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Dionisio Dias Carneiro, um humanista cético. Uma história da formação de jovens economistas


Reitor Pe. Josafá Carlos de Siqueira SJ Vice-Reitor Pe. Francisco Ivern Simó SJ Vice-Reitor para Assuntos Acadêmicos Prof. José Ricardo Bergmann Vice-Reitor para Assuntos Administrativos Prof. Luiz Carlos Scavarda do Carmo Vice-Reitor para Assuntos Comunitários Prof. Augusto Luiz Duarte Lopes Sampaio Vice-Reitor para Assuntos de Desenvolvimento Prof. Sergio Bruni Decanos Prof. Paulo Fernando Carneiro de Andrade (CTCH) Prof. Luiz Roberto A. Cunha (CCS) Prof. Luiz Alencar Reis da Silva Mello (CTC) Prof. Hilton Augusto Koch (CCBM)

O GEN | Grupo Editorial Nacional reúne as editoras Guanabara Koogan, Santos, Roca, AC Farmacêutica, Forense, Método, LTC, E.P.U. e Forense Universitária, que publicam nas áreas científica, técnica e profissional. Essas empresas, respeitadas no mercado editorial, construíram catálogos inigualáveis, com obras que têm sido decisivas na formação acadêmica e no aperfeiçoamento de várias gerações de profissionais e de estudantes de Administração, Direito, Enfermagem, Engenharia, Fisioterapia, Medicina, Odontologia, Educação Física e muitas outras ciências, tendo se tornado sinônimo de seriedade e respeito. Nossa missão é prover o melhor conteúdo científico e distribuí-lo de maneira flexível e conveniente, a preços justos, gerando benefícios e servindo a autores, docentes, livreiros, funcionários, colaboradores e acionistas. Nosso comportamento ético incondicional e nossa responsabilidade social e ambiental são reforçados pela natureza educacional de nossa atividade, sem comprometer o crescimento contínuo e a rentabilidade do grupo.


Dionisio Dias Carneiro, um humanista cético. Uma história da formação de jovens economistas

Organizadores

Luiz Roberto A. Cunha Maria Antonieta Leopoldi Eduardo Raposo


Copyright © 2013 Editora PUC-Rio Rua Marquês de S. Vicente, 225, casa Editora PUC-Rio/Projeto Comunicar 22451-900 Rio de Janeiro, RJ Tels.: 21-3527-1760/1838 edpucrio@puc-rio.br www.puc-rio.br/editorapucrio Conselho editorial Augusto Sampaio, Cesar Romero Jacob, Fernando Sá, José Ricardo Bergmann, Luiz Alencar Reis da Silva Mello, Luiz Roberto A. Cunha, Miguel Pereira e Paulo Fernando Carneiro de Andrade. LTC – Livros Técnicos e Científicos Editora Ltda. Uma editora integrante do GEN | Grupo Editorial Nacional Travessa do Ouvidor, 11 20040-040 Rio de Janeiro, RJ Tels.: 21-3543-0770 / 11-5080-0770 Fax: 21-3543-0896 ltc@grupogen.com.br www.ltceditora.com.br Revisão de originais e de provas: Valeska de Aguirre e Gilberto Scheid Projeto gráfico de capa e miolo: Flávia da Matta Design Foto: EC Rio de Janeiro (RJ) 24/06/2009, “Entrevista com o economista Dionisio Dias Carneiro”/Luiz Morier/Agência O Globo. Os organizadores e a editora empenharam-se para citar adequadamente e dar o devido crédito a todos os detentores dos direitos autorais de qualquer material utilizado neste livro, dispondo-se a possíveis acertos caso, inadvertidamente, a identificação de algum deles tenha sido omitida. Não é responsabilidade da editora nem dos organizadores a ocorrência de eventuais perdas ou danos a pessoas ou bens que tenham origem no uso desta publicação. Reservados todos os direitos. É proibida a duplicação ou reprodução deste volume, no todo ou em parte, sob quaisquer formas ou por quaisquer meios (eletrônico, mecânico, gravação, fotocópia, distribuição na internet ou outros), sem permissão expressa da editora. Dionisio Dias Carneiro, um humanista cético : uma história da formação de jovens economistas / organizadores: Luiz Roberto A. Cunha, Maria Antonieta Leopoldi, Eduardo Raposo – Rio de Janeiro : Ed. PUC-Rio : LTC, 2013. 328 p. : il. ; 24 cm Inclui bibliografia. ISBN (PUC-Rio) 978-85-8006-113-0 ISBN (LTC) 978-85-216-2510-0 1. Carneiro, Dionisio Dias . 2. Economistas - Biografia. I. Cunha, Luiz Roberto. II. Leopoldi, Maria Antonieta. III. Furtado, Eduardo Raposo. CDD: 330.092


