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somos todas CLANDESTINAS

dezembro de 2016 ISSN 2525-4871

LINHA

VERMELHA

mulheres no espaço público

Linha Vermelha | 1


EXPEDIENTE Textos Ana Rüsche, Ana Souto, Andrea Sechini, Barbara Esmênia, Camila Grande, Carina Castro, Cau Peracio, Daisy Serena, Jarid Arraes, Luíza Romão, Maria Gabriela D’Ambrozio, Natali Santos, Rafaela Carneiro, Talita Cabral, Thaís Lapa, Coletivo Pagú pra Ver Arte gráfica Deborah Erê Revisão Carina Castro Contribuições Camila Grande Fotos Luiza Snege, Daisy Serena, Carina Castro, Maria Gabriela, Heloísa Capasso, Cris Lima e Annaline Curado Ilustrações Carolina Teixeira, Luiza Snege, Deborah Erê Realização Mãe da Rua

Agradecimentos Aos coletivos parceiros: CDC Vento Leste, Centro de Referência da Dança (SP), Espaço Ritmos da Vida, Grupo Dolores Boca Aberta, Coletivo Pagú pra Ver, Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra MST, Sempreviva Organização Feminista (SOF), Marcha Mundial das Mulheres, Promotoras Legais Populares de São Bernardo, Coletivo Cê, Pombas Urbanas, Núcleo Vermelho, Madeirite Rosa, Rede Brasileira de Teatro de Rua, Movimento de Teatro de Rua de São Paulo, Trajetórias Feministas, Trupe Torpe, Grupo Teatral Parlendas, Etinerâncias, Panela Confecções, Escola Feminista e Popular Helenira Resende e Casa do Hip Hop de São Bernardo do Campo. Às/Aos camararadas: Maria Helena Ambrozio, Marcia Ambrozio, Maristela Ambrozio, Silmara Mateus, Cilze Cavalaro Peracio, Rosilene Castro, Arlete Silveira, Jade Percassi, Claudia Regina Pereira Serra, Heloísa Capasso, Luciano Carvalho, Leticia Laranjeira, Marina Morena, Marina Moll, Ana Rüsche, Luiza Romão, Carolina Abreu, MC Gabi Nyarai, Carolina Teixeira, Heloisa Capasso, Anete Abramovich, Andressa Moreira, Maria Julia Montero, Jarid Arraes, Carla Vitória, Felipe Aguiar, Fernando Castro, Wilson Cabral, João Attuy e Alberto Marques.

EDITORIAL por Carina Castro Este jornal é um mapa. De mãos feito, mãos de mulheres, que lavram, passam, criam e abrem caminhos. É partitura de composições coletivas, escritas, cantadas, dançadas pelos espaços onde traçamos a LINHA VERMELHA, peça dentro de peças, pedaços, quebra-cabeças, tretas, tetas, teias, texturas, uma mulher dentro de outra mulher dentro de outra mulher dentro de outra mulher… Nele marcamos nosso compasso, deixamos nossos rastros como desenhos pelo asfalto, subindo e descendo escadas, esperando em plataformas, antes da faixa amarela, viajando na linha vermelha, rompendo a rua novamente num fluxo constante, intenso, fluido que escorre pelo asfalto, e se faz escasso. São passos de mulheres. Muitas vezes passos apressados, desconfiados, outras vezes arrastados, lentos, coreografados. Passos em marcha, passos históricos, ousados, brincantes. São pés, pés cansados, pés animados, alados, pés de todas as cores e tamanhos, calçados, descalços, enraizados, inquietos, prestes a voar! São passos que marcam, registram e se inscrevem na história. Registramos nosso fazer artístico enquanto registramos vivências de mulheres que cotidianamente cruzamos. E também quando parimos a rua, com cara e coragem, com o impulso de alcançar outras alturas e as profundezas de tudo o que significa tornar-se mulher. Quando rompemos a rua e atuamos a céu aberto, nesse teatro que é processo e ecoa. Este jornal é punho cerrado, útero, sangue e coração: cuidado com os vãos e embarquemos na trama em constante (des)construção e (des)costura de nossa Linha Vermelha.

sobre proac por Maria Gabriela D’Ambrozio O projeto “ Linha Vermelha - investigando as mulheres nos espaços públicos”, do grupo Mãe da Rua, foi contemplado pelo ProAC - Primeiras Obras - Teatro - 2015. O Programa de Ação Cultural – ProAC, nas modalidades Editais, é um dos apoios culturais coerentes para grupos auto organizados de forma horizontal. Ao promover a ampliação e a diversificação da produção artística, contribui para ressignificação dos espaços públicos e aumenta as formas de circulação da cultura popular pelo estado de São Paulo, criando possibilidades de encontros culturais gratuitos à maioria da população. Enquanto trabalhadoras da cultura, lutamos pelo avanço das Políticas Públicas culturais e de gênero. Compreendemos esta posição política como um processo necessário para um mundo mais justo, sabendo que nela não se encontra o fim, mas o meio. Lutamos por um sistema econômico que possibilite que todas e todos possam ser artistas em seus fazeres, criando, refletindo e divertindo-se em coletivo.

Contatos do grupo: +55 (11) 95393 9477 grupomaedarua@gmail.com www.facebook.com/grupomaedarua www.grupomaedarua.org

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Rasgando o chão, (des)costurando a linha… por Maria Gabriela D’Ambrozio e Carina Castro

Mãe da Rua é um grupo artístico, autogerido por mulheres trabalhadoras da cultura. Como criadoras de nossos fazeres artísticos, de nossas condições, em coletivo fazemos poesia, teatro e canção. Ressignificamos a rua, ocupando e gerindo espaços onde meninas também possam brincar.

O grupo nasceu em meados de 2014 e o nome foi inspirado na brincadeira popular “Mãe da Rua”. Neste jogo uma(um) das(os) brincantes ocupa o meio da rua e recebe o nome de Mãe da Rua. A calçada serve às(aos) outras(os) brincantes como espaço de descanso, mas não podem ficar muito tempo sem atravessar a rua. Quando a Mãe da Rua pega alguma(o) transeunte, esta(e) se torna também mais uma(um) Mãe da Rua. O jogo acaba quando todas(os) as(os) passantes tornam-se Mãe da Rua. Brincar na rua é reinventar as regras do jogo, tornando lúdico o áspero, alargando a via (r)estrita do privado, tornando público, inscrevendo-nos e sendo produtoras da história. É interagir com passantes e brincantes. Ligando os caminhos das que vêm do passado e expandem o futuro. É a provedora que sai às ruas, anda acompanhada e cria caminhos em coletivo.

Em contrafluxo à lógica individualista mercadológica, este grupo tem o uso do espaço público, a experiência da criação em coletivo e os debates sobre desigualdades sociais, sexualidade, gênero e raça, como eixos principais para o desenvolvimento de nosso trabalho. Trazer à tona o absurdo das violências e estereótipos infringidos sobre os corpos e vidas das mulheres, provocando ao mesmo tempo reflexão e diversão, são necessidades e desejos que acompanham nossa caminhada criativa. Buscamos parcerias eficazes para a produção de uma Arte Pública - manifestação cultural gratuita e de fácil acesso à maioria da população. Este conjunto de anseios e necessidades formam nossa estética e contribuem para a realização de partilhas amplas, íntegras e coerentes. Para treinamento, ensaios e trocas de aprendizados partilhamos da organização de dois espaços públicos: Clube da Comunidade Vento Leste (Zona Leste de São Paulo), espaço auto-organizado por coletivos de cultura e Centro de Referência da Dança da cidade de São Paulo (Anhangabaú - São Paulo).

O Projeto Linha Vermelha nasceu para dar continuidade e permanência às investigações, denúncias e criações poéticas sobre os desafios das mulheres ocupantes de espaços públicos. O grupo passou por dez meses de processo de estudo sobre as lutas e conquistas das mulheres, violência de gênero, corpo das mulheres e mercadoria, patriarcado, racismo, capitalismo e transporte público. Durante a pesquisa o processo de criação também foi estimulado com treinamentos de teatro épico, criação de poesia e danças orientais. Entre tantos desconfortos, muitas descobertas. O desejo de fazer poesia de nossa condição, gerou um trabalho árduo que consideramos ainda inconcluso, a peça teatral: Linha Vermelha! Este espetáculo de rua circulou por praças da cidade de São Paulo, centros culturais de regiões periféricas do ABC Paulista e interior da Grande São Paulo. A seleção dos espaços dessa circulação foram escolhidos a partir dos seguintes motivos: as necessidades de nossas parcerias com coletivos de mulheres organizadas e grupos de cultura ocupantes de espaços públicos.

Estreia do Linha Vermelha, Anhangabaú São Paulo / Foto: Heloísa Capasso

Como mulheres trabalhadoras da cultura compreendemos o registro de nossos fazeres como necessidade e importância, um ato que nos inscreve na história e oferece referências para as que virão. Dados levantados em pesquisa da jornalista Jéssica Balbino, mostram que, “embora as mulheres, especialmente as de periferia, assumam-se como chefes de família, na literatura – desde 2004 quando as antologias dos saraus se popularizaram até 2015 – o número de mulheres escritoras, que já publicaram seus escritos, ainda é 20% inferior que o número de homens”. A falta de registro de artistas e produtoras culturais não acontece pela falta da existência das mesmas, mas sim por um silenciamento das vozes femininas. Portanto, como afirma Michelle Perrot (2012), registrar a história das mulheres é tirá-las do silêncio que foram confinadas.

