Draconiano - Livro I - A maldição adormecida, Vagner Araújo

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Diagramação

Marianna Roman Capa Thainá de Paula

A663d Vagner Leite de Araújo

Draconiano: A maldição adormecida / Vagner Leite de Araújo . 1 ed. - - Rio de Janeiro, RJ

Esta é uma obra de ficção

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Todos os direitos desta edição reservados ao autor da obra e editora

1. Ficção e contos brasileiros 2. Literatura brasileira

ISBN 978 85 53010 18 9

Índice para catálogo sistemático:

1. Ficção e contos brasileiros – Brasil CDD B869.3

2. Literatura brasileira CDD B869

Aos meus grandes e interessados amigos protoleitores, pelo feedback.

Aos meus queridos apoiadores, entre amigos e familiares, pela maior vaquinha da história.

E, finalmente, aos meus fones de ouvido, por me convidarem a imaginar.

Em silêncio, eles observam

EM UM QUARTO minúsculo, um garoto dorme profundamente e, junto ao seu leito, há algo acontecendo, algo que ninguém mais pode ver. Tornando o cômodo menor com suas estaturas, três figuras permanecem de pé, nenhuma palavra é proferida e o jovem dorme como se a presença das enormes figuras não fosse notada.

O rapaz se afogava em um sono difícil e conturbado, que muito exigia para ser mantido. Das forças que agiam dentro dos sonhos e temores do jovem, uma era boa e outra era má, uma equilibrava e sustentava a presença da outra.

A primeira não era capaz de existir isolada da segunda, já a terceira figura ali presente, era um pouco mais difícil de se definir.

O sono daquela alma perturbada exigia grande esforço, era ruidoso no início e cruel no final, sempre acordava pior do que quando se deitara, pois tinha pesadelos aterradores desde quando se lembrava.

Eles quebraram o silêncio e discutiram em alta voz sobre o que viria a partir daquela madrugada, mas o rapaz não acordou, pois os que estavam ali se encontravam apenas em espírito, e não em matéria. Não havia som para se ouvir, e nem nada para se ver.

Luzes, Trevas e o Destino, de pé, ao lado do leito desarrumado e gelado, eram seres altos e encapuzados, três forças invisíveis que atuavam através das criaturas que habitavam nos incontáveis mundos e universos que faziam parte da equação da existência.

Luz, Lamakar, era um ser ofuscante de brilho de bondade, formava a sua aliança com os seres bondosos, nobres e humildes de coração. Ao seu lado, deveria estar o guardião e criador daquele universo, chamado de Deus pelos homens e de Iah’Veh por seus primogênitos, dentre vários outros nomes que antecedem um ato bom.

Foi originado de conflitos cósmicos desgovernados entre criaturas esquecidas há milênios incontáveis, seres que se digladiavam sem razão na sua eternidade, sem objetivo em sua magnitude e sem misericórdia em sua soberba.

Eles eram chamados. Os que vieram antes regiam absolutos naquele universo formado de trevas e de mais nada, até que, durante suas batalhas insensatas, como se fosse por sorte, algo improvável aconteceu.

Uma grande explosão que acuou as trevas imensuráveis e expandiu a própria parede daquele universo sem nome. As sombras lisas e sólidas se tornaram camadas, tecidos e dimensões de um multiverso que se conectou a todos os outros. Galáxias inteiras brotaram no meio do vazio.

Saindo da poeira dos átomos que abaixava gradativamente, surgiu aquele que veio depois, o Criador do Universo conhecido pelos homens.

Seus “pais”, incrédulos com o que acidentalmente realizaram, prontificaram-se em reclamar Iah’Veh como seu escravo, usando sua confusão e inocência ao seu favor.

PRÓLOGO.

Os seres mestres fizeram sua criação modelar seres imperfeitos e um mundo confuso e desestabilizado. Os seres se divertiam com os resultados de suas receitas, exploravam aquele fenômeno aleatório que testemunhavam, a vida...

Mas, quando os mestres se viram cansados dos bonecos de barro, eles mandaram Iah’Veh destruílos junto com todas as camadas daquele Universo para que, mais tarde, ele criasse outro e mais outro.

O ser divino, já ciente da razão de sua existência e da razão da existência de suas criações, rebelouse para salvar suas criações inocentes, rebelou-se na busca de um propósito mais significativo do que as condições de sua criação.

Revelando-se um ser ainda mais poderoso quando livre da escravidão, no início, ele se viu tentado a acabar com a existência, sua e de seus criadores, retomando aquele gigantesco mar de vácuo e vida em coexistência de volta ao vazio cósmico de onde tudo se originou.

Porém, ele padeceu de seus filhos, e, mesmo portando o poder de destruir toda a Criação conectada à sua centelha, e derrotar para sempre os seus perversos criadores, ele escolheu um caminho diferente...

Sentindo compaixão forte e uma imensa vontade de consertar os seus involuntários, porém grandes e imensuráveis erros, ele derrubou “os que vieram antes”.

Num conflito de um filho contra vários pais, o universo foi completamente remodelado pela contenda, e os sons da batalha podiam ser escutados em ecos trovejantes por todas as dimensões que formavam fronteiras com aquela.

Esse período foi chamado de Guerra da Origem, terminando com Deus vitorioso e os antigos titânicos caídos em um grande e profundo sono.

Ele expulsou os que puderam ser transportados para longe, em dimensões vazias nas quais nunca poderiam reencontrar o caminho para aquele universo.

Porém, outros eram fortes demais para serem levados tão facilmente, e, mesmo que fossem poucos, não seriam misericordiosos para com os pequenos terrenos.

Temendo a vingança implacável dos remanescentes, sem ter outra escolha momentânea, ele os comprimiu e os prendeu em cantos obscuros para que dormissem eternamente, separados dos homens.

Mas o sono deveria ser mantido a todo instante. Iah’Veh não pôde dar assistência total aos seus auxiliares e criações. Ele se manteve em exílio secreto, recluso e escondido nas montanhas rochosas do Purgatório, uma das camadas mais distantes e vastas da sua criação.

Lá, ele meditava, protegendo seus filhos de longe e mantendo o sono dos gigantes anciãos, deixando o trono do paraíso desocupado, e assim se manteve lá, sem ninguém que saiba, sem ninguém que lembre, ninguém além da pobre divindade...

Trevas, Malakar, com o seu rosto pálido e majestoso coberto por um capuz negro que emitia uma sólida cortina de sombras, era diferente de seu oposto, agia sobre os malignos e escravos da crueldade. Seu aliado naquele mundo era Lúcifer, o anjo caído da luz, e um dos filhos alados mais queridos de Iah’Veh.

