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Espelho Meu

diz-me quem sou

Ă“scar Mendes


Título

Espelho Meu, diz-me quem sou

Autor

Óscar Mendes

Edição Revisão

Ilustrações e Paginação

Miguel Almeida Santos masantospr@gmail.com David Miguel Lopes davidmiguelsantos@hotmail.com

André Santos gruvless@gmail.com

1ª Edição - Dezembro 2008 Reservados todos os direitos de acordo com a legislação em vigor


ÍNDICE o meu eu

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as mulheres

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Eu sou de nenhum lugar, e tu? enigma amor e religião 24 horas número 13 só a arte de estar só acordar para o mundo ser só aquilo que os outros vêm

a mulher perfeita a mulher que não quis conhecer a primeira vez que te vi hoje quando te vi dá-me as palavras os dois o encontro loios banco de jardim tenho uma pergunta a fazer sabes o que quero ama-me ou vai embora quero sentir aquilo que não é meu só te amo quando estás longe sensações beijos assombrosos Deixa-te sentir a vida passar por ti ela não te deixa Paixão eterna boulevard lua, a minha amante na noite A noite de todas as conclusões tira-me deste lugar a voz do imaginário


os elementos

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os outros

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cenoura laranja laranja amarga o moscatel cacto cor azul uma onda vela o pintor o quadro um sonho com cor o poeta a obra pedra alta Pedra cinzenta de xisto, onde estás? A minha pedra tem o teu nome o silêncio do ruído

eles os dois sentir os outros o psicólogo a terapeuta da fala palavras estou triste gostava, mas não consigo a razão de ser-se estúpido o cansaço de viver o guerreiro cobarde dor 37 graus acabou sensação de liberdade

conclusão dedicatória

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PREFÁCIO Contos, devaneios e histórias, com e de mulheres, sem um fim. Obriga o leitor a chegar às suas próprias conclusões, utilizando para isso as suas crenças, preconceitos e experiências de vida. Este livro liga o autor ao leitor e convida-o a aventurar-se numa jornada, na qual se encontra a curiosidade do ser humano, mas também a existência do ser social que todos somos. É de facto uma viagem ao mais íntimo e recôndito “eu”. Sim, esse eu existe e está dentro de qualquer um de nós. Semear uma relação para colher uma amizade. É o que faço todos dias com o meu “eu”.

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O MEU EU


uitos dizem que o meu “ego” é demasiado alto. Até pode ser assim, mas temos que gostar de nós primeiro para que os outros nos admirem. Essa é uma premissa que não deixo para os outros.Talvez o melhor é explicar como o faço, o que, na minha opinião, é extremamente simples. Para começar não possuo qualquer religião ou partido político. Depois, não participo nas opiniões de massa, ou melhor, aquilo a que hoje chamamos de opinião pública. Também não tenho opinião sobre tudo. Odeio tratar as coisas pela rama, gosto de aprofundar os temas quando sinto que são essenciais para o meu conhecimento. Excesso de informação sem ter tempo para gerar conhecimento, não, por favor. Contudo, o mais importante da vida são os sinais da natureza, isto é, não me limito a respirar o ar deste planeta. Quero e sigo os seus sinais em sintonia com os seus quatro elementos. Para isso é necessário absorver a energia que a mãe natureza nos proporciona todos os dias, desde que estejamos atentos. Esta dá-nos imensos sinais, todos os dias, sem excepção. Qualquer um de nós, no centro de uma praia deserta, num dia de Inverno, se estiver virado para o mar e sentir o vento a entrar pelos pulmões, fazendo toda a força para que essa quantidade de ar seja a maior possível e, repetindo este gesto amiúde, quando abrir os olhos, vai sentir uma energia oferecida a custo zero por alguns elementos da natureza. Este é o meu eu, um vagabundo em busca de sinais, mas também um nómada há procura de sensações perfeitas. O meu eu apenas aprecia três coisas na vida: As mulheres. A energia deste planeta. O comportamento social deste animal que somos todos nós.

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Eu sou de nenhum lugar, e tu? Estava a olhar para o mar e logo senti que esta é a minha casa: as gotas do mar salgado. Não necessito de terra e muito menos de um país para dizer que sou da cidade com um número de código postal. Eu quero ser do mar, ser volátil e sem qualquer exigência de fronteiras ou cercas. Não necessitamos de barreiras no mar, este se encarrega de as destruir. Quero ser fruto da regra básica do mar azul, estar sempre unido com todas as gotas salgadas. Talvez por isso ainda hoje falo o mesmo idioma, seja no atlântico ou no pacífico: a maravilhosa linguagem das ondas e da sua espuma salgada. E tu, minha querida sereia, és daqui?

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Enigma Sentir, ouvir. Começar, esforçar. Se conseguir não vou voltar. Mas pelo menos tenho de tentar. Se conhecer não posso contar. O segredo está em focalizar só e apenas uma única coisa: Quem eu sou. Como posso sentir-me melhor? Como estar atento aos sinais? O que dizem eles? O que quero eu fazer até ao fim? Como ficar imortal? A resolução deste enigma é a metamorfose para a imortalidade.

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Amor e religião Sou agnóstico por convicção, mas cristão por educação, dizia ele à sua amiga que tanto o ajudava a enfrentar a sociedade nas horas de maior solidão. E porquê isso agora? Sabes bem porquê. Não ter religião é adoptar outra religião. E onde fica o amor na tua opinião? Por vezes fico paralisado quando penso nisso. O amor não tem explicação. Não podes fazer dele um prisioneiro. Ele não depende de ti, porém o contrário é verdade. Nunca irei colocar a religião acima do amor. Este, se o sentires, é verdadeiro, tangível, mas nunca o poderás definir. Se o fizeres não é amor o que sentes. Nunca irei encontrar o meu amor como pessoa real, isso seria catastrófico se acontecesse, sabes disso minha amiga, sabes bem. Nunca. Tenho sempre presente aquela expressão que utilizo para tudo: Porque não? Mas espero que não se aplique no amor. As pessoas são o ser mais interessante de se conhecer e ser estudado. O seu comportamento em qualquer ambiente é impressionante, bem como a sua capacidade de adaptação a um meio hostil. Esta é a minha verdadeira paixão, conhecer pessoas, falar e interagir. Mas não me consigo envolver, ou não devo fazê-lo, ocupando um lugar cativo nas suas vidas. Isso vai destruir o meu campo de hipóteses. Não quero ser diferente de ninguém e não suporto a banalidade, mas reconheço que é importante para a condição humana. A religião tem aqui um óptimo contributo a oferecer e daí eu abominar por completo qualquer tipo de credo ou igreja. O Fundamentalismo, para mim, é a doença da sociedade actual. Ou estás a favor ou estás contra, és crente ou és pagão, nós ou eles. Porquê? Não podíamos ser simplesmente nós? Eu sou assim, e tu? Óptimo, somos diferentes, vamos então conhecer-nos. Obrigado. Aprendi algo contigo e certamente que te dei algo de novo na tua esfera de conhecimento. Até um dia. Aplicar este conceito ao amor seria terminar com a arte do sofrimento. Não posso exigir isso, mas também não me obriguem a aceitar as regras do jogo. Contudo, estou a pagar o preço da exclusão, mas tranquilo comigo mesmo, ou talvez não.

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24 Horas Seria uma experiência única viver apenas 24 horas, não teria de comer ou de trabalhar, iria apenas sentir a necessidade de sobreviver vinte e quatro horas intensas, como se de anos se tratassem. Teria como compromisso deixar duas coisas fundamentais em qualquer espécie. Continuidade da espécie e um legado. Para isso bastava encontrar uma mulher a quem não fosse necessário amar, mas sim possuir o mesmo objectivo e tempo de existência. Depois bastaria deixar numa rocha uma mensagem. Esse seria o meu legado a todos os outros da minha espécie, que teriam as mesmas 24 horas de existência. Caso conseguisse fazer isto seria o Messias dessa espécie. “Vive o tempo que resta com tranquilidade, ninguém até agora resistiu às 24 horas”

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O número 13 Este número persegue-me desde o dia em que nasci. Como o odeio, como o admiro. O primeiro e o terceiro resultam num número que ninguém gosta, mas eu tenho de viver com ele. Isso, fala mal de mim, diz que me odeias por ser um número de que ninguém gosta. Ou então faz melhor, ignora-me, mas nunca te vou abandonar, sabes disso. Não digas que te odeio, tu sabes que não é verdade. Pelo menos tento demonstrar a todos que és apenas um simples número igual aos outros, mas ninguém quer saber. Todos te odeiam ou respeitam por seres azarento. São os preconceitos, meu caro e velho amigo. Tens de viver com isso. Ainda bem que assim é, pois só me tens a mim para desabafar, meu querido 13.

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Só Estou sozinho mais uma vez, que admiração para muitos. Não, nada disso e muito menos para o meu corpo. Ele necessita estar só. Acompanhado produz toxinas que me atormentam e deixamme a pensar o quanto posso fazer mal a outras vidas, especialmente as que querem estar junto de mim, as que gostam de estar comigo. Eu farto-me de imediato, não por ser “mau”, termo que detesto. (Odeio ainda mais o termo “bom”). Nós somos aquilo que somos e não existe o bem ou o mal, depende do contexto onde estamos inseridos e eu, neste preciso momento, quero estar sozinho para ser inócuo e não ser mau ou bom para ninguém. Talvez por isso estou a massacrarme. E isso será bom ou mau?


A arte de estar só Nos dias de hoje estar só é uma arte, representa a conquista do individualismo da nossa sociedade. Possui uma admiração dos que têm uma família e as obrigações que esta exige. Mas será que é assim que o ser que está só se vê? É obvio que não. É certo que possui liberdades que mais ninguém possui, mas só isso não representa mais-valia alguma, muito pelo contrário. Não é fácil gerir a solidão, é um grande desafio para os que estão nesta condição. Obriga a que se esteja constantemente a ouvir a sua voz, e ninguém gosta de estar muito tempo a ouvir disparates, muito menos de quem não consegue mandar calar. O ideal seria partir para muito longe, onde o outro não conseguisse descobrir o seu paradeiro. Estar só pode ser importante para descobrirmos quem realmente somos, mas isso é demasiado penoso. Especialmente ouvir as verdades, ter de as aceitar e, muito pior, começar a colocar em prática uma mudança necessária e urgente. Isso é demasiado para um único ser, é algo insuportável. Nós necessitamos mentir ao próximo. É condição essencial para dar criatividade às nossas frustrações e fobias, as quais nunca iremos superar e nem podemos, pois seria a descaracterização do nosso ser como identidade própria ao qual os outros atribuem um rótulo vulgarmente conhecido como Nome Próprio. O nome de família é menos interessante, pois corresponde ao código genético da nossa solidão, o que dá ainda mais trabalho, e hoje sem qualquer utilidade, face ao individualismo da nossa sociedade. Temos assim uma nova arte, a arte de estar sozinhos mesmo que estejamos acompanhados pela família. A arte de sabermos gostar de nós mesmo que saibamos possuir um lado extremamente obscuro e sem solução. Assim temos muito tempo para admirar esta nova forma de expressão cultural. Apenas seja necessário algum tempo para estarmos sós, de forma a saber admirar aquilo que realmente temos que suportar todos os dias quando alguém nos chama pelo nosso Nome Próprio.

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Acordar para o mundo Acaba de acordar, são duas da tarde. Olha para a janela e o mar está com um azul brutal. A graciosidade das ondas compõe aquele magnífico quadro esverdeado. Emocionado, começa a chorar perdendo de imediato as forças, e cai novamente na cama, isto porque começa a pensar que jamais poderá ir para o mar apanhar ondas com a beleza das que acabou de ver, pois tinha sofrido um grave acidente que o deixou sem um braço. Acabou por adormecer e aí sonhou com a sua sereia. Ela estava no meio do oceano e esperava incessantemente por ele, mas este encontro nunca iria acontecer. Ele jamais se iria apresentar com o aspecto que tinha neste momento. Sentia-se decapitado, não pelo aspecto físico, mas sim nas forças de amar a sua sereia com todas as faculdades que supostamente deveria possuir. Ao sentir um barulho forte junto da janela volta a acordar e vê diante dos seus olhos a sua amada, não em forma de sereia como surge a todo o momento quando sonha, mas da forma mais real possível. As ondas tinham chegado até junto das estacas da sua casa e, ao recuarem, estava uma imagem da sua sereia naquela areia ainda húmida, com um suave cheiro a maresia: Se não fores ter comigo no meio deste oceano irei junto de ti com todas as forças do meu Deus Neptuno, é isso que queres? Esquece a tua condição física. Dentro deste mundo isso não tem qualquer significado, ou já esqueceste que eu tenho escamas e não posso andar? Mas isso é necessário? Eu quero amar-te e isso não é um desejo, é uma ordem. Anda, vem ter comigo nesta onda que neste momento irá destruir a tua casa.