Linha Vermelha | 3


primeira estação - troca quente!

Troca Quente foi como nomeamos as trocas entre mulheres que teceram momentos importantes do projeto Linha Vermelha. Pensando no que pulsa da nossa condição de mulheres artistas, trabalhadoras da cultura, puxamos assunto sobre temas que nos levaram às raízes e desdobramentos dos mesmos. Feminismo e poesia foram as faíscas que acenderam nossos encontros. Com café quente, chá e pãezinhos, passamos acaloradas e criativas tardes falando de espaço público e privado, trabalho, corpo, violência, sobre estar à margem, resgatar vozes submersas. Assim como as oficinas de Dança do Ventre e Canto, que será falado adiante, e nos deu base para construir um trabalho mais inteiro. As Trocas aconteceram no CDC Vento Leste (Zona Leste) e no Centro de Referência da Dança, abertas para mulheres da comunidade paulistana. Esses encontros proporcionaram diversas parcerias, relatos, reflexões e muitas poesias.

Tornando-me mulher nas Trocas Quentes por Camila Grande (artista, escritora paulistana que frequentou as Trocas Quentes) Como resumir em poucas linhas o significado do trabalho das artistas-pensadoras do coletivo Mãe da Rua – tão amplo e tão plural –, o qual venho acompanhando e conhecendo mais a cada momento? Dos encontros semanais do Troca Quente, temas-disparadores como a presença da mulher nos espaços público e privado, a divisão sexual do trabalho e do poder, a figura feminina – e feminista – na literatura, a cultura e a arte concebidas por e para mulheres abriram espaço fértil às trocas de saberes e de experiências que se iniciavam a partir da leitura de textos e pesquisas. Esses encontros com o grupo reforçaram o meu despertar para a luta de emancipação feminina contra a sociedade hostil e violenta em que estamos inseridas. Em outras palavras, na contramão da lógica patriarcal e da soberania do capital e da propriedade privada, essas vivências e reflexões me despertaram para a urgência de me tornar livre, de me tornar mulher, eu e minhas companheiras – lutadoras do [fazer] cotidiano. O momento histórico traz a necessidade de reatualização do movimento feminista. Nós, mulheres, queremos ocupar as ruas, legitimar nossos direitos, ressignificar o espaço público, assim como a nós mesmas. Desconstruir o que há de mais cristalizado, sexista e retrógrado na sociedade de classes – como a misoginia e a cultura do estupro – exige um constante 4 | Linha Vermelha

(Troca Quente com Luiza Romão no CDC Vento Leste / Foto: Carina Castro) processo de [trans]formação e de luta por parte de mulheres e homens, no âmbito privado/familiar e no âmbito público. Nesse sentido, está a pluralidade e a importância do trabalho das militantes do Mãe da Rua – um fazer artístico-político de esquerda, protagonizado por mulheres que buscam coletivamente, por meio da pesquisa, do fazer teatral e das mais diversas formas artísticas, resgatar a construção da história feminina (e feminista), consolidar as nossas lutas e ampliar os nossos direitos (tão negligenciados pelo poder patriarcal. Andemos juntas, companheiras!


Aprendendo sobre a importância da luta e união entre mulheres por Cau Peracio e Maria Gabriela D’Ambrozio O projeto teve início no CDC Vento Leste, com encontros gratuitos e abertos a todas as mulheres paulistanas. Thaís Lapa, militante da Marcha Mundial das Mulheres e Mestra em Sociologia, foi quem conduziu essas primeiras trocas. Em círculo, com companheiras de diversas regiões de São Paulo, conversamos sobre: a história de luta e conquistas das mulheres, violência de gênero, patriarcado e capitalismo, mulher e espaços público e privado, corpo e mercadoria. Essas trocas nos deram conteúdos teóricos para conceituar política e historicamente a construção do espetáculo Linha Vermelha. Em muitas das descobertas obtidas durante este processo, diversos foram os desconfortos e tristezas… Pesquisas do Metrô mostram que, atualmente, das cerca de 3,8 milhões de pessoas que usam o metrô diariamente, mais de 1,2 milhão embarcam na Linha 3 – Vermelha, a que recebe o maior número de passageiros. Passageiros? 55% são mulheres, a maior parte (56%) jovens entre 18 e 34 anos, 86% dependentes habituais deste meio de transporte, o qual utilizam ao menos 3 dias por semana. Relatos de assédio sexual nos transportes coletivos são crescentes a cada ano, mas as medidas tomadas até agora não parecem inibir os agressores. De acordo com a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, em 2013, mulheres realizaram denúncias após serem vítimas desse tipo de violência em ônibus, metrôs e trens da capital. Contudo, os números oficiais são muito defasados em relação ao número de ocorrências, pois a vulnerabilidade a que é exposta a mulher, com frequência a intimida a Troca Quente com Thais Lapa no CDC veno Leste / Foto: Carina Castro

A criação artística feminista do Mãe da Rua e a resistência de ocupar o espaço público por Thaís Lapa O grupo teatral Mãe da Rua me apresentou, em 2015, um importante desafio: orientar teoricamente a construção de sua peça teatral, “Linha Vermelha”. Foi uma experiência nova e enriquecedora participar do processo de criação de um espetáculo de teatro de rua, que agregou um novo olhar para uma questão que sempre me inspirou: as mulheres precisam sim ocupar os espaços públicos! Isto é, estar nos espaços de decisão, ir e vir de/para trabalho, locais de estudos e lazer e também deixar em tais espaços de fluxo suas produções culturais, espalhar criação artística feminista pela cidade, capaz de provocar reflexão na sociedade como um todo! Mãe da Rua bebe do acúmulo dos movimentos feministas e populares e afirma(mos)! Mulheres, ocupar o espaço público é resistir! Há muitos limites materiais e simbólicos para que as mulheres acessem os espaços públicos. A divisão do trabalho que designa atividades no espaço privado como femininas e no público como masculinas criam um “estrangeirismo” cada vez que mulheres (ou homens) “ousem” transpor tais fronteiras. Trabalhos têm valorização inferior quando feitos por mulheres, que seguem ganhando 30% a menos que os homens; nos espaços de estudo, com cada vez mais mulheres, ainda há cursos quase só com homens ou o contrário, reforçando papéis de gênero estereotipados. Mulheres saem cada vez mais da reclusão do lar, mas no fluxo entre suas atividades são vistas como corpos disponíveis para o assédio, no transporte, na rua. As fronteiras sexuadas do público-privado têm se reposicionado por conta de

proceder com a denúncia. Em outros casos, são aconselhadas a não dar continuidade ao caso, pois “a denúncia não levará a nada”. Apesar de um número tão absoluto de mulheres relatarem as mesmas experiências, a maioria da população do Brasil (58,5%) ainda acredita que “haveria menos estupros se as mulheres se comportassem” e cerca de ¼ afirma que “mulheres com roupas curtas merecem ser atacadas”, confor me revela pesquisa do IPEA (ipea.gov.br, acesso em: junho/2015). O discurso de culpabilização da vítima está relacionado com o que sociólogas e movimentos feministas chamam de “cultura do estupro”, que são comportamentos que buscam naturalizar e perpetuar a violência sofrida pela mulher, como consequência de suas escolhas. A filosofa Iná Camargo Costa, ao explicar sobre uma das raízes fundamentais do machismo, salienta a propriedade privada e o código civil nos quais os homens possuíram maior liberdade para os negócios e a mulher foi encaminhada para ser escrava do lar, como parte importante para a submissão da mulher. Deste ponto de vista, as situações de violência cotidianamente vivenciadas pelas mulheres, são ações que buscam impedir o reordenamento do espaço social e a redefinição de papéis distribuídos entre os sexos de maneira desigual. E mesmo com a influência dos movimentos feministas colaborando para o ingresso das mulheres no mercado de trabalho e o aumento da circulação das mulheres no espaço público, ainda existe resistência. A linha vermelha estabelecida seja pelo controle dos corpos e dos comportamentos, seja por diversas formas de violências, busca deslegitimar sua presença no espaço público. A reordenação é possível, contudo, se no contrafluxo as mulheres não mais estiverem dispersas entre os homens. Precisamos cada vez mais nos unir e nos conscientizar sobre a existência do machismo e suas formas de opressão que privam, oprimem e matam mulheres todos os dias. Juntas, nos fortalecemos. Na luta, na labuta, saímos às ruas e não nos escondemos, nem nos calaremos. Gritamos pelo direito de toda mulher ser gente.

