. O ser criativo só se completa com a atividade!


NEM SEMPRE QUEM GANHA

...VENCE Já dizia na Bíblia: “os últimos serão os primeiros...” Será possível algo escrito há mais de 1600 anos ser tão contemporâneo?

Antigamente restritos apenas a programação fechada, os reality shows de conteúdo musical tem tomado parte do cenário das principais emissoras de televisão abertas no Brasil. Atrativos no formato e adaptações, os reality’s são como um fenômeno para um público de diversas idades. No entanto, o que chama atenção é que, normalmente, a preferência do telespectador não se direciona aquele que vence o programa. Muitas bandas e artistas solo que ficaram em segundo, terceiro lugar – ou nem mesmo chegaram a última etapa da competição – têm se destacado no cenário musical, deixando aqueles que ocupavam a pole position para trás. Nomes como Melim, Jade Baraldo, Jamz, Scalene tem se tornado cada vez mais presentes nas playlists dos jovens do que aqueles que levaram a medalha de ouro na disputa.

“Você é a razão da minha felicidade...” Aquela frase que ao “de quem é essa música?”.

escutar

você

se

pega

cantando,

Oriundos de Niterói, região metropolitana do Rio de Janeiro, Melim é uma banda formada por três irmãos: os gêmeos Diogo e Rodrigo, e Gabriela. É possível ter uma vaga lembrança ao vasculhar sua mente, pois o trio foi participante da terceira edição do reality show Superstar, da Rede Globo, em 2016; tendo sido eliminados na categoria de semifinalistas. No entanto, o grupo teve uma recepção tão positiva do público, e a pegada de ser mais uma banda formada por irmãos – uma ideia que já apresentou tanto sucesso no meio musical – que a Universal Music convidou o trio, no ano seguinte, a lançar um EP, onde a música que você não sabe o nome e nem quem a canta (embora saiba cantar ela até de trás para frente, não é?) pode ser encontrada intitulada de “Meu Abrigo”.

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1 mas

muitas

vezes

questiona-se:


Girl Power

Com uma voz suave, mas cheia de personalidade, Jade Baraldo cativou o coração de Claudia Leitte e integrou seu time no reality show The Voice Brasil, em 2016, e chegou a ser uma das finalistas. A repercussão no programa foi tanta, que a catarinense passou a ser conhecida por todo Brasil. Seu primeiro single autoral, “Brasa”, ficou sete dias consecutivos no primeiro lugar na playlist “As 50 Virais do Brasil” no Spotify.

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Medalha de prata

A Jamz ficou em segundo lugar na primeira edição do extinto reality Superstar, comandado a época por Fernanda Lima, apadrinhados por Dinho Ouro Preto, vocalista da banda Capital Inicial. Logo com o lançamento do primeiro CD pela Som Livre, denominado “Insano”, o grupo engatou uma de suas canções na trilha sonora da novela “I Love Paraisópolis” e ainda pode ser encontrado nas principais plataformas de streaming musical com canções inspiradas no pop, soul e R&B.

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Aposta no rock brasileiro

Também vice-campeã, a Scalene, ganhadora do Grammy Latino de “Melhor Álbum de Rock em Língua Portuguesa”, tem influências de bandas como Queens of the Stone Age e Radiohead. Apadrinhados por Paulo Ricardo, o sucesso durante a participação no reality foi tão abrangente, que após suas apresentações, o site oficial da banda sempre saía do ar por excesso de visitas. A Scalene encerrou sua participação ficando atrás apenas da dupla Lucas & Orelha.

E ISSO NÃO É EXCLUSIVIDADE DE BRASILEIRO NÃO... Há casos registrados dessa reviravolta do destino nos EUA, através do programa American Idol, onde nomes como Adam Lambert, que esteve em turnê com os músicos remanescentes da banda Queen, tocando em festivais como Rock in Rio, e com três discos lançados em sua carreira, atingiu o segundo lugar na oitava temporada do reality. Assim como no Reino Unido,

através do programa The X-Factor, que teve a sua sétima temporada encerrada com a boyband One Direction conquistando o terceiro lugar. Os cinco integrantes – Harry, Liam, Louis, Niall e Zayn – conquistaram o público e foram denominados como os novos “The Beatles”. O primeiro CD, intitulado “Up All Night” vendeu mais de 6 milhões de cópias em todo o mundo. 7


Além de uma estrela Cada dia mais, paradigmas estão sendo arrebatados pelas produções estrangeiras, revelando nomes antes nunca vistos e apresentando produções muito bem aceitas pelo público.