Os anjos foram criados por Iah’Veh quando este era ainda escravo dos que vieram antes, criaturas dotadas de incríveis poderes e grande longevidade, não havia nada conhecido naquela dimensão que poderia matar um ser como aquele.

Foram criados anjos para manejar a natureza das coisas, formando montanhas, rios e mares, também vulcões e paredes de gelo, dentre outras coisas magníficas.

Havia também anjos guerreiros para proteger os frágeis, curandeiros para auxiliar os enfermos, outros podiam fazer o pensamento agir sobre a matéria e também descobrir segredos, entre outras várias habilidades incríveis daquelas criaturas únicas.

Sem saber da existência dos mestres de seu mestre, vários anjos entre Lúcifer não conseguiram entender a devoção de seu mestre para com os pequenos e tão menos dignos bonecos de barro. Confundiam seu amor com medo de algo.

Foram criados com o conhecimento do bem e do mal, mas eram tão sucintos ao arbítrio quanto os homens. Alguns haviam perdido amigos em defesa do universo dos mortais, outros se sentiam simplesmente desvalorizados.

Uma casa desunida é uma casa em guerra...

Os anjos que caíram se tornaram os demônios. Poucos permaneceram em relação ao vasto clã que antes formavam, mas novos celestiais continuaram a nascer independentes da presença do Pai.

Da grande esfera angelical, In Dareveh, também chamada de Ventre dos Anjos, de era em era, um número variado e nunca muito grande de novos seres angelicais era gerado. Ofanins, querubins e, muito raramente, um arcanjo...

Lúcifer também não estava ao lado de Trevas, porque, nos abismos escuros e gelados do Inferno, ele deveria permanecer, até que o Apocalipse que encerrava a era dos homens chegasse e o embate final se iniciasse.

É isto o que é dito e profetizado por eras, mas o que se seguiria no calar daquela madrugada seria a prova de que o futuro muda. Ele muda assim que se olha para ele.

Luz ao lado de Trevas.

Eram dois opostos, dois rivais. Apesar disso, a relação entre aquelas entidades não era de inimizade. Eles apenas nutriam uma forte concorrência.

Foram alguns dos primeiros a chegar, porém eles não foram criados por ninguém. Durante todo o início da existência, quando as dimensões foram materializadas pelo Aleatório, as condições foram favoráveis, e então, eles simplesmente se manifestaram.

Sem propósito, sem mestre e sem rumo, eles vagaram pelas dimensões e descobriram o que eram, o que representavam, descobriram que eram duas partes importantes da própria base da vida e do existir.

Descobriram isso quando testemunharam pela primeira vez a ação das criaturas vivas, e viram o quanto agiam sobre a influência da energia que eles involuntariamente emanavam.

Por último, de pé entre os dois, estava Destino, inexpressivo e solidamente invariável, não era iluminado pelo brilho de Luz e nem era coberto pelas sombras de Trevas. Era como um escudo, um muro entre os dois, não se deixando levar por nenhum dos lados.

Destino foi criado junto com o seu irmão, Tempo, o qual não lhe cabia comparecer até aquele cenário. Era implacável e imparável, assim como o seu irmão.

Não era nem a força das coisas boas nem das coisas ruins. Era meramente o representante do que deveria acontecer na linha temporal de seu irmão, o guardião das chaves que desencadeavam as sinas de toda criatura viva ou morta.

Ao final de sua discussão, uma de várias que vinha tendo pelos infinitos universos, dentre as discussões sobre os destinos do bem e do mal, os dois rivais sempre tiveram, e nunca perderiam, a eterna compulsão de perguntar ao Destino o que aconteceria.

A entidade riu ao ouvir a mesma piada que ouvia por milênios incontáveis. Sem olhar para os dois, ele disse:

Não cabe a vocês saber o que acontecerá, nem mesmo eu sei o futuro respondeu e continuou: Tudo o que eu sei é o que deve acontecer agora. O que isso desencadeia, nós veremos ao vivo. Foi a vez de Trevas e Luz rirem, ao ouvirem a mesma resposta.

Este mundo é diferente de vários outros proclamou Malakar, expelindo fumaça negra e gelada do capuz.

Por que diz isso, meu irmão? Destino acompanhou o olhar de Lamakar, que mirava seu irmão.

Ninguém aqui neste quarto tem o conhecimento do futuro começou , mas, se eu fosse o tipo que faz apostas... eu apostaria em mim disse, sorrindo para os dois, que sorriram de volta.

Terminado a conversa, eles voltaram sua atenção ao rapaz que dormia. Juntaram suas mãos e a levaram na direção de um objeto preso ao seu pescoço. Murmuravam palavras em uma língua que já havia passado do estágio de esquecida.

Juntos, eles removeram o objeto da posse do jovem adormecido. O garoto ainda dormia, sem sequer ter sentido o furto daquelas três presenças que eram tão fantásticas quanto discretas.

Depois de removido, Trevas e Destino largaram o amuleto, que permaneceu na posse de Luz. A entidade o apertou contra sua mão e o fez sumir enquanto pronunciava palavras antigas.

Como o futuro de tamanho universo pode descansar em algo tão banal quanto este calejado rapaz? perguntou-se Luz.

Acha ele calejado agora? Depois de sua pergunta retórica, Malakar, que era quase tão alto quanto o teto, abaixou-se, deixando sua face encapuzada próxima do menino que virava o rosto de um lado para o outro durante os pesadelos.

Murmurou outra vez sua linguagem morta e soprou sombras de dentro do capuz que cobria todo o seu rosto misterioso, as sombras entraram pelos ouvidos e narinas do jovem e algo maligno dentro de sua alma começava a se despertar gradativamente.

Terminamos por aqui. As nossas ações causarão reações, e assim será, até o fim desta era. Os três se olharam e concordaram. Que os seus aliados sejam úteis em suas causas. Agora, vamos continuar em frente? Eles concordaram e se foram, dando início às reações daquele universo.

Deixaram o jovem deitado em sua cama, sem poder abrir seus olhos, sem poder acordar, pois sonhava com um passado doloroso, desconhecido e adormecido.

Um passado de maldições...

“Maldito serás ao entrares, e maldito serás ao saíres”

Deuteronômio 28;19 – Moisés sobre os infiéis, sobre os pecadores... e sobre mim

I

O Paranormal é só O Começo

Parte 1: Hoje eu acordei com sorte!

13 de agosto de 2011: Rio de Janeiro, Padre Miguel.