Sumário

7

Prefácio Edmar Bacha

11

Apresentação Luiz Roberto A. Cunha

17

Prólogo: Dionisio Dias Carneiro − Mais do que um professor, um mestre, um formador de pessoas

23

Capítulo 1: Antecedentes familiares e Colégio Militar

41

Capítulo 2: A formação acadêmica: a Economia como vocação

71

Capítulo 3: Dionisio, o criador de instituições

105

Capítulo 4: Galanto Consultoria: uma extensão das atividades de ensino e formação dos alunos da PUC-Rio

149

Capítulo 5: A Casa das Garças, a história de uma grande amizade

159

Capítulo 6: A atuação no setor público e no exterior

177

Capítulo 7: Considerações sobre a vida


203

Depoimentos por capítulo

205

Epílogo 1 – Saudades dos alunos e amigos

255

Epílogo 2 – Saudades de um amigo especial. O pensamento da PUC-Rio sobre política de estabilização e a contribuição de Dionisio Dias Carneiro Francisco Lafaiete Lopes

321

Referências bibliográficas

327

Conteúdo do material suplementar


Prefácio

Edmar Bacha Teria sido Dionisio “um humanista cético” como diz o título deste livro? Talvez sim. Mas eu prefiro lembrar-me dele simplesmente como um scholar para ninguém botar defeito. O interesse de Dionisio pela economia nasceu de tertúlias com Ignácio Rangel, economista marxista autodidata, cujas originais análises da “dualidade básica da economia brasileira” fascinou-nos a todos que éramos estudantes de economia nos anos 1960. Dionisio frequentou a Faculdade de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro durante a primeira fase da ditadura militar, em 1964-67. Lá, com um pequeno grupo de amigos, constituiu a capela dos Apóstolos – uma paródia aos Apostles, da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, grupo fechado de elite do qual fez parte John Maynard Keynes. A vocação de Dionisio para a scholarship já se manifesta em seus escritos para o grupo, recuperados neste volume. Veio em seguida, em 1968-69, sua experiência com o mestrado em Economia da Fundação Getulio Vargas, do Rio de Janeiro, nesse período conhecido como “o curso do Mario Henrique [Simonsen]”, responsável pelas aulas de microeconomia, macroeconomia e matemática (em parceria com Augusto Jefferson). Jessé Montello dava os cursos de estatística, mas foi Oscar Portocarreiro, um dos principais estatísticos do país, que ensinou Dionisio, em suas próprias palavras, “a ter coragem para enfrentar problemas difíceis, fazendo-me estudar processos estocásticos anos antes da teoria das opções torná-los parte da receita diária da formação de economistas”.


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A primeira vez que estive com Dionisio foi em 1967, na Fundação Getulio Vargas. Ele estava se preparando para entrar no curso de mestrado. Logo fiquei sabendo que, naquele grupo, dois alunos se sobressaíam – Dionisio e Chico Lopes. Depois do mestrado, Dionisio foi cursar o doutorado na Universidade de Vanderbilt. Em 1972, fui chefiar o Departamento de Economia da Universidade de Brasília. Convidei Dionisio e Chico para criar o que então chamávamos de “Cambridge do Planalto”, uma nova proposta de pós-graduação em Economia no Brasil – reunindo ensino e pesquisa à moda do mundo universitário anglo-saxão, mas com um forte tempero latino-americano. A experiência foi curta, apenas dois anos, mas extremamente rica. Alguns anos depois, no final de 1977, Dionisio e Chico, acompanhados de Rogério Werneck, criaram o mestrado em Economia da PUC-Rio. No final de 1978, juntei-me a eles. Logo, outros a nós se agregaram, para formar um grupo de economistas que não só constituiu um departamento acadêmico de renome internacional, mas também deu o tom da política econômica no país após a redemocratização. A beleza da PUC-Rio é que se tratou de uma obra coletiva, em que não havia um primus inter pares; éramos um grupo coeso de pessoas comprometidas com um projeto acadêmico inovador e com a melhoria da qualidade da política econômica no país. Dionisio, scholar por natureza, era o esteio do Departamento. Ele configurava nosso compromisso com a excelência da pesquisa acadêmica, voltada para os grandes temas da política econômica, e com a formação de profissionais altamente qualificados. Seu legado de professor é testemunhado pelos mais de quarenta depoimentos de ex-alunos neste livro. Em 2003, Dionisio foi a figura central na criação do Instituto de Estudos de Política Econômica, mais conhecido como Casa das Garças, um nome de sua invenção. De um lado, concertou com seus ex-alunos Antonio e Cristina, a cessão para o instituto de parte do belo edifício desenhado por Oscar Niemeyer e ajardinado por Burle Marx, que o casal havia comprado em leilão, a pouca distância do campus da PUC-Rio. De outro, arquitetou, junto comigo, a participação no instituto de um grupo de ex-professores da PUC-Rio, muitos com passagem pelo governo, todos ansiosos por dispor de um fórum para debater os novos temas da política econômica e social após a estabilização. Dionisio também contribuiu para atrair sócios do mundo empresarial, possibilitando o autofinanciamento do instituto.


