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A Experiência Mística Para alcançar a verdadeira experiência mística, precisamos enfrentar vários desafios, como desenvolver a disciplina espiritual e nos livrarmos das preocupações em relação ao mundo exterior. Por Carlos Cardoso Aveline O sentimento místico já foi definido como a experiência imediata de unidade com a realidade última. A verdade é que o fato não pode ser descrito com palavras. Tampouco pode ser encontrado através apenas da mente, nem se praticando rituais, usando técnicas complicadas ou obedecendo a uma disciplina espiritual meramente externa. A experiência mística não acontece por encomenda nem com hora marcada. Ela é um abandono interior de todo o mundo pessoal do buscador. Ela é, também, a livre e humilde colocação de toda a existência individual aos pés de uma realidade maior. Mergulhando na contemplação, o praticante deixa de lado o processo do pensamento. Ele sente um amor tão forte pelo que é sagrado e divino que esquece completamente de si mesmo. Desse modo, o místico vai além da mera aparência. O anonimato interior é essencial em sua experiência. Percebendo que não é ninguém, ele compreende realmente os outros. Aceitando que não é nada, ele percebe a essência comum a todas as coisas. Ele põe em prática direta na sua vida o que as escrituras religiosas ensinam. A sua sinceridade radical, no entanto, pode ser considerada perigosa para as práticas de poder de mais de uma liderança religiosa. A experiência mística raramente toma a forma de algum fenômeno extraordinário, e quase sempre coexiste com a consciência prática do mundo externo. Às vezes ela é uma sensação de acompanhamento interior, um sentimento amoroso sem objeto visível, uma impressão de que somos muito pequenos, mas fazemos parte de um círculo de amor infinito. A sensação mística costuma acompanhar e inspirar as pessoas de bom coração. Ela ilumina suas vidas e torna menos importantes seus sofrimentos; e para fazer isso não tem necessidade de provocar visões ou audições maravilhosas. Aliás, fatos exóticos como esses são, na maior parte dos casos, frutos de uma imaginação acelerada. É perfeitamente possível ter acesso a percepções intuitivas na calma do nosso coração e sem dispersar energia com imagens espetaculares. Esse caminho, mais modesto, é também mais seguro. A percepção mística ilumina a mente a partir do nosso interior, lançando luz entre um pensamento e outro, entre um sentimento e outro. Essa ampliação misteriosa da consciência torna os pensamentos mais claros e os sentimentos mais verdadeiros. A partir da experiência mística, o buscador da verdade olha o mundo externo e as instituições humanas com outros olhos e como se visse tudo pela primeira vez. É então que ele começa a ser perigoso para as estruturas que se baseiam nas aparências. A lógica de um místico é diferente, mais autêntica, e ele corre o risco de contrariar os costumes estabelecidos. Nem sempre ele percebe os jogos de cortesia que governam a vida social e são tão importantes mesmo nos meios religiosos e espirituais. Parece menos inteligente do que os que o rodeiam, e cai em truques primários. O que torna as coisas difíceis para ele é que sua inteligência funciona de modo diferente, porque é espiritual. Para o astuto, que sofre de miopia e não consegue ver as situações mais amplas, o místico não passa de um retardado. É devido à necessidade de prudência diante desse perigo que as tradições internas de todas as religiões recomendam aos buscadores da verdade a prática do silêncio. Deixar de lado os interesses egocêntricos e abrir a porta que conecta com a alma imortal é um fato potencialmente explosivo. Os desafios são tantos que grande parte dos místicos prefere afastar-se da vida social. Porém, a revolução interior que eles atravessam é suficiente para questionar as estruturas da vida convencional. O Novo Testamento narra a história de um santo e sábio - Jesus Cristo - que contrariou a maneira de pensar do seu tempo. São Francisco de Assis não raciocinava de acordo com as conveniências políticas de curto prazo e, apesar da sua cautela, as dificuldades que enfrentou dentro da Igreja católica não foram poucas. Martinho Lutero não teve, inicialmente, intenção de provocar uma divisão no mundo católico, mas foi obrigado a isso por

