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Mas um deles não foi rápido o suficiente. A cobra deu o bote e, apesar da distância, não teve dificuldade para alcançá-lo. A visão do ataque foi chocante. Não havia limites para aquela assombração. Seu corpo parecia feito de algo não material. Não físico. Deslizava através das árvores como se não existissem. Atravessava qualquer coisa como um fantasma atravessa uma parede. E, quando a criatura alcançou o primeiro homem em disparada, algo muito estranho aconteceu. Ao toque da cobra, o corpo do homem caiu no chão sem vida, enquanto uma névoa azulada e opaca desprendeu-se dele e aderiu ao corpo do réptil. O homem não fazia mais parte deste mundo. A cobra semitransparente tinha se alimentado da sua alma. A cabeçorra triangular observou o escuro da mata como se identificasse o paradeiro de todas as suas outras presas. Suavemente deslizou pela floresta, e as árvores não eram obstáculo. Rápida e silenciosa, ultrapassava livremente qualquer coisa que barrasse seu caminho. Dentro do círculo apenas restou a velha do manto negro e a mulher que conduzira aqueles homens para uma armadilha brutal, da qual sabia que nunca sairiam vivos. Dali ela via lampejos azuis e opacos se acendendo em diferentes pontos, na escuridão da mata. Era a cobra recolhendo sua oferenda. Pouco depois, a cabeçorra da criatura translúcida deslizou de volta, até parar na frente da velha. Sua pele viscosa tinha um leve brilho azulado. — Agora me dê o que lhe peço! — ordenou a velha, autoritária. A cobra abriu a bocarra como se fosse expelir alguma coisa. Seu corpo todo se retesou e começou a se contorcer em espasmos. Algo escuro

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A carruagem da morte.indd 14

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Primeiro capítulo carruagem da morte  

Primeiro capítulo carruagem da morte  

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