TUDO SEMPRE COMEÇA com um pesadelo incomum, ou melhor, um pesadelo muito comum para mim. Eu o tinha na maioria das noites nas quais eu conseguia dormir mais profundamente.

Nele, havia uma porta. Eu estava do lado de dentro, sendo que, do outro lado, podia-se ouvir sons de luta que cessaram tão rápido quanto iniciaram.

Não possuía um corpo no sonho. Eu era apenas um par de olhos fantasmas que eram puxados e transportados pelo pesadelo, aquilo aumentava minha agonia, principalmente por não poder fechá-los.

Pude ver (como todas as outras vezes) um homem na cozinha. Ele bebia um copo d’água. Havia notado os sons da luta, ainda que tivessem sido breves.

A televisão estava ligada e emitia um feixe de luz da sala até a cozinha do lugar, e foi então que um chiado de interferência se iniciou. Ouvi um som que não pude distinguir com precisão, e então o breu banhou meus olhos.

Depois de alguns minutos sem conseguir me mexer e nem ver coisa alguma, me vi em um quarto de criança, havia uma mulher perto de um berço onde, é claro, dormia um recém nascido, todas as vezes eu olhava em volta e sentia uma paz familiar, depois um medo igualmente familiar.

O medo era trazido por um barulho vindo de baixo chamando a atenção da mulher e acordando o bebê, que agora chorava.

Ainda de olho na porta entreaberta, ela foi em socorro do filho, pegando-o nos braços e tentando silenciá-lo com um suave “shhhh”. A criança se tranquilizou um pouco, mas ainda estava angustiada, eu podia compreender, pois sentia o mesmo.

Ouviram-se passos pesados, ficando cada vez mais altos, galgando as escadarias para o andar onde a mãe e o filho se encontravam. No último som do último degrau, tudo se escureceu outra vez.

Senti frio quando a escuridão me abraçou outra vez, seu toque era um impacto de medo sobre todo o meu ser, ao ponto que sentia meu corpo se contorcendo violentamente por mais que, na ocasião do sonho, eu não tivesse um corpo para isso.

A visão voltou para onde o homem estava antes, mas não havia mais ninguém à vista. A televisão ainda falhava, lançando seus chuviscos de luz nas paredes da cozinha, e o copo se encontrava jogado na mesa quebrado e pingando não água, mas sangue. Senti-me hipotérmico.

As janelas do cômodo, também respingadas de sangue, mostravam que lá fora relampejava muito, porém não chovia ainda. De pouco em pouco, parecia aos meus olhos fantasmados que o lugar se acinzentava e se apagava de forma lenta e aterrorizante.

Outro baque, outro banho de escuridão gelada. Minha respiração (se é que tinha pulmões naquele pesadelo) estava pesada e ofegante, com o coração (se é que eu o tinha) acelerando a cada desespero que bombeava nas minhas veias (se é que eu...).

Voltando ao quarto, a mulher estava acuada, interpondo-se entre o berço e a porta, respirando com nervosismo, clamando por uma ajuda que, se chegasse, chegaria tarde demais.

Só conseguia ouvir a respiração dela, a princípio. Ela mexia a boca, falava com alguém, mas um zunido conquistou meus ouvidos. Era a hora do pesadelo em que geralmente a porta se escancarava com um “blam!”.

Porém nada aconteceu, apenas escuridão e um silêncio de cova... exceto pelo som da chuva que se iniciou. Os relâmpagos banhavam suas luzes para o corredor em frente à porta aberta, mas não havia nada lá, até que, da penumbra, surgiram os olhos...

Azulados com um brilho gelado e tenebroso, piscante e fraco. Quando o sonho me cegou, daquela vez, foi com luzes, relâmpagos e olhos.

Com os sentidos de volta, o primeiro som que ouvi foi o de um corpo inerte despencando sem vida no chão do quarto. O som de uma mãe deixando seu bebê chorando e sozinho.

A mesma sensação do andar de baixo tomou conta daquele quarto. A criança sufocou o choro como se perdesse sua voz de súbito, debatendo-se exatamente como eu estava me debatendo, com meu corpo inexistente e o meu corpo real do outro lado do muro dos sonhos.

Sentia algo ruim se aproximando. Algo que esfriava o lugar inteiro. O cheiro de morte era fresco e forte, a presença do mal, do mais puro mal, e o pior... não era do assassino dono dos olhos azuis.

De repente, ouvi um som. Nada que eu já tivesse escutado do outro lado dos meus olhos fechados, apenas no sonho. Era um rugido, mas não o de um animal comum. Era ameaçadoramente alto e com toda a certeza vinha de uma natureza feroz.

Em seguida, a luz fúnebre que os relâmpagos proporcionavam ao quarto ficava cada vez mais fraca, como se houvesse uma mão de trevas descendo sobre a criança. Minha última visão foi um homem de pé em frente ao berço, ou parecia um homem...

A chuva caía cada vez mais forte. Caía sangue dos céus...

Acordei como se tivesse pego no sono embaixo d’água, molhado de suor e sem ar. Sentei-me acima dos lençóis desarrumados, ofegando e olhando para as sombras.

Olhei de um lado para o outro nas sombras da noite, com a respiração mais aliviada, a cabeça ficando menos pressurizada pela claustrofobia que a paralisia do sono dava.

Quando é que eu vou me acostumar? murmurei em baixo som.

Tendo o mesmo pesadelo que tinha desde os dez anos de idade (que foi quando eu finalmente aprendi a conseguir dormir), eu achava que me acostumaria, mas tinha algo naqueles lugares e naquelas pessoas que me passavam algo muito ruim.

Olhei mais uma vez em volta, e, nada avistado, voltei-me para o relógio (o qual tocava seu alarme). Eram exatamente 03h00min da manhã.

Algo naquele horário me assustava, mas não sabia se era o fato de o mundo espiritual ser mais ativo (inclusive em função dos espíritos maus) nesse horário ou se fui acordado exatamente a essa hora,

quando programei o despertador para me acordar às 06:30... As duas hipóteses me preocupavam muito, pois não era a primeira coisa estranha que acontecia comigo.

Ah! Que ótimo. Já tenho que acordar cedo, a última coisa que eu preciso é de uma assombração disse me deitando, querendo não ter mais coisas com as quais me preocupar, querendo deixar os dias do orfanato e do primário para trás.

Agora era um rapaz normal, não era uma aberração... Um pária social, talvez. Mas um monstro? Não, só uma criança traumatizada e injustiçada pelos outros... Só isso.

Foi naquele momento que finalmente notei a falta de algo importante. Estava instintivamente (desde que acordei em desespero) com a mão direita no peito.

