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me deu liberdade para agir: então, depois de haver lavado os pés, voltei a calçar os sapatos. A seguir, entrei a pensar seriamente no motivo por que me teria sido ordenado deblaterar contra aquela cidade e chamar-lhe “A cidade sangrenta!” Pois se bem o parlamento acompanhasse o ministro numa época e o rei em outra, e muito sangue houvesse sido derramado na cidade durante as guerras entre eles, o mesmo sucedera em muitos outros lugares. Mais tarde, porém, vim a saber que, no tempo do imperador Diocleciano, mil cristãos tinham sido martirizados em Lichfield. Por isso eu devia atravessar-lhes, descalço, o rio de sangue e o charco de sangue na praça do mercado, para poder despertar a lembrança do sangue daqueles mártires, derramado mais de mil anos antes, e ora jazendo frio nas suas ruas. Assim, o sentido desse sangue estava em mim e eu obedeci à palavra do Senhor.

Por mais ocupados que estejamos em estudar as condições existenciais da religião, não nos é possível desprezar esses aspectos patológicos do assunto. Precisamos descrevê-los e nomeá-los exatamente como se ocorressem em homens irreligiosos. É verdade que, instintivamente, relutamos em ver um objeto a que estão ligadas nossas emoções e afetos tratado pelo intelecto como qualquer outro objeto é tratado. A primeira coisa que faz o intelecto com um objeto é classificá-lo juntamente com alguma outra coisa. Mas parece-nos que qualquer objeto infinitamente importante para nós e que nos desperta a devoção também deve ser sui generis e único. É provável que um caranguejo se enchesse de indignação ouvindo-nos classificá-lo, sem mais cerimônia, de crustáceo e, assim, liquidar o assunto. “Não sou nada disso”, diria ele. “Eu sou EU, só EU.” Em seguida, o intelecto expõe as causas que deram origem à coisa. Diz Spinoza: “Analisarei as ações e apetites dos homens como se fossem uma questão de linhas, planos e sólidos”. E em outro passo observa que considerará nossas paixões e suas propriedades com os mesmos olhos com que olha para todas as outras coisas naturais, visto que as consequências de nossas afeições fluem da sua própria natureza com a mesma necessidade que resulta da natureza de um triângulo o serem seus três ângulos iguais a dois ângulos retos. De maneira semelhante, o Sr. Taine, na introdução à sua história da literatura inglesa, escreveu: “Não importa que os fatos sejam morais ou físicos. Há causas para a ambição, a coragem, a

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Primeiro capítulo variedades da experiência religiosa  

Primeiro capítulo variedades da experiência religiosa  

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