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Ecos de um mundo que nunca existiu

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KELLY MOORE • TUCKER REED • LARKIN REED

Ecos de um mundo que nunca existiu

Tradução: MARTHA ARGEL HUMBERTO MOURA NETO

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Título do original: Neverwas. Copyright © 2014 Kelly Moore, Tucker Reed e Larkin Reed. Copyright da edição brasileira © 2014 Editora Pensamento-Cultrix Ltda. Texto de acordo com as novas regras ortográficas da língua portuguesa. 1a edição 2014. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou usada de qualquer forma ou por qualquer meio, eletrônico ou mecânico, inclusive fotocópias, gravações ou sistema de armazenamento em banco de dados, sem permissão por escrito, exceto nos casos de trechos curtos citados em resenhas críticas ou artigos de revistas. A Editora Jangada não se responsabiliza por eventuais mudanças ocorridas nos endereços convencionais ou eletrônicos citados neste livro. Esta é uma obra de ficção. Todos os personagens, organizações e acontecimentos retratados neste romance são produtos da imaginação do autor e usados de modo fictício. Editor: Adilson Silva Ramachandra Editora de texto: Denise de C. Rocha Delela Coordenação editorial: Roseli de S. Ferraz Produção editorial: Indiara Faria Kayo Editoração eletrônica: Fama Editora Revisão: Maria Aparecida A. Salmeron e Vivian Miwa Matsushita

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Moore, Kelly O tempo que nunca foi : ecos de um mundo que nunca existiu / Kelly Moore, Tucker Reed, Larkin Reed ; tradução Martha Argel, Humberto Moura Neto. — 1. ed. — São Paulo : Jangada, 2014. Título original: Neverwas. ISBN 978-85-64850-70-5 1. Ficção juvenil I. Reed, Tucker. II. Reed, Larkin. III. Título. 14-07441

CDD-028.5 Índices para catálogo sistemático: 1. Ficção : Literatura juvenil 028.5

Jangada é um selo editorial da Pensamento-Cultrix Ltda. Direitos de tradução para o Brasil adquiridos com exclusividade pela EDITORA PENSAMENTO-CULTRIX LTDA., que se reserva a propriedade literária desta tradução. Rua Dr. Mário Vicente, 368 — 04270-000 — São Paulo, SP Fone: (11) 2066-9000 — Fax: (11) 2066-9008 http://www.editorajangada.com.br E-mail: atendimento@editorajangada.com.br Foi feito o depósito legal.

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PARA LORE MOORE

Gramma, nossa mãe e avó, que sempre deu valor às vozes do passado, que falam conosco nas coisas que foram deixadas. Que nunca hesitou em incentivar nossos sonhos. Que deu a cada uma de nós nossa primeira “antiguidade”.

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Liam O’Malley 1651 -1702

Sorcha O’Shea 1653 -1703

Cathleen O’Malley 1680 -1737

Padraig Brennan 1674 -1733

Teague Brennan 1698 -1758 Thaddeus Dobson 1715 -1757

Cora Abernathy 1703 -1750

Moira Brennan 1722 -1759

Deirdre Dobson 1743 -1776

Capitão Joseph Foster 1730 -1797 (Casamento anterior com Lydia Crawley)

