a product message image
{' '} {' '}
Limited time offer
SAVE % on your upgrade

Page 1


A

A garota alema.indd 1

garota alemĂŁ

25/10/17 15:04


A garota alema.indd 2

25/10/17 15:04


ARMANDO LUCAS CORREA

A

garota alemã Tradução Denise de Carvalho Rocha

A garota alema.indd 3

25/10/17 15:04


Título do original: The German Girl Copyright © 2016 Armando Lucas Correa Copyright da edição brasileira © 2017 Editora Pensamento-Cultrix Ltda. Publicado originalmente em espanhol como La Ninã Alemana. Publicado mediante acordo com Atria Books, uma divisão da Simon & Schuster, Inc. Texto de acordo com as novas regras ortográficas da língua portuguesa. 1a edição 2017. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou usada de qualquer forma ou por qualquer meio, eletrônico ou mecânico, inclusive fotocópias, gravações ou sistema de armazenamento em banco de dados, sem permissão por escrito, exceto nos casos de trechos curtos citados em resenhas críticas ou artigos de revistas. A Editora Jangada não se responsabiliza por eventuais mudanças ocorridas nos endereços convencionais ou eletrônicos citados neste livro. Esta é uma obra de ficção. Todos os personagens, organizações e acontecimentos retratados neste romance são produtos da imaginação do autor e usados de modo fictício. Editor: Adilson Silva Ramachandra Editora de texto: Denise de Carvalho Rocha Gerente editorial: Roseli de S. Ferraz Produção editorial: Indiara Faria Kayo Editoração eletrônica: Join Bureau Revisão: Vivian Miwa Matsushita Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Correa, Armando Lucas A garota alemã / Armando Lucas Correa; tradução [do inglês] Denise de Carvalho Rocha. – 1. ed. – São Paulo: Jangada, 2017. Título original: The German Girl ISBN: 978-85-5539-096-8 1. Ficção espanhola 2. Ficção Histórica 3.Judeus - Alemanha I. Título. 17-09206

CDD-863 Índices para catálogo sistemático: 1. Ficção : Literatura espanhola 863

Jangada é um selo editorial da Pensamento-Cultrix Ltda. Direitos de tradução para o Brasil adquiridos com exclusividade pela EDITORA PENSAMENTO-CULTRIX LTDA., que se reserva a propriedade literária desta tradução. Rua Dr. Mário Vicente, 368 — 04270-000 — São Paulo, SP Fone: (11) 2066-9000 — Fax: (11) 2066-9008 http://www.editorajangada.com.br E-mail: atendimento@editorajangada.com.br Foi feito o depósito legal.

A garota alema.indd 4

25/10/17 15:04


Para meus filhos Emma, Anna e Lucas Para Ana Maria (Karman) Gordon, Judith (Koeppel) Steel e Herbert Karliner, que tinham a idade dos meus filhos quando embarcaram no St. Louis, no porto de Hamburgo, em 1939.

A garota alema.indd 5

25/10/17 15:04


A garota alema.indd 6

25/10/17 15:04


Vós sois as minhas testemunhas. Isaías 43:10-11

Lembranças são o que você não quer mais lembrar. Joan Didion

A garota alema.indd 7

25/10/17 15:04


A garota alema.indd 8

25/10/17 15:04


PARTE UM

Hannah e Anna Berlim – Nova York

A garota alema.indd 9

25/10/17 15:04


A garota alema.indd 10

25/10/17 15:04


Hannah Berlim, 1939

T

enho quase 12 anos e já decidi: vou matar meus pais.