avanços em direitos das mulheres, porém há também reações a cada avanço, querendo recolocá-las em um suposto lugar correto de mulher. Atentar a estas fronteiras impostas às mulheres leva a uma constatação inegável: não somos livres! Mesmo reconhecendo que há espaços e atividades sociais nos quais mulheres são socialmente aceitas, podemos identificar que, de um lado, aparecem como corpos mercantilizados (nas propagandas e grandes veículos de comunicação, na prostituição, na pornografia) e, assim, apropriados e explorados. De outro, como corpos santificados (com função naturalizada de esposa, de mãe, de “rainha do lar”). É fundamental desconstruir tal dicotomia que divide mulheres entre santas e putas, “para casar” e “para transar” – uma divisão que também é racista ao hiperssexualizar os corpos das mulheres negras. Como putas ou santas, mulheres são direcionadas a atender ao desejo sexual masculino; assim, esta dicotomia é um mecanismo para a subordinação das mulheres. E que forma exemplifica mais um meio de manter as mulheres subjugadas do que a violência sexista? Ela é instrumento de poder masculino, uma violência para manter as mulheres sob controle. O patriarcado, enovelado com o capitalismo e o racismo, produz relações sociais de dominação-exploração sobre as mulheres. Nenhuma relação, pessoal ou política, pública ou privada, está isenta de reproduzir machismo; um exemplo são os casos de violência sexual, que ocorrem em todo lugar (nas ruas, nos transportes, nos locais de trabalho e estudo e principalmente nos lares!). Apesar de tão recorrentes, não se trata de uma sexualidade masculina doentia, ela se forja e se reproduz com base em relações de poder de homens sobre mulheres, sadia aos moldes do patriarcado. Por isso, é preciso não culpar as mulheres, mas ensinar os homens a não serem estupradores – o que se constrói cotidianamente combatendo a mercantilização dos corpos femininos, assim como todos os comportamentos que banalizam a violência. E em tempos nos quais a violência sexista tem inspirado muita resistência coletiva das mulheres, é central falar de feminismo e cada vez mais conhecer este movimento! O feminismo, como teoria e prática do movimento de mulheres, tem uma série de acúmulos que ensinam e nos inspiram a mudar o mundo e mudar a vida das mulheres. As reivindicações pelo voto, por educação, trabalho com salário igual, pelo direito ao divórcio, contra a violência sexista, pela direito ao aborto legal e seguro, pela presença feminina nos espaços de poder já alcançaram diversas conquistas. Estas lutas mesclam diferentes linhas de feminismo que as protagonizaram e revelam que o que foi feito é preciso conhecer para melhor seguir nas lutas pela igualdade entre os sexos, pela autonomia da mulher. E o presente também ensina, com a mobilização de cada vez mais jovens contra a perda de direitos que foram duramente conquistados pelas que vieram antes de nós. As mulheres precisam seguir criando, resistindo, lutando, até que todas sejam livres! Linha Vermelha | 5


Mãe da Rua e Pagú pra Ver em intervenção artística contra assédio, abuso e violência - Metrô República / Foto: Daisy Serena

As trocas são quentes por coletivo Pagú pra Ver

Troca justa! por Maria Gabriela D’Ambrozio

Levo sempre comigo uma brasa acesa no peito. Em dias cinzentos, daqueles que apagam qualquer chama, carrego um isqueiro no bolso. Caminho com prontidão para em uma esquina qualquer da cidade incendiar, guarnecer ou acalentar… Mas tem gente que nos surpreende e antes de dobrarmos a rua, em uma horinha de descuido, faz nosso corpo pegar fogo! Pagú pra Ver, este coletivo de mulheres aguerridas e carinhosas, esquentou as criações do processo de criação da peça Linha Vermelha do grupo Mãe da Rua. Durante os estudos e treinamentos para a peça, fizemos algumas trocas de experiências entre grupos ( Mãe da Rua e Pagú pra Ver). Pagús, mulheres trabalhadoras que criam, enquanto vibram por aprender. Mulheres que fazem poesia e teatro engajado diariamente, em casa, no trabalho, na rua e em cena… Vocês ensinaram-me ouvir. Falar é fácil, difícil é partilhar reflexões! Foram muitos os aprendizados: Diversas são as linhas de feminismo, mas o feminismo que consegue observar e intervir na sociedade capitalista, machista, patriarcal e racista parece ter mais coerência e função. Debruçar-se sobre as temáticas citadas acima com o propósito de produzir uma obra artística, demanda esforços, estudos com aprofundamento e práticas teatrais coerentes com o conteúdo. Essas pesquisas criativas provocam um aprendizado orgânico, facilmente possível de corporalizar. Nosso trabalho artístico demanda exercícios corporais e expressão tonificada em cena. Nós, mulheres, muitas vezes, somos ensinadas a nos guardar, sentar de pernas fechadas, falar baixo, usar saias cumpridas, não mostrar as pernas, não dizer o que pensamos… Mas o teatro que fazemos pede um outro corpo. Corpo de quem deseja expressar e precisa ser ouvida, pois tem o que dizer! Como dizia nossa mestra Patricia Galvão, a Pagú, “Tenho muita força, mas onde irei empregar essa força? É preciso gritar, gritar”. Pagús, obrigada por me esquentarem, por me ensinarem e por cometermos alguns crimes juntas. E que venham outros!

Estávamos vivendo um momento bastante delicado, muita vontade de continuar criando, refletindo e oxigenando da labuta diária que ora nos orgulhamos, ora nos enlouquece. Sim, esse é o Pagú pra Ver, um coletivo de teatro do oprimido formado por trabalhadoras das áreas de saúde, assistência, administração e educação. Que aos trancos e barrancos busca gerenciar, trabalho, amor, família, distâncias, diferenças, militâncias (que não são poucas) e teatro! Autônomas e sem direção, sentimos o quanto fora difícil nos mantermos, focarmos na tarefa, nos aquietarmos, para que o que fosse verdadeiramente enriquecedor para o coletivo eclodisse. E nesse caminho, de um corredor ocupado na UNESP/SP até um palco feminista no topo da América Latina, o aprendizado com as meninas do Mãe da Rua foi importante. Sentíamos o quanto cada encontro com cada uma das meninas (Gabis, Marina, Lets) foi pensado e preparado com carinho e nos motivava a nos dedicarmos mais, nos concentrarmos mais, nos arriscarmos mais. Também um olhar de outros lugares do teatro, dos feminismos. Críticas sobre as quais pensamos, mudamos, transformamos. E algumas repudiamos, confessamos. O que podemos dizer dos encontros que tivemos? Foi uma rica troca que nos trouxe aprendizado e amadurecimento, de aproximação cuidadosa daquilo que outrora temíamos, foi um apoio quando nos sentíamos só, enquanto “não” atrizes fazendo teatro, feminismo e política. Agora, podemos ir adiante com a perspectiva da continuidade desta parceria e a realização das oficinas junto ao Coletivo Mãe da Rua. Obrigada, Mãe da Rua.

“Esse crime, o crime sagrado de ser divergente, nós o cometeremos sempre” – Patrícia Galvão 6 | Linha Vermelha


segunda estação - orientações

Abrindo vozes por Cau Peracio

Preparação vocal com Talita Cabral no Centro de Referência da Dança /Foto: Luiza Snege

Durante o processo de estudos e criação de Linha Vermelha realizamos encontros de preparação vocal com a musicista Talita Cabral, graduada em Música pela FAAM, backing vocal da banda Mato Seco desde 2013 e professora de canto autônoma. Estuda o uso da voz em espaços públicos, o que vem de encontro com a nossa pesquisa para esse projeto. Abrir roda, cantar em espaços abertos e barulhentos, com vários focos e fluxos de ação acontecendo simultaneamente, então, é muito importante um trabalho de voz para segurar a onda da rua. Começamos com exercícios de respiração, alongamento intercostal, fortalecimento dos músculos, abertura de espaço no corpo. Com o avanço do processo de criação de cena foram surgindo músicas específicas que nos interessava introduzir no espetáculo, assim como, momentos de cenas já criadas em deu um grande suporte criando também partituras para afinar e fortalecer as músicas autorais do grupo. O processo vai desde a preparação corporal/vocal para um canto de qualidade até a direção vocal/musical do espetáculo Linha Vermelha. Um trabalho essencial para ter segurança em atuar na rua, lugar que nos oprime e nos força a acreditar que somos seres inferiores. Mulheres, nós atravessamos pelo avesso do que nos é dado. Mulheres na arte, na cultura e na rua, ocupamos os espaços com corpo, voz e luta, por espaços, públicos ou privados em todos tenham direito e respeito. Acreditamos em espaços em que não exista a hierarquia do sexo, da opressão machista e patriarcal, lugar que exista o companheirismo, as quebras das barreiras, a troca, o olho no olho, para nos entendermos, enfim, como um, pois juntos somos mais fortes.