Matthew Foster 1762 -1775

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FamĂ­lias de

A mber H ouse Compiladas por Fiona Campbell Warren, em 1933

Sarah-Louise Foster 1762 -1835

Anderson Tate 1762 -1842

Eleanor Tate 1791 -1852

Gideon Atwood 1786 -1847

Bessie Atwood 1812 -1860

Quincy McCallister 1806 -1848

Maeve McCallister 1836 -1909 Jessamine Campbell 1881 -1926

Ambrose Webster 1824 -1895

Tobias Webster 1869 -1926

Fiona Campbell Webster Dennis Warren 1903 1900 Ida Warren 1933 -

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Uma aranha da cor do âmbar tecia uma teia diante de mim. Seus filamentos formavam um labirinto que, eu sabia, precisava desemaranhar para encontrar o tesouro oculto em seu coração. Segui o caminho tortuoso, os pés calçados com sapatilhas douradas, da cor do outono, a escuridão da noite dissipada por lanternas com velas, o tecido de meu vestido enganchando-se nos galhos repletos de folhas que formavam as paredes. À minha volta as sebes cresciam e se transformavam em uma floresta, mas eu sabia o caminho que a teia de aranha havia revelado. Direita, passa, direita, esquerda, passa, esquerda. Uma garotinha de branco me observava, seus olhos — olhos verdes — cheios de esperança. No centro do labirinto, encontrei o baú dentro da casa da aranha, coberto de arabescos que formavam palavras que sussurravam. A aranha ou a garotinha me tentou: — Não quer ver o que tem lá dentro? Ajoelhei-me no chão preto e branco diante do enigma da caixa, alisando suas faces para decifrar o segredo de como abri-la. Mas quando o fecho finalmente se soltou e a caixa se abriu, criaturas negras horríveis escapuliram, correndo apressadas com suas oito pernas. As criaturas escuras correram para as pessoas congeladas no centro do labirinto — Sam, mamãe e papai, Maggie, Jackson, Richard. Usei uma vassoura para afastar para longe as criaturas. Então peguei toda aquela gente que eu amava e coloquei em minha bolsa. Mas as criaturas correram e cobriram a garotinha de branco e ela desapareceu na minha frente, uma picada de aranha de cada vez. Fiquei olhando e chorando, e as lágrimas escorreram da barra de meu vestido. Ainda não podia pegar o tesouro. Precisava resolver o enigma de novo.

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C apítulo U m

Eu tinha 16 anos da segunda vez que dei meu primeiro beijo. Talvez todos nós tenhamos mais do que um primeiro beijo, talvez um número infinito deles, e simplesmente não nos lembremos. Primeiros beijos. Primeiros amores. Primeiras mágoas. Até acertarmos. Até nos tornarmos quem devemos ser. Mas desse primeiro beijo não quero me esquecer nunca. Então eu me obrigo a me lembrar de tudo. Do começo ao fim. O enfarte de minha avó no meio de outubro. Seu funeral, quando a enterramos ao lado de meu avô no cemitério da família, na colina acima do rio. As conversas secretas de meus pais, que eu escutava sem eles saberem: se poderiam voltar para “lá” agora, para Maryland, se as coisas tivessem mudado o suficiente. Os acontecimentos que nos levaram de volta, e nos lançaram para adiante. De novo.

A bonita casa vitoriana amarela na qual eu tinha crescido, à beira-mar, no lado oeste de Seattle, foi vendida apenas duas semanas depois que a corretora colocou no jardim a placa “Vende-se”. Trinta dias depois, papai, mamãe, meu irmão e eu estávamos a caminho da casa de minha avó, Amber House, que agora era nossa. No primeiro dia, quando chegamos em nossa van, eu dormindo no banco de trás, senti o lugar mesmo antes de vê-lo. Acordei com a sensação de que todos os pelinhos de meu braço se arrepiavam. Papai entrou com o carro pelo portão da frente, deixando no caminho coberto de neve um par solitário de sulcos de pneu. A casa erguia-se sobre a ribanceira do rio Severn, na borda de 11