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Desde então, por sete anos, até seu falecimento em 2010, convivemos quase que diariamente, organizando seminários, grupos de trabalho, textos para discussão e livros, além das atividades dos estudantes de economia associados ao instituto. A dedicação de Dionisio a essa empreitada é ilustrada pelo livro organizado por ele e Monica de Bolle sobre a reforma do sistema financeiro americano e o contexto regulatório brasileiro. É um exemplo do quanto ele contribuiu para a projeção que tem hoje a Casa das Garças como centro de reflexão e debates sobre temas de interesse local, nacional e internacional. Uma longa história de amizade e cumplicidade intelectual. Tantas experiências enriquecedoras de vida de que desfrutamos juntos. Saudades de Dionisio, meu scholar predileto.


Apresentação

Luiz Roberto A. Cunha (escrito originalmente em 23/09/2012, revisado em 27/06/2013)

Este é um livro escrito por muitas mãos, como não poderia deixar de ser, por se tratar de uma homenagem a uma pessoa tão especial e querida como foi Dionisio Dias Carneiro. Além das seis mãos dos organizadores − Maria Antonieta Leopoldi, Eduardo Raposo e eu −, tivemos muitos, mas muitos coautores mesmo. A lista é enorme, começando pelo filho Roberto, pelos irmãos e cunhadas, Henrique e Carmen, Mario e Regina, e Luzia, e seguindo por tantas e tantas pessoas. E continua, ainda, pelos amigos de juventude e pelos amigos e colegas da graduação na UFRJ e da pós-graduação, tanto na EPGE/FGV, quanto na Universidade de Vanderbilt, que nos narraram o início da história da vida pessoal e profissional de Dionisio. Depois, tivemos os relatos dos amigos e colegas das instituições que Dionisio ajudou a criar na UnB, na FGV, na PUCRio e na Casa das Garças, lugares onde ele desenvolveu sua paixão de ensinar e pesquisar. Contamos também com os muitos colaboradores que frequentaram a Galanto, sua “escola de formação de jovens economistas”, onde Dioniso exerceu suas atividades profissionais como um “consultor diferenciado”. Além disso, colhemos depoimentos dos amigos das organizações nas quais Dionisio atuou como consultor. Todos estes, por meio de entrevistas e textos, nos possibilitaram escrever este livro.


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O maior agradecimento é, porém, para os muitos ex-alunos que enviaram textos com recordações de sua convivência com Dionisio. Sem estes, não teria sido possível dar aos que não tiveram o privilégio de ser seu aluno a justa apreciação de como Dionisio desenvolvia sua paixão: formar pessoas, para a profissão de economista e para a vida. Para permitir ao leitor conhecer ou recordar ainda mais o nosso grande amigo e sua obra, estão disponíveis no site da LTC Editora (http://gen-io. grupogen.com.br) um vídeo com o que podemos chamar do ausente-presente no livro em sua homenagem, composto por lições do Dionisio como paraninfo das turmas de economistas da PUC-Rio de 1997.2, em que fala sobre os desafios da profissão, e de 1998.1, quando dá uma aula sobre Schumpeter; participações em programas da GloboNews, que nos permitem vê-lo e ouvi-lo dar verdadeiras aulas sobre a economia brasileira e mundial ao longo das muitas crises dos últimos anos, e uma palestra, sempre muito didática, sobre política monetária e o papel dos bancos centrais, em seminário de comemoração dos 30 anos do Banco Central do Brasil. O vídeo tem como fundo musical uma composição feita em vida para Dionisio por Pedro, seu filho e músico, que o chamava carinhosamente de “Seu Jonas”. Também temos um álbum de fotos e outras lembranças do nosso homenageado. Completam o material suplementar uma seleção de artigos acadêmicos e publicados na imprensa, entre os mais de 300 que Dionisio escreveu, além de capítulos de livros e textos da Carta Econômica Galanto, apresentações em palestras e aulas e muitos outros documentos que nos permitirão guardar para sempre a memória do nosso humanista cético. Este livro foi dividido em capítulos que permitem ao leitor melhor conhecer a vida pessoal e profissional de quem merece, como poucos, ser homenageado por tantos amigos. Os capítulos foram desenvolvidos inicialmente por um dos organizadores, mas têm a participação de todos os três e também dos nossos muitos e muitos coautores. Vamos introduzi-los para ajudar o leitor na travessia deste livro tão pleno de histórias e recordações importantes e interessantes, e que é, também, uma história da formação de jovens economistas no Brasil. Aproveitamos, ainda, para agradecer especificamente àqueles que, em alguns capítulos, foram fundamentais para que nossa história fosse bem contada.


