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Lindenberg life

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Perspectiva artística do empreendimento

Ribeirão Preto fez do Trio um grande sucesso de vendas . Aproveite, faltam poucas unidades. Participe você também! Gerenciamento

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w w w. t r i o r i b e i r a o . c o m . b r Memorial de Incorporação registrado no 2º Cartório de Registro de Imóveis de Ribeirão Preto, sob. nº R. 14/115245, na matrícula 115245 em 16/06/2010.


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editorial Adolpho Lindenberg Filho e Flávio Buazar são conselheiros e idealizadores da LDI

Ao leitor,

N

um exercício contínuo de aprimoramento chegamos a esta edição da revista Lindenberg &Life que você tem em mãos. Esmero e dedicação de muitos profissionais e de intelectuais como nossos articulistas fazem parte das páginas a seguir. Todos

voltaram atenção a temas de interesse da vida contemporânea, como o protagonismo da música clássica enquanto vetor de transformações sociais congruentes. Entrevistamos um de seus maiores incentivadores na cidade e provavelmente no país, o crítico, compositor e músico Arthur Nestrovski, que assumiu a direção artística da Orquestra Sinfônica do Estado de São

Marília Rosa

Paulo (Osesp). Entre sua missão de criar e renovar, estão projetos de inclusão social e itinerância dos músicos pelo interior paulista, além de receber regentes internacionais na linda Sala São Paulo. Aliás, a democratização da música clássica torna-se vital para o acesso à cultura e integração social, tema também em pauta em nossa reportagem de capa. João Maurício Galindo, maestro da Jazz Sinfônica, conta como projetos sociais de ensino da música são essenciais para as relações humanas. Olhar holístico trazemos também sobre os jovens talentos da arquitetura nacional que elegeram o centro da cidade como reduto criativo. Outro celeiro visitado por nossa reportagem foi a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Mackenzie. O saldo do que esses profissionais e aspirantes estão fazendo ou ainda vão conquistar evidencia a excelência desse mercado, voltado à qualidade de vida e bem-estar. Tópico que mais uma vez ganha espaço com relatos sobre o crescimento e estilo de vida de um dos bairros mais queridos e desenvolvidos da metrópole: o Itaim Bibi que recebe uma homenagem da Construtora Adolpho Lindenberg com o novo edifício Leopoldo, um residencial multiserviços. Assunto não falta na edição 35. Leia, comente e sugira novos temas. Teremos prazer em incluí-lo na rede de amigos que tornam a revista possível.

Adolpho Lindenberg Filho e Flávio Buazar

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CASA COR por DĂŠbora Aguiar


sumário

Matéria Clássico para todos Imagem capa Maria Eugenia

Ilustradora, Maria Eugenia colabora com várias revistas e publicações, entres elas, a Folha de São Paulo, e já participou de exposições e catálogos internacionais da Society of Illustrators e American Illustration. Entre seus prêmios, está o Bologna Ragazzi Award, de 2001.

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Turismo Montar ou não minha viagem, eis a questão

Comportamento Juventude pós-moderna

Experimente Viver bem

Entrevista Afinador de concertos

Filosofia Por onde anda o “animal político” que habitava em nós?

Poéticas Urbanas (Arquitetura e música)

Tendências Sui generis ou transgressora

Urbano Desfrute o Itaim

5 experiências Poética popular

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Nesta edição é uma publicação da Editora Novo Meio Ltda. para a Construtora Adolpho Lindenberg. ano 8 • número 35 • 2010 Vilma Eid entre artistas e arteiros, 5 experiências da galerista

A tiragem desta edição de 10.000 exemplares é comprovada pela

Conselho editorial: Adolpho Lindenberg Filho, Flávio Buazar, Ricardo Jardim, Rosilene Fontes, Renata Ikeda e Lili Tedde Luís Carlos Pimenta a horta residencial do presidente da Volvo Bus

Produção e redação: Novo Meio Comunicação Empresarial Editor: Claudio Milan (MTb 22834) Editora assistente: Perla Rossetti Projeto gráfico e Direção de Arte: Sérgio Parise Jr.

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Capa Clássico para todos

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Um outro olhar Paradigmas da ficção na fotografia documental

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Filantropia Inteligente “...a vida imita a arte muito mais do que a arte imita a vida”

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Qualidade de vida Terra da vida saudável

Arthur Nestrovski vida, obra e planos do diretor artístico da OSESP

Assistentes de Arte: Priscila Wu e Sidney Hokisilato Estagiário: Fernando Mekitarian Jornalismo: Fernanda Fatureto, Larissa Andrade Revisão: Kika Freitas

João Maurício Galindo um olhar clássico sobre a música popular

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Laboratório Trabalho holístico

Designer Gráfico: Ivan Ordonha

Andrew Ritchie em busca do nosso animal político

Fale com a Lindenberg & Life Opine sobre as reportagens publicadas na revista e sugira temas para as próximas edições. Envie sua mensagem para nossa redação: marketing.institucional@ldisa.com.br

Colaboração e agradecimentos: Dácio Ottoni, Giselli Gumiero, Monica Vendramini, Pablo Di Giulio, Jonas Viotto, Helcias e Mário Lopomo, Nelson de Souza Lima, Silvio Stefanini Sant´Anna, Sérgio Arno, Laura Godoy, Camilla Mortean, Renato Bandel, Bia Murano, Boitempo Editorial, Orquestra Jovem do Estado de São Paulo, Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo, Jazz Sinfônica, OSESP.

Publicidade: Cláudia Campos (011) 3041-2775 lindenberglife@lindenberg.com.br Redação: Rua São Tomé, 119 - 11 o / 12o andar. Vila Olímpia 04551 080 São Paulo SP Brasil (011) 3089 0155 - jornalismo@novomeio.com.br Os anúncios aqui publicados são de responsabilidade exclusiva dos anunciantes.

Filiada à

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Experimente

Viver bem

Poucas e boas para curtir no sofá, no banco da praça ou no fim de tarde em algum canto pela cidade

Por Perla Rossetti Fotos Divulgação

KEbAB NO ALMOÇO Criar cultura gastronômica é comum em São Paulo, mas há restaurantes que são deliciosamente didáticos. O comensal descobre a sua gastronomia. Assim é o Baruk. Primeiro, o restaurante chegou à Vila Olímpia, fugindo do trivial com rodízio árabe. Um sucesso. Agora, lança o festival de mini kebabs. Entre as opções de dar água na boca estão os de falafel, babaganuch e alface com molho taratur, sempre enrolados no pão sírio. Tem ainda o de kafta (com coalhada seca, tapenade de azeitonas pretas, hortelã e alface, e de cordeiro, que repete os atrativos). O espaço amplo também passou a abrir aos sábados para amigos em momento TV e bate-papo. E tem mais novidades a caminho. Para conferir: Baruk – Alameda Raja Gabaglia, 160, Vila Olímpia, tel. (11) 3045-9999. De segunda a sábado, das 11h às 17h, www.restaurantebaruk.com.br

Faz e prova

TARDES DE MAR

Para confraternizar no fim de ano, o

Quarto livro da fotógrafa Rosa de

Atelier Gourmand já programou as

Luca pela Alles Trade revela a es-

“Aulas Almoço”. Em 10 de novembro,

pontaneidade registrada na região

a chef Morena Leite, do Capim Santo,

de Trancoso, sul da Bahia.

ensina seus truques. Henrique Fogaça, do Sal, vem com menu de Cebiche, atum em crosta de gergelim com arroz negro, dia 25. Já em dezembro, Carla Pernambuco monta rolinhos de pato e pepino, e camarões grelhados com taioba. E a escola está com portal novo com mais de 5.000 receitas e uma enciclopédia de sabores. Mais em www.ateliergourmand.com.br

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Ode a saramago O cineasta Fernando Meirelles entrou para o hall de escritores com Cegueira, um ensaio, lançado pela Master Books em

9 orgulho muachano

outubro. Na obra, ele detalha o processo de produção do filme Ensaio sobre a

Gastronomia andina renovada na cidade. Nove chefs brasileiros visitaram a Mis-

cegueira, cujo título original é Blindness,

tura, a maior feira gastronômica do Peru, em setembro. A convite do restaurante

baseado na obra homônima do Nobel de

La Mar e do chef Fabio Barbosa, Murakami (Kinoshita), Bel Coelho (Dui), Ra-

literatura, José Saramago (1922-2010).

phael Despirite (Marcel), Rodrigo Oliveira (Mocotó), Henrique Fogaça (Sal Gastronomia), Thomas Troisgros (66 Bistrô), Renata Braune (Chef Rouge) e Flavio

Foto de Alexandre ermel e ken woroner

Frederico (Sódoces) voltaram com muitas receitas, ingredientes e segredos na bagagem. O grupo ainda visitou a cocina do chef Gastón Acurio e sua esposa Astrid, que serve uma degustação de piscos, e os imperdíveis cebiche essencial e calamarcitos rellenos de orgullo huachano (lula recheada).

Contextos Um panorama sobre o cinema, a economia e as políticas públicas para o setor estão em três volumes com textos de especialistas, reunidos pelo Instituto Iniciativa Cultural. Regulação, avanços, Embrafilme e Ancine são analisados em textos da pós-doutora em cinema Melina Marson, Arthur Autran, Valério Cruz Britos, entre outros.

INTIMIDADES & RISOS Dez anos depois do primeiro concurso M.I.L.K, inspirado em exposição fotográfica dos anos 50, Friendship, Family, Love & Laughter chega ao Brasil com cento e cinquenta imagens mundiais extraordinárias escolhidas por Elliott Erwitt, fotógrafo da consagrada agência Magnum.

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Experimente

POESIAS

BOXE

ABOLICIONISTA

O sessentista Álvaro Alves de Faria já os

Já o fotógrafo alemão Holger Keifel cli-

Em torno de Joaquim Nabuco é a nova

publicou em Portugal, mas 20 Poemas

cou lendas como Mike Tyson, Evander

obra de Gilberto Freyre, quem mais es-

quase líricos e Algumas canções para

Holyfield e Oscar De La Hoya. A série de

creveu sobre o abolicionista em outros

Coimba ou Sete anos de pastor são

350 retratos em preto e branco compõe

livros seus. A coletânea da editora Arte

algumas de suas obras imperdíveis que

o livro Box-The Face of Boxing.

Paubrasil traz parte desses textos que re-

mereciam a edição brasileira em Alma

fletem sobre o drama de Nabuco, figura

gentil raízes. Editora Escrituras.

de transição entre monarquia e república.

SINERGIAS

QUEDA DE GIGANTES

UM CAVALO SEM NOME

A influência da cooperação na so-

Primeiro volume da trilogia O Século, obra

Com apresentação do arquiteto Arthur

ciedade e os aprendizados com os

de ficção de Ken Follett, aborda o período

Casas, prefácio de Maria Eugênia Mourão

erros da humanidade são algumas

em que potências da Europa estão pres-

e capa de Pablo Casas, a obra discorre

das reflexões de Tito Armando Ros-

tes a entrar em guerra, trabalhadores não

sobre um homem que deseja um traba-

si em seu novo livro: O óbvio não é

aguentam a exploração pela aristocracia

lho honesto e alguém para amar, em meio

o bastante. Rossi, que vive em Caxias

e mulheres clamam por seus direitos. O

ao caos da cidade de São Paulo. O texto

do Sul, expandiu horizontes e avan-

destino de cinco famílias é marcado por

reflete os desafios do próprio autor, Mil-

çou da medicina para a gestão, com

um mundo em rápida transformação que

ton Roberto Gonçalves, diagnosticado na

prêmios internacionais.

nunca mais será o mesmo.

adolescência com esquizofrenia.

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UM PRODUTO

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entrevista

Afinador de CONCERTOS Crítico, compositor e músico, professor e escritor, Arthur Nestrovski assumiu a direção artística da OSESP com a missão de criar e renovar. A tarefa evoca responsabilidades, mas é simples diante de seu talento e trajetória internacional

O

piso de madeira na entrada da Sala São Paulo estala sob os passos apressados. Violino em punho e olhar compenetrado. O ensaio vai começar. Mas isso é só o prenúncio do que vem a seguir. Um capítulo de uma imensidão de músicos e regentes envolvidos na produção

do que há de melhor na produção sinfônica no país e no exterior. Expoentes regidos também por Arthur Nestrovski, o músico, o compositor, o crítico, o editor, o professor e o escritor de histórias infantis que assumiu, esse ano, a direção artística da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (OSESP). Um exército de 350 pessoas devidamente afinadas para os concertos semanais,

Por Perla Rossetti Fotos Alessandra Fratus/Divulgação OSESP

acertos para a temporada 2011 com 30 programas sinfônicos, mais quatro do quarteto de cordas, quatro

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13 de piano e quatro do coro, somados aos

Lindenberg & Life: Você chega a

do porte da Fundação OSESP. A ativida-

seis do programa Um Certo Olhar. E tem

ser um executivo, além do músico,

de como editor por quase 20 anos, a ex-

mais. Ele acaba de lançar seu novo disco,

crítico e autor de livros infantis?

periência universitária e, acima de tudo, os

o Chico Violão, pelo selo Biscoito Fino, e

Arthur Nestrovski: A parte exe-

livros infantis e as muitas coisas diferentes

um CD com Celso Sim (na voz), Pra Que

cutiva, propriamente, tem um diretor, que

que sempre tiveram a ver com a música e

Chorar, com suas canções e versões de

é o Marcelo Alves. Não lido com orça-

a cultura brasileira. Nos últimos 15 anos,

Schubert, Schumann e clássicos da mú-

mentos, contratos, mas tomo decisões

minha produção pessoal e meus interes-

sica brasileira, como Ismael Silva, Cartola,

cotidianas grandes sobre o rumo artístico.

ses têm uma preocupação de coração

Caymmi, Lupicínio Rodrigues. Nascido

Antes, minha vida era diferente com a car-

com o repertório e os destinos do Brasil.

em Porto Alegre, em 1959, casado com

reira de músico e editando livros para a

E acho que isso, para quem está à frente

a diretora artística da São Paulo Compa-

Publifolha. No ano passado fiz quase 60

de uma instituição dessa natureza, é uma

nhia de Dança, Inês Bogéa, e pai de duas

shows. Eu estava compondo e tocando.

necessidade. A temporada está em anda-

moças, Arthur Rosenblat Nestrovski viveu

Era uma vida dedicada ao meu trabalho.

mento, com 11 mil assinaturas vendidas,

muita coisa desde que o avô Maurício o

Agora estou organizando a vida de cente-

e a de 2011 ou já tinha programas com-

iniciou na música clássica ainda menino.

nas de pessoas pelos próximos anos.

pletos, ou a decisão de regente e solistas

Formado pela Universidade de York (Ingla-

estava encaminhada, porque as coisas

terra) e doutor em literatura e música pela

L&L: Como surgiu o convite para as-

são feitas com antecedência nesse meio.

Universidade de Iowa (EUA), Nestrovski

sumir a direção artística da OSESP?

Mas em 2011 terá uma cara diferente.

foi professor titular no programa de pós-

AN: Pesaram várias coisas, como o fato

graduação em Comunicação e Semiótica

de acompanhar a história da OSESP, de

L&L: Perceberemos sua assinatura?

na PUC/SP de 1991 a 2005. Articulista

camarote, desde 1997, como crítico de

AN: Sim, porque saímos do zero e pode-

da Folha de S.Paulo (1992 -2009) e editor

música da Folha de S. Paulo. Em segun-

se pensar de outra forma. Orquestra é uma

da Publifolha (1999-2009), ele é autor de

do lugar, o fato de ter atividade musical

coisa complexa, envolve muita gente, re-

Notas Musicais (Publifolha, 2000), Outras

propriamente. É importante para um di-

cursos, e não pode deixar de ter atividade

Notas Musicais (Publifolha, 2009) e Palavra

retor artístico, embora não seja comum

didática. Não é só apresentar os melhores

e Sombra (Ateliê, 2009), entre outros livros

na totalidade das orquestras ao redor do

concertos possíveis, três vezes por sema-

– incluindo premiados títulos de literatura

mundo, exceto nos casos de cargo acu-

infantil, como Bichos que Existem e Bichos

mulado com o do diretor musical, o que é

que Não Existem (Cosac Naify, 2002,

menos frequente. Mas, direção artística de

Prêmio Jabuti de Livro do Ano/Ficção).

uma empreitada desse tamanho é quase

Apuro técnico, treino, observação e realiza-

impossível como função de um regente ti-

ções reconhecidas o levaram ao posto na

tular que passa não mais do que 10 ou 12

OSESP. E para revelar os projetos atuais e

semanas com sua orquestra. Ser um mú-

da consagrada orquestra, cuja temporada

sico profissional e, nesses últimos anos,

já tem 11 mil assinaturas vendidas, ele re-

ter composto e gravados vários discos,

cebeu a Lindenberg & Life numa linda tarde

inclusive música para TV e dança, pesou

de quarta-feira, na construção histórica da

também. Ser crítico de música com dou-

Sala São Paulo, no centro da cidade. Con-

torado é parte dos requisitos, mas não se-

versa de alto nível que você confere a seguir.

ria o bastante, pensando numa instituição

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O crítico tem uma voz reconhecida. Tem um mundo musical poético próprio.

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entrevista

na, na linda Sala São Paulo, fazer uma tem-

tas da orquestra é a encomenda de com-

porada de música de câmara de alto nível

positores brasileiros. Encomendei cinco

com um coro excepcional. Isso é o ponto

peças para o ano que vem com forma-

de partida. Em um país como o Brasil deve

ções diversas. Tenho um projeto de 2011

ter atividade de formação de público e a

a 2016, de a orquestra tocar, editar e gra-

Fundação OSESP tem um programa que

var a integral da sinfonia de Villa-Lobos.

recebe 75 mil crianças na Sala São Paulo,

Por incrível que pareça, não há nenhuma

por ano, para atividades educativas. Esta-

partitura decente, só manuscritos. É uma

mos começando a pensar em gravar CDs

loucura. A OSESP gravou as integrais dos

e DVDs, já que a música vai virar currículo

choros e das Bachianas compostas por

obrigatório a partir de 2012.

ele e premiadas internacionalmente. Mas suas sinfonias são desconhecidas de nós

L&L: A OSESP tem muitas ativida-

mesmos, e tirando a III, a IV e a VII, que

des extras e publicações, fora os

já foram editadas pela orquestra interna-

concertos?

mente, não há edição confiável.

AN: Fazemos itinerância e temos mais de 60 concertos de música de câmara no in-

L&L: E como as partituras serão

terior do estado de São Paulo ao longo do

montadas?

ano, além de workshops de grupos com

AN: Chamamos um musicólogo para

músicos da orquestra. Tocamos ao ar livre

avaliar os manuscritos e detectar os erros.

pelo menos três ou quatro vezes ao ano.

Villa-Lobos orquestrava conversando, e fa-

Participamos da Virada Cultural pela pri-

zia folclore disso. Dizia que ouvido interno

meira vez e desde sempre da edição do

não tem nada a ver com o externo. Podia

evento no Estado. Temos as transmissões

estar vendo televisão e dizia que estava

dos concertos pela TV e pela rádio Cultu-

compondo quando, na verdade, estava

ra. As palestras da série Música na Cabe-

orquestrando. E o resultado disso são os

ça são transmitidas pela TV virtual da USP

erros de transposição, notas que não fa-

e estão no nosso Podcast. Temos um

zem sentido. Então, alguém tem de fazer o

aplicativo do iPhone para baixar os Pod-

trabalho de revisão e preparar as partituras.

casts. São exemplos que dão a dimensão

É um projeto que, ao mesmo tempo, é de

da OSESP, e nem todo o mundo suspeita

interesse artístico-musical e pessoal, pois

que seja feito metade disso.

quero ouvir a sinfonia VIII. Estamos falando de Villa-Lobos, não de um compositor

Diretor artístico da Osesp, Nestrovsky acompanha a sequência estonteante de regentes

L&L: E há novos projetos?

recôndito. E o maestro Karabtchevsky, um

AN: Mesmo com a temporada principal

dos maiores regentes de todos os tempos,

já agendada, criamos ao redor da pro-

um devoto estudioso, admirador e grande

gramação a série de palestras Música na

regente da música de Villa-Lobos, foi convi-

Cabeça e a de concertos populares, às

dado para fazer esse trabalho. Ele vai reger

segundas-feiras, às 19h30. Uma das me-

e gravar os cinco CDs, de 2011 a 2016.