Andréa, Maria Gabriela e Marina Moll em roda de Dança do Ventre - em CRD/ Foto: Luiza Snege

Um instante de suspensão ou a sútil sensação da força da feminilidade: sobre o treinamento de Danças Orientais - por Maria Gabriela D’Ambrozio

Quando mulheres se encontram por Talita Cabral Ao iniciar minha trajetória musical cantando, sempre escolhi caminhos profissionais nos quais eu pudesse levar a arte como instrumento de mudança sociocultural na prática. Quando vi já estava trilhando as estradas da educação musical. Utilizar a voz como fonte de descoberta corporal, como veículo de liberdade criativa e, principalmente, para elevação de autoestima acabaram sendo meus objetivos enquanto musicista. Em foco paralelo sempre esteve meu amor pela mulher. A figura da mãe, da irmã, da guerreira, daquela que toma o espaço que lhe foi limitado. Ao ser convidada para fazer a preparação vocal e direção musical do grupo Mãe da Rua para a peça “Linha Vermelha” já tive uma confirmação profissional do tipo “suas crenças e determinação em suas causas estão sendo recompensadas”. Trabalhar com esse universo é mais do que exercer uma função e receber dinheiro por isso, é uma militância de crenças. Liberdade, respeito, carinho, atenção, organização, companheirismo, entre outras intensas coisas, foram sentimentos e atitudes que cada uma dessas moças trouxe para cada minuto de experiência. Troca sincera e vontade de explorar limites é o que permeia esse Grupo e sempre me serviu de orientação para buscar sonoridades ou conseguir transformar em sons e músicas o que está sendo transmitido por essas meninas com seus roteiros, ideias, sonhos e conteúdos. Transformar a triste realidade em arte. Crescimento enquanto mulher é o que define toda essa trajetória. Gratidão, apenas.

“Se não posso dançar, não é minha revolução” Emma Goldman

Todas as tardes das terças-feiras, de fevereiro à maio de 2016, durante as aulas de danças orientais, ministradas por Andréa Sechini, por alguns segundos, nós, atrizes do grupo Mãe da Rua e mulheres da região paulistana sentíamos uma sensação de liberdade. Era como uma memória antiga que causava alegria, mas que havia adormecido. Essa lembrança foi desperta com alguns movimentos leves da Dança do Ventre. Esta leveza é sustentada por uma força sútil, dizia nossa mestra Andréa. Eu, particularmente, enquanto dançava sentia-me nua, sem sentir-me ameaçada… Estava entre mulheres, sorrindo, brincando, dançando, descobrindo… Enquanto eu dançava, as armaduras caiam e a poeira levantava com o vento tranquilo do balançar dos quadris embalado pela sonoridade dos sinos nos pés ou nas saias. A feminilidade aflorava sutilmente, cheia de sorrisos, movimentos curvos, indiretos e leves… mas sem padrões. Em cada corpo um maneira de ser feminina era descoberta. Durante o processo de criação da peça Linha Vermelha, investigamos o espaço público e a mulher. Em alguns escritos históricos, como os

da Michele Perrot, é possível perceber que para nós, mulheres foi indicado alguns espaços como: salões de beleza, a casa etc… Sendo assim, tornar-se mulher e ocupar a rua com performatividade, fazendo um teatro engajado, é, redobradamente, subverter a lógica vigente. Nesta posição de enfrentamento, como ocupar a rua utilizando-se da força sútil apreendida nos treinamentos de dança? Esta foi uma das perguntas que nos surgiu durante o processo e dela, buscamos apontar nossa estética para a peça. A prática e os estudos sobre a Dança do Ventre foi uma forte referência para nossa criação. Durante as aulas, aprendemos que a Dança do Ventre em seu primórdio era feita apenas entre mulheres. Naquela época, as mulheres eram proibidas de aprender a ler e escrever. Algumas senhoras mais velhas, sem ninguém saber, buscavam este aprendizado e repassavam para outras mulheres pelos movimentos corporais da Dança do Ventre. Esta é uma referência de transgressão coletiva leve, forte e sútil entre mulheres. Seguimos aprendendo, dançando, revolucionando e nos divertindo juntas! Linha Vermelha | 7


A mulher, a rua e a serpente por Andréa Sechini

Do ventre sagrado da mãe, eis que surge uma nova mulher...os homens também surgem dele, mas às vezes se esquecem disso. No ventre sagrado da mulher, eis que há uma lembrança de uma ginga antiga, uma ginga que encanta aqueles que a sentem e que enche de esperança aqueles que sabem dela. Do ventre da serpente de ferro que corre nos trilhos de São Paulo, eis que uma porta se abre e dela saem milhares de pessoas todos os dias. Todos precisam avidamente ir de um lugar a outro. As pessoas brigam por um espaço lá dentro, elas se digladiam para entrar e sair da serpente. Muitas coisas ocorrem lá dentro. A serpente tem uma lógica própria. Uma lógica que reproduz o caos do mundo. Um mundo que subjuga as mulheres, que premia a primazia da força. Um mundo cujo ritmo é ditado pela pressa, cujos líderes têm papel repressor. Um mundo de janelas sujas, de paisagens feias, com milhares de ambulantes correndo no Grão Bazar perverso dos vagões. Um mundo de pessoas cansadas da labuta, roubadas de si mesmas e de tudo o que poderiam ser. Dentro da serpente as mulheres lutam para se mover, lutam para sair, lutam para se segurar, lutam para segurar as mãos que insistem em segurá-las. Elas lutam pela sua dignidade. Do ventre dessa serpente inchada e febril, eis que renasce uma mulher nova e ancestral. Ela é uma mãe que dorme três horas por dia, ela é mulher que cuida dos pais, ela é a menina

A fala por criação e sobrevivência por Carina Castro A partir de palavras que existem em nosso cotidiano e definem nosso trajeto, Ana Rüsche, em sua oficina “Inscrevendo-se na história: a necessidade das narrativas próprias”, compartilhou conosco seus saberes e experiências poéticas através de um olhar atento à cidade e como os símbolos nos atravessam enquanto mulheres “transeuntas”. Nas palavras com que nos deparamos e de como elas podem transpor distâncias. Ressignificar espaços e recontar a vida - passado, presente, futuro - a cidade, o corpo, o corpo na cidade, memórias, a subjetividade, os objetivos, metas, setas, linhas, pontos. Dar vozes e ouvidos para histórias silenciadas ou sussurradas em segredo, muitas vezes monólogos. Ana Erre, como também é chamada, compartilhou conosco sua experiência de andar a pé pela cidade e descobrir outros caminhos. E como as linhas de mão única, rígidas e retas da malha metroviária nos colocam numa circulação que na verdade é muito limitada, estreita e restrita. A cidade com seus caminhos tortos, inviesados, encruzilhadas, linhas imaginárias que querem indicar até onde podemos ir. Cada palavra nos toca de uma forma dependendo de quem somos. Como emerge e torna-se concreto o poema. Ana nos mostrou através de nossas próprias tentativas-escritas como a palavra se transforma quando pensamos num texto poético. A estrutura, o esqueleto do texto, sua ordem, sentido das palavras, intenção,

que pega livros emprestados, é a moça da loja, é a moça que dorme cansada, é a grávida que precisa de um lugar, é a senhora que ainda trabalha, é toda e qualquer mulher que precisa andar neste mundo. Neste mundo, as mulheres ainda sonham em serem mulheres, com todas as implicações fortes e delicadas que esse sonho possa ter. Neste sonho, elas são bonitas e podem andar vestidas das mais variadas formas. Neste sonho, as mulheres são inteligentes e capazes de exercer qualquer profissão. Neste sonho, as mulheres andam de cabeça erguida e suas vozes são ouvidas sempre que falam. Neste sonho, as mulheres se sentem seguras para cantar, brincar e dançar sem que sejam julgadas, sem que sejam atacadas, sem que sejam agredidas. Neste sonho, uma mulher nunca está sozinha, ela caminha com toda a sociedade. Precisamos juntas trazer esse sonho para a realidade. As mulheres despertam pouco a pouco e percebem que precisam desafiar antigos tabus. É necessário evocar a força do sutil, é preciso trazer a força dos movimentos sagrados para vivenciar toda a potencialidade dos arquétipos femininos, executando os movimentos ancestrais da sensualidade tribal, da força da cultura e da espécie. É preciso honrar todas as sagas das corajosas mulheres que pisaram essa Terra, que lutaram pelos nossos direitos, básicos e sublimes. Depois disso, as mulheres poderiam até colocar seus ventres para dançar em espaços públicos. Elas poderiam tomar as ruas como mães, gestando um projeto coletivo, parindo juntas um espaço novo de suas entranhas. Somos essas mulheres, somos filhas, irmãs, amigas, esposas, mães. Estamos nas escolas, faculdades, trabalho, transporte público, ruas. Somos todos nós! Somos o Mãe da Rua.

tudo se transforma num poema. O que nos faz pensar mais ainda sobre que poesia é essa dentro do teatro épico(?), que poesia é essa na rua(?). São diversas as formas da poesia sair da boca, cair no papel, virar linha e dar voltas, virar sentido, sentir. De toda forma, nossa luta também é para que tenhamos mais diversidade de vozes e todas as mulheres possam contar seus passos, memórias e agoras. Por uma poesia que fale mais em primeira pessoa, abra vozes e caminhos!

