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Barry Strauss

tradução Davi Emídio Rago


Copyright © 2015, Barry Strauss Copyright do projeto © 2017, Editora Pensamento-Cultrix Ltda. Texto de acordo com as novas regras ortográficas da língua portuguesa. 1a edição 2017. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte deste livro pode ser reproduzida ou usada de qualquer forma ou por qualquer meio, eletrônico ou mecânico, inclusive fotocópias, gravações ou sistema de armazenamento em banco de dados, sem permissão por escrito, exceto nos casos de trechos curtos citados em resenhas críticas ou artigos de revistas. A Editora Seoman não se responsabiliza por eventuais mudanças ocorridas nos endereços convencionais ou eletrônicos citados neste livro. Coordenação editorial: Manoel Lauand Capa e projeto gráfico: Gabriela Guenther Editoração eletrônica: Estúdio Sambaqui

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Strauss, Barry A morte de César : Roma antiga e o assassinato mais famoso da história / Barry Strauss ; tradução Davi Emídio Rago. -- 1. ed. -- São Paulo : Seoman, 2017. Título original: The death of Caesar : the story of history’s most famous assassination. ISBN: 978-85-5503-055-0 1. Cesar, Julio, 101 A.C.-44 A.C. - Assassinato I. Título. 17-06402 CDD-937 Índices para catálogo sistemático: 1. Roma antiga : História 937

Seoman é um selo editorial da Pensamento-Cultrix. Direitos de tradução para o Brasil adquiridos com exclusividade pela EDITORA PENSAMENTO-CULTRIX LTDA. R. Dr. Mário Vicente, 368 – 04270-000 – São Paulo, SP Fone: (11) 2066-9000 – Fax: (11) 2066-9008 E-mail: atendimento@editoraseoman.com.br http://www.editoraseoman.com.br Foi feito o depósito legal.


Para Marcia


Índice Nota do Autor e Nota do Tradutor 8 Cronologia 9 Elenco dos Personagens 11 Parte Um RETORNO A ROMA 1. Cavalgando com César 2. Os Melhores Homens 3. Decisão em uma Villa 4. O Último Triunfo de César

23 34 47 65 Parte Dois

SANGUE SOBRE AS PEDRAS 5. O Nascimento de uma Conspiração 6. Precisa-se de Assassinos 7. César Deixa sua Casa 8. Assassinato 9. Uma República na Balança 10. Um Funeral para Ser Lembrado

85 104 124 144 160 183

Parte Três O CAMINHO DE VOLTA 11. A Luta pela Itália 12. Vingança 13. Augusto

207 230 250

Agradecimentos 259 Uma Nota sobre as Fontes 263 Notas 285


Nota do Autor A grafia dos nomes antigos adota como padrão de referência The Oxford Classical Dictionary, 3.ª edição (Oxford: Oxford University Press, 1999). As traduções de trechos em grego e latim são de minha autoria, exceto nos casos devidamente assinalados.

Nota do Tradutor Em vez da latina, preferimos empregar a grafia portuguesa, já consagrada pelo uso, para os nomes próprios e topônimos mais conhecidos (“Júlio César”, “Marco Antônio”, “Milão”, “Nápoles” etc.), mantendo a forma original dos demais.

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Cronologia 13 de julho de 100 a.C 3 de outubro, circa 86 circa 85 14 de janeiro, circa 83 82–80 21 de abril, circa 81 23 de setembro de 63 61 60 59 58–50 Verão de 57 55 53 Verão de 52 10 de janeiro de 49 Primavera–Outono de 49 9 de agosto de 48 28 de setembro de 48 Outono de 48 Abril de 46 21 de setembro–2 de outubro de 46 26 de setembro de 46 17 de março de 45 Agosto de 45

Nascimento de Júlio César Nascimento de Cássio Nascimento de Brutus Nascimento de Marco Antônio Ditadura de Sila Nascimento de Decimus Nascimento de Otávio César na Além-Hispânia Primeiro Triunvirato Primeiro consulado de César César conquista a Gália Batalha de Sabis Dedicatória das obras de Pompeu Batalha de Carres Sítio de Alésia César atravessa o Rubicão Sítio de Massília Batalha de Farsália Morte de Pompeu César conhece Cleópatra Morte de Catão César celebra quatro triunfos O Templo da Mãe Vênus é consagrado Batalha de Munda César, Antônio, Decimus e Otávio viajam juntos César reforma seu testamento favorecendo a Otávio Quinto triunfo de César César indica o consulado de um dia

