Page 1

Traduテァテ」o de Eliana Aguiar

E D I T O R A RIO

DE

JANEIRO

R E C O R D 窶「

2009

S テグ

PAU L O


Nota do autor

A literatura criminológica começou a tratar dos “aliciadores” referindose ao desenvolvimento do fenômeno das seitas. Um tema áspero, que levanta inúmeros problemas. A maior dificuldade é exatamente criar uma definição de “aliciador” que possa ser usada para fins processuais, pois investe diretamente as categorias da imputabilidade e da punibilidade. De fato, lá onde não existe um nexo causal entre a atividade do culpado e a do aliciador, não é possível trabalhar com a hipótese de algum tipo de crime a cargo deste último. O recurso à figura da incitação à delinquência mostrou-se, em muitos casos, muito débil para garantir uma condenação. Porque no caso dos aliciadores a coisa vai muito além da simples incitação. A atividade de tais indivíduos diz respeito a um nível subliminar de comunicação que não acrescenta uma intenção criminosa à psique do agente. No máximo, faz emergir um lado obscuro — presente de maneira mais ou menos latente em cada um de nós — que em seguida leva o sujeito a cometer vários crimes. É emblemático, a tal propósito, o caso Offelbeck, de 1986: a dona de casa que recebe ligações de um interlocutor anônimo e depois, um belo dia, resolve de uma hora para outra exterminar a família colocando veneno de rato na sopa. A isso devemos acrescentar que os que se envolvem em crimes hediondos tendem a repartir a responsabilidade moral com uma voz, uma visão ou um personagem fantasioso. Portanto, torna-se particularmente difícil distinguir quando tais manifestações são fruto de comportamentos psicóticos e quando, ao contrário, são realmente remissíveis à obra invisível de um aliciador. Entre as fontes utilizadas neste romance, além dos manuais de criminologia, psiquiatria forense e textos de medicina legal, é preciso citar os estudos realizados pelo FBI, cujo mérito deve ser reconhecido: de ter criado o mais precioso banco de dados em matéria de serial killers e crimes violentos. Muitos entre os casos citados nestas páginas realmente aconteceram. Em alguns casos, nomes e locais foram oportunamente trocados, pois seus


percursos investigativos e processuais ainda não podem ser considerados totalmente concluídos. As técnicas de investigação e de perícia descritas no romance são reais, embora em algumas circunstâncias o autor tenha se permitido a liberdade de adaptá-las às necessidades narrativas.


Prisão de Distrito Penitenciário nº 45. Ofício do diretor, Dr. Alphonse Bérenger. 23 de nov., c. a. Aos cuidados do Gabinete do Procurador-Geral J. B. Marin Assunto: CONFIDENCIAL Caro Sr. Marin, Tomo a liberdade de escrever para informá-lo sobre o estranho caso de um de nossos detentos. O elemento em questão é o número de matrícula RK-357/9. Só nos referimos a ele desse modo, visto que nunca forneceu seus dados pessoais. Sua prisão pela polícia ocorreu em 22 de outubro. O homem vagava de noite — desacompanhado e sem roupas — numa estrada secundária da região de

.

Confrontando suas impressões digitais com as que temos nos arquivos, exclui-se a possibilidade de um envolvimento em crimes precedentes ou em casos não solucionados. Todavia, a recusa reiterada a revelar a própria identidade, mesmo diante de um juiz, acarretou uma condenação a quatro meses e 18 dias de prisão. Desde o momento em que colocou os pés na penitenciária, o detento RK-357/9 não deu mostras de indisciplina e sempre respeitou o regulamento carcerário. Ademais, é um elemento de índole solitária e pouco inclinada à socialização. Talvez por isso ninguém tenha percebido um comportamento particular, que um dos nossos guardas só notou recentemente. O detento RK-357/9 limpa e esfrega com um pano de feltro todos


os objetos com os quais entra em contato, recolhe todos os pelos e cabelos que perde cotidianamente, lustra perfeitamente os talheres e o vaso sanitário a cada vez que os usa. Estaríamos, portanto, diante de um maníaco por limpeza ou, mais provavelmente, de um indivíduo que quer evitar a qualquer custo deixar vestígios de algum “material orgânico”. Nutrimos, consequentemente, a séria suspeita de que o detento RK 357/9 tenha cometido algum crime de particular gravidade e queira nos impedir de coletar material para um exame de DNA capaz de identificá-lo. Até hoje, o elemento compartilhou sua cela com outro recluso, o que certamente facilitou sua tarefa de confundir os próprios traços biológicos. Mas posso garantir que, como primeira medida, ele já foi retirado dessa condição e colocado em isolamento. Informo o acima relatado a seu Gabinete para que possam dar início às investigações e pedir, se necessário, um mandado de urgência do Tribunal para obrigar o detento RK 357/9 a fazer um exame de DNA. Tudo isso levando sempre em conta que daqui a exatamente 109 dias (em 12 de março), o elemento acabará de cumprir sua pena. Com meus respeitos, Diretor Dr. Alphonse Bérenger


