Olhos Sangrentos, Evan Klug

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Para Camila, esposa e companheira maravilhosa e para os filhos Nicole, Igor e Liam, não só pelo incentivo, mas também por simplesmente existirem.

E para todo aquele que é o anjo da guarda na vida de alguém.

Com reticência profunda, o garoto vai até a porta. A chave não está lá. Só pode estar com a sombra. Ele treme. Um passo, dois... está perto demais. As mãos do garoto tateiam de leve, buscando um bolso. A respiração ofegante. O homem-sombra se mexe, toca a mão do garoto. Ele quase grita, mas tampa a boca com a outra mão. Seria o seu fim se despertasse o algoz encapuzado.

Nada acontece. Ele inspira e expira, tentando controlar a agitação. Move a mão um pouco mais. Uma pequena argola de metal. Só pode ser a chave. Desliza o objeto para fora do bolso com máxima cautela. Assim que sente a chave na mão, olha para cima e tem a nítida impressão de ter despertado o carcereiro em forma de trevas. Olhos vermelhos parecem fitar-lhe. Um salto para trás, na direção da porta. A sombra permanece imóvel.

O garoto tem certeza de que se for atacado será feito em pedaços. Gira a chave, sem respirar, abre.

A dor! Imediatamente todas as suas juntas parecem estar sendo arrancadas umas das outras. Como se estivesse sendo desmembrado em todas as suas articulações ele cai no chão com os membros esticados. Abre a boca mas se impede de gritar, beija o chão conforme sente a dor. A febre.

Ainda assim não emite mais que um breve gemido. O suor brota e escorre no mesmo segundo. Juntando todas as suas forças, levanta-se e corre. Atravessa a rua e entra pela mata. Gemidos agudos, abafados com as mãos, são a última pista da fuga do garoto. A porta da prisão fora abandonada semiaberta.

No céu, apenas a lua é testemunha de tão suspicaz fuga. Na rua... o silêncio. Na mata, o silêncio. A brisa sopra algumas folhas avermelhadas pela via. Ao longe, quebrando de leve a quietude, os latidos de um cão, denunciam a passagem fantasmagórica de um vento insólito e o cheiro de carniça no ar.

1.

Dois meses vão

passar voando!

ACORDO SOBRESSALTADO. O som do telefone às vezes pode ser irritante, mas no escuro é apenas assustador. Olho, fazendo careta, para o rádio relógio ao lado da cama, marcava cinco e quarenta e quatro da manhã. Quem telefona para alguém numa hora dessas? E quando isso acontece… sempre se espera pelo pior, nunca é uma boa notícia. Mas não desta vez.

Alô!

E foi aquele “alô” que se dá sempre que é acordado muito cedo ou no meio da noite: lento, preguiçoso e de cara fechada. Do outro lado, uma voz um tanto familiar.

Bom dia, Will! Acordei você?

Não, imagina, eu estava combatendo o crime, noite adentro, usando minha fantasia de homem-morcego.

Três segundos se passam em hesitação, com certeza ele não entendeu a piada. Então continuou:

Cara, hoje é seu dia de sorte!

É mesmo? Não brinca respondo, ironicamente, ainda bocejando.

É sério! Adivinha quem bateu o carro ontem e fraturou dois ossos do pulso?

Robert Downey Jr.?

Willian, às vezes é difícil falar com você.

Desculpa cara, é que eu ainda estou meio contrariado de não ir à expedição…

Ele me interrompeu:

Você vai! É o que eu estou tentando dizer, mas você fica com essas piadinhas malhumoradas.

Espera aí! Como assim eu vou? pergunto, quase tendo um troço.

Ontem, depois que o pessoal se despediu lá na redação, alguns foram comemorar a ida para o Canadá no Routz, parece que o Dan tomou uns drinques a mais e bateu o carro.

Putz! Que pena pra ele.

McAlister ainda vai chefiar a expedição, mas agora você também vai.

Greg… não acredito, esta é a melhor notícia dos últimos anos! Bem… pelo menos pra mim.

Então se apresse, o voo de vocês sai às nove horas, mas você tem que estar no aeroporto pelo menos meia hora antes para fazer o check-in.

Estarei lá!