Por favor, quero ler as histórias das outras! por Ana Rüsche

No meu sonho, eu paro o atirador. É uma boate. É noite latina. As luzes confundem. Ora roxas, ora lilases, logo amarelas. Dorsos nus se abraçam. A música alta. Não se ouve mais nada. No meu sonho, eu paro o atirador. Eu o desarmo. Aponto a arma para ele. Não atiro. Não atiro. Ele tem medo e arfa. Ele tem certeza que eu vou disparar. Não atiro. Ordeno que viva. Você vai ter que viver para escutar a história dessas 50 pessoas. Elas vão te contar. Você vai escutar as histórias dessas 50 pessoas. Decorar seus nomes. Descobrir suas paixões pequenas. Saber qual seu perfume. Se tinha cachorro ou gato. Se gostava de refrigerante sem gás. Não me preocupo se, no final, você irá as entender. O que quero é que você escute as histórias dessas 50 pessoas até que possa as enxergar com humanidade. No meu sonho, eu paro o atirador. As pessoas não morrem. Elas nos contam 50 mil histórias. 8 | Linha Vermelha

Oficina de escrita com Ana Rüsche em CDC Vento Leste /Foto: Luiza Snege É bem difícil combater o discurso de ódio. Penso que entender um pouco de sua base é uma das maneiras de o desarmar. Parar atiradores, desarmar bombas intolerantes. Um dos mandamentos do discurso de ódio é você jamais se colocar no lugar da outra pessoa, a qual você deve odiar. “Os outros”, “aqueles” são sempre inimigos. “Dos outros”, “daqueles” você não deve sentir nada a não ser desprezo. Apenas exterminar. Apenas subjugar. Essa é uma das bases do discurso de ódio: a proibição de sentir qualquer empatia.


Qual o minúsculo papel da literatura na era do discurso do ódio? Me parece que seja ajudar a desarmar o argumento. Provocar empatia. Trazer à tona pontos de vista que são sempre escondidos. Histórias submersas. Narrações abafadas. É necessário dar lugar às outras histórias para se construir compreensão e acolhimento. Empatia é algo de cultivo orgânico. De mão em mão. Contar as experiências pequeninas. As dificuldades do cotidiano. As coisas engraçadas. As frustrações. As tristezas. Combater o discurso do ódio passar por deixar com que as histórias das outras pessoas entrem na tua vida. E que você possa lutar para contar a tua história. A inteligência em provocar novas matrizes de sentimentos. Mas, diante de tudo que está posto, me parece urgente construir uma literatura que acolha e valorize textos escritos por mulheres, por pessoas negras, por transsexuais, por migrantes e imigrantes, por pessoas idosas, por pessoas pobres, enfim, por quem não está nos atuais postos de poder e de fala. É exatamente deste ponto de vista das “outras pessoas”, sempre considerado como subalterno, é que se pode enxergar o mundo com outras lentes. Alterar percepções. Alterar valores. Insertar as outras

histórias nas imaginações do cotidiano. Compreender. Daí é fundamental que todas as mulheres negras narrem. Que pessoas trans escrevam. Que gays contem. Que mulheres brancas falem. Que homens de óculos possam lá fazer seus rascunhos e apontamentos, mas que leiam com generosidade todos os outros textos e se surpreendam com descobertas lá do outro lado de quem narra. Que as “outras histórias” que a intolerância nos rouba possam ser contadas, compartilhadas. Que todas as pessoas possam se maravilhar com todas as pessoas. No meu sonho, eu paro o atirador. As pessoas seguem a dançar. Nota: Me pediram este texto para que falasse sobre a necessidade das mulheres escrevem. Extrapolei o tema diante das urgências do planeta, do atentado de Orlando, cujo gatilho intolerante é pressionado a todo o momento em muitos lugares da cidade quem vivo. Demorei para entregar este texto e se não fosse a insistência carinhosa e compreensiva da Carina, não estaria aqui escrevendo para você. Obrigada, Carina, boa parte dos dias melhores começam pelo passo da compreensão e do acolhimento.

Posso brincar na rua?: Um pouco sobre os desafios do processo criativo da peça Linha Vermelha por Maria Gabriela D’Ambrozio Durante um semestre, as Trocas Quentes nos acalentaram de descobertas, nos ferveram de questionamentos e incendiaram inspirações. Muitas eram nossas necessidades de expressão. Destas necessidades, vieram nossa construção. Neste primeiro momento, o verbo “construir” ficou em ruínas. Notamos que para criar algo coletivo entre mulheres, precisávamos desconstruir alguns padrões de organização e pensamento que já estavam arraigados em nós. E lá fomos nós... Nos percebendo, nos flagrando e reinventando novas-velhas maneiras de nos organizar. Aos poucos, a poesia foi criando rima. O canto, afinação. Com dança, a potência da feminilidade aflorou… Tínhamos diversas temáticas dos movimentos de mulheres organizadas para para colocar em cena. E era chegada a hora! O que não nos faltava eram os desafios. Mulheres trabalhadoras da cultura, ocupantes de espaços públicos, investigando as contradições das relações sociais dadas quando nós, mulheres, ocupamos o espaço público. Não estávamos nem um pouco apartadas do que precisávamos e desejávamos expressar. Sentíamos em nossa pele o que estávamos descobrindo e mesmo assim, nos assustávamos com as estatísticas dadas. Do susto, veio o suor. Para criar, precisávamos transpirar. Teatro para nós, só acontece em coletivo e é espaço de celebração, denúncia, crítica e reflexão. Com este espetáculo, gostaríamos de conversar e nos divertir com o público. Mas como causar riso de algo tão pesado quanto a violência contra mulher? O teatro feito em espaço público possui necessidades diferenciadas do teatro feito em espaço fechado. A atriz, atuante de teatro de rua, precisa de volume de voz, corpo expressivo, segurança, força e sutileza para segurar a roda. Para esta atuação é essencial um bom preparo físico. Pelo que percebemos, em nossos estudos, as necessidades de uma teatreira de rua está completamente contrária às indicações de um padrão social indicado às mulheres. Nos ensinaram a falar baixo, a ter gestos delicados, ser frágil etc… Logo, perOficina de escrita com Ana Rüsche cebemos que tínhamos um trabalho árduo pela frente. Tínhamos? Não. Nós teem CDC Vento Leste /Foto: Luiza Snege mos. Este desafio necessita de uma (des)construção diária para que avancemos. Além desse corpo preparado, para o nosso objetivo ser alcançado, precisávamos fazer um teatro cômico. Mas como fazer um teatro divertido sem aliviar no discurso? No começo, para algumas de nós, isso parecia quase impossível… Mas, aos poucos, percebemos diversas possibilidades com as indicações de leitura sobre teatro épico e exercícios, jogos de preparação para o teatro feito na rua e treinamentos de atriz que a Rafa, (opa! a Rafaela Carneiro, nossa diretora tão comprometida) foi nos orientando. Notamos que o riso é uma das melhores maneiras de causar reflexão. No Linha Vermelha não usamos um humor preconceituoso. Fizemos o contrário. Utilizamos do humor para criticar o sistema capitalista, tão patriarcal, machista e racista. Aqui damos risada do absurdo que está a realidade em que vivemos… Mas rimos de nós mesmas também, de nossas fragilidades e contradições. E nos alegramos por cada conquista. Depois de oito apresentações, percebo o quanto este teatro que fazemos é artesanal, por isso tão simples, tão belo, mas às vezes, tão frágil, ao mesmo tempo, tão forte, tão instigante… Tão passível de mudança… Nós criamos cada detalhe e o reinventamos dia após dia. Compomos as canções, escrevemos a dramaturgia, montamos o cenário… E ainda não terminamos, há muito por fazer! Bóra errar, brincar, aprender e transformar essa Linha Vermelha das proibições!

Linha Vermelha em Vale do Anhangabaú - SP Foto: Daisy Serena

ESTAMOS AQUI - por Rafaela Carneiro Estamos aqui: final do ano de 2015 a primeiro semestre de 2016... Retrocessos e ameaças de retrocessos aos direitos conquistados pelas mulheres brasileiras, #meuprimeiroassedio, #meuamigosecreto, novas Barbies com traseiro maior chegando às prateleiras (feminismo na moda?), bela recatada e do lar, o sexista processo de impeachment da presidenta, estupro coletivo de garota de 16 anos no Rio de Janeiro... Ufa! Ufa nada! Sabemos que ainda vem muito mais pela frente! E estamos aqui: trabalhando, sentindo, pensando, compartilhando, experimentando, arranhando, construindo, teatrando, lutando... O grupo político-teatral Mãe da Rua, após experiências com intervenções feministas em diversos espaços, no final do ano de 2015, inicia a criação de “Linha Vermelha”, sua primeira peça teatral. Partindo, para criar a peça, de um estudo do feminismo e de seus principais temas, parece fácil se perder...E se achar. Os temas são muitos, complexos: espaço público e privado, mercantilização do corpo e da vida das mulheres, violência contra as mulheres, trabalho, direitos e políticas públicas, o feminismo, gênero, patriarcado, capitalismo etc... Os desafios são grandes: queremos em cena poesia, música, diversão (senão fica chato! o assunto já é pesado), tem que desmistificar o feminismo, aproximar os homens como aliados (quando possível)... E não podemos correr o risco de cair num feminismo liberal, tem que ser revolucionário!... (Com tudo isso, um “Ufa!”: muitas parcerias com as companheiras nos caminhos...) Juntamos tudo isso. E estamos aqui: Experimentando a construção de um teatro feminista anti-hegemônico, épico, de rua, popular. Experimentando formas e relações da produção desse objeto artístico. Sabendo que teatro não vai mudar o mundo, estamos aqui: na rua, no limite e na potência de nossos corpos e de nosso tempo, em luta. Nossa voz falando de nós! Linha Vermelha | 9 Linha Vermelha está aí.