O sucesso estrondoso da plataforma de streaming Netflix não é novidade para ninguém; com mais de 100 milhões de assinantes, o serviço hoje é parte fundamental de um núcleo familiar, atendendo a todas as faixas etárias pelo vasto catálogo. O segmento ampliou seu mercado trazendo inovadoras produções denominadas “originais Netflix” que abrangem séries como Stranger Things, a filmes como A Barraca do Beijo. No entanto, o que tem chamado atenção do público são as produções estrangeiras, que tem apresentado

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LA CASA DE PAPEL

NARCOS

ELITE

Criada para uma rede televisiva espanhola, La Casa de Papel conta a história de oito habilidosos ladrões que invadem a Casa da Moeda da Espanha com o ambicioso plano de realizar o maior roubo da história e levar com eles mais de 2 bilhões de euros. No entanto, para por esse plano em prática, eles precisarão lidar com dezenas de pessoas mantidas como reféns, além dos agentes da força de elite da polícia, que farão de tudo para que a investida dos criminosos fracasse.

Embora seja uma série de televisão norte-americana, Narcos tem a assinatura colombiana em sua co-produção. Estrelando Wagner Moura, ator brasileiro, no papel do narcotraficante Pablo Escobar, a série narra a história real dos Estados Unidos e Colômbia para combater o temido traficante e o cartel de Medellín, uma das organizações criminosas mais ricas e impiedosas da história. Dois agentes da DEA são encarregados de comandar a missão para capturar e, consequentemente, matar Escobar.

Pegando carona no sucesso de La Casa de Papel, Elite chegou a Netflix com elenco em comum; contando com a presença de Miguel Herrán, Jaime Menéndez Lorente e Maria Pedraza, a trama é passada em um colégio de classe alta na Espanha. Após um acidente em uma escola pública, a elite do local decide dar como prêmio três bolsas de estudo para alunos mais pobres. Samuel, Nadia e Christian são os três alunos consagrados, que logo se tornam foco da atenção dos jovens mais mimados do colégio. A série mescla o dia a dia do colégio com flashforwards de vários dos alunos dando depoimentos para a investigação de um homicídio.

A série foi adicionada internacionalmente ao catálogo da Netflix no Natal de 2017. A veiculação foi um sucesso tão grandioso para a plataforma que, posteriormente, foi adicionada uma segunda temporada e já confirmada uma terceira para 2019.

Disponibilizada na plataforma Netflix em 2015, Narcos conta atualmente com três temporadas e duas indicações ao Globo de Ouro em “Melhor Ator em Série Dramática” e “Melhor Série de Televisão - Drama”.

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A plataforma divulgou recentemente em sua conta no Instagram a confirmação de uma continuação.


na calçada da fama... Seria essa novidade um motivo para surgir uma ruga de preocupação na testa de Hollywood?

enredos cada vez mais inéditos, com tramas carregadas de diálogos bem fundamentados e cenários ainda não explorados. Esses novos entrantes no mundo cinematográfico nos fazem questionar sobre o antigo domínio “Hollywoodiano” nas produções. Portanto, listamos algumas séries que tem feito muito sucesso na Netflix para que, você que ainda não saiu da caixinha, possa integrar esse novo time de admiradores de obras estrangeiras:

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AS TELEFONISTAS

DARK

3%

Las Chicas del Cable, ou popularmente conhecida no Brasil como As Telefonistas, é uma série espanhola, distribuída internacionalmente pela Netflix. A trama desenrola-se através da narração da vida de quatro jovens mulheres que, em 1929, se deslocam de diferentes partes da Espanha para trabalhar em Madrid como “garotas do cabo” (operadoras de telefonia). No único lugar que representa progresso e modernidade para as mulheres da época, elas aprendem a lidar com inveja e traição, enquanto embarcam em uma jornada em busca do sucesso.

