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clássicos cultrix

Tradução direta do Grego, introdução e notas por JAIME BRUNA (da Universidade de São Paulo)


Copyright da edição brasileira © 1968 Editora Pensamento-Cultrix Ltda. Texto de acordo com as novas regras ortográficas da língua portuguesa. 1a edição 1968. 2a edição 2013. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte deste livro pode ser reproduzida ou usada de qualquer forma ou por qualquer meio, eletrônico ou mecânico, inclusive fotocópias, gravações ou sistema de armazenamento em banco de dados, sem permissão por escrito, exceto nos casos de trechos curtos citados em resenhas críticas ou artigos de revistas. A Editora Cultrix não se responsabiliza por eventuais mudanças ocorridas nos endereços convencionais ou eletrônicos citados neste livro. Editor: Adilson Silva Ramachandra Editora de texto: Denise de C. Rocha Delela Coordenação editorial: Roseli de S. Ferraz Produção editorial: Indiara Faria Kayo Assistente de produção editorial: Estela A. Minas Revisão: Débora Sandrini Projeto gráfico e editoração eletrônica: Ponto Inicial Estúdio Gráfico e Editorial Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Homero Odisseia / Homero ; tradução direta do grego, introdução e notas por Jaime Bruna. -- 2. ed. -São Paulo : Cultrix, 2013.

ISBN 978-85-316-1224-4

1. Poesia épica clássica - Grécia Antiga 2. Poesia grega I. Bruna, Jaime. II. Título. 13-05899

CDD-883.01 Índices para catálogo sistemático: 1. Epopeia : Literatura grega antiga 883.01 2. Poesia épica : Literatura grega antiga 883.01

Direitos reservados EDITORA PENSAMENTO-CULTRIX LTDA., que se reserva a propriedade literária desta tradução. Rua Dr. Mário Vicente, 368 - 04270-000 - São Paulo - SP Fone: (11) 2066-9000 - Fax: (11) 2066-9008 E-mail: atendimento@editoracultrix.com.br http://www.editoracultrix.com.br Foi feito o depósito legal.


Introdução....................................................................7 Canto I...........................................................................9 Canto II........................................................................20 Canto III......................................................................30 Canto IV......................................................................42 Canto V........................................................................61 Canto VI......................................................................72 Canto VII.....................................................................80 Canto VIII...................................................................88 Canto IX....................................................................101 Canto X......................................................................113 Canto XI....................................................................126 Canto XII...................................................................141 Canto XIII..................................................................151 Canto XIV..................................................................161 Canto XV...................................................................173 Canto XVI..................................................................186 Canto XVII................................................................197 Canto XVIII...............................................................212 5


Canto XIX..................................................................222 Canto XX...................................................................236 Canto XXI..................................................................246 Canto XXII................................................................256 Canto XXIII...............................................................268 Canto XXIV...............................................................277

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s aqueus habitavam a Grécia peninsular e algumas ilhas na idade do bronze, nos últimos séculos do segundo milênio antes de Cristo. Povo invasor, tinham expulsado, reduzido à obediência ou assimilado as populações anteriores. De sua civilização, fortemente influenciada pela da Ilha de Creta, restam, de um lado, ruínas e achados arqueológicos e, de outro, um rico filão de lendas e tradições, onde se opulentou a poesia épica e trágica do milênio seguinte. Eles destruíram, na Frígia, diante dos Dardanelos, a praça-forte de Troia. Motivou a guerra, segundo a lenda, o rapto de Helena, a mais bela mulher do mundo, esposa de Menelau, rei de Argos, por Páris, príncipe troiano. Os feitos dos guerreiros nessa campanha e os eventos de seu regresso à terra pátria constituíram o tema de um número considerável de epopeias, das quais o tempo somente nos conservou duas, atribuídas pela antiguidade a um aedo chamado Homero, sobre quem nada se sabe com certeza: a Ilíada, que versa episódios da guerra, e a Odisseia, onde se narram as aventuras do mais astuto dos capitães daquela expedição, Odisseu, rei de Ítaca, após a destruição de Troia, até chegar de volta a seu lar. Essas obras resultam aparentemente da fusão de poemas de autores desconhecidos, realizada, através do tempo, por uma corporação de adedos intitulados Homéridas, isto é, descendentes de Homero, que os transmitiam oralmente de geração a geração. A mais antiga edição escrita de que se tem notícia não foi certamente a primeira que se fez. Foi a determinada, no 7


