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veracidade exatamente como as há para a digestão, o movimento muscular, o calor animal. O vício e a virtude são produtos como o vitríolo e o açúcar”. Quando lemos tais proclamações do intelecto empenhado em mostrar as condições existenciais de tudo, nós nos sentimos – independentemente da nossa legítima impaciência pela presunção um tanto ridícula do programa, em vista do que os autores são realmente capazes de realizar – ameaçados e negados nas origens de nossa vida mais íntima. Achamos que tais confrontos a sangue-frio ameaçam desfazer os segredos vitais da nossa alma, como se o mesmo sopro que deveria explicar-lhes a origem lhes explicasse de maneira muito plausível, ao mesmo tempo, o significado e os fizesse parecer não mais preciosos do que os úteis artigos de mercearia de que nos fala o Sr. Taine. Talvez a expressão mais comum da suposição de que o valor espiritual se anula quando se lhe afirma a origem inferior se encontre nos comentários que as pessoas não sentimentais fazem com tanta frequência a respeito dos seus conhecidos mais sentimentais. Alfredo acredita na imortalidade com tanta força porque seu temperamento é muito emocional. A consciência extraordinária de Fanny deve-se apenas à hipersensibilidade dos seus nervos. A melancolia de Guilherme a respeito do universo é fruto da má digestão – o seu fígado, provavelmente, funciona mal. O prazer que Elisa encontra na igreja é um sintoma de sua constituição histérica. Pedro estaria menos perturbado em relação à própria alma se fizesse mais exercícios ao ar livre etc. Um exemplo plenamente desenvolvido do mesmo tipo de raciocínio é a moda, muito comum hoje em dia entre certos escritores, de criticar as emoções religiosas mostrando uma conexão entre elas e a vida sexual. A conversão é uma crise da puberdade e da adolescência. As macerações dos santos e a devoção dos missionários são apenas manifestações de uma perversão do instinto paterno de autossacrifício. Para a monja histérica, que tem forma de vida natural, Cristo é apenas o substituto imaginário de um objeto mais terreno de afeição. E assim por diante.1 1

Como acontece com minhas ideias que flutuam no ar de determinada época, essa noção não encontra uma proposição geral dogmática e se expressa apenas parcial e indiretamente. A mim me parece que poucas concepções são menos instrutivas do que esta reinterpretação da religião como sexualidade pervertida. Ela nos lembra, tão grosseiramente é empregada a todo momento, a famosa zombaria católica, de que a Reforma será mais bem compreendida

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Primeiro capítulo variedades da experiência religiosa  

Primeiro capítulo variedades da experiência religiosa  

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