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pastos circundados por bosques. Ela esperava lá, sob o céu cinzento do fim da tarde, observando com olhos vazios enquanto nos aproximávamos. A propriedade era famosa. Era uma das mansões mais antigas da América do Norte, tendo pertencido desde meados do século XVII a uma única família, a minha. Jardins dormentes rodeavam a casa, toda de madeira branca e tijolos, com pilastras e acabamento em verde. Mais do que majestosa, ela era sólida. Repleta de tempo. Minha avó costumava me contar como meus ancestrais, ao longo de trezentos e cinquenta anos, foram aumentando Amber House: uma ala aqui, uma varanda ali, uma sacada, uma torre. Década após década, geração após geração, século após século. Quando era criança, eu tinha uma vaga impressão de que a casa havia lentamente brotado da terra. Um lugar lindo. Uma casa notável, sem dúvida. Só que eu não queria morar ali. Eu me lembrei daquela vez em que, percorrendo seu labirinto de sebes, o pensamento de me tornar parte de Amber House me encheu de felicidade; mas naquele dia de dezembro em que nos mudamos para lá, já não me lembrava por quê. Não era só a saudade da casa que tínhamos deixado. Era como se algo estivesse fora de lugar, faltando, e só eu percebesse. Como a dor que se sente em um membro fantasma, que não dá para atenuar. A sensação tinha ficado mais forte ao cruzar a porta da frente. Eu havia estacado, olhando para todas as coisas de minha avó que eu conhecia tão bem, mas que agora já não eram familiares porque ela se fora. Foi como se eu as visse pela primeira vez como elas de fato eram: não só as coisas da minha avó, mas da avó dela, e da bisavó. Como se alguma espécie de fio, formado por lugares e pertences, nos unisse a todas através das gerações, nas duas direções. Uma linha da vida. Uma corrente. Vi o passado em tudo. O piso reluzente de tom dourado, polido pelos pés ao longo dos séculos. As cadeiras Windsor largas o suficiente para acomodar saias armadas e volumosas. O relógio alto de carrilhão, com estrelas pintadas em seu mostrador, ainda marcando os minutos entre o antes e o agora. Castiçais, livros encadernados em couro, porcelana frágil como folhas secas, o baú de 12

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viagem que havia dobrado o Cabo Horn, e uma parte de mim o acompanhara, no homem que o trouxera para Amber House. Tudo isso de algum modo exercia uma atração sobre mim. Como se eu devesse algo à casa. Como se as faces de meus ancestrais, pintadas a óleo e olhando-me a partir de todas as paredes, estivessem esperando. E, dia a dia, à medida que nos acomodávamos, a sensação aumentava. Do lado de fora não era melhor do que de dentro. O estábulo com o cheiro agridoce dos cavalos; a casa da árvore escondida nos galhos do velho carvalho; o píer no rio, onde o veleiro de meus avós, o Liquid Amber, repousava sobre blocos até a primavera; os corredores silenciosos do labirinto de sebes. Já não pareciam os lugares onde sempre adorei brincar, em todas as minhas visitas desde pequena. Mas eles não tinham mudado. Devia ter sido eu. Não me encaixava. Sentia-me incompleta, deficiente. Mais além das cercas que delimitavam a propriedade, porém, essa sensação diminuía. Então senti uma necessidade cada vez maior de fugir. No sábado seguinte à mudança, tentei convencer meu irmãozinho, Sammy, a ir de novo até Severna, a única cidade aonde podíamos ir caminhando. — Não. Estou ocupado, Sarah — ele respondeu. Estava sentado diante de um rádio desmontado, boa parte de suas entranhas espalhadas sobre a mesa. Ele tinha feito 6 anos um mês antes; esse Sammy mais crescido já não tinha o mesmo entusiasmo sem limites por meus vários planos e propostas. — Te compro um sorvete — eu disse. Ele deu um suspiro e observou o que era evidente: — Tá nevando. — Então um chocolate quente — insisti. — Você gosta de chocolate quente. Por fim ele concordou. Não porque quisesse o chocolate, mas porque tinha percebido que eu estava implorando. Já estávamos saindo pela porta da frente, quando minha mãe apareceu, vinda da sala de estar. — Vocês vão de novo para a cidade? — perguntou. Pelo visto, ela estava ficando preocupada com minha obsessão em ir a algum outro lugar. Encolhi os ombros. 13