1

Um lugar perto de W. 5 de fevereiro. A grande mariposa o transportava, movendo-se de memória pela noite. Vibrava as asas poeirentas, fugindo da vigilância das montanhas, quietas, ombro a ombro como gigantes adormecidos. Acima deles, um céu de veludo. Abaixo, o bosque. Denso. O piloto virou-se para o passageiro e indicou um enorme buraco branco no chão diante deles, parecido com a garganta luminosa de um vulcão. O helicóptero foi naquela direção. Aterrissaram depois de sete minutos num acostamento da rodovia estatal. A estrada estava fechada e a área, cercada pela polícia. Um homem de terno azul veio receber o passageiro debaixo das hélices, segurando com dificuldade uma gravata que teimava em voar. — Seja bem-vindo doutor, estava lhe esperando — disse bem alto, para superar o barulho dos rotores. Goran Gavila não respondeu. O agente especial Stern continuou: — Venha, vou explicando no caminho. Encaminharam-se para um local acidentado, deixando para trás o rumor do helicóptero que retomava seu rumo, sugado por um céu de chumbo. A bruma deslizava como um sudário, despindo os perfis das colinas. Ao redor deles, sentiam-se os perfumes do bosque, misturados e suavizados pela umidade da noite que subia pelas roupas e roçava gelada sobre a pele. — Não foi nada simples, posso garantir: tem que ver com seus próprios olhos. O agente Stern seguia alguns passos à frente de Goran, abrindo caminho com as mãos entre os arbustos e falando sem olhar para ele.


12 — Tudo começou hoje de manhã, por volta das 11 horas. Dois meninos percorriam as trilhas com seu cachorro. Entraram no bosque, subiram a colina e desembocaram na clareira. O cão é um labrador: sabe como gostam de cavar... Resumindo, o bicho ficou louco assim que farejou alguma coisa. E escavou um buraco. Foi quando apareceu o primeiro. Goran tentava manter o ritmo enquanto penetravam a vegetação cada vez mais densa ao longo da encosta cada vez mais íngreme. Notou que as calças de Stern tinham um pequeno rasgão na altura do joelho, sinal de que já tinha feito o trajeto várias vezes naquela noite. — Claro que os meninos fugiram correndo e avisaram a polícia local — prosseguiu o agente. — Eles chegaram, examinaram o local, recolheram amostras, indícios, ou seja: todo o procedimento de rotina. Depois alguém teve a ideia de continuar escavando para ver se encontravam mais alguma coisa... e surgiu o segundo! Nessa altura dos fatos, resolveram nos chamar. Estamos aqui desde as 15 horas. Ainda não sabemos quanta coisa há lá embaixo. É aqui, chegamos... Diante deles abria-se uma pequena clareira iluminada pelas luzes fluorescentes — a boca de luz do vulcão. De repente, os perfumes do bosque sumiram e os dois foram envolvidos por um odor inconfundível. Goran levantou a cabeça, deixando-se invadir pelo cheiro. “Ácido fênico”, pensou. E viu. Um círculo de pequenas fossas. E cerca de trinta homens de macacão branco escavando sob a luz fria e marciana, munidos de pequenas pás e pincéis que removiam a terra delicadamente. Alguns revistavam a relva, outros fotografavam e catalogavam cuidadosamente cada amostra. Moviam-se em câmera lenta. Seus gestos eram precisos, calibrados, hipnóticos, envoltos num silêncio sacramental, violado de vez em quando apenas pelas pequenas explosões dos flashes. Goran identificou os agentes especiais Sarah Rosa e Klaus Boris. E Roche, o inspetor-chefe, que o reconheceu e dirigiu-se em grandes passadas até ele. Antes que pudesse abrir a boca, o criminologista se antecipou com uma pergunta. — Quantas? — Cinco. Cada uma com 50 centímetros de comprimento por 20 de