Conhecida como “a série mais complicada da Netflix”, Dark é uma produção alemã, tendo sido a pioneira na plataforma, lançada mundialmente em dezembro de 2017. O desaparecimento de duas crianças em uma cidade da Alemanha traz luzes às relações fraturadas, vidas duplas e o passado de quatro famílias que lá vivem. Aborda o tema de viagens no tempo e, principalmente, o entrelaçamento temporal; onde passado, presente e futuro se conectam.

Sendo a primeira produção brasileira desenvolvida para a Netflix, 3% apresenta um mundo pós-apocalíptico que, após diversas crises que deixaram o planeta devastado, o Brasil tornou-se um país miserável, decadente, onde faltam recursos como água, comida e energia. Ao completar os 20 anos de idade, todo cidadão tem direito de participar de uma seleção que oferece uma única chance de passar para um lugar chamado Maralto, onde há abundancia de recursos e oportunidades. No entanto, essa seleção testa os limites dos participantes em provas físicas e psicológicas, e os coloca diante de dilemas morais.

A série encontra-se presente no catálogo da plataforma com vinte e quatro episódios distribuídos em três temporadas, com duração de cerca de cinquenta minutos cada.

Distribuída em dez episódios na primeira temporada, a série requer sua total atenção, e muitas das vezes sendo necessário assisti-la mais de uma vez por conta de sua complexidade. Uma segunda temporada foi confirmada, com previsão para 2019.

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A série conta com duas temporadas já disponíveis, totalizando dezoito episódios.


A P C

A

a hora e a vez de Com seis anos de carreira e mais conhecido do que nunca, o cantor capixaba parece ter chegado a uma questĂŁo central em sua vida: como ĂŠ possĂ­vel ser si mesmo e famoso ao mesmo tempo?

Fotos: Jonathan Wolpert

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“Gente, quem é esse?” é a pergunta mais

repetida ao fim de um show do cantor capixaba Silva no fim de junho em São Paulo. Mas não por falta de conhecimento em relação a ele. Todos os curiosos presentes ali no camarim são seus familiares, amigos e colegas. Todos acostumados a, nos últimos seis anos, ver o rapaz tímido de voz bonita subir no palco, cantar, agradecer e ir embora. Por isso a surpresa ao vê-lo naquela noite tão falante, solto e bem-humorado, dominando com tiradas e histórias uma apresentação de quase duas horas da turnê de seu disco mais recente, Brasileiro. Não era possível que aquele fosse o Silva que conhecemos. Mas é. “Pela primeira vez na vida estou muito seguro do que estou fazendo”, diz o músico de Vitória durante um almoço, semanas antes, com a GQ. “Estou vivendo a melhor fase da minha vida, em todos os sentidos: família, relacionamento, profissional, tudo. Quero levar a coisa assim desse jeito, sem planejar muito. Antes eu tinha uma insegurança muito grande. Quando entrava no palco ou dava uma entrevista, ficava me policiando, pensando se podia falar tal coisa ou não. Agora eu já achei o jeito que eu sou. Vou ser assim, vou falar as coisas que eu penso”. O que Silva (ou Lúcio, para os mais próximos) pensa é causa e efeito de algumas mudanças recentes em sua vida. Da meditação às novas amizades, passando pela chegada dos 30 anos e por relacionamentos mais estáveis, o músico consegue, segundo ele mesmo, se enxergar melhor agora. E a mais visível dessas diferenças para nós, que o chamamos de Silva, é musical.

Foto: Jonathan Wolpert

Brasileiro

“Quando comecei, todos os sites de música indie me amavam”, lembra. Eu nunca me enxerguei assim, mas a galera mais cool me abraçou. Só que essa galera gosta de música igual a galera da moda gosta de moda: a cada seis meses muda o estilo, a coleção, a tendência e você tem que mudar também. Eu não vou ficar nessa, fazendo música pra jornalista, pra ganhar prêmio. Quero fazer show, quero tocar por aí, quero ter público, quero que as pessoas gostem da minha música e cantem comigo.”

