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LITERATURA BRASILEIRA PARA O MUNDO Florianópolis, SC – Agosto/2018 – Número 01 – Edições A ILHA – Ano 01

QUINTANA FALA SOBRE ELE MESMO

O LIVRO ILEGÍVEL Luiz Carlos Amorim

GRANDES POEMAS

Clássicos da poesia brasileira

SÍNDROME DO NINHO VAZIO Rita Marília

ENTREVISTA COM URDA ALICE KLUEGER


SUMÁRIO

QUANTAS VEZES?..........................26

ASAS DA ALMA................................. 4

COISAS SIMPLES...........................27

MÁRIO QUINTANA FALA SOBRE ELE MESMO...................................... 5

TARDE NO SAMBAQUI.................28 VOO INFINITO................................30

UM POEMA DE QUINTANA:......... 7

DEPOIS DO PANO.......................... 31

SETEMBRO........................................ 8

TEMPO DE SER..............................32

ONDE VIVO?...................................... 9

DO IRREMEDIÁVEL .....................34

OLHARES..........................................11

DUC IN ALTUM...............................35

CEFALÉIA MUAR........................... 12

A ÚLTIMA NOITE...........................36

FOTOGRAFIAS ............................... 13

AS CORES DA POESIA.................. 37

TECLADO ZEBRADO.................... 14

MOTIVO
............................................38

CRIANÇAS E CHUVA MIÚDA...... 15

COM LICENÇA POÉTICA.............39

MINHA NÃO METADE.................. 16

NASCIMENTO DO POEMA..........40

AOS RETALHOS...............................17

SOFRIMENTO ................................ 41

PEÃO DE CANAVIAL..................... 18

CANTIGA PARA NÃO MORRER.42

CENA INCOMUM........................... 19

SONETO DA FIDELIDADE..........43

ENTRE PREFIXOS E SUFIXOS.. 21

AS SEM-RAZÕES DO AMOR...... 44

VIAJADA(MENTE)......................... 21

POÉTICA...........................................45

PONTUAÇÕES................................. 21 BALANÇO SEMESTRAL............... 21

CONVERSANDO COM URDA ALICE KLUEGER............................46

QUANDO ATENDO A MIM........... 21

QUERO SONHO..............................49

POETRIX SEXUAL.........................22

ECOS DE TI......................................50

O PRA(S)ER DA LEITURA...........22

O POETA E A VIDA......................... 51

365......................................................22

O VENTO...........................................52

LUNÁTICO........................................22

DELÍRIO...........................................53

SOBRE EXPECTATIVAS E FRUSTRAÇÕES...............................22

RETRATOS.......................................54 O LIVRO ILEGÍVEL .......................55

PARADOXO LABORAL..................22

TANTO OLHAR................................58

SÍNDROME DO NINHO VAZIO..23

SIM.....................................................59

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EDITORIAL

EXPEDIENTE Literatura brasileira para o mundo Edição número 01 – Agosto/2018 Publicação das Edições A ILHA Grupo Literário A ILHA Florianópolis, SC Editor: Luiz Carlos Amorim Contato: revisaolca@gmail.com Grupo Literário A ILHA na Internet: http://www.prosapoesiaecia. xpg.uol.com.br

MAIS ESPAÇO PARA A LITERATURA BRASILEIRA O Grupo Literário A ILHA, que já publica a revista SUPLEMENTO LITERÁRIO A ILHA e a revista MIRANDUM, da Confraria de Quintana e que completa 38 anos de circulação neste ano de 2018, lança agora a revista ESCRITORES DO BRASIL, para complementar o espaço lilterário para os novos escritores, que já estava ficando pequeno. Então cá está ESCRITORES DO BRASIL, revista que acolherá a produção de nossos escritores - novos ou não - sejam eles de qualquer parte do nosso imenso país. Estaremos publicando poesia, crônica, conto, literatura infantil, entrevistas, resenhas, trechos de obras, artigos literários, ensaios. E a revista poderá ser lida em qualquer lugar, pois ela estará disponível on-line, colocando a obra de nossos escritores sob os olhos de leitores do mundo todo. Quem não conhecia ainda e está lendo esta edição de estreia da revista ESCRITORES DO BRASIL, se for escritor e também quiser publicar aqui, deve entrar em contato conosco, pelo e-mail revisaolca@ gmail.com, que daremos todas as informações para que possa se juntar a nós. Boa leitura. O Editor

Todos os textos são de inteira responsabilidade dos autores que os assinam. Contate com a redação pelo e-mail revisaolca@gmail.com para publicar conosco.

Visite o Portal do Grupo Literário A ILHA:

PROSA, POESIA & CIA

em Http://www.prosapoesiaecia.xpg.uol.com.br  

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POESIA

LUIZ CARLOS AMORIM ASAS DA ALMA Queria sair de mim, transportar a alma através do tempo, através do espaço, através da vida, mas meu coração não deixa. Quero que a emoção me leve onde meus olhos não alcançam, onde meus sentidos não chegam. Um canto de mim quer um canto no mundo para ser eu mesmo, mas outro canto de mim quer se jogar para todos os cantos do mundo, para concretizar todos os sonhos, para viver todas as vidas que trago comigo. E depois voltar para mim, pejado de completude, matar as saudades, e começar tudo de novo. Minhas vidas são muitas e quase não cabem dentro de mim. Minha alma precisa de mais asas, para levar-me mais longe…

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ENTREVISTA

MÁRIO QUINTANA MÁRIO QUINTANA FALA SOBRE ELE MESMO Quintana fala a Patrícia Bins, do Suplemento Literário de Minas, em 1986: SL - Qual a diferença entre o menino Mário e o poeta Quintana? Quintana - Nenhuma. SL - Você consegue lembrar o primeiro poema? E o que escreveu hoje, como é? Quintana - Não consigo lembrar. Comecei a fazer versos logo que aprendi a ler. O poema decerto não prestava. Mas o poema de um menino-poeta é sempre o melhor poema do mundo. Não deixo por menos. Pois é o primeiro e deslumbrado encontro de uma alma com a poesia. Quanto ao poema de hoje, prefiro não citar, porque há o perigo de ter havido um desencontro... SL - O que mais o irrita nos

outros? E em si mesmo?

nesta vida, de nos tornarmos grandes amigos. Não posso Quintana - As perguntas queixar-me... Porque a íntimas. As respostas evaBruna é dessas criaturas que sivas. compensam a vida. SL - Agradam-lhe as belas SL - Você, que traduziu mulheres. A primeira musa, Proust, anda em busca do quem foi? E a Bruna, de tempo perdido, ou lhe satisque maneira entrou no rol fazem as raparigas em flor dos seus amores? de agora? Quintana - A Bruna é, antes Quintana - Tempo perdido de tudo, a minha mascote não quer dizer tempo morto: (desde 1976, sempre um ele ressuscita sempre. E acompanha o outro nas muitas vezes está mais vivo tardes de autógrafos). do que o tempo presente. Nossos amores? Mas a Quanto às raparigas em flor Bruna não me ama: apenas de agora, para mim são as adora-me! Isto porque um mesmas de outrora: devem desencontro de fusos horáser a terceira ou quarta rios abriu uma diferença de geração das raparigas em 48 anos entre nós... Uma flor do meu tempo. Podem pena! Mas felizmente o dizer que hoje há diferenças tempo nos deu tempo de de costumes, de compornos encontrarmos ainda tamento... mas os seus truques, manhas e negaças continuam os mesmos... SL - O futuro, como o imagina? Quintana - O

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futuro é uma espécie de banco, ao qual vamos remetendo, um por um, os cheques de nossas esperanças. Ora! Não é possível que todos os cheques sejam sem fundos...

Jesus Cristo viveu entre nós. Quanto aos deuses pagãos, morreram de fato, pois os poetas deixaram de invocá-los. Dos Anjos não posso absolutamente duvidar, em vista da insistência com que aparecem em meus poemas.

SL - E a sua visão do outro mundo? De Deus, deuses e Santo da minha devoção? São Jorge, com seu Cavalo dos anjos? Do Diabo? e seu Dragão. Sou devoto Quintana - Oportunamente dos três. saberei... Tenho até muita curiosidade - mas nenhuma SL - Sobreviveu a vida pressa - de saber como será inteira de escrever: em joro outro mundo. Deus está nais, revistas, traduzindo em toda parte. Mas por excelentes livros e, claro, que procurá-lo no mundo como poeta. Se viesse ao exterior? Se ele está em Mundo de novo, escolheria toda parte, está dentro até o mesmo modo de viver (e de cada um de nós e a cada de sobreviver)?

SL - Considerado feiticeiro e mágico, o que sente ante o mistério de criar? Quintana - Deslumbramento e susto. Digo susto, porque na verdade nunca passei de um aprendiz de feiticeiro. SL - A solidão é o silêncio de um bar cheio de gente? Quintana - A solidão é o silêncio que a gente faz dentro de si mesmo, em qualquer ambiente, seja barulhento ou não. SL - Você bebe ou não bebe? Fuma ou não fuma? Quintana - Bebia. Fumo.

