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FRITJOF CAPRA Ex-membro do Lawrence Berkeley National Laboratory, Califórnia, EUA

PIER LUIGI LUISI Universidade de Roma 3, Itália

A visão sistêmica da vida Uma concepção unificada e suas implicações filosóficas, políticas, sociais e econômicas

Tradução MAYRA TERUYA EICHEMBERG NEWTON ROBERVAL EICHEMBERG

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Título original: The Systems View of Life. Copyright © 2014 Fritjof Capra e Pier Luigi Luisi. Publicado nos Estados Unidos da América pela Cambridge University Press, Nova York. Copyright da edição brasileira © 2014 Editora Pensamento-Cultrix Ltda. Texto de acordo com as novas regras ortográficas da língua portuguesa. 1a edição 2014. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou usada de qualquer forma ou por qualquer meio, eletrônico ou mecânico, inclusive fotocópias, gravações ou sistema de armazenamento em banco de dados, sem permissão por escrito, exceto nos casos de trechos curtos citados em resenhas críticas ou artigos de revistas. A Editora Cultrix não se responsabiliza por eventuais mudanças ocorridas nos endereços convencionais ou eletrônicos citados neste livro. Editor: Adilson Silva Ramachandra Editora de texto: Denise de C. Rocha Delela Coordenação editorial: Roseli de S. Ferraz Produção editorial: Indiara Faria Kayo Editoração Eletrônica: Join Bureau Revisão: Nilza Agua Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Capra, Fritjof A visão sistêmica da vida : uma concepção unificada e suas implicações filosóficas, políticas, sociais e econômicas / Fritjof Capra, Pier Luigi Luisi ; tradução Mayra Teruya Eichemberg, Newton Roberval Eichemberg. – São Paulo : Cultrix, 2014. – (Coleção polêmica). Título original: The systems view of life. Bibliografia. ISBN 978-85-316-1291-6

1. Ciências – Aspectos sociais 2. Ciências – Filosofia 3. Ecologia – Aspectos políticos 4. Ecologia – Filosofia I. Título. II. Série.

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CDD-304.201 Índice para catálogo sistemático: 1. Ecologia : Aspectos éticos : Filosofia 304.201

Direitos de tradução para o Brasil adquiridos com exclusividade pela EDITORA PENSAMENTO-CULTRIX LTDA., que se reserva a propriedade literária desta tradução. Rua Dr. Mário Vicente, 368 — 04270-000 — São Paulo, SP Fone: (11) 2066-9000 — Fax: (11) 2066-9008 http://www.editoracultrix.com.br E-mail: atendimento@editoracultrix.com.br Foi feito o depósito legal.

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À memória de Francisco Varela (1946–2001), que nos apresentou um ao outro e nos inspirou a ambos com sua visão sistêmica e sua orientação espiritual

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Sumário

Prefácio ......................................................................................................... 13 Prefácio à edição brasileira ........................................................................... 17 Agradecimentos ............................................................................................. 21 Introdução: paradigmas na ciência e na sociedade ......................................... 23

I

VISÃO DE MUNDO MECANICISTA 1 A máquina do mundo newtoniana ......................................................... 1.1 A Revolução Científica .................................................................. 1.2 A física newtoniana ........................................................................ 1.3 Observações finais..........................................................................

43 44 53 59

2 A visão mecanicista da vida ................................................................... 2.1 Os primeiros modelos mecânicos dos organismos vivos................. 2.2 Das células às moléculas ................................................................ 2.3 O século do gene ............................................................................ 2.4 A medicina mecanicista.................................................................. 2.5 Observações finais..........................................................................

61 61 62 65 69 71

3 O pensamento social mecanicista........................................................... 3.1 O nascimento das ciências sociais .................................................. 3.2 A economia política clássica .......................................................... 3.3 Os críticos da economia clássica .................................................... 3.4 Economia keynesiana ..................................................................... 3.5 O impasse da economia cartesiana ................................................. 3.6 A metáfora da máquina na administração ....................................... 3.7 Observações finais..........................................................................