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ser duramente perseguido pelo Vaticano. O luso-brasileiro Antônio Vieira foi encarcerado pela Inquisição. São João da Cruz foi preso e espancado quase até a morte durante cerca de oito meses pelos seus irmãos religiosos, os carmelitas, na Espanha, até fugir da prisão. Inúmeros místicos católicos e protestantes foram acusados do ''crime'' de pensar por si próprios, perseguidos, encarcerados e, em alguns casos, mortos. Já no final do século 20, o Vaticano também perseguiu o brasileiro Leonardo Boff e vários outros teólogos da libertação. Ao longo dos séculos, a repressão sutil ou violenta das experiências místicas serviu para condicionar e acomodar as experiências religiosas dentro de moldes estreitos. A Igreja era amplamente controlada por rituais e crenças cegas. Só nas últimas décadas as igrejas cristãs começaram a modernizar-se e já experimentam, no início do século 21, uma abertura maior para o ecumenismo, para o diálogo inter-religioso e o intercâmbio de pontos de vista com a ciência moderna. Esta nova era de liberdade e autenticidade do indivíduo avança junto com a decadência dos rituais e do fanatismo. Assim se abre espaço para a democratização da experiência mística. Um dos maiores best sellers de todos os tempos da literatura religiosa no Ocidente, a obra Imitação de Cristo, de Tomás de Kempis, é um notável exemplo da tradução mística cristã. Tomás de Kempis era amigo e seguidor de Gerhard Groote, o místico alemão do século 14 que fundou a congregação Irmãos da Vida Comum. Corajoso, Groote criticava, em suas pregações, os religiosos que cediam à preguiça ou rompiam seus votos sagrados. Não se pode dizer que seus discursos não provocaram resultado concreto algum, porque, como conseqüência deles, Groote foi proibido de dar sermões. O castigo durou até o final da sua vida, o que comprova que os místicos podem ser considerados bastante incômodos, quando começam a dizer o que pensam. Fiel expressão dos ideais de Groote, Imitação de Cristo ensina a confiar em si mesmo: ''É fácil estar contente e sossegado, tendo a consciência pura. Não és mais santo porque te louvam, nem mais ruim porque te censuram.(...) Se considerares o que és em teu interior, não farás caso do que te dizem os homens. O homem vê o rosto, Deus vê o coração. O homem nota os atos, mas Deus pesa as intenções. Proceder sempre bem e ter-se em pequena conta é indício de uma alma humilde. Rejeitar toda satisfação vinda das criaturas é sinal de grande pureza e confiança interior.(1) A disciplina espiritual e o abandono das preocupações pessoais em relação ao mundo externo são a chave para a obtenção da felicidade interior e a elevação mística. Isso não significa afastar-se fisicamente do mundo, mas sim abandonar, no plano psicológico, a agitação e a ansiedade causadas pela ambição e pelo desejo. A saída está no recolhimento interior: "Muitos há que desejam a vida contemplativa, mas não tratam de exercitar-se nas coisas que ela exige. O grande obstáculo é que eles se detêm nos sinais e coisas externos, cuidando pouco do perfeito recolhimento. Não sei o que é, nem que espírito nos move, nem que pretendemos nós, que passamos por homens espirituais, quando empregamos tanto trabalho e cuidado nas coisas vis e transitórias, ao passo que raras vezes nos recolhemos plenamente a considerar nosso interior (...). Depois de curto recolhimento, logo nos dissipamos, sem ponderar nossas ações em rigoroso exame."(2) Uma vez que deixamos de lado as coisas superficiais, aparentemente urgentes mas no fundo inúteis, surge a possibilidade do amor altruísta e da verdadeira devoção: "O amor de Jesus é generoso, inspira grandes ações e nos leva sempre à mais alta perfeição. O amor tende sempre para as alturas e não se deixa prender pelas coisas inferiores. (...) Nada mais doce do que o amor, nada mais forte, nada mais sublime, nada mais amplo, nada mais delicioso, nada mais perfeito ou melhor no céu e na Terra; porque o amor procede de Deus, e só em Deus pode descansar, acima de todas as criaturas. Quem ama voa, corre, vive alegre, é livre e sem embaraço. Dá tudo por tudo e possui tudo em todas as coisas, porque sobre todas as coisas descansa no supremo bem, do qual surgem e procedem todos os bens.

