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Biblioteca Psicologia e Mito

HANS JELLOUSCHEK

SÊMELE, ZEUS E HERA Um Estudo sobre a Mitologia Arquetípica por Trás dos Triângulos Amorosos

Tradução Merle Scoss

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Título do original: Semele, Zeus und Hera – Die Rolle der Geliebten in der Dreiecksbeziehung Copyright © Kreuz Verlag AG, Zurique, 1987. Copyright da edição brasileira © 1992 Editora Pensamento-Cultrix Ltda. 1ª edição 1992. 2ª edição 2017. Texto de acordo com as novas regras ortográficas da língua portuguesa. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou usada de qualquer forma ou por qualquer meio, eletrônico ou mecânico, inclusive fotocópias, gravações ou sistema de armazenamento em banco de dados, sem permissão por escrito, exceto nos casos de trechos curtos citados em resenhas críticas ou artigos de revistas. A Editora Cultrix não se responsabiliza por eventuais mudanças ocorridas nos endereços convencionais ou eletrônicos citados neste livro. Editor: Adilson Silva Ramachandra Editora de texto: Denise de Carvalho Rocha Gerente editorial: Roseli de S. Ferraz Produção editorial: Indiara Faria Kayo Editoração eletrônica: Join Bureau Revisão: Bárbara Parente Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Jellouschek, Hans Sêmele, Zeus e Hera: um estudo sobre a mitologia arquetípica por trás dos triângulos amorosos/ Hans Jellouschek ; tradução Merle Scoss. – 2. ed. – São Paulo: Cultrix, 2017. (Biblioteca psicologia e mito). Título original: Semele, Zeus und Hera : die Rolle der Geliebten in der Dreiecksbeziehung Bibliografia ISBN: 978-85-316-1418-7 1. Adultério 2. Amantes 3. Arquétipo (Psicologia) 4. Mitologia grega - Psicologia I. Título. 17-05965

CDD-306.736 Índices para catálogo sistemático: 1. Adultério : Psicologia social : Sociologia 306.736

Direitos de tradução para a língua portuguesa adquiridos com exclusividade pela EDITORA PENSAMENTO-CULTRIX LTDA., que se reserva a propriedade literária desta tradução. Rua Dr. Mário Vicente, 368 — 04270-000 — São Paulo, SP Fone: (11) 2066-9000 — Fax: (11) 2066-9008 http://www.editoracultrix.com.br E-mail: atendimento@editoracultrix.com.br Foi feito o depósito legal.

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SUMÁRIO

Um triângulo amoroso no Olimpo .............................

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Carta a Hera .............................................................

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Carta a Zeus .............................................................

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Carta a Sêmele ..........................................................

35

A amante como cúmplice ..........................................

43

A amante como fator de equilíbrio .............................

55

A filhinha querida do papai .......................................

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Zeus e Hera precisam de Sêmele ................................

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As relações no triângulo amoroso ...............................

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Dioniso – o filho de Sêmele .......................................

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Carta de uma amante ................................................

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O que teria acontecido se... .......................................

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Notas........................................................................

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UM TRIÂNGULO AMOROSO NO OLIMPO

A mitologia greco-romana nos transmite, através de vários autores da antiguidade,1 a seguinte história: “Zeus, o pai dos deuses, amou a mortal Sêmele, filha dos reis tebanos Cadmos e Harmônia, da estirpe de Agenor, e manteve com ela – disfarçado sob forma humana – uma relação clandestina. Mas o caso foi descoberto pela deusa Hera, esposa legítima de Zeus. Enciumada, ela

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tramou vingança: Tomou a forma da ama de Sêmele, entrou despercebida no palácio real e insinuou a Sêmele que ela ganharia honras celestes se convencesse Zeus a mostrar-se em sua forma divina. Sêmele caiu na armadilha. E persuadiu Zeus a lhe prometer que lhe satisfaria um desejo secreto. Zeus concordou e ela então exigiu vê-lo em sua verdadeira forma. Zeus, comprometido por sua palavra divina, na visita seguinte que fez aos aposentos de Sêmele mostrou-se paramentado com os símbolos de seu poder olímpico: as nuvens, a chuva, os ventos, o trovão e seu raio fulminante. Ela não suportou esse poder e foi fulminada pelo relâmpago. Do ventre dela, no sexto mês de gravidez, Zeus extraiu a criança e enxertou-a na própria coxa, onde a manteve até seu nascimento. Essa criança foi o deus Dioniso, que libertou Sêmele dos infernos e com ela, tornada imortal, ascendeu aos céus dos deuses.” Fiquei conhecendo essa história em 1985 através da ópera Sêmele, de Georg Friedrich Händel (1685-1759), em uma belíssima apresentação no Festival de Ludwigsburg. Händel havia usado para a composição um libreto do poeta inglês W. Congreve (1670-1729), famoso na época, que havia desenvolvido a história com a ajuda de material mitológico de outros contextos e lhe incorporado um prólogo.