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— Preciso comprar uma coisa. — O quê? Pensei em lhe dizer que precisava sair da casa, mas sabia que não ia conseguir explicar. — Chocolate — respondi. — Prometi para Sammy um chocolate quente. Os lábios dela se franziram de leve. Desde o diagnóstico de Sammy, ela havia alçado o conceito de “criação responsável” a uma forma de arte. Era quase um talento sobrenatural. Eu sabia que ela sabia que eu estava omitindo informação, mas decidiu deixar para lá. — Não solte a mão de Sammy... — ela começou, com seu costumeiro tom de voz agudo de nervosismo. — Não solte a mão dele na rua principal — concluí, concordando com a cabeça. Fechei a porta antes que ela pudesse pensar em mais algum conselho. Era uma caminhada de quinze minutos, a maior parte por um parque que se estendia entre Amber House e a cidade. Quando chegamos a Severna, retribuí a gentileza de Sammy em me acompanhar, levando-o à loja de ferragens. Meu irmão era fascinado por lojas de ferragens. Ele adorava conectar coisas, e os milhões de peças eram um tesouro para ele. Percorria os corredores como as pessoas percorrem um zoológico, olhando para as coisas estranhas e de vez em quando tocando alguma. Nessa visita, ele parou na seção de tubulações. Fiquei olhando-o por alguns minutos, enquanto ele construía um mapa de ruas no chão, usando tubos de cobre e cotovelos. Do outro lado do corredor dos tubos, uma dezena de Sarahs em uma dezena de espelhos de maquiagem me olhava. Cada superfície mostrava uma garota um pouquinho diferente: mais alta, mais larga, mais angulosa, mais rosada. Um dos espelhos tinha raias douradas. Sua Sarah refletida numa teia metálica. Encarei as imagens. Nos últimos meses, alguma coisa no meu reflexo me surpreendia, o tempo todo. Uma voz soou atrás de mim. — Aqui não é uma loja de brinquedos. Virei-me, assustada e envergonhada. Era o dono. 14

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— Desculpe, vou colocar todas as peças de volta no lugar, agora mesmo — garanti. — Tenho certeza de que vai — ele respondeu, afastando-se. Arrumamos tudo e saímos de fininho, emergindo no meio de uma multidão em movimento. As calçadas tinham ficado cheias de pessoas que iam para o centro da cidade. — O que é isso, Sarah? — perguntou Sammy. — Não sei, carinha. Alguém gritou meu nome. — Parsons! Busquei entre rostos desconhecidos e finalmente vi Richard Hathaway com o olhar cravado em mim. Cabelos cor de trigo sobre a pele bronzeada, olhos azul-topázio, um rosto quadrado que emoldurava um sorriso quadrangular, só um pouquinho torto. Era sem sombra de dúvida o rapaz mais bonito que eu já conhecera. E ainda por cima atlético, divertido, charmoso e inteligente. O filho de velhos amigos de meus pais, que também eram nossos vizinhos. Do meu ponto de vista, Richard talvez fosse a única vantagem verdadeira de morarmos em Maryland. — Hathaway — respondi. — Precisando de pregos? — perguntou. Devo ter feito cara de quem não entendeu nada, porque ele indicou a loja com a cabeça. — Ah, não, é que o Sam adora lojas de ferragens — exclamei. — Sério? Não brinca! — exclamou para Sam. — Eu também! O rosto de Sam se iluminou. Não consegui pensar em nada para dizer, então puxei Sam na direção em que a multidão se movia, e comecei a andar. A rua principal de Severna, um trecho curto de prédios comerciais mais antigos, a maioria de madeira, ficava uma quadra para o norte. — Estamos indo para a drogaria. — Seção de doces? — adivinhou Richard, passando a nos acompanhar. — Aliás, parabéns por ter sido aceita na S. I. 15