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Ser só aquilo que os outros vêm Somos todos os dias confrontados com mensagens fortes, carregadas de ideias tendenciosas. Isto é nada mais do que a manipulação abstracta da sociedade em que vivemos, ou melhor, somos influenciados por poucos e manipulados por muitos. Esta é a religião das sociedades contemporâneas. Termos ideias que achamos nossas nada mais é do que as tais mensagens muito subtis que a sociedade nos incute. Ou a não ser que esteja errado com a nova colecção de óculos de sol da última pop-star que surgiu no Verão passado e que hoje possui uma colecção de acessórios adoptada pela actual novela que passa todos os dias no horário nobre e ao fim de semana num compacto de três horas. E só por coincidência todos os adolescentes pediram aos pais os mesmos acessórios, incluindo os tais óculos de sol, pois o Verão está a aproximar-se e não fica nada bem ir para a escola com os óculos do ano passado. Ou então irão ficar excluídos logo pelo primeiro idiota. Aquele com um par exclusivo autografado pela tal pop-star, pois o pai é amigo do vizinho do pai desta adolescente transformada em estrela, que até é bem feitinha de corpo e teve a sorte de ser alvo de reparo por parte do fotógrafo que estava a atravessar uma depressão após a sua separação e, ao tirar umas fotografias sobre a Costa Vicentina, a sua máquina captou uma linda rapariga deitada na praia da Arrifana a fazer um frete ao seu namorado enquanto este e os seus amigos faziam surf. É tudo tão fácil de começar e, após um início, é uma torrente de coincidências que o indivíduo não quer travar mesmo que saiba ser algo efémero. Contudo, são os momentos de sucesso numa vida que irá passar ainda mais rápido e não deixa marcas para os que aqui irão continuar. Conclusão, qual é o problema de sermos influenciados? Ou se nos estão a manipular desde que seja para sermos felizes, qual é o problema de ser aquilo que parece, mas não é? Por favor, quero continuar a ser enganado para enganar mais alguns. ada tenho para dizer. Não quero definições. Minto se disser que tenho dúvidas. O que é uma Mulher? Desisto, não posso viver sem elas, contudo não aguento mais quando estou diante de tal ser. Fico sem saber como reagir e isso não acontece quando estou junto a um Homem. Mas porquê? Tarde fiquei a saber que a Mulher dá-me inspiração, alento, fogo para viver. O Homem dá-me companhia, o mesmo código de comunicação, mas não tem a magia de uma mulher.

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AS MULHERES


Ser Mulher Ser Mulher é algo que o Homem nunca saberá ser, muito menos compreender. Tocar o céu é algo impossível, mas ser mulher também é difícil. Nós, homens, somos seres imperfeitos, razão pela qual não sabemos ver a beleza interior de uma mulher, muito menos a exterior. A mulher gosta de ser tocada, mas antes tem de sentir no toque do homem um sentimento de paixão. De divindade, talvez de veneração. Ela tem de sentir que aquele homem tem música no coração e quer, necessita, partilhá-la com ela. A mulher é um ser extraordinário, o qual não podemos ignorar, muito menos achar que é fácil a sua conquista. Meus caros, não somos conquistadores, mas sim simples e humildes prisioneiros do desejo de as possuir. Contudo, quem comanda essa vontade de posse são elas, as mulheres. Confesso que esse poder de decisão está nas mãos certas, pois se fossem os homens a tê-lo, muito pior estava este mundo. Minhas queridas amigas, não estou a fazer um favor nem muito menos a querer ser gracioso, estou só a expressar o que sinto, e isso é a forma mais frontal de o fazer, dizendo a verdade. Verdade essa que faz as mulheres sentirem-se culpadas, talvez de terem um poder oculto que sentem medo de revelar, provavelmente com razão, pois os homens, quando se sentem ameaçados, partem para a ignorância, tendo como álibi a luta pela sobrevivência. Que estupidez! Lamento, apenas, ver ainda hoje mulheres a não fazerem aquilo que realmente gostariam de fazer, e isso deve-se a uma única razão: medo. Medo de si, medo de descobrirem o que realmente são e a força que possuem: a mesma que só é expressa no momento do parto e, ou, na dor. Por aqui podem ter um exemplo de quão frágil é o homem. Mulher que estás diante de mim, não aceites nada do que eu sou, pois apenas sou um homem que nada tem para te dar a não ser a minha ideia de herói, mas na hora da dor serei como que uma pequena cria abandonada quase no leito da morte à procura da sua mãe que nunca virá, pois já partiu.

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A mulher perfeita Eu ando desenfreadamente há procura da mulher perfeita, mas esta não existe. Apenas e só muito ocasionalmente surge nos meus sonhos mais profundos, mas quando assim é, ao aproximar-me dela, a sua intensa luz ofusca-me por completo, deixando uma cegueira por instantes. Acordo imediatamente, sem conseguir ficar com a mínima ideia de quão bonita é. Eu sei que nunca a vou ter, mas isso é porque ela não quer que eu a encontre, só nos meus sonhos. Ela também sofre, pois sabe que, ao atravessar a fronteira dos sonhos e entrar na realidade, eu deixaria de a ver como a mulher perfeita, a minha musa. Passaria a ser mais uma mulher na minha vida. A Mulher que não quis conhecer Era de madrugada e não conseguia dormir, levantou-se e foi fumar o último cigarro na varanda, por debaixo vivia a sua vizinha Teresa, a quem nunca tinha visto. Mas tinha a sorte e o privilégio de ver toda a sua lingerie quando estava no estendal, à espera de ser novamente usada e com um aspecto e cor de quem só poderia ter bom gosto e um corpo sensual para poder utilizar peças de roupa que transmitissem sensações só de vê-las num estendal de roupa. É a melhor fase no sentimento de conquista amorosa, quando ainda nada aconteceu, mas temos elementos para imaginar, colocar a curiosidade emocional a funcionar. Uma dádiva atribuída ao ser humano e que nos distingue uns dos outros. Nessa noite viu a janela do quarto da Teresa completamente aberta, pois estava abafado e um calor de sufocar. Foi então que teve uma sensação de a ouvir a respirar num sono profundo e delicado. Sentiu no mesmo instante um prazer súbito, que começou a intensificar-se, no qual o seu cigarro parecia a prova de um acto consumado. O orgasmo foi imediato, como se de um adolescente se tratasse, na sua primeira noite de iniciação no mundo do prazer carnal. Desde então evita vê-la, não consegue imaginá-la como ela é na realidade. Ele sabe que ela é bonita, pois já todo o bairro comentou, mas não quanto baste face à sua imaginação e, após ter vivido aquele sonho de intenso prazer virtual, pelo menos no seu mundo de imaginação, não quer desiludir-se e, muito menos, traí-la.

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A primeira vez que te vi Quando eu te vi pela primeira vez e tive o azar de olhar para os teus olhos, senti a intensidade da luz das estrelas, da lua e do sol a entrarem dentro de mim naquela noite escura junto da praia, quando estavas a olhar para as estrelas. Assim que retirei o meu olhar do teu rosto, fiquei a ver a tua face por tudo o que era sítio, projectada naquele mar negro e em todo o universo. Foi algo que nunca irei esquecer. Mesmo hoje, quando fecho os meus olhos, ainda sinto o clarão do teu olhar. Como foi isso acontecer comigo? Não podia acontecer, especialmente quando tenho e sou tudo, mas contigo vi que as mulheres foram de facto a melhor criação que até hoje fiz. Sinto-me como um deserto que despertou de um sonho e julga que ainda é o fundo do mar que há muito deixou de existir por meu castigo. Hoje limito-me a desenhar o teu rosto. Nunca mais o vou esquecer, nas dunas de todos os desertos que um dia criei. Desenho o teu rosto, como prova do meu amor por ti, e quando o vento tenta apagar, quando isso acontece, desenho-te no céu nas noites de Verão. Sou e tenho tudo o que existe e, se te criei, também posso criar o teu rosto com estrelas e astros. Quando passarem alguns segundos para mim, mas muitos anos sobre ti, aí virás ter comigo a este sumptuoso altar que é o universo. Nesse preciso momento irás admirar a obra que fiz só para ti e por onde tu passaste.

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Hoje quando te vi São poucas as vezes que olho para ti. Nem sei se me recordo da última vez que o quis fazer. Talvez seja uma sensação de desespero que levou a um hábito, mas agora faço mesmo questão de não te procurar e muito menos saber onde estás, com quem vives ou, simplesmente, o que sentes por mim. Talvez seja da minha parte um acto de egoísmo, ou então, e acredito mais nessa hipótese, de recalcamento em diversos sentimentos que pretendo esquecer, colocando-os muito para alem do meu inconsciente. Mas cuidado, não penses que sinto o mesmo por ti, pelo menos aquilo que um dia já senti. Posso dizer que não conseguia afastar-me mais do que do raio da tua respiração. Esta sensação era avassaladora e consumia-me toda a energia, ficando muito pouco, e servia apenas para que os meus órgãos vitais trabalhassem da forma mais precoce de maneira a que eu conseguisse respirar e viver no mesmo mundo do que tu. Agora e depois de tantas sensações vividas em conjunto quero esquecer-te e muito menos ver-te. Não, hoje não te vi, mas idealizei este discurso caso me cruzasse contigo e, ao ter de te dirigir a palavra, seria isto que te diria, meu amor. Dá-me as palavras Dá-me as palavras para não dizer nada quando estou à tua frente, tu que nada me dizes. Apenas tenho vontade de te amar mas, depois, nada quero sentir, nada sinto por ti. Dá-me as palavras para te dizer tudo, tudo o que sinto por ti quando estou a fazer amor contigo mas, depois, quero estar longe de ti, tão longe que não possa sentir o teu cheiro. Tenho vontade de te mandar à merda, mas não consigo. Sou eu que sou uma merda de homem sem coragem para te dizer o quanto te desejo, mas facilmente me escondo na minha cobardia de criança. Infantilidade a minha de achar que te amo, quando na realidade o que eu quero é apenas o teu corpo a tocar no meu como se de um objecto se tratasse, isso é o que pretendo. Pretendo tratar-te como se fosses um objecto delicado e, quando acabasse de brincar com esse objecto – tu – nada dirias por ter terminado. Sairia logo depois de o (te) arrumar na prateleira e só da próxima vez, fosse quando fosse, voltaria a lhe (te) pegar. Porquê que é não fazes o mesmo, utiliza-me quando quiseres e depois manda-me à merda. Dá-me as palavras para te dizer isto, agora quando estamos os dois aqui deitados a fazer amor.

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Os dois Como eles dançam, que sintonia existe naquele par de dançarinos. Onde terão aprendido a dançar tão bem? Devem ter praticado durante toda a vida juntos. Que histórias terão para contar? Imaginam as aventuras vividas pelos os dois enquanto dançam? Os dois limoeiros que não param de dançar, no claustro daquele convento abandonado. Só eles dão vida, só eles podem abençoar com a sua dança, aquele local, agora abandonado pelos que outrora acreditaram em alguém que talvez nunca existiu.

O encontro Na condição de nómada tenho de fazer mais esta nova viagem, que será longa. Quanto tempo não sei. Apenas tenho duas certezas: o dia da partida, e que a vou fazer. Como vagabundo que sou, e apenas nessa condição, sinto-me frágil, pois será a primeira longa jornada a sós comigo e mais ninguém. Tenho medo. Este pavor não é do desconhecido ou de algo que de mal me possa acontecer, não. É de saber que vou perder a minha alma. Já estou farto de a ouvir e de a sentir. No caminho vou a expulsa-la dentro de mim. O pavor que me assiste é o de não saber quem a vai substituir. Conto para já perder-me e ficar algum tempo sem ninguém. Irei fazer o mesmo que um búzio do mar faz no momento da baixa-mar, quando sente o calor do ar a tocar a sua carapaça. Quando todos os sinais me levarem ao encontro de uma alma abandonada, vagabunda e nómada como eu, irei novamente libertar-me, e só nessa condição talvez um dia irei regressar.

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Loios Ele chegou primeiro, ficando nas portas da cidade à espera dela, que teve de fazer o dobro da distância para se encontrarem naquela noite fria de Inverno. Tinham combinado um fim-de-semana inesquecível, depois de terem prometido que tudo tinha acabado. O local onde se iria quebrar esta promessa tinha nome: Pousada de Loios. Mesmo em frente ao Templo de Diana, em Évora. A emoção do encontro estava a consumi-los e, a cada quilómetro percorrido, a ansiedade aumentava exponencialmente. Contudo, apenas sabiam que iria ser inesquecível, aquele encontro decidido pelo telefone há menos de vinte e quatro horas atrás. Quando se encontraram quase nada foi dito. Urge a necessidade de Ela o levar para o templo secreto, onde se iriam passar as quarenta e oito horas memoráveis na vida daquele jovem casal a quem o destino forçou a separação. Quando chegaram à Pousada a atmosfera ficou mais leve. Entraram numa dimensão onde os sentimentos é que falavam e onde as palavras pouco ou nada importavam, pelo menos para eles, que se conheciam há quase dez anos e que tinham sido separados pelo destino. Naquela noite, na Pousada de Lóios, era o Templo do sagrado amor que toda a vida sentiram e provavelmente jamais o iriam sentir por outra pessoa. A cela do convento, agora transformada no quarto onde iriam ficar era a 103. Assim que lá entraram sentiram que desde sempre aquele lugar tinha sido destinado para os dois quebrarem a separação que tanto os consumia. O Templo de Diana estava ali em frente a testemunhar aquela união efémera, mas para eles eterna, como se de um segredo se

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tratasse, onde mais ninguém ficasse com qualquer prova para os julgar. Eles fizeram amor como há muitos anos atrás, eles partilharam confidências como sempre o fizeram, até de religião falaram. Contudo, ambos tinham no seu pensamento individual a raiva do seu destino, pelo facto deste os ter amaldiçoado naquela separação inevitável. Porém, sempre se recusaram de falar sobre esse assunto. As horas passaram e o tempo daquela união quase se esgotou, mas para eles pouco importa o tempo que falta para terminar. Eles sabiam que aqueles momentos iriam ficar eternamente gravados na memória de cada um, com o templo de Diana a servir de testemunha e a Pousada de Loios como cúmplice daquele amor eterno, daquela separação inevitável. Eu sinto inveja daquele casal. Eu gostava de ter amado como eles, mas nunca vou saber o que é o amor, pelo menos como eles o sentem. Aquela intensidade não é para nenhum de nós. Loios eternamente. O sinal que eu necessitava: ainda existe amor por dois seres que o destino um dia fez a malvadez de os separar. Pela janela começam a entrar os primeiros raios de Sol, criando um mosaico de luz por entre o Templo de Diana e a janela da cela 103, onde eu acordo junto do meu amante e aí volto ao presente, ficando com uma sensação de que este sonho que agora acabo de ter não foi um sonho, mas sim um sinal de dois fantasmas que em tempos quebraram um pacto, aqui nesta cela, a 103. Nesta mesma cela permanece este segredo. Se foi verdade, se realmente isto aconteceu e não foi um mero sonho, eu tenho de encontrar o meu amor e, definitivamente, este não é o meu amor. Este homem, que está aqui a partilhar a minha cama, nesta cela assombrada pelo espírito do eterno amor, amor esse cujo segredo consegui descobrir através de um sonho, não é o meu amor. Tenho de lhes prestar homenagem, sendo que a melhor forma é abandonar esta cela imediatamente e só regressar com o meu verdadeiro amor. Eu sei que nunca o irei encontrar, caso contrário este casal fantasma não teria penetrado no meu sono. Acorda, António! Quero sair deste quarto. Vamos embora, tenho de regressar agora. A propósito, está tudo acabado entre nós, não voltes a procurar-me. Muito menos dizer que me amas. Vamos, este quarto é para quem não consegue viver mais do que um amor na vida e nós nem sexo sabemos fazer. Vamos embora, não posso ficar nesta Pousada e contigo muito menos, nesta cela com o número 103. Aqui já se viveu uma história de amor eterno, não é para nós. Isabel sai da Pousada a chorar e jura que um dia irá regressar com o seu amor, para prestar homenagem àquele sonho. Mas também sabe que nunca irá viver um amor com aquela intensidade. O sonho que teve só aconteceu porque ficou na cela 103. O casal a quem ela chama de fantasma entrou no seu sono, para demonstrar que ainda tem tempo para encontrar o amor da vida dela. Uma história dedicada aos que acreditam no amor eterno. Mas o destino exige a separação, com certeza por motivos invejosos da união prometida de dois mortais que se amam.