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O tom é de brincadeira, mas o discurso é de certa forma radical e a mudança também. Silva pode até ter ganhado o carimbo de “nova MPB” com o pop sintético brasuca apresentado em Claridão, de 2012, mas hoje esse primeiro álbum é visto por ele como “muito gringo” e recheado das influências de música eletrônica acumuladas na época em que foi músico de rua na Irlanda - para onde se mudou aos 21 anos a fim de aprender inglês. “Mesmo o Júpiter, que é só de três anos atrás, é completamente diferente. Enjoei dele”, diz. Não à toa foi apenas agora, com Brasileiro, um álbum inspirado em João Gilberto e Darcy Ribeiro, calcado na voz e no violão e com faixas que vão da bossa ao samba (mas com um sintetizador aqui e outro ali), que ele assumiu o rótulo de vez. “Outro dia um motorista do Uber viu meu violão e me perguntou o que eu toco. Falei: ‘é MPB’. Ele disse: ‘tipo Ana Carolina?’ E eu respondi: ‘tipo Ana Carolina!’” A nova fase musical é a deixa para abraçar esse novo público - Silva está feliz com as “cabecinhas

Feliz e Ponto

Foto: Jonathan Wolpert

Foi com muita terapia, além das amizades, que Silva aprendeu a definir o que é esse jeito e a se sentir confortável para tratar pessoal e profissionalmente de temas como sua própria sexualidade. Hoje, ele brinca ao falar com naturalidade que se fosse hétero casaria com Marisa (e quem não?) e que frequenta “de boa” a casa evangélica da família com o namorado Fernando. “Foi um processo”, reconhece. “É uma desconstrução que você faz com respeito. Você não vai mudar uma pessoa preconceituosa no grito. Acho que a arte tem esse efeito de ir pela beirada, de conquistar. Meu pai, quando viu o clipe de Feliz e Ponto [de 2015, em que Silva aparece pegando um cara e uma garota ao mesmo tempo] ficou um mês sem falar 12

brancas” que começam a aparecer em seus shows - e também uma nova forma de encarar a vida. De família de músicos protestantes, foi “criado pela avó”, na igreja, participou do coral e estudou música erudita. Largou tudo e mergulhou na eletrônica, mas sempre teve no violão um amigo de infância e uma forma de conexão com um passado musical confortável. “Na minha casa, essa parte da MPB mais clássica, tipo um João Gilberto, era permitida”, lembra. “Mas na hora que chegava Caetano, Gil, Gal, era aquilo: é macumba, terreiro. Rolava uma proibição. Mesmo assim meu avô, que era pastor, foi um dos maiores incentivadores da minha vida musical. Ele comprou meu violino, pegava um ônibus e ia até Belo Horizonte comigo só pra eu poder estudar. A gente pegava oito horas de viagem pra ter uma hora de aula de violino. Tenho uma relação muito boa com isso. No começo chutei o balde, fiquei meio revoltadinho com esse negócio de igreja, mas tem tanta coisa boa que veio desse lado.”

comigo. Falou que estava super chateado, pediu para eu não me expor, meio com vergonha. Hoje ele é um cara completamente diferente.” A conexão com a família reflete no trabalho. Os irmãos cuidam da carreira de Silva. Lucília, dois anos mais velha, fica com a produção dos shows, enquanto Lucas, seis a mais, é o responsável pelas finanças - e pela maior parte das letras. “Ele me complementa”, diz o caçula. “Eu gosto de cantar as coisas que ele escreve, porque ele me conhece muito bem, sabe exatamente o que caberia na minha boca, o que estou vivendo. Mas ele ganha 50% de tudo, né? Ele é meu sócio e isso é bom também, porque daí ele não faz corpo mole”, brinca.


De Marisa a Anitta

Além da família, o mergulho na música brasileira veio também muito graças a algumas das amizades que o músico fez nos últimos anos. Uma delas em especial. Silva é um dos poucos seres humanos neste planeta que têm o privilégio de serem amigos próximos de Marisa Monte. Tudo começou quando ele escolheu a cantora para interpretar no programa Versões, do Canal Bis, em que jovens músicos cantam clássicos de décadas passadas. “Não sei como, mas ela soube que eu fiz isso e me mandou um e-mail dizendo ‘Ei, Sil, tudo bem? Te acompanho desde o começo.