PARADA POÉTICA: PERÍODO FÉRTIL

Amanheci mulher… No sangue pisado da Rosa Na bunda elogiada a fórceps Na tinta torta da parede exposta que me fatia em TOP(icos) No desejo proibido, coagido, se exaure vida e mocidade. Pulsando a fúria adolescente que foge em dedos fortes e unhas coloridas… Amanheci mulher. Na caça da negra açoitada Na barriga chutada, na mão largada e molhada. No sol das ardentes demências que na Terra provocam desertos Vazios de filhos despertos, abandonados, torturados, violados… Amanheci mulher. Fragmentária de muitos amores costurados com suores e lutas, carrego no peito uma secura imprópria. Abafo o grito curvo que rebenta. Lágrimas dançam em peles de todas as cores. Mulheres guerreiras me visitam em sonhos, com saias coloridas e sorrisos serenos. Em suas impotências, me alimentam sabores nômades É no verso, no inverso, no invisível das firmes batalhas diárias, Que amanheço mulher. [Letícia Laranjeira] 10 | Linha Vermelha

acontecimentos em fluxo ou fluxo de acontecimentos um alarme espanta os pássaros do meu sonho: em choque pulo da cama. num gesto mecânico lavoolhosescovodentescoocafé saio de barriga vazia rumo ao ponto roncam carros, escapamentos, correm rodas me percorrem olhos, cantam-me assédios acessos de medoeraiva tomam meu corpo cólicas repuxam o útero o busão acesso entro com resistência me fundindo à massa atravesso corpos adaptados a espaços estreitos protejo a bolsa a buceta de mãos braços pênis que me esfregam atravesso o longo carro negreiro faces difusas cheiros azedos perfumes batidas vazam dos fones o balanço o tranco me agarro escorro sinto grito: vai descer! salto minhas pernas não param sinto o ar, sua secura, a umidade, mais uma vez me transporto adentro a linha vermelha avisto-me no fluxo vital por onde escorro, escolho corro caminhos na linha vermelha diária por onde venho e vou cavando caminhos, avanço pelas entranhas rasgadas da terra me equilibro na fronteira onde meu corpo seca ao sol demarcado, apropriado, estanque-estaca percebo os olhos que perscrutam o meu contorno no entorno numa linha tênue minha existência se insere. digite a senha, guarde as notas enquanto a tinta não desaparece mas há em mim traços de uma constante resistência meus fios são grossos, também são os lábios com quem aprendo a contar-me e recontar-me até perder a conta traço planos, delimito espaços movo-me para existir me largo em voos em bando abro as asas (a voz anuncia minha estação) abrem-se as pernas e as portas: meu sangue fertiliza a terra infértil [Carina Castro]

Ilustração de Luiza Snege

“Periferia Segue Sangrando” de Carolina Teixeira


Empodero

([{ }]) acelero (a)diante dos olhos que me secam as caras-concreto que me fixam encarar o coro de corpos kármicos olhos opacos cimentados o espaço em volta de mim a subjetividade do outro será Outra? máscaras que encaram ecrãs capturadas cooptadas desceluladas espero algo que me brilhe ascenda o olhar fure os olhos da plateia que vazam espanto que vazam encantados pelo asfalto que vaza [Carina Castro]

o corpo é um corpo o corpo é um campo de batalha se diz faca diz faça se diz toque diz toca esconde encolhe esconde meu campo é um campo de batalha de apanhadores e quando se dirá amanhecer flauta águas-vivas líquens piratas areia quente e cavalos grávidos de mar? : mais que nada se dirá quando um corpo for um corpo um corpo for um corpo um corpo é um corpo um corpo é um corpo [Ana Rüsche]

Da lama, do barro Minhas pernas me forçam A levantar Do fundo, do poço Meus braços me empurram A escalar Do grito, do choro Meus lábios me dizem A cantar Do crespo, do rosto Meus traços me afirmam A empoderar [Jarid Arraes]

sopro de oyá sopro de oyá em prédios: trinca vidraças piscar de luzes venta fantasma tombos sopro de oyá em árvores: raízes ewe [Bárbara Esmênia] O grupo “ Mãe da Rua” Coletivo de moças faceiras Me propôs um desafio Que quase me dá tremedeira Só não arreguei da tarefa Que não sou mulher covarde Reuni tudo que pude pra Entreter nossa tarde Eu não podia imaginar Que de um encontro fortuito Saísse tanta conversa: Gratuita, profunda e útil ! Acho até que exagerei Quase que fica tarde! Pra mim foi um tempo agradável Espero ter sido amável Que venham outros encontros Cheios de cantos e danças Com essas moças faceiras E todas as outras companheiras ! [poema de Ana Souto feito na Troca Quente]

[oco] eu liguei era pra te dizer que seu dente plata até que combinava com vestido meu esverdeado eu liguei era pra te dizer que mesmo os plânctons não enxergados a olho nu a gente sente n’aproximidade eu liguei era pra te dizer que está vendo este ponto de ônibus vazio? eu liguei [ mesmo ] era pra te dizer que o que é oco a gente sente é no peito [Bárbara Esmênia]

queria escrever a palavra br*+^% a palavra br*+^% queria escrever palavra br*+^% escrever queria BRASIL queria escrever a palavra brasil aquela em nome da qual tanto homem se faz bicho tanto bandido, general aquele em nome de quem a borracha vira bala o policial, homem de bem aquela empunhado em canto legitima em docs que esconde pranto mãe do dops aquela palavra-conceito-racista-estreito-machista-moderna-país-colônia-produto-perfeito queria escrever a palavra brasil mas a caneta num ato de legítima revolta como quem se cansa de reproduzir sempre a mesma história me disse PARA e VOLTA pro começo da frase do livro da história volta pra cabral e as cruzes lusitanas e se pergunte DA ONDE VEM ESSE NOME? palavra mercadoria brasil PAU-BRASIL o pau branco hegemônico metido à torto e à direto suposto direito histórico de violar mulheres indígenas brancas negras o pau à pique de arara pau de sebo o pau patriarcal cara e orgulho nacional A COLONIZAÇÃO FOI PELO ÚTERO matas virgens virgens morta A COLONIZAÇÃO FOI UM ESTUPRO deodoro metendo a espada entre as pernas de uma princesa babel pedro ejaculando-se dom precoce costa e silva gemendo cinco vezes ai ai ai ai ai ai-5 getúlio juscelino geisel collor jânio sarney a decisão sempre da cabeça do membro ereto são contra a redução mas defendem a vida de um feto é o pau-centro-princípio-matéria-nome-do-país o pau multiplicado em trinta e enfiado numa só garota olho pra caneta e tenho certeza não escreverei mais o nome desse país enquanto estupro for prática diária e o modelo de mulher a mãe gentil [Luiza Romão] Linha Vermelha | 11


As Novas Mulheres

Ilustração de Luiza Snege

Dentro? Afora! entre ruas e vagões trilhos e vielas Na selva de pedra, Como peregrina, sigo Num beco na linha de fuga virei à esquerda… Elas olharam pra mim! Foi aí que as formas dadas como naturais pregadas nos pés ainda sem passo Na busca de um salto se despregaram sangue no asfalto quando outros me distraem e eu penso que esqueço o compasso Elas me recuperam Escolheram-me também Veem ao meu encontro Não há mapa já traçado Nem caminho de volta É tudo reinventado E criar não é mais do que Copiar, aprender Transpirar Velhas-Novas Bruxas Guerreiras Mulheres Inspiração Estamos nos aproximando

corpo-bandeira o corpo fluindo na [de]composição urbana [passo-segue-passo] o contra-vento saliva gotejando rosto: beijo de carburador ou rememoração d’alguém? [distrai-se; perde a adivinhança] o corpo ocupa retinas através dos carros ciclovias e pedidos de licença - buzininhas pra lá e pra cá -

gravura-táctil duplicado no concreto corpo piche grafitado corpo imagem corpo-vai ricocheteando pudores / liberdades [é tanta desconstrução para reconstruir / é tanta edificação nestas ruínas]

cacos da garrafa de ontem quase ferem a desatenção

corpo-eu eu corpo meu:

o corpo vai cego em si, mas vê pelo sensível dos adentros

flâmula deserta na cidade.

o corpo-outro 12 | Linha Vermelha

[Daisy Serena]

Desejo e coragem Forças e histórias Mistura Suores Lá vem um batalhão... Que venham! São elas: as “velhas-novas mulheres” Estamos atravessadas Somos mais que uma Ocupamos a rua Caminho efêmero- eterno Inquieta de frente, de lado do avesso torta rasgo (des)costuro passo a passo desenho com elas “ Não consigo dormir. Tenho uma mulher atravessada entre minhas pálpebras. Se pudesse, diria a ela que fosse embora; mas tenho uma mulher atravessada em minha garganta. Arranque-me, senhora, as roupas e as dúvidas. Dispa-me, dispa-me. Eu adormeço às margens de uma mulher: eu adormeço às margens de um abismo.” Eu acordo recriando mulheres. [por Maria Gabriela D’Ambrozio]


sarau ruêras O Sarau Ruêras foi o primeiro organizado pelo grupo Mãe da Rua, aconteceu num momento de finalização de uma das fases do projeto Linha Vermelha. O sarau reuniu mulheres produtoras de cultura, com foco nas manifestações populares e periféricas/marginais. Rap, graffiti, danças populares, cantigas de roda, teatro de rua, artesanato e lançamento de livros foram atrações deste sarau produzido pelo grupo Mãe da Rua em parceria com outros coletivos de mulheres trabalhadoras da cultura.