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(...) O amor muitas vezes não conhece limites, mas seu ardor excede a toda medida. O amor não sente peso, não faz caso das fadigas e quer empreender mais do que pode, não se desculpa com a impossibilidade, pois tudo lhe parece lícito e possível. Por isso é capaz de tudo e realiza obras, enquanto aquele que não ama desfalece e cai."(3) No século 17, o espanhol Miguel de Molinos retomou a tradição mística de Gerhard Groote, de São João da Cruz e Santa Teresa d´Ávila. Ele ensinava em Roma, com grande sucesso, maneiras práticas de experimentar a contemplação. Surgia assim o quietismo. Em 1675, Molinos publicou seu livro Guia Espiritual. O sucesso da obra foi muito grande, mas a popularidade de Molinos passou a ser vista como perigosa. O contato direto com Deus - que ele colocava ao alcance de todos - era algo perigoso, porque tornava desnecessária a burocracia ritualista controlada pelos cardeais. Em 1685, Molinos é preso. Com medo da popularidade do místico e por falta de argumentos teológicos, os acusadores da Inquisição inventaram algumas acusações contra seu caráter e sua conduta. Molinos foi condenado à prisão perpétua e morreu nos cárceres do Vaticano, em dezembro de 1696. Notas (1) Imitação 2000. Veja a (2) Imitação (3) Imitação

de p. de de

Cristo, Tomás de Kempis, Ed. Vozes, Petrópolis, RJ, 33ª edição, 77. Cristo, obra citada, p. 157. Cristo, obra citada, p. 106.

A Experiência Mística Molinos democratiza a experiência da divindade, mas não aponta um caminho fácil. Para ele, é muito comum que durante longo tempo ocorra uma verdadeira guerra no recolhimento interior. De um lado, a energia divina deixa o praticante sozinho, aparentemente abandonado, para testá-lo, para torná-lo mais humilde e purificálo. De outro lado, a natureza física, que é inimiga do espírito, fica frouxa, melancólica, cheia de tédio e sente um inferno em todos os exercícios espirituais, pelo fato de estar privada das sensações físicas externas. O eu emocional tem vontade de terminar logo a meditação "pela incomodidade dos pensamentos, pelo cansaço do corpo, pelo sono fora de hora e por não poder refrear os sentidos, cada um dos quais gostaria de seguir os seus próprios impulsos. Feliz de você se, em meio a esse martírio, perseverar."(4) Passado o período de provação, os desejos inferiores se acalmam, a consciência fica serena, o praticante consegue concentrar-se com facilidade nos temas divinos e o despertar espiritual começa. Molinos descreveu o momento do mistério: "A oração (...) é uma elevação da mente a Deus. E para colocar a mente em Deus, que é a contemplação, é necessário deixar as considerações e discursos, mesmo elevados, que constituem a meditação. Esta, dizem os santos, busca, expõe, rumina ou mastiga o alimento divino. E, se estamos sempre mastigando ou ruminando a comida na boca e nunca engolimos para sossegá-la e dirigi-la com quietude no estômago, não poderemos viver, nem sustentar-nos, ou tirar proveito algum. A meditação também é um meio para chegar ao término e ao fim, que é a contemplação. A contemplação é encontrar a coisa, é saborear e sossegar o alimento divino no estômago, é o fim e a conclusão do caminho, e é chegar a entender e conhecer Deus."(5) Há, no entanto, numerosos desafios por enfrentar antes de obter essa plenitude da experiência mística. Um deles é a necessidade de discernir o que é essencial e o que é secundário. Em pleno século 20, o jesuíta indiano Anthony de Mello (1931-1987) contou que, em certo país, um aluno venerava o mestre com um forte exagero de devoção pessoal. Um dia o mestre cortou-lhe o caminho mais cômodo ao dizer: "Quando a luz se reflete sobre um muro, não tente venerar o muro iluminado, e sim a luz que o ilumina!" É possível que o aluno tenha ficado decepcionado. Afinal, é bem mais fácil adorar uma pessoa do que perceber a verdade universal. A longo prazo, porém, a segurança do caminhante está precisamente em não andar de muletas. Errar é humano, aprender com os erros é sábio, e adorar cegamente algo ou alguém é coisa de criança.