No meio fio

Com o trabalho e a vida pessoal azeitados, o Silva que conta quase sua vida inteira no intervalo de um almoço não parece sofrer tanto das questões mundanas - aquelas que nos levam à terapia. É quase possível perceber nele uma aflição diferente, subliminar, uma dúvida comum às pessoas que vivem da arte e se chocam com a fama: como ganhar o mundo sendo a mesma pessoa de sempre? “Não sei se tenho mais vontade ou medo”, diz sobre a possibilidade de virar alguém muito famoso. “Tenho várias pessoas na minha vida que sumiram, desapareceram, principalmente depois dessa coisa da Anitta. Acho que me viram indo para outro lado. Isso rola no meio musical. Cansei disso, quero fazer música que emocione as pessoas. Gosto de não ter vergonha de fazer uma música bonita.” Todo o resto mudou. Silva agora escolhe suas roupas para os shows baseado nas cores - “cansei do preto e branco” -, abraçou novos gêneros, parou de fumar cigarro, medita, passa horas estudando música e responde ironicamente aos xavecos que recebe ao vivo entre uma música e outra em cima do palco. Ao

Muito obrigada pela homenagem, fiquei muito emocionada, muito feliz. Quando vier ao Rio, me escreve, aqui meu WhatsApp’. Eu surtei”, conta entre risos nervosos. “A gente é completamente diferente, tipo água e vinho”, conta Silva sobre Anitta. “Ela é ariana e eu canceriano. Ela é ligada no 220 o tempo inteiro e eu super tranquilo, maconheiro. Mas o que pegou foi que eu mandei a música pra ela, ela ouviu, gostou e já me mandou mensagem na hora. A gente nunca tinha se falado e semanas depois estávamos gravando o clipe juntos. Porra, eu tô acostumado com o meio indie,

mando música para os amigos e eles demoram semanas só pra dizer que acharam tal acorde muito simples”, ri. Nessa soma de Marisa com Anitta, Silva parece ter chegado a uma consciência plena de seu infinito particular em meio ao universo musical. “Adotei essa coisa de não se levar muito a sério”, confessa. “Estou tentando ser bem de verdade. Se deixar, você vai ficando meio fabricadinho. Não posso falar isso, não posso fazer aquilo. ‘Você não pode ser tímido.’ Por que não? Deixa eu ser tímido. Deixa eu ser do meu jeito.”

mesmo tempo, as músicas bonitas estão lá, ele continua gostando de pastel, arroz, feijão e se sentindo cada vez mais ele mesmo. O que nos leva à questão inicial: quem é esse, afinal? “Eu quero ser um músico foda”, crava. “Todo mundo tem suas ambições. A Anitta vai ganhar o mundo. Tem gente que quer tocar pro Maracanã lotado. E eu quero ser um músico bom. Tipo, tocar pra caramba, cantar pra caramba, fazer uma música incrível. Essa é a vontade que eu tenho. Se isso vier junto com ganhar o mundo e tocar no Maracanã lotado, não vou reclamar.” Todo o resto mudou. Silva agora escolhe suas roupas para os shows baseado nas cores - “cansei do preto e branco” -, abraçou novos gêneros, parou de fumar cigarro, medita, passa horas estudando música e responde ironicamente aos xavecos que recebe ao vivo entre uma música e outra em cima do palco. Ao mesmo tempo, as músicas bonitas estão lá, ele continua gostando de pastel, arroz, feijão e se sentindo cada vez mais ele mesmo. O que nos leva à questão inicial: quem é esse, afinal? “Eu quero ser um músico foda”,

crava. “Todo mundo tem suas ambições. A Anitta vai ganhar o mundo. Tem gente que quer tocar pro Maracanã lotado. E eu quero ser um músico bom. Tipo, tocar pra caramba, cantar pra caramba, fazer uma música incrível. Essa é a vontade que eu tenho. Se isso vier junto com ganhar o mundo e tocar no Maracanã lotado, não vou reclamar.”