13 de setembro de 45 Outubro de 45 31 de dezembro de 45 9


26 de janeiro de 44 Janeiro–fevereiro de 44 15 de fevereiro de 44 15 de março de 44 a.C 17 de março de 44 20 de março de 44 7 de junho de 44 Agosto de 44 14 de abril de 43 21 de abril de 43 19 de agosto de 43 Setembro de 43 27 de novembro de 43 7 de dezembro de 43 3 de outubro de 42 23 de outubro de 42 35 2 de setembro de 31 1º de agosto de 30 12 de agosto de 30 30 18 de agosto de 29 16 de janeiro de 27

“Eu sou César, não Rex” César se torna Ditador Perpétuo Lupercália; César rejeita o diadema César é assassinado Anistia para os assassinos; confirmação dos atos de César Funeral de César Conferência de Antium Brutus e Cássio deixam a Itália Batalha do Forum Gallorum Batalha de Mutina Primeiro consulado de Otávio Morte de Decimus Estabelecimento do Segundo Triunvirato Morte de Cícero Primeira batalha de Philippi; morte de Cássio Segunda batalha de Philippi; morte de Brutus Morte de Sextus Pompeu Batalha de Actium Antônio comete suicídio Cleópatra comete suicídio O Egito torna-se uma província romana O Templo de Júlio Deificado é consagrado Otávio recebe o nome de Augusto

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Elenco dos Personagens CÉSAR E OS SEUS HOMENS CÉSAR (Gaius Julius Cæsar), 100–44 a.C. Político brilhante, general e escritor, tornou-se Ditador Perpétuo. A figura mais polarizadora da época, fez com que muitos romanos viessem a temer que ele pretendesse se tornar rei, o que prejudicaria os interesses dos primeiros; por isso decidiram assassiná-lo. Tinha 45 anos de idade no ano de 44 a.C., segundo se sabe. OTÁVIO (Gaius Julius Cæsar Octavianus, nascido Gaius Octavius; mais tarde, Imperator Cæsar divi Filius e, finalmente, Augustus), 63 a.C.–14 d.C. O mais brilhante e impiedoso sobrinho-neto de César, de quem era herdeiro, navegou habilmente pelas perigosas águas da política do período para tornar-se Augustus, o primeiro imperador de Roma. Contava dezoito anos de idade nos idos* de março de 44 a.C. MARCO ANTÔNIO (Marcus Antonius), circa 83–30 a.C. Um dos melhores generais de César, ele também era um político extremamente discreto e reservado, que derrotou os assassinos, tornou-se amante de Cleópatra e chegou a ser um dos dois homens mais poderosos do Império Romano — apenas para ser derrotado por Otávio. Estava com 39 anos de idade em 44 a.C. LÉPIDO (Marcus Æmilius Lepidus), circa 89–12 a.C. General de César, a quem permaneceu leal. Ele comandava uma legião em Roma à época do assassinato de César. Foi sumo sacerdote e veio a se tornar um dos três triúnviros, mas terminou sendo esmagado por Antônio e Otávio. Contava 45 anos de idade em 44 a.C. * Idos, no antigo calendário romano, era o 15º dia nos meses de março, maio, julho e outubro, e o 13º dia nos demais meses. (N.E.) 11


OS PRINCIPAIS CONSPIRADORES BRUTUS (Marcus Junius Brutus), circa 85–42 a.C. O nome de Brutus, sua eloquência e reputação por um comportamento ético fizeram dele o mais famoso dentre os assassinos, e o “rosto” dos conspiradores apresentado para a opinião pública. Pelo lado menos positivo, ele tinha uma propensão para a traição e extorquia dinheiro dos provincianos. Ele pretendia matar César sem fazer irromper uma revolução ou perturbar a paz — uma ambição impossível. Tinha quarenta anos de idade em 44 a.C. CÁSSIO (Gaius Cassius Longinus), circa 86–42 a.C. Talvez o homem que tenha engendrado a conspiração, Cássio era um militar e um apoiador de Pompeu, que apenas relutantemente aceitara César, antes de se tornar um inimigo. Ele advogava a implementação de medidas mais severas do que seu cunhado, Brutus. Estava com 41 anos de idade em 44 a.C. DECIMUS (Decimus Junius Brutus Albinus), circa 81–43 a.C. Frequentemente esquecido, Decimus foi o terceiro líder da conspiração contra César. Um brilhante jovem general, proveniente de uma família nobre, ele emergiu na Gália, sob o comando de César, antes de voltar-se contra ele — quer por princípios republicanos, ambições perversas ou ambas as coisas. Ele combateu Antônio na Itália e na Gália; foi traído e executado. Contava 37 anos de idade em 44 a.C. TREBONIUS (Gaius Trebonius), circa 90–43 a.C. Um dos principais generais de César, desempenhou papel proeminente na conspiração movida contra este, tendo sido ele mesmo assassinado traiçoeiramente, mais tarde. Tinha 46 anos de idade em 44 a.C. CASCA (Publius Servilius Casca), morto possivelmente em 42 a.C. Foi ele quem desferiu o primeiro golpe contra César, nos Idos de Março. Ele serviu como Tribuno do Povo em 43 a.C. antes de ir ao Oriente para lutar sob o comando de Brutus em Philippi, onde é provável que tenha morrido em batalha ou como resultado de um suicídio posterior ao evento. GAIUS CASCA (Gaius Servilius Casca). Irmão de Publius, atingiu César entre as costelas, no que pode ter sido o golpe fatal.