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II A ASCENSÃO DO PENSAMENTO SISTÊMICO 4 Das partes para o todo ............................................................................ 93 4.1 A emergência do pensamento sistêmico ......................................... 93 4.2 A nova física .................................................................................. 99 4.3 Observações finais.......................................................................... 112 5 Teorias sistêmicas clássicas .................................................................... 117 5.1 Tectologia....................................................................................... 117 5.2 Teoria geral dos sistemas ................................................................ 119 5.3 Cibernética ..................................................................................... 120 5.4 Observações finais.......................................................................... 132 6 A teoria da complexidade ....................................................................... 134 6.1 A matemática da ciência clássica ................................................... 135 6.2 Enfrentando a não linearidade ........................................................ 141 6.3 Princípios de dinâmica não linear ................................................... 147 6.4 Geometria fractal............................................................................ 155 6.5 Observações finais.......................................................................... 165

III UMA NOVA CONCEPÇÃO DA VIDA 7 O que é vida? ........................................................................................... 169 7.1 Como caracterizar os seres vivos .................................................... 169 7.2 A visão sistêmica da vida ............................................................... 170 7.3 Os fundamentos da autopoiese ....................................................... 175 7.4 A interação com o meio ambiente .................................................. 176 7.5 Autopoiese social ........................................................................... 177 7.6 Critérios de autopoiese, critérios de vida ........................................ 178 7.7 O que é morte? ............................................................................... 180 7.8 Autopoiese e cognição ................................................................... 182 7.9 Observações finais.......................................................................... 185 8 Ordem e complexidade no mundo vivo ................................................. 186 8.1 Auto-organização ........................................................................... 186 8.2 Emergência e propriedades emergentes .......................................... 198 8.3 Auto-organização e emergência em sistemas dinâmicos ................ 202 Ensaio convidado: Mundo das Margaridas ............................................... 211 8.4 Padrões matemáticos no mundo vivo .............................................. 214 8.5 Observações finais.......................................................................... 228

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9 Darwin e a evolução biológica ................................................................ 230 9.1 A visão de Darwin das espécies interligadas por uma rede de parentesco .......................................................................... 230 9.2 Darwin, Mendel, Lamarck e Wallace: uma interconexão multifacetada .................................................................................. 233 9.3 A síntese evolutiva moderna ........................................................... 236 9.4 Genética aplicada ........................................................................... 244 9.5 O Projeto Genoma Humano ........................................................... 245 9.6 Revolução conceitual na genética ................................................... 246 Ensaio convidado: Ascensão e queda da epigenética ................................ 249 9.7 Darwinismo e criacionismo ............................................................ 261 9.8 Acaso, contingência e evolução ...................................................... 264 9.9 O darwinismo hoje ......................................................................... 267 9.10 Observações finais.......................................................................... 269 10 A procura pela origem da vida na Terra ................................................ 271 10.1 A evolução molecular de Oparin .................................................... 271 10.2 Contingência versus determinismo na origem da vida .................... 272 10.3 Química pré-biótica ........................................................................ 276 10.4 Abordagens de laboratório para a vida mínima .............................. 284 10.5 A abordagem da origem da vida pela biologia sintética .................. 286 10.6 Observações finais.......................................................................... 297 11 A aventura humana ................................................................................ 299 11.1 As eras da vida ............................................................................... 299 11.2 A era dos seres humanos ................................................................ 300 11.3 Os fatores determinantes do ser humano ........................................ 306 11.4 Observações finais.......................................................................... 312 12 Mente e consciência ................................................................................ 314 12.1 A mente é um processo! ................................................................. 314 12.2 A teoria da cognição de Santiago ................................................... 317 12.3 Cognição e consciência .................................................................. 320 Ensaio convidado: Sobre a natureza primária da consciência ................... 330 12.4 Linguística cognitiva ...................................................................... 337 12.5 Observações finais.......................................................................... 339 13 Ciência e espiritualidade ........................................................................ 342 13.1 Ciência e espiritualidade: uma relação dialética ............................. 342 13.2 Espiritualidade e religião ................................................................ 343

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Ciência versus religião: um “diálogo de surdos”? .......................... 350 Paralelismos entre ciência e misticismo ......................................... 354 A prática espiritual hoje ................................................................. 358 Espiritualidade, ecologia e educação .............................................. 360 Observações finais.......................................................................... 366