SL - Certa vez, ao receber um compete descobrí-lo, Quintana - O mesmíssimo convite de Manuel Bandeira para visitá-lo no Rio, resdar-lhe a maior parte pos- modo, sem tirar nem pôr. pondeu que sim, iria e ainda sível em nossa vida terrena. teria dito: “Seu desejo Do contrário, o nosso Deus SL - Que obras e/ou autores é uma ordem, mas nem interior pode até morrer, mais ama ou amou? imagina como sou chato como acontece com os Quintana - Todas elas. nos intervalos dos meus ateus, os positivistas, todos os materialistas. Eles não sabem que são o sepulcro de Deus.

A falar a verdade, não importa que a gente acredite ou não em Deus, mas se Deus acredita na gente. Da minha parte, só acredito mesmo é na segunda Pessoa da Santíssima Trindade, no Deus Vivo, pois temos testemunho histórico de que

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poemas.” É verdade, se nunca andou, estranha o Quintana - Eu sempre acha chato quando não em uso da bengala, após seu me considerei cidadão do estado de graça? acidente na perna? mundo. Mas patrimônio universal? Aí cantam outros Quintana - Os outros é que Q u i n t a n a - O ú n i c o passarinhos... Se alguém se me acham chato quando inconveniente do uso da considerar patrimônio uniestou em estado de graça. bengala é que chama muito versal, só se for um louco a atenção. Não gosto de SL - E os palavrões, fazem ou... um gênio. Não sou chamar a atenção. parte de seu vocabulário? nenhuma das duas coisas. Em que circunstância cos- SL - No Quem É Quem, Acontece é que estou na tuma proferi-los? está registrado que Mário moda - o que me desvanece Quintana é “um patrimônio e me assusta um pouco, Quintana - Só quando universal”. Como encara a pois vivo a perguntar-me: me pisam os calos, ou prova concreta de sua imor- “Até quando durará essa como dizem os gaúchos, talidade? imortalidadezinha?” só quando me pisam no poncho.

SL - Uma confissão inédita, por favor. Quintana - Ela continua inédita, exatamente por ser inconfessável. SL - Você, acostumado a caminhar pelas noites (e dias) em ruas de Porto Alegre, até naquelas em que

UM POEMA DE QUINTANA: Todos os jardins deviam ser fechados, com altos muros de um cinza muito pálido, onde uma fonte pudesse cantar sozinha entre o vermelho dos cravos. O que mata um jardim não é mesmo alguma ausência, nem o abandono... O que mata um jardim é esse olhar vazio de quem por eles passa indiferente.

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POESIA

ROSÂNGELA BORGES

SETEMBRO Antes, Eram fantasmas Borboletas E até estrelas. Ontem, Mil flores Planetas E nada no vento. No escuro, Eu tinha canções Sapatos E um pouco de mar. Hoje, Olhares e telefone Água E um setembro perdido. Amanhã, Apenas a chuva, Cortinas na janela E sal desbotando O nosso novo tapete...

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ENSAIO

MARIA TERESA FREIRE calada da noite, para criar sanções, medidas provisórias e outros regulamentos Sou brasileira. Moro no que objetivam controlar o Brasil. Mas, não sei bem Brasil social, nunca o deles. que país é esse. Não reconheço meu próprio local Nessas reuniões escusas, de moradia. O cerne dessa c u j o c o n h e c i m e n t o o dúvida é a existência de Brasil social só tem no dia dois Brasis. O Brasil polí- seguinte através dos noticitico e o social, da população. ários da televisão, do rádio, da internet e por meio dos No Brasil político habitam jornais, eles aumentam seus homens e mulheres que salários já astronômicos, convivem restritos a um preparam projetos que beneDistrito. Lá, eles trabalham ficiam altamente os habipara uma instituição que se tantes do Distrito, ou seja, intitula Governo. Os cargos do meio político, realizam são variados. Do mais alto, conchavos regados a propresidente, ao menor que pinas exacerbadas, fecham são todos aqueles que se acordos multimilionários profissionalizaram como com empresas que nem trapolíticos e também aqueles balham para os verdadeiros que estão envolvidos com brasileiros. esses mesmos políticos. Sempre, esses seres perNo Distrito, eles desentencentes ao Brasil político volvem seus trabalhos alea- apresentam a desculpa que toriamente ao que acontece no outro Brasil, no social. Legislam em causa própria. Defendem leis que os protegem de seus comportamentos, os mais escabrosos. Organizam reuniões, na

ONDE VIVO?

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suas ações e iniciativas visam ao bem do Brasil. Qual Brasil? A justificativa para suas propostas encobrem o real motivo, que é delegar ao Brasil social a responsabilidade de corrigir seus erros, suas falhas. E o pior, pagar, na acepção da palavra, por seus roubos, desvios de recursos, corrupção inimaginável. A explicação é sempre argumentada em favor desse grupo que é menor, entretanto tem o poder, a capacidade de governar os outros milhões de pessoas que, acuadas, se veem obrigadas a se submeterem aos seus descalabros governamentais. Ligados ao Distrito, porém habitando distante, outros membros também compactuam com a corrupção


alastrada, como se fossem extensões do pensamento que norteia as atividades do núcleo central. Também advogam por causa própria, esvaziando os cofres dos seus locais de atuação, mascarando o verdadeiro interesse de participarem de conluios deflagrados pelo Brasil político. Não objetivam trabalhar em prol do povo que lhes depositou confiança, mas sim alcançar patamares de riqueza que o trabalho árduo e honesto não lhes conferiria.

necessárias à emancipação social, estavam depredadas. Faltava estrutura física para atender aos estudantes e o pior, faltava professores entusiasmados e bem pagos. Faltava educação.

públicos mostrando a raiva, o desgosto, a não aceitação das injustiças que tem sido imputadas aos habitantes do Brasil social, como se fossem marionetes sem vontades ou compreensões.

O ir e vir livre que todo cidadão que vive no Brasil social tem direito estava cerceado pela violência, pelos ataques de marginais que armados buscam os objetos, quiçá a vida daqueles que verdadeiramente fazem o Brasil avançar em direção ao desenvolvimento. Que desenvolvimento? Sem empregos, sem esperanças, a massa humana, compactada pelo desrespeito e falsidade se desloca sem sonhos a serem sonhados e concretizados.

Ao esconderem-se atrás das proteções de vidro, os moradores do Brasil político esquecem que são observados através da transparência vitral. Acreditam que suas baboseiras são aceitas como leis imutáveis. Ao contrário, o Brasil social enxerga, arrancou a lente da miopia e acompanha, persegue os movimentos desastrosos que pretendem lhes tirar o mínimo de vivência obtida.

O Brasil social se calou e por tempos “viveu em berço esplêndido” outorgado pela natureza. Todavia, chegou o dia de despertar ao sentir seus direitos de cidadãos vilipendiados, ultrajados, sem nenhum respeito às suas contribuições para o O Brasil social, exausto pela progresso do país. exploração foi às ruas soltar A saúde estava mais doente seu grito, lutar pelo país do que a doença mais grave. que não se resume em corOs hospitais, as unidades rupção, mostrar ao mundo de saúde haviam se tor- que o grupo que dirige o nado unidades de doença país não é a representatividade da população brasileira. e de decadência médica e Conquistou, exigiu, consocial. As escolas, onde o seguiu. Mas ainda não é o saber se cria e se apodera suficiente. A lição ainda não das crianças e de adolesfoi totalmente assimilada. centes para lhes viabilizar posições importantes na É preciso que os gritos sociedade com as profissões retornem aos espaços

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Não está bom, tem que melhorar e muito. Tem que haver mais justiça. Tem que continuar investigando. Tem que levantar a cobertura grossa e negra que recobre o chamado Governo, em todos os seus níveis, para deixar à luz e aos olhos de todos os arranjos para matar a ética, a honestidade, a hombridade, o trabalho honesto, a solidariedade, a governança pelo bem do povo. Como reconhecer onde vivo?


POESIA

MICHELE STRINGHINI OLHARES Olhares! Estamos rodeados por olhares, Olhares de vida e de morte. Olhares da bandeira da paz, Olhares da armadilha terrorista, Olhares de um povo faminto, Olhares de uma nação que clama justiça. Olhares de um povo cansado de guerra. Olhares de uma mãe que vê seu filho recém-nascido. Olhares da criança que exala inocência. Olhares de pessoas que expelem garra e consistência. Olhares variados, olhares ao infinito. Olhares em Deus. Sejam quais forem os olhares. Que cada olhar plante a semente da igualdade. Que cada olhar plante a semente da partilha. Que cada olhar plante a semente da humanidade. Que cada olhar seja mais que um olhar. Que cada olhar seja nobre. Que cada olhar se manifeste em ONGs, Que cada olhar se manifeste em ações sociais.