13 largura e mais 50 de profundidade... Na sua opinião, o que pode estar sepultado nessas covas? Em todas, uma coisa. A mesma coisa. O criminologista o encarou, à espera. A resposta chegou: — Um braço esquerdo. Goran desviou os olhos para os homens de macacão branco, empenhados naquele absurdo cemitério a céu aberto. A terra só devolvia restos em decomposição, mas a origem daquele mal era anterior àquele momento suspenso e inconcebível. — São elas? — perguntou Goran. Mas dessa vez já conhecia a resposta. — Segundo as análises de DNA são mulheres. Caucasianas, além do mais, entre os 9 e 13 anos... Meninas. Roche tinha pronunciado a frase sem nenhuma inflexão na voz. Como uma cusparada daquelas que deixam a boca amarga se ficarem muito tempo guardadas. Debby. Anneke. Sabine. Melissa. Caroline. Tinha começado 25 dias antes, com uma notícia em um jornaleco de província: o desaparecimento de uma jovem estudante de um renomado colégio para filhos de ricos. Todos pensaram numa fuga. A protagonista tinha 12 anos e se chamava Debby. Os colegas se lembravam de tê-la visto sair no final das aulas. No dormitório feminino, só notaram sua ausência na hora da chamada noturna. Tinha todo o jeito de ser uma daquelas histórias que conquistam um pequeno artigo na terceira página e depois vão minguando até uma notinha, à espera de um previsível final feliz. Mas, em seguida, desapareceu Anneke. Aconteceu num povoado de casinhas de madeira, com uma igreja branca. Anneke tinha 10 anos. No início, pensaram que tinha se perdido nos bosques, onde costumava se aventurar com sua mountain bike. Toda a população local participou dos grupos de busca. Sem sucesso, entretanto. Antes que pudessem se dar conta do que realmente estava se passando, aconteceu de novo.


14 A terceira se chamava Sabine e era a mais nova. Tinha 7 anos. Aconteceu na cidade, sábado à noite. A família a levou ao parque de diversões, como tantas outras famílias com filhos. Montou num cavalinho do carrossel, que estava cheio de crianças. A mãe a viu passar pela primeira vez e acenou para ela. E na segunda também, repetindo o gesto. Na terceira vez, Sabine já não estava mais lá. Foi só então que começaram a suspeitar de que o desaparecimento de três meninas no intervalo de três dias tinha algo de anormal. As buscas tiveram início em grande estilo. Fizeram apelos pela televisão e logo começaram a falar de um ou vários maníacos, talvez um bando. Na realidade, não havia elementos suficientes para formular uma hipótese investigativa mais apurada. A polícia criou uma linha telefônica especial para receber informações, mesmo que anônimas. Foram centenas de pistas: para verificar todas elas seriam necessários alguns meses. Mas nem sinal das meninas. Além do mais, como os desaparecimentos aconteceram em lugares diversos, as polícias locais não conseguiam chegar a um acordo sobre a jurisdição. Só então o Departamento de Investigação de Crimes Violentos, dirigido pelo inspetor-chefe Roche, foi chamado a intervir. Os casos de desaparecimento não entravam em sua competência, mas a paranoia crescente aconselhava uma exceção à regra. Roche e seus homens já estavam mergulhados no caso quando desapareceu a menina número quatro. Melissa era a mais velha: 13 anos. Como todas as meninas de sua idade, foi submetida a um toque de recolher pelos pais, temerosos de que pudesse ser a próxima vítima do maníaco que aterrorizava a região. Mas a reclusão forçada coincidiu com o dia de seu aniversário e Melissa tinha outros planos para aquela noite. Tramou um pequeno plano de fuga com as amigas para comemorar a data num salão de boliche. Todas as colegas chegaram. Melissa foi a única que não apareceu. Desde então, teve início uma caça ao monstro, muitas vezes confusa e improvisada. Os cidadãos se mobilizaram, prontos a fazer justiça com as próprias mãos. A polícia encheu as estradas de barreiras, e o controle dos elementos já condenados ou suspeitos de crimes contra menores ficou mais rígido. Os pais não se sentiam seguros nem de mandar os filhos à escola. Muitas