O que me incomodou foi o fato de estar segurando a camisa branca do pijama, ao invés de algo muito importante que me pertencia.

Levantei-me de súbito e vasculhei por cima e por baixo da cama, sem nada encontrar. Era algo que não tirava nunca e a ideia de perdê-lo me confundia.

Sem falar que ninguém teria interesse de roubar aquilo. Era algo muito simples e pessoal, uma herança humilde.

Era uma medalha de ouro ou cobre, nunca distingui bem, de uma cor dourada, mas também desbotada. Ela pendia de uma corda de náilon negra e dentada pelo tempo.

Tinha desenhos estranhos e sem sentido, tanto na frente, como no verso de seu corpo metálico. Em momentos maçantes, eu costumava me perder naquelas escritas insignificantes, e a única forma que distinguia era uma cruz que tomava todo o desenho da frente.

Até aquela etapa da minha jornada, eu o tomava como nada além de uma bijuteria barata com a qual dois cadáveres haviam me presenteado.

Era algo muito mais poderoso e mais importante do que algo jamais foi pra mim...

Independente de saber disso ou não, eu me desliguei do horário e saí em procura pela sala e pela cozinha, mas logo desisti pela falta de resultados. Fui até a geladeira e enchi um copo de água.

Escutei passos vindos do corredor. Meus pelos eriçaram, e os olhos negros que antes vigiavam a quietude da água se viraram, vidrados, para o corredor, de onde veio uma moça na casa dos vinte e poucos. Estava grávida, baixei minha guarda.

O mesmo pesadelo? ela perguntou.

Sim respondi, bebendo um gole d’água. Eu já deveria ter me acostumado. Sorrindo um sorriso cansado, ela se colocou ao meu lado.

Existem coisas, poucas coisas, às quais nunca nos acostumamos disse com os seus sonolentos olhos castanhos claro fitando os meus olhos negros.

Bom. Se é assim, acho que não existe solução. Ao escutar isso, ela, um pouco mais alta que eu, abraçou-me e beijou-me a testa.

Se não pode se acostumar, tem que se livrar do que incomoda. Sorriu para mim, que tentei sorrir de volta da melhor forma possível. Sempre há solução.

Algo me diz que nada é tão fácil. Ela riu baixo, ainda me abraçando. Senti a barriga dela quente onde descansava meu meio-irmão.

Bom, eu acho que, se você tornar a dificuldade em algo de rotina bebeu um pouco da minha água , nunca vai ser difícil. Só vai ser normal.

Jaque, eu acho que já tá muito tarde pra termos conversas de autoajuda. Esvaziei meu copo. Quando vai chegar o moderador? Ela quase riu em voz alta, mas se segurou.

Não me faz rir alto, seu canalha, o Xande tá dormindo.

Ah, como se eu ligasse. Amanhã ele tá de folga resmunguei, um pouco mais confortado com as risadas dela. Vai dormir, eu irei logo...

Tem certeza que está bem?

Sim, eu acho que, de uma certa maneira, eu já estou acostumado menti.

Tá legal, boa noite, anjinho. Aquilo nunca soou tão irônico, enquanto ela fazia seu caminho de volta para o quarto. Ela, de repente, virou-se para mim e se aproximou outra vez, curiosa.

Qual o problema? perguntei quando ela aproximou seu rosto interrogativo do meu.

Tem algo... diferente em você... comentou de forma vaga.

E o que seria? Estava começando a estranhá-la.

Não sei... não sei mesmo... Pelo menos, ainda não continuava a me examinar com os olhos atiçados, até que uma memória cravada na sua expressão a fez se lembrar de que ela não deveria ser tão curiosa como uma vez já foi. Mas não deve ser nada concluiu, abrupta, e me beijou outra vez. Desejou-me uma boa noite e foi para o quarto.

É... isso foi bem... não quis terminar a frase. Guardei o copo e voltei para a cama.

Aquela moça grávida era minha mãe adotiva (embora tivéssemos uma relação muito mais fraternal), seu nome era Jackeline. O homem que chamamos de “Xande” era Alexandre, seu marido, e o menino que ela carregava no ventre se chamaria Pedro.

Conheci Jackeline no orfanato no qual crescemos, no bairro de Bangu, onde eu vivi boa parte da minha história devido ao fato de não ter nenhuma família, nem registro algum (aliás, no dia em que fui largado nas portas da OAIB, tudo que tinha era o pijama em que dormia, um papel dizendo meu primeiro nome e o amuleto que perdi).

É difícil ser feliz quando você praticamente nasceu em um orfanato. Tínhamos isso em comum, e, por isso, desde o começo, ela tomou conta daquele garotinho estranho.

Ela deixou o lugar aos 16 anos. Daí, a esperança de ter um simples sorriso no dia-a-dia se foi junto com ela. Antes de me deixar sentado sozinho no balanço, prometeu que voltaria por mim.

Eu vou voltar por você, anjinho. Beijou-me na testa quando disse. Tudo vai melhorar, eu te prometo. Das duas promessas que ela me fez naquela manhã nublada, apenas uma foi mantida por ela. Nada melhorou.

Não tinha muitos amigos lá. Na verdade, não tinha nenhum. Por alguma razão, as pessoas sentiam algo estranho ao ficarem perto de mim. As crianças, os adultos, todos menos ela, a única a ficar do meu lado. Mas não a única a me deixar.

Lembro-me de ficar dias sentado na cama, sem dizer uma única palavra, apenas respirando e encarando a parede. Não gostava muito da luz do sol e da companhia alheia.

Às vezes, no silêncio, eu pensava escutar uma voz ao redor, quando todas as crianças brincavam lá fora e eu permanecia sozinho. Não escutava palavra alguma. Nada do que ouvia fazia sentido. Cogitei que fosse o encanamento velho ou algo do tipo.

Quando eu resolvia (com receio dos sons que escutava dentro do prédio) me aventurar do lado de fora, as outras crianças, como sempre, repudiavam minha companhia.

De noite, quando eu conseguia dormir naquele lugar, o mesmo pesadelo que tive naquela noite me assombrava o sono. Foram anos bem sinistros, principalmente depois de saber (ou pensar saber) porque fui criado ali.

Um dia, mandaram-me ao psicólogo do lugar, devido ao meu comportamento (também por acordar todas as noites por causa dos sonhos). O resultado foi um diplomado em Pedagogia e Psicologia Infantil saindo da sala, surtando com problemas psiquiátricos. Enfim, foi uma infância dura, eu era uma criança estranha... ERA.