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CONTO

ENÉAS ATHANÁZIO CEFALÉIA MUAR José Agostinho, de apelido Zé Caniço, com certeza por ser muito alto e magro, ganhava o pão com sua carrocinha em que transportava pequenos fretes, para lá e para cá. Puxada por um velho e paciente burrico, ou jegue, de nome Pretinho, orelhudo e de reluzente pelagem negra onde se destacavam manchas amareladas em torno dos olhos e da boca. Zé Caniço e Pretinho pareciam se entender e estimar, a julgar pelas aparências, pois não é tarefa fácil aquilatar dos sentimentos de um jegue, ainda que manso e conformista. Pretinho sempre se portou bem no trabalho, com sol ou chuva, frio, calor ou vento, subindo e descendo ladeiras, colaborando com o dono na dura luta pela vida. Mas de repente, assim no mais, começou a dar sinais de desânimo e cansaço. Quando parava para

carga ou descarga baixava a cabeça, inclinando para o chão o longo pescoço, num jeito triste e desolado. Zé Caniço ficava intrigado com aquilo e tratou de caprichar na alimentação do companheiro de serviço, cuidando para que não lhe faltassem milho, alfafa e água em abundância. Observando melhor, concluiu que

aquelas crises de desânimo atacavam seu jegue de estimação nos dias de sol.

longe observou a postura de Pretinho. Com a cabeça baixa, quase rente ao chão, tinha os olhos fechados e parecia prestes a cair. Nesse momento passava por ali um velhote conhecido, carroceiro aposentado, que consumia seus dias num banco do jardim, proseando prosas sem sentido. Zé Caniço comentou com ele o estado de seu animal e o carroceiro, depois de pensar bem, saiu-se com esta: “Vai ver que ele está com dor de cabeça. O sol é muito forte.” Zé Caniço não achou a menor graça na observação. Ela lhe pareceu uma coisa absurda, pois onde já se viu jegue com dor de cabeça? Aquele velhote devia estar caducando! Chegando em casa, porém, recolheu Pretinho à sombra do galpão e notou que, depois de algum tempo, o animal pareceu se reanimar e passou a comer, beber e agir com naturalidade. Nasceu-lhe, então, a idéia salvadora.

Numa tarde de verão, com o sol latejando no céu, Zé Caniço fez estacar seu veículo diante de uma pracinha e foi entregar encomendas. Quando voltava, já de No outro dia Pretinho

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apareceu atrelado à sua carrocinha, como de costume, mas com um detalhe que provocou geral espanto. Trazia na cabeça grosso chapéu de feltro cinzento, através de cujas abas suas longas orelhas cruzavam por buracos redondos, e afixado por baixo do pescoço com um cordão. É verdade que

no início ele não gostou, cabeceando para tirar o bizarro apetrecho, mas acabou acostumando e jamais foi visto sem chapéu durante a jornada de trabalho.

misteriosos sinais de prostração. Zé Caniço parece ter encontrado, como pioneiro, remédio infalível para a cefaléia muar. E Pretinho, famoso, é fotografado ao lado de visitantes de toda Coincidência ou não, o parte e até fez uma pontinha fato é que nunca mais o num documentário sobre velho jegue deu aqueles sua cidade.

POESIA

SELMA FRANZOI DE AYALA FOTOGRAFIAS Saudade, Separação Tempo de partir Encontros, despedidas Viagem Passagens, paisagens Sonho, ilusão Canto, encanto Saudade, separação Passagem do pensamento Passagem do tempo Sincronia do tempo Viagem Passagens, paisagens Sonho, ilusão Canto, encanto Saudade, separação...

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POESIA

MARTA ELIANE SANTOS DE CARVALHO TECLADO ZEBRADO Vamos fazer uma canção que encha o ar de emoção... Toque fundo o coração! O instrumento escolhido parece um pouco esquecido, Está quase sempre calado, fica num canto encostado. Mas já ouvi seu tinido, faz muito bem ao ouvido Se sempre bem afinado e com amor bem tocado: - É o teclado zebrado! De preto e branco listrado! Com suas teclas brilhantes, parece até encerado! Vamos tocar na clave de Sol, ainda que o dia esteja nublado: Dó-re-mi-fá-sol-lá-si-dó Diga que de mi-m não tem dó Mas mi chame para estar ao seu lá-dó Fá-ça uma declaração de amor, Dessas que eu fique ca-lá-dó Si eu chorar de paixão, Re-gue o meu coração, com toques suaves, Até que eu mi sinta leve, como uma ave... Mi car-re-gue então, E mi leve pro seu céu... Lá...onde tudo é sol e amor!

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CRÔNICA

MARY BASTIAN lagoinhas que a chuvinha fazia. Jogavam água um no outro, tentavam pegar água nas mãos e davam Sempre falo que não gosto gargalhadas. E rolavam nas de chuva, mas de chuva pocinhas . forte, aquelas que derrubam tudo, sujam tudo fazem um E gargalhada de crianças é estrago danado. Mas aquela muito bom de ouvir. É sinôchuvinha miúda, chuva de nimo de inocência, de alemolhar bobo, como se diz gria, de estar de bem com a na minha terra, daquela vida. Era o que eles estavam eu gosto. E quando era mostrando. Ela é linda e pequena, muito banho safada, até o nome é lindo: de chuva tomei, no pátio Riana. Não sei se é assim de casa e até na calçada, que se escreve, mas tem sorriso até no nome. Acomquando morei no interior. panhei todo o desenvolviSemana que passou, tive mento dela, é simpática e um revival daquelas brinca- risonha e é amiga de todas deiras bem aqui no jardim as moradoras daqui. do condomínio. Estava sentada , lendo, e me chamou Ainda me dei ao luxo a atenção duas risadinhas de perguntar se o banho

CRIANÇAS E CHUVA MIÚDA

de criança, bem na frente da minha janela, e a curiosidade ganhou.

Era uma menininha que nasceu depois que vim morar aqui e mora no meu bloco, mais pra cima. E um gurizinho maior que ela, que deve ser primo. Estavam deitados nas lajes do jardim, aproveitando as

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estava bom e recebi mais gargalhadas. Coisa boa ser criança e nosso lajeado é novo e está sempre muito limpo, portanto, não tinha com que me preocupar. Temos poucas crianças aqui e quando uma aparece fazendo coisas que a gente já fez um dia, é bom demais. Sophia, neta de outra vizinha, esta semana apareceu com dois mini-cachorros peludos. Foi um alvoroço. Todo mundo queria segurar os bichinhos que não têm nem 15 centímetros de comprimento. Pareciam umas coisinhas de pelúcia, que a menina trouxe pra eu conhecer. Ser criança sempre é bom.


POESIA

NEIDA ROCHA MINHA NÃO METADE Quando eu te conheci, pensei que tivesse encontrado minha outra metade. Hoje eu sei que estava errada. Não és minha outra metade. És meu outro “EU” e não posso ter só tua metade, porque preciso amar-te por inteiro. www.neidarocha.com.br

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CRÔNICA

ELOÍ ELIZABETH BOCHECO AOS RETALHOS

de uma taquara. Trégua para eu ir ali ver se nasceram as sementes de tagetes que semeei e se o gato tomou o leite do pires. A taquara sou eu, caniço pensante a La Pascal. O vento pode derrubar, a chuva pode derreter, o acaso pode esmagar. Defendo-me como é pos-

Um não sei quê, que vem não sei de onde e sopra não sei como levanta as cinzas do inevitável. A respiração fica difícil com tantos fantasmas por perto. Abro de par em par as janelas e bato palmas para espantá-los. Sempre funciona. Só os que moram no espelho não se incomodam com palmas nem com outro gesto qualquer. Alimentam-se da conspiração e querem, por força, dar as tintas. Pinto meu hall de entrada com as cores que escolho no catálogo de Donana, a mulher tigre, que comeu a vida pelas bordas e pelo centro, nunca beijou sapos e expulsou ogros com o cabo de vassoura. sível a um caniço que tem a palavra como recurso e A luz, em pessoa, vem a abrigo. mim: o que acordou, cinza não era. O que se levanta dos confins do espelho me fita, em dúvida e, na dúvida, apunhala pela frente. Os dias são curtos para decifrar tantos contornos. Tremula um lenço branco na ponta

Cai neve no éter do espelho. Cai devagar, no justo tempo da brancura de meus fios de cabelos. Um frio antigo me percorre; punhais para os dedos das mãos e dos pés descobertos. Enquanto a

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neve cai, boto meus óculos de grau e vou copiar um poema de Riner Maria Rilke em meu caderno de suprimentos básicos. Na curva, o rio de espelho me alcança. Não há margens, só esquecimento. São as águas de aço abrindo as comportas do dia. O que não é aço é flor de narciso. O espelho vai me deserdando, passo a passo. Sobra um olho encardido que teima em acreditar nas aleivosias das águas. A que me fita tem abismos nos olhos. Aqui e ali faz sombra onde as vacas pastam magras. Ao longe, as saracuras gritam de alegria ou, talvez, de agonia pelo fim da tarde de junho. Entre as juntas das palavras ergo a minha morada e me recolho cedo porque faz frio e vai cair geada na serra. Aos retalhos também se vive, com certos limites, é verdade, mas , nem por isso, com menos artimanhas para enganar a morte.


POESIA

FLÁVIO CAMARGO PEÃO DE CANAVIAL Dia após dia, o sol a pino gretou sua face em sulcos rasos escoadouros de suor que levam sal a sua boca ressequida. Que futuro terá? Enquanto puder muita cana cortar vai ficar no canavial. Depois um farrapo de corpo irá campear alguma xanga numa vila qualquer. Melhor do que nada os trocados da cana, alguém dirá. Verdade. Triste verdade. Sem os trocados passará fome, isto se não... de um tiro tombar no descaminho. Com os trocados, fome nem tanto. No entanto, vai se esvair aos pouquinhos, isto se não... de um enfarte tombar no canavial.