século VI a.C., por Pisístrato, tirano de Atenas, ou por seu filho e sucessor, Hiparco. Outras edições se fizeram por iniciativa particular ou pública em outros lugares da Grécia em várias ocasiões. O texto que conhecemos é o que compilaram, expurgando erros e vícios, eruditos de Alexandria, a serviço dos Ptolomeus nos séculos III e II a.C. Está vazado numa mistura de dialetos, tão complexa, que não foi possível àqueles sábios separá-los. Predomina o jônio, com abundantes formas eólias; contudo, devem algumas partes ter sido compostas em dialeto mais antigo, provavelmente o aqueu, visto como numerosos hiatos parecem explicar-se pelo desaparecimento, na transposição para o jônio e o eólio, de semivogais indo-europeias ainda existentes na linguagem da obra original. O leitor arguto notará inúmeras repetições de epítetos, de hemistíquios, de versos inteiros e mesmo de grupos de versos. Não lhe será difícil inferir daí o caráter popular da composição. Nossos cantores populares, principalmente os cultivadores do gênero desafio, têm à mão a sua coleção de rimas e de versos já prontos, que muito ajudam a improvisação. O mesmo se passava nos poemas homéricos, cujos autores recorrem livremente a um arsenal de fórmulas prontas. Compreende a Odisseia três poemas distintos pelo assunto, cujo alinhavo se adivinha sob a solidez da costura. Um narra a viagem de Telêmaco em busca de notícias do pai; outro, as peripécias do regresso de Odisseu, espécie de Malazarte mitológico; o terceiro, o extermínio dos moços que, em sua ausência, pretendiam a mão da suposta viúva e, com esse pretexto, lhe iam dilapidando a fortuna. Conquanto movimente deuses, bruxas, espectros, monstros e outras abusões, a arte da Odisseia é assaz realista na pintura de pessoas, costumes, cenas e lugares; por isso consegue transportar-nos ao reino do maravilhoso. Finda a leitura, como que temos saudades de um mundo onde princesas iam lavar roupa no ribeirão, mendigos comiam à mesa do rei e mesmo um guardador de porcos podia ser divino, e agradecemos aos deuses daquela época, porque, segundo Homero, “se eles fiaram a ruína dos homens, foi para proporcionar poemas à posteridade”. J. B.

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usa, narra-me as aventuras do herói engenhoso, que, após saquear a sagrada fortaleza de Troia, errou por tantíssimos lugares vendo as cidades e conhecendo o pensamento de tantos povos e, no mar, sofreu tantas angústias no coração, tentando preservar a sua vida e o repatriamento de seus companheiros, sem, contudo, salvá-los, mau grado seu; eles perderam-se por seu próprio desatino; imbecis, devoraram as vacas de Hélio, filho de Hipérion, e ele os privou do dia do regresso. Começa por onde te apraz, deusa, filha de Zeus, e conta-as a nós também.1 Já se achavam em sua terra todos os demais2 que escaparam ao fim abismal, salvos da guerra e do mar; só ele ainda curtia saudades da pátria e da esposa, retido no seio duma gruta pela real ninfa Calipso, augusta deusa, que o cobiçava para marido. Porém, com o volver dos tempos, chegou, enfim, o ano em que, segundo teceram os deuses, voltaria a seu lar em Ítaca3, mas nem então se veria livre de lutas, embora entre seus entes queridos. Todos os deuses condoíam-se dele, menos Posêidon4, cuja cólera só deu quartel ao divinal Odisseu quando ele chegou à sua terra. 1. Outros poetas tinham cantado antes as mesmas aventuras. 2. Aqueus que combateram em Troia. 3. Ilha onde reinava Odisseu, que geralmente se identifica com a atual Tiaqui. 4. Deus do mar, o latino Netuno, representado empunhando um tridente; consideravam-no causador dos abalos sísmicos.