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O prólogo, Dionisio Dias Carneiro – Mais do que um professor, um mestre, um formador de pessoas, começa mostrando quem foram aqueles que influenciaram o Mestre na sua formação, para depois fazer uma relação entre Mestres e Discípulos, tomando como referência Andrea del Verrocchio e Leonardo da Vinci, quando estes conviviam na bottega renascentista de Verrocchio, em Florença. Este prólogo foi desenvolvido por mim, mas devo agradecer ao amigo e colega Marcio Scalercio, que, ao ser coautor de um livro em homenagem ao meu avô Gudin, me sugeriu iniciar este livro fazendo a relação entre três grandes homens, Dionisio, Verrocchio e da Vinci. O Capítulo 1, Antecedentes familiares e Colégio Militar, que conta o começo da vida e apresenta as pessoas que marcaram a formação básica e moldaram o caráter de Dionisio, foi desenvolvido por Maria Antonieta, mas teve uma fundamental e necessária colaboração do filho Roberto, dos irmãos e cunhadas e dos amigos do Colégio Militar, com suas recordações, alegres e tristes, dos tempos passados juntos. O Capítulo 2, A formação acadêmica: a Economia como vocação, mostra como Dionisio iniciou sua vocação pela economia e como começou a acumular conhecimento e amor pela profissão. Este capítulo foi desenvolvido por Eduardo, com a colaboração dos muitos que fizeram esta travessia com Dionisio na Economia da UFRJ, na EPGE/FGV, onde encontrou seu mestre Mario Henrique, e em Vanderbilt, com as lições de seu outro grande mestre, Nicholas Georgescu-Roegen. O Capítulo 3, Dionisio, o criador de instituições, descreve a essência da trajetória de Dionisio por meio de suas obras, e foi inicialmente pensado por Eduardo. No entanto, considerando a importância para sua consecução, não poderia ter sido finalizado sem a participação de outros atores fundamentais na história de um projeto coletivo. Assim, além dos depoimentos, tivemos muitas sugestões ao texto inicial. Nossos coautores neste capítulo foram: (sobre a UnB) os grandes amigos Helga Hoffmann, Edmar Bacha, Chico Lopes e Pedro Malan; (sobre a EPGE/FGV) o amigo Rogerio Werneck, que, junto com Dionisio e Chico, são os responsáveis pelo início desta empreitada fundamental na formação dos economistas no Brasil: o Departamento de Economia da PUC-Rio; (sobre a PUC) Marcelo Abreu e André Lara Resende se juntam a Bacha, Malan, Chico e Rogerio.


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O Capítulo 4, Galanto Consultoria: uma extensão das atividades de ensino e formação dos alunos da PUC-Rio, que mostra como funciona esta consultoria tão particular e que é, sem dúvida, uma extensão das atividades de ensino e formação de jovens economistas da PUC-Rio, foi desenvolvido por mim. E devo agradecer a seus atores principais, Solange Alencar Gomes Scotelaro Magalhães, Thomas Wu, Sylvio Heck, Marcus Valpassos, Monica Baumgarten de Bolle e os muitos e muitos economistas juniores e seniores que por lá passaram e que me ajudaram a contar essa história. O Capítulo 5, A Casa das Garças, a história de uma grande amizade, a última instituição que Dionisio criou e onde, talvez, ele mais tenha se realizado, é de fato a história de uma grande amizade e foi pensado por mim, mas não podia ter sido escrito sem os grandes amigos Cristina Campello e Antonio Bittencourt. O Capítulo 6, A atuação no setor público e no exterior, em que além da passagem pela FINEP, narramos algumas experiências internacionais de Dionisio, especialmente a missão na África, foi realizado por mim, mas contou, na parte internacional, com a inestimável ajuda da grande amiga Helga Hoffmann, enquanto a memória da FINEP ficou dividida entre mim, que tive a oportunidade de ajudar Dionisio e Alfredo Luiz Baumgarten neste período, e Marcelo Abreu, que também foi companheiro de Dionisio na missão na África. O Capítulo 7, Considerações sobre a vida, onde procuramos mostrar um pouco da vida de Dionisio, com seus percalços e prazeres, foi desenvolvido por Maria Antonieta, mas dispôs das observações de Roberto, que merece um agradecimento especial, pois foi ele, em nome da família, quem nos permitiu contar toda a emocionante história deste livro. O Epílogo 1, Saudades dos alunos e amigos, fecha esta homenagem com as palavras daqueles que se beneficiaram das lições do mestre. Este capítulo foi pensado por mim, mas não poderia ter sido escrito sem os textos dos muitos que aprenderam com Dionisio a serem mais do que excelentes economistas, a serem curiosos e críticos, generosos para ouvir e aprender, mas sem perder jamais o rigor intelectual. E, por fim, temos um capítulo particular, o Epílogo 2 que completa esta homenagem, Saudades de um amigo especial. O pensamento da PUC-Rio sobre política de estabilização e a contribuição de Dionisio Dias Carneiro, de autoria