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CRÔNICA

IRENE SERRA CENA INCOMUM Muito se tem noticiado sobre o número de acidentes causados por embriaguês ao volante. Mas tem que se exigir, também, capacitação dos profissionais da área médica que fazem os exames de vista e afins. Estariam todos eles examinando corretamente os candidatos, prevenindo, assim, tanta barbaridade no trânsito? Renovando a carteira de motorista que já estava vencida, cumpro a série de exigências. Pago taxas pra

lá e pra cá. Levo o comprovante do pagamento e enfrento uma fila enorme para receber um documento para o exame de vista e outro para o psicotécnico. Ambos pagos à parte, evidentemente. A psicóloga, uma senhora boa praça, conversa amavelmente, mostrando, depois do teste, o que seria o certo e em que se perde ponto. Digo-lhe da minha formação, logo fazemos camaradagem e mais da metade do tempo em que fico no consultório é pura distração. Em suma, passa a ser uma amiga, que de tão bom papo não devo esquecer de

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convidá-la para uma futura reunião em casa. Dia de fazer o exame de vista. De óculos em punho sem eles nada leio - aguardo na sala de espera. É uma clínica com várias especialidades. Está lá escrito que tem oftalmologista, então, não tem erro. Acredito, ainda mais que foi o especialista determinado pelo órgão competente. Sou chamada e acompanho a atendente. Ao menos, pelo uniforme, parecia. Hoje, já nada posso afirmar. Oferece-me água e cafezinho. Oba! - penso - Já gostei! Entra o médico e, após os cumprimentos de praxe, bate o martelinho em meu joelho esquerdo, no direito, volta ao esquerdo; manda que eu aperte uma alavanquinha de pressão com ambas as mãos e com as mãos separadas; senta-se e começa a fazer anotações. Então, tira detrás da mesa um cartaz (interessante o gesto!), dependura-o em parede distante e pede-me


que o leia. Mostro os óculos vamos em frente. O doutor e ele aquiesce. Coloco-os e demonstra satisfação e meus “s” não me deixam mentir. começo a soletrar. Sou carioca da gema e ele SOPA logo percebe. Conversa alegre, descontraída, mais SUST cafezinho e pronto, está terCEBOLA minada a consulta. CISTERNA SOBRANCELHA

Aula de fonemação ou exame de vista? Se tiver lacunas para completar as letras, acerto tudo! Bem,

Achando um exame por demais sumário, bem diferente dos outros que fiz para renovação - nem 10 minutos - relutante, pergunto em tom de brincadeira: - Nem uma luzinha? Olhar para cima?

Nada mais? E ele diz que já sabe que estou ótima. Além do que, estava sem a lanterna. Ah, sim, agora está explicadíssimo! Na saída, recebo um cartão para quando tiver necessidade de consulta particular. Sua especialidade... ginecologista! Taí, não precisa mesmo de lanterna!

MAIS DE 38 ANOS DE LITERATURA Leia a revista SUPLEMENTO LITERÁRIO A ILHA, do Grupo Literário A ILHA, publicação que já está no seu trigésimo oitavo ano de circulação, no endereço: https://issuu.com/grupoliterarioailha/docs/aailha145jun18af • 20 •


POESIA

ANDRÉ FIGUEIRA ENTRE PREFIXOS E SUFIXOS Infelizmente... Muitos tentarão te definir. Seja radical!

VIAJADA(MENTE) Busca refúgio, paz, alento. Quer voar alto, mas o coração está com excesso de peso.

PONTUAÇÕES Interrogações exclamam para que a vida não tenha ponto final.

BALANÇO SEMESTRAL Lucro líquido escorre pelos dedos. “Autocusto”. Conta no vermelho.

QUANDO ATENDO A MIM Alto? Silencioso? Deixe vibrar... Tô em modo avião!

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POETRIX SEXUAL Caneta ereta, papel deitado. Tinta escorre entreaberta. Marcas de prazer pra todo lado.

O PRA(S)ER DA LEITURA Em-si-na arte de viver. Imagina-ação correndo solta. Pra(z)er, companheira tua!

365 O mundo dá tantas voltas, você não sai do lugar. Coração em baixa rotação.

LUNÁTICO Universo particular. Orbitando loucuras, sem nenhuma gravidade.

SOBRE EXPECTATIVAS E FRUSTRAÇÕES Muito é insuficiente quando a espera é (de)mais.

PARADOXO LABORAL Quer o tempo depressa, Não quer envelhecer. Escravo das horas, morre sem viver.

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CONTO

RITA MARÍLIA SÍNDROME DO NINHO VAZIO Às 6h da manhã levanto, não por opção, mas porque eu sempre fui assim: a cama não quer mais o corpo, o corpo não quer mais a cama, mesmo que o sono fique ali deitado. Levanto, bebo dois copos de água, passo café e sento para ler por mais ou menos uma hora e meia. Nem sempre foi assim.

para consulta.

depois...

Trabalhei, criei uma filha e, embora ela já morasse fora de casa, não a ver “encaminhada” continuava sendo minha principal ocupação, preocupação.

Então... Então, às 6 horas da manhã levantei e antes de ler olhei para minha idade, olhei para meu corpo em visíveis transformações, olhei para o tempo passado e olhei para o futuro. Numa manhã qualquer, um e-mail chamando-a para Futuro!? Futuro!? Futuro!? assumir um cargo conquis- Qual futuro? tado através de concurso muda meu olhar sobre a O futuro do minuto seguinte, minha vida e silenciosa- da noite seguinte, do dia mente surge a Síndrome do seguinte. O futuro aqui, Ninho Vazio: ninho emo- grudado, de boca aberta e de olhos esbugalhados especional. rando minhas ordens. Não naquele dia, que era para comemorar. Não no Minhas ordens? Minhas?

Em tempos de correria, quando a filha era pequena, quando eu trabalhava em tempo integral, levantava outro, que era para come- Minhas, sim. Minhas e de cedo, mas não lia. Não lia, morar ainda mais. Mas, mais ninguém. mas em parcos momentos Eu? Ser dona? Ampla, total, de um dia atribulado, rouirrestrita, dona e livre? bava minutos para, com fios Dona de mim, de meu de sonhos, tecer esperança. tempo, de meus pensaFiz, naquela época, o que mentos? .... Eu? De mim? julguei ser meu dever de Nesta manhã, voltei para a casa. A cada noite uma cama sem ler ... e dormi. página era virada e pela Na manhã seguinte, a cama manhã uma nova página, também me acolheu e na com novas lições, novos outra ela me escondeu do desafios, novos exercícios não vividos e ... sem livros mundo, do mundo que

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sempre espiei pela fresta sair da água e (“que Deus me livre”) dizer apenas para das possibilidades. mim: sou feliz com o que Possibilidades, possibilitenho, sou feliz com o que dades, possibilidades!!! .... sou, sou feliz com o que Possível. ainda serei e realizarei. Então agora eu poderia Mas eu dormia e dormia olhar, não mais pela fresta, em tempo integral. Dormia mas pela janela escancarada e fugia. e alcançar as possibilidades. As marcas das rédeas da Mas não desejando saber, eu responsabilidade ainda sandormia embalada pelo medo. gravam no meu pescoço. Medo! Medo do descoMeus amigos me buscavam, nhecido, medo de ser livre, ofereciam-me passeios, medo de não ser útil e de lugares, reuniões: eu fugia. ser esquecida, jogada no silêncio. Até que, num final de semana, fui constrangida a Medo do tempo que se fazer uma pequena viagem. agigantou à minha frente, porque os ponteiros do Pedi carona num dos três relógio passaram a se mexer carros da caravana. lentamente pela falta de O casal, meu amigo, com urgência, dando-me sobreuma gentileza inominável, vida. acolheu-me em seu carro Medo de saltar do tram- e eu, por brincadeira, para polim da responsabilidade deixar o ambiente desconfamiliar, medo de estar traído, disse que eu ia “de em pleno voo – um dos filha”, já que o acento de momentos mais solitários trás a mim pertencia. em que alguém pode estar As risadas foram boas e medo de tocar a água lá em logo na saída, no primeiro baixo e senti-la com carícia quilômetro, percebendo que se abrindo para me receber eles aceitavam a brincadeira como útero invertido, medo e também para relembrar de me afogar de tanta momentos vividos por eles emoção, medo de voltar à e por mim, falei: tona e não receber aplausos e ver-me só e feliz, medo de - Já chegamos? Falta muito?