14 Vida, mente e sociedade ......................................................................... 368 14.1 O elo evolutivo entre consciência e fenômenos sociais ................... 368 14.2 A sociologia e as ciências sociais ................................................... 369 14.3 Estendendo a abordagem sistêmica ............................................... 373 14.4 Redes de comunicação ................................................................... 381 14.5 Vida e liderança nas organizações .................................................. 389 14.6 Observações finais.......................................................................... 396 15 A visão sistêmica da saúde ..................................................................... 398 15.1 Crise na assistência à saúde ............................................................ 399 15.2 O que é saúde?................................................................................ 403 Ensaio convidado: Respostas ao placebo e ao nocebo .............................. 406 15.3 Uma abordagem sistêmica da assistência à saúde ........................... 411 Ensaio convidado: Prática integrativa na assistência à saúde e na cura ......................................................................................... 412 15.4 Observações finais.......................................................................... 418

IV A SUSTENTAÇÃO DA TEIA DA VIDA 16 A dimensão ecológica da vida ................................................................ 421 16.1 A ciência da ecologia ..................................................................... 422 16.2 Ecologia sistêmica.......................................................................... 426 16.3 Sustentabilidade ecológica ............................................................. 433 16.4 Observações finais.......................................................................... 446 17 Ligando os pontos: o pensamento sistêmico e o estado do mundo ....... 447 17.1 Interconexão dos problemas do mundo .......................................... 447 17.2 A ilusão do crescimento perpétuo................................................... 453 17.3 As redes do capitalismo global ....................................................... 463 17.4 A sociedade civil global ................................................................. 481 17.5 Observações finais.......................................................................... 485 18 Soluções sistêmicas ................................................................................. 487 18.1 Mudando o jogo ............................................................................. 487

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Ensaio convidado: A empresa viva como fundamento de uma economia geradora.................................................................. 497 18.2 A energia e a mudança climática .................................................... 501 18.3 Agroecologia – a melhor oportunidade para alimentar o mundo .... 536 Ensaio convidado: Sementes de vida ........................................................ 545 18.4 O planejamento para a vida ............................................................ 550 18.5 Observações finais.......................................................................... 562 Bibliografia .............................................................................................. 565 Índice remissivo ....................................................................................... 585

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Prefácio

À

medida que o século XXI se desdobra, torna-se cada vez mais evidente que os principais problemas do nosso tempo – energia, meio ambiente, mudança climática, segurança alimentar e financeira – não podem ser compreendidos isoladamente. São problemas sistêmicos, e isso significa que todos eles estão interconectados e são interdependentes. Em última análise, esses problemas precisam ser considerados como facetas diferentes de uma única crise, que é, em grande medida, uma crise de percepção. Ela deriva do fato de que a maioria das pessoas em nossa sociedade moderna, em especial nossas grandes instituições sociais, apoia os conceitos de uma visão de mundo obsoleta, uma percepção inadequada da realidade para lidar com o nosso mundo superpovoado e globalmente interconectado. Há soluções para os principais problemas do nosso tempo, e algumas delas são até mesmo simples. No entanto, exigem uma mudança radical em nossa percepção, em nosso pensamento e em nossos valores. E, na verdade, estamos agora no princípio dessa mudança fundamental de visão de mundo na ciência e na sociedade, uma mudança de paradigmas tão radical quanto a revolução copernicana. Infelizmente, essa compreensão ainda não despontou na maior parte dos nossos líderes políticos, que são incapazes de “ligar os pontos”, para usar uma expressão popular. Eles não conseguem reconhecer como todos os principais problemas do nosso tempo estão inter-relacionados. Além disso, eles se recusam a reconhecer como suas chamadas “soluções” afetam as gerações futuras. Do ponto de vista sistêmico, as únicas soluções viáveis são as soluções sustentáveis. Como discutimos neste livro, uma sociedade sustentável precisa ser planejada de maneira tal que seus modos de vida, suas atividades comerciais, sua economia, suas estruturas físicas e suas tecnologias não interfiram na capacidade inerente da natureza para sustentar a vida. Ao longo dos últimos trinta anos, passamos a perceber com clareza que uma compreensão plena dessas questões exige nada menos que uma concepção radicalmente nova da vida. E é exatamente uma nova compreensão da vida que está de fato emergindo atualmente. Na linha de frente da ciência contemporânea, não concebemos mais o universo como uma máquina composta de blocos de construção elementares. Descobrimos que o mundo material, em última análise, é uma rede de padrões