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de Chico Lopes, grande amigo de Dionisio. Eles foram companheiros de uma longa jornada acadêmica, analisando e pensando sobre os problemas do Brasil. A jornada começa na graduação na UFRJ, passa pela pós-graduação no EPGE/ FGV e, após a volta de ambos do exterior, pela tentativa de implantar um novo modelo de pós-graduação em Brasília, na “Cambridge do Planalto”, depois na EPGE/FGV e, finalmente, com sucesso, no Departamento de Economia da PUC-Rio. Chico foi, sem dúvida, o maior parceiro intelectual de Dionisio e homenageia seu amigo com o texto escrito especialmente para este livro. No texto, Chico, talvez o economista que por mais longo tempo pensou e propôs alternativas para a questão de como enfrentar a inércia inflacionária, analisa o problema desde sua origem, ainda no governo Geisel, quando ele e Dionisio assessoraram Simonsen, discute seus desdobramentos por meio dos diversos planos de estabilização, sempre enfatizando a contribuição crítica de Dionisio neste debate. Este livro não poderia ter sido escrito, com tantas horas de gravações, viagens, levantamento de informações e a própria edição, sem os nossos patrocinadores, o Grupo Icatu, Holding e Seguradora, onde os grandes amigos de Dionisio, Vivi Nabuco, Luis Antonio Almeida Braga e Kati Almeida Braga, foram os incentivadores de primeira hora do projeto; o Sindicato Nacional do Cimento, pelo amigo José Otávio Carvalho; e a Companhia Siderúrgica Nacional, na pessoa do seu presidente Benjamin Steinbruch. Temos muitos agradecimentos a fazer. À Editora PUC-Rio, cujo editor, Fernando Sá, desde o início, nos ensinou como se faz um livro, e, especialmente, à dedicação de Felipe Gomberg e Livia Salles. À Alice Reis, que com suas ideias inovadoras desenvolveu conosco o material suplementar, sendo responsável pelo lindo vídeo que vai permitir guardar para sempre o nosso “ausente-presente” homenageado. A todos da LTC, editora do GEN|Grupo Editorial Nacional, em especial Carla Nery e Francisco Bilac, que ajudaram a fazer com que esta obra tivesse forma. À colaboração de Sue Ellen Bispo, na revisão das transcrições das entrevistas e na pesquisa de referências. E, finalmente, à minha equipe administrativa no CCS/PUC-Rio, José Pain, Luciana Goulart e José Adami, que me ajudaram de diversas formas para que o livro fosse realizado e, especialmente, à Luciana Varanda, que na reta final de revisão do livro, uma das tarefas mais árduas que se pode fazer na vida, foi meu braço direito para verificar todos os detalhes de editoração.


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Não posso deixar de expressar minha gratidão aos meus coautores principais, Maria Antonieta Leopoldi e Eduardo Raposo, pois foram eles que, além dos capítulos que desenvolveram, com sua longa experiência em livros de história oral, foram responsáveis pela estrutura básica do livro e por terem me ensinado, e espero ter sido um bom aluno, a organizar e fazer entrevistas. E eu não poderia terminar os agradecimentos sem uma pessoa mais do que especial, Renata Assis. Além de nos ter ajudado com a revisão meticulosa do texto, fez também sugestões em vários capítulos do livro. Renata foi uma das pessoas que ajudou o seu querido Didi a viver melhor. Ter sido parte deste conjunto de pessoas que contribuiu para este livro foi, para mim, uma experiência única, não apenas por ser uma homenagem a quem foi Dionisio para todos nós que o conhecemos, mas porque, desde que, numa reunião na Casa das Garças, ainda no final de 2010, a missão de coordenar o livro me foi confiada, esta prazerosa e emocionante tarefa tem sido uma parte importante da minha vida. Nas longas trocas de mensagens com os economistas coautores do capítulo que trata da PUC-Rio, com o objetivo de aprimorá-lo, não posso deixar de registrar um comentário de Bebel, minha querida esposa, que também foi uma pessoa com quem Dionisio fazia longas conversas, como era seu hábito com aqueles de quem gostava muito. Lendo as mensagens com as muitas, e algumas vezes divergentes, sugestões, ela me escreveu: “No fundo vocês estão querendo encompridar a presença de Dionisio entre vocês, mas o maior problema, o difícil, vai ser quando o livro ficar pronto.” Sábias as suas palavras, vai ficar um grande vazio. Este livro é dedicado a todos aqueles que ajudaram na sua realização e, especialmente, aos filhos queridos, ao Roberto, à Aninha e ao Pedrinho, se permitem que o “tio” Luiz Roberto assim os chame, à Alice, a neta adorada, e à Christina, mãe de Alice, para que possam guardar para sempre a memória deste meu maior amigo.