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Banco de jardim Ali estavam os dois, num dia de Sol, numa pequena cidade cheia de cultura, naquela pequena praça com um único banco de jardim. O céu estava com um azul intenso, as casas quase que se transformavam em espectadores dos dois amantes que admiravam o rosto um do outro, ignorando o que se estava a passar à sua volta. Ela tinha acabado de chegar, com uma oferta, ele estava à sua espera com uma felicidade estampada no rosto, ambos não queriam que aquele momento terminasse. Como estás bonita, pensou ele. Tu também, disse ela na sua voz interior. Eles comunicavam sem dizer uma única palavra, só o banco de jardim sabia realmente o que se estava a passar naquela pequena cidade, com um único banco de jardim.

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Tenho uma pergunta a fazer Gostava de te fazer uma pergunta o mais indiscreta possível. Sim? Porque é que me amas quando deverias era odiar-me? Quais as razões para eu te odiar? Eu não te amo e tu sabes disso, então porquê esse sentimento por mim? Mas quem te disse que te amo? Então não percebo mais nada! Amar é um sentimento muito mesquinho e egoísta, eu vibro contigo, eu apaixono-me todos os dias quando te vejo, eu tenho paz e ao mesmo tempo o meu corpo produz adrenalina quando sinto o teu respirar. Mas não te amo! Estou sem palavras, o que te dizer? Nada, é essa a melhor condição quando não necessitamos de agir. Pensa só que eu te irei amar, e vais ver que irás sentir-te bem, pois é a única forma de eu continuar a vibrar contigo. Quando quiser amar será outra pessoa, não a ti. Para já deixa-me sentir-te, pois tu fazes amor sem me amares e eu vibro quando faço amor contigo. Sabes o que quero Sabes perfeitamente o que eu quero dizer-te. Contudo, não permites que o diga. A isso chamo cobardia. Não aceitas que eu diga aquilo que sinto por ti, porquê? Dizes sempre que preferes ouvir-me no silêncio interpretando apenas as minhas expressões como se fosses uma feiticeira. Isso não é justo. Eu necessito, com toda a minha energia e no tom mais alto a que poderei submeter a minha voz, de te dizer: Am..., Pára. Porque é que me interrompes sempre quando vou dizer “am...” Não digas nada. Cala-te e deixa-te sentir o que vais dizer. Sabes bem que se o não fizer rapidamente irei esquecer a minha voz e, mais grave, deixarei de conseguir proferir esta palavra que tanto gosto de dizer e tu não deixas. Assim, irei esquecer e aí não irás nunca mais sentir que te am... Pára com isso João. No dia que te ouvir a dizer que me amas, eu deixo-te, sabes disso. Não coloques em palavras o que sentes, estás proibido de fazer isso comigo. Esforça-te antes em transmitir o que sentes por gestos e vais ver que nunca terás de me mentir sobre o que sentes por mim. Sabes que é isso a única coisa que sempre te exigi. Por isso cala-te e vem amar-me.

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Ama-me ou vai embora Ela estava, como sempre, no mesmo local, à mesma hora, esperando pelo seu amor. Ele chega, como sempre, atrasado e com o seu ar característico de despreocupação. Beija-a e diz: Hoje já te tinha dito que estás particularmente bonita? Não me digas isso porque já me irritaste. Meu amor, como fui capaz de fazer tal coisa? Já viste as horas a que chegaste? És sempre o mesmo, só pensas em ti. Ele não conseguiu responder e logo arranjou uma desculpa. Sabes, passei numa loja de roupa para senhora e estive a ver algo que te quero oferecer, mas não tive coragem para comprar, pois nunca sei se te serve, mas acredita que é muito bonito. Ouve isto que tenho para te dizer, pois só o irei dizer esta vez: Não tornes a atrasar-te, caso contrário nunca irás colocar os olhos em cima de mim, percebeste? Tudo terminou aí e foram jantar, os dois, à luz da vela, num restaurante à beira mar. Prometeram aí que o seu amor era eterno. Acabaram a noite numa praia deserta, fazendo amor da forma mais silenciosa possível. No dia seguinte, à mesma hora que estava combinado o encontro, ele não apareceu. Tinha acabado de sofrer um acidente brutal devido ao excesso de velocidade, em virtude da necessidade que tinha em chegar a horas. Após seis meses de coma ele pediu ao João para o levar, à mesma hora, junto do pontão para se encontrar com a sua amada. Chegou meia hora antes da hora marcada e a excitação superava as ultimas dores do corpo em recuperação. Contudo, sentiu a impaciência do João e só depois de uma hora mais tarde é que teve a coragem de perguntar ao seu melhor amigo se ele sabia o que se estava a passar, ao que este lhe respondeu: Carlos, a Sofia não irá aparecer nunca mais, vê o que está no teu lado direito. Este olha de forma muito lenta. Quase que se conseguiam ouvir as articulações a ranger e só aí vê uma lápide em mármore, muito recente, a dizer: com muito amor e saudade dos teus pais que jamais te irão esquecer.

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Quero sentir aquilo que não é meu Sempre que descubro um olhar novo penso logo o que se esconde por detrás dele. Sinto de imediato emoções que se escondem por esse muro transparente que são os olhos. Não existe nada escondido que não se possa descobrir. Pode levar tempo, mas esse tempo servirá para aguçar o prazer da descoberta. Quando consigo ler o pensamento de alguém sinto um enorme prazer, mas rapidamente desvanece face à utilidade do mesmo. O pensamento é algo inócuo e está carregado de subjectividade mas, quando incorporado em atitudes, tem um enorme poder. Fico a conhecer não a pessoa, mas a sua alma. Pouca ou nenhuma importância dou às pessoas, talvez a mesma que dou a mim próprio. O que importa saber é como funciona o seu “eu”. Esta é chave do sucesso para semear uma relação e colher a sua amizade. Pouco ou nada interessa a postura de uma árvore ou como ela se comporta nos dias de tempestade. O que importa é que agarra com toda a sua força o fruto que iremos comer. Agradeço por isso a sua bravura e generosidade e com isso retribuímos com toda a nossa protecção nos dias mais abrasivos de Verão.

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Só te amo quando estás longe Eu não consigo falar quando tenho a oportunidade de estar diante de ti. Quando sei que me estás a ouvir, não tenhas pena de mim, pois eu apenas consigo dizer-te que só te amo quando estás longe de mim. Sensações Tenho a sensação de estar a endoidecer, será possível ter este tipo de sensação quando a vontade é a de nada sentir? Tenho vontade de desaparecer, será possível ter este tipo de vontade quando a sensação é a de se estar a ficar doido? Quero voltar a sentir a vontade de viver. Não quero voltar a ficar lúcido se não obtiver uma resposta que me satisfaça a vontade de sentir. Se essa resposta tarda a chegar, então irei ficar aqui tranquilo, com vontade de nada fazer e, com sorte, sentir a transformação para o estado de loucura permanente. 32


Beijos assombrosos São todos aqueles beijos que me dás quando te despedes de mim. Eu não peço, mas tu insistes em dar o beijo fatal da despedida. A dor é de tal ordem que fico com a face marcada com o sinal dos teus lábios como se de um ferro em brasa se tratasse. Não gosto desse teu sorriso quando estou a falar da minha dor. Sabes que é verdade e fazes de propósito. Tu dizes sempre que não podes viver sem ouvir a minha voz e eu não suporto a dor dos teus beijos de despedida. Como é perfeita esta complexidade. Fomos de facto feitos para nos vermos apenas quando é necessário. Quem decide? Pouco importa, sentimos. Deixa-te sentir a vida passar por ti Certo dia ela aproximou-se dele, finalmente e depois de muitas hesitações pelo caminho, em sua direcção e, simplesmente, sorriu da forma mais sensual que uma mulher pode sorrir quando olha de frente para quem ama. Ele ficou paralisado só de ver aquele sorriso tão penetrante. Contudo, ela não parou e continuou o seu caminho. Ele não deu continuidade ao seu olhar por aquela linda mulher, ambos ficaram apaixonados por coisas diferentes. Ela pelos olhos penetrantes dele e ele enfeitiçado pelo sorriso dela. Nunca mais se viram, mas durante muito tempo ambos ficaram a sonhar num amor platónico que nunca se iria consumar. Será isto viver? Não, mas sentir a vida é certamente.

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Ela não te deixa Eu estava sufocado, necessitava sair. Aquela relação estava cada vez mais a possuir contornos irreversíveis. Todos os dias, quando voltava do trabalho, tinha dificuldade em olhar para ela. Não consentia um único ruído que produzisse. Qualquer movimento era dramático. Não tinha coragem, mas tive de o fazer. Ainda hoje me lembro dela. Por vezes aumento a dose dos comprimidos azuis no final do dia, mas o meu inconsciente entra sempre dentro dela e, nos sonhos, surge sempre com a mesma cor, com o mesmo espaço e com as suas dimensões inalteráveis, mesmo para um sonho onde a realidade devia desvirtuar-se. Hoje estou com mais 330 metros quadrados de espaço, mas a minha primeira casa nunca mais a vou esquecer. Ela não me deixa por todos motivos e mais alguns, em especial pelos momentos (em) que vivi dentro dela. A despedida Não te vou dizer adeus, até porque não acredito nesta palavra, mas certamente que nunca mais me irás ver como hoje sou. Fica com tudo o que te dei. Isso irá relembrar o que fui em tempos, mas não digas a ninguém, pois iria ter vergonha desse ser. Quando regressar, se regressar, vou ser outro. Não queiras saber se melhor ou pior, sabes que isso não existe, mas de certeza que vou ter novas emoções vividas e isso é suficiente para existir uma metamorfose. Basta sair com a sensação de que isso vai acontecer. Vou mudar, quero perder-me, mas não me vou encontrar porque já sinto a transformação.

Paixão eterna Ele todos os dias subia as escadas do museu para a ver. Dez minutos antes de fechar o museu ele lá estava, sempre pontual, todos os dias. Aos domingos ele deixava-a. Com ar triste prometia que regressava na terça-feira seguinte para aí estar diante dela mais dez minutos. Assim foi durante toda a vida, ele se apaixonou pela mulher que estava na tela daquele museu e esse era um segredo que levou até ao leito da sua morte, onde, pela sua vontade, encomendou anos antes que pintassem um réplica daquela musa no seu caixão, por forma a adorar não dez minutos, mas sim toda a eternidade.