MC Gabi Nyarai/Foto: Luiza Snege

Maria Gabriela e Silmara Mateus na roda de coco e cacuriá

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Madeirite Rosa/ Foto:Luiza Snege

Carolina Teixeira | Foto: Luiza Snege

Coletivo PagĂş pra Ver / Foto: Luiza Snege 14 | Linha Vermelha


DESEMBARQUE Sobre a peça teatral: Linha Vermelha Sinopse Que linha é essa? Que vai e vem é esse? Para quê tanta pressa? Será que tanta angústia cabe em uma peça? Entre tantos avisos de ordem como: “Não atrapalhe o fechamentos das portas”, um coro de mulheres cantam: “Não atrapalhe o fluxo!”. Linha Vermelha é veia da cidade. Atravessa São Paulo, levando, todos os dias, trabalhadoras e trabalhadores da periferia para o centro e vice-versa. Entre as pessoas que utilizam o metrô da cidade de São Paulo, mais de 52% são mulheres. Entre elas, muitas relatam que já sofreram violência em transportes e outros espaços públicos e privados. Para este grupo de mulheres, a arte é um instrumento de reflexão, denúncia, diversão e anúncio de um novo mundo. Corpo, trabalho, mulher, transporte e espaço público são assuntos abordados nesta peça teatral criada por mulheres trabalhadoras da cultura. Com poesia, rap, cordel, samba e funk... Este teatro acontece na rua. Vamos embarcar? Neste veículo não existe catraca. É gratuito!

Ficha Técnica Atrizes- Criadoras: Carina Castro, Cau Peracio, Maria Gabriela D’Ambrozio, Natali Santos Direção: Rafaela Carneiro Direção e arranjo musical: Talita Cabral Dramaturgia: Carina Castro, Cau Peracio, Maria Gabriela D’Ambrozio e Rafaela Carneiro Cordel: Jarid Arraes Canções: Andréa Sechine, Carina Castro, Cau Peracio, Janaína Silva, Maria Gabriela D’Ambrozio, Natali Santos, Paula Cavalciuk, Rafaela Carneiro, Talita Cabral e canções da cultura popular Figurino: Cristiane Lima Concepção de cenário: Mãe da Rua Confecção de cenário: Luiza Snege Fotografia: Luiza Snege Orientação de Danças Orientais: Andréa Sechini Orientação poética: Ana Rüsche, Ana Souto, Luiza Romão Orientação teórica feminista: Thaís Lapa Produção: Carina Castro e Maria Gabriela D’Ambrozio

Coletivo Pagú pra Ver / Foto: Luiza Snege Linha Vermelha em Anhangabaú / Foto: Luiza Snege Linha Vermelha | 15


(ES)CORRENDO CAMINHOS, OCUPANDO ESPAÇOS

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ou sobre nossas andanças Anhangabaú (em parceria com o Centro de Referência da Dança - CRD)

por Maria Gabriela D’Ambrozio “Escravas de Jó/Aqui no Anhangá Eram vendidas para trabalhar O capitão do mato vinha para nos caçar Guerreiras com guerreiras fazem zigzigzá” (Paródia - Dramaturgia Linha Vermelha) Em parceria com o Centro de Referência da Dança (espaço público parceiro que ocupamos para ensaios de dança e expressão corporal), estreamos a peça Linha Vermelha, às 16h do dia 2 de julho de 2016. Fazer teatro de rua é oras parecer escravas do capitão-tempo-relógio e oras ser artista-criadora-guerreira. Com esta contradição à flor da pele, rasgamos o asfalto, ressignificamos o espaço e, algumas vezes, nos enrolamos na linha. Colocamos a cara ao vento, no contratempo, em contrafluxo… Iniciamos a circulação do centro de São Paulo às periferias paulistanas… Nascemos em pleno Vale do Anhangabaú!

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Promotoras Legais Populares de São Bernardo do Campo - por Maria Gabriela D’Ambrozio O Curso de Promotoras Legais Populares é uma conquista do movimento de mulheres organizadas. O nome “Promotoras Legais Populares” é um projeto de formação de mulheres que trabalham para fortalecer os direitos da população e para o combate à discriminação e à opressão, por meio do conhecimento dos direitos e dos caminhos de acesso à justiça. As promotoras legais populares podem prestar orientação,

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aconselhar e promover a função de intervir em casos de violência. A peça Linha Vermelha possui a função de causar reflexão sobre a enormidade de casos de violência contra mulher. De forma divertida, em comunhão com os aprendizados da mulheres aprendizes do curso de Promotoras Legais de São Bernardo do Campo, o espetáculo se deu com a sensação de quem provoca uma festa em luta. Juntas andamos melhor, companheiras! Viva a união entre as mulheres!!!


Votorantim - por Carina Castro Muitos são os desafios em se estar no espaço público levando nossa Linha Vermelha. Numa noite muito fria, às 19hs na praça Lecy de Campos em Votorantim interior de SP, partimos pra nossa terceira apresentação. Recebidas pelo Coletivo Cê. Chegamos antes do sol se pôr. Muito aquecimento pra segurar o frio, numa praça aberta, percebemos que ali a voz se esvaía como o vento, bora aquecer mais as cordas vocais. Muitas pessoas correm e andam de bicicleta, skate, patins, muito movimento, mas ao cair da noite a temperatura caiu junto. Poucas pessoas param seu fluxo pra assistir, e nós temos que tentar manter a energia da peça lá em cima. Alguns resistentes ao frio assistem a peça do começo ao fim, ora se chacoalhando, tremendo ou embalados com o ritmo do espetáculo, nem todos ficam até o fim, mas não podemos deixar a peteca cair, teatro de rua também é lidar com a instabilidade dos espaços, estar em corda bamba. Só não entendemos ainda o que fez as pessoas abandonarem seus assentos, se o frio que as obriga a preferir o conforto de seus lares ou a própria dificuldade em deixar suas zonas de conforto ao lidar com um conteúdo difícil como a violência contra a mulher, pois é, minha gente, teatro de rua é coisa séria e não se faz só de diversão! Mas nós estávamos lá, com cara e coragem, tentando aquecer os corações e acender nas consciências uma centelha de empatia.

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Araçoiaba da Serra por Carina Castro No dia seguinte já amanhecemos em Araçoiaba da Serra e um lindo sol brindava o dia. Nos encaminhamos para a Feira da Roça e lá armamos nosso cenário, escolhemos nosso pouso entre as barracas de laranja, café, caldo de cana e o rio do outro lado, este era o cenário que nos recebia. Às 10h da manhã e o sol já ardia, muitas crianças, muitas pessoas que circulavam pela feira já esperavam ansiosas o teatro começar depois do nosso anúncio. Foi de fato uma apresentação solar, com o sol quase à pino transpiramos nosso fazer artístico, ser teatreira de rua é sentir na pele tudo que flui no entorno. E assim cumprimos mais uma apresentação, com alegria e calor humano, reagindo às peculiaridades de cada público, brincando e jogando com a maneira de interagir com cada um. Dessa vez as pessoas que nos acenderam e iluminaram com olhar e presença. Nada como um dia após o outro dia.

Largo da Batata por Maria Gabriela D’Ambrozio Em parceria com a Sempre Viva Organização Feminista (SOF) - uma organização não governamental com sede em São Paulo que faz parte do movimento de mulheres organizadas no Brasil e em âmbito internacional, apresentamos a peça Linha Vermelha, às 17h30 do dia 12 de julho, de 2016. Além das mulheres militantes brasileiras, uma garota chilena, muitos moradores de rua e homens jovens pararam pra ver a peça. Após o espetáculo, fizemos um debate público, no qual todxs expuseram sensações e sentidos que a peça trouxe. A mulher chilena disse: “Lá no Chile também precisamos dizer as mesmas coisas que vocês dizem nesta peça. Estou muito contente em ver este espetáculo.” A América Latina vai ser toda feminista!!!