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Posêidon, porém, partira em visita aos longínquos etíopes, nação cindida em duas nos limites do mundo, uma onde Hipérion se deita, outra onde ele se levanta; fora receber uma hecatombe de touros e carneiros. Enquanto ele se regalava ali à mesa do banquete, os demais deuses enchiam os salões de Zeus Olímpio. O primeiro a falar entre eles foi o pai dos homens e dos deuses; em seu coração se lembrara do impecável Egisto, morto pelo filho de Agamêmnon, Orestes, de largo renome. Nele pensando, dirigiu aos imortais estas palavras: — Santos numes! É de ver como os mortais se queixam dos deuses! Atribuem a nós a origem de suas desgraças, quando eles próprios, com sua estultícia, arranjam tribulações a mais de sua sina. Haja vista o caso recente de Egisto; a mais de sua sina, ele desposou a mulher legítima do filho de Atreu e, embora advertido do fim abismal, matou-o quando ele regressou. Nós mandamos Hermes Argeifontes5, o clarividente, preveni-lo que não o matasse, nem lhe cobiçasse a mulher, porque a vingança do filho de Atreu viria por mão de Orestes, quando chegasse à juventude e sentisse saudades da pátria. Assim o avisou Hermes, mas, com todos os bons intuitos, não o demoveu de seus desígnios e Egisto acaba de pagar duma só vez todos os crimes. Volveu-lhe, então, Atena, deusa de olhos verde-mar: — Pai nosso, filho de Crono, supremo senhor, ele bem mereceu a morte que o prostrou; assim pereçam quantos cometem crimes iguais. A mim punge-me o coração a sorte do judicioso Odisseu, o desditoso, que, longe dos seus, há tanto tempo vem penando numa ilha em meio das ondas, onde fica o umbigo do mar. A ilha é selvosa. Tem ali sua morada uma deusa, filha do maligno Atlas, conhecedor das profundezas de todos os mares, que sustenta as longas colunas que mantêm separados a terra e o céu. Sua filha retém o coitado, mau grado os seus lamentos, e continuamente o procura fascinar com palavras ternas e sedutoras, para que se esqueça de Ítaca. Odisseu, porém, ansioso por ao menos lobrigar uma fumaça elevando-se de sua terra, desejaria morrer. Mas tuas entranhas, Olímpio, nem se comovem! Odisseu não conciliou o teu favor imolando-te vítimas junto dos barcos dos argivos nos vastos domínios de Troia? Por que, ó Zeus, tens tanto ódio a Odisseu?6 5. Hermes, o latino Mercúrio, correio dos deuses, protetor da eloquência, do comércio e do latrocínio; era também quem guiava para o Tártaro as almas dos finados. 6. O trocadilho é do original.

