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percorreu toda a extensão do corpo vítreo, até sua enorme boca de jubarte. De uma só vez, a cobra regurgitou algo aos pés da velha. Algo grande, do tamanho de um ser humano. E que se mexia. A velha não se espantou. Adiantou-se, estreitando os olhos para ver melhor o ser regurgitado. Era definitivamente humanoide. Por um momento, apenas observou a coisa, que parecia estar de cócoras. — Irmã? — chamou a velha. Devagar, o ser foi se levantando. A primeira coisa que se destacou foram os pés, três a quatro vezes maiores que os de qualquer humano. Aos poucos foi se identificando uma corcunda e então ficou claro que era uma velha tão encarquilhada quanto a que presidia o ritual. A diferença é que seu corpo também era translúcido, assim como o da grande serpente que a vomitara. — Vou precisar de você, irmã — falou a velha de manto preto. — E em sua melhor forma. No instante em que um urutau entoou seu canto depressivo em alguma parte da floresta, a velha de pés compridos e enrugados se desmanchou no ar como se feita de fumaça, com um sorriso cheio de malícia.

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A carruagem da morte.indd 15

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Primeiro capítulo carruagem da morte  

Primeiro capítulo carruagem da morte  

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