Boulevard Não consigo pensar noutra coisa. Sempre que ele passa fico com as mãos a transpirar. Quase parece quando tinha catorze anos e o Carlos, lembras-te do Carlos, que era teu colega de carteira e sentava-se à minha frente? Mal consegui ouvir o que a professora tinha para dizer naquelas aulas de biologia, onde ainda hoje pergunto a importância do sistema urinário da rã na advocacia que pratico todos os dias a defender os meus constituintes na barra do tribunal. Sabes como ele se chama? Não, só sei que todos os dias depois das oito, quando deixo o escritório, vou beber um chá de camomila no Boulevard e ele já está sentado ao balcão com o seu bloco de notas a retirar apontamentos. Presumo que sejam reflexões, lembretes para o dia seguinte ou talvez anotações de necessidades primárias que a sua despensa assim exige. Porque é que não o abordas? Mete-te com ele. Não acredito que irá rejeitar, tu és uma mulher lindíssima, sabes isso. Quanto tempo andei atrás de ti e tu nunca abriste uma excepção para este coração que na altura estava moribundo de amores por ti? Não digas tolices, sabes que sempre fui sincera contigo e sempre te vi como o irmão que nunca tive. Pois, esse foi o meu azar. Sem querer quiseste trocar os meus pais pelos teus. Mas já está ultrapassado. Quanto ao teu amor platónico, não vejo solução a não ser que ganhes coragem e vás falar com ele. Não, isso não. Porquê? Vocês mulheres são impressionantes. Porquê dizes isso? Nunca revelam o que sentem, preferem sofrer e aguentam de uma forma impressionante a dor. Depois, certo dia, no meio do nada, tomam uma decisão, e essa é a de colocar tudo o que já sofreram no baú e recomeçar do nada. Talvez seja esse o nosso problema, mas como mulher percebe que não poderei comentar tal observação, pois sentimos muito e falamos pouco de nós, ao contrário de vocês, homens, que são o oposto. Não vais querer entrar numa discussão sobre a guerra dos sexos? Não. Mas já que percebes tanto sobre o comportamento das mulheres vou explicar-te o porquê de eu não o abordar. Sinto-o muito independente, muito na sua onda, não transmite a necessidade ou espaço para

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conhecer alguém, muito menos uma mulher como eu. Explica o “como eu”. Sabes como eu sou. Bonita, inteligente senhora de si mesmo. Sim eu conheço-te. Pois bem, se eu for falar com ele sinto o mesmo que fosse o oposto. Sim? Achava-o atraente e mesmo que entrasse com um discurso cuidado e gentil sem piadas banais eu iria mostrar desinteresse e até algo incomodada pela abordagem. O quê? Vocês mulheres de facto são outros seres de um planeta distante que por deficientes coordenadas vieram embater com a Terra. Não sejas parvo, percebe o que eu estou a tentar dizer, não se trata de nenhuma complexidade psicológica, mas sim de factos. O ser humano tem diferentes espaços sociais e quando não existe contexto, a abordagem de uma pessoa por outra de sexo oposto origina tendencialmente a rejeição. Fala por ti, ou melhor, fala em nome das mulheres. Nós não rejeitamos essa abordagem. Aliás, gostava de viver numa sociedade onde o oposto se verificasse. Deveriam ser as mulheres a fazer o papel do homem em matéria de sedução. Pensa bem e deixa de ser primata. Ele é diferente desse pensamento do homem das cavernas e dos bares de estrada onde existem camiões na berma da estrada e dentro dos bares orangotangos com os tomates nas pálpebras, olhando para tudo o que se mexa, de preferência com saias e mamas grandes. Ele é sensível, não quer ter uma mulher para dizer que não está sozinho. Ele vive bem sozinho, está habituado a conviver consigo e talvez não queira perder essa condição para viver com outra pessoa, tendo aí de perder alguma da sua autonomia sentimental. Talvez seja esse o fascínio que eu sinto por ele e tu nunca irás perceber o que é isso, pois sem as mulheres não sobrevivias um minuto. Tenho de o conhecer e tem de ser aqui no Boulevard. Aqui é o território dele, é aqui que se sente bem e tenho que o conhecer no seu contexto, para poder demonstrar que o percebo e nada quero dele que não a sua atenção por um minuto só que seja. Quero que ele me veja, quero que ele esteja a ouvir o que eu tenho para lhe dizer e depois quero que ele fale sobre si, e nunca mais se cale, quero saber os seus gostos, as suas intenções de vida. O que ele detesta e o que ele ama nesta vida e na próxima e talvez numa dessas vidas ele tenha espaço para uma mulher como eu e que, de preferência, seja eu a pessoa que ele queira conquistar. Aí talvez o aceite como meu companheiro. Mas primeiro tenho de ser eu a demonstrar que existo e depois ele tem de fazer o papel de homem e eu de mulher. Percebes agora? Claro que não e digo-te mais, ele também não iria entender, por isso continua a vir ao Boulevard, beber o teu chá e continua a admirar o teu homem, porque nunca o vais ter. Quanto a mim, sabes que num clicar de dedos tens-me para sempre.

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Lua, a minha amante Finalmente estava a sentir as emoções como nunca as tinha sentido sem obter daí uma justificação para cada uma delas. Era como se tivesse abdicado do seu lado cognitivo e ficasse apenas com o lado emocional no seu cérebro. Ficou diante da lua naquela noite em Sagres. Depois de uma hora paralisado para com a sua amante ancestral, aquela que sempre o iluminou, mas nunca justificou o porquê da sua protecção. Ele estava a pensar como iria dar a volta a uma vida que até aí estava a ser gerida da forma mais caótica possível, contudo sem vontade para alterar uma vírgula que fosse naquele livro escrito por impulsos de solidão e tristeza voluntária. Porém tinha uma certeza, e essa era a de estar farto de dissecar todas as emoções que ia tendo ao longo do tempo, saber as razões e origens das mesmas e por vezes até quando as estava a viver. Essa agonia levava-o a sentir-se desumano, acabando por não sofrer nada por sentir o que quer que fosse, pois assim que sentia já estava a encontrar razões que o levaram a ficar cada vez mais frio para consigo próprio e talvez para com os outros que o rodeavam. Foi ali, observando a lua e o seu amor platónico, e sentindo um frio gélido pelo seu corpo, que percebeu como era bom sentir algo sem explicação e, não se atrevendo a dissecar no momento aquela sensação devido ao respeito que tem pela sua lua – pois pensou que esta iria sentir que ele não estava a ser verdadeiro com ela nas suas emoções – verificou que também é bom sentir por sentir e sem saber as razões o corpo absorve por completo aquela adrenalina que não é mais do que angústia e prazer ao mesmo tempo. Angústia pelo facto de não ter qualquer controlo no que sente. Prazer porque sente o seu corpo responder às emoções no momento, ficando com arrepios e calor ao mesmo tempo, de forma uniforme, mas também extremamente localizada em diferentes partes do seu corpo. Foi naquele momento, ao observar aquela luz intensa, da sua lua feiticeira, que reconheceu nada poder fazer pelo seu destino. Muito pouco seria capaz de fazer sem aquela lua e quase nada caso esta não existisse. Que estupidez de pensamento, disse ele em voz alta. Mas a realidade é que quase era isso, pois ele não tinha ninguém à sua espera e muito menos com saudades. Talvez essa era a razão pela qual não se interessava por ninguém. Mas como é possível uma mulher querer um homem como este? Quando possui uma amante e esta é a mais ciumenta de todas. É a que mais luz tem para oferecer na escuridão da solidão, é a que possui mais imaginação nas quentes noites de Verão, é a menos inibida, tendo sempre o seu corpo descoberto para ele. Sendo também a mais traiçoeira e falsa, escondendo-se por vezes sem deixar de observar o que ele faz. Que estupidez de sentimento, quando a lua não é humana. No entanto, ele pouco se importava, pois nunca deixou de o ouvir desde miúdo. Este amor é uma retribuição eterna pelo facto de alguém o ter sempre acompanhado nas suas amarguras e frustrações de adolescente e, quando se tornou homem, aprendeu que devia ser fiel não aos princípios ou valores que tinha adquirido. Simplesmente a quem nunca o tinha abandonado. Porém, reconhecia o facto de a sua amante, desde tenra idade, o exigir só para ela, sendo essa a única condição que qualquer amante faz. Ele, de imediato, aceitou como qualquer homem faz diante da sua amante. Nenhuma mulher irá fazer frente à sua lua, lua essa pela qual ele se deixou enfeitiçar. Ela sempre foi frontal e franca nos seus sentimentos para com ele, mas com um toque romântico de cinismo nas noites de ausência. E ele, que sempre dissecou os sentimentos, nunca irá aperceber-se de que o mal não está nele, mas sim na sua amante, aceitando a sua condição de prisioneiro eterno, esquecendo-se, porém, de que é mortal. Irá viver muito pouco ou quase nada, em comparação com a sua amante, que há muito lá está no seu negro e longínquo altar, e por muito tempo lá irá ficar.

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Na noite Não se importam? Eu gostava de vos perguntar uma coisa, diz ele a um grupo de três raparigas no meio da discoteca mais in do Porto. Sim? Gostaria de saber se era possível introduzir mais um elemento dentro do vosso vasto leque de conhecimentos. E esse elemento sou eu. Sabem, uma das coisas – se não a mais bela das nossas vidas – é conhecer pessoas. E penso que traria alguma vantagem para ambos os lados. Não faz sentido estar sempre rodeado pelas mesmas pessoas a falar sempre sobre as mesmas coisas, não acham? E num lugar bonito como este, o objectivo é conhecer pessoas divertidas. Eu sempre que posso tento sair sozinho à noite. Gosto de observar o comportamento das pessoas, como se movimentam no espaço. A forma de comunicação adoptada entre elas é algo maravilhoso, por vezes quase parece um bailado silencioso. É por isso que vos lanço este desafio. Que tal? Aceitam? Das três, a mais velha achou delirante a forma como ele as abordou e não foi capaz de cortar naquele momento o seu raciocínio, mas também não disse que sim. As outras duas, na casa dos vinte e cinco anos, estavam estupefactas, e também não deram qualquer resposta. Bem, pensando bem não quero uma resposta vossa e está decidido. Eu vou-me apresentar. Meu nome é Vicente Fonseca, tenho quase quarenta anos, sou ginecologista de profissão. Sou Psicólogo amador e escritor amador. Aqui foi interrompido por uma forte gargalhada colectiva das três lindas mulheres do norte. Depois, e se estiverem interessadas, posso explicar-vos o porquê do “amador”. Continuando, como hobby, faço B.T.T.. Espera, deixa-me apresentar-me, pois acho o máximo esta conversa que estamos a ter e não é justo estares a dar-te a conhecer sem saberes os nossos nomes. Eu chamo-me Isabel, e as minhas amigas são a Cátia e a Matilde. Agora explica, por favor, isso do amador? É muito simples. Sou Psicólogo amador, pois não pratico. Quanto a escritor, também sou amador, porque já escrevi três livros e nenhum editor quer receber-me. Conheces alguém? Fala, não pares. Estou divertidíssima por te ouvir. As tuas amigas parece não terem a mesma opinião! Não ligues, elas também estão a gostar de te ouvir. Não estão habituadas a encontrar pessoas como tu, especialmente na noite.

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A noite de todas as conclusões Continuo sem conseguir dormir. O único aconchego são os comprimidos de cor suspeita e sabor intragável. Eles são os únicos que me ajudam a suportar o peso da noite. Lá fora está a nevar, volto a vestir-me e saio sem destino. Percorro todas as ruas dos bares. Todos estão abertos, mesmo a uma segunda-feira. Todos com o mesmo chamamento ladies night. O indivíduo que teve esta brilhante ideia de marketing devia ser premiado. Eles saem porque é a noite delas e elas, por sua vez, saem porque eles vão atrás delas. É impressionante. E eu não me excluo nesta manipulação. Estacionei o carro logo no primeiro bar da 24 de Julho, mas hesitei e só acabei no quinto bar, a mais de um quilómetro de distância. Sempre a hesitar a entrada em cada um, a pensar que o seguinte estivesse mais animado, entenda-se, com maior número de mulheres bonitas por metro quadrado. Entrei no quinto bar porque já estava exausto. Não por andar, mas por tanto hesitar. Ao ter de passar pelo porteiro e demonstrar uma auto-confiança que não a tinha de forma a não barrar a entrada, fiquei logo aí mais angustiado e coloquei uma máscara cujo peso não suportava. Esta mostrava que eu estava convicto em ir beber um copo, conhecer alguém e criar um novo relacionamento amoroso. Enfim, o trivial de qualquer homem que entra num bar à segunda-feira, às três da madrugada, sem hora para chegar a casa.

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A música trazia-me saudades e uma vontade de ter menos vinte anos e voltar ao porte atlético, que já há muito prescreveu por causa dos maus hábitos e de uma alimentação deplorável. Estavam vinte pessoas, das quais 65% eram homens, 25% eram homossexuais assumidos e apenas 10% eram mulheres. Formidável, pensei eu, enquanto me dirigi ao bar para pedir um vodka duplo, de forma a ficar com a visão distorcida o mais rapidamente possível. E eis que surge em mim o pensamento de começar a correr para fora daquele espaço. No entanto, ao rodar a cabeça para verificar a distância que existia entre mim e a porta de saída, entra pela mesma porta a Patrícia. O que fazes tu aqui? Isso pergunto eu. Venho aqui todas as segundas e nunca te encontrei. Pensava que ainda estavas na Austrália? Não, há muito que regressei. Fui viver para o Porto e há um ano que estou em Lisboa. Eu e a Vanda terminámos assim que chegámos a Portugal. Não acredito, estás a falar a sério? O que fizeste para isso acontecer? Essa é que é a questão, nada. Foi por isso que ela um dia acordou, virou-se para mim e disse: Pedro, vai embora, não te quero ver mais. E tu, como estás? Bem, muito bem. Nunca casei por causa disso, para não existir separações. Detesto constrangimentos entre duas pessoas. O ideal é conheceres alguém ao mesmo tempo e, por iniciativa de ambos, termos o mesmo tipo de compatibilidade, aproveitar o momento e talvez voltarmo-nos a encontrar duas (no máximo três) vezes e depois sair da vida da outra pessoa antes que se criem raízes e descobertas de gostos comuns. Não era capaz, não sou capaz de pensar assim. Agir dessa maneira é muito para a minha maneira de ver uma mulher. Tu sabes, já namorámos os dois e sabes como eu sou e nunca mudei uma décima do que sempre fui. Sou demasiado sentimental para esse tipo de relacionamento. Eu sei. Não sabes, mas tu foste o meu último namorado. Prometi a mim mesma que nunca mais iria envolver-me da forma como fiz contigo. A dependência era muita e tu davas-me tudo o que eu queria e, por isso, não te suportava. Era carinho a mais, a protecção que me oferecias levava a que eu me fosse habituando a um estado de impotência para com os problemas que vamos enfrentando na vida e no trabalho. Tu fizeste-me muito mal. Levei anos para recuperar e ainda hoje quando estou deprimida sinto o calor das tuas mãos na minha cara, oferecendo todo o carinho que tinhas para dar, quando o que eu necessitava era de uma palmada por mau comportamento. Miguel, as mulheres não querem ser tratadas como flores exóticas de um jardim botânico municipal. Elas gostam de desafios e de algum perigo. Não existem relações duradouras sem estes dois condimentos. São o azeite e o sal numa salada que é o relacionamento entre um homem e uma mulher e Tu és... ...Tu és o que um homem não pode nem deve ser. És meigo e atencioso e isso é um perigo para as