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E, sentada no banco de trás, viajei contando e relembrando as coisas da minha infância. Falei que meus pais sempre me levavam em seus passeios de carro, que eu adorava estar à mercê dos desejos deles, e que para mim tudo era bom quando estava com eles ... Assim, fui e voltei brincando, relembrando e me denominando “filha”. Na última parada já de volta, troquei de carro e eles - adoráveis “eles” - continuando a brincadeira, fizeram mil recomendações para eu me comportar no carro das “tias”. Por que? Não sei, mas foi assim. Aquela viagem me fez voltar no tempo e lembrar-me do antes: do antes de ser mãe, do tempo de “ser filha”. E relembrei aquele tempo, quem eu era, onde eu estava, o que era bom, o que era ruim, o que era inevitável, o tempo que perdi lamentando sem fazer, os porquês, os como, o que eu sonhava ser e fazer. O que sonhava ser e fazer? Ser e fazer... Do “ser” fui mãe com todas


as obrigações, alegrias e em ação, viva em emoção. tristezas, culminando no Abri novamente o caderno mérito do “ter encamida minha vida e voltei nhado”. àquelas páginas amareladas Consegui criar o hábito da para reassumir as queixas leitura e adquiri o conheci- que me impediam de mento que eu sempre jul- tantas coisas. E daquelas guei importante para mim. queixas “pueris” extrair os Mas restava tudo o mais que meus “quereres” e me comeu queria ser e, assim, de prometer a transformá-los braços dados com o fazer, novamente em sonhos e, o ser que queria ser - e que de sonhos, em realizações morava no passado - preci- com novas alegrias, mesmo sava com urgência ser tele que com um corpo menos transportado para o presente. interessante, mas com uma cabeça muito mais “tudo”. Mas ainda a cama era o meu esconderijo, meu conforto e Quanto à Síndrome do Ninho Vazio? Ela permaminha conselheira. necerá aqui comigo, do No dia seguinte, novamente meu lado a me acompanhar, fiz uma incursão ao ponto demarcando tempos vividos, dos meus desejos de “ser” e porque ela é real e imporde “ter” quando ainda a restante. ponsabilidade sobre minha No caderno da minha vida, filha não existia. em letras grandes, junto Quem eu era naquele pascom outras igualmente reais sado? e importantes, vou acrescenDo que eu reclamava não tá-la: ter? De não ser? De não INFÂNCIA - ok poder fazer? ADOLESCENCIA - ok Percebi que eu tinha o privilégio de resgatar estas per- FASE ADULTA - ok guntas e respondê-las todas. MATERNIDADE - ok Privilégio? Sim, porque PROFISSÃO - ok estou aqui viva em pensamento, viva em saúde, viva SAÚDE – ok

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SINDROME DO NINHO VAZIO – ok EU... em movimento Ontem estive em uma reunião de amigos e senti toda a minha mocidade pincelar meu coração. Ali estive alegre, hoje sou feliz. Alegria se conjuga com o verbo estar; felicidade se conjuga com o verbo ser. Ser é um verbo de permanência; estar é um verbo de mutação. E sou feliz porque, olhando para trás, vejo que os grandes desafios foram vencidos. E sou feliz porque a vida me recompensa devolvendo-me tempo. Daqui a alguns anos quero enumerar os meus sonhos realizados a partir de agora. O ninho não estava vazio: havia uma fênix – eu – que aguardava o tempo certo para renascer e voar.

“Viver uma grande vida é realizar na idade adulta um ideal da juventude. ” Alfred Victor de Vigny


POESIA

MARIA LEFRÈVE QUANTAS VEZES? Quantas vezes em outros braços Busquei teus abraços? Quantas vezes, de olhos fechados, Busquei teus lábios amados, Em beijos fugazes? Mas não eras tu... Já não existes mais, Embora sinta tua presença, Nas minhas noites insones, Nas minhas noites sem paz... Se ao menos tivesses um clone, Ou houvesse um telefone Para que eu pudesse ouvir tua voz Uma vez mais... Quantas vezes ainda vou te procurar Em outros leitos, Sentindo pulsar em meu peito Teu coração que já não bate mais?

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COISAS SIMPLES Réstia de luz Entrando pela janela Cheiro gostoso Vindo lá das panelas Passam voando Borboletas amarelas Olho as flores Imagino uma tela Faço um cappuccino E acrescento canela Coisas simples Pão, manteiga, muçarela Agradeço baixinho e sinto Que Deus por mim zela Dou um sorriso e um suspiro E sinto como a vida é bela

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EXCERTO DE ROMANCE

CORISCO MURA TARDE NO SAMBAQUI (Trecho de “A última aldeia”) Fui à ponta do Sambaqui. É para onde escapava quando desgostoso da vida. Caía a tarde. O mar era quente, sereno, ou assim parecia. Sobre ele, os barcos mal se moviam. Dormitavam sob o sussurrar monótono da arrebentação. A que horas partiriam? Não me interessavam os segredos náuticos ou qualquer outro conhecimento oculto. Só pretendia mirar o mar. Quis lançar-me nele. Não, nada de repentes. O mais sensato era esperar, aguardar pelas derradeiras férias. Contentar-me com sonhos módicos, sensatos, burgueses. Fora-se o destempero da juventude. Agora desejava somente paz.

um punhado de pedras, mirava a baía. A mirada me bastava. Imaginei as frontarias dos sobrados lusos a debruçar-se mais além sobre o mar. Estas escapavam-me dos olhos. Da baía, via morrerem os muitos matizes de verde dos coqueiros e arbustos mirrados da Ponta do Sambaqui. As cores sumiam-se na sombra, enamoradas da sugestão da noite. O dia, no entanto, subsistia. Adiante, observava o vulto dos prédios no continente. Por alí, almas perdiam seu tempo em cruzamentos ou engarrafamentos; pais buscavam seus filhos na escola; seres agoniados viam, enfim, o

passar acelerado das horas. Então vi um homem a arrastar um bote. Algo depois, um cão prorrompeu a estreita faixa de areia com seu latido inquieto. Pulava. Seguia monologando. Fazia festa, sem dar com a presença do pescador. Algo depois, entediado, lançou se sobre uma ave. Não busquei perscrutar-lhe  a mente, mas sabia que esta ignorava os prédios do continente, quadrados cinzentos, pequenos e frágeis, melancólicos origamis a aprisionar vidas humanas. Tampouco trabalhava numa repartição administrativa, enorme taba sem dono. Então, por pouco tempo, compartilhamos da mesma liberdade. Pouco mais tarde tive que partir. Deixei a criatura alforriada, mas levei comigo a sedutora sugestão da independência.

Alí, encimando

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POESIA

DIRCE CARNEIRO

Antigamente, Mulheres dadas e contentes Viravam pauta

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VOO INFINITO Um dia também voarei. Todos um dia alçaremos voo inexorável rumo ao infinito... Povoaremos as estrelas, estaremos em namoro com os astros... Quem sabe até adentraremos o sol, queimando-nos nas suas chamas... Passearemos pela galáxia, cantaremos a majestosa inteligência do Universo. Seremos testemunhas dos segredos tão sondados no planeta que visitamos, no curto espaço de tempo que eternidade nos deu. Um dia voaremos... Iremos ao encontro dos que voaram antes de nós. Eles nos receberão. Segredarão com fraterno afeto as descobertas, tornando mais leve o caminho. Um dia olharemos para as nossas criações... Saberemos com retidão olhar somente as boas criações... Porque assim desejamos e laboramos. E veremos que no fim, só o Amor importa. Nosso ser será de incomensurável amor ao Todo. E saberemos o quão bom é voar, voar, voar...

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DEPOIS DO PANO São nuvens que passam... Estranhas sombras no cerebelo Que se esgueiram entre pensamentos, Impressões de tempo fechado, Ainda não totalmente frio... Imagens de uma seriedade latente... Neblina na antessala do entendimento, Põe-se na porta à meia luz, feito cortina. Circunspecta, difusa, impenetrável visão. Nada entra, nada sai. O pano nem balança. Chave não há. Se houvesse, não iria girar. Mas a fechadura é dourada e ela brilha. Simulacro de sol que ainda pode nascer, Ou algum poder oculto a se descobrir... Na semi-escuridão de sinais e porvires.

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TEMPO DE SER Chove. O que já estava úmido e leve, encharca e pesa. O barulho da chuva lá fora sufoca o som do artista na sala. Mal dá para ouvi-lo dizer “bem que avisou a ela, o tempo passou na janela...” Mas o tempo continua a derramar-se, indiferente se inunda ou não...se traz essa dor, esse aperto, um quê de saudade, de melancolia e felicidade, tudo ao mesmo, com a mesma intensidade e indefinição. Há um tempo que chove, um tempo pretérito, um tempo presente, um pretérito mais que perfeito... Há um tempo que tudo envolve. Onde cabe tudo e todos. O tempo de cada um, o da afirmação de si e negação do outro. Esse tempo é triste. É virtual e enganoso, quando diminui o outro. É uma bola inflada a estourar na primeira cutucada. O tempo da afirmação de si, se não a serviço de apagar o brilho do outro é o tempo da plenitude, quando o vazio de si mesmo infla a bola que todos veem e reconhecem. Há um tempo em que se é com todas as consequências. Então felicidade e dor misturam-se, na felicidade sente-se a dor numa via dupla onde sentimentos se espelham. É-se plenamente sem medo, apenas se é. Olho pela janela...Ainda chove? Não vejo, mas tem aquele sonzinho gostoso, musicado pelas gotas em uníssono... Cheiro de forno aceso...Atravesso a sala, algo me retém... Ah! Os desejos, que nos fazem interromper uma caminhada porque algo mais forte nos chamou... Irresistível o partido alto, sonho, sonho meu, atrás da verde e rosa só não vai quem já morreu. Demoro-me a requebrar e querer imitar as passistas. Bom que lá no fundo tem um espelho...

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Jeito nenhum tira esse tempo de querer dançar, em plenitude, sendo à minha maneira. Ir atrás da verde e rosa. Estar viva... Quem é esse artista que canta? Qual é seu tempo? Antenado com que lado desse tempo? Não importa, porque chove e meu coração está inundado... Aqui e agora é o tempo...que não se ouça depois eu bem que avisei, o tempo passou e ninguém viu...