Nos meus tempos de primário, também não tinha muitos amigos, só dois, e, sim, também foram embora, como tudo que já tive de bom.

Eu passava os dias antes daquele me perguntando sobre o que tinha acontecido com eles.

Como Jaqueline, eles não sentiam o que os outros sentiam quando ficavam perto de mim.

Eles eram boa gente, agiam normalmente ao meu redor, e isso era a coisa mais gentil que qualquer um poderia ter feito por mim. Alguém que não fizesse eu me sentir como o estranho, o monstro, a aberração que todos me acusavam de ser.

Mas, como todos que entraram na minha vida, a própria deu um jeito de me afastar dos que me faziam um pouco mais feliz quanto a ela.

Eles mudaram de escola, prometendo que não perderiam contato, mas eu já sabia o resultado das promessas que a maioria das pessoas fazem.

Oito anos depois, Jackeline voltou, cumpriu conforme havia prometido, mas a promessa de uma vida melhor não foi mantida. Eu já tinha 14 anos, e nenhum motivo pra sorrir.

Ela me levou para a sua casa e me deu um teto, uma família que agia do mesmo jeito que todos os outros, mas uma família mesmo assim, e foi então que me tornei de órfão estranho para o filho adotivo estranho.

Reconheço, mesmo assim, que ela não escolheu me deixar, e, mesmo tendo feito isso, voltou por mim (mesmo que tardiamente). Então, entre tudo o que aprendi, eu desenvolvi a habilidade de me esconder atrás de frases e sorrisos ensaiados.

Eu aprendi a não ser estranho, aprendi a evitar fazer o que os outros condenavam. Aprendi a ser normal... Como eu disse antes, eu ERA um garoto estranho.

Deitei-me outra vez, encarando o teto até que o sono voltasse naquela estranha madrugada. Quando adormeci outra vez, foi um piscar de olhos entre o silêncio e o grito do meu despertador (que agora me alarmava na hora correta).

Levantei-me e fiz o mesmo ritual de sempre. “Que merda”, tomar banho, “que merda outra vez...”, vestir uma, “ê... que merda...” e arrumar a mochila.

Tentei, por menos de um minuto, encontrar outra vez meu amuleto, mas ele havia sumido daquelas formas que somente os agentes da KGB ou da Interpol sabem sumir (ou pessoas que fogem deles, principalmente).

Antes de sair, fui até o quarto dos meus responsáveis e vi que dormiam tranquilamente (sentia um ódio moderado de todas as pessoas que via dormindo às 6:57, especialmente quando estava acordado nesse horário).

Vendo Jackeline respirar e inspirar em seu sono, senti-me tentado a acordá-la para perguntar o que diabos (hehe...) ela tinha visto de diferente naquela madrugada, porém achei melhor deixar isso pra depois, se é que eu me lembraria... Parte 2: Cachorros não gostam de mim

Desci as escadas e deixei o prédio, passei dos becos para a rua e fiz meu caminho na direção à Rua Marechal Marciano (onde se encontrava a ciclovia que ficava no caminho de onde estudava).

Bom, eu costumava ter muitos devaneios distrativos quando caminhava. Deve ser por isso que esqueci completamente de dizer pra você quem eu sou (como sou desastrado).

Possuo o nome comum e nem um pouco profético de Vagner. Darei apenas meu primeiro nome, não por motivos sigilosos, mas porque nunca soube meu sobrenome. Sou um órfão de uma família morta e apagada do mapa, lembra?

Também possuo a aparência comum e nada profética de um rapaz de 15 anos de idade (tá, um rapaz estranho de 15 anos de idade), cabelos curtos escuros e desgrenhados, com a tez um tanto quanto pálida.

Ajeitei meus óculos enquanto caminhava, sentindo que a manhã ficou mais gelada de forma repentina.

Fechando o zíper do casaco vermelho e negro, continuei andando, em passo calmo, sem me preocupar com o horário em que chegaria.

A cada passo que dava, pareci ficar mais frio.

Voltando ao caminho da escola, eu já estava perto do final da ciclovia. Andava despreocupado, com uma desigual rabugentisse matinal ressoando por meus passos pesados no concreto arranhado e rosado, cercado por seus arcos de metal, alguns amassados e curvados por razão de acidentes.

Logo no meio da caminhada, eu fui tomado por uma sensação estranha, um cheiro igualmente estranho, algo familiar (assustadoramente familiar).

A ciclovia, antes silenciosa, foi tomada por um som que parecia ecoar pelo ambiente, como uma voz baixa e lamentosa. Ia crescendo de pouco em pouco. Fiquei alerta.

Mas o que... Olhei em volta, parado no meio de meu estranhamento. Dentro do peito, eu começava a sentir algo estranho e incomum no ar. O cenário à minha volta estava completamente normal, tirando o frio filho da puta que fazia.

Mas, mesmo assim, a sensação de que tinha algo muito errado permanecia. A mesma sensação preenchia meus ouvidos, meus olhos e minhas narinas. Era algo que jamais havia sentido.

Bom, sem deixar de ser um tanto quanto... comum, estranhamente comum ao mesmo tempo em que era totalmente novo.

Meus olhos vidraram nos arcos metálicos ao redor da larga calçada central, onde camadas de gelo começaram a se formar, encobrindo as estruturas ali presentes. Respirei e senti o vapor deixando meus lábios.

Minhas lentes aderiram à mesma camada de gelo. Removendo-os, nervosíssimo, eu me perguntei se estava ficando louco ou imerso em outro pesadelo (ou sonho, se considerasse o dia-a-dia de quem mora na Zona Oeste do Rio).

Mas não faz frio assim nesse bairro mesmo... Contemplei, quase tremendo, a névoa cobrir o lugar. Algo totalmente contraditório com o clima da região.

Ao perceber isso, quase que de repente, os meus pés travaram. Pra falar a verdade, o meu corpo inteiro travou, e ouvi o som de uma respiração fria e pesada. Estava praticamente em transe, e, por mais que eu tentasse me mexer, eu não conseguia. Era com certeza o frio que havia me paralisado.

Sem aguentar a força que agia sobre mim, senti meus olhos revirando. Estava entrando em transe e saindo da realidade. Minha visão ia morrendo conforme meus olhos cerravam lentamente.

Um som de rosnado atingiu as costas de meus ouvidos. Logo após, desenrolou-se uma rapsódia de sons desconhecidos pela realidade. Mais rosnados surgiram, murmurando uma língua profana e antiga.