Vou para a cama e espero até que durmam. É sempre fácil saber que hora isso acontece, porque um pouco antes Papa tranca as grandes e pesadas janelas duplas e fecha as grossas cortinas verde-bronze. Depois, repete o que diz toda noite após o jantar, que nos últimos dias não é muito mais do que um prato fumegante de sopa com gosto de nada. “Não há mais nada a fazer. Não podemos continuar aqui. Temos de ir embora.” Então Mama começa a gritar, com a voz entrecortada, enquanto o culpa e anda desesperada pelo apartamento inteiro – sua fortaleza no 11

A garota alema.indd 11

25/10/17 15:04


coração de uma cidade em derrocada, o único espaço que ela conhece há mais de quatro meses –, até que seu corpo se esgota, ela abraça Papa e seus fracos soluços finalmente cessam. Vou esperar algumas horas. Eles não vão resistir. Papa já está resignado, eu sei. Ele deseja partir. Com Mama será mais difícil, mas, com tantos comprimidos que ela toma para dormir, vai cair num sono profundo, mergulhada em sua essência de jasmim e gerânio. Todo dia, aumenta um pouco mais a dose. Mesmo assim, desperta durante a noite chorando. Quando corro para ver o que está acontecendo, pela porta entreaberta tudo o que posso ver é Mama inconsolável nos braços de Papa, como uma garotinha se recuperando de um terrível pesadelo. A diferença é que, para ela, o pesadelo é estar acordada. Com meu choro ninguém mais se preocupa; ninguém mais se importa com meus gritos. Papa me diz que eu sou forte. Vou sobreviver ao que quer que aconteça. Mas não Mama. Ela está se consumindo de dor. Ela é uma criança numa casa onde não entra mais a luz do dia. Há quatro meses, chora toda noite, desde que a cidade foi coberta de cacos de vidro e ficou impregnada com um cheiro constante de pólvora, metal e fumaça. Foi então que começaram a planejar a nossa fuga. Decidiram que iríamos abandonar a casa onde nasci, me tiraram da escola onde mais ninguém me queria e Papa me deu a minha segunda câmera fotográfica. “Para que você possa deixar um rastro, como Ariadne, para sair do labirinto”, ele disse no meu ouvido. Eu me atrevi a pensar que o melhor seria me livrar deles. Pensei em diluir aspirinas na comida de Papa e roubar as pílulas para dormir de Mama – ela não duraria uma semana sem elas. O único problema eram as minhas dúvidas. Quantas aspirinas ele teria que engolir para ter uma úlcera letal, uma hemorragia interna? Quanto tempo

12

A garota alema.indd 12

25/10/17 15:04


Mama conseguiria realmente sobreviver sem dormir? Qualquer coisa sangrenta estava fora de questão, porque eu não suporto a visão de sangue. Começo a suar frio e desmaio. Então, o melhor seria que morressem por sufocamento. Sufocá-los com um enorme travesseiro de penas. Mama tinha deixado bem claro que seu sonho era que a morte a pegasse de surpresa enquanto dormia. “Não gosto de despedidas”, diz ela, olhando diretamente para mim – ou, se eu não estou ouvindo, ela me agarra pelo braço e me sacode com as poucas forças que ainda lhe restam. Uma noite, acordei sobressaltada, pensando que meu crime já havia sido cometido. Vi os corpos sem vida dos meus pais, mas não consegui derramar uma lágrima. Eu me senti livre. Ninguém mais poderia me obrigar a me mudar para um bairro imundo e deixar para trás meus livros, minhas fotografias, minhas câmeras, para viver com o pavor de ser envenenada pelos meus próprios pais. Comecei a tremer. Então gritei: “Papa!”. Mas ninguém veio me socorrer. “Mama!” Não havia como voltar atrás. Como havia chegado a esse ponto? O que eu tinha me tornado? O que eu faria com seus corpos? Quanto tempo eles levariam para se decompor? Pensariam que havia sido suicídio. Ninguém duvidaria. Já fazia quatro meses que meus pais estavam sofrendo. Para as outras pessoas, eu seria uma órfã. Para mim mesma, seria uma assassina. Meu crime estava registrado no dicionário. Eu encontrei. Que palavra horrorosa! Só de pronunciá-la, já sentia calafrios. Parricídio. Tentei repeti-la, mas não consegui. Eu era uma assassina. É tão fácil identificar meu crime, minha culpa, minha agonia! Mas como se chama quem mata os filhos? Será que é um crime tão terrível que não existe nem uma palavra para identificá-lo no dicionário? Isso significa que eles poderiam praticá-lo e não teriam de carregar nas