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L&L: Como é trabalhar com o maes-

fim, ele tem uma função decisória, mas

L&L: Como é sua rotina na Sala São

tro Yan Pascal Tortelier e qual o seu

nenhum regente, numa orquestra deste

Paulo e na OSESP?

papel no dueto?

tamanho, consegue pensar na progra-

AN: Estou ouvindo grandes solistas e re-

AN: Esse ano ele vai passar 12 sema-

mação do concerto que acontece antes

gentes, toda a semana. Acabei de ver

nas no Brasil. Já esteve duas em Cam-

do principal, na terceira semana de outu-

um pedaço do ensaio do maestro Hannu

pos do Jordão e o resto será dedicado

bro de 2012. Para isso, você precisa de

Lintu, um grande regente finlandês, das

aos concertos de assinatura. A principal

um diretor artístico. Por exemplo, não há

maiores orquestras do mundo. Simon Tr-

diferença com outros regentes é que ele

como pensar nos direitos de publicação

peski, pianista da Macedônia, que acabou

fica muito mais tempo. A segunda é que

do conto de Julian Barnes, escritor inglês,

de tocar nos Prompts, de Londres, toca

é a autoridade musical suprema para os

inspirado na peça do compositor Jean Si-

na Filarmônica de Berlim e está no outro

assuntos da orquestra. É claro que ele

belius (1865-1957). E conseguimos isso

corredor, estudando. Semana retrasada

está regendo seus concertos, mas está

em agosto. O diretor musical não tem

estava aqui Jean-Efflam Bavouzet, consi-

ajudando a resolver questões musicais e

tempo para pensar artisticamente a dire-

derado, no ano passado, o disco do ano

até de funcionamento da orquestra. Ele

ção, assim como eu não tenho para ficar

pela revista Gramophone. Fomos jantar e

participa das audições para posições em

lá embaixo, regendo a orquestra.

ele estava ouvindo meus discos. Semana

aberto, como a primeira flauta, primeiro

passada esteve conosco Pinchas Zuker-

violoncelo, espala das violas, espala dos

L&L: Você busca músicos e regen-

man. Quer dizer, é meio avassalador. Es-

segundos violinos e já fizemos uma etapa

tes no exterior?

teve aqui Kees Bakels, regente holandês

só para músicos brasileiros de cordas.

AN: Estive em Portugal para tocar, o

importante, e também Ramón Ortega

Temos audições em que ele será o pre-

que tenho feito pouco, mas mantive os

Quero, o mais espetacular jovem virtuo-

sidente do júri, em outubro, em São Pau-

compromissos realmente importantes.

se do oboé. Ele tem 21 ou 22 anos, vai

lo, Nova Iorque, Berlim e Beijing. Como

José Wisnik e eu tínhamos uma turnê

tocar na Filarmônica de Berlim e com as

titular, rege muito mais do que os convi-

por nove dias. Depois, toquei na aber-

maiores orquestras do mundo porque é

dados, portanto, tem mais tempo de tra-

tura da Flip, em Paraty. Estive no Rio de

um prodígio. Na semana seguinte tem a

balhar a orquestra. Ele conversa comigo

Janeiro como jurado num concurso do

violinista Leila Josefowicz. Na outra, Marin

sobre a programação das temporadas

Teatro Municipal e aproveitei para ver

Alsop, talvez a maior regente mulher em

subsequentes, sugere pessoas, peças e

concertos e falar com pessoas de lá.

atividade, titular da orquestra de Baltimore.

ajuda a conseguir outros regentes. Aca-

Mas não tenho viajado tanto para ver

Como eu vou sair daqui para vê-los lá fora,

bamos de gravar o primeiro disco com

artistas. Acho que precisarei fazer isso,

se posso pegar um táxi da minha casa,

ele, do selo inglês Chandos (Records). Já

em médio prazo. Tenho de ouvir outras

em Higienópolis, para cá? É tão simples.

gravamos para a Bis, importante gravado-

orquestras e ir a festivais importantes

ra sueca, e para a Biscoito Fino, no Brasil.

para conhecer artistas jovens em pri-

Vamos fazer um disco para a Chandos só

meira mão, não só por disco ou reco-

com obras de Florent Schmitt, um com-

mendação. Porém, neste primeiro ano,

positor menos conhecido da primeira

temos uma sequência estonteante de

metade do século XX francês. E estamos

regentes aqui na Sala, semana após

programando, se esse disco for bem re-

semana. É um primeiro ano e estou

cebido e a gravadora ficar contente, outra

aprendendo enormemente. É mais im-

gravação, em 2012, com Tortelier. En-

portante no momento estar aqui.

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entrevista

...vamos tocar ao ar livre na cidade de Araraquara e tem 15 mil pessoas na praça para ver a OSESP. Vamos combinar, isso é show de rock.

L&L: O cenário é promissor na

ou literatura. Se você ligar na TV aberta,

Quantos jornalistas de cultura você vê nos

OSESP, mas qual o futuro da

tem música clássica na TV Cultura, mas

concertos, tirando aqueles que são obri-

música brasileira com a desva-

não nas outras. E não é que não tem a

gados, como os críticos de música clássi-

lorização dos cantores e compo-

OSESP, não tem Chico Buarque nem

ca da Folha e do Estadão? São poucos.

sitores por gravadoras que prio-

Caetano Veloso nem Maria Bethânia. Há

E não é só aqui. Vá ao Sesc. É a mesma

rizam o apelo comercial?

muito tempo essas figuras deixaram de

coisa. Daí essa percepção, discutida nos

AN: A música é absolutamente funda-

fazer parte da grande mídia de massa.

jornais, e que não bate com a realidade.

mental na vida de bilhões de pessoas.

Não a estou defendendo, acho horrível.

Nunca houve tanta produção musical.

Essa questão passa por outros cami-

Pego o jornal todo dia e, às vezes, tomo

Quem está fora da realidade são as mídias.

nhos. O que já mudou é simplesmente o

como uma ofensa pessoal, uma provo-

circuito industrial fonográfico, que vai mal

cação... (risos). Para mim, é curioso, es-

L&L: É positiva a democratização da

das pernas. Ao mesmo tempo, se você

pecialmente na mídia impressa, pois eles

música via plataformas digitais?

acompanha a programação de música

mesmos dizem que a salvação são textos

AN: A internet possibilitou, como nunca,

de concerto e a popular em uma cidade

mais aprofundados, de especialistas, em

esse acesso, e os meios de gravação so-

como São Paulo, sabe que nunca hou-

matérias analíticas, para se diferenciarem

nora estão mais baratos. Eu mesmo uso

ve tanta produção e público. Você vai a

da internet e da televisão, de informação

My Space e essas coisas. Hoje você en-

qualquer concerto da Sala São Paulo e

rápida e naturalmente rasa. E você abre

tra no Google e, em dez segundos, tem

está esturricado de gente. Se fazemos os

o jornal uma semana depois e continua

tudo de música clássica ou popular para

concertos populares com entrada franca

igual, com raras exceções. Não dá para

ouvir. O acesso e os canais mudaram.

no domingo de manhã, 1.500 pessoas

entender. Dito isto, quando tocamos ao

Não é que as gravadoras não continuem

ficam dentro da sala e 700 do lado de

ar livre na cidade de Araraquara, havia 15

tendo um papel importante, mas o foco

fora. Se você vai a qualquer show no

mil pessoas na praça para ver a OSESP.

não é necessariamente o disco. Aliás, no

Sesc, qualquer um, está sempre lotado.

Vamos combinar, isso é show de rock.

caso da música, o disco é o mote para

Quando faço shows, está lotado. Então,

Tocamos na virada cultural municipal na

o show. Antigamente era o contrário. No

o erro é esperar que os grandes meios de

mesma hora do Arnaldo Antunes, e ti-

caso da música clássica, a gravação é

comunicação e as gravadoras continuem

nha 10 mil pessoas para nos ver. Fiquei

equivalente à edição de uma publica-

tendo um papel central. É uma ilusão ima-

comovido. Era um mar de gente. Então,

ção. É uma espécie de fotografia sonora.

ginar que a mídia vai, de repente, ter um

a pergunta é equivocada. Parece que

Representa também um acervo histori-

interesse maior pela produção cultural de

as pessoas conhecem só a posição da

co, registrado da melhor forma possível.

alto nível, seja de música erudita, popular

música industrial e não a da vida real.

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L&L: Dá para revelar um pouco do

ção por outros meios da própria obra que

lidade do que os eventos universitários.

ofício de crítico de música?

vai se alterando em função das condições

Cadê o circuito de música popular na uni-

AN: Não tem receita, mas antes de mais

em que está sendo ouvida e discutida.

versidade, como acontecia há 40 anos?

nada, exige conhecimento musical tam-

Quando você desvaloriza a crítica, como

O circuito de música clássica? As expo-

bém no sentido técnico. Não só do reper-

tão frequentemente faz-se no Brasil, com

sições? O teatro da universidade? Não

tório. Isso é essencial para diferenciar uma

pessoas assumindo esse papel sem esta-

tem nada! E a universidade continua com

coisa da outra. O treinamento técnico é in-

rem preparadas, desvaloriza-se também a

enormes talentos e é o lugar de formação

contornável para ser um profissional. É ele-

música e a própria ideia de cultura.

intelectual, mas no que toca à produção

mentar. Você não manda alguém fazer uma

cultural, há muito tempo não tem papel de

matéria sobre as novas medidas do Banco

L&L: A crítica musical no Brasil

intervenção como deveria. Por que não há

Central se ele não as entende, porque a

não é adequada aos níveis de pro-

um site em que professores e alunos de

irresponsabilidade pode custar anos à po-

dução artística?

música façam críticas de todos os con-

lítica nacional. Sempre há gente fazendo

AN: Saindo das grandes capitais, não

certos da cidade de São Paulo?

negócios em função disso. A cultura deve

existe crítica musical. Um país deste ta-

ser tratada da mesma forma e as pessoas

manho, com a riqueza cultural e um in-

que estão escrevendo nos grandes portais

terior como o de São Paulo, é chocante

na internet deveriam ter noção de que, o

abrir os cadernos de cultura e ver qual-

que está sendo escrito, muitas vezes, é to-

quer coisa que se assemelhe distante-

mado a sério. Agora, como assumir essa

mente ao que estamos dizendo.

responsabilidade se você não tem um treinamento que lhe dê a confiança, nem vou

L&L: E como ficam as universidades

dizer de avaliar, mas de descrever o que

na formação dos músicos?

está vendo, de forma competente? E se

AN: Faltam gravemente escolas de mú-

você está ouvindo, pela primeira vez, uma

sica de alto nível para formação instru-

composição encomendada e não tem

mental. Temos uma academia na OSESP,

nada escrito sobre a peça? A crítica é uma

os alunos recebem uma bolsa e hospe-

vocação e tem dimensão literária. É como

dagem quando são do interior. Eles têm

uma pequena crônica ou ensaio. O crítico

aulas com músicos da orquestra, fazem

tem uma voz reconhecida. Tem um mundo

estágio e alguns até já foram contratados.

musical poético próprio. É capaz de pensar

Mas é pouco. Faltam instituições de músi-

a música em texto e, finalmente, a coisa

ca de alto nível e a universidade brasileira,

que é incontrolável e não interiorizável, a

de maneira geral, há muito tempo perdeu

sensibilidade para reagir de forma mais ou

a força de intervenção na cultura. Não

menos intensa. É também uma espécie de

sabe como se situar em relação aos de-

talento que algumas pessoas têm de forma

bates culturais realmente urgentes da atu-

pronunciada e outros, não. Quando exerci-

alidade. Você vê mais produção de seus

da neste nível, com esse engajamento, a

membros em fóruns como conferências,

crítica participa da vida das próprias obras,

revistas, editoras, e na Unesp. A Globo

dos músicos e da orquestra. É a continua-

News tem mais discussão crítica de qua-

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Sensibilidade para reagir de forma intensa à música é uma das competências do crítico e músico

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TURISMO

montar ou não

minha viagem, Eis a questão!

Por Larissa Andrade Fotos Ivan Ordonha

A

Com as facilidades da internet, viajantes definem seus próprios roteiros, mas agências de viagem destacam-se em algumas situações, embora ainda seja difícil entender suas taxas e diferenças de câmbio

internet vem proporcionando uma grande mu-

nomista Adriana Miller, brasileira que mora na Europa há seis

dança na maneira como as pessoas fazem tu-

anos e já carimbou o passaporte por dezenas de países.

rismo. Com acesso a informações antes restri-

Para quem começa a pesquisar esses serviços pela internet

tas a especialistas, é cada vez maior o número

é praticamente inevitável pensar na diferença entre os preços

de pessoas que viajam por conta própria, cui-

cobrados pelas agências de turismo e aqueles apresentados

dando de detalhes que incluem de passagens a reservas em

pelas companhias aéreas e hotéis em seus sites quando não

hotéis e restaurantes. “A grande vantagem de planejar tudo

há essa intermediação. Mas quem está pela primeira vez mon-

sozinha é ter liberdade de decisão e, principalmente, de mu-

tando o seu próprio roteiro, pode achar tudo isso um grande

dar de ideia, antes e durante a viagem. Poder ficar mais ou

desafio, pois, além da questão financeira, há um grande plane-

menos tempo num determinado lugar, incluir ou excluir des-

jamento logístico, especialmente em viagens internacionais. Por

tinos, e sempre fazer uma viagem sob medida”, diz a eco-

isso, além dos preços, deve-se também considerar a questão

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Turismo LL 35_b.indd 18

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do serviço prestado pela agência, conforme explica Thais Fun-

em relação ao câmbio comercial porque o câmbio pode mudar

cia, diretora da Escola de Turismo e Hospitalidade da Univer-

entre o momento que a pessoa paga o valor e o recebimento

sidade Anhembi Morumbi. “O agente de viagem é um expert

pelo banco. Então, esse spread é uma margem de segurança

naquilo que faz, ele tem know-how e conhecimento para estar

para a agência e para o cliente”, explica o sócio-proprietário da

à frente, naquela função. Para fazer isso sozinho, você tem de

Latitudes, Alexandre Cymbalista.

dispor de tempo, conhecer as ferramentas corretas. E o agente

Os especialistas afirmam que, diferentemente do que alguns

tem essa facilidade que talvez você não tenha.”

imaginam, as agências não comercializam nenhuma moeda e

Um tema que costuma suscitar dúvidas é o câmbio. Por que o

aceitam apenas real para a aquisição de pacotes. A venda de

valor cobrado nas agências é mais alto do que aquele que verifi-

moeda só pode acontecer se, além de agência, ela também

camos nas notícias de fechamento diário? Isso acontece porque

for uma casa de câmbio – o que é bastante incomum. “O

o valor cobrado pelas agências é o dólar turismo, enquanto o

dólar turismo nas agências não deve ter variação entre elas e,

usado em negócios é o dólar comercial. “O turismo normalmen-

normalmente, o valor que eles colocam é o câmbio do dia. A

te trabalha com dois câmbios: o dólar comercial é usado para

agência deve colocar no contrato qual o câmbio do dia a que

a passagem aérea; quando faz a parte terrestre, quase todos

se refere”, explica Thais. Assim, o cliente terá a garantia de

trabalham com o câmbio turismo, que tem um pequeno spread

que não será lesado com um câmbio acima do devido.

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TURISMO

Cada vez mais as pessoas vão fazer por conta própria os destinos fáceis. Já Oriente Médio, Ásia, as pessoas querem a ajuda de quem conhece esses lugares” Alexandre Cymbalista, sócio-proprietário da Latitudes

Para efetuar a compra da moeda, o viajante

sacar moeda local, levo uma quantia em dóla-

deve procurar uma casa de câmbio – e, aí

res, para evitar apertos de última hora”.

sim, pode encontrar uma variação. Nesses locais, ao contrário do que acontece nas agên-

Intermediações

cias, a variação acontece livremente durante o dia todo. Isso ocorre porque as moedas

Afinal, por que uma mesma viagem pode cus-

estão em negociação no horário de funcio-

tar mais quando adquirida numa agência, se ela

namento da Bovespa, e as cotações são in-

conta com alguns benefícios por conta do volume

fluenciadas por diversos fatores econômicos.

negociado? Thais responde: “O que a gente tem

Não há como prever um melhor dia de Bol-

visto, hoje em dia, são as empresas buscando

sa, mas quem pretende economizar deve se

a venda direta para o consumidor para tirar essa

manter atento à variação cambial e aproveitar

intermediação porque, obviamente, a agência

um momento de queda da moeda estrangeira

precisa ter um lucro, que está na cobrança de

para fazer a aquisição.

taxas. Então, em alguns momentos você pode ter

Mas os experts não recomendam levar apenas

uma promoção em determinada época do ano e

papel-moeda em viagens internacionais e dão

conseguir um preço melhor do que na agência

dicas para evitar situações inesperadas. Cartão

em uma passagem aérea, por exemplo”.

de crédito e dinheiro são sempre as melhores

E encontrar uma promoção de passagem aérea

opções, mas também é indicado o Visa Tra-

não exige mais tanta pesquisa, pelo menos quan-

vel Money, ferramenta cada vez mais utilizada

do se trata de voos que partem do Brasil. Hoje, di-

em que a pessoa faz um depósito e pode usar

versos blogs têm apenas esse enfoque: reunir as

como se fosse um cartão de débito – de acor-

melhores promoções de passagens do momento,

do com o valor que depositou – ou fazer sa-

seja em voos domésticos, seja em internacionais.

ques na moeda local. Adriana Miller, turista ex-

Mas isso não significa que comprar por conta pró-

periente, dá a dica. “Durante a viagem eu dou

pria seja sempre a opção mais barata ou vantajosa.

preferência ao meu cartão de débito para fazer

“A operadora compra alguns lugares na aeronave

saques na moeda local já no destino da via-

com muita antecedência e com custo baixo, e

gem – dessa maneira evito flutuações de câm-

monta pacotes, então, ele sai mais barato para o

bio, taxas de cambistas e do cartão de crédito.

cliente”, diz a agente de viagens Emilly Oliva. Outra

Para os gastos maiores (como diárias de hotel,

vantagem apontada por especialistas está no fato

por exemplo), prefiro usar cartão de crédito. Se

de que as agências costumam facilitar o pagamen-

o destino escolhido for mais ‘exótico’ e remoto,

to de diversas formas ou em prazos mais extensos.

então, para não correr o risco de não conseguir

Para quem não tem interesse em adquirir um paco-

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Turismo LL 35_b.indd 20

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Arquivo pessoal

Adriana Miller planeja suas viagens e cuida de todos os detalhes

te já formatado pela agência, é interessante comparar os preços

diretamente no site das empresas. O consumidor, no entan-

de passagem oferecidos por ela e diretamente na companhia aé-

to, não deve se enganar com aquele preço inicial, pois sobre

rea, pois as companhias não estão cobrando a taxa de serviço,

ele incidem algumas taxas, como a de embarque que, em

10%, para quem faz a compra apenas pela internet.

alguns casos, pode ser mais cara do que a própria passa-

Mas quando se trata apenas da compra da passagem aé-

gem. Thais cita outra desvantagem das passagens ofereci-

rea, o preço que todas as agências têm em seus sistemas

das com os preços diferenciais: “Via de regra, para usar es-

é exatamente igual quando se refere a um mesmo voo. “É

sas passagens você tem de ser muito flexível, porque os voos

proibido ter um valor diferente de passagens entre agên-

partem em horários absurdos, como a madrugada. Além

cias porque o sistema é o mesmo para todos. O que pode

disso, o público mais viajado exige conforto, acesso ao loun-

acontecer é você ir à agência e encontrar um preço e, de-

ge vip, serviços que ele não encontra nessas condições”.

pois de algumas horas, ir a outra agência e encontrar preço

Para quem está viajando com destino a outros países, espe-

diferente. Isso só ocorre quando há variação do valor da

cialmente Europa, as companhias low cost podem parecer

passagem, o que é normal”, explica Emilly.

a melhor opção à primeira vista, mas também é necessária atenção aos detalhes. Além de dispor de uma única classe,

Características

o limite de bagagem que pode ser levado costuma ser bem menor – às vezes, o passageiro deve pagar por qualquer

É importante ressaltar a diferença entra as operadoras e as

mala despachada, com um limite de peso bem menor do

agências. Enquanto as primeiras são responsáveis pela mon-

que o permitido em voos internacionais com as companhias

tagem dos pacotes de viagem, as segundas apenas fazem a

regulares. Mas isso não significa que não valha a pena: se

comercialização. As agências recebem uma autorização das

abrir mão do conforto, é possível encontrar passagens que

operadoras para vender seus pacotes e uma mesma agência

levam de um país a outro no continente europeu por preços

pode vender produtos de diversas operadoras, exceto quan-

menores do que se paga na ponte aérea SP-RJ.

do ela é uma loja exclusiva. Há um caso em que a operadora é praticamente imbatível quan-

Roteirista de viagem

do se fala em preço de passagem aérea: o voo fretado, também chamado de charter, quando ela adquire todas os assentos de

Pesquisa é a palavra-chave para esses

um determinado voo e, a partir daí, é a operadora – e não a com-

viajantes que desejam fazer tudo sozi-

panhia aérea – que decide o valor da passagem.

nhos! Encontrar a passagem adequada

Aos adeptos do e-commerce, estar atento às promoções da

ao dia e hora de interesse, aliado ao

companhia é a melhor opção para encontrar um preço dife-

roteiro traçado, pode ser um desafio

renciado e isso pode ser feito em blogs especializados ou

que leva alguns dias, mas quem já se

Turismo LL 35_b.indd 21

21 8/11/2010 14:28:21


turismo

arriscou garante que compensa.