Prólogo

Dionisio Dias Carneiro − Mais do que um professor, um mestre, um formador de pessoas

Devo quase toda minha formação profissional, e muito de minha formação pessoal, ao professor. Mais do que meu primeiro emprego, ele me deu uma profissão. Sempre disse a ele que eu precisaria de mais do que uma vida para retribuir tudo que ele havia feito por mim, ainda que eu não tivesse ideia nem por onde começar. E o grande problema de se ter uma dívida de gratidão com Dionisio era que você realmente não saberia por onde começar. Dionisio não sabia pedir. E acho que, ainda que soubesse, ele nunca o faria. Não que ele não quisesse nada em troca. Mas a retribuição que ele buscava, encontrava sozinho. Talvez, pessoas como ele sejam feitas dessa forma mesmo. Por serem diferentes, fazem a diferença. Dionisio fez muito mais pelo mundo do que o mundo por ele. Sylvio Heck O DDC não era a pessoa de pensamento mais rápido, ou o acadêmico mais brilhante, nem o economista mais independente ou criativo, nem o mais engraçado, ou ainda a pessoa mais gentil e de temperamento cordial que já conheci; mas não consigo pensar em nenhuma outra pessoa que reunisse todas essas qualidades como DDC. Pela inteligência e conhecimento que tinha, além da sua experiência extremamente rica, é inacreditável quão simples, acessível e especialmente generoso o DDC era com todos à sua volta. Rodrigo Paiva Guimarães


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Em 1997, Dionisio foi homenageado por seus pares no mais importante evento acadêmico do Brasil à época: o convite para proferir a Aula Magna na Reunião Anual da Anpec. Antes de iniciar sua palestra sobre “A sustentabilidade dos déficits externos” (Dias Carneiro, 1997) − um dos textos que ele mais apreciava, não apenas pelo conteúdo de sua análise −, Dionisio fez uma introdução dedicada aos seus mestres Mario Henrique Simonsen, Oscar Portocarreiro e Nicholas Georgescu-Roegen: A segunda parte dessa introdução é dedicada às minhas próprias homenagens aos professores, colegas e alunos que me ensinaram e me têm ensinado ao longo da vida. Mencionarei três professores já falecidos, já que os alunos e colegas estão aí muito vivos: Mario Henrique Simonsen, Oscar Ediwaldo Portocarreiro e Nicholas Georgescu-Roegen. O primeiro me ensinou que a economia, por detrás dos modelos formais, fazia sentido prático e que valia a pena usá-la como instrumento para compreender as alternativas de ação do governo, e os custos dessas alternativas. Oscar Portocarreiro, do alto de seu sorriso santo e sábio, me ensinou a ter coragem para enfrentar problemas difíceis, fazendo-me estudar processos estocásticos anos antes da teoria das opções torná-los parte da receita diária da formação dos economistas. Já Georgescu me ensinou a ser humilde e cauteloso diante da ignorância abissal de nossa profissão no contexto científico e mostrou-me a importância de reconhecer a indigência dos resultados que orientam a ação profissional dos economistas, prestando atenção no desenvolvimento científico que ocorre à nossa volta. Ensinou-me a diferença entre progresso científico e moda científica e, ao mesmo tempo, consolou-me, mostrando que a nossa ignorância só não é pior do que a dos nossos vizinhos de ciências sociais. Perspicazes referências de quem bem aprendeu com seus mestres. Dionisio, nosso humanista cético, mestre por excelência, exímio formador de pessoas, notável criador de instituições, se apresentava também com um sorriso santo e sábio (a marca que herdou de seu querido mestre de estatística), embora temperado por certa dose de ironia. E seguindo os ensinamentos de seu erudito mestre centro-europeu, Dionisio sempre procurou ser humilde e cauteloso nas suas colocações, especialmente no ambiente em que exerceu sua profissão − embora no dia a dia seu temperamento fosse, muitas vezes, mais