Junto a esses ruídos malignos, também se escutava os sons de asas que ficavam mais e mais altos. Foi em seguida que escutei aquele som, aquele maldito som. O rugido.

Aquele som monstruoso que povoava meus pesadelos por anos. Ao ouvi-lo, meus olhos voltaram ao foco, esbugalhados de terror, abertos para algo que não gostaria de ver.

A voz daquilo dizia coisas que não entendia, dizia naquela mesma língua de antes, do sonho, do orfanato, do passado. Queria me mexer, queria correr, mas o frio havia me paralisado completamente.

E, como os olhos que se acostumam com o breu de um ambiente, meus ouvidos, que escutavam balbucios malignos, começaram a modelar as palavras como anagramas em áudio. As últimas palavras que consegui escutar vindas de uma voz anormal e grave foram “... por onde andou...?”.

Com a sensação de ter as mãos geladas do locutor envolvendo o meu pescoço, senti uma garra arranhando minha garganta de leve.

Depois disso, o som seguinte foi um misto de asas e uma saraivada de flechas ao ar que zuniram pela minha mente estagnada. Logo após, as vozes pararam, as mãos se foram e eu estava sozinho, ou achava estar.

Por um tempo, eu fiquei como se ainda estivesse paralisado. Olhava para a ciclovia, agora com horizonte limpo e um princípio de movimentação matinal.

Tudo bem aí? perguntou-me uma voz estranhamente familiar, quebrando o silêncio momentâneo. A temperatura voltou ao normal abruptamente.

O quê? perguntei de volta, ainda confuso demais para olhar em volta e procurar o dono da voz.

Está parado aí já faz uns dez minutos. Olhei para trás, de onde veio a voz, mas não achei ninguém.

Mas o... Um baque incomum interrompeu não só minha frase, mas tudo, como se tivesse acordado de um sonho. Estava na travessia da rua, quase que transportado até lá.

Mas... mas... Cocei a cabeça, olhei em volta, não havia carros passando. Recomecei a andar.

Não sou de sonhar enquanto ando, acho eu. Confuso, passei a mão pela pele lisa do meu pescoço. Lisa, com exceção de um pequeno corte cicatrizado...

Cheguei tão em cima da hora, que poderia ter dormido com ela, acendido um cigarro e perguntar se foi bom, mas, mesmo assim, consegui chegar a tempo antes do sinal tocar.

Como havia tocado no assunto do fumo, antes de ir ao portão, eu parei na esquina e acendi um cigarro, tragando as minhas dúvidas e alucinações matinais e as convertendo em fumaça nociva, perguntando-me o que houve e se houve realmente.

Bom, além disso disse, olhando para o cigarro , eu não estrago o meu corpo com mais nada... Não sei... Não sei mesmo...

É... esquece o que eu disse antes, eu acho que seria sempre um garoto bem estranho. Estava mais do que nunca começando a aceitar isso.

Bem... foda-se. Joguei a guimba fora. Um foda-se gigante concluí, caminhando para o portão.

Ao entrar na sala cheia, corri os olhos por todos os lados do local, calado e contrito como sempre. Ignorei os olhares e as presenças e me dirigi ao ponto de sempre.

Sentei-me no típico lugar, atrás de todas as outras fileiras, na diagonal esquerda da sala, onde não era visto e podia ver todos, com apenas mochilas de outras pessoas como companhia.

Ali ficava todas as manhãs, encarando a lousa, copiando em silêncio (às vezes, nem tanto, porque tinha uma musiquinha).

Entre uma cópia e outra, eu sendo uma pessoa extremamente distraída, tive outro devaneio. Minha mente não estava na aula de Matemática (e sim em outras coisas que eram menos do mal).

Vi-me rabiscando a frase “ por onde andou...?” no meio da matéria. Li as palavras várias vezes na minha mente confusa. "Estive onde sempre estive a minha vida inteira", pensei.

Balançando a cabeça para afastar as ideias alucinadas que estava tendo naquela estranha manhã, eu rasurei a frase e continuei a copiar e ouvir até que o sinal tocou.

Na hora do intervalo, eu me sentava nos bancos do corredor logo após a rampa de acesso, com alguns “amigos”. Não participava da conversa. Aliás, minha presença fez com que eles mudassem de lugar minutos depois.

Fiquei lá, sentado e silencioso, fitando os cadarços do meu tênis e me perguntando se estava desenvolvendo algum problema mental ou se tomara algo estragado.

O som de algumas crianças dando gritinhos de espanto chamou minha atenção. Um cachorro vira-lata surgiu no corredor caminhando em suas quatro patas (uma manca).

De início, não me importei com ele. O porteiro, ou qualquer outro inspetor, colocá-lo-ia para fora, mas logo eu iria perceber que eles não seriam necessários.

Chegando perto de mim, ele parou e me olhou. Parou de mancar e ficou acuado, com o rosto feroz. Rosnava para mim com as orelhas alertas.

As vozes voltaram, meus pelos eriçaram, minha pele gelou. Sentia uma baforada gelada ao meu lado, o cachorro começou a latir. Tinha algo ocupando o meu espaço. Algo além de mim.

O vira-lata recuava enquanto ladrava contra mim (ou contra nós...). Não demorou muito, ele se virou e correu para longe, ganindo e aparentemente esquecido de sua perna manca.

“Não é de mim que ele foge”, ouvi a mesma voz maldita dizer. Instintivamente, levantei-me e caminhei com rapidez e de forma perdida até o banheiro. Suava como mil bicas.

As vozes sussurravam. Eu ficava mais tonto a cada palavra. Sentia como se fosse desmaiar no caminho para o banheiro.

Chegando lá, entrei em um dos boxes e me sentei, com as mãos nos ouvidos, fungando com medo e raiva, ódio e terror. Havia algo de ruim fluindo não só pelo banheiro, mas em mim. Entrei em pânico.

Respira... respira murmurei pra mim mesmo, respirando com calma uma inspiração firme e expiração trêmula em seguida. Respira... e não pira...

Na última expiração, os sons cessaram outra vez. Saí do boxe e lavei o rosto. Procurei cegamente pelo papel toalha. Não me atrevia a olhar para nenhum espelho no momento.

Saí andando com as pernas fracas, os olhos ainda vidrados. Por dentro, eu estava desesperado como uma criança com síndrome do pânico. Bebi água como se estivesse num deserto por uma quarentena, e subi a rampa com os outros alunos...

Parte 3: Para o bem geral da nação, espero estar louco

A aula de Português passou despercebida por mim. Não peguei meu caderno e nem sequer me mexia naquela cadeira. Levou um tempo para que minha mente começasse a me enganar com algum efeito tranquilizante, dizendo-me que tudo estava bem e que era apenas uma manhã na qual eu não dormi bem.