“Eu sempre soube que a viagem que estou planejando, no

Em termos práticos, a principal diferença entre montar sua

momento, para a Tanzânia, na África Central, só seria viável

própria viagem e recorrer à agência está no fato de que a

com a ajuda de uma agência especializada. Cheguei a fa-

agência, principalmente aquela especializada em um desti-

zer pesquisa e planejar uma versão independente que, de

no ou tipo de viagem, tem um conhecimento bastante vasto

fato, sairia um pouco mais barata, mas, nesse caso, como

sobre o tema e poderá ajudá-lo indicando, por exemplo, se

vamos fazer atividades e passeios bem específicos (escalar

é melhor você ir de uma parte a outra de trem ou avião ou

a montanha Kilimandjaro e fazer safári no Serengueti), aca-

qual passeio é mais indicado, segundo os seus interesses.

bamos preferindo pagar pelo know-how local a correr riscos

Mas, é claro, isso tem um preço e o cliente deve considerar

desnecessários num lugar tão remoto e com pouca infra-

se vale a pena ou não pagar a mais por esse serviço – e

estrutura turística. E confesso que a experiência está sendo

isso varia de acordo com sua experiência como viajante, os

ótima! Todos os detalhes de logística e reservas estão sendo

seus objetivos e destino. Cymbalista especifica: “Cada vez

planejados pela agência, e temos a tranquilidade de saber

mais as pessoas vão fazer por conta própria os destinos fá-

que, se alguma coisa der errado no meio do nada, na África,

ceis. As grandes operadoras compram com antecedência

teremos algum especialista para nos ajudar.”

um volume enorme de quartos, assentos, são especialistas

E é exatamente por isso que o serviço da agência acaba

em preços baixos e vão personalizar cada vez menos. En-

saindo mais caro. Segundo Thais, para o brasileiro é um

quanto outras podem buscar diferenciação em personaliza-

pouco complicado distinguir as taxas cobradas pela agên-

ção ou assuntos específicos, como ski, por exemplo. O im-

cia, já que os pacotes sempre apresentam o preço total. Ela

portante é que os clientes estão cada vez mais exigentes e

explica que nesse preço já estão inclusas as diárias do hotel,

não podemos só mandar um roteiro. Parte do nosso know-

taxa de 5% de ISS (Imposto Sobre Serviços) e a taxa de

how é conhecer locais”. E acrescenta: “A gente também faz

turismo, que é R$ 2,20 por noite (válida apenas no Brasil e

viagens personalizadas e o que percebemos é que, para

destinada aos órgãos públicos); além da taxa de embarque

os Estados Unidos e Europa, as pessoas estão indo por

(no caso de parte aérea); seguro-saúde, que é obrigatório

si próprias, então montamos pacotes para Oriente Médio,

para brasileiros em viagens internacionais; e a margem de

Ásia, África do Sul, locais onde a pessoa fica mais receosa.

lucro da agência. “Não há uma regra sobre essa margem,

Querem a ajuda de alguém que conheça bem esses luga-

quem determina esse ganho é a própria agência”, diz Thais.

res, assim, elas compram essa assessoria”.

Mas as margens não costumam ser muito altas devido à

Adriana Miller é um exemplo

concorrência, o que faz com que as agências apostem mais

disso: apesar de ter dezenas

no atendimento como um diferencial.

de viagens na bagagem, utiliza

Quando se trata de viagens personalizadas, o preço cos-

os serviços de especialistas em

tuma ser mais alto por dois fatores: pelo próprio produto

algumas jornadas específicas.

oferecido e pelo serviço da agência, que desenvolve um

O que a gente tem visto são as empresas buscando a venda direta para o consumidor para tirar essa intermediação da agência Thais Funcia, diretora da Escola de Turismo e Hospitalidade da Universidade Anhembi Morumbi

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trabalho de pesquisa específico para aquele cliente, confor-

dias eu e meu marido viajamos pela Ásia, passando por quatro

me informa Thais. “O valor a mais é porque se trata de um

países (Tailândia, Malásia, Camboja e Vietnã) e sete cidades!

produto diferenciado. Estamos falando de hotéis exclusivos,

Essa fase de decidir e descobrir o que fazer em cada lugar que

sofisticados, itens diferenciados, vivências diferenciadas, não

passamos foi quase tão divertida quanto a viagem em si! Foi

aquele programa básico de city tour, traslado. E isso custa

muito trabalhoso, mas recompensador demais”, ressalta.

mais caro como produto e também pelo serviço da agência,

Ela conta que nem tudo saiu como o planejado, mas garante

pois ela tem um trabalho de prospecção e busca desse servi-

que não houve arrependimento e que nada substitui a sensação

ço. O resto fica tudo muito intangível de mensurar”, ressalta.

de que tudo ali foi feito extremamente sob medida.

As viagens da Latitudes, por exemplo, embora já tenham um

O resultado de tudo isso é que não há uma resposta simples ou

roteiro determinado, têm como diferencial o formato da viagem,

uma fórmula mágica que garanta o sucesso da viagem. Tudo

sempre com um especialista no tema abordado e uma série

vai depender de você – e de quanto tempo e paciência dispõe

de passeios relacionados ao tema. Cymbalista explica que são

para buscar todas as informações e montar o quebra-cabeça

enviados alguns funcionários para conhecer os destinos que

por conta própria. Uma agência pode ajudá-lo – e muito – a fazer

serão abertos e, assim, garantir a qualidade do produto. Mas

esse serviço, mas lembre-se de que o dono da viagem é você

ele diz que viajar por agência nem sempre é mais caro, e que

e, independentemente da escolha, deixe bem claro quais são os

a diferença de preço em algumas ocasiões tem seus motivos.

seus objetivos. Prepare-se e boa viagem!

“As operadoras têm contato com hotéis, operadores aéreos e res, e não necessariamente em cima do cliente.” Enquanto muita gente organiza as próprias viagens do começo ao fim por questões financeiras, outros o fazem mesmo pelo prazer que sentem em planejar um momento tão importante –

Arquivo pessoal

isso permite que elas ganhem na margem desses fornecedo-

descanso, aventura, romance, conhecimento – para que ele seja exatamente como o esperado. Aqueles que preferem buscar hotéis, passagens, horário de entrada em museus, concertos, etc., sabem que essas são tarefas prazerosas – mas dão bastante trabalho e exigem paciência. “O grande desafio é, sempre, a logística da coisa, como planejar horários, conexões, datas, transporte, sem ter contatos nem conhecimento local, coisa que as agências sempre têm”. Adriana foi a responsável pelo planejamento da própria lua de mel! “Pensamos em fazer tudo via agência, para não termos dor de cabeça nem nos preocuparmos com detalhes da viagem ao mesmo tempo em que planejávamos o casamento. Mas, infelizmente, não conseguimos achar nenhuma agência que oferecesse pacotes que incluíam os lugares e as datas em que queríamos viajar. As agências mais exclusivas, que organizam viagens personalizadas, eram caras demais para o nosso orçamento. Então planejei toda a lua de mel absolutamente sozinha: durante 25

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Viajante experiente, Adriana planejou sozinha a viagem de lua de mel, quando passou por quatro países e sete cidades em 25 dia

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Vendo Um Lindenberg LL35_b.indd 24

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COMPORTAMENTO

Juventude

pós-moderna

Inquietos, promissores, vanguardistas e sintonizados, arquitetos da geração Y também elegem o centro da cidade como reduto de seus escritórios e projetos. Eles seguem a cartilha da diversidade para integrar amigavelmente construções e sociedade. Como resultado, prêmios e destaque internacional Por Larissa Andrade Fotos Divulgação

T

alentosos, globalizados, antenados, premiados e preocupados. Esse é o perfil de uma nova onda de arquitetos brasileiros com poucos anos de carreira, mas grandes conquistas na mochila em prêmios e reconhecimento, inclusive internacional. Expoentes cujo trabalho reúne tecnologia e inovação de materiais e ideias, em benefício do espaço público e estímulo ao convívio social, marcando

até mesmo a expansão dos limites geográficos, tanto no que se refere às influências quanto à área de atuação. Novatos que desenvolvem desde projetos de escola em regiões carentes de São Paulo, parques em países latino-americanos, até residências no norte da Europa e grandes edifícios comerciais em metrópoles, o que lhes garante visibilidade em diversos países e convites para novos desafios. Estamos falando de Daniel Corsi, 30 anos, e Dani Hirano, 32, ambos convidados pelo curador Ricardo Ohtake para apresentar quatro de seus projetos no Pavilhão Brasil da 12ª Bienal Internacional de Arquitetura de Veneza, com o tema 50 Anos Depois de Brasília. “Foi uma surpresa. Não sabíamos da exposição, pois nos pediram alguns trabalhos, mas só nos contaram depois de três meses”, conta Corsi. Um dos projetos dos jovens formados pelo Mackenzie, turma de 1999, foi o Parque do Lago, em Quito, Equador, considerado pela dupla o maior desafio até hoje. “O objetivo era transformar o atual aeroporto de Quito em um parque de quatro qui-

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Daniel Corsi e Dani Hirano, autores do projeto do Museu Exploratório de Ciências

27 lômetros de extensão. É preciso interpretar a dinâmica da

USP. Além de estar na lista dos 30 jovens escritórios de arqui-

cidade, sua cultura e arquitetura”, descreve Corsi.

tetura mais promissores e vanguardistas do mundo, segundo a revista britânica Wallpaper, eles também vêm realizando projetos

Intercâmbio

em países completamente diferentes. “Uma coisa é mostrar lá fora projetos nossos feitos aqui, para aplicação interna, pois são

Qualquer que seja o local do novo projeto, sua abrangên-

propostas adequadas à nossa realidade, cultura e clima. Mas é

cia e uso, sempre haverá espaço para um arquiteto bra-

completamente diferente apresentar na Finlândia um projeto para

sileiro. “Nosso intercâmbio com o pessoal de fora é cada

a Rússia, envolvendo um conjunto de casas para uma cidade

vez maior. A facilidade de comunicação que existe hoje faz

com temperaturas de 50 graus negativos no inverno e 35 posi-

com que a mudança dos paradigmas seja acelerada: você

tivos no verão. Desde a escola nós aprendemos como resfriar

tem acesso e contato com diferentes materiais, novas so-

a casa, mas lá ocorre o contrário: você a protege da neve, algo

luções, programas, e tudo isso vem transformando nossa

que nós nunca tínhamos pensado”, exemplifica Ferraz.

maneira de pensar”, explica um dos sócios do FGMF, Rodrigo Marcondes Ferraz, de 33 anos. Para ele, outro fator que tem permitido à arquitetura acompanhar o lançamento de novos materiais em outros países é a chegada dos fornecedores ao Brasil, ou mesmo a importação. “Temos agora uma arquitetura globalizada.” Globalização, aliás, é uma palavra que se encaixa perfeitamente no trabalho dos três arquitetos do FGMF, formados pela FAU-

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Há um viés de liberdade de conceitos, ideias, formas e materiais. Rodrigo Marcondes Ferraz, do escritório FGMF

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COMPORTAMENTO

Equipe globalizada do FGMF: projeto de residências na Rússia e debate sobre a otimização do espaço público

Coletividade

de isolamento ou agrupamento de pessoas que pertencem a um mesmo grupo socioeconômico. E é unanimidade entre os

O intercâmbio não supera apenas as barreiras geográficas. Os

especialistas que esse é um aspecto negativo da sociedade

jovens arquitetos estão encontrando uma profissão que cami-

moderna, cuja arquitetura tem forte influência para favorecer

nha com outras áreas do conhecimento. “No mercado existem

mudanças significativas.

novas tecnologias e ferramentas, mas essa geração está se

Rodrigo Marcondes Ferraz diz que o Brasil está passando por

adaptando a uma ideia do campo de trabalho muito coletivo,

um processo que já ocorreu na Europa e nos Estados Unidos,

não só entre os próprios arquitetos, mas na justaposição de

de minimização de espaços residenciais, seja térreo, seja apar-

profissionais de diferentes áreas: engenheiros, pesquisadores,

tamento, devido ao crescimento populacional e da urbanização.

geólogos, administradores, entre outros. É um trabalho con-

Com isso, a tendência é que as pessoas passem a usar mais o

junto grande e eles estão atentos à relação da arquitetura e ao

espaço público. “Se você não mora mais em uma casa de 500

desenho da cidade, ou ao meio ambiente, unidos de modo

m2, mas em um apartamento de 50 m2, precisa ter alternativas

indissociável, já que os edifícios podem, e devem, colaborar

para não ficar preso em um espaço tão pequeno. Quando você

para a qualidade urbana”, diz o arquiteto e urbanista do escritó-

vai à Europa, tudo o que você faz é andar pelos espaços pú-

rio SIAA, Cesar Shundi Iwamizu, 34 anos.

blicos, olhando a arquitetura. Por que o mesmo não acontece

Nessa convergência, os jovens arquitetos encontram o de-

aqui?”, questiona o arquiteto.

safio de repensar a cidade e promover maior convívio social,

Cenário que tem orientado os novos profissionais e que Ferraz

mesmo diante de questões que dificultam tal propósito, como

atribui à maneira como a sociedade busca a segurança e que

a insegurança das metrópoles, que resulta em uma postura

precisa ser reavaliada. “O arquiteto mostra que soluções simples

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podem ser adotadas, tornando o ambiente agradável, humano e

98, com Paulo. “Criei intimidade com o meio e, quando

convidativo. No nosso escritório substituímos o muro lateral por

comecei a trabalhar com edificações, a arte apareceu natu-

um jardim. Embora pequeno, sempre tem alguém sentado lá, o

ralmente. Buscamos estabelecer um relacionamento com a

que ratifica a carência de espaços públicos na cidade.”

cidade da forma mais aberta possível.”

Megalópole

Reduto

Se, como diz Ferraz, é possível mudar, os novos arquitetos estão

E quando se fala em transformação e espaço público em São

atuando nessa direção. Um dos projetos premiados de Cesar

Paulo, lembra-se do centro histórico, que vem passando por um

Shundi, por exemplo, foi uma escola estadual no Jardim Umua-

longo processo de revitalização – encabeçado pela própria Pre-

rama, em Mauá, SP. “As construções podem ser as primeiras a

feitura Municipal e apoiado por empresas.

trazer dignidade ao bairro. Elas estão normalmente inseridas em

Nesse sentido, para os jovens arquitetos representa oportunida-

contextos pobres e apresentam potencial imenso de transforma-

de e evolução da qual muitos deles até participam ativamente – e

ção de seu entorno”, ressalta.

da janela do escritório.

O Metro Arquitetos, escritório paulista de três jovens, também

A Rua General Jardim, localizada na região central, sempre

vem apresentando iniciativas interessantes, como o projeto

foi um “reduto” de escritórios de arquitetura – tendência ainda

do Museu de Arte Moderna de Santos, em parceria com Pau-

mais forte atualmente, como conta Shundi. “Lá está o IAB e,

lo Mendes da Rocha, e o Espaço Votorantim, um dos fina-

na região, encontramos escolas fundamentais, como o Ma-

listas do Prêmio O Melhor da Arquitetura 2010, na categoria

ckenzie e a FAU Maranhão. E agora temos a Escola da Cida-

Edifícios Institucionais – Cultura.

de e outros institutos, secretarias e órgãos públicos relaciona-

Um dos sócios é Martin Corullon, 37 anos, que já fez o

dos à nossa atividade. É uma condição histórica que as novas

cenário do Teatro Oficina, e as Bienais de Arte de 96 e

gerações adotaram e à qual deram continuidade, acreditando

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Cesar Shundi defende uma arquitetura sem rótulos em seus projetos

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COMPORTAMENTO

É uma condição histórica que as novas gerações adotaram e à qual deram continuidade, acreditando na virtude da área central.

na virtude da área central como espaço para se desenvolver as

Cesar Shundi Iwamizu, do escritório SIAA

de condições favoráveis, você potencializa os serviços em volta,

atividades de trabalho cotidianas.” Para Martin Corullon, sócio-proprietário do Metro, a parte central da maior metrópole brasileira tem uma “pulsação”. O próprio Espaço Votorantin, projetado pelo escritório dele, está ali, no centro. “A região toda está se transformando rapidamente. Nós mudamos para cá há seis anos e hoje existem quase 10 escritórios de arquitetura em nosso edifício. Isso acaba gerando uma série movimenta o diálogo. É um exemplo de como o centro oferece possibilidades.”

Influências Mas, afinal, qual assinatura será deixada pelos novos arquitetos no Brasil? De que forma eles se comunicam com as gerações que os antecederam e seu legado? Dani Hirano diz que a influência é inevitável, mas a marca maior é a diversidade. “Hoje, há uma relação forte com o que vem de fora e as discussões, como a eficiência máxima do edifício.

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Há uma tendência de maior abertura para o debate internacional, e isso é uma diferença em relação às gerações anteriores. Martin Corullon, da Metro Arquitetos

Sócios do Metro Arquitetos: escritório e projetos no centro de São Paulo, região em transformação

Existe uma mistura entre o que nasce aqui e o que chega do

Para os novos profissionais, o momento é promissor, já que a

exterior, na busca pela construção simples, sem exageros, e

construção civil está em franco crescimento e a tendência é que

que tenha expressão. O edifício tem de absorver uma série de

o ritmo continue nos próximos anos, considerando-se a deman-

características, como respeito pelo patrimônio, sustentabilida-

da que, certamente, haverá por hotéis, parques, estádios e ou-

de e aplicação de novas tecnologias”, cita. Seu sócio, Daniel

tras construções devido aos grandes eventos esportivos que o

Corsi, complementa: “Não há mais só uma verdade. Temos

país sediará nessa década.

produções que remetem às tradições da arquitetura brasileira

“Por muitos anos, a construção civil brasileira esteve um tanto es-

e outras despontam para um caminho completamente dife-

tagnada, tivemos crises e os arquitetos sofreram, muitos aban-

rente. Procuramos nos colocar em um ponto intermediário,

donaram a profissão. Agora há um viés de liberdade de con-

aliar a memória aos aspectos contemporâneos. No Brasil ain-

ceitos, ideias, formas e materiais”, analisa Rodrigo Marcondes

da não se discute muito como fazer com que a arquitetura

Ferraz, do FGMF.

se transforme de acordo com as novas demandas da socie-

Mas é Cesar Shundi Iwamizu, do escritório SIAA, quem resu-

dade. O próprio curador da Bienal de Veneza, cujo tema era

me o desafio da nova arquitetura: “Existe uma abertura enorme

‘50 Anos Depois de Brasília’, queria projetos contemporâneos

para pensá-la sem limitá-la ao rótulo sustentável. Os objetivos

que tivessem vínculo, não literal, mas de memória”.

se mantêm: edifícios pensados em função de uma urbanidade

Corullon diz que o caráter coletivo da nova geração é o seu prin-

desejável, com racionalidade construtiva clara, que sirvam como

cipal destaque. “O que se pretende proporcionar à nova arquite-

espaço de encontro e estimulem o desenvolvimento das ativida-

tura é um caráter de infraestrutura, uma organização material que

des humanas”.

signifique suporte técnico para diferentes atividades no mesmo

Ou seja, um equilíbrio perfeito entre o homem e suas realizações.

edifício. Há um desejo de aproximar a arquitetura do raciocínio

Uma busca dos jovens talentos nacionais.

da infraestrutura, creio que essa seja uma das marcas da nova geração. Há uma tendência de maior abertura para o debate internacional, e isso é uma diferença em relação às gerações anteriores. Não se trata de uma geração que propõe a ruptura, mas também não é fechada.”