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S. I., ou Academia Saint Ignatius, era a escola superexclusiva à qual meus pais haviam exigido que eu me candidatasse. Dei de ombros. — Acho que minha mãe não deu a eles muita escolha. Ele sorriu. — Acho que meu pai também não. O senador está mexendo os pauzinhos para mim? Fiquei imaginando por quê. Claro que eu sabia que uma escola classe A como a S. I. precisava um bom motivo para aceitar uma estudante classe B como eu, mas ninguém tinha me falado que aquilo era coisa do senador. Então tinha sido isso. A massa de gente logo adiante havia se aglomerado numa multidão que lotava a calçada e transbordava para a rua. Parecia que todos olhavam para algo acontecendo debaixo da marquise do Cinema Palace. À medida que nos aproximamos da drogaria da esquina, ouvi uma cantoria, e a voz metálica de alguém soando num alto-falante. Richard nos deteve na porta da farmácia Lane. — Vocês não estão indo para aquela confusão, estão? Sorri, porque a voz dele tinha o mesmo tom bem-intencionado de preo­ cupação que a da minha mãe. — Não, vamos entrar para obter minha dose de chocolate — respondi. — Sua viciada. — Ele sorriu e se afastou, acenando, indo juntar-se à “confusão” contra a qual tinha acabado de nos alertar. Sam e eu, parados na porta da drogaria, vimos quando ele se fundiu com a multidão. Então Sam disse: — Quero ver. Ele avançou e eu o segui. Também queria ver. Quando chegou à multidão, Sammy executou uma de suas clássicas manobras de desaparição, enfiando-se por entre as pernas das pessoas. — Sam, pare! — ordenei, mas por milímetros não consegui agarrar o capuz do casaco dele. Comecei a empurrar para passar, pedindo desculpas, espremendo-me entre casacos de inverno e cachecóis. — Com licença, posso passar? Tenho que pegar meu irmãozinho. Encontrei-o na fila da frente, as pontas dos pés se projetando para fora do meio-fio. Segurei com firmeza o capuz do casaco. — Sam, você não pode sair correndo desse jeito. 16

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Ele apontava para a cena do outro lado da rua. — Está vendo ele, Sarah? — Quem? — Ergui os olhos, tentando ver, no instante exato em que um policial parou bem na minha frente, suas costas formando uma parede sólida. Usava coturnos pretos, capacete e uniforme, e por seu corpo robusto concluí que usava colete à prova de balas. Na mão direita, segurava um cassetete preto e brilhante. — Quem, Sam? — repeti, esticando-me para olhar pela lateral do corpo do policial. Sam tornou a apontar. — Lá! Um homem veio correndo pela rua, diante da multidão, gritando algo que só consegui ouvir em parte: algo, algo, movam-se, algo, algo, “spray de pimenta”. O policial deu meio passo à frente, e por um instante tive medo de que fosse­acertar o homem com o cassetete. Mas o homem seguiu em frente, ainda gritando.­ — O que foi que ele disse? — perguntei em voz alta, sentindo que devia pegar Sam e ir embora. — O que está acontecendo? O policial virou a cabeça para me fitar, anônimo dentro da casca rígida de seu capacete. — Uma manifestação. — Sua voz saiu de dentro do capacete, eletronicamente. — Não é lugar para uma mocinha. Eu detestava esse papo de “você não está fazendo o que uma boa menina devia fazer”. — Se eu encontrar alguma mocinha, aviso a ela — eu disse, com um sorriso. Senti os olhos dele se apertando por trás do visor escuro; deu uma sensação de frio na barriga, mas continuei sorrindo para ele. Felizmente, Sammy me deu uma desculpa para desviar o olhar. — Jackson! Jackson! — ele dava pulinhos, sacudindo um braço no ar. A multidão recuou para a esquerda, abrindo caminho para um policial a cavalo, e finalmente consegui ver o que todo mundo olhava: duas fileiras de pessoas, os braços entrelaçados, estavam de pé em frente ao cinema. Examinei os rostos até encontrar Jackson no lado direito, entre dois outros homens. O homem à esquerda dele parecia aterrorizado. Vi a respiração quente saindo de 17