Agradeço meu amigo e supervisor Greg e saio pulando pelo quarto enquanto minha amada esposa Barbara, que devia ter ouvido pelo menos parte da conversa, estava sentada na cama me olhando, naquela cena ridícula que a gente só faz na frente dos mais íntimos. Ela ainda não sabia de tudo, mas com certeza tinha algo a ver com a expedição. Barbara não sabe se ri ou se manda eu me controlar, afinal o dia mal raiou.

Durante quase seis meses planejamos essa expedição ao Canadá, e eu fui um dos idealizadores. Iríamos filmar e documentar o comportamento de animais selvagens, principalmente o animal símbolo do Canadá, o castor. Afinal, quem poderia imaginar que um grupo de castores poderia construir um dique tão imenso que podia ser fotografado até por satélites? Era uma obra de engenharia primorosa. Levou cerca de quarenta anos para ficar pronta, consumindo toneladas em árvores e várias gerações de castores do local. Além destes adoráveis roedores, ainda gostaríamos de registrar um pouco sobre lobos, ursos e carcajus, se possível.

Há mais ou menos dois meses, tudo começou a degringolar para mim. Fui cortado do projeto sob a alegação infundada de que não tinha a experiência necessária para dirigir a expedição e outro monte de bobagens. Eu já havia trabalhado em outros documentários, tinha conhecimento de campo, apenas nunca tinha ultrapassado as fronteiras do meu país, nem dirigido um documentário, e esta era a oportunidade perfeita. Deixar os pequenos documentários para encarar um de porte maior. É claro que castores nunca foram uma paixão, mas vendo o que eles arquitetaram, culminando na maior represa natural do mundo, não podia deixar de ser interessante. Agora… finalmente eu iria. Estava animado, mesmo indo como assistente.

O problema podia ser o líder da equipe, Remo McAlister, um sujeito arrogante, metido a valentão, o típico dono da razão. Mas o pior é que ele tinha, de fato, muita experiência, já tinha dirigido trabalhos de expedição para documentários em toda a América, já tinha feito um trabalho na Austrália, filmando cangurus, coalas, crocodilos enormes, serpentes superpeçonhentas e outros bichinhos estranhos que só existem lá. Por último, tinha feito um bom trabalho sobre ursos e lontras em países europeus. Ainda na Europa, teve alguns problemas de relacionamento com os integrantes europeus da expedição, chegando a trocar socos e pontapés com um alemão que não gostou do seu tom superior. “Problemas de relacionamento” haviam se tornado um termo comum por onde ele passou, mas seu currículo era bom, o credenciava para o trabalho bem mais que o meu. Eu já tinha trabalhado em documentários sobre águias, lobos, ursos e bisões norte-americanos e sonhava em breve poder dirigi-los.

Barbara estava ansiosa pela notícia completa e quando eu contei tudo, ela deu um salto da cama e nos abraçamos pulando, até que caímos no chão aos risos.

Quieto! diz ela, ainda com o sorriso no rosto vai acordar o Jared.

Ok, ok respondo, já procurando as malas.

Eu falei pra você… faça seu trabalho sem se preocupar com os outros e logo você vai ser recompensado. Viu? Foi antes do que você imaginava.

Como assistente?

Está reclamando?

Não, não… você tem razão. Aliás amor, você sempre tem razão. O que seria de mim sem você, nessa minha vida doida?

Olhei para ela e seu semblante alegre estava desvanecendo-se. Eu já sabia o que se passava naquele coraçãozinho, então disse:

Vou sentir saudades também, minha linda.

Ela fez que sim com a cabeça e me fitou firmemente com os olhos já um tanto marejados.

Vamos esperar por você… Jared e eu… contaremos os dias para você voltar.

Eu já devia estar acostumado, mas não é tão simples assim, não para mim. Tínhamos agora quatro anos casados, Barbara era a mulher mais maravilhosa que eu já conhecera, sempre tinha um jeito de me colocar pra cima, mesmo quando eu não estava, digamos… em uma maré de sorte. Além disso, era uma pedagoga apaixonada por crianças. Ela trabalha em uma escola primária, que fica há apenas sete quarteirões de nossa casa. De segunda a sexta-feira leva nosso pequeno Jared junto com ela e o deixa no berçário da mesma escola.