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TENDÊNCIAs

Sui generis ou transgressora

?

Política, pichação e polêmicas dão o tom da 29ª Bienal de Arte de São Paulo sob a curadoria de Moacir dos Anjos e Agnaldo Faria

S

e em 2008 a Bienal de Arte de São Paulo foi marcada pelo vazio, nesta edição trouxe um escopo de discussões relevantes e críticas nada ortodoxas. Antes até da abertura, o tema política e arte, de liturgias eleitas indissociáveis pela curadoria de Moacir dos

Anjos e Agnaldo Faria, já deu o que falar, com o terroris-

Por Perla Rossetti Fotos Divulgação

mo gráfico de Gil Vicente e a nota pública da Ordem dos Advogados do Brasil pedindo que seus desenhos fossem retirados da mostra por fazer apologia ao crime. Afinal, o artista retratou-se agredindo líderes políticos mundiais. Nada comparado ao argentino Roberto Jacoby que teve a sua obra coberta por ser acusado de campanha para a candidata petista à eleição presidencial. Censura também é o mote da obra O Tríptico: o Guardião, a Guarda, as Circunstâncias, de Wesley Duke Lee, que faz referência ao retrato O Nome do Cadeado é: as Circunstâncias, proibido na Bienal de 1960.

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O que dizer, então, do convite para expor feito à pichadora Caroline Pivetta que, há dois anos, invadiu o Pavilhão Ciccillo Matarazzo, que abriga a Bienal no Ibirapuera, para deixar a sua marca em traços incompreensíveis nas paredes?

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Para os curadores, é o questionamento dos limites da política e da arte. “Naquele momento, a Fundação Bienal de São Paulo perdeu a oportunidade de travar uma discussão ao reduzir o que houve a um mero caso de polícia, quando era algo mais complexo. Negociamos com os pichadores estratégias expositivas trazendo-os para dentro da Bienal”, justificou Moacir dos Anjos, na abertura da mostra. Para ele, a curadoria está mais interessada no fenômeno da pichação do que na prática individual dos pichadores. “Se estamos tratando da relação entre arte e política, não podemos desconsiderar uma forma de existência que não tem visibilidade na cidade e na sociedade e nós, que estamos em lugares mais protegidos, não temos conhecimento. Não nos interessa afirmar se isto é ou não arte, ou es-

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Como um espaço multidisciplinar, a Bienal de Arte de São Paulo abre espaço para as vanguardas e percebeu que a pichação faz parte da dinâmica urbana.

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Tendências

tabelecer respostas, mas colocar a questão ao público,

Morfológico

que formulará seus julgamentos.” Assim, fantasia, humor, irreverência e choque, muito choque cultural, fazem parte da mostra deste ano, já que

Embora o grafite queira se comunicar com o público e

afirmar que a dimensão utópica da arte está contida nela

a pichação viva a atmosfera de uma arena de lutas no

mesma, e não no que está fora ou além dela, é o objeti-

espaço público, no alto dos prédios, a presença dos dois

vo da 29ª Bienal de Arte de São Paulo, que chega com

estilos na Bienal, para o antropólogo Magnani, acenando

o título “Há sempre um copo de mar para um homem

para formas expressivas e tem a ver com as instalações

navegar”, verso do poeta Jorge de Lima em Invenção de

dos artistas, que sempre querem chocar o espectador.

Orfeu (1952).

“O grafite ainda lembra a arte muralista, enquanto a picha-

O grafite ainda lembra a arte muralista, enquanto a pichação está diluída na cidade, é mais transgressora.

ção está diluída na cidade, é mais transgressora. Quando acontece um crime que mobiliza a mídia e a sociedade, os pichadores vão ao local e o marcam, para dar audiência. Eles guardam recortes de jornal que mostram onde aparecem as suas assinaturas – apesar de manter o anonimato diante da população, anseiam por reconhecimento entre os seus pares.” E se a arte e a política fazem parte do mesmo bojo, é conse-

Há um fascínio naquilo que ainda não foi classificado como arte, aponta Magnani, do Núcleo de Antropologia Urbana da USP

Durante mais de três meses a cidade vai fervilhar com

quência natural que os grupos se apropriem legitimamente

as idiossincrasias de 850 obras, 160 artistas de diversos

da cidade em espaços de sociabilização, não só nos vãos

países, e também pelos curadores internacionais Fernan-

do Pavilhão da Bienal como em lugares antes mal falados e

do Alvim (Angola), Rina Carvajal (Venezuela e Estados

hoje tidos como pop, como o beco da Vila Madalena.

Unidos), Yuko Hasegawa (Japão), Sarat Maharaj (África

Por fim, mais do que contemplativa, a Bienal esse ano

do Sul e Reino Unido) e Chus Martinez (Espanha).

permitirá que o público experimente a potência transformadora da arte, como dizem os curadores, em seis es-

Impactos

paços de convívio e 300 atividades. Nas próximas páginas conheça alguns dos artistas estrean-

E questionamento é o que não vai faltar. A multiplicidade

tes e os expoentes do circuito de arte mundial que partici-

de gêneros e contextos da Bienal é de tamanho abs-

pam da edição 2010 da Bienal de São Paulo.

tracionismo que dificulta, para investidores e amateurs, compreenderem os limiares da arte controvertida e das obras dos artistas contemporâneos. Urbana da Universidade de São Paulo (NAU/USP), José Guilherme Magnani. “Como um espaço multidisciplinar, a Bienal abre espaço para as vanguardas e percebeu que a pichação faz parte da dinâmica urbana, enquanto o grafite já está incorporado nas galerias. Ainda há um fascínio enquanto a expressão não é classificada como arte”.

Agende-se!

A análise é do coordenador do Núcleo de Antropologia

Até 12 de dezembro Horários de funcionamento: de 2ª a 4ª feira, das 9 às 19h; 5ª e 6ª feira, das 9 às 22h; sábado e domingo, das 9 às 19h. Pavilhão Ciccillo Matarazzo, Parque do Ibirapuera, portão 3, telefone: (11) 5576-7600 Mais informações em www.29bienal.org.br

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35 Allora & Calzadilla

Andrea Büttner

Música/instalação

Monotipia/pintura/religiosidade

A movement without development 2010

Sem título

1974 e 1971

1972

Filadélfia, EUA e Havana, Cuba

Stuttgart, Alemanha

Vivem em Cambridge, E.U.A.

Vive em Londres, Inglaterra

e San Juan, Porto Rico Ensaios atentos às disputas do mundo contemporâneo

O contato entre arte e religião, em especial o modo como

nas paredes da Bienal formam corredores por onde

ambas podem envolver clausura, culpa e abnegação

uma pequena orquestra executa o célebre Bolero, de

em monotipias e gravuras em que cenas da vida de São

Ravel. O tecido orquestral transforma a atmosfera es-

Francisco de Assis representadas na pintura de Giotto

tática do prédio com sua presença móvel e distende

são reconfiguradas em formato pequeno e grande.

simultaneamente o espaço e o tempo.

Albano Afonso

Amar Kanwar

O Jardim, faço nele a volta ao Infinito – parte 02, a Noite 2010

The Lightning Testimonies 2007

1962

1964

São Paulo, Brasil

Nova Déli, Índia

Fotografia/instalação

Filme instalação

Fusões, enlaces, reflexões e codificações da imagem

Como observador comprometido e parcial, Kanwar reflete

em pinturas de luz em um jogo ilusório formado por

sobre o traçado histórico, propulsor de tensão e violência, da

espelhos, luzes, projeções e sombras, no qual o pró-

fronteira entre a Índia e o Paquistão. Nacionalismo, pobreza,

prio deslocamento do corpo do observador interfere

violência ou o poder político são introduzidos através de ima-

no conjunto de reflexões.

gens silenciosas e contemplativas de pessoas, objetos, ritos e paisagens, cuja sequência molda narrativas submersas originadas dos estilhaços das zonas de conflito na Caxemira, a violência sexual contra as mulheres e a sua resistência.

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Tendências

Alessandra Sanguinetti

Allan Sekula

El tiempo vuela _de la serie El devenir de sus dias 2005

Russian Visitors (Novorossisk) _from the installation_ Ship of Fools 1999 - 2010

1937 – 1980

1951

Rio de Janeiro, Brasil

Erie, EUA

Fotografia

Fotografia

Seu trabalho fotográfico focaliza personagens do en-

Diferenças de classe, condições de trabalho, invisibilidades

torno remoto e rural de Buenos Aires. Foi no decorrer

recorrentes na era capitalista pós-industrial e o massivo trans-

desse processo que conheceu Guillermina e Belinda,

porte marítimo internacional costituem sua obra. A partir do li-

primas cujas vidas acompanhou e registrou desde a

vro de Sebastian Brant, de 1494, sobre um barco que busca

pré-adolescência, numa viagem literária como as de

o “paraíso dos tolos”, a instalação Ship of Fools documenta a

Julio Cortázar, Lewis Carroll e William Shakespeare.

jornada do navio Global Mariner, antigo cargueiro acidentado, recuperado e convertido em uma exposição itinerante.

Gil Vicente

Hélio Oiticica

Desenho/política

Experimentação/instalação

Série Inimigos 2005

Museum of Modern Art, Nova York 1970

1958

1937 – 1980

Recife, Brasil

Rio de Janeiro, Brasil

Denunciando um esgotamento que, em muitas ocasi-

A quebra de hierarquias entre a produção artística, da vida or-

ões, tem levado ao confronto violento, em Inimigos o

dinária e a porosidade entre as esferas, legitimando procedi-

artista assume, em desenhos em carvão sobre papel

mentos e materiais da cultura popular estão em Penetráveis,

e escala natural, a figura de assassino dos dirigentes

Parangolés e nos Ninhos, obras reconstruídas para a Bienal.

políticos. O amplo espectro de orientações ideológicas

No bólide Homenagem a Cara de Cavalo e na bandeira Seja

dos retratados sugere que o que está em jogo é menos

marginal, seja herói, Oiticica confronta as ideias de poder le-

a afirmação de uma causa e mais o repúdio a qualquer

gítimo e autoritário e homenageia a Cara de Cavalo e a Minei-

forma de poder.

rinho, dois bandidos mortos pela polícia do Rio de Janeiro.

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37 Henrique Oliveira

Jonathas de Andrade

A origem do terceiro mundo 2010

Educação para adultos 2010

1973

1982

Ourinhos, Brasil

Maceió, Brasil

Vive em São Paulo, Brasil

Vive em Recife, Brasil

Pintura/Apropriação

Fotografia

Texturas em retalhos de tapumes e de madeira laminada,

Em 1971, é publicada uma coleção de 21 cartazes basea-

coletados nas ruas da cidade em colagem e modelagem

dos no método de educação para adultos do educador Paulo

sensualis criam obras imersivas; paredes, protuberâncias

Freire. Na ocasião, a mãe do artista comprou o conjunto, em

e becos que contaminam e tornam orgânica a arquitetura

Alagoas. Em 2006, ele o encontra e percebe a possibilidade

do espaço. Nesta obra, o ponto de partida é a pintura

de questionar, modificar e inspirar vocabulários subjetivos.

A origem do mundo, do pintor realista francês Gustave

Apropriando-se do método, vai à sala de aula, levanta temas

Courbet e desenvolve-se como um túnel instalado numa

relativos ao cotidiano do grupo, discute-os, fotografa as suas

região por entre salas expositivas, explodindo e brotando,

representações imagéticas e as devolve num mural gráfico

como o avesso de uma pele, no espaço aberto.

com desordenada sobreposição de vozes e tempos.

Rochelle Costi

Tatiana Trouvé

Fotografia

Escultura/instalação

Estante 2010

350 Points towards Infinity 2009

1961

1968

Caxias do Sul, Brasil

Cosenza, Itália

Vive em São Paulo, Brasil

Vive em Paris, França

A artista visita o pavilhão da Bienal e intervém em seu espa-

Suas intervenções e construções arquitetônicas e es-

ço vazio e modular com objetos de sua coleção, criando e

cultóricas exploram, confundem e invertem, material e

fotografando cenas de uma exposição hipotética. Repleta

psicologicamente, interior e exterior, movimento e está-

de enigmas, que ora apontam para referências a obras de

tica. Inúmeros pêndulos presos ao teto cruzam-se em

arte contemporânea, ora sugerem uma intimidade possível

diagonais e imobilizam-se pouco antes de tocar o solo,

dentro da arquitetura do pavilhão, a série oferece registros

em um campo magnético invisível, congelando a forma,

de ocupações e intervenções poéticas.

mas na iminência do choque.

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URBANO

Ladeado pelo prestígio dos Jardins e da Vila Nova Conceição, o Itaim Bibi é referência gastronômica, cool e artística que atrai adeptos ao seu estilo de vida pacífico e, ao mesmo tempo, cosmopolita Por Fernanda Fatureto Fotos Mário Lopomo, Helcias, Arquivo Novo Meio / Roberta Coelho e Divulgação

desfrute

o Itaim A

rotina pulsante do Itaim Bibi, sua gastronomia, os charmosos edifícios residenciais e os arranha-céus que dividem a atenção com a paisagem, nasceu como universo bucólico e pacato em meados do século XIX. A chácara, propriedade do general José Vieira Couto de Magalhães, tinha 350 mil m2 . Localizada entre a Estrada Santo Amaro, os córregos Uberabinha e o Verde, hoje Shopping Iguatemi, dava

de fundos para o rio Pinheiros. Em 1920, as terras foram loteadas para os herdeiros do general, ficando a casa principal da chácara, a Casa Grande, para o Dr. Leopoldo Couto de Magalhães Jr., conhecido como Bibi. Aos poucos o loteamento foi sendo vendido para imigrantes italianos e portugueses que chegavam ao Brasil, fugindo da guerra. A ocupação restringia-se ao quadrilátero formado pelas avenidas Nove de Julho, Juscelino Kubitschek (antigo Córrego do Sapateiro) e São Gabriel, além do rio Pinheiros. O Itaim Bibi comunicava-se com a rua Santo Amaro que, já nos anos 20, era uma zona de acesso aos comerciantes

38

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da cidade. A conexão do Itaim entre bairros mais periféricos e

ponsável por investir no local e promover a configuração que

regiões centrais, como a avenida Paulista, foi logo aproveitada

conhecemos hoje. Os moradores de casas pequenas foram

pelo filho do senhor Bibi, Dr. Arnaldo Couto de Magalhães,

levados a outros bairros, devido ao planejamento governa-

que transformou o local em empreendimento comercial, favo-

mental daquela época, que o nomeou de zona comercial.

recendo o desenvolvimento do bairro que não contava com

Também na década de 70 intensificaram-se as obras viárias

restrições para a edificação em seu entorno. A partir daí, a va-

e de saneamento e, conforme a vida econômica e urbana da

lorização dos terrenos foi constante. O crescimento das fábri-

cidade de São Paulo se desenvolvia, o Itaim Bibi configurava-

cas em São Paulo aumentou o número de trabalhadores, os

se, cada vez mais, como fronteira entre edifícios comerciais

Jardins já se configuravam como local ideal para os casarões,

e residenciais, entre espaço de acesso aos Jardins e à Vila

tornando-se atrativo para novas construções.

Olímpia, sinalizando a importância da região.

Duas vias ligavam o bairro: a linha de bondes da Light e a

O bairro conta, hoje, com infraestrutura especial para atender

estrada de rodagem. Durante os anos 30, a Light ampliou as

toda a demanda de negócios atraída à região, como a cons-

linhas para acesso até o bairro de Santo Amaro. Nasceram

tante construção de arranha-céus empresariais que compar-

as linhas Jardim Paulista e Jardim Europa. A construção

tilham o espaço com a arquitetura despojada das galerias de

de avenidas que se conectavam às regiões norte e sul da

arte do bairro. Desenho urbano em torno do Itaim Bibi que se

cidade acabaram contribuindo para o desaparecimento das

efetivou com a criação, em 1995, da Lei da Operação Urba-

linhas de bonde, dando lugar a largas pavimentações – hoje

na Faria Lima, responsável pelo desenvolvimento em prol da

conhecidas como Nove de Julho, Cidade Jardim e as arté-

contínua verticalização. “A operação Faria Lima surgiu num

rias da avenida Brigadeiro Luis Antônio. Este processo resul-

momento em que a cidade precisava de um novo polo de

tou em maior valorização da região, dando início ao que se

referência em serviços e escritórios de qualidade. Movimento

concretizou nos idos dos anos 70: a verticalização do bairro.

este, aliás, que teve início na primeira metade do século pas-

Ainda em 70, muitas áreas permaneciam vazias e os preços

sado. Depois migrou para a avenida Paulista e, na sequência,

dos terrenos eram baratos. O mercado imobiliário foi o res-

para a Faria Lima em direção à Berrini, alcançando um pouco

39 Brascan Century Plaza: síntese da convivência em um complexo empresarial

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Boa Companhia

URBANO

Conforto aliado à praticidade e modernidade estão sintetizados no novo lançamento da Adolpho Lindenberg situado à Rua Leopoldo Couto de Magalhães Jr., no coração do Itaim Bibi. Idealizado para um público extremamente qualificado, usando como referência as melhores capitais do mundo, com 50% de apartamentos voltados para pessoas sós ou casais, o Leopoldo 695 foi projetado com unidades de alto padrão, compactas, de 60 a 91m² com toda a infra-estrutura de serviços planejada de forma inteligente. O toque contemporâneo está alinhado ao estilo de vida nas grandes metrópoles, famílias de diferentes composições, casais com poucos filhos convivendo no mesmo edifício com jovens executivos para os quais a Rua Leopoldo Couto de Magalhães Jr. é um dos objetos de desejo, como identificou através de estudos o desenvolvedor do projeto Antônio Charles Nader. A disponibilidade de serviços oferecidos + serviços pay-per-use, aliados aos diferenciais Lindenberg, são grandes atrativos para os futuros

moradores do empreendimento que poderão contar dentre outros com serviço de concièrge, mensageiro, manobrista, e arrumação. Estes serviços, oferecidos em um residencial, fazem do Leopoldo 695 uma excelente opção de investimento ou moradia para todas as idades. O projeto desenvolvido “dentro de casa” traz todos os diferencias idealizados ao longo dos anos pelo fundador Adolpho Lindenberg. “Utilizamos terraço de vidro para uma visão de fora, proporcionando um ambiente integrado que vai da sala para o terraço”, afirma a arquiteta responsável pelo projeto, Rosilene Fontes. Já a definição de metragem se dá pela visão sensível às tendências de mercado: “construções que privilegiam uma parcela considerável da população, jovens bem sucedidos e solteiros que optam por um apartamento só seu, mas que não abrem mão do conforto e facilidades no dia-adia”, afirma Antônio Charles Nader. Ou seja, um edifício que traduz o jeito e o ritmo do Itaim Bibi, com a qualidade e refinamento consagrados da Construtora Adolpho Lindenberg.

o entorno do Itaim”, diz Vladir Bartalini, arquiteto e superinten-

no bairro um grande polo de serviços. As sedes das grandes

dente de desenvolvimento da SP Urbanismo, empresa públi-

empresas estão localizadas ali, nos entornos que separam o

ca ligada à prefeitura de São Paulo.