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POESIA

AILA MAGALHÃES

DO IRREMEDIÁVEL É tarde de um dia que parecia não querer nascer, mas mesmo assim, vestiu-se para a festa. Primeiro retirou o cinza dos olhos (não lhe cairia bem aquele olhar-noites-insones) e então despiu-se dos quase-nenhum motivo para entregar-se à luz, devagarzinho, lentamente, como quem ama... Uma fresta, logo outra. Olhos abertos.  Foi-se o sonho. A fórceps, arranco-me do aconchego de uma noite anônima, noite sem medos, sem culpas. Poderosa e longa noite que desejei eterna-em-mim.  Cheio de dores, encaro  imperfeições que a luz revela cruas, cruéis. Sou eu. Sou eu, só eu. O dia já vai alto,  gastando escandalosamente um azul que não lhe cabe, um dia cinza-estanho fingindo-se azul. Abro a janela. Não estás passando na rua, a rua está vazia. Estou também vazia. Sem ti, que me abraça, sem a noite que me aconchega. Só. Eu e essa luz, que seca os olhos, sem parar a dor.

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DUC IN ALTUM Lança-te ao mar, esquece os lilases! (contudo, reserva algumas sementes)... Que não te seja âncora o beijo da mulher amada. Vai! Não receies molhar os pés ou sentir vazios n’alma... teus olhos secarão ao sol, tua boca secretará o sal (mas, por favor, preserva o sangue de tuas veias) Não te demores, a maré não aguardará sonho nenhum, então, que aprendas logo o valor do tempo. Temerás a noite sem estrelas  e ondas arrebentando sobre teu corpo Assim mesmo, vai! Se naufragares, terá valido a pena perder-te na tempestade Se aportares, estarei à tua espera. Com algum trabalho, haverá lilases pelos jardins... portanto, não esquece agora de preservar tuas sementes. Nelas, passado e futuro. Agora, é preciso enfrentar o mar.

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CONTO

LUIZ CARLOS AMORIM A ÚLTIMA NOITE Seu Antônio já estava aposentado e, a despeito dos seus mais de sessenta e cinco anos, ia a todos os lugares com sua inseparável bicicleta que ele chamava carinhosamente de Florisbela. Gostava da sua cervejinha e de um jogo de cartas com os amigos, no boteco da esquina. Não se considerava velho, absolutamente: fazia questão de frisar que se sentia jovem como um garoto, apesar da idade. Era viúvo, tinha filhos e netos, mas não os incomodava. Apenas queria viver, a seu modo, o tempo que lhe restava e que, segundo ele, era grande. Uma noite, depois do jogo com os amigos, resolveu sair da rotina e tomar uma cerveja em outro lugar qualquer que não o boteco de costume.

Joãozinho, um dos amigos mais chegados, dispôs-se a acompanhá-lo e sugeriu que fossem beber numa das casas “suspeitas” da cidade, onde estariam bem acompanhados. E lá se foram os dois, o seu Antonio dando carona ao Joãozinho na Florisbela, é claro. Quando chegaram à primeira “casa suspeita” do caminho, o velho encostou a bicicleta num canto e foi entrando, pedindo logo pela cerveja. Uma das meninas veio trazer a bebida e já ficou sentada no colo do seu Antônio. Ele colocou a

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cerveja nos copos, mas não chegou a bebê-la, pois Laurinha, muito à vontade, já o abraçava e lhe aplicava uns beijos molhados. Ele não se fez de rogado e seguiram para um dos quartos. Afinal, pensou - não sou tão velho assim e já estou viúvo há bastante tempo. - Hoje é dia de festa – disse para Larurinha, sorrindo - e foi tirando a roupa, enquanto ela, que a despeito do nome era até bem volumosa, ia tirando a dela. Despiram-se rapidamente e jogaram-se na cama. Seu Antonio parecia


mesmo um garoto. De repente, no entanto, com um gemido, caiu sobre Laurinha, não levantando mais. A mulher começou a gritar, tentando afastar o peso de cima dela. O dono da casa bateu à porta e, como ninguém a abrisse e Laurinha continuasse gritar, arrombou-a.

Atrás dele, homens e mulheres seminus, vestindo suas roupas, vinham ver o que estava acontecendo. Constatando que o velho realmente passava mal, vestiram-no de qualquer jeito e colocaram-no em um carro, levando-o para o hospital. Ele estava quase desfalecido, mas

ainda gemia. No hospital, o médico atendeu prontamente, mas ele morreu em seguida. Foi o coração. No dia seguinte, o enterro saiu da casa da filha. Mais tarde, alguém foi apanhar a Florisbela, que ficara onde fora deixada pelo dono, indiferente a tudo…

AS CORES DA POESIA

Leia o novo livro do escritor Luiz Carlos Amorim, uma coletânea de poemas atuais e outros produzidos em outras épocas. Peça o seu exemplar pelo e-mail revisaolca@gmail.com .

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GRANDES POEMAS

CECÍLIA MEIRELES

MOTIVO
 Eu canto porque o instante existe e a minha vida está completa. Não sou alegre nem sou triste: sou poeta. Irmão das coisas fugidias, não sinto gozo nem tormento. Atravesso noites e dias no vento. Se desmorono ou se edifico, se permaneço ou me desfaço, — não sei, não sei. Não sei se fico ou passo. Sei que canto. E a canção é tudo. Tem sangue eterno a asa ritmada. E um dia sei que estarei mudo: — mais nada.

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GRANDES POEMAS

ADÉLIA PRADO COM LICENÇA POÉTICA Quando nasci um anjo esbelto, desses que tocam trombeta, anunciou: vai carregar bandeira. Cargo muito pesado pra mulher, esta espécie ainda envergonhada. Aceito os subterfúgios que me cabem, sem precisar mentir. Não sou tão feia que não possa casar, acho o Rio de Janeiro uma beleza e ora sim, ora não, creio em parto sem dor. Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina. Inauguro linhagens, fundo reinos — dor não é amargura. Minha tristeza não tem pedigree, já a minha vontade de alegria, sua raiz vai ao meu mil avô. Vai ser coxo na vida é maldição pra homem. Mulher é desdobrável. Eu sou.

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GRANDES POEMAS

DORA FERREIRA DA SILVA

NASCIMENTO DO POEMA É preciso que venha de longe do vento mais antigo ou da morte é preciso que venha impreciso inesperado como a rosa ou como o riso o poema inecessário. É preciso que ferido de amor entre pombos ou nas mansas colinas que o ódio afaga ele venha sob o látego da insônia morto e preservado. E então desperta para o rito da forma lúcida tranquila: senhor do duplo reino coroado de sóis e luas.

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GRANDES POEMAS

HENRIQUETA LISBOA

SOFRIMENTO No oceano integra-se (bem pouco) uma pedra de sal. Ficou o espírito, mais livre que o corpo. A música, muito além do instrumento. Da alavanca, sua razão de ser: o impulso, Ficou o selo, o remate da obra. A luz que sobrevive à estrela e é sua coroa. O maravilhoso. O imortal. O que se perdeu foi pouco. Mas era o que eu mais amava.

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GRANDES POEMAS

FERREIRA GULLAR

CANTIGA PARA NÃO MORRER Quando você for se embora, moça branca como a neve, me leve. Se acaso você não possa me carregar pela mão, menina branca de neve, me leve no coração. Se no coração não possa por acaso me levar, moça de sonho e de neve, me leve no seu lembrar. E se aí também não possa por tanta coisa que leve já viva em seu pensamento, menina branca de neve, me leve no esquecimento.

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GRANDES POEMAS

VINICIUS DE MORAES SONETO DA FIDELIDADE De tudo ao meu amor serei atento Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto Que mesmo em face do maior encanto Dele se encante mais meu pensamento. Quero vivê-lo em cada vão momento E em seu louvor hei de espalhar meu canto E rir meu riso e derramar meu pranto Ao seu pesar ou seu contentamento E assim, quando mais tarde me procure Quem sabe a morte, angústia de quem vive Quem sabe a solidão, fim de quem ama Eu possa me dizer do amor (que tive): Que não seja imortal, posto que é chama Mas que seja infinito enquanto dure.

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GRANDES POEMAS

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

AS SEM-RAZÕES DO AMOR Eu te amo porque te amo. Não precisas ser amante, e nem sempre sabes sê-lo. Eu te amo porque te amo. Amor é estado de graça e com amor não se paga. Amor é dado de graça, é semeado no vento, na cachoeira, no eclipse. Amor foge a dicionários e a regulamentos vários. Eu te amo porque não amo bastante ou de mais a mim. Porque amor não se troca, não se conjuga nem se ama. Porque amor é amor a nada, feliz e forte em si mesmo. Amor é primo da morte, e da morte vencedor, por mais que o matem (e matam) a cada instante de amor.

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GRANDES POEMAS

MANUEL BANDEIRA

POÉTICA Estou farto do lirismo comedido Do lirismo bem comportado Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente protocolo e manifestações de apreço ao sr. diretor. Estou farto do lirismo que para e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo. Abaixo os puristas Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis Estou farto do lirismo namorador Político, Raquítico, Sifilítico De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo De resto não é lirismo Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc Quero antes o lirismo dos loucos O lirismo dos bêbedos O lirismo difícil e pungente dos bêbedos O lirismo dos clowns de Shakespeare — Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

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ENTREVISTA

URDA ALICE KLUEGER CONVERSANDO COM URDA ALICE KLUEGER

LCA – O que você acha do atual momento sócio-político-econômico do nosso país? O que ele influencia o mundo literário ou a criação literária?

