O alfaiate da Dr. Muricy, Evan Klug

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Plágio é crime.

PRÓLOGO

ELA TINHA A arma em mãos. Tão pitoresca quanto misteriosa, esgueirava-se na escuridão. Precisava vê-lo chegar. Precisava fazer o que tinha que fazer. Esta ideia não lhe deixava nem por um minuto. Há dias, não dormia Obcecada. Tinha que fazer!

Esperou, era o que podia fazer, no momento. Esperou.

A madrugada repousava suavemente, mas envolvia uma atmosfera gélida e nada acolhedora. O céu estava adornado por um manto estrelado, tal qual por diamantes presos a um manto celestial. Nem toda noite era assim; céu limpo é coisa rara por aqui. O vento cortante vinha da rua XV. Ela tinha certeza de que ele se originava na Boca Maldita, por isso vinha com tanta força, arrastando folhas das árvores e criando uma sinfonia uivante. Nada fora do normal para a cidade a esta hora da noite, mas naquela específica ocasião, tudo parecia fantasmagórico.

O centro da cidade adormecia em um sono irrequieto. Os ruídos do dia foram dissipados, substituídos por outros, menos barulhentos, mais perversos. Talvez tudo estivesse apenas na mente dela, talvez não.

A luz suave da lua batia nos arredores, lançando uma tonalidade prateada sobre tudo o que tocava. As luzes amareladas, fracas, vindas do calçadão vinham até perto, mas ali onde estava, era um ótimo esconderijo, banhado apenas pelas sombras. Era como um jogo de contrastes entre luz e escuridão. Dois lados de uma mesma noite. Era como se a noite convidasse à contemplação, permitindo uma falsa sensação de segurança à um transeunte desavisado, ficando alheio aos seres endiabrados que poderiam espreitar-se nas sombras.

As luvas vermelhas.

A tensão no ar. Era como se ela fosse envolvida por um abraço sufocante. O coração batia retumbante, frenético ecoando em seus ouvidos como um tambor, enquanto a respiração se tornava curta e rápida, incapaz de encontrar um ritmo estável.

A arma nas mãos.

Cada som mínimo era amplificado. Os sentidos aguçados captavam cada ruído, cada sombreamento de luz, alimentando a ansiedade pelo que havia de fazer. O tempo parecia se arrastar, esticando cada segundo em uma eternidade angustiante.

A mente estava em turbulência, raciocinando em alta velocidade, tentando antecipar os próximos passos, os possíveis desfechos. Não! Havia apenas um único desfecho! Precisava fazer! Uma mistura de medo e excitação pulsava nas veias, mantendo-a em um estado de alerta constante. Era um momento de tensão palpável, onde a adrenalina corria livremente, preparando-a para o confronto iminente.

Retocou o batom vermelho. Vermelho como sangue. Este detalhe era importante.

A arma nas mãos.

Ouviu os passos. Uma conversa abafada. Era ele! Mas não estava sozinho. Viu-o parar diante da porta acompanhado por uma mulher. Ouviu o farfalhar das chaves sendo apanhadas no bolso do alfaiate. Hesitou por um instante. Não podia... não podia fazer isso, seria o maior tipo de traição que alguém poderia cometer. Trairagem da pior espécie. Era assassinato! Ele nunca iria perdoar-lhe, nem aqui e nem no além.

A mente tornou-se uma tempestade de pensamentos desordenados. O silêncio na escuridão foi quebrado apenas pela respiração cada vez mais ofegante. De repente, a tempestade deu lugar a calmaria. Tinha de ser feito! Um passo na direção da luz prateada. O som do salto na calçada foi ouvido do outro lado da rua.

O alfaiate se virou.

A assassina, saindo parcialmente das trevas, revelou-se.

As luvas vermelhas.

O vestido vermelho.

O batom vermelho como sangue.

A arma nas mãos.

Chamou-o pelo apelido duas vezes, uma voz aguda.

Quem é você? inquiriu ele.

Silêncio.

Quem é você?

O som do tiro.

O corpo caído.

O sangue, vermelho como o batom da assassina.

A moça tapou os ouvidos por instinto e viu o alfaiate caído ao seu lado. Atirou-se no chão, apavorada. Do outro lado da rua, ela viu aquela boca carmim soprar a fumaça no cano do revólver com satisfação. Imaginou que agora seria sua vez, fechou os olhos.

Nada.

Quando os abriu não havia ninguém. Sumira como um fantasma. Teria sido um pesadelo? Não. Seu protetor ainda jazia ao seu lado com o peito empapado pelo próprio sangue.

O MIÚDO BICHANO ronrona aconchegado no colo de Mariana. Lambendo uma das patas, ele demonstra toda a serenidade e o vínculo que adquirira em tão pouco tempo com a moça. O minúsculo gatinho, cor da noite, ganha afagos na cabeça diminuta, enquanto a jovem fala ao celular.

Você vem aqui hoje, amor? Acho que nós poderíamos sair para jantar. A Carla vem aqui, daqui a pouco, para a gente continuar ajeitando as coisas na boutique. É tanta coisa para fazer..., mas, depois a gente podia sair.

O filhote pode ouvir o ruído de uma voz masculina do outro lado da linha mesmo com o som da TV ligada. Impassível, ele ainda lambe as patas.