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Foto: Breno Galtier


Em busca do Respeitável

Prêmio

Representante nacional na corrida ao Oscar, O Grande Circo Místico anseia pela torcida brasileira pós-estreia

1910. Cinco Gerações. Cinco Copas do Mundo para o Brasil. Duas Grandes Guerras. Dois cometas Harley. Um circo. O Grande Circo Místico acompanha a mágica transição de gerações da família Knieps, austríacos proprietários do anunciado circo, ao longo de 100 anos; o combustível não poderia ser outro senão o amor entre um aristocrata e uma acrobata - além do elemento fantástico personificado na imagem de Jesuíta Barbosa, o mestre de cerimônias que não envelhece. Baseado em poema homônimo de Jorge Lima, traz canções de Chico Buarque e Edu Lobo, que já narraram a trama em forma de musical na década de 1980. Não é pouca coisa!

homenageado - além de seus filmes não serem incomuns no prêmio francês, Cacá presidiu o júri da Palma de Ouro em 2012. E foi ali que O Grande Circo debutou. O nome tam-

Quem assina? O gigante, Cacá Diegues (dir). Mestre de títulos como Bye Bye, Brasil (1980) e Xica da Silva (1976), à Cacá criou-se em Cannes deste ano sessão especial, no honroso posto de

bém abriu o nosso Festival de Gramado, porém o holofote veio com a indicação para representante brasileiro na corrida pelo Oscar de Melhor Filme De Língua Estrangeira: tendo concorrido contra 21 títulos, agora espera por uma das cinco vagas para o homem dourado estadunidense. O poderoso elenco encabeça nomes como o de Bruna Linzmeyer (esq.), Mariana Ximenes, Antônio Fagundes e Juliano Cazarré. Filmado em Lisboa no ano de 2015, é uma coprodução partilhada com os lusitanos e franceses, mar14


cada pela presença do mítico Vincent Cassel. Quanto a indicação, um entusiasmado Diegues compartilha. “É bom para o próprio filme, que repercute. E também bom para o cinema de onde o filme veio, porque as pessoas começam a falar sobre o cinema brasileiro”. Porém, torna-se difícil ceder torcida a algo que ainda não se viu. O filme ainda não foi lançado nas redes de cinema, fez-se presente apenas em festivais - muitos dos quais possuem como requisito a não exibição nas telonas. Mas a maneira como esse tipo de produção costuma ser distribuída nas salas do país é injusta tanto para a obra quanto para quem anseia participar, ao menos um

pouco, da corrida. O histórico não mente - Aquarius (2016) e Bingo, O Rei das Manhãs (2017) são apena uma mostra. Bons filmes nacionais, reflexivos ou não, históricos e fictícios, segregados à parcelas sociais de maior acessibilidade. O motivo? Cabe investigação, mas certamente vai além de estudo de público-alvo, demanda e outras variáveis - assunto para uma outra edição. Mantendo o pensamento continuamente positivo, lhes aviso: os indicados ao Oscar serão anunciados no dia 22 de janeiro. E o que fazer até lá, respeitável público? Aguardar a abertura das portas do Grande Circo Místico, 11 de novembro nos cinemas, esperamos que em salas próximos a você.

De cima para baixo: Jesuíta Barbosa, Mariana Ximenes, Vincent Cassel (esq.) e Juliano Cazarré (dir.)

ESQUEÇA OS ESTEREÓTIPOS Confira alguns de nossos representantes mais reconhecidos pelo exterior

O PAGADOR DE PROMESSAS (1962), Anselmo Duarte Nosso único vencedor da Palma de Ouro de Cannes, é um clássico crítico daquilo que não se discute - política e religião. Também concorreu ao Oscar como Melhor Estrangeiro, levado, mais uma vez, pelos franceses.

CIDADE DE DEUS (2003), Fernando Meirelles A mostra da favela carioca venceu mais de 50 prêmios em todo o mundo - indicado ao Oscar, Globo de Ouro e ao BAFTA, o Oscar britânico. Foi considerado pela revista britânica Empire, em 2009, como o 7° dos 100 melhores filmes do cinema mundial.

CENTRAL DO BRASIL (1998), Walter Salles O consagrado carrega duas indicações ao Oscar, incluindo a polêmica vitória de Gwyneth Paltrow sobre Fernanda Montenegro. Mas não precisamos disso! Ao todo, foram mais de 30 prêmios internacionais - Globo de Ouro, BAFTA, Berlim, pode escolher!