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CIMBER (Lucius Tillius Cimber), morto possivelmente em 42 a.C. César gostava de seu oficial Cimber, embora este fosse conhecido por ser um bravateador e um beberrão. Mas Cimber traiu César e foi quem deu o sinal para que o ataque se iniciasse nos Idos de Março, ao puxar a toga de sobre os ombros de César. Como governador da Bitínia, ele foi um apoiador de Brutus e de Cássio Combateu em Philippi, onde é provável que tenha morrido. PONTIUS AQUILA, morto em 43 a.C. Tribuno do Povo que se recusou a ficar em pé diante do triunfo de César em 45 a.C., ofendendo assim ao ditador. Ele pode ter sido o mesmo Pontius Aquila cuja propriedade foi confiscada por César. Ele serviu sob o comando de Decimus em 43 a.C. e tombou em batalha. AS MULHERES SERVÍLIA (Servilia Cæpio), nascida circa 100 a.C.–morta depois de 42 a.C. Mãe de Brutus, sogra de Cássio e Lépido, meia-irmã de Catão e amante de César, a nobre Servília era uma das mulheres mais bem relacionadas e poderosas de Roma. Poderia alguém viver um conflito maior quanto à conspiração que culminaria com o assassinato de César? Tinha por volta de 55 anos de idade em 44 a.C. CLEÓPATRA (Cleopatra VII Philopator, Rainha do Egito) 69–30 a.C. A legendária rainha foi amante de dois dos romanos mais poderosos de sua época: primeiro, de Júlio César; depois, de Marco Antônio. Contava 25 anos de idade em 44 a.C. JÚNIA TÉRTIA, morta em 22 d.C. Filha de Servília, esposa de Cássio e — segundo alguns — amante de César. CALPÚRNIA (Calpurnia Pisonis). A terceira e última esposa de César era filha de uma família de nobres políticos. Ela tentou, em vão, impedir César de ir ao Senado nos Idos de Março. Estava com 33 anos de idade em 44 a.C. FÚLVIA (Fulvia Flacca), circa 75–40 a.C. Tendo sido casada com os políticos Clodius, Curio e, finalmente, com Marco Antônio, ela foi uma das mulheres mais hábeis e capazes de sua época. Ela pode ter influenciado no papel de Antônio durante o funeral de César, e viria a arregimentar um exército em 41 a.C. Contava por volta de trinta anos de idade em 44 a.C. 13