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forte. Seu mestre Georgescu, sem dúvida, também lhe aguçou o interesse, que vinha desde a infância na convivência com seus dois pais, pelo conhecimento em todos os campos do saber. Por fim, como veremos ao longo destas memórias, Dionisio encarou a economia, não como uma ciência fechada em si, mas como um instrumento de ação sobre a realidade, como seu mestre Mario Henrique lhe ensinara. Dionisio, criador de instituições, foi, antes de tudo, um formador de pessoas. Um verdadeiro Mestre, cercado por seus discípulos, tal qual numa guilda renascentista, dedicando-se durante muitos anos a ensinar-lhes não apenas o ofício de ser economista, por meio de todos os instrumentos necessários para serem profissionais competentes, como também, na tradição das guildas, formando pessoas para a vida. Pessoas que seriam os seguidores do mestre ao longo de suas trajetórias profissionais. Discípulos que, em muitos casos, se tornavam amigos para sempre, que voltavam à guilda, anos depois, para se manter próximos ao mestre. São muitas as grandes personagens da humanidade que se dedicaram a esta função de formar pessoas. Assim, ao buscar referências para compor esta homenagem ao mestre Dionisio, nos lembramos de duas personagens históricas. A primeira delas, Andrea del Verrocchio, foi um dos maiores mestres do renascentismo florentino, tendo ensinado o ofício a Sandro Botticelli, Perugino, Ghirlandaio e também à nossa segunda personagem. Personagem esta que Eugênio Gudin, outro grande economista a quem Dionisio muito admirava, considerava o mais importante homem da humanidade: Leonardo da Vinci. A vida de Leonardo da Vinci tem uma de suas melhores descrições, especialmente quanto à formação do futuro gênio, na biografia de Serge Bramly (Bramly, 1989). Vale a pena conhecer um pouco da visão deste autor para podermos entender a importância de um grande mestre para um jovem aprendiz, que, um dia, pode tornar-se um gênio. Verrocchio foi este mestre para Leonardo. Nos anos de juventude de Leonardo, Florença, centro de negócios, incluía-se entre as cidades mais empreendedoras, mais prósperas e mais vivas da Itália. Quando se apresentou pela primeira vez à porta do ateliê de Verrocchio, Leonardo contava com muita disposição, uma beleza espetacular, encanto, sem dúvida − mas nada além disso: sua bagagem intelectual e artística não era rica... Suas lacunas


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literárias, que, no fundo, não são mais graves do que as de seus condiscípulos de ateliê, prejudicam, no entanto, menos Leonardo do que a pobreza de sua educação artística. O olhar se aprimora em contato com o que lhe é dado contemplar. O gosto esboça-se, refina-se, graças à contemplação de obras. No Quattrocento, quando ainda não existiam verdadeiros museus nem, bem entendido, a reprodução em série, a arte era uma coisa viva. As pessoas iniciavam-se na pintura, na escultura, na arquitetura, dentro das igrejas e diante delas, na praça pública – na rua. Em torno de 1465, a corporação dos comerciantes para a qual Ser Piero1 trabalhava, da qual ele alugava seu apartamento, encomendou a Verrocchio uma obra em bronze que representasse o Cristo com o incrédulo São Tomé, destinada a ornar um dos nichos da fachada de Or San Michele. Ser Piero, cuja clientela de predileção eram, ao que parece, as confrarias e os conventos, principais comandatários dos artistas, certamente deve ter encontrado pela primeira vez Verrocchio por motivo semelhante. No entanto, é provável que a relação entre eles tenha permanecido antes de tudo de ordem profissional: ela não acarretou, de início, qualquer proveito para Leonardo (...). Verrocchio faz parte de uma clientela de primeira ordem, e não era do gênero boêmio. Era um personagem sério sob todos os aspectos. Tenha ou não sido bem relacionado no mundo da arte, Ser Piero demonstrou, no entanto, uma extraordinária perspicácia, ou foi admiravelmente inspirado, dirigindo seu filho a Verrocchio, em vez de fazê-lo a qualquer outro patrono de ateliê. Nenhum outro mestre teria sido mais adequado (...). Se não proporcionou a seu filho uma educação muito adiantada, na medida das possibilidades intelectuais do adolescente, basta a escolha do mestre para compensar isso: Verrocchio, ele sozinho, constituía uma espécie de universidade politécnica: junto a tal professor, o jovem Leonardo logo superaria os seus atrasos. Não é aconselhável imaginar esse ateliê – no qual Leonardo passaria doze ou treze anos de sua vida (...). O italiano é de uma clareza cristalina nessa questão: é una bottega, uma loja (...). Miniaturas, afrescos da época dão uma ideia dessas bottegas de artistas; um aposento apenas, caiado de branco, que nenhuma vidraça isola do exterior (...). As peças de habitação encontram-se no fundo, ou no primeiro 1 Ser Piero era o irmão mais velho de Leonardo, que, com a morte do pai, havia assumido a função deste.