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sua boca em rápidas nuvens, o punho cerrado apertando um lenço amarelo que destoava pela cor alegre. Jackson parecia calmo, determinado. — JACK-SON! — Sam gritou com toda a força. A cabeça de Jackson virou depressa. Ele olhou em volta, confuso, preocupado, tentando localizar aquela voz de passarinho. Seus olhos encontraram os meus e se arregalaram. Os sons da multidão aumentaram e ficaram mais agudos. Ouvi rosnados e vi três pastores alemães fazendo força para se soltar de suas correntes. Soaram alguns estampidos abafados, e objetos arredondados de metal passaram num arco sobre nossas cabeças, deixando rastros de fumaça, e caíram na rua, espalhando uma nuvem cada vez mais densa. Foi quando as pessoas começaram a gritar e a correr. Ao meu redor, a multidão se agitou, espalhando-se em todas as direções. O capuz de Sammy soltou-se de minha mão. A nuvem de fumaça nos alcançou e meus olhos arderam. Comecei a tossir e me dobrei, com o espasmo se prolongando e prolongando até que fiquei sufocada, incapaz de respirar. Dedos firmes agarraram meu pulso. Olhei para cima e, através de uma cortina de lágrimas, vi Richard com Sammy sobre um dos ombros, erguido acima da maior concentração do gás. — Vocês não deviam estar aqui — ele disse. — Vamos! Ele me puxou bem na hora em que uma horda de policiais de uniformes pretos correu pela rua. Dois policiais seguravam o bico de uma mangueira de bombeiros, jorrando água nos manifestantes em frente ao Palace. Corri atrás de Richard, aos tropeções, perguntando-me como alguém podia achar que aquelas pessoas mereciam levar um banho de mangueira naquela temperatura abaixo de zero, em pleno mês de dezembro. Corri, cambaleando, por todo o longo quarteirão, de volta à loja de ferragens, onde precisei parar. Apoiei-me numa parede e vomitei. Um lenço apareceu em meu campo de visão. — Você aguenta, Parsons? — perguntou Richard. — Acho que sim — respondi, recusando o lenço com a mão. — Não posso aceitar. — Pode sim. Saiu limpinho de minha gaveta, onde tenho outros quinhentos. 18

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Pegando minha mão, colocou o lenço nela e a apertou. Limpei os olhos e a boca. — O que foi aquilo? — consegui dizer, entre acessos de tosse. — Por que fizeram isso? — Um protesto — Richard respondeu. — O chefe de polícia leva para o lado pessoal. Ele colocou meu irmão no chão e pôs a mãozinha de Sam na minha. — Leva sua irmã para casa, tá, Sammy? Eu preciso voltar lá. — Contra o que estavam protestando? — perguntei. — O Palace ainda obriga os negros a ficarem só no mezanino. Senti náuseas de novo. Severna podia ser parecida com qualquer cidadezinha de Astoria, mas fazia parte de uma sociedade que para mim era totalmente estranha. Eu estava num país que ainda justificava espaços “separados mas iguais” para as raças. Não que “separado” tivesse um dia sido realmente “igual”. Nunca antes eu vira toda a extensão daquela barbárie; não de forma tão marcada, tão violenta. Eu não conseguia acreditar que havia lugares no mundo que ainda praticavam o racismo institucionalizado, em pleno século XXI. Que isso ainda acontecia naquele lugar, a terra natal de minha família. Que agora era meu lar: a Confederação dos Estados Americanos.

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O TEMPO QUE NUNCA FOI - AMBER HOUSE II  

Depois da morte da avó, Sarah Parsons vai morar em Amber House, a centenária propriedade que pertence à sua família há gerações. Mas Sarah c...

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