PÓRCIA (também conhecida como Portia. Nome completo: Porcia Catonis), morta em 42 a.C. Filha de Catão, Pórcia casou-se com seu primo Brutus, após a morte de seu primeiro marido, o empedernido conservador Bibulus. Talvez ela tenha contribuído para fazer com que Brutus se voltasse contra César. Em todo caso, ele a manteve informada quanto aos segredos da conspiração. Tinha por volta de 35 anos de idade em 44 a.C. ÁTIA, morta entre 43 e 42 a.C. Sobrinha de César e mãe de Otávio, o futuro Augustus. Foi ela quem informou ao seu filho, no exterior, sobre os terríveis acontecimentos dos Idos de Março. SEMPRÔNIA (Sempronia Tuditana). Mãe de Decimus, Semprônia conquistou uma grande reputação por seu intelecto, sua beleza, seus adultérios e sua vocação para as políticas revolucionárias. Ela apoiou Catilina em 63 a.C. e recebeu aliados gauleses dele em sua casa. PAULA (Paula Valeria), esposa de Decimus. As línguas agitaram-se quando, em 50 a.C., ela se divorciou de seu marido no mesmo dia em que este deveria estar de volta a casa deles, depois de haver prestado serviço militar no exterior, para se casar com Decimus, a quem ela permaneceu fiel até a morte deste. AMIGOS DOS CONSPIRADORES CÍCERO (Marcus Tullius Cicero), 106–42 a.C. O maior orador e teórico político da época, Cícero apoiou Pompeu na Guerra Civil, mas manteve-se em bons termos com César. Depois, ele apoiou os assassinos, moveu céus e terra para combater Antônio, apostou em uma aliança com Otávio e perdeu, tendo sido executado em 42 a.C. Contava 62 anos de idade em 44 a.C. DOLABELLA (Publius Cornelius Dolabella), 70–43 a.C. Um autêntico “vira-casaca”, Dolabella apoiou Pompeu, mudou para o lado de César e, em seguida, defendeu os conspiradores, para, afinal, abandoná-los em favor de Antônio — em troca de um comando proeminente no Oriente. Depois de assassinar traiçoeiramente Trebonius, ele foi derrotado pelos exércitos de Cássio e cometeu suicídio.

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CINA (Lucius Cornelius Cinna). Um pretor, em 44 a.C., e ex-cunhado de César, ele apoiou ostensivamente os assassinos, em público — o que enfureceu a muita gente. OUTROS (ELEMENTOS NEUTROS, PARTES NÃO DIRETAMENTE ENVOLVIDAS, DIFERENTES GERAÇÕES) CATÃO, O JOVEM (Marcus Porcius Cato), 95–46 a.C. Um proeminente senador e seguidor da filosofia estoica, ele foi um arqui-inimigo de César. Preferiu cometer suicídio antes de se render a César — um ato que inflamou a oposição ao ditador. POMPEU (Cnæus Pompeius Magnus), 106–48 a.C. Sucessor imediato de César como general e estadista romano, por volta da metade do século I a.C. ele mudou sua posição de aliado e genro de César para ser seu principal oponente — do que resultou a eclosão de uma guerra civil. CNEU POMPEU (Cnæus Pompeius), circa 75–45 a.C. Filho mais velho de Pompeu, ele foi derrotado por César na Batalha de Munda. SEXTUS POMPEU (Sextus Pompeius Magnus Pius), 67–35 a.C. Filho mais jovem de Pompeu, liderou a oposição naval a Otávio e Antônio. LABIENUS (Titus Labienus), morto em 45 a.C. O “braço direito” de César na Gália, apoiou Pompeu na Guerra Civil e lutou contra César até seu amargo fim. ATTICUS (Titus Pomponius Atticus), 110–32 a.C. Banqueiro e cavaleiro romano, amigo e correspondente de Cícero, e politicamente muito bem relacionado. Tinha 66 anos de idade em 44 a.C. DEIOTARUS (Rei da Galátia), circa 107–circa 40 a.C. Este voluntarioso e violento sobrevivente político alternou seu apoio, por diversas vezes, dentre diferentes facções romanas. Ele foi acusado de tramar para o assassinato de César em 47 a.C. Contava por volta de 63 anos de idade em 44 a.C.

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Parte Um

RETORNO a ROMA


1. CAVALGANDO COM CÉSAR Em agosto de 45 a.C.1, sete meses antes dos Idos de Março, uma procissão entrou na cidade de Mediolanum2 — a moderna Milão —, na planície quente e úmida do norte da Itália. Duas carruagens lideravam o cortejo. Na primeira delas postava-se, em pé, o Ditador Gaius Julius Cæsar, resplandecente com sua vitória sobre as forças insurgentes na Hispânia (aproximadamente a atual Espanha). Ocupando um lugar de honra, ao lado de César, vinha a carruagem de Marcus Antonius — mais conhecido, hoje, como Marco Antônio. Ele era o candidato de César para o cargo de um dos dois cônsules de Roma no ano seguinte, o mais alto posto entre as autoridades públicas depois do ditador. Atrás deles vinha o protegido de César, Decimus, recém-saído de um mandato como governador da Gália (cujo território compreendia aproximadamente o da atual França). Ao lado deste último, vinha a carruagem de Gaius Octavius, melhor conhecido como Otávio. Aos dezessete anos de idade, Otávio, sobrinho-neto de César, já era um homem de importância que não se poderia ignorar ou mesmo subestimar. Os quatro homens haviam-se encontrado no sul da Gália e viajado juntos3, através dos Alpes. Eles tomaram a Via Domitia, uma estrada à qual se associavam maus presságios e que conduzira a vários destinos terríveis; aquela era a rota da invasão de Aníbal e, segundo o mito, a estrada que Hércules tomara para a Espanha. Mas César rumava para Roma. Pela segunda vez em pouco mais de um ano, ele planejava entrar na cidade em triunfo, proclamando uma vitória militar e o fim da guerra civil iniciada quatro anos antes, no princípio do ano 49 a.C. Contudo, não fora fácil pôr fim à guerra, pois suas raízes eram profundas. Na verdade, aquela havia sido a segunda guerra civil a dilacerar 23