Itaim, caso da avenida Faria Lima, Juscelino Kubitschek e da

Segundo Bartalini, a abertura da avenida Faria Lima melhorou,

Vila Olímpia. E isso é importante para a imagem da cidade,

e muito, a acessibilidade da região, fazendo com que surgis-

para mostrar que ela é pulsante”, completa Bartalini.

se ali intensa atividade imobiliária. “A localização próxima ao

Porém, moradores das proximidades da Associação A He-

Jardim América e Paulistano, que já tinham áreas residenciais

braica e do clube Pinheiros conseguiram impedir as opera-

um ar de bairro nobre, mantendo as características que tem hoje.” Pode-se dizer que a SP Urbanismo, em parceria com a prefeitura e um comitê de moradores, atua para fortalecer a expansão da região, privilegiando a construção de novos edifícios empresariais que, para o superintendente responsável, só acarreta valorização à região. “Hoje tem se consolidado

Só novatos

de alto padrão, e a abertura de novas avenidas deu ao Itaim Novos espaços gastronômicos chegam ao Itaim Bibi. Confira as deliciosas empreitadas:

La Vie en Douce – os docinhos, bolos e cupcakes da chef Carole Crema chegam em novembro à nova loja na rua Pedroso Alvarenga. Carole promete um cantinho aconchegante, nos moldes do seu já tradicional La vie, nos Jardins.

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ções que os atingiriam. O outro lado da verticalização, em qualquer metrópole, é a perda das características estritamente residenciais de alguns bairros. E alguns moradores são contra a medida de expansão. Reivindicam investimentos para controlar o tráfego crescente, tais como a construção

41

de túneis que chegam até a Rebouças, o alargamento da rua Funchal e o ainda previsto aumento da Faria Lima até a rua

atraindo mais serviços e comércio, além de promovermos

Pedroso de Morais, em Pinheiros.

projetos de reutilização de áreas degradadas, como o Largo da Batata. Também há, com a iniciativa, a proposta de

Expansão sustentável

construir habitações com interesse social, para moradores de favelas das proximidades. A Lei de Operação Urbana

“São Paulo é muito espalhada, a região central é pouco

diz onde empregar recursos arrecadados e prevê a cap-

ocupada, como ocorreu no passado com a própria região

tação de capital no atendimento aos moradores do Real

do Itaim Bibi. Era uma região de sobradinhos, casas peque-

Parque e da Favela Panorama”, diz Bartalini. Parece pouco,

nas e, por estar localizada numa boa área, poderia receber

mas para manter a qualidade de qualquer bairro é preci-

mais empreendimentos. Nesse ponto, é interesse da pró-

so investir na parcela da população menos privilegiada. A

pria prefeitura desenvolver a região, o que ocorreu de fato”,

ação social faz parte da organização urbanística de uma

explica Bartalli. Por isso, os esforços em tornar o Itaim Bibi

cidade em contínuo desenvolvimento sustentável. “Apostar

cada vez mais atrativo aos moradores e investidores. Para

no desenvolvimento de uma ‘cidade compacta’ decorre da

o arquiteto da SP Urbanismo, o ideal seria condensar mais

ideia de que as pessoas precisam se voltar para dentro

a região por meio da verticalização. É preciso vivenciar a

dela. O centro, nos últimos 20 anos, perdeu população

metrópole a partir “de dentro” - caráter comum ao propor

para a periferia, deixando a área pouco ocupada. Quando

o adensamento do espaço urbano. No entanto, salienta

se investe em edificações, qualquer região se valoriza.” E

que, para haver adensamento do espaço urbano, é pre-

como aposta em ser um dos bairros mais requisitados da

ciso garantir aos antigos moradores de favelas próximas o

capital paulistana, o crescimento do Itaim Bibi vem acom-

realocamento para outras áreas. “Com o adensamento po-

panhado de mais qualidade de vida aos seus residentes, a

demos gerar recursos e melhorar a infraestrutura da região,

exemplo da revitalização do Parque do Povo.

Kosebasi – a rede de Istambul viajou o mundo conquistando clientela na Grécia, Estados Unidos, Bahrain e Dubai. Agora é a vez de os paulistanos conhecerem o melhor da culinária oriental do Mediterrâneo. Saboreie pides e kebabs distribuídos em diversos sabores. Rua Jerônimo da Veiga, 461.

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Per Paolo – o restaurateur Paulo Baroni traz o melhor da cozinha italiana moderna com massas artesanais. Uma boa pedida é o stinco de cordeiro com nhoque de manjericão ao molho especial, preparado sob o comando do chef francês Jérôme Ferrer. Rua Paes de Araújo, 184.

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capa

lássico C Por Fernanda Fatureto

Fotos: André Mantelli, Breno Rotatori,

Gerardo Lazzari, João Mussolin e Divulgação

Patrocínios, ensino de música e polos de cultura democratizam o acesso à música clássica, tornando o Estado de São Paulo o maior reduto erudito do país. Conheça as ações que estão reconfigurando este universo tão particular e aproximando públicos com apresentações de qualidade internacional.

Divulgação Galeria Estação

Por Claudia Manzzano Fotos Divulgação

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para todos “Temos mais música erudita na base do que no topo da pirâmide.

Andrea Matarazzo, Secretário de Estado da Cultura

A

rthur Schopenhauer (1788 – 1860) defendia

Cento e cinquenta anos após a sua morte, rompendo a bar-

a universalidade como base de seu sistema

reira cultural europeia, o pensamento de Schopenhauer atingiu

filosófico e dizia que “a verdadeira formação

as terras brasilis. Atualmente, o Estado de São Paulo investe

para a humanidade exige visão geral sobre

R$ 150 milhões ao ano na difusão da música erudita, soma-

a totalidade da existência”. O pensador vi-

dos aos programas de formação musical responsáveis por

veu em uma época de efervescência cultural na Alemanha

incluir jovens neste universo – até pouco tempo atrás, estreito.

do século XIX, contemporâneo de Richard Wagner, Goethe

Os muros que separavam a música clássica de milhões de

e Hegel. Seu livro O mundo como vontade e representação

brasileiros estão sendo derrubados, pouco a pouco, pela for-

não teve grande repercussão quando foi lançado, em 1819,

mação de novos músicos e pela organização de concertos ao

causando-lhe desconforto e o pedido de demissão da Uni-

ar livre a preços acessíveis em espaços tradicionais, como a

versidade de Berlim. Ele viu suas aulas minguarem ao se po-

Sala São Paulo. A abertura deu-se há 15 anos com o Projeto

sicionar contra a filosofia de seu colega de cátedra, Hegel. A

Guri. Por meio de uma organização social aliada à Prefeitura de

verdade é que a sua obra mais importante seria reconhecida

São Paulo, surgiram os primeiros polos de ensino de música

tempos depois, e os alemães descobriram, então, as suas

instrumental. Em pouco tempo, a procura pelas aulas gratuitas

teorias, entre elas, a musical – tema tratado extensamente e

multiplicou-se, fazendo com que novos polos fossem implan-

de modo profundo pelo pensador. Para ele, é possível expres-

tados em bairros da Grande São Paulo.

sar melodicamente todo o universo interior do ser humano. E

Hoje, 50 deles estão localizados em CEUs e escolas, e re-

afirmava, categórico: “A música é, portanto, se considerada

cebem 12 mil alunos na capital, em aulas de instrumentos de

como expressão do mundo, uma linguagem universal em

cordas, sopro, percussão e canto coral com acompanhameto

sumo grau (...) Tudo aquilo que se passa no interior do ho-

de 270 professores em todas as unidades. O Guri também

mem, e que a razão lança no amplo conceito negativo de sen-

está em cidades do interior paulista – um total de 45 mil alunos

timento, pode exprimir-se pelas infinitas melodias possíveis”.

em todo o Estado. Embora não trabalhe com recorte de renda,

Mantendo a sua posição “universalista”, empenhava-se em

o projeto beneficia principalmente crianças e jovens das clas-

criticar círculos estreitos de especialistas, apontando as fa-

ses baixas porque está inserido em comunidades carentes.

lhas de uma educação enciclopédica, portanto, reducionista.

Grande parte vem de escolas públicas, tem de seis a dezoito

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anos e pertence a igrejas evangélicas – fenômeno que se aplica a músicos profissionais de orquestras. A rotina inclui quatro

Alunos do Guri Santa Marcelina em aula de iniciação musical

ESPAÇOS

disciplinas, duas vezes por semana – teoria musical, canto co-

O edifício da Sala São Paulo, no complexo Júlio Prestes, foi

ral, aula prática de conjunto orquestral e aula de instrumento,

projetado em 1925 em decorrência da urbanização da cida-

escolhido de acordo com as afinidades de cada um. “Parale-

de paulistana em torno da economia do café. Ali funcionava

lamente às atividades pedagógicas, trabalhamos com a peda-

a antiga estação de trem da Estrada de Ferro Sorocabana. A

gogia do Direito e do Estatuto da Criança e do Adolescente.

arquitetura monumental inibe alguns transeuntes do centro –

Sabemos das adversidades por que passam e é importante

durante muito tempo o espaço ficou reservado aos círculos

que, junto à música, adquiram consciência de seus direitos

de amantes da música clássica. Em março de 2008, a Fun-

referentes à inclusão social”, explica Giuliana Fronzoni, gestora

dação OSESP, junto com a Secretaria de Estado da Cultura,

do Guri Santa Marcelina, administrado pelas freiras desde a re-

tomou a iniciativa ao ampliar o acesso de frequentadores.

formulação do projeto, há três anos. A partir da educação mu-

Surgiram, então, os concertos matinais gratuitos, apresen-

sical de base, foi possível a inclusão dos familiares no universo

tados aos domingos sempre às 11h00. Desde a inaugu-

musical. Os pais que levam seus filhos para os polos recebem

ração, a Sala São Paulo recebeu mais de 18 mil pessoas

aulas iniciais sobre compositores, apreciação musical e assis-

– muitas nunca haviam pisado em uma sala de concerto.

tem a palestras que contam a história da Sala São Paulo. “Tem

Por lá já passaram regentes do quilate de Kees Bakels –

tido um resultado maravilhoso, os pais vão se apropriando

maestro holandês que esteve à frente da Orquestra Sinfônica

desse universo, aparentemente restrito, mas que acaba demo-

de Bornemouth. Além dos concertos matinais, há os Concer-

cratizando, ao oferecer concertos a quatro reais”, diz Giuliana.

tos Didáticos, desenvolvidos para estudantes e professores integrantes de projetos dedicados à formação musical, como o Guri. Durante o espetáculo, o maestro e os músicos apresentam ao público cada instrumento da orquestra e contextualizam o repertório. Segundo a gestora do Projeto Guri, as famílias passaram a frequentar, por conta própria, os concertos, sem precisar dos professores. Todo domingo, a Sala São Paulo recebe cerca de 200 famílias inclusas no programa.

Público versus Privado A necessidade de popularização do universo erudito ocorre devido a um fenômeno mundial do século passado: a abertura ao capital financeiro. Instituições culturais, antes administradas com capital privado familiar ou mantidas por verbas estatais, hoje precisam do apoio de grandes conglomerados para a sua sobrevivência. Para manter um regente em uma orquestra de peso, como a OSESP, gasta-se em torno de R$ 100 mil ao mês. Considerando-se a urgência da excelência dos profissionais envolvidos, os custos aumentam a cada ano. Desde as privatizações no Brasil, no início da década de 1990,

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Todos os que trabalham com música erudita hoje estão empenhados em transpor os muros que os separavam dos demais atores sociais.” José Maurício Fittipaldi, especialista em tributação de projetos via Lei Rouanet

alguns setores viram-se órfãos do governo. Um pouco pela

diretamente do segmento passaram a ter uma necessidade

presença que as empresas passaram a ter no andamento

maior de se ajustar às medidas da Lei Rouanet para obter

da economia do país, outro tanto porque o governo ausen-

recursos, justamente por não ser um fenômeno de massa e

tou-se da responsabilidade de “bem-estar social” mantida

atrair menos recursos dos setores público e privado. Quan-

nos discursos do período após a Segunda Guerra Mundial.

do a lei foi criada, as empresas tinham acesso apenas ao

Na verdade, a onda de capitalização da cultura tem origem nos

benefício parcial, enquadrado no Artigo 26, que garantia a

Estados Unidos e Grã-Bretanha, nos anos 1980. Quem deta-

dedução do IR de 30% do valor doado aos bens culturais.

lha a tomada de posição do universo corporativo em direção ao

Verificou-se um aumento no incentivo a projetos que traziam um

artístico é a pesquisadora Chin-tao Wu, no livro Privatização da

retorno de imagem instantâneo para as empresas, no caso de

cultura: a intervenção corporativa na arte desde os anos 1980

shows superlotados de música pop. Então, criou-se o Artigo

(Boitempo Editorial, 2006). A autora analisa como a entrada do

18 da lei para beneficiar as áreas que não conseguiam a capta-

economista John Maynard Keynes na gestão da administração

ção por meio do benefício parcial. Literatura, patrimônio mate-

do Conselho para o Incentivo da Música e das Artes, CEMA,

rial e imaterial, teatro, dança e música erudita enquadraram-se

na Grã-Bretanha, em 1942, fez o capital cultural ser regido por

na categoria integral – 100% dos valores repassados a estas

uma lógica diferente, a de mercado. O fundo, originário de re-

áreas eram deduzidos do IR. Deu certo: devido ao benefício,

ceitas públicas, logo foi retirado de circulação, a pedido do

empresas direcionaram sua atenção a estes setores. E o mo-

economista, para cortar gastos. A partir daí, segundo Chin-tao

mento atual é, talvez, o mais significativo para o universo da mú-

Wu, os bens culturais concentraram-se nas mãos das gran-

sica clássica no Brasil, especialmente no Estado de São Paulo.

des corporações, por meio de medidas governamentais que

permitiam a renúncia fiscal parcial de empresas que incentivassem projetos culturais. No Brasil, na mesma época da venda de empresas estatais a acionistas, surgia o esboço inicial do que se transformaria, de fato, na Lei Rouanet que conhecemos hoje. Em 1991, instituiu-se a Lei 8.313 para auferir recursos para a produção, difusão e acesso a bens culturais. Em 1995, o Decreto 1.494 atualizou a lei com a criação do Programa Nacional de Apoio à Cultura, o PRONAC que, ainda hoje, possui dois mecanismos de captação de recursos para as artes – por meio do Fundo Nacional de Cultura (FNC), com verbas diretas da União, e através de Incentivos Fiscais, dinheiro captado de parcela do Imposto de Renda de pessoas físicas e jurídicas. No campo da música erudita, muitas instituições que cuidam

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REFLEXOS

cioculturais. “As orquestras só sobrevivem pela utilização dos incentivos fiscais. O Estado pode fazer investimentos diretos,

Sala de aula no Guri Santa Marcelina

A transição das atividades em salas especiais para espaços

mas ele tem de transferir estes investimentos para uma enti-

mais democráticos mostra que a formação de público é pos-

dade que conduza as orquestras. Só o Estado não dá con-

sível – o que tem aumentado o patrocínio para este setor.

ta de suprir toda a demanda deste universo”, afirma Fittipaldi.

Para o advogado e sócio da Cesnik Quintino e Salinas, José

O Estado de São Paulo, de fato, repassou a administração

Maurício Fittipaldi, um dos principais escritórios especializados

dos recursos da área cultural para Organizações Sociais (OS).

nos trâmites legais que envolvem a área cultural, as empre-

Ao todo, são 39 entidades sem fins lucrativos que dirigem es-

sas têm papel fundamental neste processo. Primeiro porque,

colas de dança, museus, teatros e orquestras paulistas. A

ao se aliar a uma proposta artística, exigem que os concertos

transferência de atividades antes estatais para o terceiro setor

atinjam um número maior de pessoas, pois a marca precisa

faz parte de uma reforma de base cujo modelo de gestão é

ser difundida. Segundo porque, ao aderir à Lei Rouanet, é

híbrido, pois não há concentração de poder na mão do capi-

previsto no contrato o apoio à democratização e ao acesso,

tal financeiro, baseado em um ideário neoliberal, nem unica-

medidas essenciais para que o projeto seja aprovado no Mi-

mente na mão do Estado. A Secretaria de Estado da Cultura

nistério da Cultura e liberado para a procura de financiamento.

mantém oito projetos ligados à música clássica e instrumen-

Para que uma proposta artística seja beneficiada por verbas,

tal. Por meio das OS, a Secretaria destina R$ 150 milhões

deve conter estratégias claras de acessibilidade – proporcionar

ao ano para as atividades vinculadas à Orquestra Sinfônica

a pessoas com mobilidade reduzida ou deficiência o acesso

do Estado de São Paulo (OSESP); Jazz Sinfônica; Banda Sin-

a bens culturais; e democratização – ações que promovam a

fônica e Orquestra do Teatro São Pedro. Parte desta verba

oportunidade ao acesso de bens e produtos artísticos à po-

também vai para programas de formação musical, como Guri,

pulação desfavorecida. Esta estratégia foi definida por medi-

Conservatório de Tatuí, Escola de Música Tom Jobim e Fes-

das governamentais, mostrando a necessidade de o Estado

tival de Inverno de Campos do Jordão. Estes últimos conce-

ainda preservar a sua função de mediador nas relações so-

dem bolsas de estudos para a formação musical de jovens. “Todos os que trabalham com música erudita hoje estão empenhados em transpor os muros que os separavam dos demais atores sociais. A OSESP, por exemplo, uma fundação privada que tem relação de OS com o governo de São Paulo, possui compromisso duplo: a excelência e a realização de concertos itinerantes e no Parque do Ibirapuera. Parece pouco, mas é uma grande revolução. Até pouco tempo atrás, assistíamos às orquestras apenas em salas fechadas. Hoje, levar concertos a céu aberto traz enormes resultados e sucesso de público”, reitera José Maurício Fittipaldi, responsável na Cesnik pela tributação de projetos via Lei Rouanet. Outro evento que atinge um público não especializado, mas amante de música clássica, é o Festival de Inverno de Campos do Jordão. Entre os meses de julho e agosto, a Praça Capivari é palco de concertos gratuitos com a apresentação de um repertório refinado, além de abrigar 84 concertos pagos em

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salas e teatros. Patrocinado pelo banco Bradesco por meio do Prime Arts e com apoio direto do Estado de São Paulo, a partir deste 41º Festival parte da renda dos ingressos cobrados foi destinada à educação musical e inclusão social em torno de Campos do Jordão, por meio de cursos organizados pela OS Santa Marcelina, mesma do Projeto Guri. Para a gestora do Guri Santa Marcelina, Giuliana Fronzoni, não basta ampliar o acesso aos concertos, é necessária uma ação educativa de base para que o público retorne aos eventos. “Contextualizar o repertório, introduzir o compositor no diálogo com o público é fundamental. É completamente possível formar público para a música clássica no Brasil, porém, as bases de ensino precisam estar alinhadas à nossa realidade. Hoje trabalhamos com

de inclusão social, de aproximar a juventude dos ins-

métodos de ensino brasileiro para instrumentos e incluímos

trumentos e diversificar a oferta de entretenimento. E a

repertório nacional, como Villa-Lobos”, diz. A Secretaria de Es-

Secretaria não está sozinha nos apoios destinados ao

tado da Cultura de São Paulo contabiliza cerca de 50 mil alu-

segmento. Os números fazem parte de uma engrenagem

nos incluídos nos programas ligados à música. Emprega 346

maior, com participação ativa de empresas privadas,

músicos profissionais nos oito grupos orquestrais que mantém

acrescentando seu montante nas verbas. “O incentivo

e administra sete auditórios adequados para concertos. São

privado é uma alternativa interessante para segurar nos-

Paulo, dentro desta perspectiva, pode ser considerado o redu-

sos talentos no Brasil. Durante anos, vimos os músicos

to da música erudita do país, tornando-se assim característica

saindo para estudar no exterior, por meio de bolsas. Com

muito peculiar do Estado na preservação deste posto. “O Guri

programas de formação musical e o patrocínio para o

É completamente possível formar público para a música clássica no Brasil, porém, as bases de ensino precisam estar alinhadas à nossa realidade.” Giuliana Fronzoni, gestora do Projeto Guri Santa Marcelina

evoluiu e hoje podemos considerar o Estado o mais democrá-

aperfeiçoamento de músicos profissionais, junto às or-

tico em termos de música clássica. Tenho certeza que temos

questras, cria-se uma forma de arejar nosso cenário. E

mais música erudita na base do que no topo da pirâmide”, co-

estimular o acesso ao público”, diz Matarazzo. Muitas

memora o Secretário de Estado da Cultura, Andrea Matarazzo.

parcerias têm sido feitas. A Sabesp é mantenedora de

Com a ideia associada à tese de que “música boa todo

orquestras profissionais do Estado. Assim como o Credit

mundo gosta” para explicar os espetáculos sempre lota-

Suisse e Bradesco Prime. Mas, segundo o secretário,

dos promovidos nas viagens pelo interior ou nos concer-

o acesso à música clássica em grande escala é feito

tos a preços populares, Matarazzo explica que o Estado

pelo Estado. “Promover a maior difusão é obrigação do

se deu conta de que a música era um meio importante

governo, pois a cultura é complementar à educação.”