13

A garota alema.indd 13

25/10/17 15:04


costas o fardo da morte e de uma palavra funesta. Você pode matar os seus pais, seus irmãos, mas não os seus filhos. Vago pelos cômodos da casa, que me parece cada vez menor e mais escura, uma casa que logo não será mais nossa. Olho para o teto inacessível, atravesso os corredores onde estão enfileiradas fotos de uma família que está desaparecendo pouco a pouco. A luz de uma lâmpada, no gabinete de Papa, com sua cúpula de cristal branco nevado, chega ao corredor onde estou de pé desorientada, incapaz de me mover. Vejo minhas mãos pálidas adquirirem um tom dourado. Abro os olhos e estou no mesmo quarto, cercada de livros muito gastos e bonecas com as quais nunca brinquei nem nunca vou brincar. Fecho os olhos e pressinto que falta pouco para subirmos a bordo de um enorme transatlântico, num porto deste país a que nunca pertencemos. No final, não matei meus pais. Não foi necessário. Papa e Mama arcaram com a culpa. Eles me forçaram a me atirar no abismo junto com eles.

O cheiro do apartamento está insuportável. Eu não entendo como Mama pode morar entre estas paredes forradas de seda verde-musgo que engolem a pouca luz desta época do ano. É o cheiro do confinamento. Temos menos tempo de vida. Eu sei, eu sinto. Não vamos passar o verão em Berlim. Mama colocou bolinhas de naftalina nos armários para preservar seu mundo, e o odor pungente está impregnado na casa. Eu não faço ideia do que ela estava tentando proteger, já que vamos perder tudo de qualquer jeito. “Você está cheirando como as velhinhas da Grosse Hamburger Strasse”, Leo me provoca. Leo é o meu único amigo; a única pessoa que ousa me olhar na cara sem querer cuspir em mim.

14

A garota alema.indd 14

25/10/17 15:04


A primavera em Berlim é fria e chuvosa, mas Papa muitas vezes sai sem casaco. Quando ele sai, não espera o elevador, mas desce pelas escadas, que rangem quando ele pisa. Eu, no entanto, não tenho permissão para usar as escadas. Ele não desce pelas escadas porque tem pressa, mas porque não quer topar com outra pessoa do edifício. As cinco famílias que moram nos andares abaixo do nosso estão todas esperando o dia em que iremos embora. Aqueles que antes eram nossos amigos deixaram de ser. Aqueles que costumavam agradecer a Papa ou que tentavam fazer amizade com Mama e suas amigas, que elogiavam seu bom gosto ao se vestir ou pediam conselhos sobre como combinar uma bolsa de cores vivas com seus sapatos elegantes agora torcem o nariz para nós e estão prestes a nos denunciar. Mama passa mais um dia sem sair de casa. Toda manhã, quando se levanta, ela recoloca os brincos de rubi e prende os lindos cabelos, que provocava inveja nas amigas sempre que ela aparecia no salão de chá do Hotel Adlon. Papa a chama de “a divina”, porque ela é fascinada por cinema, seu único contato com o mundo exterior. Ela nunca perdia a estreia de um filme estrelado pela verdadeira deusa das telas, “A Divina” Greta Garbo, no Palast. “Ela é mais alemã do que ninguém”, Mama insistia em dizer quando mencionava a divina Garbo, que, na realidade, era sueca. No entanto, naquela época, os filmes eram mudos e ninguém se importava em saber onde a estrela havia nascido. Nós é que descobrimos Greta Garbo. Sempre soubemos que seria adorada. Gostamos dela antes de qualquer outra pessoa; é por isso que Hollywood reparou nela. E, em seu primeiro filme falado, ela falou num alemão perfeito: “Whisky – aber nicht zu knapp!”. Às vezes, quando meus pais voltavam do cinema, Mama ainda tinha lágrimas nos olhos. “Eu adoro finais tristes... nos filmes”, explicava ela. “As comédias não são para mim.”