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mulheres. De início é um fascínio misturado com conforto. Sentimo-nos seguras não de nós, mas dos outros. Rejeitamos tudo e todos só para ficar com um homem assim mas depois, um dia, e nós somos assim, não expressamos as nossas desilusões, aguardamos que alguém as resolva sem dizermos nada e, quando passa o tempo de resolução e nada foi feito, acordamos e pensamos que rapidamente chegamos a uma conclusão e, meu caro amigo, quando a mulher chega a uma conclusão sobre sua vida é dose – nada a move ao contrário. Impressionante esse teu raciocínio, mas quanto mais falas sobre vocês menos vontade tenho de mudar, porque o mal não está em mim, mas sim nas vossas mudanças de vontades, e contra isso nada posso fazer. Vocês são as primeiras a apaixonarem-se por um homem e são sempre as primeiras a tirar conclusões sobre já não amarem mais o mesmo homem e que fizeram tudo para que ele adivinhasse que o amavam. Isso para mim é a própria definição de mulher como ser do sexo oposto e eu não posso viver sem esta metade que me recompõe. Não quero mudar, eu sei como eu sou e até aceito alguns excessos cometidos quando vivo com uma mulher, mas partilhar uma vida em conjunto é dar tudo e não questionar nada. Talvez seja isso que hoje faz confusão a vocês, pois outrora era isso que vos era exigido e talvez, e é uma conclusão pessoal, seja isso que vocês – sob a condição de mulher ao ver um homem a fazer o mesmo – reconheçam essa faceta e fujam para não recordar o que já sentiram e o que na realidade eu hoje estou a sentir. Se existe alguém que perceba esse sentimento sou eu, e não tu. Talvez sejas a pessoa mais sensata e nunca pensei nisso com esse pormenor, mas este é outro problema que te irá sempre acompanhar. Não ligues aos detalhes quando o que importa é o somatório dos sentimentos que sentimos. Patrícia, esquece, tenho de ir para a cama e não quero continuar este diálogo por muito mais tempo. Talvez estejamos em dimensões diferentes e provavelmente eu entrei numa dimensão onde um qualquer deus manteve os sexos mas trocou as suas formas de sentir. Talvez seja eu que estou a pagar por tudo o que fiz às mulheres noutra dimensão e agora esse mesmo deus colocou-me aqui, para sentir com o corpo de homem e o que eu há muito fiz a todas vocês. Se assim é, só tenho é de cumprir com o vosso suposto papel até ao fim para que ele tenha piedade de mim e me volte a colocar na dimensão de corpo e alma masculina. Adeus.

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Tira-me deste lugar Eu sei que estou bem agora, ou talvez transmita isso aos outros, mas por favor vem buscar-me, hoje, agora, neste preciso momento, enquanto estou a pensar o quanto te amo. Porque é que não lês os meus pensamentos quando estou a pensar em ti? Tira-me imediatamente deste lugar sombrio e eu irei amar-te ainda mais. Porquê, explica-me apenas isto. Porque é que só vejo o teu interesse em estar comigo quando eu quero estar longe de ti, longe deste lugar onde tu e eu já consumimos milhares de vezes os nossos corpos, onde tive que retirar o suor do teu umbigo, e tu simplesmente suspiraste de cansaço? Eu sei que hoje estás com a mulher que te preenche a alma, mas não acredito que já me tenhas esquecido por completo. Eu sei que fui a responsável por te abandonar, mas eu quis ver até onde lutavas pelo desejo de me quereres e nunca o demonstraste. Não digas que o fizeste, pois seria a primeira vez que mentirias e tu não o sabes fazer, pelo menos como eu. Tu neste momento és feliz? Não acredito. Apenas representas isso. Eu sei que vou continuar sozinha. Pensava eu que iria aceitar facilmente outro homem dentro de mim, mas não suporto o cheiro de outro homem. Por vezes consigo ter uma aventura, mas logo começo a imaginar como seria estar novamente contigo, e logo procuro um fantasma dentro dos meus amantes. Mas como o posso encontrar se és tu quem quero encontrar dentro deles? E tu ainda não morreste e eu não posso exigir ao teu fantasma que apareça. Por favor, agora que já admiti o meu erro, volta para mim, faz isso em nome do teu sofrimento passado. Eu sei que também sofreste, mas eu tinha de exigir isso de ti, para sentires que não és o único homem que alguma vez eu amei. Hoje sei que estava enganada a teu respeito, mas não consigo voltar atrás, sabes isso. Ela pode amar-te, mas nunca dará a sua vida por ti. Eu, ao contrário, sangro todos os dias uma dor insuportável, a qual jamais vai sarar. Tira-me deste lugar e vamos para outro lugar, onde nenhum de nós tenha estado. Vamos, eu quero ser possuída novamente por ti, quero ter os filhos que tanto desejas e nunca os irás ter com ela. Eu sei que gostas dela, mas não para mãe dos teus filhos. Eu sei do teu segredo, e nunca irás querer filhos dessa mulher, embora a respeites, mas não o suficiente para deixar esse legado à sua responsabilidade. Ela será sempre a segunda mulher da tua vida, pois sabes que eu fui e serei sempre a primeira. Isso é incontestavelmente verdade, perante a lei de Deus e dos Homens. Sente as minhas palavras, sabes que nunca consegui expressar os meus sentimentos como tu o fazias para comigo. Eu sei, eu sei, mas vem ter a este lugar que detesto só esta noite, vamos fazer amor mais uma vez. Prometo que nunca mais te vou incomodar. Acredita em mim, o que eu quero é apenas um filho teu, já que não me queres como amante, outrora tua mulher. Deixa esse legado para comigo e irás orgulhar-te do nosso filho. Eu estou aqui à tua espera, hoje, neste momento, neste preciso local que tanto gosto, porque sinto o teu odor. Vem, por favor. Vem ter comigo só esta noite. Tira-me deste local, desta órbita com o teu toque. Quero sentir-te por completo dentro de mim, não pares, nunca mais faças isso. Não te vou deixar sair de dentro de mim. Esta noite és só meu e terás que me dar um filho. Neste lugar que odeio por te amar demasiado, sonhando sempre contigo. E tu nunca irás aparecer, eu sei, eu sei.

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A voz do teu imaginário De noite, só pode ser de noite, muito tarde, de madrugada e só antes de te deitares, surge a tua voz e fico a apreciar aquele timbre que ninguém alguma vez irá ter. Nasceste para cantar. A voz é como um tufo de açúcar: ao tocar com os lábios provoca uma sensação de suavidade, mas desfaz-se logo após o toque com a língua. Desfaz-se, mas antes provoca, pela última vez, uma sensação de prazer indescritível, mas doce. Eu quero ouvir-te, mas só não permito que o ar partilhe esse prazer comigo. Canta para o meu ouvido, necessito desse puro som dentro de mim. Não quero ruído ou qualquer interferência externa à tua voz. É uma nova droga e é só minha. Não tenho de a partilhar com ninguém, mas já estou infectado, pelas doses sucessivas, todas as noites de madrugada. Não consigo abrir os olhos quando te ouço. São consecutivas vibrações de prazer que sinto por todo o corpo. Primeiro no cérebro, emanando depois para toda a corrente sanguínea, terminando sabe-se lá onde. São vibrações recicláveis – não se perdem. Eu estou lá para continuar a reproduzir como se de uma central eléctrica se tratasse. Eu forneço energia para todos os meus poros quando te ouço. Quero continuar a ter esse prazer. Não podes parar, eu tenho de te ouvir para não morrer. Eu tenho de sentir esta vibração vezes sem conta. Não te cales, não pares ou eu mato-te.

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OS ELEMENTOS


rometo que vou semear no meu quintal a semente da nossa relação. Se chover em abundância irá certamente florescer a maior amizade que alguma vez tive. Mas se pelo contrário fizer muito sol, terei a maior paixão por colher. Não irei suportar a dor quando tiver de arrancar as raízes desta paixão.

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Cenoura Existem muitos provĂŠrbios populares para expressar comportamentos, atitudes e atĂŠ valores morais, os quais se pretende incutir na sociedade. Mas se eu tivesse possibilidade de criar um para espelhar a nossa sociedade, seria o seguinte: Deve ajustar-se o tamanho da cenoura a dar, com base na dimensĂŁo dos dentes do burro.

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Laranja Dois velhos amigos voltam a encontrar-se depois de uma vida inteira ter passado por cima de ambos e muito têm agora para contar. Contudo, nunca mais se esqueceram do dia em que ambos acabaram por discutir e lutar pela única laranja que existia na pequena laranjeira da casa da avó de um deles. Neste dia de reencontro, e ainda com algum rancor, não aguentaram, e ambos perguntaram qual foi a razão daquela discussão e de algumas escoriações para ambos. Quando ambos ficaram a saber a razão abraçaram-se e choraram, exactamente da mesma forma aquando da luta entre dois adolescentes. Não pela laranja com a qual nenhum acabou por ficar, muito menos levantar como trofeu de vitória pela batalha travada, mas sim pela utilização que iriam fazer com o citrino, a qual podia ser partilhada por ambos. A sua utilização era perfeitamente compatível para ambos: Um queria o sumo da laranja e o outro queria a casca para fazer chá. E assim perderam-se duas vidas que ainda hoje podiam estar ligadas.

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Laranja amarga Estava um sol magnífico. Ele não queria sair de casa. Joana odiava quando olhava para os olhos dele e via que as intenções eram mais um fim de semana passado em casa, na condição de vegetal, diante da televisão a fazer zapping o dia inteiro e a massa muscular só iria ser exercitada para ir ao frigorífico ou então à casa de banho. Ela não suportou esse filme e saltou de imediato para cima dele e, com um simples olhar, ordenou-o a ir com ela pelo menos até ao jardim. Contrariado, e depois de muitos pulos no seu colo, Pedro levanta-se e leva-a a passear. Ao descer as escadas depara-se com o esplendor do dia. Nesse preciso momento reconhece então que a Joana, para além de lhe fazer companhia, é uma cadela que ainda o obriga a viver como pessoa, mesmo que seja por breves instantes. Pelo menos obriga-o a sair de casa, face ao cumprimento que possui em deixar a Joana despejar as suas necessidades fisiológicas na laranjeira plantada no jardim que, por sinal, dá uma laranja amarga. Naquele momento, Pedro sente-se feliz por ter a Joana, pois caso contrário seria um vegetal como tantos outros, cujo olhar é consumido pelo trabalho, não lhes permitindo ver as cores do céu. E sem uma Joana não terão com certeza a oportunidade de, neste preciso momento, apreciar as cores deste magnifico dia de Sol. Nesse preciso momento surge uma pequena lágrima no canto do olho e depara-se com Joana, ao seu canto, satisfeita por ter um dono compreensivo e sensível face às necessidades de uma cadela que exige muito pouco mediante o afecto que dá ao solitário mais mimado da cidade dos vegetais de fim de semana.


Um moscatel Ele sempre que vai a um bar não passa sem o seu fiel companheiro. Este evita sempre aparecer, mas ele faz sempre questão de o provar. Um moscatel, por favor, pede ao barman, com um tom de voz quase a suplicar e, ao mesmo tempo, de ânsia, pelo reencontro com o seu fiel amigo, o qual irá acompanha-lo toda a noite, naquela discoteca a abarrotar de gente, e que não irá falar com ninguém até sair, às seis da madrugada, quando as portas se fecharem. Aí, ele terá de se despedir do copo onde sempre esteve o seu único companheiro daquela noite e que já há muito partiu.

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Cacto Vamos ao deserto. Depois de tanta discussão acerca do destino das próximas férias de Inverno, decidiram que o melhor era ir conhecer o deserto árido e silencioso de África. Após cinco horas de voo e vários comprimidos para dormir lá chegaram a um aeroporto (só de nome) porque nada tinha de aeroporto. Tinham à sua espera um homem cuja única parte do corpo que se via eram os olhos. Vestido à tuareg, já estava a dizer que passava muitas dificuldades para criar 10 filhos de três mulheres que fulminavam a sua paciência. Depois de tanto desabafo lá conseguiram encontrar o hotel ao qual tanto ansiavam chegar para tomar um duche e começar a aventura de conhecer uma nova cultura. Nessa noite não se via nada, apenas um céu carregado de estrelas que devido à sua luz, parecia estar na eminência de uma explosão galáctica. De manhã bem cedo acordaram e ambos correram para abrir a varanda do quarto e ver com os seus olhos a primeira imagem do deserto que estava ali logo a dois passos, como se estivessem num resort à beira-mar. Após a difícil abertura das portas da varanda, devido ao acumulado de areia fina e castanha, que diariamente pretende reclamar aquela zona como sua, depararam com uma imagem crua de um horizonte amarelo de se perder de vista, com algumas ondulações pelo meio devido às dunas com mais de trinta metros de altura. Foi aí que sentiram a saudade do mar e logo começaram a imaginar o azul das ondas que aquele fundo de areia um dia proporcionou, exigindo de imediato a Deus o porquê dos seus desígnios.