Roma durante a vida de César. Cada guerra refletia os insolúveis problemas que assolavam Roma: desde a miséria na Itália até a opressão nas províncias; da política cegamente egoísta e reacionária da velha nobreza ao encantamento por um ditador carismático que pretendia que as coisas fossem feitas à sua maneira. E, por trás de tudo isso, transparecia a desconfortável realidade de que o verdadeiro poder em Roma não estivesse nas mãos do Senado ou do povo, mas, sim, do exército. Com olhos escuros, eloquentemente persuasivo, sensual e violento, César possuía uma suprema habilidade prática. Ele a empregou para mudar o mundo, arrebatado por seu amor a Roma e seu desejo de dominação. Os exércitos de César mataram e escravizaram milhões de pessoas, dentre as quais muitas mulheres e crianças. Apesar disso, depois desses banhos de sangue, ele perdoava seus inimigos, tanto no âmbito doméstico como em terras estrangeiras. Esses rompantes de boa vontade despertavam suspeitas: poderia ser o conquistador um conciliador? À maioria das pessoas, porém, não restava outra escolha além de aquiescer. Dentre todos os romanos em sua comitiva, César escolhera àqueles três homens — Antônio, Decimus e Otávio — para ocuparem lugares de honra, ao seu lado, em sua reentrada na Itália. Por quê? E por que um deles viria a traí-lo dentro de sete meses? E por que, após a morte de César, aqueles três homens foram capazes de arregimentar exércitos para lutarem, uns contra os outros, em uma nova guerra que os faria volver a percorrer a mesma rota, do norte da Itália para o sul da Gália? Analisemos, então, como cada um desses homens vieram a se tornar tão próximos de César nos anos anteriores a 45 a.C. A ASCENSÃO DE DECIMUS Decimus Junius Brutus Albinus, para citarmos seu nome completo, era um amigo muito chegado de César4. Eles trabalhavam juntos havia ao menos uma década, desde 56 a.C. — ano em que Decimus, contando cerca de 25 anos de idade, causou profunda impressão como almirante de César, na Gália. Ele venceu a Batalha do Atlântico, que conquistou a Bretanha para Roma, abrindo-lhe as portas para a invasão da Inglaterra. Primeiras impressões são importantes; e, neste caso, exatas. A guerra, a Gália e César eram as “marcas registradas” de Decimus. Ele era rápido, vigoroso, hábil e adorava lutar. Ele era orgulhoso, competitivo e ávido pela fama. Tal como outros homens ambiciosos de sua classe, ele conquistou um 24