Antes que notasse, o sinal tocou na hora da saída.

Todos foram embora bem-humorados, mas nem tanto, porque o mais triste em uma segundafeira é que, por pior e mais chata que ela seja, é só o começo, e, além do mais, não sou muito bemhumorado, se não deu pra notar.

Dentre todo o medo e confusão proporcionados naquela manhã infernal, enquanto descia meu caminho até o mundo lá fora, eu senti aflorando dentro de mim um sentimento de dúvida.

Por onde estive? sussurrei para mim E quem me achou?

Olhei pela janela que ficava no caminho. O tempo estava limpo, quase sem nuvens. Estava mais calmo, e até curioso, mas ainda tinha um aperto inconfundível no peito, uma tensão.

"Ele não foge de mim" parafraseei a voz grave e mórbida que me perseguia naquele dia. Por que fugiria de mim? perguntei-me, dessa vez, referindo-me a mim mesmo.

Estávamos todos descendo a rampa rumo à saída, quando algo chamou minha atenção.

Não foi um barulho ou algo parecido. Era simplesmente o silêncio, um silêncio inquietante que me intrigava e fazia algo latejar na minha cabeça. Parei no meio da descida.

o que foi, Vagner? perguntou um dos meus “colegas”. Explicando minhas aspas... em outras palavras, eu não gostava de ninguém, e imaginava que fosse recíproco. Não gostava especialmente quando eles faziam parte da “razão” de me fazer acordar cedo (cogitei estudar de tarde naquele dia...).

Vai em frente, eu esqueci uma coisa na sala disse em um tom distante. Eles deram de ombros e deixaram o esquisitão pra trás. Deviam adorar fazer isso. Devia ser um alívio.

Após perdê-los de vista, caminhei até a sala com cautela e senti algo lá dentro, algo que me assustava, ainda assim, não recuei, era a minha chance de sanar meus questionamentos.

Não sabia ao certo o que tinha lá dentro, o que me perseguia, mas queria saber o que me puxava involuntariamente para aquela porta. Com a mão um pouco trêmula, eu girei a maçaneta.

Podia ouvir as batidas ritmadas, um batimento ao pegar na maçaneta, outro ao girá-la e outro ao abrir a porta. Nesse momento, eu prendi a respiração e... nada.

A sala estava vazia, não havia absolutamente nada além de cadeiras, livros nas estantes e um quadro apagado. Nada que me desse medo (a menos que tivesse um livro de Química na estante).

Mas, quando pensei melhor e baixei a guarda, as lâmpadas acima começaram a piscar e a falhar. Meu primeiro pensamento foi o de que estivessem queimadas. Fiquei a encarar a falha elétrica com os olhos castanho-escuros sem brilho, com a vista curiosa.

É... eu devo estar imagi... Antes que eu terminasse a frase, houve um estrondo que cresceu mais rapidamente do que em ATWA do System of a Down. O impacto que senti me derrubou no chão.

O choque brutal estilhaçou as lâmpadas, derrubou diversas estantes com livros e até mesmo a lousa pregada na parede, seus parafusos soltaram com força e voaram por todas as direções, batendo nas paredes com violência, me abaixei para evitar os que vieram ao meu encontro.

As carteiras dos alunos rangeram suas estruturas metálicas e estremeceram na minha frente, dei passos para trás.

Consegui escutar murmúrios que repetiam, em sussurros melancólicos: “Achamos”. Quem são vocês...? perguntei a eles, aos outros.

“Você sabe bem...”, respondeu uma voz entre várias que gritavam xingamentos incompreensíveis e outros um tanto compreensíveis e ofensivos.

Ah... mas eu não sei mesmo. Arrastei-me lentamente, recuando, arrependido pela curiosidade, tentando ganhar tempo de vida. Eu tenho certeza de que prefiro não saber...

As vozes riram. O líder continuou: “Nós te vemos agora... Jeselaff te vê... e Ele te vê...”. Não fazia ideia de quem era Jeselaff, mas, aos poucos, eu parecia ter alguma ideia de quem era ELE.

Bem... bom pra vocês. Aproximava-me mais da porta. Mas eu não os vejo. Senti um grunhido atrás de mim. Parei na hora.

“Seja grato por isso...”, sussurrou. Senti mais uma vez suas mãos me envolvendo, mas, em uma agilidade que não sabia ter, eu me levantei depressa e saí correndo em direção à porta.

Mas, quando chegava perto da saída e da bendita maçaneta,, tive a sensação de que uma mão quase agarrara o meu pé. Não conseguiu.

Abri a porta e tropecei enquanto corria para longe. Olhei para trás (sempre é o maior erro que se pode cometer) e escutei um som de rasgo, como se uma cortina estivesse sendo cortada.

Surgiu perto do meu rosto, em meio a uma estranha transparência enevoada, uma mão com garras afiadas e anormais, prestes a rasgar minha cara.

“Você é nosso...”, senti, após, um vento forte vindo da direção para onde fugia.

Algo passou por cima dos meus ombros. Parecia um corpo veloz e pesado. A visão breve das garras sumiu... e a porta bateu, fechando-se. Perguntei-me se aquelas garras seriam de Jeselaff.

Por um momento, eu caí e fiquei lá, sentado a encarar a porta de madeira entre os corredores e a rampa de acesso. Respirava ofegantemente e suava tanto, que sentia todo o cenário à minha volta derretendo junto com a minha pele encharcada.

Uma dor de cabeça terrível me atingiu. Levei as mãos à testa suada e a mantive por lá até a dor passar. Com os olhos fechados, eu fui atacado por visões estranhas, lembranças do sonho que sempre tive por anos, e um par de olhos azulados, brilhantes, porém, de certa forma, um pouco aterradores.

Balancei a cabeça para outra vez espantar os pensamentos. Sentia como se minha respiração estivesse sendo dupla. Recuei, ainda caído, arrastando-me para a parede.

Continuei fitando a porta. Os ruídos ficaram mais abafados quando a porta foi trancada. Levei a mão trêmula ao bolso e trouxe um cigarro até minha boca.

Mas, antes de pensar em pegar o isqueiro Bic, a porta levou um golpe forte na sua estrutura e quase foi cuspida para fora. Pude vê-la se inclinando até quase se soltar de suas pregas. Um som cavernoso crescia.

Vi minha sombra ser engolida e se fundir com a sombra maior que saía da sala de aula maldita, como se a luz estivesse sendo engolida. Em choque, eu larguei o cigarro e corri desembestado para a saída.