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Erudito? Não, obrigado

Philippott. Porém, qualquer tentativa de tratar a Jazz Sinfônica como erudita é recusada por João Maurício Galindo, que responde, lacônico, quando questionado se aceita o título. “Não.

Bolsistas no 41º Festival de Inverno de Campos do Jordão: MasterClass com Antônio Meneses

A Orquestra Jovem do Estado apresenta-se como um modelo

Nem queremos.” Depois de uma pausa, emenda: “erudito é

aberto à difusão musical. Com recursos públicos, é adminis-

sinônimo de europeu. Fazemos música popular voltada para

trada pela Escola de Música do Estado de São Paulo – co-

as Américas. Erudito para mim é sinônimo de música feita de-

nhecida como Tom Jobim. Formada por 70 bolsistas, muitos

pois de muita pesquisa. Nesse sentido somos eruditos, sim.

não tinham contato com música instrumental até participar de

Mas falar nesses termos, hoje, soa como algo de outra reali-

projetos como Guri e Accores/Pão de Açúcar. À frente da Or-

dade. Estamos no Brasil, não na Alemanha do século XIX”. E

questra, está o regente João Maurício Galindo, diretor artístico

complementa: “música de concerto, hoje, não é mais um

e maestro titular da Jazz Sinfônica. Em 2000, assumiu seu pro-

bem cultural apenas para as classes elevadas. Há trinta

jeto considerado o mais versátil – dirigir e reger uma orques-

anos, quando comecei a dar aulas, os jovens que me

tra destinada à experimentação musical no formato big-band,

procuravam eram todos abastados. Mas esse cenário

com repertório popular. “Apesar de a Jazz Sinfônica apresentar

mudou. A abertura começa por aí, no grande interesse

formato orquestral, não tocamos música erudita porque o Es-

de uma fatia ampla de jovens pelo estudo de instrumen-

tado já tem a OSESP. Nossa função é criar um estilo baseado

tos”, afirma. As igrejas evangélicas desempenham um pa-

na música popular”, salienta Galindo. Destinada a reavivar o

pel importante na nova realidade. Professores e maestros

formato orquestral de shows do rádio e TV nos tempos áureos

afirmam que uma parcela considerável de alunos que os

da Record, a Jazz Sinfônica esteve no palco com João Bosco,

procuram frequenta cultos. Outro fenômeno são as ban-

Ivan Lins, Paulinho da Viola, entre vários artistas populares.

das de coreto das cidades do interior. “Estas bandas en-

Sua formação, no entanto, advém do campo erudito, pois seus

sinam música nos colégios públicos e estaduais. Muitos

estudos seguiram na direção do compositor francês Michel

músicos de sopro da OSESP vieram destas bandas. Você encontrará um perfil de músicos de todas as classes, sem distinção”, afirma João Maurício Galindo. Para o maestro, só não entende esta realidade quem permanece conectado ao restrito mundo da televisão.

Movimento a Beethoven A música erudita, como a conhecemos, possui raízes seculares, mas desenvolveu-se plenamente entre os séculos XVII e XVIII com a ascensão de Bach e Handel nos circuitos da Europa Ocidental. Compositores viviam sob a batuta de mecenas, geralmente príncipes e reis. O aristocrata promovia música nos palácios e, ao fim da era do mecenato, no século XIX, o burguês preservou a tradição de se fazer música em casa. Segundo o maestro Galindo, houve um regresso até os dias atuais. “O ouvido das pessoas ficou destreinado. Acostumamo-nos

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Maestro João Maurício Galindo à frente da Jazz Sinfônica

aos meios eletrônicos. Não se faz mais música, compra-

liberdade, sendo responsável pela transição do classicis-

se um CD. Por isso a música clássica tornou-se difícil”.

mo a um movimento mais particular, aberto à expressão

Para o maestro, é preciso vencer as resistências quanto

das emoções, emancipando a música das formas rígidas

ao gênero. O hábito, trocando em miúdos, faz o públi-

de composição. São Paulo foi palco das comemorações,

co. “Esperamos do público só uma coisa, que ele ouça

em setembro, dos 240 anos de nascimento do composi-

música”. Preocupado com a qualidade musical, João

tor alemão. A cidade, ao se abrir ao debate, reafirmou o

Maurício Galindo vê com reticência o apoio de empre-

universo democrático da música ao promover concertos

sas à arte. “A indústria cultural tende a priorizar o lucro.

e palestras gratuitamente ao público, chamando-o mais

A qualidade artística pode se complicar quando não há

para perto. O Centro Cultural São Paulo (CCSP), nas pro-

uma diretriz bem definida – e autônoma – que cuide dos

ximidades da Aclimação, é um dos responsáveis por este

espetáculos”, afirma, mesmo entendendo que, caso haja

cenário. Projetado pelos arquitetos Luis Benedito Telles e

liberdade, o patrocínio é fundamental na manutenção das

Eurico Prado Lopes, em 1982, configura-se como espa-

instituições culturais. “O Brasil possui pouquíssimas or-

ço alternativo de música erudita na cidade paulistana. To-

questras e a maioria delas é muito pobre. Nesse ponto,

das as quintas-feiras a série “Concerto ao meio-dia” traz

o patrocínio pode aumentar e muito.” Mas reitera: “Se

ao público que passa pelo local um repertório variado de

deixarmos somente na mão do mercado, a arte terá a

música de câmara, reprisado às sextas no “Concerto às

perder porque geralmente quantidade e qualidade pos-

seis e meia”. Mas a série mais conhecida é “Clássicos do

suem relação inversa”.

Domingo”, que em setembro apresentou a cerca de tre-

Muitos compositores, ao final do século XVIIII, sentiram-

zentas pessoas, na sala Jardel Filho, o projeto “Beetho-

se pressionados e infelizes ao se submeter aos patronos,

ven em Movimento”, com a presença de músicos como

compondo peças ao gosto aristocrático em detrimento

o pianista japonês Akihiro Sakiva e o Quarteto Portinari.

da própria criação. Ludwig van Beethoven, depois de

O direito ao “passe livre” para a música decorre de uma op-

Mozart, é considerado pela história da música um dos

ção pensada e repensada inúmeras vezes pela direção artís-

primeiros artistas a seguir carreira independente, o que

tica de uma instituição. Há o risco de não segurar o público

lhe permitia viver do patrocínio de diversas fontes, espe-

não especializado até o final e enfrentar uma plateia ruidosa,

cialmente da nobreza vienense. Isso lhe conferia maior

ainda que o risco seja saudável, na opinião do curador de

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música erudita do CCSP, Juliano Gentile. “Quando fazemos

ambiente. Incorporamos ideias da indústria cultural de que

um concerto com entrada franca, corremos um risco. E es-

podemos ir a um show por diversão, e aquele som chega

tamos certos em correr este risco, que é usar um espaço

até você mastigado. O mais interessante na música instru-

público para mostrar um tipo de música que as pessoas po-

mental é que ela carrega um pensamento próprio, saímos

dem conhecer ou não”. Outro ponto delicado para o cenário

do concerto com algo que não conseguimos nomear. Não é

atual, segundo Gentile, é a confusão que se cria ao associar

puro entretenimento. Demanda escuta, silêncio e entrega”,

fruição e entretenimento. Seguindo o mesmo raciocínio do

afirma Gentile. E, para completar, defende uma posição mui-

maestro da Jazz Sinfônica, o curador de música do CCSP

to parecida com a do filósofo alemão Arthur Schopenhauer.

propõe uma distinção entre eventos de massa e espetácu-

“Tratar a música como status social não diz nada a respeito

los de qualidade. “Tomar a música clássica como entreteni-

da música. E a clássica não está numa instituição, ela faz

mento não é o melhor caminho. Não é música para decorar

parte da cultura universal.”

MÚSICA PARA O O grupo Jovens Sem Fronteiras,

Bem

em Jerusalém, ele criou um meio

evoluem muito depressa, pois não

organizado pela Associação Brasilei-

de ensino eficaz para os meninos

sabem se terão o dia de amanhã”,

ra A Hebraica, de São Paulo, tem à

aprenderem rapidamente a tocar. O

diz Roberto. Quando chega o dia de

frente um professor apaixonado pelo

método deu certo e eles se transfor-

o grupo ir à Casa Hope, a ansie-

ensino de música. Roberto Wahrhaf-

maram em músicos mirins. “Adotei a

dade das crianças é grande – sinal

tig leva todas as terças-feiras, pela

técnica de dar o máximo de orienta-

do quão importante é, para elas, o

manhã, um grupo de jovens músi-

ção em curto tempo para que eles

projeto. O professor também leva os

cos até a Casa Hope, fundação de

se virassem sozinhos. Fiz um blog

seus músicos – jovens voluntários

combate ao câncer, para ensinar

(bigunha.wordpress.com), convidei

entre 16 e 25 anos – para Parai-

crianças e adolescentes a tocar um

meus alunos para darem aulas pelo

sópolis, outro bairro de população

instrumento. Formado em violão

vídeo e publicamos. O resultado é

carente, onde apresentam shows

clássico pela Academia de Israel,

surpreendente, as crianças da Hope

de rock e MPB.

Saiba Mais Privatização da Cultura: a Intervenção Corporativa nas Artes Desde os Anos 80 Autora: Chin-Tao Wu Páginas: 408 Editora: Boitempo Editorial Ano: 2006

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Um outro olhar

Paradigmas da ficção

na fotografia documental

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Cenas do início do século passado marcam a obra do fotógrafo peruano Martín Chambi. Apresentadas com exclusividade pela Fass durante a SPArte e recentemente na SP-Foto 2010, as cenas são publicadas pela primeira vez no Brasil pela Lindenberg & Life

N

as palavras de seu neto Teo Allain Chambi, diretor da fundação que cuida da obra de Martín Chambi, ele foi o primeiro fotógrafo de sangue indígena a retratar o seu povo

com altivez e dignidade, com altíssimo nível técnico, olhar excepcional e magistral domínio da luz. De origem camponesa, Martín Chambi nasceu no Vista panorâmica de Machu Picchu, Cusco, 1925 e Muro das cinco janelas, Wiñay Wayna, Cusco, 1941

Grupo de teatro com seu diretor, Luis Ochoa, Cusco, 1930

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Um outro olhar

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dia 5 de novembro de 1891 em Coaza, povoado do departamento de Puno, nos Andes peruanos. Sob os auspícios de seu mestre Max T. Vargas, célebre fotógrafo de Arequipa, Chambi realizou a sua primeira mostra em 12 de outubro de 1917. Após uma passagem pela cidade de Sicuani, ele chegou a Cuzco em 1920, onde se estabeleceu e desenvolveu a parte mais importante e deslumbrante de sua obra, até a sua morte, em 1973. Em 1964, Edward Ranney, fotógrafo e antropólogo americano, entra em contato com o trabalho de Chambi. Após convencer a Earthwacht Expedition, promove, em 1977, uma viagem de especialistas ao Peru. Durante dois meses, Ranney, com a ajuda de Victor e Julia Chambi, filhos de Martín, organiza a primeira catalogação de 14 mil placas de vidro do fotógrafo

Festa de carnaval, Cusco, 1926

Homem gigante de Llusco, Chumbivilcas, Cusco, 1925

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Um outro olhar

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peruano. A pesquisa culminou em uma grande exposição no Museu de Arte Moderna de Nova York (Moma), em 1979, e que circulou por museus e universidades americanas, viajou pelo Canadá até chegar à Photographer’s Gallery, em Londres. Mais tarde, em 1981, uma importante mostra de Chambi é organizada em Zurique e segue para Berlim, Madri e Rotterdã. Em 1984, uma exposição similar é apresentada em Veneza por Juan Carlos Belón, que pontua a obra de Chambi como paradigma da ficção da fotografia documental.

Festa Familiar, Cusco, 1930

Boxeadores no estúdio, Cusco, 1938

57 A FASS representa com exclusividade alguns fotógrafos da primeira metade do século XX. Trata-se de uma organização dedicada ao desenvolvimento da cultura da fotografia histórica com atividades que incluem palestras, exposições e consultoria a novos colecionadores e amateurs. Mais informações pelo telefone (11) 3262-1719 ou no site www.fassbrasil.com

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L aboratório

Trabalho holístico

A atmosfera acadêmica e de total dedicação forja as habilidades sociais e faz a cabeça, prancheta e os projetos dos formandos de arquitetura da Universidade Mackenzie. Mas o sonho de um mundo melhor emerge da alma dos jovens aspirantes Por Perla Rossetti Fotos Divulgação / Marília Veiga

O

que arquitetos de gerações distintas, como Telésforo Cristofanni, Roberto Loeb, Carlos Bratke, Isay Weinfeld e Márcio Kogan têm em comum? Todos se graduaram na Faculdade de Arquitetura e Ur-

banismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo. Celeiro de grandes talentos da arquitetura nacional, a FAU-Mackenzie sempre influenciou a construção da história paulistana e brasileira. Para conhecer alguns dos 150 estudantes mais promissores da atualidade que conquistarão os seus canudos no final do semestre, visitamos o Edifício

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59 Cristiano Stockler das Neves, no campus de São Paulo.

Atenas (2004). “Percebo que o caso de Barcelona é o mais

Sede da primeira escola do Estado de São Paulo e a se-

próximo do Rio de Janeiro, principalmente na requalifica-

gunda do Brasil, criada em 12 de agosto de 1947, o am-

ção da zona portuária. Minha ideia é criar uma Vila Olímpica

biente histórico, dirigido pelo Prof. Dr. Valter Luis Caldana

para transferir 20% das 2 mil unidades previstas na Barra

Junior, curador da Bienal de Arquitetura, é totalmente pro-

da Tijuca para a zona sul para que, após o evento, sejam

pício para os aspirantes refletirem a respeito das constru-

vendidas como moradias.”

ções e cidades sustentáveis em constante mutação para,

O estudante paulista, também atleta de triathlon, entende a

então, prepararem o Trabalho Final de Graduação, sob a orientação criteriosa dos mestres Luiz Telles e Silvio Stefanini Sant’Anna, também coordenador do curso. Teste este capaz de apresentar ao mercado, com honra-

Traços, perspectivas e uma infinidade de estudos para alcançar o projeto ideal

rias, os pupilos da instituição, já que 70% dos alunos saem do curso alocados na área. Um exemplo é Daniel Corsi, entrevistado nesta edição na reportagem Juventude pósmoderna e cujo desempenho, de tão expressivo, inclusive na Bienal de Veneza, trouxe-o de volta à FAU-Mackenzie como professor, apenas cinco anos depois de graduado. Uma revelação do porte de recém-formados talentosos, como Pascoal, Pedro e Letícia Guglielmi, além de Eugenio Conte e Gabriel Cesar que, esse ano, conquistaram o segundo lugar – o primeiro foi dos professores Mario Figueroa e Lucas Fehr – no Concurso Nacional de Arquitetura de Novas Tipologias para Habitação de Interesse Social Sustentáveis, organizado pela Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU) e pelo Instituto de Arquitetos do Brasil (IABSP). O grupo de novatos mostrou seus edifícios de três pavimentos e repetiu a dobradinha de segundo lugar no concurso do teatro de Itapeva, no interior paulista – o vencedor foi o também um ex-aluno, Yuri Vital.

Exercício Se o trabalho do arquiteto é moldado por condicionantes e demandas da sociedade, já há quem viva a expectativa da Copa do Mundo 2014 e das Olimpíadas 2016. Roberto di Franco, 22 anos, focou os megaeventos temporários e suas consequências. Ele vem pesquisando os impactos que já aconteceram em Barcelona (1992), Sidney (2000) e

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L aboratório

atmosfera e dinâmica desse tipo de construção para jogos

suas temáticas e se apropriam de referências bibliográfi-

e atividades físicas. Ele viajou para o Rio de Janeiro a fim

cas e de ícones do cenário contemporâneo, mesmo os

de observar espaços e fluxos, considerar a distância das

de apelo midiático, por uma causa justa: o benefício dos

regiões, o potencial econômico e as necessidade sociais e

espaços públicos da cidade.

habitacionais da população local. Nesse sentido, o Prof. Luiz Telles ressalta que os alunos fa-

Apropriações

zem uma leitura da cidade, não só no aspecto morfológico, mas de transformações. “O arquiteto enfrenta espaços em

É difícil, para muitos estudantes, dissociar os interesses

constante mutação promovida pelo capitalismo. E o desafio

pessoais do projeto, mesmo que este evoque responsa-

é ir além da situação atual, da própria realidade e elaborar,

bilidades e objetivos de escopo profissional. É o caso de

mentalmente, o que significa o outro em primeira instância

Denise Linz, 25 anos. Moradora da zona sul, atleta de vôlei

para propor o novo.”

e membro do coral da universidade desde o primeiro ano

E a experiência com o seu projeto de final de curso influen-

de curso, sua ligação com o mundo do esporte, da arte

cia a sua perspectiva profissional. Embora esteja trabalhan-

e da música levou-a a escolher a revitalização do Teatro

do em escritório de arquitetura, já pensa em desenvolver

Alfredo Mesquita, na Praça Campo de Bagatele, na zona

produtos para a área de incorporação, amplamente benefi-

norte da cidade. “São Paulo cresceu culturalmente mais

ciada com o boom do mercado imobiliário brasileiro, o que,

no vetor sul e oeste do que nas outras regiões de maior

na análise de Sant´Anna, coordenador do curso, é uma das

concentração populacional. E o terreno do teatro está no

infinitas possibilidades do ofício. “Os alunos entendem que

eixo centro, o que dá diretrizes de expansão para a zona

temos condição de fazer muitas coisas diferentes. Enquan-

norte”, justifica a estudante.

to outros profissionais buscam a especificidade, nossa vi-

A sua intenção é propiciar a difusão da cultura através da

são sobre o todo é holística e mais ampla para responder

repaginação do edifício atual para incentivar ações em seu

às expectativas do futuro.”

entorno. Para isso, ela se dedica à concepção, execução

Assim, o arcabouço teórico das aulas é posto à prova e

de plantas e análises de cortes – visão interna do edifício

a responsabilidade social de seu ofício é evocada nes-

em altura de bancada, pilares, pé-direito, pé-esquerdo,

te momento da jornada, em que os estudantes decidem

beiral, forro, entre outros – como num projeto real, antes

Desafio dos alunos [e ir al[em da realidade atual e propor o novo

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da apresentação formal à prefeitura. E foi num momento de dificuldade, em meio a borrachas, lápis, cálculos e plantas, que a Lindendeberg & Life encontrou Denise, compenetrada em resolver equações espaciais incompreensíveis para quem desconhece o métier. “Desenho interno do teatro é complicado porque é preciso prever o terreno, os fluxos e áreas e, a partir disso, ver o volume. Tive um bom professor de cortes e inserção nas cidades com escalas e equipamentos urbanos.” Assim, mais do que funcionalidade, os estudantes voltam a sua atenção ao primeiro grande projeto de suas vidas, ao que a me-

Urbanismo e arquitetura entre as ruas Caio Prado e Gravataí, em maquete dos alunos

trópole mais precisa em espaços dignos de integração e convivência. Um universo que, de tão rico, também cativou a estudante Keithy Karg, 20 anos, que veio de Bauru, interior paulista. Desenvolvendo um trabalho em grupo nas áreas das ruas Caio Prado com Gravataí, ela revela que o encantamento com a arquitetura nunca termina, já que tem tido a oportunidade, nesse universo da FAU-Mackenzie, de aprender assuntos abrangentes como urbanismo ou projeto arquitetônico. “Toda aula é um campo novo e uma descoberta. Sou fascinada por design de interiores e por projetos. E aqui percebo a incrível

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capacidade de ensino da instituição, e o próprio mercado requisita os profissionais por esse aprendizado e disciplina”, conta a aspirante, um dos vários nomes promissores do futuro. Afinal, a empolgação poética inerente aos iniciantes faz todo o sentido numa área multifacetada e de apelo extremamente comportamental, como a arquitetura.