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Esse prólogo conta que a princesa Sêmele havia sido prometida por seu pai Cadmos ao príncipe Atamas. Como Sêmele não queria esse casamento, ela implorou por salvação a Zeus, que a raptou sob a forma de uma águia e a levou a um lugar escondido onde ambos puderam viver seu amor, até o caso ser descoberto por Hera.2 Ainda durante a apresentação da ópera, senti que ali não se estava apenas contando uma mera história antiga e insignificante, cuja única função seria dar ensejo à música e ao belo canto. Händel e seu libretista já haviam visto refletido na história um conflito bem atual, vivido na corte inglesa da época: o conflito entre a virtude, as conveniências e as razões de Estado por um lado e, por outro, o amor espontâneo e a paixão. Em Zeus poderia o rei inglês George II reconhecer-se, em Hera sua esposa e, em Sêmele, sua favorita alemã.3 O diretor da apresentação enfatizou essa intenção dos autores ao vestir os personagens da história em trajes do século XVIII, expandindo assim e universalizando a interpretação. E dessa forma desenrolou-se no palco, diante dos meus olhos, um drama atualíssimo que eu recentemente havia encontrado no meu trabalho: o drama do triângulo amoroso. Em Zeus, o pai dos deuses que se apresenta incógnito, vi de repente o gerente de uma empresa, sentado à minha frente no meu consultório, o homem bem-sucedido, pai de família, competente e responsável, mas agora transtornado e profundamente abalado por ter-se acabado o romance com Hans Jellouschek

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sua colega de trabalho – jovem, bonita e simpática como Sêmele. Sua esposa o igualava em força e competência, uma verdadeira Hera, uma deusa protetora do casamento e da ordem doméstica, e estava profundamente ofendida, ameaçando vingança se ele não terminasse o caso de imediato. Como Zeus e Hera, estavam os dois em pé de guerra; como Sêmele, estava a amante no meio: tão poderosa quanto ela, que provocou aquela explosão de emoções, e tão frágil quanto ela, “mortal” sem acesso ao “mundo do Olimpo” onde os dois “deuses” decidiam seu conflito pelas armas. Vieram-me à mente muitos triângulos desse tipo, com as quais eu tinha tido contato recentemente, nas minhas relações sociais e no meu trabalho de terapeuta de casais e, assim como terminou a ópera, terminaram também muitos desses triângulos amorosos: a amante precisava morrer. A ordem seria restabelecida. Hera triunfaria e Zeus seria novamente seu marido. Numa alusão às leis imutáveis da “Mecânica do Universo” de Newton, Händel e seu libretista compararam Sêmele, a amante, a um cometa que arde por um breve instante e depois se apaga no universo para novamente dar lugar à ordem estável dos astros. Ao final da ópera o coro canta: “Oh, horror, terrível desilusão e consternação! Nosso caminho está traçado pela natureza. Mas os seduzidos são jogados para fora da estrada. Os dados são lançados e nos tiram o equilíbrio, resta de nosso destino apenas névoas e loucura.”4 O conflito foi claramente decidido em favor