15

A garota alema.indd 15

25/10/17 15:04


Ela desmaiava nos braços de Papa, levava a mão à testa, segurando com a outra a cauda de seda imaginária de um vestido longo, atirava a cabeça para trás e começava a falar em francês. “Armand, Armand...”, ela repetia lânguida e com um forte sotaque, como a própria A Divina. E Papa a chamava de “minha Camille”. “Espère, mon ami, et sois bien certain d’une chose, c’est que, quoi qu’il arrive, ta Marguerite te restera”, ela respondia, às gargalhadas. “Dumas fica horrível em alemão, não acha?” Porém Mama agora não vai mais a lugar algum. “Muitas janelas quebradas” é a desculpa dela desde o terrível pogrom de novembro, quando Papa perdeu o emprego. Nesse dia ele foi preso em seu gabinete na universidade e depois levado para a estação de Grolmanstrasse, onde o mantiveram incomunicável por um delito que nunca compreendemos. Ele compartilhou uma cela sem janelas com o pai de Leo, Herr Martin. Depois de serem soltos, os dois passaram a se encontrar diariamente, e isso preocupa Mama ainda mais, como se estivessem planejando uma fuga para a qual ela ainda não está preparada. Na realidade, o medo é o que a impede de abandonar a sua fortaleza. Ela vive em constante sobressalto. Antes, costumava ir ao elegante salão do Hotel Kaiserhof, a poucos quarteirões de casa, mas agora ele é frequentado por gente que nos odeia; aqueles que pensam que são puros, os quais Leo chama de Ogros. No passado, ela se vangloriava de Berlim. Quando fazia compras em Paris, sempre ficava no Ritz; e se acompanhasse Papa numa conferência ou num concerto em Viena, eles ficavam no Imperial: “Mas temos o Adlon, nosso Grand Hotel na avenida Unter den Linden. A Divina ficou lá e imortalizou-o nas telas”. Agora, ela olha pela janela e tenta encontrar uma explicação para o que está acontecendo. O que aconteceu com seus anos felizes? A que

16

A garota alema.indd 16

25/10/17 15:04


eles a condenaram, e por quê? Ela sente que está pagando pelos pecados de outras pessoas: de seus pais, de seus avós... cada um dos seus ancestrais ao longo dos séculos. “Sou alemã, Hannah. Eu sou uma Strauss. Sou Alma Strauss. Isso não é suficiente, Hannah?”, ela me diz em alemão, e depois em espanhol e em inglês, e finalmente em francês. Como se alguém a estivesse escutando; como se quisesse deixar isso bem claro em cada um dos idiomas que fala com fluência. Eu combinei de me encontrar com Leo para tirar fotografias. Nós nos vemos todas as tardes no café de Frau Falkenhorst, no pátio interno do Hackesche Höfe. Sempre que nos vê, o dono sorri e nos chama de “bandidinhos”, e nós gostamos disso. Se um de nós dois se atrasa, o primeiro a chegar pede um chocolate quente. Às vezes, nos encontramos no café que fica na saída da estação Alexanderplatz, com prateleiras cheias de bombons embrulhados em papel prateado. Quando precisa me ver com urgência, Leo me espera no quiosque de jornais perto da minha casa, para não corrermos o risco de encontrar um dos nossos vizinhos que, apesar de serem também nossos inquilinos, sempre nos evitam. Para não desobedecer aos adultos, eu evito as escadas acarpetadas, que estão cada vez mais cheias de pó, e pego o elevador. Paro no terceiro andar. “Olá, Frau Hofmeister”, cumprimento, sorrindo para a filha dela, Gretel, que costumava brincar comigo. Gretel está triste porque, não faz muito tempo, ela perdeu seu lindo cachorrinho branco. Eu sinto pena dela. Temos a mesma idade, mas sou muito mais alta. Ela olha para baixo e Frau Hofmeister tem a ousadia de dizer a ela: “Vamos pelas escadas. Quando será que eles vão embora? Estão nos colocando numa situação tão difícil...”.