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II Escola Feminista e Popular Helenira Resende

CDC - Vento Leste (nossa casa, nossa morada)

por Carina Castro

por Carina Castro

Depois de participarem de uma formação sobre o histórico do movimento feminista, lá vamos nós, numa tarde de sábado, apresentar nossa Linha Vermelha para as mulheres presentes na formação na EMEF Amorim Lima, escola que é referência de ensino no bairro do Butantã, Zona Oeste de SP. Depois de algumas horas lá, as mulheres pareciam que não esperavam ficar mais uma hora lá no curso, porém anunciamos e insistimos que ficassem, afinal nos deslocamos até lá só pra apresentar para elas. Nossa única apresentação para um público totalmente feminino, nos olhares atenção, surpresa, identificação. Ao fim da apresentação houve um interesse tamanho por parte de todas por saber quem eram aquelas meninas arteiras, quem é este Mãe da Rua? Como surgiu? E lá fomos nós buscar o fio dessa meada, tecer tramas, laços, redes. Sim, preparem-se, estamos em formação. “É na linha de frente!”.

Penúltima apresentação, ZL, pleno domingão, Coringão jogando, ruas vazias, mas lá estão firmes os homens da comunidade do Jardim Triana, imigrantes, retirantes, nativos - revelando os laços e intercâmbios que se arraigam pelas periferias de SP, da América Latina e do mundo - pessoas (homens vai, as mulheres assistem a tudo atentas) que frequentam o espaço para jogar futebol, estava lá também o grupo Parlendas - grupo de teatro ocupante desse espaço, que é autogerido por 8 grupos culturais e moradores da comunidade - também ensaiando seus jogos. A galera da “pelada” faz seu churrasquinho de boas - apenas homens. Anunciamos que terá teatro, eles ficam animados, muitos ali nunca tinham visto uma peça. Enquanto montamos o cenário chegam crianças (que nos rodeiam e curiosas já perguntam o que vai ter ali) e, timidamente, mulheres. Começamos os trabalhos, e quem disse que ia ter descanso em nossa casa? Espaço onde ocupamos, na outra ponta da Linha Vermelha. De um lado nos assistem o pessoal da comunidade e seus familiares, do outro o grupo Parlendas e outr@s convidad@s e amig@s. A partida começa e a torcida já está alvoroçada, principalmente os homens, a qualquer sutil representação do machismo na peça, prontamente reagem (vestindo a carapuça?). Cabe lembrar que este foi o maior público masculino que tivemos, o desafio estava dado. Logo na primeira cena um dos homens do “time” dos futebolistas passa para o outro lado e começa a nos filmar, até que sem se importar com o que acontecia ali em cena, começa a fazer gracinhas e tenta tocar uma das atrizes, que tenta lidar com a situação com o próprio jogo da cena. O espetáculo se desembola até que quando a coisa começa a ficar séria e começamos a falar de violência contra a mulher, notamos um esvaziamento do público masculino, chegando ao ponto dos poucos que restaram conversarem como se nada acontecesse ali, parece que pra eles o jogo ficou entediante. Nosso sangue ferve nas veias e num esforço Épico, gritamos, denunciamos e não somos ouvidas, parece que de fato falamos outra língua. Narrávamos o que acontecia diante dos olhos de todos, como se fossemos corpos para um único fim, mas nosso corpo é um campo de batalha! “meu corpo é a minha casa e só entra quem eu quero”, e menina, ouve o meu recado, nessa brincadeira deixamos sementes no campo pra brotar novas raízes. reverbera o alento no coração, grito de gol: ao final do espetáculo uma menina vem nos dizer o que gostou e o que entendeu: “quando a gente é violentada, a gente não pode ficar quieta”. Vibramos juntas!

Atenção!!!!! Pedestres e Pedestras, Transeuntes e Transeuntas, Público e Pública!!!! Fechamos mais um ciclo! O espetáculo “Linha Vermelha” vai além das estações de metrô e finaliza sua tempo-

rada no extremo Leste da capital paulista, o bairro Cidade Tiradentes. O Centro Cultural Arte em Construção, sede dos grupos: Pombas Urbanas, Filhos da Dita, Aos Quatro Ventos, Palombar e As três Marias, o Sol e a Lua, recebeu nessa terça-feira às 19h00 o grupo Mãe da Rua. Dia de celebração e muito Teatro! Nessa semana o espaço recebeu a extensão de seu comodato por mais 20 anos de um intenso trabalho que iniciou em 2004, de uma formação artística e programações culturais. E para grande estreia teve como primeira apresentação pós extensão do comodato, o espetáculo “Linha Vermelha”. O público foi diverso, adolescentes e jovens que frequentam as aulas de teatro, famílias, e os integrantes de cada coletivo que desenvolve seus projetos nesse espaço. O público acompanhou de forma calorosa cada gesto e movimento. O cenário se tornou um espaço de rito, nos sentimos abraçadas e acompanhadas desde o primeiro sinal. A cada estação as histórias voltavam do público com sentimentos e “porquês” que carregamos constantemente em nossas vivências. São sentimentos de angústia que ao som das batidas do tambor e de muita poesia se transformam em esperança, perspectivas de criar espaços onde possamos manifestar nossos pensamentos, sem temer possíveis erros e que o acerto é o fazer. Fechamento de um ciclo e início de muitos outros!!!! A roda não para e não pode parar, a linha continua e ainda passará por muitas histórias e lugares! Evoé, Mãe da Rua! [Natali Conceição - Pombas LinhaUrbanas] Vermelha | 21


serviços de apoio à mulher Diversos são os tipos de violência contra mulheres: física, sexual, psicológica, moral, patrimonial, intra familiar. Diversos são os espaços onde essas violências acontecem: em casa, no trabalho, na rua, no transporte, no consultório médico etc. (Excerto da dramaturgia do espetáculo Linha Vermelha - Mãe da Rua)

“Cadê meu celular? Eu vou ligar no 180!” (canção de Douglas Germano)

É um serviço nacional e gratuito! A Central de Atendimento à Mulher - Ligue 180 é um serviço ofertado pela Secretaria de Políticas para as Mulheres do Governo Federal, e tem o objetivo de receber denúncias ou relatos de violência, reclamações sobre os serviços da rede e de orientar as mulheres sobre seus direitos e sobre a legislação vigente, encaminhando-as para os serviços quando necessário. http://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/politicas_para_as_mulheres/noticias/index.php?p=144294

Como acontecem algumas violências? Mulheres que são cotidianamente humilhadas, ofendidas dentro de casa ou em público, impedidas de ter uma vida plena, trabalhar, estudar, conviver com amigos e com a família; que são ameaçadas, agredidas física e sexualmente ou até mortas por aqueles com quem dividem o mesmo teto ou com quem tem relação familiar ou amorosa. Isso é o que se chama violência doméstica e familiar contra a mulher. Hoje, reconhecemos este tipo de violência como uma violação aos direitos humanos. A Lei Maria da Penha proíbe que os casos de violência contra a mulher se encerrem com acordos entre o agressor e o Estado, as chamadas transações penais que quase sempre acabavam com o pagamento de multas ou cestas básicas. Isso quer dizer que em todos os casos denunciados pelas mulheres haverá processo criminal, sempre quando as provas mostrarem que houve agressão física, sexual ou verbal. Uma das grandes novidades da lei são as medidas protetivas de urgência: ordens dadas pelo juiz ao agressor que buscam evitar que a violência se repita e se torne mais grave. (http://www.defensoria.sp.gov.br/dpesp/repositorio/0/CARTILHA%20MULHER_LEITURA.pdf)

Assédio/ Abuso no transporte público?

http://www2.eca.usp.br/njsaoremo/?attachment_id=3561)

Denuncie!!! DEFENSORIA PÚBLICA DO ESTADO DE SÃO PAULO Telefone: (11) 3101-0155 – Site: www.defensoria.sp.gov.br O assédio moral e sexual no trabalho caracteriza-se pela exposição das trabalhadoras a situações humilhantes e constrangedoras, repetitivas e prolongadas durante a jornada de trabalho e relativas ao exercício de suas funções. Tais práticas evidenciam-se em relações hierárquicas autoritárias, em que predominam condutas negativas, relações desumanas e antiéticas (...). Analisar o assediador e entender suas atitudes são os primeiros passos para incrementar o combate ao assédio moral no ambiente de trabalho. Denuncie!!!! Órgãos que devem ser procurados: Ministério do Trabalho e Emprego, Superintendências Regionais do Trabalho e Emprego, Conselhos Municipais dos Direitos da Mulher, Conselhos Estaduais dos Direitos da Mulher, Comissão de Direitos Humanos, Conselho Regional de Medicina, Ministério Público, Justiça do Trabalho, Ouvidoria 0800 61 0101 (Região Sul e Centro-Oeste, Estados do Acre, Rondônia e Tocantins) 0800 285 0101 (Para as demais localidades) e www.mte.gov.br/ouvidoria

migo!

o não mexe c

Somos mulheres, não mercadoria! 22 | Linha Vermelha


texturas, linhas, tirinhas & quadrinhos das minas

Me movo para existir Linha Vermelha | 23


Realização:

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Linha Vermelha - Mulheres no espaço público [Jornal - Dezembro/2016]  
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