Sempre que pode ela dá uma espiada nele, isto é bem cômodo para nós dois. Tinha sido assim desde que ela voltou ao trabalho há pouco mais de um ano. Neste tempo eu não havia me ausentado de casa mais do que alguns dias. Agora eu ficaria dois meses longe de casa, longe da minha amada Barbara, do meu pequeno Jared, que ainda tem aquele cheirinho de bebê. Ah, como eu vou sentir falta disso… mas também… olhando por outro lado, não é tanto tempo assim, mesmo que a saudade aperte, eu sei que retornarei para casa.

Dois meses vão passar voando! Quando vocês menos esperarem eu estarei abraçando e beijando vocês, aqui em casa, de novo.

Barbara ri.

Vamos arrumar suas coisas logo diz ela. Ou quer perder esse bendito avião?

De jeito nenhum.

Nem acabo de falar e o estrondo forte de uma trovoada traz o prenúncio de problemas. Aos poucos, o som de pingos de chuva é ouvido no telhado e em poucos segundos transforma-se em um contínuo e ininterrupto chiado. A chuva, até então não esperada, parece ganhar força muito rapidamente.

Droga!

Calma amor, tudo bem, logo passa, não vamos perder tempo.

Ok, você está certa!

Nunca tive uma manhã tão corrida, nem mesmo indo para outras expedições, pois tudo sempre foi planejado com muita antecedência, o que não era o caso desta vez. Um dia você se sente traído, fora do projeto e quando menos espera, você está na ativa novamente O trabalho de ajudar internamente, na edição do material pode ser legal, mas somente se você não conhece a adrenalina do trabalho de campo. A batida do coração acelerada ao ficar próximo de um animal selvagem, observando, filmando, anotando e tudo o mais. Sentindo o vento no rosto, a chuva, a neve, o calor, não importa, aquele era um mundo fascinante, eu sempre soube que faria isso desde que assisti pela primeira vez o National Geographic, ainda na infância, eu devia ter uns seis anos de idade.

Assim que arrumamos minhas coisas, Barbara, Jared e eu saímos de nossa casa em direção ao aeroporto, a chuva ainda é constante, o céu está escuro. As ruas já dão sinal de que logo podem ficar alagadas. Barbara dirige enquanto eu a olho. Em seguida me viro para o banco de trás onde Jared está na segurança da cadeirinha, sonolento, com a cabecinha querendo cair para o lado. Entramos em uma curva, a inércia quase o desperta, ele abriu os olhinhos, ajeita a cabeça novamente e adormece. Fazia tempo que eu não dava tanta importância para momentos como aquele. Um leve aperto no coração por deixá-los, a tensão

causada pelo mau tempo e confesso… um pouco de ansiedade. Por um momento estamos em silêncio no carro, paramos no semáforo. Fito minha linda Barbara, seus cabelos loiros, lisos até os ombros e com algumas ondulações dali até o meio das costas. Seus olhos verdes eram há anos, meu refúgio, meu conforto, olhos que Jared herdou. Eu tinha certa inveja daqueles dois com seus belos olhos verdes. O sinal abre e continuamos o caminho.

O que foi? pergunta ela, percebendo meu olhar.

Nada não respondo calmamente, sem tirar os olhos dela.

Ela continua dirigindo, trocamos algumas poucas palavras no trajeto, mas em minha mente se passam muitas coisas, tenho certeza de que na dela também, mas, falamos pouco naquele momento. Esta é uma daquelas ocasiões em que as palavras vêm até a ponta da língua, mas por fim não saem. Talvez o silêncio, agora, realmente seja o melhor. Diria o quanto a amo e o quanto ela e Jared são importantes pra mim quando nos despedíssemos no aeroporto.

Espero que a chuva dê uma trégua a qualquer momento. Próximo ao aeroporto o trânsito está um tanto conturbado e começo a me preocupar, mas não leva muito tempo e já estamos no estacionamento. Descemos do carro segurando o guarda-chuvas e Barbara me ajuda com minhas três malas, quando vê que estava tudo sob controle comigo e as malas, apanha nosso bebê no banco de trás do carro, com muito cuidado, tanto que ele não acorda de imediato, só depois que estamos já a caminho do saguão. Então ele desperta lentamente, e vendo que está em um lugar desconhecido, olha atentamente em todas as direções, levantando a cabeça, para enxergar tudo que seus olhinhos podem alcançar. Parece insatisfeito, o vento traz minúsculas gotas de chuva em seu rostinho rosado, sua feição está fechada, mas assim que me vê logo atrás deles, sorri e, com os dedinhos, começa a brincar com uma mecha dos cabelos da mãe.