Urda Alice Klueger, escritora, cidadã da América Latina, imortal da Academia Catarinense de Letras, historiadora e Doutora em Geografia, a mais importante representante do romance em Santa Catarina, dá entrevista exclusiva a Luiz Carlos Amorim, para a edição primeira da revista Escritores do Brasil:

URDA – Só veremos o que está causando na literatura este momento da vida brasileira a longo prazo, quando, se Deus quiser, este quase caos se acertar. Dentre tantas outras coisas, acho uma coisa fundamentalmente errada no momento atual do país: o descaso com a educação. Falo bastante disso no meu livro sobre Cuba. Em Cuba, pude ver o que é um governo se preocupar realmente com a educação de um povo. O nosso governo tem inte-

LCA – Seus romances estão repletos de poesia, tanto que a chamei de “menina loira dos dedos cheios de poesia”. Você nunca fez poemas, poesia em versos? URDA – Para falar a verdade, quando eu tinha uns doze anos, cometi a bobagem de escrever um poema. Foi só aquele. Ficou horrível. Nunca mais me aventurei nessa arte que é para quem nasceu poeta.

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resse em manter o povo o mais ignorante possível, basta olhar-se os salários de fome que são pagos aos professores. Povo ignorante é povo que vota por feijão, por aterro, por qualquer ninharia, que vende sua alma sem nenhum remorso, sem querer saber que a está vendendo. Povo ignorante é negócio bom para os pais da pátria, que podem comprar e vender os sonhos do povo a preço bem baixo. LCA – Do que gosta e do que não gosta a Urda escritora imortal, a Urda mulher, filha de Blumenau, a moça dos dedos cheios de poesia? URDA – A Urda é muito simples. Gosta, sobretudo,


de ler e é uma grande leitora. Mas a Urda também gosta muito de viajar, de acampar, de sol e verão, de bater papo com os amigos pelos botequins, dos seus cachorros e gatas, enfim, é uma pessoa normal e simples, e que se emociona quando vê a luta de uma pessoa como você, Amorim, há tantos anos no ar com uma revista que veicula tanta literatura, tantas coisas boas por toda Santa Catarina e que não esmorece nessa luta, apesar de toda a falta de apoio. LCA – Urda, você é uma escritora consagrada e respeitada no Estado de Santa Catarina e também fora dele, não só no romance, com o qual você iniciou e fez sempre muito sucesso, como também em literatura infantil e crônica urbana e de viagem. Qual o gênero que lhe dá mais prazer escrever? URDA: Sem dúvida, o que me dá mais prazer é o romance-historico. É uma coisa muito trabalhosa, o romance-histórico, exige muita pesquisa prévia, etc. – mas não há nada no mundo que me agrade mais do que escrever um romance-histórico. Penso, um pouco mais

para a frente, escrever um dinâmica, cheia de altos e romance geológico. baixos, mas que está acontecendo com vigor. LCA – E qual o gênero que prefere ler? LCA – Qual foi seu mais recente romance histórico? URDA – Também prefiro ler O que está escrevendo e o romance-histórico, bem qual a previsão para o livro como livros de História de ser lançado? bons autores. Você vai achar engraçado, mas formei-me URDA – É um romance-hisaos 48 anos no Curso de tórico sobre os catarinenses História da FURB e fiz de 6.000 anos atrás. Essa doutorado, em Geografia, gente ainda não era o índio, na Universidade Federal e nem o antepassado do do Paraná. Sou, realmente, índio. Chamamo-los, hoje, de Sambaquianos (foram eles que construíram os Sambaquis). Nesse tempo, praticamente nada, ainda, estava acontecendo na Europa, e em Santa Catarina já vivia muita gente, gente que já produzia arte e que tinha conhecimentos até de Geometria. Praticamente ninguém, do grande público, uma pessoa ligada a essas sabe nada a esse respeito. ciências. Não sei fazer lite- Há muita pesquisa cientíratura sem história, nem his- fica, a respeito, e usei essa tória sem literatura. Já conto pesquisa para fundamentar o meu romance. Acabo isso adiante, na entrevista. de lançar novo romance, LCA – O que você acha NO TEMPO DA MAGIA, da atual produção literária desta vez uma coisa mais no estado e no país? Na “mágica”, mas que não sua opinião ela melhorou, deixa de ter temporalidade permaneceu estável ou e localização – o que, de decresceu? novo, nos leva à História e à URDA – Acho que pro- Geografia. dução literária é uma coisa LCA – Sua antiga editora

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não tinha uma distribuição eficiente fora de Santa Catarina. Atualmente, em que outros estados os livros da Hemisfério Sul, sua editora, estão chegando? Como é lidar com a distribuição dos livros? URDA – É muito difícil lidar com distribuição de livros. Estamos no mercado há mais de dez anos e somente distribuímos em Santa Catarina e Paraná, e um pouquinho em Brasília. Tentamos e tentamos, mas até agora, não conseguimos entrar no Rio Grande do Sul. É mesmo bastante difícil a distribuição. LCA – Já faz alguns anos que você ocupa uma das cadeiras da Academia Catarinense de Letras. O que representou isso na carreira da escritora, ou melhor: isso mudou alguma coisa?

Como você vê, hoje, a edição do livro no nosso país, olhando pelos dois ângulos, de escritora e editora?

que conhecemos hoje, mas não acredito no livro que deva ser lido no computador. Ler no computador pode ser cansativo e chato, se bem que tenho me adaptado bem a tais leituras. Penso que o livro, como o conhecemos hoje, terá uma nova forma, mas sempre será algo que se poderá levar para a praia, para a cama, para uma rede, etc.

URDA – Como já disse acima, o grande problema é a distribuição. E também a falta de dinheiro das editoras pequenas. Aliás, a Editora Hemisfério Sul teve que falecer, faz dois anos, por absoluta falta de dinheiro. Hoje é apenas um LCA – O advento das nome de fantasia da empre- livrarias virtuais teria endedora individual Urda desestabilizado o mercado Alice Klueger. editorial, fazendo com que LCA – Você acha que o as livrarias tradicionais, livro eletrônico e a internet que pagam aluguel do podem ameaçar o livro tra- espaço físico para receber dicional, impresso, como o o cliente, funcionários para conhecemos hoje? atender, etc., ficassem em URDA – Penso que haverá desvantagem? Ou dá pra se uma mudança física no livro cogitar que isso teria feito bem para a concorrência? URDA – Ainda não sei responder a tal pergunta. Penso que ainda é um pouco cedo para respondê-la. O que posso dizer é que, por enquanto, apesar dos livros da Editora Hemisfério Sul estarem em diversas livrarias virtuais, eles continuam vendendo mais nas livrarias tradicionais. Penso, porém, que no futuro tal coisa pode se inverter.

URDA – Na minha vida, mesmo, não mudou nada. É claro que tenho orgulho e satisfação por ter sido escolhida para tal cargo, mas a minha vida continua igual. Creio que os meus amigos curtem mais este meu cargo do que eu própria. LCA – A escritora Urda agora também é editora.

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POESIA

KARINE ALVES RIBEIRO

QUERO SONHO O que eu quero é assim, tão pequeno que cabe na ponta de um lápis bem afiado. Grande é somente o que eu sonho. Alcançá-lo? Somente com as asas de uma águia... O meu sonho é o próprio ar! Alto em todas as direções, simples, como duas moléculas de oxigênio. Não tem cor, não tem cheiro. É a essência de todas as coisas, é o que há nas gotas de orvalho é o que o vento tocou. Na confusão do corpo O meu espírito quer mais do que tudo o que há de mais puro no sonhar de uma rosa: o botão! O Sonho que não é ato, nem escolha, nem pensamento, é a fração atômica do tempo transformada em cisão.

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POESIA

RITA DE CÁSSIA AMORIM ANDRADE

ECOS DE TI Mil vozes eclodem da tua boca, aos meus ouvidos outonais, ecos primaverais de palavras afáveis. Migra do teu sal ático a eloquência, aos meus lábios cerrados, rastos lexicais de locuções arcádicas. Manténs o teu ferrão, às escondidas, aos que te devotam a paixão, clavas mortais de seduções fatais. Mentes, no compasso do teu penar, aos que se vão descrentes, couraças armadas de metais florais.

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POESIA

J. C BRIDON

O POETA E A VIDA As lágrimas vertidas De um poeta sonhador Traduzem suas virtudes No trilhar sereno da saudade. Apagaram-se as mágoas, Caiu a máscara das verdades E o poeta, mais uma vez, Transformou seu sonho em realidade. Navegou por mares sem fim, Elevou-se ao infinito dos céus, Tocou de leve as estrelas E pousou seus olhos no luar prateado. De sonhador a criador Transpôs sua própria visão E deu um gigantesco salto Na direção de seus anseios. Agora, o poeta não mais sonhava Com algo inacabado Pois, finalmente, seus desejos Tinham sido conquistados.