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da instituição do casamento, da ordem e da razão. Mas, no fundo, foi apenas Sêmele quem perdeu? Não perderam também Zeus e Hera? Isso é sugerido pelos lamentos comoventes da amante, pelas brigas de Zeus e pela bizarra ária de triunfo que ele deixa Hera cantar. É verdade que houve ainda o anúncio da libertação e do nascimento de Dioniso que, na ópera, é atribuído ao deus Apolo que surge nos céus à maneira de um deus ex machina. Entendido por Händel e seu libretista como simbolizando o anúncio do “novo deus” Jesus, redentor dos pecados,5 esse nascimento é arbitrário e superficial e foi interpretado pelo diretor como uma simples ironia, ao fazer os acontecimentos se encerrarem numa embriaguez total enquanto o coro celebrava a nova “era da inocência”. O significado deveria ser: a ordem foi novamente restabelecida: a paixão, a dedicação e o amor que a perturbaram precisam ser sufocados e sublimados. Seria essa a interpretação correta do mito? Quanto mais eu me ocupava do assunto, menos ela me satisfazia. Comecei a ocupar-me mais intensamente com os triângulos amorosos dos deuses e suas inúmeras variações no campo dos meus relacionamentos. Estimulado pelos personagens e pelos enredos das histórias, comecei a conversar sobre eles, a discuti-los com as pessoas envolvidas. Descobri que existem – sintoma da crescente igualdade de direitos entre homem e mulher – inúmeros triângulos amorosos onde o terceiro vértice é o amante da Hans Jellouschek

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mulher, mas ainda não segui a pista desses casos. Mesmo deixando tais casos à parte, eu queria confrontar com clareza a infinita variedade dos diversos papéis e padrões de comportamento dentro das constelações triangulares. Encontrei sempre estruturas, conexões e processos muito semelhantes à história do triângulo Zeus-Hera-Sêmele. O casal e a amante do marido pareciam assumir, em experiências e combinações mútuas, os atributos e padrões de conduta de Hera, Zeus e Sêmele. O comportamento do casal mostrava, com frequência, particularidades semelhantes às do casal de deuses e, do pouco que nos diz a mitologia sobre os antecedentes do casal e de Sêmele, acreditei poder traçar surpreendentemente paralelos com os antecedentes dos elementos do triângulo amoroso. Eu sabia que se tratava de projeções. Muitas vezes o marido, por causa da própria consciência culpada, era o primeiro a fazer da esposa uma deusa Hera rigorosa, apenas interessada em restabelecer a honra e a ordem; muitas vezes, sua superioridade “zeusiana” era apenas um produto dos anseios da amante ou a sensualidade irresistível da amante era apenas uma transferência da frustração represada do marido. As semelhanças com as formas do mito se originam no número de pessoas envolvidas, na sua perplexidade e na sua própria inexperiência. Na maioria dos casos a realidade era muito menos sublime e seu desfecho, de menor grandeza trágica.

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No entanto, era evidente que esta era apenas uma face da verdade. Pois tais fantasias e projeções manifestam também, simultaneamente, os protótipos de nossa alma, as formas arquetípicas e os desenvolvimentos da expressão, dos quais todos nós compartilhamos, com os quais nos confrontamos sempre e por toda a parte, e que se transformaram nas figuras e eventos das narrativas mitológicas. Daí derivou, enfim, a analogia que descobrimos entre Zeus e o marido, entre Hera e a esposa, entre Sêmele e a amante. Tais formas e constelações arquetípicas afloram precisamente nos acontecimentos incisivos e nos pontos de mutação de nossas vidas, que podem ser vivenciados também como experiências triangulares. Quando estamos atentos e examinamos os acontecimentos, não apenas na superfície mas também nas suas formas arquetípicas, novas perspectivas espirituais abrem-se para nós nas mais difíceis situações. Se isso não ocorre, as oportunidades dessas crises são desperdiçadas, a evolução é evitada e a cristalização se instala. Não há dúvida de que Zeus-Hera-Sêmele não participam de um triângulo qualquer, mas sim de um triângulo arquetípico que aflora e se faz atual por trás de muitas das nossas histórias de triângulos “terrestres”. Entretanto, na maior parte das vezes, evitamos uma discussão sincera nesse nível. Com frequência, o triângulo amoroso torna-se um tabu e é moralmente condenado ou, ao contrário,

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é declarado um caso normal. Em qualquer dos casos, fica faltando uma discussão sincera. O primeiro caso, “conservador”, evita a discussão através do estabelecimento da culpa e do dever moral. A amante ou o marido são simplesmente culpados e ele, o homem, precisa voltar para sua família (ou guardar melhor o segredo – um ponto de vista que é bastante compreensível nessa postura conservadora). A própria linguagem denuncia como é depreciativa e cínica essa postura: o homem “trai”, “se afasta”, “pula a cerca”. A amante existe apenas como objeto do desejo e das necessidades do homem, ou como uma sedutora irresponsável. Aqui – como na ópera – as aparências exteriores se restabelecem ao máximo, mas não se alude às questões humanas que haviam sido colocadas. Em paralelo, encontramos hoje cada vez mais um tratamento “progressista” de tolerância ao triângulo amoroso. É cada vez mais frequente o triângulo ser aberto e até mesmo discutido – pelos três envolvidos. Foram feitas tentativas para permitir relações extraconjugais ocasionais ou até duradouras, e encontramos até mesmo a tentativa mais diferente de viverem os três juntos, em paz. Assim, sem dúvida, experiências importantes são feitas. Processos de desenvolvimento podem desdobrar-se sem serem sufocados no embrião. Mesmo assim, às vezes tenho a impressão de que, assim como os “moralistas” simplificam a questão