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Disse-lhe em resposta Zeus, que as nuvens ajunta: — Minha filha, que palavras te escaparam à barreira dos dentes! Corno pudera eu ainda esquecer o divino Odisseu, que supera os mortais na inteligência e na oferta de vítimas aos deuses imortais, habitantes da vastidão dos céus? Posêidon, que a terra envolve, é quem lhe guarda perene rancor por causa do Ciclope7, cujo olho ele cegou, o divino Polifemo, que máximo poder tem entre todos os Ciclopes; quem o trouxe ao mundo foi a ninfa Toosa, filha de Fórcis, rei do mar sem messes, após entregar-se a Posêidon no seio duma gruta. Daí para cá, Posêidon, que a terra envolve8, embora não o mate vem desgarrando Odisseu da terra pátria. Eia, porém, pensemos nós todos aqui em seu regresso, a fim de que ele volte. Posêidon deporá o rancor; não poderá brigar sozinho contra todos os deuses imortais e a despeito deles. Volveu-lhe, então, Atena, deusa de olhos verde-mar: — Pai nosso, filho de Crono, supremo senhor, se agora deveras praz aos deuses bem-aventurados que regresse a seu lar o judicioso Odisseu, então aviemos Hermes Argeifontes, nosso mensageiro, à ilha de Ogígia, para comunicar com urgência à ninfa de ricas tranças que decidimos de modo inflexível o regresso do intrépido Odisseu, e assim ele volte. De minha parte, irei a Ítaca, a fim de melhor estimular o seu filho e infundir em sua alma a coragem de convocar uma assembleia dos melenudos aqueus e enxotar a malta de pretendentes, que, sem cessar, abatem incontáveis carneiros e retorcidos bois·de curvos passos. Levá-lo-ei a Esparta e a Pilos areenta, a indagar do regresso de seu amado pai, pois talvez ouça notícias, e a conquistar nobre renome na Humanidade. Assim falou e atou em seus pés as lindas sandálias divinas de ouro, que a transportavam, tanto sobre a água como sobre a terra infinita, com a rapidez do sopro do vento; apanhou a forte lança, de ponta de bronze acerado, pesada, grande e grossa, com que subjuga fileiras de varões guerreiros com quem ela, filha de um pai poderoso, se agasta. Desceu de um salto dos cimos do Olimpo9 e pousou no país de Ítaca, no vestíbulo de Odisseu, na soleira do pátio; empalmava a lança de bronze, sob a figura dum estrangeiro, Mentes, caudilho dos táfios. Deparou ali os arrogantes pretendentes, que se distraíam jogando gamão diante das 7. Gigante, que tinha um olho único, no meio da testa. 8. V. a nota 4. 9. Alta montanha da Grécia peninsular, onde imaginavam que tivessem suas moradas os deuses celestes.

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portas, sentados sobre couros de bois por eles próprios abatidos. Dos arautos e ativos criados, uns misturavam água ao vinho em crateras10, enquanto outros, com esburacadas esponjas, limpavam e achegavam as mesas e ainda outros picavam carne abundante. O primeiro a avistá-la foi Telêmaco, de aspecto divino. Sentado entre os pretendentes, via, em imaginação, o nobre pai chegar um dia, desbaratar os pretendentes pelo solar, impor respeito e reinar em sua casa. Enquanto cismava nisso, sentado entre os pretendentes, avistou Atena; caminhou direito ao vestíbulo, indignado, no íntimo, de que um forasteiro aguardasse longo tempo à porta. Aproximou-se, apertou-lhe a destra, recebeu sua lança de bronze e disse-lhe aladas palavras: — Salve estrangeiro; sê bem-vindo a esta casa. Quando tiveres provado o nosso jantar, dirás o de que precisas. Assim disse e indicou-lhe o caminho. Palas Atena seguiu-o. Uma vez entrados na alta mansão, ele levou a lança e encostou-a numa alta coluna, num bem polido lanceiro, onde se alinhavam muitas outras lanças, do intrépido Odisseu, e levou Atena a sentar numa cadeira, que forrou com linho, bela obra de arte; debaixo havia um escabelo para os pés. Para si colocou ao lado um divã marchetado, a distância do grupo dos pretendentes, para que o forasteiro se deleitasse em vez de se aborrecer com um jantar turbulento na companhia de descomedidos; queria, também, interrogá-lo sobre o pai ausente. Uma serva trouxe água lustral num belo gomil de ouro e despejou-a por sobre uma bacia de prata, para que lavassem as mãos, e achegou-lhes uma mesa polida. A atenciosa despenseira trouxe e serviu o pão e depois pratos numerosos, prodigalizando o que havia; um trinchão trouxe erguidas, travessas de carnes variadas, que lhes pôs diante e junto deles colocou taças de ouro; um arauto constantemente ia e vinha servindo-lhes vinho. Entraram, então, os soberbos pretendentes e desde logo sentaram em filas de divãs e cadeiras; os arautos despejaram-lhes água nas mãos; escravas acumularam pães em cestas diante deles; moços encheram as crateras de bebida até as bordas e eles levavam as mãos aos acepipes preparados e servidos. Depois de expulsarem de si o desejo de comer e beber, seus corações acharam outros atrativos, o canto e a dança, que são o coroamento dum banquete. Um arauto pôs uma cítara adornada nas 10. Sorte de grande malga ou tigela, onde se temperava com água o vinho, demasiado doce e alcoó­ lico; dali o tiravam com o cíato, para encher as taças.