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de relações inseparáveis; que o planeta como um todo é um sistema vivo e autorregulador. A visão do corpo humano como uma máquina e da mente como uma unidade separada está sendo substituída por outra, para a qual não apenas o cérebro, mas também o sistema imunológico, cada tecido corporal e até mesmo cada célula é um sistema vivo e cognitivo. A evolução não é mais considerada como uma luta competitiva pela existência, mas, em vez disso, é reconhecida como uma dança cooperativa na qual a criatividade e a constante emergência da novidade são as forças propulsoras. E, com a nova ênfase na complexidade, nas redes e nos padrões de organização, uma nova ciência das qualidades está lentamente emergindo. Essa nova concepção da vida envolve uma nova espécie de pensamento – um pensamento que se processa por meio de relações, padrões e contextos. Na ciência, essa maneira de pensar é conhecida como “pensamento sistêmico” ou “pensamento por meio de sistemas”; por isso, a compreensão da vida que é informada por ele é, com frequência, identificada pela frase que escolhemos como título deste livro: a visão sistêmica da vida. A nova compreensão científica da vida abrange muitos conceitos e ideias que estão sendo desenvolvidos por notáveis pesquisadores e suas equipes em todo o mundo. Com o presente livro, queremos oferecer um texto interdisciplinar que integra essas ideias, modelos e teorias em um único arcabouço coerente. Apresentamos uma visão sistêmica unificada que inclui e integra as dimensões biológica, cognitiva, social e ecológica da vida; e também discutimos as implicações filosóficas, espirituais e políticas de nossa visão unificada da vida. Acreditamos que tal visão integrada é urgentemente necessária nos dias de hoje para lidarmos com nossa crise ecológica global e protegermos a continuação e o florescimento da vida sobre a Terra. Terá, por isso, importância crítica para as gerações presentes e futuras de jovens pesquisadores e alunos de graduação compreender a nova concepção sistêmica da vida e suas implicações para uma ampla gama de profissões – que se estendem da economia, do gerenciamento e da política até a medicina, a psicologia e o direito. Além disso, nosso livro será útil para estudantes universitários das áreas de ciências da vida e humanas. Nos capítulos seguintes, faremos uma ampla varredura na história das ideias, cruzando disciplinas científicas. Começando pela Renascença e pela Revolução Científica, nosso balanço histórico incluirá a evolução do mecanicismo cartesiano do século XVII ao século XX, a ascensão do pensamento sistêmico, o desenvolvimento da teoria da complexidade, recentes descobertas na linha de frente da biologia, a emergência da nova concepção da vida na virada deste século, e suas implicações econômicas, ecológicas, políticas e espirituais. O leitor notará que o nosso texto inclui não apenas numerosas referências à literatura, mas também uma abundância de referências cruzadas a capítulos e seções

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deste livro. Há uma boa razão para essa enxurrada de referências. Uma característica central da visão sistêmica é sua não linearidade: todos os sistemas vivos são redes complexas – isto é, são, em um alto grau, não lineares; e há incontáveis interconexões entre as dimensões biológicas, cognitivas, sociais e ecológicas da vida. Desse modo, um arcabouço conceitual que integre essas muitas dimensões sem dúvida refletirá a não linearidade inerente à vida. Em nossa luta para comunicarmos tal rede complexa de conceitos e ideias no âmbito das restrições da linguagem escrita, sentimos que seria útil interligar o texto por meio de uma rede de referências cruzadas. Nossa esperança é que o leitor descubra que este livro também é, assim como a teia da vida, um todo maior que a soma de suas partes. FRITJOF CAPRA, Berkeley PIER LUIGI LUISI, Roma

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Prefácio à edição brasileira Oscar Motomura