Está bem, mas amanhã você pode vir, não é mesmo? Nós podemos ir naquele restaurante novo que abriu em Santa Felicidade ou podemos comer alguma coisa aqui pelo Centro mesmo.

Novamente, a voz do outro lado da linha pode ser ouvida pelo bichano. Ele parece dar pouca importância para a conversa de Mariana com quem quer seja do outro lado da linha.

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Isso mesmo, frango com polenta. Qual é o problema? A moça responde ao telefone. Mas se você preferir outra coisa, é só dizer. Estou aberta a sugestões. Vamos fazer assim... você vem aqui amanhã, no fim da tarde, e me leva onde quiser. Pode ser até no Bar do Padre. Não tem problema. Está bom assim? Está bem então. Te espero amanhã. Estou com saudades. Até amanhã! Beijo!

Mariana desliga o celular, colocando-o por sobre a mesa junto das pilhas de roupas a serem guardadas.

É hora de você ir para a caixinha, meu querido, eu ainda tenho muita coisa para fazer.

O gatinho a olha como se entendesse cada palavra.

Uma garota, de seus vinte e tantos, abre a porta de metal sanfonado, fazendo um barulho alto. O perfume do creme de pentear aplicado sobre os cachos da morena rescende no ambiente.

Pensei que você não vinha mais, Carla. A voz de Mariana ecoa em meio a penumbra.

Calma, sócia. Precisei passar em casa para pegar umas coisas. Ela responde, enquanto fecha novamente a porta pesada de metal.

Estou vendo, veio até de banho tomado.

Estava precisando, passei a manhã inteira com você aqui. Tinha poeira até por dentro dos olhos. responde Carla com um sorriso amigável.

Está bem, você está certa. Eu é que estou um pouco chateada. Falei com o Jorge agora para a gente se encontrar e parece que ele sempre está arranjando uma desculpa.

Também... toda vez que ele aparece, você arranja serviço para o coitado. Semana passada foram as prateleiras... e na anterior, ele ajudou a gente a pintar.

Você tem razão. Aliás, sempre tem. Deve ser coisa da minha cabeça. Quando estamos juntos, estamos trabalhando nessa reforma. Precisamos tirar um tempo só para nós, mas vai ficar mais tranquilo depois da inauguração.

Mas... o que ele disse? Não vai te ver nunca mais? Caçoa a amiga com uma gargalhada.

Não responde Mariana sorrindo , claro que não. Ele ficou de vir aqui amanhã.

Está vendo? Você está reclamando de barriga cheia. Queria eu ter um namorado como o Jorge.

Um miado manhoso surge por debaixo das araras vazias.

Você vai ficar mesmo com esse saquinho de pulgas? pergunta Carla, olhando para o gato. Gato preto dá azar, já dizia minha avó.

Bobagem. Ele é uma fofura, tão bonzinho.

Você disse que ele estava na porta hoje cedo?

É. Sozinho. Quando cheguei, ele estava na frente da porta, sentadinho, como se estivesse me esperando. Não queria ficar com ele, não vou ter muito tempo para cuidá-lo, mas não tive coragem de tocar ele daqui.

Se continuar alimentando tudo que é bicho vadio que aparecer, logo isso aqui vai estar infestado de gatos, tudo cheio de pelos, clientes espirrando e te chamando de “a louca dos gatos”.

Imagina. Mariana ri, olhando para os dois pequenos faróis que se entrelaçam pelos seus tornozelos. Não sei se anuncio ele para adoção... ou fico com ele. Talvez... talvez eu fique com ele.

Está bem, você é quem sabe. Mas se vai ficar com ele, precisa dar um nome.

É verdade. Como é que vamos chamar você, gatinho?

Carvão diz a amiga, rindo.

Que maldade! Mariana pega o pequeno no colo e o ergue na altura dos olhos. Poço te chamar de Jack. O que você acha?

O estripador? Zomba Carla com um meio sorriso.

Não. O do Titanic.

Perfeito. Assim quando ele sumir, você pode sair por aí gritando: “Come back, Jack, come back!”

Engraçadona, você! Mariana faz uma careta para a amiga.

O som da vinheta na TV mostra que está começando o programa costumeiro para o horário.

Quem sabe... Chaves? O que você acha? Você quer ser o gatinho Chaves? pergunta Mariana, olhando nos olhos do bichaninho.

Magro do jeito que está, poderia ser o Seu Madruga. É a voz de Carla que agora está em cima de uma escada, guardando algumas peças de jeans na prateleira.

Sua madrinha comeu “Palhacitos” hoje. Está toda engraçadinha!

Mariana olha para a TV, como se buscasse inspiração.

Que tal... Kiko?

Imediatamente o diminuto felino solta um miado alto.

Carla para o que está fazendo para olhar.

Acho que ele gostou de Kiko. diz Mariana, olhando para Carla em cima da escada de alumínio. Você gostou, não gostou, meu gatinho fofo?

O gato volta a ronronar e se aconchega, colocando a cabeça por sobre o ombro esquerdo da moça.

Vai ser Kiko, então.

Chame-o do que quiser, mas não vou ser madrinha de saco de pulgas nenhum! diz a morena de cima da escada.

Vamos Tesouro, não se misture com essa gentalha! diz Mariana, zombando da amiga e se utilizando de um famoso jargão do programa que passa na TV.

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