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POESIA

APOLÔNIA GASTALDI O VENTO Um dia bem à tardinha bate o  vento a viração  e varre  ligeiro as  folhas  secas  do  chão   Olhei bem aquela cena do terreiro limpo e então lembrei todos  os  sonhos que  eu  tinha  na  coração.   Se  você  tivesse  visto com os olhos  da  alma a dor não teria  arrancado de  mim aquele  amor   Sonho  com o terreiro  limpo depois de  uma viração. Um  amor não mata  outro o que  nos mata  é a  dor.

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POESIA

ROSANA TEODORO

DELÍRIO Quero te encontrar em meio a minha solidão e plantar em teu coração uma semente de amor. Quero te ver em meio ao meu pensamento e perceber, neste momento, o que existe em teu olhar. Quero ter-te dentro do meu coração, para sentir a emoção de um delírio de amor. Quero te abraçar em meio ao meu desejo e descobrir em teu beijo o segredo de amar.

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POESIA

SILVIA SCHMIDT

RETRATOS Se eu voltar Não me esperes com o mesmo carinho Como se o tempo não houvesse passado… Trago comigo as bagagens Que a vida me deixou trazer... Trago olhares feridos pela indiferença, As mágoas e as solidões Que consegui suportar… Não me fales da vida… Não me cobres respostas Que ainda não sei responder. Trago nos pés As marcas do chão que percorri E na alma As dores das ilusões que não partilhei… E se eu voltar Não fales de todos. Não fales de ti… Dê-me um instante para olhar em teus olhos E neles ver o que tanto procurei… E calar esse vazio De tantos lugares… E matar essa saudade De tanto tempo…

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RESENHA

LUIZ CARLOS AMORIM O LIVRO ILEGÍVEL Li recentemente “Sambaqui”, romance de Urda Alice Klueger, livro que recomendo, e depois acabei de ler “1808”, livro do jornalista Laurentino Gomes, que tem o curioso subtítulo “Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil”. O livro é resultado de dez anos de pesquisa investigativa e resgata um pouco da história da corte portuguesa no Brasil, da verdadeira história, não aquilo que lemos nos livros didáticos, superficiais e vagos. Vale a pena ler o livro com suas 414 páginas, para saber como e porque a família real portuguesa fugiu para o Brasil e como foi o reinado de D. João VI, um rei gordo e comilão, ainda que bonachão, que tinha medo de tomar decisões, mas que se manteve

no poder. E as transformações que o Brasil sofreu com a “invasão” dos portugueses, que culminaram com a nossa independência. É curioso, interessante e divertido. O autor conseguiu fazer com que uma narrativa histórica tomasse ares de romance, com um tom leve e agradável. Antes de ler esses dois bons livros, já tinha começado a ler “Ulysses”, de James Joyce, mas como o livro havia se revelado hermético desde o início – eu havia conseguido ler as primeiras cento e cinquenta páginas, com muito custo – resolvi me dar uma folga. Como prometi a mim mesmo que iria ler aquele livro até o fim, tentei retomar a leitura. Tenho o livro há anos, mas como ele tem oitocentos e cinquenta e duas páginas, só há pouco tempo resolvi lê-lo, porque afinal de contas, ele é um clássico. E me decepcionei. Já li outros tantos clássicos da literatura universal, como Germinal,

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de Zola, O Sol Também se Levanta, de Hemingway, As Vinhas da Ira, de Steinbeck, A Idade da Razão, de Sartre, A Peste, de Camus, O Precesso, de Kafka, e outros, mas nenhum foi tão difícil, tão ruim como Ulysses. Depois de umas quantas páginas, ao perceber que não havia uma história, apenas um amontoado de trechos de conversas sem muito sentido e um emaranhado de descrições e narrativas enfadonhas feitas por narradores diferentes, sem linearidade, que mudam de repente e não se sabe quem está contando a história (história?), além de invenção de palavras, palavras valise, erros de composição, ausência de pontuação em muitos trechos, repetição à exaustão do termo “no que”, que poderia ser substituído por “então”, “ao mesmo tempo” e tantas outras expressões e muito uso de citações em línguas diferentes, resolvi pesquisar para saber o que


diziam da obra.

Fui ler a apresentação do romance no volume que tenho, publicado em 1983, para tentar descobrir porque ele é tido como um clássico literário. Lá encontrei que “A ação de “Ulysses” transcorre em Dublin num único dia, 16 de julho de 1904. A divisão ternária, em perfeita simetria, evoca as significações cabalísticas do três. Estudos de lingüística, com auxílio de computador, dão “Ulysses” como a obra de estrutura matematicamente mais perfeita de toda a literatura.” (Então por isso é um clássico? Como nós, leitores comuns, pobres mortais, poderíamos saber disso? E o que interessa isso para o leitor? Mas tem mais.)

Fiquei sabendo que o livro carrega, desde que foi publicado a primeira vez, a fama de não ter sido lido até o fim por ninguém. Antonio Houaiss tinha uma nova versão revisada da tradução de “Ulysses”, antes de morrer, sinal de que para ele fora muito difícil o trabalho de verter para o português um texto onde proliferam aglutinações de palavras (valises) e uso de outros idiomas, mais de vinte deles, além do inglês. Soube que há, ainda, outras traduções para o português, mas desconfio que parte da má qualidade do texto se deve às tentativas de verter tão complicado livro para a nossa língua. Como traduzir um “A linguagem utilizada por texto tão grande, coalhado Joyce, que vai do poema de palavras aglutinadas, outras inventadas, além de citações em outras línguas, sem cometer equívocos? Sem contar que o vocabulário era o do começo do século passado. Era uma obra diferente, difícil, sem qualquer possibilidade de prender o leitor, que revolucionou os meios literários da época justamente por quebrar todos os padrões literários então vigentes.

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à ópera, do sermão à farsa, contém não apenas termos usuais – da prosa clássica a mais grosseira gíria (de 1921?) – mas também elementos criados pelo escritor com base em seus conhecimentos de latim, grego, sânscrito e mais dezenas de outros idiomas.” Apesar disso, acho mesmo que “Ulysses” é um clássico e continua sendo publicado porque Joyce pretendeu fazer um paralelo com a “Odisséia” de Homero, segundo consta da mesma apresentação cuja parte transcrevi acima. As personagens centrais de ‘Ulysses” teriam correspondência com os protagonistas da epopeia grega. Não pude comprovar isso, pois o texto é desinteres-


sante, disperso, cansativo, o tipo da leitura que não desperta curiosidade nenhuma, não faz com que se tenha vontade de continuar lendo. A gente lê um parágrafo e quando começa o seguinte já esqueceu totalmente o que havia no anterior. O romance (?) não prende o leitor e estou fadado a não contrariar a fama do livro de não haver quem o tenha lido até o final. Tento ler mais, mas o progresso é lento e a esperança de que

o texto melhore se revela vã. do calhamaço entupido Serei mais um a engrossar de estilos e de pretensões diversos. Por falar nisso, o autor confessa que imita, neste livro, estilos de dezenas de grandes escritores da sua época e de antes dele. Então leio mais algumas páginas e leio “O Caçador de Pipas”, “A Menina que Roubava Livros” e “Crime e Castigo” para compensar. Talvez ainda volte a ler mais algumas páginas de “Ulysses”. Nada me atrai para lá, mas quem sabe? as fileiras dos que não con- James Joyce, autor de seguiram terminar a leitura Ulisses

REVISÃO DE TEXTOS E EDIÇÃO DE LIVROS Revisão e copidesque de livros, jornais, artigos, etc. Da revisão até a impressão. Contato: revisaolca@gmail.com • 57 •


POESIA

CÉLIA BISCAIA VEIGA

TANTO OLHAR Tanto olhar que se perde no horizonte Em busca da esperança, da alegria… Da melhoria que venha no outro dia E que a desgraça não mais se encontre… Tanto olhar perdido na calmaria… Olhar que não há o que não afronte, Que mesmo tendo amargura tanta, Consegue transmitir paz e harmonia. Tanto olhar no desespero perdido Pondo à mostra um coração ferido, Implorando um pouquinho de atenção. Tanto olhar que cruza o nosso caminho… Cabe a nós saber transmitir carinho Pra apaziguar a cada coração…

CRÔNICA DO DIA em Http://lcamorim.blogspot.com.br Literatura, arte, cultura, cotidiano. Todo dia um novo texto ou poema.

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POESIA

MARLI LÚCIA LISBÔA

SIM Cheguei. Veio de outro mundo Claro, feio, bonito, escuro. Aqui posta, aqui ficou. Chorei. Veio do nada, veio do tudo. Talvez por amor, talvez amada. Com carinho, com afeto, contudo Quer ver a essência consumada!  Pura, misturada, bem vista, maltratada Escreve com palavras poemas sem pensar. É forte, fraca, quieta e notada E faz da vida o gesto de voar!   Incapaz de sua capacidade Deixa fluir o gostar de saber... Ama, goza,abraça a saudade De morrer todo dia para voltar à viver!   Olhar, sorrir, chorar, esconder. Viver a vida. Sou assim. Escorrendo pelas mãos todo o querer, Sim, amo a mulher que habita em mim!

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Profile for Grupo Literário A ILHA

Revista Literária ESCRITORES DO BRASIL - Edição 01  

Nova revista literária do Grupo Literário A ILHA, na sua primeira edição. Poesia, conto, crônica, ensaio, entrevistas, resenhas, excertos, e...

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