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Cor Azul Todos tínhamos presente aquele dia na praia. O azul do mar ofuscava os nossos olhos. No alto da rocha ela tinha uma visão de 180º graus para toda a praia e ele tinha só em mente as ondas e como iria estar o mar nas próximas horas. Os dois decidiram ficar naquela praia pelo menos até à hora do almoço. Ele tira do carro a prancha de cor “azul anos 30” não esquecendo a sua toalha azul-turquesa que combinava com os seus calções, também eles em tons de azul. Ela, por sua vez, levava o chapéu lilás feito em papel que ele lhe tinha oferecido numa feira de artesanato na Indonésia, na última viagem de férias a surfar nas melhores esquerdas do mundo. Quando estavam na areia, os dois possuíam uma sintonia brutal. Bastava olhar e sabiam o que cada um queria. Aquele dia foi mais um. Apenas o azul era a cor que estava a dominar as suas atenções. Alguma vez estiveste nesta praia com o mar tão azul? Talvez, mas sabes como eu sou, sempre atenta à posição do Sol. Não ligo muito à água, está sempre muito fria. Tens de concordar comigo. Hoje o mar está particularmente azul. Olha como está perfeita aquela onda. Porque não vais já para dentro de água, fazer o teu surf? Estou a necessitar de estabelecer o meu diálogo com o meu deus do Sol. Após duas horas ela acordou completamente gelada e, assim que abriu os olhos, sentiu o azul do mar por cima dela. Não se manifestou. Continuou deitada, completamente encharcada, pois finalmente estabeleceu contacto entre o Sol e o azul do mar.

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Uma Onda A energia debitada numa onda é algo inimaginável. Apenas quando se está a fazer surf sobre uma onda é que podemos retirar uma pequena ideia deste poder absoluto que o mar proporciona a todos os que gostam das suas ondas. Mas surfar não é apenas “cavalgar” a onda. É saber ouvir o mar. Estamos no seu domínio e apenas podemos contemplar o quanto devemos respeitar os seus gostos e caprichos, pois não fomos convidados a entrar. Somos, isso sim, intrusos. Mas ele, o mar, não nos rejeita. Pelo contrário, recebe-nos de braços abertos com as suas ondas. E iremos surfar nos seus braços, nunca permitindo que ele nos aperte. Se isso acontecer ele, o mar, irá exigir a sua singela conquista: nós, enquanto mais um ser orgânico para a sua casa nas profundezas do oceano. Isto é o surf, por vezes faz-se surf pelas razões erradas, quando a realidade é simplesmente sentir o calor dos braços do mar sem que este nos queira para sempre. O surf é sentir este compromisso estabelecido logo na areia antes de sentir a água salgada. Ao terminar o surf e ficando de costas para o mar, ele irá chamar-nos para uma próxima jornada de ondas numa outra praia. Pouca importância o mar dá, pois sabe que um dia iremos desistir face à nossa condição humana e degradação física. Isto devido à nossa ínfima duração ou então à nossa falta de coragem. Pelo contrário, ele pode enfeitiçar-nos e aí iremos continuamente, sempre que possamos. O vício é de tal forma que um dia iremos ser confrontados com o seu brutal abraço. Os que lá ficaram nada poderão contar, mas os que conseguiram voltar dizem que nunca mais irão olhar o mar da mesma forma, pois o laço de afectividade foi brutal. A diferença apenas reside na força do abraço que o mar ofereceu como prova desse afecto.

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Vela Sabes, tenho uma vela sempre junto a mim. Nunca perguntes para que serve porque nem eu mesmo sei. Mas por vezes vejo as coisas apenas em tons de cinzento. Só de imaginar o aspecto da luz da vela ganham logo cor os meus pensamentos mais obscuros. Sabes, não tenho coragem de a acender, pois é a última vela que tenho, e a relação que criei com ela é de tal forma intensa que não a quero acender. Talvez um dia, quando eu morrer, ela será a única a chorarme e a sentir a minha falta. Ou isso ou então porque alguém a acendeu sem a minha permissão.

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O Pintor Aí estava ele com o seu cigarro aceso, a pintar a sua amada. Um rosto inconfundível. Sempre a sua amada. E, diante dos seus olhos, o quadro que ele pintava em tons de azul de veludo, cor por ele eleita quando pintava com paixão. Iria ser o último quadro que pintaria antes da sua morte, mas ele não o sabia. Pintor, porque pintas com paixão? Porque és louco pelo azul? Pintor, porquê escolheste esta vida de louco? Pintor, fica apenas com a tua amada e vive com moderação. Não, antes morrer do que viver a vida como todos o fazem. Antes ter a loucura como companheira do que ter a moral dos outros. Meu amor perdoa-me, mas nada consigo fazer para tirar uma vírgula da minha história. Eu sei que te apaixonaste por mim, mas esqueceste-te do pintor, e este é louco, louco pelo azul na tela, louco pelo calor do teu corpo. Eu sei, eu não quero perceber a vida, eu quero simplesmente que a vida me perceba, mas como, se eu sou louco? Estou a morrer, não olhes para este rosto, minha amada. Não foi com ele que te seduzi. Não deixes que ninguém me veja com este rosto de moribundo. Eu quero que o mundo fique com a imagem do pintor louco e não do pintor que está a morrer fruto da sua loucura. Não, não aceito que queiras vir comigo. Este lugar para onde eu vou só me pertence e tu tens muito que fazer antes de partir para sempre. Não queiras vir comigo, pois não posso consentir essa desgraça. Que merda este nosso amor. Como pudemos permitir que este sentimento nos levasse à loucura? Aceita a minha morte e vai-te embora. Não invoques essa palavra maldita. Foi ela que nos deixou assim e para isso já basta a minha loucura pelo azul na tela quando te pinto, meu amor. Sem ti não posso quase respirar. O que é o amor? Já alguma vez sentiram o amor intenso por alguém? Um amor intenso que corta como uma faca afiada e sem deixar marca na carne? O amor que vos levou à condenação eterna? Eu já senti, e por isso vou agora arder no inferno para sempre.

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O Quadro Ela estava diante dele de olhos fechados, como se de um momento de reflexão se tratasse. As folhas corriam pelo seu rosto. O seu ar descontraído, mas atento, estava presente no seu rosto. O som da música era intenso, a noite era longa e ambos tinham feito um compromisso: observarem-se mutuamente. Quem cede? Não importa. Ele não tirava o seu olhar dos pequenos e perfeitos lábios, mas sempre cerrados como se de um embrulho se tratasse. Ela não se sentia incomodada, mantinha sempre os olhos subtilmente fechados com as suas enormes mas perfeitas pestanas negras. As folhas continuavam no seu rosto. Ambos aceitaram a condição que lhes foi oferecida. A dele como observador, condicionado à sua posição de mortal. A dela, mais penosa, de eterna musa criada na tela por tinta a óleo.

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Um sonho com cor Eu hoje vou pintar um quadro. Diferente de todos os outros. Vou desenhar palavras. Estas têm de possuir a intensidade das tuas cores. No final terá que ficar bem patente o teu rosto e irão existir apenas três tonalidades: O Castanho-escuro da tua pele, para dar vida ao teu rosto. O Azul intenso da tua alma, espelhado num rosto com vida. O Verde suave, para demonstrar um rosto apaixonado, tal como tu és pela vida. A tela está quase pronta, mas só irás ver o meu trabalho no dia em que sentires estas palavras.

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O Poeta Como é brutal ter diante de nós uma folha de papel em branco. Como é difícil começar a escrever e, mais terrível, acabar algo que não sabemos como vai terminar. Que sensações irão produzir a quem estiver a ler o que escrevemos? Por isso é que não quis ser escritor. É por isso que sou poeta. Não necessito da folha para nada, e muito menos do papel. Detesto o branco. Quando faço um verso apenas tenho a minha boca como instrumento de escrita, e tu serás a minha folha de papel, de início em branco. Mas, depois de ouvires o que tenho para te dizer em forma de verso, transformas-te em arco-íris. Ao sentires todas as minhas palavras carregadas de emoções em forma de verso, falsas ou verdadeiras, pouco importa. Apenas interessa o que estás a sentir. Podes mentir no que sentes, mas eu saberei a verdade no momento. Basta para isso olhar nos teus olhos. É por isso que a vida de um escritor é inglória. Nunca irá sentir, e muito menos ver, o que tu estás a sentir neste preciso momento.

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A obra Destruí tudo o que até agora fiz e tu fazes o mesmo ao que te dei até aqui. Nada representa o meu “novo eu”. Odeio tudo o que fiz. Sinto asco pelas minhas pinturas. Nenhuma das minhas telas representa o novo ser que vive dentro de mim. Nesta contínua e eterna jornada pelas sensações encontrei um novo eu. Vou fazer tudo de novo, e acredita que os novos quadros vão ter mais azul, luz e brilho. Acabou o negro e os diferentes tons de cinzento. Acredita, meu antigo e velho amor, minha alma que abandonei no meio deste percurso. Irás receber novos quadros e vais ver que terás novas emoções, as mesmas que hoje eu estou a sentir.

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Pedra alta Por vezes ele tinha a necessidade de se isolar, sair com ele próprio, entrar em conflito directamente com a sua alma. Por vezes essas discussões não produziam nada, por outras eram a sua essência e condição para uma nova mudança espiritual e até física. É necessário possuir um objectivo. Não de vida, mas de tranquilidade, pensava ele enquanto caminhava naquele rochedo mesmo junto da costa. O dia estava quente, mas particularmente ventoso. A multidão estava na praia com um ar insatisfeito, pois era fim de semana e exigia-se que as condições climatéricas fossem perfeitas para um dia de Verão. Ele continuava mergulhado nos seus pensamentos, onde o vento ocupava um papel de moderador daquele longo diálogo entre ele e a sua alma. Esta defendia que tudo deveria ficar na mesma. Para quê mais uma mudança? O corpo não aguentava tantas alterações e por vezes nada resultava. Ele, por sua vez, não estava convencido dessa tese. Contudo, achava que tinha de fazer algo, desta vez diferente, para provocar mais esta mudança no seu corpo. Pensava, no entanto, que deveria primeiro traçar um objectivo. Este não seria a tranquilidade eterna, mas sim uma tranquilidade diária e só assim é que valeria a pena fazer pequenas alterações, às quais a alma se opunha. Naquele rochedo ao qual ele deu o nome de pedra alta, não por ser um rochedo que se elevava junto da praia, mas pelo facto de os seus pensamentos estarem tão altos. Demasiado altos para conseguir reunir todas as sensações que estava a captar e traduzir as mesmas em factos tangíveis. Isto de forma a convencer a sua alma a apoiá-lo em mais uma mudança que necessitava fazer no seu frágil corpo exposto ao forte vento que se sentia naquele dia de Verão à beira-mar.

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Pedra cinzenta de xisto, onde estás? Elas estão lá, não se vão embora. Estão sempre à tua espera, e é eterna esta paciência. Não reclamam, não choram de desgosto quando deixas de aparecer de forma súbdita e sem as avisar que vais demorar no teu regresso. Contudo, quando chegas novamente após uma longa semana e a 250 quilómetros de distância as pedras cinzentas da tua praia deserta fazem uma festa. Elas cantam, elas dançam, elas vestem a sua melhor cobertura. Pedem às águas salgadas do mar que lhes passem os seus sais salgados sobre o corpo para ficarem brilhantes e macias. Também contam com um sorriso das águas doces da ribeira que por vezes, mas só no Inverno, fazem o casamento entre a serra e a praia, deleitando-se pelo mar numa corrente que transforma as tuas lindas pedras de xisto em autênticas esculturas, onde tu estás sempre à procura e nunca encontraste, ainda, a tua pedra amada, aquela com que um dia sonhaste. A pedra cinzenta de xisto onde irás encontrar o rosto da tua amada que há muito partiu. Naquela mesma praia, para os fundos do oceano, onde hoje é mais uma sereia que te deixa mensagens por debaixo das tuas lindas pedras de xisto quando chegas à praia da saudade.

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A minha pedra tem o teu nome Hoje é o meu primeiro dia desta nova vida. Fui eu que a escolhi, não a encaro com convicções mas sim pelos factos que recaem sobre a minha responsabilidade. Bem sei que te fiz sofrer, mas ao fazê-lo quem ficou pior ainda fui eu. Não tenhas pena de mim, pois detesto esse sentimento, e nunca o senti por ti. O amor que senti por ti não esvaneceu. Muito pelo contrário, será uma pedra que irei sempre suportar. Agora vou viver a minha vida sozinho, não quero ninguém próximo de mim. Um dia iremos encontrarnos e talvez essa pedra seja apenas um grão de areia igual a tantos outros milhares de grãos de areia da praia onde fizemos amor, naquele dia em que nos conhecemos. Vamos torcer para que esse mesmo dia não se transforme numa erupção de lava. Nenhum de nós teria capacidade de carregar com tamanho peso assim que solidificasse. Até breve, minha paixão platónica de um dia.

O Silêncio do ruído Eu não suporto mais este silêncio. Esta voz provoca-me uma angústia profunda e nada quero fazer para tirar esta ausência de sons. Quero gritar, mas não consigo. Estou sem voz de tanto ruído provocado pela minha alma que não pára de me insultar. Como posso acabar com este ruído que vem de dentro de mim, que ninguém ouve? É uma dor que não se vê. Ninguém repara e eu não consigo expressar em palavras. Não diriam nada, pensariam que estava doido, mas na realidade a minha alma quer tudo e eu nada quero. Apenas quero tranquilidade e ela quer o caos. Tem sede de viver e pretende libertar-se de um corpo apático, de um corpo que gosta do ócio. Esta alma está presa e grita desde as profundezas para que alguém a ajude: “por favor, quero sair deste corpo nefasto. Quero viver”. ão tenho amigos. Minto, apenas tenho um e ele não sabe. Trato-o com desespero. Por vezes sou até mal-educado com ele, e isto porque morro de inveja.