Chegando ao térreo, perto do portão, outro “amigo” me perguntou...

Tudo bem aí? Parece que viu um fantasma. Não respondi. Levantei o zíper, que já estava fechado até o pescoço do casaco preto e molhado, e caminhei exasperado para a saída.

Bom, ele só estava meio certo, porque eu ouvi, e, por muita má sorte, eu quase senti a mão de um. Ofegante e confuso, deixei a escola com apenas um pensamento traduzido para a voz alta como:

Caralho... Puta que pariu... Caralho... Caralho, caralho, caralho... enquanto constantemente olhava para trás.

Estava chegando na ciclovia quando tentava achar uma explicação pra tudo aquilo. Será que estava mesmo sendo assombrado?

Com um cigarro tremendo em meus lábios, eu caminhei pela calçada amarelada pelo sol do meiodia, e passei pelo galinheiro que beirava a ciclovia e o campo do Ceres. O lugar ficava em frente ao conjunto habitacional (COAB), prédios de moradia pintados de cores fracas e simples, bege e verdeclaro, em sua maioria.

Ah, foda-se os prédios, você viu aquilo? Puta merda... Puta merda... Não conseguia mais andar. Encostei na parede mais adequada que achei. Frio em Bangu, vozes vindas do nada, garras e ventos... Que porra é essa? Que porra é essa?

“Você fala sozinho por todo esse tempo porque sempre soube que tinha alguém te escutando...”. Sim, mais uma voz. Porém, esta era outra voz, uma voz diferente (vozes, vozes, vozes, agora você sabe como é ser esquizofrênico! Só tá escutando “vozes” nessa porra...).

“Quem disse... esquece, esquece, esquece! Eu não ligo... blablablabla!”. Aquela voz me incomodou mais do que as outras em particular, pois soava muito perto de mim.

Com esse pensamento fixo, eu achei por bem ignorá-lo...

Ainda suando e com os pelos castanhos enegrecidos quando encharcados de água ou suor, percebi que estava demasiado agasalhado para uma tarde daquelas.

Deve ser esse calor, está me fazendo mal menti pra mim mesmo, mas até podia fazer algum sentido. Eu estava de casaco de capuz preto em uma tarde quente e sem nuvens, em BANGU.

“Aham... vai nessa...”

Parei no sinal para atravessar a rua, acima de mim o sol estava tão quente que racharia o concreto se bem quisesse. Levei os dedos para o zíper do casaco, mas, antes de tirá-lo, uma sombra se formou. Olhei para cima, o sol foi bloqueado.

Não por uma nuvem, mas sim pela lua, ou não... Não, não era a lua ou qualquer eclipse. O sol estava apagando e o céu ficou vermelho.

“Chuva de sangue”, ouvi a voz outra vez, e me lembrei do final do sonho. “Caía sangue dos céus...”.

Um estrondo tomou conta dos céus junto com o que parecia ser o som de milhões de tecidos sendo rasgados com violência. De repente, tudo começou a se passar com lentidão. O mundo à minha volta corria devagar, e a dor de cabeça que antes me atribulou retornava para me confundir os pensamentos.

“O tecido está se desfazendo outra vez, a chaga foi aberta. Não mais invisíveis serão, não mais insólitos serão. Chegou mais uma vez o dia de chuva e nascimento, o dia em que eles descendem e nós... emergimos.”

Voltando ao “normal”, eu me vi na mesma situação de todos os outros transeuntes, parados a contemplarem o fenômeno atmosférico. O céu cor de sangue que nos cobria com uma fúnebre luz avermelhada..

Algo que era tremendamente suspeito, porque eu acho que haveria algo no jornal ou na internet sobre isso. Não seria algo que o governo consegue esconder das pessoas.

Logo após, percebemos que o sol não se manteve escuro por muito tempo. A mesma estrela que escureceu tomou um ameaçador brilho escarlate. Ainda assim, o ambiente ao redor ia ficando cada vez mais escuro e sombrio.

Junto com o corpo celeste rubro, havia estrelas, ou simplesmente pontos de luz no céu, de cor e aparência incandescente, ficavam cada vez maiores.

Bom, “estrelas” até eu perceber que eram, na verdade, corpos que caiam do céu. Corpos flamejantes e destrutivos, pedras a caírem do céu. “Caralho, pedras caindo do céu?”, pensei.

Uma reação tomou conta do meu sistema nervoso. Larguei a mochila e me atirei, mergulhando para frente, conseguindo por pouco evitar o impacto dos pedregulhos gigantes que incineraram a calçada e as pessoas nela.

Ofegante, eu me levantei cambaleando, mas a mesma sensação me atingiu, e eu me vi saltando outra vez para salvar minha pele das explosões.

Caindo mais uma vez e estranhamente destruindo um dos arcos metálicos da ciclovia no meu caminho, eu me protegi contra as pedras menores que atingiram as minhas costas, chamuscando um pouco o meu casaco, que agora talvez tivesse utilidade.

Levantei-me, cambaleante, e, olhando para cima, mais estrelas chegavam, e eu simplesmente não poderia listar o quanto esse dia havia se tornado o mais estranho da minha vida.

“Corra...”, disse a voz. Não me atrevi a ignorá-la outra vez.

“O quê?”

“Corra...”, repetiu.

“Quem é você?”

“Suas pernas, seus braços, mente e coração... e também sou o ‘encanamento do orfanato’...”

“Isso ainda não explicou muito. Sabe o que é aquilo ‘encanamento’?”, perguntei, referindo-me ao sol, e, de certa forma, a tudo.

“Ah aquilo... é só um empurrãozinho. Você quer viver?”

"Eu com certeza não quero morrer assim...”

“Então corre... cala essa porra dessa boca... e corre...”

“Não precisa me incentivar muito”. Ao redor, tudo corria lentamente outra vez.

“Não sei se percebeu, mas você é o alvo...”

“Me diz algo novo...”

“Ah, isso será dito... Mas não agora... Vá, seu corpo fará o resto. EU farei o resto...”. Aquela voz me dava certo medo (como todas as outras).

Corri ensandecido pela ciclovia e, ofegando, olhei para trás, depois para frente e depois para os lados, não havia uma direção em que o céu estivesse livre das chamas, logo a terra onde eu pisava estaria assim.

Ou estou muito mal informado, ou o fim do mundo é mesmo pra ser uma surpresa, entende? Aquele lance de “vir como um ladrão no meio da noite”... Só estava desapontado com a falta de sutileza desse ladrão...

Bom, hora de correr...

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