Cadê o bebezão do papai?

Ele esconde-se atrás de uma mecha de cabelo da mãe.

Achei você!

Ele ri.

Que chuva chata hein, filhote?

Chegamos ao saguão do aeroporto, com 35 minutos de antecedência para o voo, o que nos dá um bom tempo para realizar o check-in. Lá dentro, tudo parece conturbado, algumas pessoas zangadas passam bem ao nosso lado falando alguns palavrões enquanto tantos outros mostram sinais de insatisfação, irritação e frustração. Logo encontramos o pessoal da

expedição, algumas esposas, crianças se despedindo, pose para fotos, risos, alguns olhos chorosos, tudo como manda o figurino para uma partida.

Cumprimentamos o pessoal e logo pergunto:

O que está acontecendo?

Parece que todos os voos foram suspensos.

Era isso que eu temia falo para Barbara desde aquela primeira trovoada.

Vou ver se consigo alguma informação com a companhia aérea diz Greg já saindo.

Pois é meu povo, o negócio é esperar comenta Susie, nossa bióloga.

Bem, estamos todos aqui, não é mesmo? fala o grandalhão Remo McAlister Eu sou o Doutor McAlister, jornalista especializado em documentários… chefiarei essa expedição.

Ele disse doutor? cochicha Barbara.

Sim, doutor beija-minha-bunda-doutorado-em-nada respondo em voz baixa, zombando da tentativa de nosso líder de expedição em impressionar nossos familiares.

Barbara tenta engolir o riso enquanto Susie que está bem próxima a nós, faz o mesmo brincando com Jared. McAlister encara Susie e continua:

Susie, nossa… bióloga.

Presente! Ela responde levantando a mão.

Espero que esteja lidando com profissionais aqui, senhora bióloga.

Pode ter certeza... doutor.

Após dois demorados segundos encarando-a, McAlister prossegue:

Matt e Diego, vocês são responsáveis por todo o equipamento, montagem… além de auxiliarem nas filmagens, fotos, pá pá pá… acho que tem mais alguém… ah sim, nosso auxiliar… Willian, deve ser você apontando para mim.

Quem sabe? respondo quase cinicamente.

Levo uma cotovelada nas costelas vinda de minha esposa, que a essa altura já está cochichando alguma coisa com Susie, que tem Jared no colo e faz algumas caretas para ele.

Como assim “deve ser você”? pergunta-me Barbara em voz baixa. Vocês não trabalham juntos?

Há um metro e meio um do outro nas últimas duas semanas.

Parece que o clima não começou dos melhores diz Barbara próximo ao meu ouvido.

Claro, olha esse temporal.

Não estou falando da chuva, engraçadinho.

Então McAlister finaliza:

Ainda temos na equipe o Doutor Charles Swenson, médico, que deve encontrar-se conosco em Ontario. E… ah sim, há também mais uma equipe de quatro pessoas que devem seguir para lá em dois dias, nos auxiliando com tudo, mas até lá é por nossa conta.

Greg retorna ofegante, gesticulando com os braços:

Sem previsão gente, sem previsão! Dificilmente irá decolar alguma coisa daqui hoje.

O jeito é irmos de carro. Fala McAlister são apenas algumas horas. Eu não vou ficar plantado aqui.

Nisso ele tem razão diz Susie também não quero ficar acampada aqui não.

Greg, passa as chaves da caminhonete da empresa pra cá. Vamos recolocar os equipamentos nela. ordena o corpulento líder da expedição.

Mas essa camionete está sob os meus cuidados. Greg reluta em aceitar a ideia.

Pegue um taxi pra voltar para casa porque nós precisamos dela mais do que você… chaves e documentos, por favor.

Ok, você deve ter razão, se preferem assim… Greg acaba por concordar.

Vamos nessa então!

E assim McAlister finaliza seu show.

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