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egradação do meio ambiente, mudança climática, fome, desigualdade, guerras, violência, sucessivas crises econômicas. Seremos capazes de resolver esses grandes problemas globais de nossa era? Há mais de duas décadas mantenho um relacionamento de parceria e amizade com Fritjof Capra, impulsionado por nossa crença mútua de que a resposta a essa indagação é um sonoro “sim”! Essa crença levou Capra a escrever este precioso livro sobre uma nova visão sistêmica da vida, e também tem permeado meus trabalhos com dezenas de milhares de líderes do setor público e privado, às voltas com problemas sistêmicos, interconectados e interdependentes, e que portanto requerem soluções igualmente sistêmicas. Neste livro, Capra e Pier Luigi Luisi tratam de uma visão unificada que integra pela primeira vez as dimensões biológicas, cognitivas, sociais e ecológicas da vida, que não podem ser separadas se quisermos resolver os problemas à nossa volta e evoluir de forma equilibrada e sustentável. E, fiéis à sua perspectiva sistêmica, investigam com profundidade as implicações econômicas, ecológicas, políticas e espirituais dessa empolgante revolução no campo do conhecimento humano. A Visão Sistêmica da Vida apresenta de modo didático conceitos essenciais a essa nova forma de entender o mundo. No entanto, este não é um livro meramente teórico ou filosófico. Com base no pensamento sistêmico e nos princípios do ecodesign, Capra e Luisi apresentam soluções – já existentes – para os grandes problemas globais, provando que já temos o conhecimento e as tecnologias necessárias para construir um futuro sustentável. Há, porém, um pré-requisito para a aplicação desse conhecimento, e é nesse ponto que o trabalho de Capra e o meu próprio, na Amana-Key, voltam a se interseccionar. Sempre buscamos mostrar que não há solução viável fora do pensamento sistêmico, mas a maior parte de nossos esforços ainda consiste em um trabalho de “alfabetização ecológica ou sistêmica”, para que os líderes se familiarizem com essa linguagem que terão de dominar para solucionar os problemas atuais, sejam no âmbito coorporativo, nacional ou até global.

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Nos trabalhos de consultoria e educação executiva que desenvolvemos na Amana-Key, posicionamos a gestão no contexto da vida e buscamos, o tempo todo, revelar as causas-raiz das questões que nos são trazidas por governos e organizações complexas dos setores público e privado. Descobrimos que essas causas-raiz sempre estão direta ou indiretamente associadas a algum tipo de desrespeito à vida. Esse desrespeito decorre de preceitos criados pelo ser humano na contramão do modo como a vida funciona. Ainda atuamos, na política, na economia, na cultura e na sociedade, de uma forma preponderantemente mecanicista e fragmentária, não sistêmica. Desde seu livro O Tao da Física, de 1975, Capra tem buscado desvendar o jeito de funcionar da vida. Em seu best-seller de 1982, O Ponto de Mutação, ele avançou nesse sentido ao examinar as crises científicas e econômicas da época pela perspectiva da teoria dos sistemas. Em 1997, estendeu suas ideias no livro A Teia da Vida, em que mostra a interconexão sistêmica dos desafios para a sustentabilidade da vida no planeta. Posteriormente, em 2002, publicou As Conexões Ocultas, no qual aplica a dinâmica dos sistemas vivos e a teoria da complexidade aos problemas sociais, integrando as dimensões biológicas, cognitivas e sociais. A Visão Sistêmica da Vida representa o ápice desse esforço para compreender a vida. Para escrevê-lo, Capra recorreu a todas as suas obras anteriores, selecionou passagens relevantes, atualizou-as e modificou-as para abranger uma gama muito maior de leitores, além de adicionar novos conhecimentos graças à contribuição de Luisi. Capra considera este livro uma síntese de sua obra intelectual dos últimos 40 anos. Embora alicerçado em conhecimento científico avançado, este livro também pode ser usado de um ponto de vista prático, pois sua base conceitual pode certamente nos ajudar a viabilizar as transformações de que precisamos em nossa sociedade e em nosso planeta. Trata-se de uma obra de referência para todos que estão em busca de soluções sustentáveis para os graves problemas causados pelo modelo mental mecanicista e reducionista. Para líderes que querem construir instituições pautadas em modelos de gestão mais biológicos e em níveis mais elevados de consciência. Para governantes genuinamente preocupados com o bem comum e engajados na transformação real de suas cidades, estados ou países. Para estudantes que não se contentam com modelos de educação fragmentados e ultrapassados e buscam uma formação mais sistêmica e completa. Para cidadãos que querem colocar a mão na massa e promover as transformações necessárias, e urgentes, no nosso planeta. E que querem começar já! Que tal usarmos este livro para refletir sobre tudo que podemos e devemos melhorar – e até reinventar – em nosso modo de ser e de viver? – Se os grandes problemas da atualidade são sistêmicos e portanto requerem soluções igualmente sistêmicas, não seria apenas desejável – mas essencial – um intercâmbio de ideias cada vez mais amplo e profundo entre cidadãos dos mais diferentes segmentos da sociedade? Até que ponto os líderes do setor público e privado

