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Olhares preocupados cruzaram-se, como se ponderassem os riscos e possibilidades. Depois de um instante, a mulher sentenciou: — Se ninguém tem objeção nenhuma, é hora de começar. — Ela se virou para o vulto macabro da velha, que continuava imóvel. — Minha senhora, pode prosseguir! Uma mão enrugada e de dedos tortos projetou-se do manto e estendeu-se em direção ao buraco. A velha voltou a balbuciar coisas que, para os homens, não fazia sentido algum. Todos se mantiveram de cabeça baixa e às vezes olhavam apreensivos uns para os outros, mas nunca para a velha. Aos poucos, os murmúrios desconexos começaram a se multiplicar e os homens arregalaram os olhos de assombro. A impressão que tinham é que agora outras vozes se juntavam à da velha! E sussurravam coisas nos seus ouvidos! A inquietação era geral. Não ousavam dizer nada, mas era óbvio que se perguntavam se aquilo estava acontecendo de verdade ou se era fruto da sua imaginação. Outra rajada de vento sobrenatural varreu a clareira e balançou as árvores ao redor. A velha continuava com sua ladainha incompreensível, enquanto o vento esvoaçava seu manto. A mulher que os conduzira até ali lutava para ficar impassível, mas via-se que a cada segundo parecia mais impaciente e ansiosa para que tudo aquilo logo tivesse fim. As vozes soprando nos ouvidos dos homens agora pareciam carregadas de ódio. Um ódio havia muito reprimido. Até que, de repente, um deles se sobressaltou ao avistar uma sombra cochichando ao pé do ouvido de um companheiro e em seguida se desvanecendo no ar. Não passou muito tempo e todos tinham a impressão de sentir uma presença funesta

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A carruagem da morte.indd 11

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Primeiro capítulo carruagem da morte  

Primeiro capítulo carruagem da morte  

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