EU SEI QUE VOU TE AMAR (1986), Arnaldo Jabor E filha de peixe, peixinho é: nos passos da mãe Montenegro, Fernanda Torres foi eleita melhor atriz em Cannes, 1986, com apenas 20 anos - feito que só se repetiu duas décadas depois, com Sandra Corveloni. O longa também foi indicado à Palma de Ouro. 15


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1) CLUBE DA ANITTINHA: Que

Anitta faz sucesso dentre os pequenos é um fato desde O Show das Poderosas, mas a própria já declarou que nunca criou conteúdo considerando esse segmento; porém, se preocupando com seu público espontâneo, Anitta teve a iniciativa de criar o desenho – recheado de músicas autorais, com lições morais em cada episódio, dublado pela própria cantora. Arrasou, malandra!! 2) A STAR IS BORN: Mesmo não sendo novidade ver Lady Gaga atuando (ela tem um Globo de Ouro na estante), o musical gera buzz desde o anúncio de sua produção. Gaga viverá uma cantora em ascenção que será apoiada pelo famoso interpretado por Bradley Cooper – porém tudo indica que a parceria não será um mar de flores. Já dá pra sentir o cheirinho de Oscar, @? 3) PINK IN RIO: O Rock in Rio, já começou a divulgar seus convidados para o ano que vem; nomes como Black Eyed Peas e Anitta foram confirmados, mas quem mexeu com a galera mesmo foi a Pink – é a primeira vez que a americana virá ao nosso país! What About Us, Raise your glass, So What, Just Give Me a Reason… Nos conte qual seu hit favorito da diva em #PeePop! 4) BOHEMIAN RHAPSODY: 2018 é o ano do filme que muita gente não sabia que precisava, até assistir o trailer. O longa acompanhará a banda Queen desde sua fundação aos pesados problemas enfrentados – e não poderia ser feito de outra maneira senão empurrando os holotes em Freddy Mercury (Rami Malek), uma das personalidades mais icônicas dos últimos séculos. 5) NÃO PARA NÃO: seguindo à risca o título de seu novo álbum, Pablo Vittar promete um leque de hits a estourar nos próximos meses - começando com Problema Seu, já passamos para a poderosa Disk Me. O diferencial? Cada faixa parece ter não um, mas vários gêneros musicais. Não podemos deixar de citar as parcerias: Ludmilla e Dilsinho. 6) HERÓI BRASILEIRO: O Doutrinador é a rimeira promessa de filme heróico nacional, adaptado da HQ iniciada em 2008. O tema? Um vigilante mascarado resolve acertar as contas com políticos e donos de empreiteiras. Polêmico e atual o bastante, não? Mas a questão agora é: vai ser hit ou é indie?

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Quer colaborar com a próxima edição? Esperamos você na #LínguadoPee, no Twitter!

P Onde você se faz ouvir, onde você se faz ver. Na Pee, não é só a gente que fala - todo mundo também escuta você.

Língua do

@reuripoti: eu acho que todo

@inimigosdaepson: #Lín-

mundo tem uma obrigação na vida que é ler “O mau exemplo de Cameron Post”. E vai sair o filme, corre #LínguadoPee

guaDoPee Fala dos anjos da UM44k! Começaram no YT e agora lançaram single com Matheus & Kauan. Indiezinhos, porém depende?

@marginalinfluencer: obg

ícones por me apresentar à fada Hayley Kyoko, o álbum tá aqui ó, não sai do repeat. Esperando meu novo vício, só manda #LínguaDoPee

@lucaju: Ferrugem não é só o

@johsnu634: um salve pras mina! #LínguaDoPee pra todas que tao precisando de um pouco de apoio e poesia, “Outros Jeitos de Usar a boca” se faz necessário

cantor, tem um filme br que tá prometendo e fala de redes sociais, galera compartilhando coisa q não é legal. Abre o olho dessa gnt #LínguaDoPee

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Profile for Gabriela Siqueira

Revista Pee  

Projeto elaborado para uma Atividade Prática Supervisionada para a disciplina Diagramação Digital, do curso de Publicidade e Propaganda da i...

Revista Pee  

Projeto elaborado para uma Atividade Prática Supervisionada para a disciplina Diagramação Digital, do curso de Publicidade e Propaganda da i...

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