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andar (...). E várias pessoas, entre as quais os aprendizes, os assistentes – que vivem em geral debaixo do teto do mestre e comem à sua mesa – trabalham lá, ao mesmo tempo, em diferentes tarefas. O ensino que dispensa em sua bottega acompanha semelhantemente os princípios da formação artesanal. Os aprendizes começam por executar as tarefas mais humildes (...). Qualificam-se, ascendem aos poucos para uma melhor condição, assimilando o ofício por imitação, repetindo os gestos dos mais velhos, seguindo suas fórmulas tradicionais (...). Uma vez assimilados os rudimentos do ofício, continuando a observar atentamente o que faziam os mais velhos, o modo como procedia o mestre, o aprendiz participava de maneira crescente de todas as obras empreendidas pela bottega. E, assim, se aperfeiçoava, ajudando (...), depois ele se torna condiscípulo (...), pouco a pouco o mestre confia-lhe a execução dos ornamentos (...). Assim, a produção de um ateliê permite, de certa maneira, definir “o programa de estudos” seguido por aquele que nele se forma. Leonardo permaneceu junto a Verrocchio, na qualidade de colaborador, durante muitos anos. Este processo de evolução do aprendizado se assemelha à formação que jovens economistas faziam na Galanto, consultoria econômica de Dionisio. Muitos começando como economistas juniores, depois passando a seniores, todos sendo instigados por Dionisio a fazerem o mestrado e, muitas vezes, o doutorado. Leonardo nos deixa uma observação importante sobre seu aprendizado: “É medíocre o discípulo que nunca ultrapassa o seu mestre”, declararia ele mais tarde. Não há dúvida de que Leonardo estava longe de ser inferior a Verrocchio; no entanto, naquele momento, ele talvez não tivesse uma clara consciência disso. A autoridade quase paternal de seu mestre deve ter exercido sobre Leonardo uma atração singular, bastante forte, em todo caso, para que ele a ela não se tenha sabido ou querido subtrair antes de muito tempo. Verrocchio, como Leonardo, foi um precursor, no seu tempo, do uso de novas técnicas e da ciência no seu ofício. Segundo Vasari, “ele se dedicou às ciências em sua juventude, particularmente à geometria”. Uma inclinação natural o levava a essa espécie de estudos, e a conduzir, sem duvida, todo o seu ateliê em torno de suas pesquisas (...). Pois o obstinado Verrocchio possuía uma alma de pioneiro, de pesquisador: não se contentava em aplicar, em transmitir as receitas de seus anteces-


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sores, mecanicamente. Experimentava, melhorava, recolocava em questão, queria ir mais longe. Por isso, ele exercia um fascínio sobre seus jovens confrades. E, deste modo, contribuiu para realizar a ambição fundamental de seu tempo: adquirir (racional e cientificamente) a maestria dos meios. Dionisio, como todos os grandes sábios, muitas vezes deslizava do seu papel de mestre e orientador para o papel de aprendiz, retomando as lições de seus antigos professores ou mesmo assistindo às aulas e estudando os materiais produzidos por seus jovens alunos. Dionisio irá, assim, transitar, sem constrangimento de hierarquias, movido pela sua intensa paixão pelo conhecimento, entre os dois polos, se assemelhando muitas vezes ao mestre Verrocchio, outras tantas, ao aprendiz Leonardo, indo e voltando nesta ciranda de papéis. Sua sabedoria era não se manter rígido, mas aberto e pronto à troca de suas personagens, conforme a mudança se fizesse mister. Quando se examinam as preocupações dos artistas do Quattrocento, todas extremamente presentes em Verrocchio, por conseguinte, em Leonardo, quando se considera a inacreditável vontade de progresso que anima esses “artistas-artesãos” – que tudo têm a descobrir, que, em menos de um século, tudo descobrem sozinhos (os princípios da perspectiva, a ciência da anatomia, as leis da luz...), compreende-se em que essa época se distingue das outras, e o que a torna única: é uma idade heroica, cujas obras-primas são, cada uma, uma espécie de troféu, a marca de uma conquista. E a descrição da formação do jovem Leonardo conclui lembrando que o gênio foi herdeiro de Verrocchio, da sua arte, todo o seu saber ali tem sua origem. Leonardo, anos depois, descreve os pontos fundamentais de sua formação. Observar, analisar, deduzir, experimentar (...). “A ciência é o capitão, a prática, o soldado.” Uma bela lição, que poderia muito bem ter sido dada também por Dionisio.



Dionisio Dias Carneiro, um Humanista Cético-Uma História da Formação de Jovens Economistas