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OS OUTROS


into uma extrema inveja na forma como ele vê e vive a vida. Um dia, e se tiver um filho, irei apresentar-lhe o mesmo projecto de vida. Só espero que não adopte a minha forma de viver. Se isso acontecer, irei dizer-lhe que o pai não sou eu, mas sim o meu insubstituível amigo.

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Eles os dois Como é possível ter feito isto? Nunca me vou perdoar. Éramos amigos desde que nos conhecemos como gente e, contudo, fui perguntar se ele sente por mim mais do que simples amizade, depois de eu saber pela boca dele o que de mais profundo ele guardava. E quis partilhar isso comigo. Tudo começou quando éramos crianças. Ele era dois anos mais velho do que eu e mais corpulento, pelo que sempre me protegeu nas minhas travessuras. Sempre achei estranho a protecção que me oferecia sem exigir nada em troca. Na sexta-feira passada ganhou coragem e, após trinta anos de amizade, e depois de uma garrafa de um dos melhores vinhos Alentejanos, diz: “Fique registado, e só para ti, que sempre fui homossexual e sempre tive em ti a minha fonte de inspiração como pintor que sou”. Naquele momento fiquei congelado e, quando devia estar calado, quis dizer algo de forma a cortar aquele silêncio inesperado. Proferi as palavras mais estúpidas. Disse-lhe que finalmente entendia o porquê de ter sempre sentido muito mais do que amizade e admiração e que afinal o que sempre existiu foi amor. Neste mesmo instante ele levanta-se e sai da minha casa. No dia seguinte enviou-me um telegrama a informar que eu tinha acabado de suicidar uma relação de amizade com trinta anos e que nunca mais me queria ver. Como fui capaz de ter feito uma estupidez destas? Que pretensão a minha achar que, pela sua condição de homossexual, eu fosse o seu centro da sua vida. Perdi um amigo pela estupidez de um preconceito ao qual ainda por cima não dou qualquer importância. Percebo o que ele agora sente e nada vou fazer. Gostaria que um dia ele percebesse o quão estúpido fui. O dicionário do velho amigo Ele sentia constantemente dúvidas a respeito da vida que vivia ou que lhe deixavam viver naquele castelo rodeado por pessoas que o serviam todo o dia. De colegas da mesma idade ou até mais novos, mas que mal diziam uma palavra tinham de imediato os lábios cheios de saliva a cair para o chão. De mulheres que ficavam todo o dia a ver o mesmo canal de televisão, absorvendo todos os programas deprimentes e de conteúdo duvidoso. Voltava para o seu quarto e chorava como um bebé, tentando comunicar aos seus pais que tinha fome. Enquanto limpava as suas lágrimas, num rosto desgastado pelo sol, agarrava num velho dicionário oferecido pelo seu velho amigo, já falecido há muito. E quando chegava à letra “F” ia logo ver o significado da palavra “futuro”. Aí fechava imediatamente o dicionário do velho amigo e dizia com um sorriso muito ténue, mas tranquilo: “Descansa meu velho amigo, pois é hoje que iremos festejar o nosso reencontro”.

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Sentir os outros Sentes, por vezes, que pertencer a este mundo, fazer parte de uma qualquer referência, exige tanto da nossa vontade, que acreditas que parece que nunca vais encaixar? Que a tua vontade nunca vai chegar para preencher o tão pouco que falta percorrer? Ou a distância que não se deixa consumir, e está sempre presente? Apetece-me falar contigo, apetece-me só. Às vezes posso permitir-me só fazer o que me apetece, um pouco como o paradigma lançado por um Guru lunático: “nova forma de expressão cultural”. A pretensão de que estamos sós, e de que a nossa individualidade se transpõe a quase tudo – assim dita estes tempos modernos. As pessoas são mesmo complicadas ou sou eu que penso demais?

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O Psicólogo Tinha 30 anos de idade e já era respeitado pela praça como um dos melhores psicólogos no tratamento de descompensações no foro emocional. Possuía uma vasta carteira de pacientes, maioritariamente mulheres do estrato social médio alto e alto, com carreiras profissionais de sucesso. No campo sentimental era um fracasso. Infelizmente, e para desespero das mesmas, não foi uma cadeira leccionada nas diferentes e mais prestigiadas faculdades de Economia ou Gestão. Todas as quartas-feiras tinha um encontro marcado consigo na casa de alterne mais in da capital, na qual todas as mulheres eram escolhidas a dedo pela proprietária do “atelier do prazer”, como era designado este laboratório vivo. O seu hobby era observar o comportamento dos homens para com estas mulheres esculturalmente habilitadas para serem Misses Universo de qualquer país. Ficava sempre no seu canto, já há muito eleito como spot preferencial, onde tinha um campo de observação de quase 180 graus. Era o seu laboratório de experiências do comportamento masculino. Muitas das conclusões que retirava serviam para ajudar as suas pacientes. Contudo, um dia, e sem se aperceber, depara-se com um vulto feminino a aproximar-se, que com grande admiração pergunta: “Dr. João Almeida, o que está a fazer num sítio como este? Isto não é para si”. Nesse mesmo instante ele vê que é uma das suas pacientes e uma das mulheres pela qual ele sempre tinha lutado de forma a não extravasar a linha ténue entre paciente e amante. Nesse mesmo momento percebeu que quem necessitava de acompanhamento era ele e saiu do “atelier do prazer” a chorar como uma criança que tinha pela primeira vez colocado a mão no fogo pela excitação da luz e do calor, esquecendo que também provocava dor.

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A terapeuta da fala Ela tinha um sorriso brilhante. Uma face selvagem mas dócil para quem a conhecia. Ela é jovem, ama o mar como nenhuma outra mulher. Numa manhã, ao acordar naquele quarto com janela para o mar, sussurrou ao vento que gostava de viver livre para sempre como os golfinhos que habitam as águas do oceano profundo e azul. Ela nasceu numa ilha no meio do Oceano Atlântico, daí a sua paixão pelo mar. Mas não julguem que não gosta da terra onde nasceu. Contudo, ela sabe que não pertence a lugar nenhum. É independente e possui uma liberdade interior que faz os outros se sentirem prisioneiros a preconceitos e a juízos de valores preconcebidos pela sociedade. Ela, por sua vez, apenas sente uma única prisão: a sua ligação eterna ao mar profundo e azul da sua ilha amada que a viu nascer. Certo dia veio para o continente estudar. Quer ser terapeuta da fala. Sente o chamamento interior em ajudar os que têm dificuldade em comunicar. Curioso esse sentimento para quem é tão reservada. No entanto não existe qualquer contradição, pois dentro de água liberta-se junto dos animais de grande porte (como cachalotes, golfinhos e até baleias)... é nesse mundo que gosta de viver e comunicar, mas sabe que é humana e necessita de ajudar os outros que não possuem esse privilégio. Certo dia conheceu um pequeno rapazinho que possuía uma ligeira dificuldade em dizer os “R´s” e isso a tocou da forma mais profunda que possam imaginar, pois queria que esse pequeno e tenro menino um dia crescesse e conseguisse admirar o mar tal como ela o faz. A sua tese consiste na tradução das coisas que mais gostamos e admiramos em palavras, sendo essa a forma de nos mostrarmos ao mundo como somos e aquilo em que acreditamos. Neste momento ela terminou o seu curso e licenciou-se. Hoje é terapeuta da fala, ou melhor, da comunicação, tal como defende, pois acredita que a comunicação é muito mais. É não só ajudar na recuperação de uma fala fluida e que todos possam perceber, mas também a única forma que um ser humano possui em demonstrar as suas sensações e aquilo em que de facto acredita. Segundo ela, isso deve ser passado da forma mais transparente aos outros, tal como uma baleia o faz no momento em que chama a sua cria para junto de si, e a alerta para os vários desafios daquele oceano profundo e azul que rodeia a ilha onde nasceu. Ela tem um sonho, algo que não diz a ninguém, talvez porque cuida muito bem das palavras e não as utiliza em vão devido ao seu conhecimento. O seu sonho mais profundo é um dia conseguir comunicar com a baleia que mergulha todos dias nos seus sonhos mais intensos. Acreditem que no dia em que conseguir transmitir o que sente por estes seres divinais de uma forma articulada e com um som transparente como as águas que rodeiam a sua ilha, nunca mais irá conseguir regressar a terra firme e por lá irá ficar, naquele oceano profundo e azul. Mas não será para já. Agora faz falta em terra para ajudar muitos meninos e meninas, homens e mulheres, a conseguirem demonstrar por palavras o que lhes vai na alma. Quando conseguir ajudar a todos, então esse será o seu primeiro dia eterno dentro daquele oceano profundo e azul. Nunca mais irá voltar, ficando na memória de todos os que ajudou como uma deusa, e esses serão os profetas desta nova deusa que irá nascer – A deusa da fala. A mulher que conseguiu colocar nos olhos de uma criança o brilho de um pirilampo quando comunica com os seus pais da forma mais fluida, como a brisa pela manhã junto do mar. A deusa que todos os surfistas irão respeitar em dias de vagas azuis como braços demolidores junto da costa. A deusa da comunicação marinha que fará com que, pela primeira, vez um ser humano consiga comunicar com uma baleia. Mas para ser deusa tem de existir um mito, e para existir um mito terá de existir um pergaminho há muito perdido. Este deve estar selado numa garrafa de cerâmica cosida pelos fornos de Saturno e que viajou durante muitos e muitos anos pelo oceano e um dia um pescador da sua ilha a irá encontrar. Quando retirar a garrafa das suas redes, estarão escritas as treze formas de comunicar com todos os seres marinhos, incluindo o mar. Na sua assinatura constarão apenas duas letras: um “T” e um “E”, mas 67


será sempre conhecida por todos os habitantes desse oceano profundo e azul como a “Piripin”. E nesse mesmo dia, quando o mundo ficar a conhecer este nome, o tal rapazinho que possuía dificuldades na fala, hoje um simpático velho e lobo do mar, irá sorrir e, com algumas lágrimas salgadas naquele rosto queimado pelos longos anos expostos ao sol junto do mar, saberá não só dizer correctamente a palavra, mas também será o único conhecedor do significado da mesma.

Palavras Como é divinal o poder das palavras. Estas têm a solução para tudo. No entanto, o homem pouco ou nada lhes dá importância. Com elas podemos dizer tudo, expressar a nossa raiva, ira até. Podemos expressar compaixão ao próximo e, porque não, demonstrar os nossos mais intensos e profundos sentimentos? No entanto a realidade é outra. Utilizamos a forma mais banal e superficial, este poder que é só nosso. Eu gostaria de ter esse dom de dizer tudo o que penso por palavras em qualquer momento, fosse qual fosse a circunstância ou estado de espirito. Mas vedaram-me esse poder, talvez por ser viciado nas palavras ou porque escrevo o que não sinto. Gostava de escrever da mesma forma quando, com toda a naturalidade, o sentimento por uma mulher bonita nos obriga a utilizar palavras que a façam sentir-se desejada e, porque não, amada, mesmo que tal não aconteça. Amor, sedução, encanto, Olhar, ternura, beijo, desejo, Boca, toque, sabor, liberdade, vontade, Alma, saudade, eternidade, sensação, ansiedade, imaginação, Ódio, ciúme, morte, insubstituível, Lua, areia, pedra, ilha, palmeira, frio, Sol, vida, mar, terra, paraíso, quente, Terror, solidão, deserto, inferno, e fim. São estas as palavras para descrever não o amor que sinto pelas mesmas, mas a paixão que tenho quando as escrevo.

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Estou triste Na noite, nesta viagem de regresso ao meu “não sítio”, nas luzes espelhadas, reflectidas no vazio que sinto, estou triste. As lágrimas correm e sulcam a minha alma. Esvazias-me porque não me deixas acreditar. Levamos tanto tempo a perceber o que deve ser tão fácil de sentir. Esbarras a porta a tudo isto porque no teu espaço não cabe a minha vontade de te amar. Não consigo fingir que não me deixas triste. Não quero mais sentir a mágoa do que podia ter sido e não foi porque não quiseste. Não me vou impor! Não te vou explicar como te amo e quero, porque está desenhado e escrito, na geometria desorganizada da minha pele, da minha alma. Não vou ter escudo nem espada e toda a artilharia inventada para me proteger. Na mágoa encontro a destilação dos nossos sentimentos. Nas lágrimas a confirmação da nossa derrota. Nesta batalha, como em todas as batalhas, a vitória não pode ser assim tão importante. E o que se perdeu? E o que foi irremediavelmente quebrado e destruído? As memórias que não brotaram porque não tiveram direito à vida? Já não me lembro do cheiro confortável da solidão. Agora incomoda-me! Não tenho o vazio inconsciente. Agora despede-se de mim com um beijo de boa noite e, quando o dia chega, abraça-me e pede de mim toda a réstia da minha vontade. Não te quero aos pedaços, nem sequer te vou pedir para encaixar. Não te digo para me deixares de magoar, porque não te cabe a ti essa decisão. Os sentimentos não se comandam, não se gerem mecanicamente. Não encerram o nosso livre arbítrio. Não se decidem. Não, não serve assim. Porque não nos alimenta. Porque não tens a coragem e disponibilidade para amar. Estou triste, porque és a história que vivi. Estou triste, porque mesmo no adeus final, vais dilacerar o meu ser e vou ter de continuar a sobreviver.

