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Esse prólogo conta que a princesa Sêmele havia sido prometida por seu pai Cadmos ao príncipe Atamas. Como Sêmele não queria esse casamento, ela implorou por salvação a Zeus, que a raptou sob a forma de uma águia e a levou a um lugar escondido onde ambos puderam viver seu amor, até o caso ser descoberto por Hera.2 Ainda durante a apresentação da ópera, senti que ali não se estava apenas contando uma mera história antiga e insignificante, cuja única função seria dar ensejo à música e ao belo canto. Händel e seu libretista já haviam visto refletido na história um conflito bem atual, vivido na corte inglesa da época: o conflito entre a virtude, as conveniências e as razões de Estado por um lado e, por outro, o amor espontâneo e a paixão. Em Zeus poderia o rei inglês George II reconhecer-se, em Hera sua esposa e, em Sêmele, sua favorita alemã.3 O diretor da apresentação enfatizou essa intenção dos autores ao vestir os personagens da história em trajes do século XVIII, expandindo assim e universalizando a interpretação. E dessa forma desenrolou-se no palco, diante dos meus olhos, um drama atualíssimo que eu recentemente havia encontrado no meu trabalho: o drama do triângulo amoroso. Em Zeus, o pai dos deuses que se apresenta incógnito, vi de repente o gerente de uma empresa, sentado à minha frente no meu consultório, o homem bem-sucedido, pai de família, competente e responsável, mas agora transtornado e profundamente abalado por ter-se acabado o romance com Hans Jellouschek

Semele, Zeus e Hera.indd 9

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Primeiro capítulo semele, zeus e hera grafica  

Primeiro capítulo semele, zeus e hera grafica  

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