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De cima para baixo: Os mestres Sant’Anna e Telles orientam os estudantes. Ao lado, Roberto di Franco encara os desafios de transformar as vilas olímpicas do Rio de Janeiro em moradias

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filosofia Por Andrew Ritchie Fotos Arquivo Pessoal

O

filósofo grego Aristóteles (384–322 a.C.) diz, atra-

de projetos pessoais. Surgiram, assim, instituições

vés de uma das passagens mais conhecidas de

políticas que se transformaram no palco dessas ne-

sua obra, A política, que “O homem é por natureza

gociações e debates, através das quais a burgue-

um animal político (zóon poliktikon)”. Mas, tomando

sia passou a ter os seus representantes e a expor

como base o âmbito da filosofia política aristotéli-

abertamente as suas demandas, como o parlamen-

ca, o que significa essa expressão tão marcante?

to inglês (séc. XVII) e os Estados Gerais da França

Significa que o homem não é um simples animal

(séc. XVIII). Teve-se, assim, a instauração do sistema

que vive em sociedade, mas que vive e participa

de representatividade política e da eleição através

Por onde anda o “animal po lít

Andrew Ritchie é especialista em finanças pelo IBMEC e graduando em filosofia na FFLCH-USP

ativamente de uma sociedade politicamente or-

do voto, notadamente a partir do sufrágio universal

ganizada, e que somente assim é que ele pode

da primeira constituição democrática francesa de

exercer a sua verdadeira natureza. De fato, a de-

1791. A partir desse momento, o cidadão passou

mocracia na Atenas de Aristóteles era literalmente

a participar da vida política através do voto e da fis-

direta – os cidadãos compareciam pessoalmente

calização das decisões de seus representantes nas

à Assembleia Popular – e em nenhuma outra cida-

instituições políticas. E por meio desse princípio de

de a política assumiu um papel tão relevante como

representação foi possível desenvolver e propagar

eixo balizador das instituições e relações sociais. A

os regimes democráticos até chegarmos às formas

discussão política estava na vida e no sangue dos

como hoje os conhecemos.

cidadãos, e era impensável um indivíduo indiferen-

O que estava por trás de toda essa mudança

te aos temas políticos. Não havia dissociação entre

política era a busca por um novo estilo de vida. O

a vida pública e a privada, e a atividade política era

cidadão moderno ansiava por uma maior autonomia

o coroamento da existência humana.

na sua vida privada, mas o preço a pagar seria uma

Dando um salto para a modernidade, verificamos o

diminuição de sua influência na esfera pública. Com

surgimento de novas formas de organização política

o passar do tempo, contudo, o cidadão tornou-

que visavam contemplar as novas forças e deman-

se um indivíduo apático e atrofiado politicamente,

das que passaram a ocupar a arena social, como

restando-lhe apenas a vida privada e individual para

as lutas por liberdade de pensamento, comércio,

buscar alguma forma de realização – a sociedade

ascensão social etc. Ou seja, iniciou-se uma bus-

democrática moderna está fundada no individualis-

ca pelo direito de poder decidir sobre o rumo da

mo. Voltando-se apenas para si, o indivíduo tende

própria vida privada e poder colher os resultados

a refugiar-se nas coisas materiais e naquilo que ele

O indivíduo desconectou-se de si próprio e, ao fazê-lo, perdeu o contato com a sua própria natureza 62

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imagina serem as suas relações pessoais de po-

que bem claro, não se está fazendo aqui qualquer

der e, como consequência, tem-se a anulação de

juízo de valor em relação a essa atitude ou eventos

qualquer perspectiva de desenvolvimento cultural ou

– afinal, cada um tem o direito de se mobilizar da

engajamento político. Uma base social como essa

maneira que lhe aprouver – o que se questiona é

destrói as condições de participação cívica, leva à

por que o brasileiro se mobiliza tanto em determina-

asfixia do “homem político” que vive em cada um

das ocasiões e praticamente ignora outras tantas

de nós e reduz a eventual “atividade política” a um

que influenciam de forma decisiva o rumo de sua

mero meio para a obtenção de interesses pesso-

vida. É evidente que estamos questionando o por-

o lítico” que habitava em nós? ais. Nesse contexto, pouco importa qual é a forma

quê da apatia política que impera no país, algo

de governo ou quem é o governante, contanto que

notório nesse momento de eleições nacionais.

se possa perseguir tranquilamente o seu “projetinho

Justificar essa atitude com respostas como “de-

individual”. O mais cruel, nesse processo, é que há

silusão”, “revolta” ou “protesto” contra a política

um autoengano poderoso que faz com que se acre-

nacional, além de simplório configura escapismo.

dite que ainda se tem as rédeas do próprio destino

A tese aqui apresentada é a de que o indivíduo

— afinal, “eu voto periodicamente” —, quando, na

desconectou-se de si próprio e, ao fazê-lo, per-

verdade, elas já foram abandonadas há tempos. E

deu o contato com a sua própria natureza – in-

quem abdica da direção da própria vida jamais será

clusive com o seu aspecto “animal político”–,

capaz de escolher eficazmente aquele que deverá

abrindo mão do principal referencial que poderia

conduzi-la. O indivíduo atrofiado politicamente perde

orientá-lo na condução da própria vida. Nessas

a capacidade de refletir, optar, exigir, lutar, agir — e,

condições, resta-lhe delegar o controle de sua

o que é pior, de forma consentida.

vida a terceiros e, consequentemente, tornar-se

Atualmente vivemos no Brasil um momento pro-

um indivíduo heterônomo. Como bem disse Aris-

pício para nos questionarmos como anda nossa

tóteles, o homem só é verdadeiramente ele mesmo

capacidade de engajamento. Recentemente, tive-

quando exerce a sua natureza política, e o indivíduo

mos a Copa do Mundo e, mais uma vez, pudemos

só voltará a ser cidadão quando redescobrir o nexo

comprovar a aptidão do brasileiro para se mobilizar

consigo mesmo. Até lá, o “animal político” continu-

e se unir em torno de uma ideia. E o mesmo acon-

ará dormente, e nós, sonhando que estamos acor-

tece em inúmeras outras ocasiões, como Carnaval,

dados, continuaremos com a ilusão de que somos

eventos religiosos, paradas temáticas etc. Que fi-

os senhores das nossas vidas.

Ansiava por uma maior autonomia na sua vida privada, mas o preço a pagar seria uma diminuição de sua influência na esfera pública. 63

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personna

Ícones em harmonia

Ícones contemporâneos e clássicos harmonizam-se à dramaticidade da luz

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Pitadas de humor e a sensibilidade da arquiteta Zize Zink nos acabamentos recriam o visual de um Lindenberg Mediterrâneo e reforçam a tônica da grife: plantas adaptáveis, aliadas à solidez da construção Por Perla Rossetti Fotos Mari Vaccaro

A

Herança de família: Bacará original sugere requinte ao ambiente

irreverência das peças do designer francês Philippe Starck, dispostas ao lado de telas de artistas de renome, como Elisa Bracher, Malu Saddi, Arthur Lescher, e de novatos, como Ana Amélia Genioli, talento revelado na última SP-Arte, conduz o olhar pelos arcos característicos dos apartamentos da Construtora Adolpho Lindenberg até chegar à sala de jantar e à fotografia de transeuntes no metrô de Shangai. Imagem lindamente iluminada por um lustre Bacará, uma antiguidade clássica herdada pelo marido da arquiteta Zize Zink. Nessa atmosfera de requinte e bom gosto, a visita é envolvida pelos arcos, spots e abajures em tonalidades as mais dramáticas possíveis, flores, muitas flores, e o preto em toques, ora sutis ora mais consistentes. Assim é o apartamento de Zize, uma adepta

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dos imóveis Lindenberg. Antes de se mudar para o edifício Senador Virgílio Rodrigues Alves, erguido na década de 60, nos Jardins, Zize morou com o marido e dois cachorros de estimação em outros dois apartamentos neoclássicos da grife, que ela já admirava desde criança. “Na

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personna

infância, vivia na casa de uma amiga, que morava num apartamento Lind nessa região. Os arcos das portas fazem parte das minhas lembranças e das nossas brincadeiras. Quando mudei para este, há três anos, pensei em artigos redondos e até nas curvas do sofá para brincar com eles.”

Emocional Filha de mãe escocesa e pai alemão, luterano e apreciador de concertos, ela nasceu em Curitiba, viveu na Bahia, no Rio de Janeiro e em Munique, e essa miscelânea cultural com que teve contato desde a mais tenra idade reverteu-se numa sensibilidade especial. Sem medo de arriscar e com conhecimento profundo

de plantas e afins, ela se debruçou sobre a prancheta para dar o seu toque pessoal ao apartamento de 300 m2. “Gosto muito da disposição das plantas Lindenberg, que são mais quadradas, com pé direito alto, raramente encontrados nas construções atuais”. Para chegar à combinação perfeita entre a qualidade da construção e seus desejos na decoração, ela dedicou sete meses à reforma de ampliação da cozinha, o grande “strike” na planta, como diz Zize, já que estendeu o ambiente até um dos dois quartos de empregada. Aproveitando a integração da sala de jantar, living e biblioteca, ela apenas transformou um dos espaços em home theater. Instalou, em todo o apartamento, luzes direcionais e com controle de intensidade para as suas obras de arte. Por fim, rendeu-se mais uma vez ao gosto pela cor preta, que chegou até as paredes do lavabo e ao piso das salas do apartamento. O original de tábua foi substituído por um ebanizado, em espinha de peixe, pintado de preto.

Elementos de épocas distintas em perfeita sintonia

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Detalhes Sempre com o compromisso de funcionalidade, Zize brinca com a mistura de elementos. A varanda recebeu uma linda cadeira Diz, do consagrado designer Sergio Rodrigues. A sala de jantar abrigou as Saarines brancas e o living, as antigas Aubusson, com novo forro, em rosa velho. E ainda sobrou espaço para um divertido tambor, sofá Beraldin de veludo lavado e almofadas, também em abundância. E como faz na rotina profissional, Zize ouviu e considerou o gosto do marido na decoração. “Estamos juntos há 22 anos e somos muitos parecidos. Ele escolheu a foto da sala de jantar, aliás, ele amou quando eu trouxe da galeria Eduardo Fernandes. Pois é, ele circula muito bem pelo meu universo”, finaliza a Arcos do Lindenberg Mediterrâneo inspiraram as curvas de alguns móveis

romântica e inspirada Zize Zink.

Síntese do espírito audaciosos da arquiteta, o preto impera no home theater e no lavabo, com fotografias inusitadas

67 Universo de fluídez e comicidade de Zize Zinke chegou a todos os espaços do apartamento

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qualidade de vida

Apaixonados por gastronomia e especialistas em nutrição recomendam a horta residencial para garantir a qualidade dos alimentos e refeições que fazem bem à saúde

Terra da

Por Larissa Andrade Fotos Divulgação

vida saudável

Q

uando se fala em alimentação saudável e natu-

Embora o consumo de alimentos industriali-

ral, muitos já a associam a uma deliciosa refei-

zados tenha explodido nas últimas décadas e

ção leve, pronta, no prato. Outros pensam no

continue em linha ascendente, é de fato notável

caminho inverso: cuidar de sua própria horta

o crescente interesse e a conscientização das

orgânica, plantar, adubar, colher e, só depois,

pessoas quanto à importância do consumo de

gastar mais algum tempo desenvolvendo recei-

alimentos que fazem bem à saúde. Nas gôn-

tas criativas com alimentos “caseiros”. Se o coti-

dolas dos supermercados, é fácil perceber a

diano impõe uma vida corrida e cheia de pressa,

variedade cada vez maior de produtos naturais

a ordem na alimentação é desacelerar e apreciar

e orgânicos. “A nossa saúde e equilíbrio interno

as refeições em busca de melhor qualidade de

refletem nos sintomas externos e o indivíduo só

vida. “Nos últimos cinco anos, o consumo de

terá vida saudável se estiver em harmonia sob

produtos saudáveis quase dobrou no Brasil. O

três perspectivas de equilíbrio: físico, mental e

aumento reflete a mudança de comportamento

emocional”, complementa Chiara.

do cidadão, que tem buscado alimentos e bebi-

E é na busca por qualidade de vida, não ape-

das mais saudáveis e que proporcionam bem-

nas no momento de se alimentar, mas também

estar na hora das compras”, diz a nutricionista

na maneira como acontece o plantio e o prepa-

funcional Chiara Miniguini, da Health Choice.

ro dos alimentos, que a horta orgânica residen-

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ambiente e da luminosidade. Se ele mora em

– inclusive em espaços não tão amplos, como

prédio, vejo onde o sol bate naquela época do

varandas de apartamentos. O engenheiro agrô-

ano, escuto o que a pessoa deseja, que tipo

nomo e proprietário da empresa Minha Horta,

de vaso e tempero busca, levo as informações

Marcelo Noronha, diz que a horta urbana res-

para o escritório e, finalmente, monto um pro-

gata o clima antigo do interior, as lembranças

jeto”, descreve.

de quem viveu em sítio e da mãe que sempre

Para os moradores de apartamento, Noronha

quis uma boa alimentação para os filhos. “Além

recomenda a plantação de temperos, que exi-

de bonita, é funcional”, acrescenta. Noronha

ge pouco espaço e a colheita é mais abundan-

recorda que começou montando a sua própria

te. Tais hortas podem ficar na varanda ou perto

horta e, diante dos pedidos de amigos, decidiu

da cozinha, mas é preciso observar também a

investir na ideia. Atualmente, atende não ape-

condição de vento, que pode prejudicar o plan-

nas residências particulares, mas hotéis, res-

tio. Em todas as etapas, a ajuda de um espe-

taurantes e até escolas.

cialista proporcionará resultados mais efetivos,

O especialista explica que praticamente qual-

pois são muitos os detalhes a serem conside-

quer espaço pode receber uma horta: “Existe

rados, como o tamanho e a construção dos

uma única condição em que não consigo plan-

vasos, a mistura de temperos em um mesmo

tar – a sombra”, observa. “É importante fazer

vaso e a adubação. Para quem não abre mão

uma visita técnica ao local porque a configu-

de uma horta com personalidade, vale a pena

ração é muito pessoal, não adianta criar um

consultar um paisagista, que irá trabalhar em

produto pronto na internet e vender. Eu vou

parceria com o especialista no desenvolvimen-

até a casa do cliente, faço uma avaliação do

to do projeto.

69

Por Marcelo Noronha, engenheiro agrônomo

Dica do especialista

l

cial vem conquistando a atenção das pessoas

Para uma boa horta, não existe quantidade definida de água, pois isso varia de acordo com o tempo – as pessoas costumam colocar água em excesso. A construção do vaso é fundamental nesse aspecto, é necessário ter um bom dreno. A maioria dos temperos é do mediterrâneo, ou seja, provenientes de solo arenoso. Eu tento sempre colocar uma ou duas espécies no vasinho, como salsinha, cebolinha, coentro, orégano, tomilho. Hortelã nunca deve ser plantada com outras espécies. O vaso deve ser escolhido de acordo com a

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planta. Utilize vasos redondos e de tamanho médio para plantar manjericão, capim-limão, pimentas, sálvia – essas espécies não se dão bem em jardineira pequena. Frutas como jabuticaba, limão-siciliano, romã, pitanga e acerola devem ser cultivadas em vasos grandes. Uma das tendências é usar grãos germinados – rúcula, agrião, alfafa, gergelim, que podem ser cultivados em bandejas de isopor e, posteriormente, utilizados em saladas ou sucos.

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qualidade de vida

Sabor e Saúde

As Melhores Receitas Vegetarianas do Templo Zu Lai Escrituras Editora

Acompanhando a tendência de um estilo de vida mais saudável, a culinária vegetariana tem sido a maneira mais atraente de garantir uma dieta nutritiva e diversificada. Abóbora japonesa, acelga chinesa, aguê, bifum, missô ou nata de soja, ingredientes que se misturam a temperos da tradicional cozinha chinesa e às delícias da culinária brasileira nas melhores receitas do Templo Zu Lai, com receitas de Jasmine Chen.

Paixão

passeio entre elas, com piso de cimento. Cada caixa representa uma das quatro hortas”, explica. Entre os

Presidente da Volvo Bus Latin America, Luís Carlos

cuidados tomados na hora de “construir” o espaço, o

Pimenta encaixa-se naqueles casos em que a horta

executivo buscou o melhor equilíbrio de luminosidade

residencial traz de volta os bons tempos da infância.

para poder trabalhar também à noite.

“Sempre gostei de vegetais e legumes. Lembro-me

Pimenta aprendeu a cuidar da horta sozinho e de-

de que, quando era garoto, morava ao lado de um

senvolveu algumas técnicas para alcançar sempre

hospital que tinha uma grande horta. Frequentemente

boas produções, além de se dedicar diariamente ao

ia até lá colher rabanetes. Eu gostava de pegar direto

espaço. “Dedico-me todos os finais de semana para

da terra, lavar e comer. No momento em que tive uma

o trabalho mais fundo, mas durante a semana tenho

casa, comecei a plantar temperos e fui tomando gos-

alguém que rega a horta, pela manhã. Eu molho to-

to, aumentando minha horta”, conta o executivo.

das as noites. Se estou viajando, peço a alguém que

Morando em Curitiba há alguns

tenha esse cuidado. Mas a colheita não gosto que

anos, Pimenta planejou a horta

ninguém faça”, diverte-se Pimenta, revelando uma

da residência atual com todo o

pontinha de ciúme do seu espaço.

cuidado para garantir não apenas

Muito mais do que apreciar os alimentos colhidos,

a eficiência do plantio, mas tam-

os cuidados trazem uma enorme sensação de bem-

bém para que ele não sujasse os

estar e relaxamento ao executivo, um momento de

pés ao cuidar das plantas. “Tenho

integração com a natureza. “Para mim, a horta é um

um espaço de uns 80 m no jar-

descanso sempre, é onde eu relaxo por estar intera-

dim, que isolei para a horta e divi-

gindo com outro tipo de vida. E quem não tiver essa

di em quatro seções, de mais ou

percepção, é melhor ir à feira. Quem faz por obriga-

menos 4 x 1,5 m, cada. Fiz um

ção não vai ter um bom resultado”, diz Pimenta. Entre

2

as espécies plantadas estão couve rábano, brócolis, O executivo da Volvo, Luís Carlos Pimenta, cuida diariamente de sua horta

almeirão, escarola, alface crespa e lisa, radicchio italiano, couve-manteiga, salsa, cebola, rúcula, coentro. Um dos segredos do executivo é não usar nenhuma espécie de adubo químico, apenas natural, como fa-

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rinha de osso, húmus de minhoca, entre outros. É exatamente esse cuidado que faz com que um alimento seja considerado orgânico, conforme explica a nutricionista Chiara Miniguini. “Os alimentos orgânicos são aqueles cultivados sem o uso de agrotóxicos, nem qualquer outro produto que possa vir a causar algum dano à saúde dos consumidores. Eles proporcionam muitas vantagens a quem consome. Pelo fato de serem cultivados sem agrotóxicos (químicos), restauram os nutrientes do solo; os produtos animais não têm resíduos de hormônios antibióticos por serem criados em um ambiente natural, sua qualidade é superior à dos alimentos convencionais. A genética da planta, o clima, a irrigação e a época da colheita têm um impac-

A horta do Luís Carlos foi planejada por ele mesmo, de acordo com a luminosidade

to muito maior no conteúdo nutricional do que o tipo de fertilizante usado; as frutas e legumes orgânicos são mais saborosos; galinha, porco e boi produzem carne mais magra e saborosa em comparação com os criados industrialmente; são menores as chances de conterem pesticidas, corantes e outros produtos químicos”, enumera. Marcelo Noronha, da Minha Horta, diz que “receitas populares” têm sido resgatadas para adubar as plantas, ou seja, receitas caseiras e até mesmo chás para garantir a saúde das espécies e protegê-las das pragas e doenças.