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e da sociedade civil não precisariam buscar uma compreensão mais refinada da natureza sistêmica da Vida? Nesse sentido, essa compreensão não deveria fazer parte da formação de todos os cidadãos, desde os primeiros anos de vida? – Até que ponto nossa sociedade e organizações são norteadas pelo paradigma mecânico, fragmentário, hierárquico, de comando e controle? Como seria nossa evolução se empreendêssemos um amplo processo de mudança cultural e passássemos a vê-las como organismos vivos, compostos por pessoas criativas, inteligentes, capazes de auto-organização e autocontrole? Onde estão os líderes capazes de perceber a importância dessa evolução cultural? E, mais do que isso, onde estão aqueles, ousados e corajosos, capazes efetivamente de fazê-la acontecer, não obstante todos os obstáculos que certamente surgirão? – Até que ponto nossos governantes deveriam evoluir de planos impostos de cima para baixo para um fazer acontecer altamente participativo, estimulado por um propósito nobre, uma visão de futuro inspiradora e princípios éticos que levem a um contexto de total confiança entre as pessoas? Até que ponto deveríamos promover, coletivamente, uma mudança radical de uma cultura de desconfiança, repleta de controles, para outra de confiança plena e alta solidariedade? – Será que precisaremos chegar a um ponto crítico, uma crise de grandes proporções, para fazer as transformações necessárias acontecerem? Ou podemos estimular, através de “disturbações” criativas, a população inteira a se auto-organizar na direção desse futuro melhor para todos? Para concluir, podemos voltar à pergunta que abre este prefácio e refletir sobre ela por um outro prisma. Os problemas do nosso país e do mundo não seriam simplesmente um processo de desmoronamento de tudo que foi construído com base em falsas premissas, em ilusões, em paradigmas falaciosamente construídos? Esses problemas não seriam, portanto, a prova de que o desejável ontem (crescimento a qualquer custo, por exemplo) é o que hoje vem prejudicando a verdadeira evolução do todo? Não seriam todos esses problemas nada mais do que o passado indo embora, levando consigo o que não funciona mais? Não seria esse “deixar ir” um processo fundamental para abrir espaço a um novo modo de viver – mais ético, consciente e próspero –, sempre em benefício de todos, sem nenhum tipo de exclusão? A convicção de que esse megaprocesso de reinvenção é possível advém do fato de que os valores necessários para empreendê-lo são inerentes a todo ser humano. Trata-se simplesmente de um processo de despertar da consciência. E por ser algo que vem de dentro das pessoas, poderá ser natural e muito mais rápido e viável do que imaginamos... OSCAR MOTOMURA é fundador e diretor geral do Grupo Amana-Key, uma organização focada em inovações pela raiz de organizações complexas da área pública e privada.

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A VISÃO SISTÊMICA DA VIDA  

Ao longo dos últimos 35 anos, uma concepção radicalmente nova da vida emergiu na linha de frente da ciência contemporânea. Essa nova visão t...

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Ao longo dos últimos 35 anos, uma concepção radicalmente nova da vida emergiu na linha de frente da ciência contemporânea. Essa nova visão t...

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