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Gostava, mas não consigo. Tinha de o fazer, mas não consigo. Estou paralisado na vontade de fazer o que quer que seja. Posso tomar a decisão, mas depois o corpo não reage. É lamentável este sentimento ou esta falta de motivação. Mais lamentável ainda é não querer saber a razão de ter chegado a este patamar de estagnação na minha vida. Todos temos ou pensamos possuir o controlo de nós próprios, mas muito nos enganamos. É difícil admitir, mas levamos muitos anos para nos conhecermos, sendo o objectivo morrer com a noção de quem era aquele corpo que habitámos durante uma vida e que nos obrigou a fazer determinadas tarefas que nos deram prazer e outras até dor. Eu apenas pretendo morrer com tranquilidade. Conhecer-nos não é o objectivo, mas viver com tranquilidade nesta coabitação entre o corpo e a mente, esse sim é um desafio. Por agora, estou a tentar descobrir essa tranquilidade. Para isso é necessário estar atento aos sinais do dia e aos sons da noite. A razão de ser-se estúpido Existe sempre uma razão para não fazer aquilo que mais temos vontade de fazer. Talvez o problema seja nosso ou dos preconceitos a que estamos sujeitos todos os dias pela sociedade em que vivemos. Mas se tu realmente desejares algo de uma forma desesperada como, por exemplo, amar, ou porque não odiar, então deixam de existir razões e passas a possuir sensações. Sensações essas que são do teu foro psicológico. Contudo, altera o estado físico do corpo e quando assim o é ou for, por favor, ama ou odeia, mas liberta algo que esteja dentro de ti. Não te deixes ficar apático. Vai e luta pelo teu amor ou ira, faz qualquer coisa. Não fiques parado, passa para a acção mesmo que não sejas correspondido, executa o que o teu corpo ordena, ou então morres estúpido como todos os outros iguais a ti. Mas pelo contrário, quando alguém te amar não faças nada, sente apenas essa sensação e absorve continuamente essa energia que estão a depositar no teu ser. Se exigirem o mesmo de ti, tu simplesmente irás dizer que há muito te esqueceste como se faz para amar alguém. Deixa que alguém ame por ti, exige isso, caso contrário deixarás de ser o estúpido que já és como todos os outros iguais a ti.

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O cansaço de viver Todos somos iguais. Quando somos jovens somos invencíveis, ninguém nos pode tocar, nada temos a perder. Contudo, o tempo vai passando como as ondas ao rebentar sobre as pedras de uma encosta, e se estas se desgastam com o tempo, também nós ficamos frágeis. A lei de Darwin é forte de mais para contestar, e só pensamos nela quando já estamos fracos, impotentes de reagir e sabemos que alguém irá substituir-nos para que esta espécie seja salvaguardada. Apenas podemos desejar que essa substituição seja feita por alguém com o mesmo código genético e não por outro que nada teve ou partilhou nos esforços de conquista ao império agora deixado. Existe, contudo, algo que o tempo não nos pode roubar: as nossas convicções. O desejo que temos em continuar vivos, mesmo que seja na mente dos amigos que cá deixamos. Para isso só temos é de procurar a fórmula de sermos eternos, e não será com certeza pelo facto de termos praticado o bem ou seguido todos os códigos ditados por qualquer sociedade onde estivéssemos ou ainda pertencemos. Temos de deixar obra. Esta deve ser feita em função dessas convicções, não interessa se foi através da realização de uma ponte, casa, livro ou pintura. A arte é de facto a única coisa que divide o homem do animal. Esta tem de ser expressa de forma livre e sem preconceitos, caso contrário, e condicionada a constrangimentos sociais, políticos ou religiosos, deixa de ser arte e passa a ser matéria de manipulação de multidões de fraco espírito. Não aceito a condição de mortal. Vivemos muita coisa e saboreamos muito pouco para num segundo fechar os olhos e tudo ter terminado. Não interessa para onde vou, isso pouco importa. Não acredito em segundos mundos ou no bem e no mal. Apenas acredito que tudo o que for realizado através da arte será perpétuo.

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O Guerreiro cobarde Ele era um líder. Um guerreiro do seu tempo. Ganhou todas as batalhas em que entrou. Os seus inimigos queriam-no como amigo só para não combater com ele. Todos o temiam. Mas ninguém sabia que era um guerreiro cobarde, e esta cobardia advinha simplesmente de uma condição: apenas temia ser derrotado e por isso estava sempre a combater. Quando soube que iria morrer devido a um vírus pegou no seu punhal e suicidou-se. Nas portas da morte, e quase moribundo, disse: “Tal como na natureza, antes predador que ser presa, antes comer que ser comido por ti”.

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Dor Sempre me fez imensa confusão pensar onde começa a dor e termina o prazer. Existe um oposto que se toca, pois ambos são momentos involuntários. Será que éramos capazes de viver sem a dor? Colocávamos em causa o desaparecimento também do prazer? O pior da dor é aquela que não se vê e acompanha-nos na mente. Sensação de impotência, porque está sempre presente mesmo que não queiramos. Percebo agora o porquê da palavra sentimento.

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37 Graus Eram 13:30 da tarde de uma segunda-feira de Agosto em Lisboa. Um calor abrasador. Não se via ninguém na rua. Era a hora habitual em que saía para ir trabalhar num dos escritórios mais importantes de advocacia. Ao entrar no carro e ligar a chave depara que a temperatura no interior estava nos 37 graus. Liga de imediato o ar condicionado e sai do carro, aguardando uma temperatura dentro do habitáculo para valores aceitáveis de habitabilidade no seu Jaguar de 1999. Subitamente depara-se com uma visão avassaladora. Uma jovem mulher a sair do mesmo edifício que o seu e a descer a rua que faz esquina. Era indescritível o que ele estava a ver. Na casa dos 30 anos de idade, loira, um metro e setenta de altura, totalmente bronzeada. A cor da pele estava num tom como o de um cappuccino cremoso logo acabado de se fazer, brilhando de forma esplendorosa a cada passo que dava por baixo daquele sol escaldante. Levava consigo uma mini-saia e uma blusa de alças, ambas de cor bege, sapatos extremamente confortáveis e via-se isso pela forma descontraída como andava. Ele ficou abismado com o único ser que estava a movimentar-se na rua com aquele calor insuportável. Após cinco minutos, tempo suficiente para o seu Jaguar estar na temperatura ideal, seguiu o seu percurso habitual, tentando esquecer-se da miragem com que tinha sido confrontado. Após percorrer duas ruas e virar na segunda rotunda à esquerda, depara-se com o trânsito interrompido devido a uma ambulância do INEM estar a recolher um idoso da sua residência, em virtude do intenso calor que se estava a sentir. Aí parou a sua viatura, aguardando que aquele ser dependente de tudo e de todos fosse transportado para dentro da ambulância e, sensível ao estado de impotência que todos nós temos quando somos velhos e sem valor para a nossa sociedade, volta à mente aquela mulher que pode ser a sua musa que cedo perdeu. Farto de estar à espera e não querendo continuar a assistir àquele espectáculo deprimente, pelo que já estava a colocar-se o idoso na sua posição, resolve pela primeira vez alterar o seu percurso habitual e contorna a rotunda mais uma vez, virando agora à sua direita, o que dá acesso à avenida principal. Contrariado pelo facto de ter de fazer um desvio de quinhentos metros no seu percurso normal para o seu trabalho, e já depois de ter, por momentos, esquecido a sua musa, depara-se com aquela mulher novamente no passeio mesmo ao seu lado a passar de forma concentrada, mas descontraída no seu andar. Ele implora que o semáforo não passe à condição de verde dando ordem para avançar. Perde as

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forças nas mãos e larga o volante por completo. Deseja que aquele momento fique eterno, ainda que o mundo continuasse a girar, mas sem a sua intervenção, por forma a poder observar mais uma vez, e talvez a única, a sua fisionomia, e em especial a sua cara, que ainda não tinha observado convenientemente, sabendo apenas que era linda de morrer. Naquele momento, e ela ainda se encontrava longe do seu alcance óptico apropriado, como se estivesse a seleccionar a qualidade de um produto acabado de sair na sua linha de montagem, o sinal torna-se verde e, por seu desespero, não consegue colocar o seu Jaguar em movimento. Quase que se sentia obrigado a baixar o vidro e perguntar se necessitava de ajuda, como se de uma turista se tratasse, tentando encontrar uma rua que levasse a um dos monumentos da cidade de Lisboa. Esta determinação levou segundos, mas parecia uma eternidade. Não estava nenhum carro atrás que o pressionasse. Contudo, não conseguiu manter por muito mais tempo aquela determinação e, olhando para a frente, coloca o Jaguar em marcha e segue, não retirando dela o seu olhar, ainda que por períodos intermitentes, no espelho do retrovisor. Naquele momento sentiu um alívio pelo facto de não ter conseguido fazer aquilo que o seu coração tinha ordenado, mas ficou destroçado, pois sabia que se o tivesse feito teria existido alguma interacção com a sua musa. Aí começou a sair uma lágrima de forma subtil pela face do lado esquerdo e veio à sua mente mais uma vez a sua bela amada, que tinha falecido há mais de dez anos, o que fez com que nunca mais conseguisse falar com outra mulher. Ao chegar no seu escritório sentou-se na sua secretária, abriu o seu portátil e decidiu escrever uma carta à sua amada: Marta espero que estejas bem onde quer te que encontres. Hoje o dia começou mais uma vez com um calor extremo. Escrevo-te apenas para dizer que se não regressares rapidamente irei esquecer-te e digo-te isto com a maior convicção. Não pretendo continuar a ter alucinações, visões ou miragens contigo na rua. Já chega, estou cansado e não consigo mais. Hoje tomei uma decisão. Quero acabar tudo contigo. Nunca mais me procures, nunca mais respondas aos meus pensamentos, desaparece. Eu vou tentar esquecer-te e desta vez é para sempre. Um beijo, daquele que te ama mais do que tu a ti em alguma altura da tua existência.

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Acabou Estou farto de falar, ningu辿m me ouve. Sinto-me rodeado por uma multid達o opaca, sem cor, cheia de preconceitos. O constrangimento social reflecte-se em tudo o que se faz, no que se veste, no que se consome. Basta. N達o vou aceitar por mais tempo este conceito de vida. Senhor enfermeiro, por favor, abra imediatamente a porta e desamarre este colete branco que me sufoca. Acabou, n達o quero sentir-me protegido desta sociedade. Muito menos sentir-me um privilegiado.

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Sensação de liberdade Diz-me porque é que tu não aceitas a forma como sou? Apenas da forma como sou, perguntou ela ao João da forma mais desesperante, no momento em que ainda restava alguma esperança naquela relação amorosa que já há muito estava terminada. Contudo, ela não queria perdê-lo, ou pelo menos não sabia que o tinha já perdido. Aliás, era a única coisa que tinha por resolver na vida. Depois de ter combinado em ir viajar com o João e com o seu melhor amigo, João simplesmente não apareceu, e o seu amigo sabia antecipadamente que ele não iria estar. Contudo, deixou-a à vontade para que ela desistisse. Mas não o fez e foram os dois naquela viagem – por si já condenada – carregada de ódio e de desilusão. Ela simplesmente pensava, a cada quilómetro percorrido: “como foi ele capaz de me fazer tal coisa?”. Quando chegaram ao destino qualquer sentimento pelo João tinha ficado adormecido. Sentiu uma sensação de liberdade pelo facto de ter encontrado o antídoto para curar aquela doença que se chamava João. Ela finalmente sentiu a necessidade de se tornar egoísta e pensar só no que se sente num determinado momento. A questão era tomar ou não a iniciativa e passar para a acção. Mas isso era o que a impedia e o facto de não saber quais seriam as consequências de tal decisão deixava-a ainda mais apática e inerte. Ela queria mostrar ao Pedro como também era capaz de ser egoísta nos sentimentos que sentia. Mas não conseguiu e falhou por completo. Nesse preciso momento começou a chorar da forma mais convulsiva que se pode imaginar, e vindo do nada, encostou-se junto do ombro do seu novo amigo. Pedro, depois de ter vivido o mesmo, mas noutra dimensão, disse-lhe: “Eu sei desde o primeiro momento o que sentes, mas esqueces que antes de ser egoísta tens de te perder e tornar a encontrar o teu ‘eu’. Aí irás perceber que só existes tu e os outros serão apenas a matéria-prima para tu poderes criar a obra perfeita”. E quanto ao João, já está criado. Não queiras destruir o que foi já pensado e esculpido. Faz a tua própria escultura e nunca tentes copiar o que já existe. Vais ver que terás o teu amor-perfeito feito só por ti. Só nesse dia irá nascer dentro de ti uma sensação de egoísmo, mas também uma sensação de liberdade.

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CONCLUSテグ


A dedicatória Poderia escrever uma dedicatória, talvez esse fosse o objectivo, mas como gosto de projectar diferentes realidades resolvi escrever uma história sobre ti. Pode ser verdadeira ou apenas fruto da minha imaginação, mas numa coisa podes crer, é como se de uma tela tratasse, com o teu rosto imbuído em tons de azul. Como não fui abençoado pelo dom do desenho, fiquei pelo conto. Só espero que gostes dos diferentes tons de azul. Contudo, o teu rosto em perfil encontra-se desenhado, basta ler com alguma atenção. A única maneira de eu saber que um dia irás receber esta dedicatória em forma de tela escrita com o teu rosto é coloca-la numa garrafa de cerâmica cozida nos fornos de Saturno e jogá-la ao mar. O mesmo mar que circunda a ilha onde tu nasceste e da qual um dia partiste, sem partilhares a dor da despedida com alguém. Talvez um dia a queiras abrir quando a encontrares. Até lá deixa-me sentir saudades tuas. Se também sentires saudades minhas, volta a tapar e devolve novamente ao mar. Certamente que um pescador a irá recolher nas suas redes de pesca e irá criar uma nova deusa com o teu nome. Todos irão desconhecer o significado desse estranho nome excepto eu, que o criei só para ti.

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FIM

Espelho Meu  

Livro: Espelho Meu Autor: Oscar Mendes Ilustraçoes e Paginaçao: Andre Santos

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