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Há alguns anos, obtive uma prova de que, como todo místico autêntico, Anthony de Mello também precisou enfrentar a sua cota de perseguições. Em dezembro de 1999, eu viajava para Lima, no Peru, quando encontrei uma das suas obras na livraria do aeroporto de Santiago do Chile, onde fazia escala. Ao abrir um exemplar de La Oración de la Rana ("A Oração da Rã"), vi que havia, anexo, um panfleto. Era uma longa "advertência" assinada pelo cardeal Joseph Ratzinger, o polêmico diretor da Congregação Para a Doutrina da Fé, sucessora moderna da antiga Inquisição. Felizmente, a velha fogueira foi substituída por métodos mais sutis: no documento, com linguagem equilibrada e elegante, o cardeal Ratzinger desaconselhava os católicos ortodoxos a ler os livros de Anthony de Mello, porque eles estabelecem um diálogo inter-religioso e ecumênico que não é interessante para os setores mais conservadores do Vaticano.(6) As livrarias chilenas eram, assim, obrigadas a vender um livro anexando a ele um documento com forte sabor medieval, segundo o qual a leitura da obra era desaconselhável. No fundo, o mais perigoso para as ortodoxias é que as pessoas pensem por si mesmas. Felizmente, a tendência à autonomia é inevitável. O sentimento democrático se espalha pelos movimentos religiosos, e já parece crescer até mesmo no Vaticano a influência dos setores abertos à mudança. Em todo o mundo, milhões de pessoas definem com total liberdade os limites da sua fé, aproveitam o melhor de cada religião e filosofia, vivendo suas experiências místicas de modo livre e solidário. Ao mesmo tempo, as instituições aprendem a ser mais flexíveis. A experiência mística está no centro de todo processo religioso. Ela renova o coração humano a cada instante. Dá ânimo para trabalhar pela manhã cedo e à noite afasta o cansaço do fim do dia. Dá coragem para começar a vida na juventude e, na velhice, transmite a paz indescritível da missão cumprida. Dá autoconfiança durante o sofrimento e humildade nos momentos de vitória, sossego na doença e prudência quando tudo parece fácil. A experiência mística permite ouvir no silêncio da mente aquilo que não foi pronunciado, dizer com pensamento sereno mensagens de luz que não necessitam de som, e ver, com os olhos fechados, as coisas de fato essenciais. Permite saber, com a ajuda precisa de um coração em paz, o que está além do mundo instável dos desejos e pensamentos. Torna possível amar com a calma da verdade as coisas que ainda não foram amadas em seu mundo pessoal. Dá instrumentos para estabilizar-se no centro da dança perfeita das coisas do universo, que vão e vêm ilimitadamente, e permite levantar um belo vôo solto na luz da eternidade, enquanto mantemos os pés firmes colocados no chão.

Notas (4) Guia Espiritual, Miguel de Molinos, Alianza Editorial, Madri, 1989. Ver p. 66 (5) Defensa de la Contemplación, Miguel de Molinos, Fundación Universitaria Española y Universidad Pontificia de Salamanca, Madri, 1988. Ver p. 75. (6) A primeira citação é do livro Sabedoria de Um Minuto, Anthony de Mello, s. j., Edições Loyola. Ver p. 39 . A excelente obra de Anthony de Mello comprada no Chile é La Oración de La Rana, Ed. Sal Terrae, 1988. Cantabria, Espanha. A "advertência" de Joseph Ratzinger, que circula junto com o livro, é de junho de 1998.

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A_Experincia_Mstica