cargo eletivo em Roma, mas a capital e seus “corredores do poder” jamais o cativaram tanto quanto a fronteira gaulesa. Decimus nasceu em 21 de abril, por volta do ano 81 a.C. Ele provinha de uma família nobre que afirmava descender do fundador da República Romana, Lucius Junius Brutus. O avô de Decimus fora um grande general e homem de Estado; mas seu pai jamais fora soldado, e sua mãe flertara com a revolução e o adultério — e, talvez, com César, que seduzira muitas mulheres casadas da nobreza romana. Um grande historiador sugeriu que Decimus tenha sido um filho ilegítimo de César5; mas, por mais intrigante que seja, esta teoria carece de embasamento. De qualquer modo, o jovem Decimus encontrou seu caminho para o staff de César6. Ao “conduzir sua carruagem”, sob o brilho da estrela de César, ele restaurou o bom nome de sua família com o poder das armas. Ele era um dos homens de César, tanto quanto qualquer romano o era. Nada sabemos quanto à aparência física de Decimus; mas ele pode ter sido tão atraente quanto sua mãe, uma beldade bem conhecida, e tão alto quanto um dos gauleses por quem certa vez ele se fez passar. A dúzia de cartas de Decimus que sobreviveu ao tempo é escrita em um estilo que mistura a falta de refinamento da linguagem empregada em um acampamento militar com a polidez formal e a autoconfiança de um nobre romano. Por vezes elegante, sua prosa também inclui frases grosseiras, tais como: “apenas prenda o negócio entre os dentes e comece a falar”. Talvez algo da rudeza de seus gladiadores — já que Decimus era proprietário de uma trupe — o tenha influenciado; mas, se isso de fato aconteceu, não o impediu de, habitualmente, trocar amabilidades com o maior orador de Roma, Marcus Tullius Cicero. Na Gália, Decimus tomou parte da maior aventura militar de sua geração. Para César foram precisos apenas oito anos (entre 58 e 50 a.C.) para conquistar a grande, populosa e beligerante região a que os romanos chamavam de “Gália dos Cabelos Longos”, devido às esvoaçantes tranças usadas por seu povo. Aquela era uma vastidão de terras que compreendia a maior parte da atual França, toda a Bélgica, parte da Holanda e uma estreita faixa do território da Alemanha. (A região da Provença Francesa já era, na época, uma província romana; e César também invadiria a Britânia.) Com seu ouro, sua produção agrícola e seus potenciais escravos, a Gália fez de César o homem mais rico de Roma. E ele compartilhou sua riqueza com alguns de seus oficiais, como Decimus. Depois de sua vitória marítima, nas costas da Bretanha, em 56 a.C., Decimus ressurge em 52 a.C., quando uma grande revolta gaulesa quase pôs a perder o domínio de Roma. Decimus participou ativamente do dia mais 25


dramático da guerra, durante o cerco a Alésia (na atual região francesa da Borgonha). Segundo a narração do próprio César sobre o episódio, Decimus iniciou o contra-ataque a uma ofensiva gaulesa, tendo sido seguido por César, envolto em sua chamativa capa vermelho-púrpura. O inimigo foi derrocado e a guerra finalizada, exceto por algumas operações de conclusão, no ano seguinte. Em 50 a.C., Decimus estava de volta a Roma, para assumir seu primeiro cargo eletivo7 — o de quæstor, ou magistrado encarregado de funções financeiras. Naquele mesmo ano, em abril, Decimus casou-se com Paula Valeria, que provinha de família nobre. Houve um certo escândalo, pois, para se casar com Decimus, ela divorciou-se de seu marido anterior, um homem proeminente8, no mesmo dia em que este deveria estar de volta a casa deles, após ter prestado serviço militar em uma província estrangeira. Um ano depois do casamento de Decimus e Paula, em 49 a.C., irrompeu a guerra civil entre César e seus oponentes oligárquicos. Estes últimos o consideravam um demagogo populista, sequioso de poder, que se configurava como uma ameaça ao estilo de vida deles. César os via como reacionários de mentalidade estreita, que insultavam sua honra — e ninguém dedicava mais atenção à honra do que um nobre romano. Os principais oponentes de César eram Pompeu e Catão. Pompeu, o Grande — Cnæus Pompeius Magnus — não era nenhum ideólogo: na verdade, ele era um ex-aliado político de César, além de seu genro. Um conquistador cuja carreira o levara à Hispânia, à Ásia Romana (a moderna Turquia) e ao Levante, Pompeu fora o maior general romano vivo até a ascensão de César. Marcus Porcius Cato, também conhecido como Catão, o Jovem, era um proeminente senador, leal à antiga noção de um Estado livre, conduzido por uma elite esclarecida e rica. Rigidamente doutrinário, ele era ridicularizado por pensar que Roma fosse a República de Platão, enquanto outros a encaravam como a Cloaca de Rômulo9. Ele era um arqui-inimigo de César. A maioria dos familiares de Decimus tendia a simpatizar com Pompeu e Catão, e os irmãos de sua esposa lutaram por eles. Quando já adulto, Decimus foi adotado pela família de Postumius Albinus, um clã patrício que afirmava possuir uma ancestralidade que se opusera aos reis de Roma. A família adotiva de Decimus também tinha pendores conservadores. Não obstante, ele permaneceu fiel a César; e é provável que tenha sido no início de 49 a.C. que Decimus tenha mandado cunhar moedas10 que celebravam suas vitórias na Gália, sua lealdade, seu senso de dever e seu espírito unificador — todos esses, temas usados como armas de propaganda por César, durante a guerra civil. 26

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Primeiro capítulo morte de césar  

Primeiro capítulo morte de césar  

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