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com seu julgamento do tipo preto no branco, o mesmo fazem os “tolerantes” com sua liberalidade. Essa última é, se examinarmos bem, tão cruel para com as necessidades próprias e dos outros quanto o rigor moral. E fica, da mesma forma, apenas na superfície. Pois essa atitude, ao impor a obrigação de “dar o consentimento” ao outro ou de “precisar esperar o mesmo” do outro, evita uma discussão aberta tanto quanto o faz o dever moral de romper a relação extraconjugal e voltar para casa. Nos dois casos, trata-se de afastar, de modo semelhante, as questões reais que foram levantadas. O resultado final em ambos os casos é, com frequência, cinismo, resignação e frustração, como também é sugerido sutilmente no texto da ópera de Händel, O que eu gostaria de conseguir com este livro é um tanto diferente: eu gostaria que você, cara leitora e caro leitor, quando participasse como pessoa envolvida, travasse conhecimento sobretudo com a Sêmele dentro de você, com a Hera dentro de você, com o Zeus dentro de você. Eu gostaria de promover um encontro entre você e essas formas arquetípicas. Eu sei, é claro, que um encontro sincero não é simples. Ele pode até mesmo degenerar em um combate, assim como o patriarca Jacó lutou à beira do rio com um estranho misterioso.6 Pode até ser que você, como ele, se fira na luta. Mas eu sei que se você não desistir, se você lutar “até o raiar do dia”, você será abençoado como Jacó. E aí as formas míticas trarão em si a sabedoria dos séculos, destinada a nos ensinar o caminho do amor. Hans Jellouschek

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CARTA A HERA

Hera, venceste a batalha. Sêmele foi fulminada e tu o tens de volta, o teu Zeus. Mas será que realmente o tens de volta? Ele voltou para casa – mas não por amor, voltou por medo e resignação. Aos olhos dele, tu o forçaste a destruir Sêmele. Ele vai se sentir ofendido e planejar vingança. O que ganhaste, afinal? Talvez tempo. Sim, ganhaste tempo, e de tempo precisas agora. Pois o tempo, diz-se, cura muitas feridas. E feridas – feridas sofrestes muitas, profundas e dolorosas feridas. É doloroso que

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tu não valesses mais do que a rival mais jovem e atraente, que ela fosse “melhor” e tu “já não servisses mais”. E também dói que toda a tua dedicação e tudo aquilo que vós vivestes e construístes juntos, de repente não tenham mais nenhum significado, e que outra tenha tocado uma corda sensível no coração dele, que talvez nunca tenhas conseguido fazer vibrar... Sim, precisas de tempo para poder curar as feridas que esse caso de amor infligiu à tua alma. E quando elas estiverem curadas, o que terás ganho? Talvez a antiga situação. É este teu objetivo: restabelecer a antiga ordem das coisas? Era essa ordem assim tão boa, que valha a pena restabelecê-la? Hera, corres o risco de enganar a ti mesma, de te convenceres de que tudo foi apenas por culpa dessa mulher, de rostinho bonito e seios firmes. Sabes muito bem que o teu casamento, mesmo bem antes de Zeus ter enlouquecido por ela, já estava deteriorado. Mesmo antes, só havia entre vós brigas e conflitos. Mas, ouço-te dizer que havia também os filhos, havia a carreira dele que tanto encorajaste, havia todas aquelas coisas que construístes juntos – então isso não conta? Claro que conta, não estou negando nada disso, deste o melhor de ti e querias o melhor, vós conseguistes muito, são pessoas competentes. Mas não é esse o ponto. A minha pergunta é: o que aconteceu ao vosso amor?

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Primeiro capítulo semele, zeus e hera grafica  
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