71

Dica da nutricionista

Por Chiara Miniguini, nutricionista funcional

Alguns tipos de alimentos, se consumidos regularmente durante longos períodos, parecem fornecer o ambiente que uma célula cancerosa necessita para crescer, multiplicar-se e se disseminar. Eles devem ser evitados ou ingeridos com moderação. Neste grupo estão os alimentos ricos em gorduras, como carne vermelha, frituras, molhos com maionese, leite integral e derivados, bacon, presunto, salsicha, linguiça e mortadela. Além do consumo, o preparo do alimento também influencia no risco de desenvolver câncer. Tente adicionar menos sal na hora de cozinhar, aumentando o uso de temperos como azeite, alho, cebola e salsa. A Organização Mundial da Saúde recomenda o consumo de até 5 g de sal ou 2 g de sódio por dia, ou seja, o

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equivalente a uma tampa de caneta cheia. Ao fritar, grelhar ou preparar carnes na brasa a temperaturas muito elevadas, é possível criar compostos que aumentam o risco de câncer de estômago. Por isso, métodos de cozimento que usam baixas temperaturas são escolhas mais saudáveis, como vapor, fervura, pochê, ensopado, guisado, cozido ou assado. Alguns dos principais vilões são os temperos prontos, produtos em conserva, enlatados, embutidos, caldos concentrados, salgadinhos, sopas e macarrões instantâneos. Utilize outros temperos, como alecrim, cebolinha, coentro, hortelã, louro, manjericão, salsa, limão, cebola, vinagre, azeite, alho, óleo de girassol, milho, soja, canola, ervas secas ou frescas: orégano, sálvia, manjericão, açafrão, cúrcuma, gergelim, erva-doce, aveia, canela, coentro, hortelã, linhaça, pimentas, salsa, alecrim, tomilho, gengibre, nozmoscada, etc. Além de deixar a comida saborosa, contribuem para a saúde.

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Gladstone Campos / realphotos

qualidade de vida

Nos restaurantes GOA e YAM, do chef Augusto Pinto, a comida saudável é aliada a atitudes sustentáveis

Responsabilidade

“Nossos fornecedores orgânicos têm de ter certificação. É importante saber a origem do alimento: você pode comprar

Para garantir que um produto comercializado é, de fato,

um aspargo orgânico do Chile, mas ele tem um impacto

orgânico, há um processo de certificação, em que uma

ambiental enorme quando colocado em um avião para vir

espécie de auditoria verifica desde a qualidade do solo

ao Brasil. Esse é um debate que precisa ganhar voz.”

até questões sociais, como o modelo de contratação dos

Os pratos do YAM e GOA incluem verduras e legumes or-

funcionários que trabalham naquela horta. Assim, o cliente

gânicos, além de frutas. Augusto Pinto promove uma feira

tem certeza de que está comprando um produto social e

orgânica aos sábados no YAM, onde cede espaço para

ambientalmente responsável.

uma cooperativa de produtores. Ele próprio é adepto da

Em seus restaurantes, GOA e YAM, o chef Augusto Pinto

horta caseira. “Conheço muita gente que tem horta orgâni-

assumiu um compromisso com a natureza. “Quando me

ca em casa. Eu, particularmente, cultivo temperos”, conta.

alimento de algo orgânico, não estou consumindo nenhum

A horta residencial mostra que a sustentabilidade também está

tipo de defensivo, veneno químico e também não estou con-

na cozinha e na forma como compramos os alimentos e os con-

tribuindo para a contaminação do solo e dos lençóis freáti-

sumimos, aliando a responsabilidade ambiental aos cuidados

cos por parte desses elementos químicos. Além de cuidar

com o corpo e a qualidade de vida. Essa é uma tendência que

da minha saúde, cuido da saúde do planeta e essa será,

deve se intensificar nos próximos anos, aumentando a variedade

cada vez mais, a preocupação número um das pessoas”,

de produtos orgânicos disponíveis no mercado e, consequen-

diz ele, que ressalta que todos nós, como consumidores,

temente, tornando a alimentação das pessoas mais saudável.

temos responsabilidade em relação ao que compramos.

Uma daquelas raras iniciativas em que todos ganham.

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Rolinho Thay Restaurante YAM Ingredientes: Rolinhos 1 pepino orgânico ralado 10 folhas de arroz 1 cenoura orgânica ralada 1 abobrinha orgânica ralada 2 colheres (sopa) de wasabi em pó 4 colheres (sopa) de molho de soja (shoyo sem MSG) 4 colheres (sopa) de molho agridoce

Molho agridoce rolinho thay Restaurante YAM

YAM orgânico Salada thay YAM orgânica

Ingredientes: 250 ml de azeite de oliva extra virgem orgânico

Modo de fazer:

¼ xícara (chá) de vinagre balsâmico (colocar aos poucos)

Hidrate as folhas de arroz, uma de cada vez, em

¼ xícara (chá) de mel orgânico

água fria. Abra a folha de arroz e distribua os le-

1 colher (sopa) de mostarda comum da marca Henner

gumes sobre ela, alternando-os.

½ colher (chá) de sal marinho

Salpique o wasabi sobre os legumes e regue

3 colheres (sopa) de suco de limão orgânico

com o shoyo. Faça rolinhos na forma de panquecas. Corte na

Modo de fazer:

diagonal. Coloque uma metade sobre a outra e

Emulsificar todos os ingredientes com um batedor (whisk)

sirva com a salada regada com molho agridoce

e servir com o rolinho e a salada.

YAM. Finalize com salsinha picada. Rendimento: 1 xícara de chá (320 ml) Rendimento: 10 (1400 g)

Porção: 2 colheres (sopa) (40 ml)

Porção: 1 unidade média (140 g)

Porções: 8

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poéticas urbanas Por Rosilene Fontes

L

i um livro em que dois fantasmas da Grécia

mos na música em si. Sentimos a música e ela nos

antiga se encontram no mundo dos mor-

leva a sonhar, a lembrar, a pensar. Quando vemos

tos e travam um diálogo sobre a arquitetu-

uma bela construção, não pensamos na constru-

ra. Um deles é apaixonado pela arquitetura

ção em si, mas no sonho de morar, nas lembranças

e diz que os edifícios que não falam nem cantam

da família e em tantas outras coisas.

merecem apenas desdém, são coisas mortas e in-

Música e arquitetura nos fazem pensar na vida,

feriores. Para ele, alguns edifícios são tão silencio-

nos fazem sentir a vida, nos tornam cientes da

sos que somente produzem, de quando em quan-

vida. Libertam em nós os sentidos, o tato, a au-

do, o triste som do ranger de uma porta. E ainda,

dição, a visão e também o pensar, a razão, o nú-

poéticas Urbanas (Arquitetura e música) Rosilene Fontes é arquiteta da Construtora Adolpho Lindenberg

ao passear pela cidade, observa-se que dentre os

mero e a palavra. Música e arquitetura produzem

edifícios que a compõem uns são mudos; outros,

espaços que nos envolvem emocionalmente.

falam; e outros, mais raros, cantam.*

Música e arquitetura, para ser belas, trabalham

O que é comum entre estas duas artes? Verdadei-

com a harmonia, o movimento e o tempo. Ambas

ras criaturas criadas pelo homem.

produzem ressonâncias em nossa alma. Tanto na

Quando criamos música, não fazemos réplicas

música quanto na arquitetura reinam o afeto, o

de nada existente na natureza. A natureza é feita

aconchego e o prazer. Música e arquitetura preci-

de ruídos, a natureza nos inspira a criar música.

sam ser belas e envolventes.

Quando criamos a arquitetura também não faze-

Mas a natureza está além de nossas belas criaturas e

mos réplicas de nada que há na natureza. A natu-

os dois fantasmas acima nos fazem lembrar bem dis-

reza nos inspira a criar, a natureza nos dá a matéria

so: “Às vezes o vento está a nosso favor e outras ve-

para criar o mais belo edifício. A música comunica

zes está contra. O essencial é navegar corretamente”.

com o ar e a arquitetura, com a pedra.

Somos apenas homens, criaturas da natureza,

O que mais há em comum entre estes dois seres

mas sabemos que os deuses não devem perma-

semiconcretos e semiabstratos?

necer sem teto e as almas não devem permane-

Quando ouvimos uma música, não pensa

cer sem espetáculos.

E por falar em música, por que não falar em arquitetura? Parece sem sentido o que acabo de perguntar, mas não é. Música e arquitetura, em quê se assemelham? 74

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sua casa com o seu jeito de ser

O alto padrão em unidades de 60 a 91 m2, com serviços, na melhor localização do Itaim.

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5 experiências

A

vida da galerista Vilma Eid é repleta de agradáveis surpre-

Para descobrir talentos em pessoas simples, como o ex-

sas, artistas e, como ela mesma diz: “arteiros”. Artífice do

lavrador Artur Pereira (1920-2003), e juntar um time seleto

movimento de arte popular, Vilma expõe em sua Galeria

de artistas, como José Antônio da Silva, Nuca de Tracu-

Estação um importante acervo que deu origem ao Instituto

nhaém, Nino, Jadir, Ranchinho, Vidal, Agostinho Batista de

do Imaginário do Povo Brasileiro, considerado por especia-

Freitas, GTO, Louco, entre outros, Vilma viaja constante-

listas, como o antiquário Paulo Vasconcellos e a arquiteta

mente. A seguir, ela conta um pouco das aventuras ines-

Janete Costa, a coleção particular mais importante do gê-

quecíveis proporcionadas por seu trabalho, seus amores e

nero, no país.

as andanças pelo Brasil afora.

O arquiteto Hugo de Pace me procurou para eu ceder esculturas de madeira e barro para o seu ambiente na última Casa Cor. Foi um grande momento porque ele é um ícone e a arte popular ainda é incompreendida, confundida com artesanato. O Hugo reconhece arte e o que importa, ou seja, a qualidade. Recentemente re-

mãe riência de vida é como A minha grande expe cial. ência afetiva muito espe para expressar, é uma viv

e avó. Não dá

petimos o dueto, pois ele montou outro espaço só com obras do escultor José Bezerra.

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Poética popular Viajo muito para conhecer artistas em situações incomuns, como José Bezerra, um pernambucano que vive no Vale do Catimbau, em Buiqui. Para chegar à sua casa de pau a pique, viajei cinco horas, partindo de Recife. Ele vive numa antiga reserva indígena. Uma maravilha. Também conheci o Veio, um escultor sergipano que expus esse ano na Galeria Estação.

Este ano, fui convidada para participar do júri na Bienal Naïf do Sesc, em Piracicaba, com artistas do Brasil inteiro. Eram 880 trabalhos e nós, os jurados, tivemos de selecionar 120 deles, num contato muito intenso com a arte. Lá encontrei o pintor Neves Torres, de 78 anos, que começou a pintar há cinco anos. Ele é de uma poética e pureza incríveis. Havia muito tempo não me emocionava tanto.

Em 2004 consegui fundar, com outras pessoas, o Instituto do Imaginário do Povo Brasileiro, focado na arte e cultura popular. Sou a primeira presidente e, através do meu trabalho, tenho vivido emoções particulares para quem, como eu, é apaixonado pela arte popular.

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fil antropia inteligente

E

A afirmação de Oscar Wilde pode ser considerada tão relevante quanto controvertida. Mas traz uma importante visão quando falamos de projetos sociais que usam a música para influenciar pessoas

Por Instituto Azzi Fotos Divulgação Instituto Baccarelli e Projeto Guri

xemplos de projetos sociais que buscam sinergia entre a música e a melhoria na qualidade de vida de pessoas em situação de vulnerabilidade social não faltam. Utilizando como ferramenta todos os ritmos, estilos e variantes da música imagináveis, vemos que traz uma linguagem universal comum que permite transmitir mensagens capazes de mudar uma vida. Já é muito difundida a existência de projetos que usam os estilos musicais mais comuns à realidade de quem participa de tais projetos, pois não é de se menosprezar a capacidade de comunicação direta do rap e do hip-hop nas periferias brasileiras ou o poder agregador do samba. Nesta edição apresentaremos alguns projetos, suas nuances e objetivos distintos que utilizam talvez o mais universal dos estilos musicais: a música erudita. Ao pensar em projetos sociais que usam a música erudita para transformar vidas é preciso, primeiro, vencer alguns preconceitos. Há uma imagem geral que música erudita é apenas para ricos ou intelectuais. Pode-se argumentar que, de fato, a música erudita não é para todos, mas não é a classe social, a renda ou o local onde se mora que predefine quem irá ou não gostar. Mas, em seguida, vem uma questão essencial, entendida de diferentes maneiras, como nos exemplos que daremos a seguir: é um projeto com foco no ensino da música que tem uma ação inclusiva social ou é um projeto com foco na inclusão social que utiliza a música como ferramenta? No Brasil temos bons exemplos com diferentes estratégias de atuação. Citamos aqui dois deles: o Instituto Baccarelli e o Projeto Guri, referências no ensino de música erudita acessível a todos que seguem dois caminhos diferentes, em que ambos reforçam o poder de transformação da música,

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“...a Vida imita a Arte muito mais do que a Arte imita a Vida.” seja como meio, seja como fim.

que não teriam recursos para estudar música, se

Buscando entender melhor os caminhos que cada

não fosse o Projeto?

instituição decidiu seguir, fizemos duas perguntas

Edmilson Venturelli, Instituto Bacca-

essenciais a Alessandra Costa, Diretora Executiva

relli: Podemos dizer que o nosso grande desafio é,

do Projeto Guri, e a Edmilson Venturelli, Diretor de

realmente, unir as duas coisas: não ser um projeto palia-

Relações Institucionais do Instituto Baccarelli.

tivo ocupacional e sim profissionalizante. Nossa ideia é oferecer justamente às crianças e jovens de Heliópolis a real oportunidade de profissiona-

melhorar a vida de crianças e adolescentes em

lização de excelência e trazer para esse público uma

situações de vulnerabilidade social ou formar

escola de nível. Já conseguimos estabelecer um fluxo

músicos profissionais da maior qualidade pos-

que caminha na contramão – hoje, musicistas saem

sível, dando chance a todos, inclusive àqueles

de suas casas nas melhores regiões de São Paulo

Instituto Baccarelli

O objetivo deste projeto é utilizar a música para

O Instituto Baccarelli tem por missão oferecer formação musical e artística de excelência, proporcionando desenvolvimento pessoal e criando a oportunidade de profissionalização, com foco em crianças e jovens em situação de vulnerabilidade social. Localizada na comunidade de Heliópolis, Zona Sul de São Paulo, a entidade gerencia diferentes programas, que abrangem desde iniciação em canto coral à Sinfônica

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Heliópolis, conhecido projeto de prática orquestral. Na sede do Instituto são realizados, atualmente, 970 atendimentos com cerca de 550 crianças e jovens a partir de 7 anos. Durante toda a sua carreira, o maestro Silvio Baccarelli alimentou o desejo de ensinar música à população economicamente menos favorecida. Em 1996, ainda sem saber como nem onde colocar seu plano em prática, assistiu pela TV

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a um incêndio na comunidade de Heliópolis. Comovido com a luta das famílias para recuperar suas casas e pertences, o maestro dirigiu-se a uma escola pública da região e sugeriu o ensino de instrumentos de orquestra para crianças e adolescentes. Alguns meses depois, 36 garotos iniciaram o estudo de violino, viola, violoncelo e contrabaixo. O espaço escolhido foi o Auditório Baccarelli, na Vila Mariana, propriedade do maestro.

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fil antropia inteligente

Iniciativa atende 41 mil alunos em São Paulo

para vir até Heliópolis assistir às masterclasses, que só são

com esses jovens.

ensinadas aqui. A ideia é que isso se consolide cada vez mais

Vocês não mais prepararão jovens para o mercado de trabalho,

por meio da construção de um teatro com capacidade para

‘vocês serão o mercado de trabalho’.

650 pessoas, que está em fase de captação de recursos.

Não desistam... não se cansem, por favor. O que vocês fazem

Além disso, a construção desse teatro representa um equipa-

é nobre.

mento que fomenta a sustentabilidade do Instituto.

Um grande abraço do mais novo fã.”

Para finalizar, cabe registrar o depoimento do Dudu Trentin, arAlessandra Costa, Projeto Guri: O objetivo do

emissora. Em agosto de 2010, a Sinfônica Heliópolis participou

Projeto Guri é promover com excelência a educação mu-

do Criança Esperança, e Dudu extravasou:

sical básica e gratuita, garantindo o que em políticas públi-

“Vocês vencerão não mais (e apenas) pela nobreza inquestioná-

cas se chama de “acesso universal”. Ou seja, apesar de

vel do projeto, mas pela competência e nível musical conseguido

não haver um recorte de renda para ingressar no projeto,

Projeto Guri

ranjador da TV Globo para os grandes espetáculos realizados na

O Projeto Guri oferece continuamente cursos de iniciação musical, coral infantil e infanto-juvenil, e instrumentos de corda, madeira, sopro e percussão. Atualmente, o projeto atende cerca de 41 mil alunos em 383 polos distribuídos por

315 municípios do Estado de São Paulo. A Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo deu início às atividades do Projeto Guri em 1995. Em 1997, para colaborar com o desenvolvimento do Projeto, um grupo de voluntários fundou a Sociedade Amigos do Projeto Guri, hoje Associação Amigos do Projeto Guri, e estabeleceu uma parceria entre Estado e iniciativa privada. Esse foi um dos motivos que levou a Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo a propor que a Associação passasse a administrar o Projeto Guri como um todo. Assim, em junho de 2004 a Associação foi qualificada como uma Organização Social de Cultura e, em novembro desse mesmo ano, passou a gerenciar o Projeto Guri.

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81 Vencendo preconceitos, a música erudita é usada pelos projetos sociais para transformar vidas

temos ações efetivas para garantir a equidade no acesso

Alessandra Costa, Projeto Guri: Em pesquisas

– como a escolha dos locais e cidades onde os polos são

que realizamos com alunos, ex-alunos e suas famílias, todas

implantados, ou as parcerias com as prefeituras para forne-

as respostas convergem para o papel de fortalecimento que

cerem transporte aos alunos de baixa renda.

o Projeto Guri tem na vida das crianças e jovens que aten-

Ainda que nosso objetivo não seja profissionalizante, reco-

de. Quando mencionam o impacto que o projeto teve em

nhecemos que muitos dos nossos alunos optam por seguir

suas vidas, os alunos referem-se a aumento na sociabilida-

a carreira musical. Para estes, criamos um novo Programa

de, maior autoconfiança, alegria, determinação, melhora nas

de Bolsas de Estudos, que subvenciona cursos mais apro-

relações familiares. Questões que num primeiro momento

fundados aos ex-alunos contemplados.

parecem subjetivas, mas que são constitutivas da essência do ser humano e suas relações sociais. Resumindo: o Pro-

Qual tem sido o impacto deste projeto na vida das

jeto Guri ajuda a fortalecer as crianças e jovens justamente

crianças que passaram por ele?

na faixa etária mais difícil – aquela em que eles definem que

Edmilson Venturelli, Instituto Baccarelli:

tipo de pessoa serão. Esse impacto sempre aparece com

Construção de autoconhecimento e autoestima, visão con-

mais força do que o aprendizado da música propriamente

fiante do futuro, estabelecimento de um sentido da vida,

dito, mas só é atingido porque trabalhamos com excelência,

construção de um sonho, sentimento de protagonismo, de

usando o ensino coletivo de música. Resumimos tudo isso

pertencimento, de fazer parte.

no conceito de desenvolvimento humano, que aparece com

A música é uma ferramenta efetiva no desenvolvimento

força na reformulação de nossa missão.

dessas potencialidades. Ensinar a conhecer os sons, a ouvi-los e combiná-los, perceber

Como conclusão, deixemos novamente para Oscar Wilde que,

e criar melodias, sentir a harmonia através de técnicas, mas tam-

em seu ensaio, continua: “A Vida imita a Arte muito mais do que

bém pelo som do próprio ouvido, são processos fundamentais na

a Arte imita a Vida. Isto provém não somente do instinto imitativo

formação de uma consciência musical e artística. É um forte instru-

da Vida, mas do fato de que o fim consciente da Vida é achar a

mento de transformação, uma alternativa de vivência que propicia

sua expressão, e a Arte oferece certas formas de beleza para a

o descobrimento de grandeza individual pelo fazer coletivo.

realização dessa energia”.

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Lindenberg & Life Edição 35  

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