15 instituições foram fechadas por falta de alunos. As pessoas só deixavam suas residências quando era absolutamente necessário. Depois de uma certa hora, os povoados e cidades ficavam desertos. Por dois ou três dias não se teve notícia de novos desaparecimentos. Várias pessoas começaram a acreditar que todas as medidas e precauções adotadas tinham surtido o efeito esperado, desencorajando o maníaco. Mas estavam enganadas. O sequestro da quinta menina teve ainda mais repercussão. Chamava-se Caroline, 11 anos. Foi sequestrada em sua própria cama, enquanto dormia no quarto colado ao dos pais, que não perceberam nada. Cinco meninas no curso de uma semana. Depois, 17 longuíssimos dias de silêncio. Até aquele momento. Até aqueles cinco braços sepultados. Debby. Anneke. Sabine. Melissa. Caroline. Goran voltou os olhos para aquele círculo de pequenas covas. Uma ciranda macabra de mãos. Quase teve a impressão de ouvi-las cantar uma cantiga. — Depois disso, fica claro que não são simplesmente alguns casos de desaparecimento — dizia Roche, ao mesmo tempo que, com um gesto, convocava todo o pessoal a se reunir em torno dele para uma breve preleção. Era um hábito. Rosa, Boris e Stern aproximaram-se, prontos para ouvir, com o olhar fixo no chão e as mãos cruzadas atrás das costas. Roche começou: — Estou pensando no sujeito que nos trouxe até aqui esta noite. Naquele que providenciou para que tudo isto acontecesse. Estamos aqui porque ele quis, porque ele imaginou e construiu tudo isto para nós. Porque este espetáculo é para nós, senhores. Só para nós. E foi preparado com cuidado, o momento foi degustado com antecedência, imaginando a nossa reação. Para nos surpreender. Para que soubéssemos o quanto ele é grande e poderoso. Concordaram. E quem quer que fosse o artífice, tinha agido sem ser incomodado. Roche, que para todos os efeitos já tinha incluído Gavila no esquadrão há muito tempo, percebeu que o criminologista estava distraído, os olhos imóveis seguindo algum pensamento.


16 — E você, doutor, o que acha? Só então Goran emergiu do silêncio que tinha se imposto, dizendo apenas: — Os pássaros. Num primeiro momento ninguém pareceu entender. Ele prosseguiu, impassível: — Não notei quando cheguei, só percebi agora. É estranho. Ouçam... Da escuridão do bosque elevava-se o canto de milhares de pássaros. — Estão cantando — disse Rosa, espantada. Goran virou para ela e fez um gesto de concordância. — São as fluorescentes... Acharam que era a luz da aurora e começaram a cantar — comentou Boris. — Acham que isso faz sentido? — retomou Goran, dessa vez olhando para eles. — Pois faz... Cinco braços enterrados. Pedaços. Sem os corpos. Pode-se dizer que não há nenhuma verdadeira crueldade em tudo isso. Sem os corpos, não há rostos. Sem os rostos, não há indivíduos, não há pessoas. Só nos resta perguntar: onde estarão essas meninas? Porque não estão ali, naquelas covas. Não podemos olhá-las nos olhos. Não podemos perceber que são iguais a nós, porque, na realidade, não há nada de humano nisso. São apenas partes... Nenhuma compaixão. Ele não permitiu. Deixou-nos somente o medo. Não se pode sentir compaixão pelas pequenas vítimas... Ele quer nos dizer apenas que estão mortas... Acham que isso faz sentido? Milhares de pássaros na escuridão obrigados a gritar ao redor de uma luz absurda. Não podemos vê-los, mas eles nos observam — milhares de pássaros. O que são? Algo muito simples. Mas também o fruto de uma ilusão. E é melhor ficarmos atentos aos ilusionistas: às vezes o mal nos engana, assumindo a forma mais simples das coisas. Silêncio. Mais uma vez, o criminologista tinha captado um pequeno e fértil significado simbólico. Aquilo que muitas vezes os demais não conseguiam ver ou — como nesse caso — ouvir. Os detalhes, os contornos, as nuances. A sombra ao redor das coisas, a aura escura em que o mal se esconde. Todo assassino desenha seu “projeto”, uma forma precisa que lhe traz satisfação, orgulho. A tarefa mais difícil é descobrir qual é a sua visão. Goran estava ali para isso. Tinha sido chamado para isso. Para que trouxesse aquele mal inexplicável de volta à esfera das noções tranquilizantes de sua ciência.


17 Naquele instante, um técnico de macacão branco se aproximou deles e falou diretamente com o inspetor-chefe, com uma expressão confusa no rosto. — Sr. Roche, temos um problema... Os braços agora são seis.

o aliciador_Arte Final.indd 17

27.10.09 01:08:03

O Aliciador, de Donato Carrisi  

1o capítulo do livro.

Read more
Read more
Similar to
Popular now
Just for you