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O comentário do homem fez com que um arrepio percorresse a espinha de alguns dos outros, que estavam de orelha em pé, atentos aos mínimos sons da floresta, e acabaram ouvindo a conversa. Olharam em torno, desconfiados, tentando adivinhar de onde vinha o canto assombrado do pássaro, mas as sombras abraçavam o cenário por completo. Mais um tempo caminhando e outro deles expressou a necessidade de todos de romper o silêncio mais uma vez. — Ei, dona! — chamou, encarando a nuca de cabelos longos e esgrouvinhados que seguia à frente. — Quanto falta para chegar na tumba do ouro? — Estamos quase lá — respondeu ela, sem olhar para trás ou diminuir o ritmo. — E é garantido que a pessoa que nos espera sabe mesmo como quebrar a maldição? — quis saber mais o homem. — Espíritos não costumam ser benevolentes com quem fuça suas covas. E os escravos foram enterrados vivos ali pra isso. Pra proteger o antigo ouro dos patrões. — Ninguém mais sabe quebrar esse tipo de maldição — falou impaciente a mulher morena, de traços fortes e rosto escavado de rugas. O homem apenas levantou as sobrancelhas, sem acreditar muito. Depois de alguns minutos de caminhada, a mulher diminuiu o passo e, com ela, todos os outros, homens fortes e destemidos. Caçadores, mercenários, derrubadores de árvores. Todos acostumados com ambientes como aquele. Mas algo lhes parecia diferente. Além do canto que prenunciava a morte, havia uma força malévola naquele lugar. Algo hostil parecia estar prestes a lhes dar as boas-vindas. Um medo incomum começou a se avolumar dentro deles. Fazia-os bater os dentes, as pernas tremerem.

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A carruagem da morte.indd 8

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Primeiro capítulo carruagem da morte  

Primeiro capítulo carruagem da morte  

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