17

A garota alema.indd 17

25/10/17 15:04


Como se eu não estivesse escutando, como se fosse só a minha sombra parada dentro do elevador. Como se eu não existisse. Isso é o que ela queria: que eu não existisse. Os Ditmar, os Hartmann, os Brauer e os Schultz moram em nosso edifício. Alugamos nossos apartamentos para eles. O edifício pertence à família de Mama desde antes de ela nascer. Os inquilinos é que tinham de sair. Eles não são daqui. Nós é que somos. Somos mais alemães do que eles. A porta do elevador se fecha, ele começa a descer, e eu ainda posso ver os pés de Gretel. “Gente suja!”, escuto. Será que ouvi direito? O que fizemos para ter de suportar isso? Que crime cometemos? Eu não sou suja. Não quero que me vejam como uma pessoa suja. Saio do elevador e me escondo debaixo das escadas para não encontrá-las novamente. Eu as vejo sair do edifício. A cabeça de Gretel ainda está abaixada. Ela olha para trás, procurando por mim, talvez querendo se desculpar, mas a mãe a empurra. “O que está olhando?”, grita ela. Corro de volta até as escadas fazendo barulho e chorando. Sim, chorando de raiva, de impotência, por não poder dizer a Frau Hofmeister que ela é mais suja do que eu. Se nós a incomodamos, ela pode ir embora do prédio, do nosso prédio. Quero dar murros nas paredes, quebrar a câmera valiosa que Papa me deu. Entro em nosso apartamento e Mama não entende por que estou tão furiosa. “Hannah! Hannah!”, ela me chama, mas prefiro ignorá-la. Vou para o banheiro frio, bato a porta e ligo o chuveiro. Ainda estou chorando; ou melhor, quero parar de chorar, mas não consigo. Completamente vestida e ainda de sapatos, entro na banheira perfeitamente branca. Mama continua me chamando e depois finalmente me deixa em paz. Tudo o que eu ouço é o barulho da água escaldante caindo

18

A garota alema.indd 18

25/10/17 15:04


sobre mim como uma cascata. Deixo que entre em meus olhos até começarem a arder; nas minhas orelhas, no meu nariz, na minha boca. Começo a tirar as roupas e os sapatos, que estão mais pesados por causa da água e da minha sujeira. Eu me ensaboo, me cubro com os sais de banho de Mama que irritam a minha pele e me esfrego com uma toalha branca para me livrar de todos os últimos vestígios de impureza. Minha pele está vermelha, tão vermelha que parece que vai descascar. Giro a torneira para que a água fique ainda mais quente, até eu não poder aguentar mais. Quando saio do banho, desabo no piso frio de ladrilhos preto e branco. Felizmente, já não tenho mais lágrimas para chorar. Eu me seco, esfregando com força a pele que não desejo e que, se Deus quiser, vai começar a se desmanchar depois de todo aquele calor. Examino cada um dos meus poros na frente do espelho embaçado: rosto, mãos, pés, orelhas, tudo, para ver se não sobrou algum vestígio de impureza. Quero só ver quem é sujo agora. Eu me encolho num canto, tremendo e me sentindo como um rolo de carne e osso. Este é o único esconderijo que encontro. No final, sei que, por mais que eu me lave, queime minha pele, corte meu cabelo, arranque meus olhos, fique surda, me vista ou fale de forma diferente ou adote um nome diferente, eles sempre vão me ver como alguém impuro. Não seria má ideia bater na porta da distinta Frau Hofmeister e pedir que ela me examine, veja se eu tenho alguma manchinha na pele, e dizer que ela não deve manter Gretel longe de mim, que eu não sou má influência para a filha dela, que é tão loira, perfeita e imaculada quanto eu. Vou para o meu quarto e me visto toda de branco e rosa, as cores mais puras que encontro no guarda-roupa. Vou atrás de Mama e a abraço, porque sei que ela me entende; mesmo que tenha optado por ficar em casa, sem enfrentar ninguém. Ela construiu uma fortaleza em seu

19

A garota alema.indd 19

25/10/17 15:04


quarto e vive protegida pelas grossas colunas do apartamento, num prédio feito de enormes blocos de pedra e janelas duplas. Tenho que me apressar. Leo já deve estar na estação, andando de um lado para outro, tentando ficar fora do caminho dos pedestres que correm para pegar o trem. Pelo menos eu sei que ele me acha limpa.

20

A garota alema.indd 20

25/10/17 15:04

Profile for Grupo Editorial Pensamento

A garota Alemã  

A garota Alemã  

Advertisement