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mãos de Fêmio, constrangido a cantar para os pretendentes, e ele, então, dedilhou o prelúdio dum belo cantar. Telêmaco, no entanto, dirigiu-se a Atena de olhos verde-mar, aproximando a cabeça, para não o ouvirem os demais: — Caro hóspede, ficarás agastado comigo, se eu te disser uma coisa? A eles o que interessa é isso, cítara e canto; muito cômodo, porque devoram impunemente o sustento alheio, de um homem cujos brancos ossos quiçá estejam apodrecendo sob a chuva, jogados em terra firme, se não os está rolando a vaga do mar. Se o avistassem de regresso a Ítaca, orariam todos antes por ter pernas ligeiras do que riqueza de ouros e roupagens. Mas ele, suponho, teve um triste fim e não nos resta nenhum consolo, mesmo quando um homem deste mundo declarasse que ele há de voltar; foi-se o dia de seu regresso. Eia, porém, dize-me uma coisa, falando sem rebuços: quem és? De que lugar no mundo? Onde demoram tua cidade e teus pais? Em que espécie de barco chegaste? como te trouxeram os mareantes a Ítaca? Euem se prezavam eles de ser? Porquanto de modo nenhum acredito que tenhas chegado aqui a pé. Conta-me, também, verazmente, para eu ter certeza, se nos procuras a primeira vez ou se és hóspede de meu pai; a nossa casa têm vindo muitos outros homens, pois ele também travara muitas relações pelo mundo. Respondendo-lhe, disse Atena, deusa de olhos verde-mar: — Pois bem, eu te direi isso falando a pura verdade. Prezo-me de ser Mentes, filho do judicioso Anquíalo, e reino sobre os táfios afeitos ao remo. Agora, como vês, aportei aqui com um barco e tripulação, navegando o mar cor de vinho em demanda de povos de línguas estranhas; destino-me a Têmese em busca de cobre e carrego ferro reluzente. Meu barco fundeou junto do campo, longe da cidade, na enseada de Ritro ao pé do selvoso Neio. Prezamo-nos de ser, por nossos pais, mútuos hóspedes de longa data; podes, se queres, ir perguntá-lo ao velho guerreiro Laertes11; segundo dizem, já não vem à cidade mas, retirado no campo, sofre provações, acompanhado de velha escrava, que lhe serve comida e bebida, quando se apodera de suas pernas o cansaço de arrastar se galgando o outeiro de sua quinta vinhateira. Agora aqui estou; deveras, haviam-me dito que teu pai estava no país. Os deuses, porém, negam-he o retorno, porquanto o divino Odisseu ainda não morreu em terra; provavelmente ainda vive retido no vasto mar, numa ilha em meio às ondas, 11. Pai de Odisseu.

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guardado por cruéis homens selvagens, que talvez o detenham mau grado seu. No entanto, agora te predirei eu como inspiram a meu coração os imortais e creio que se realizará, conquanto não seja adivinho nem profundo conhecedor do voo das aves. Ele não continuará por muito tempo longe da amada pátria, ainda que o prendam cadeias de ferro; descobrirá meios de regressar, visto que é engenhoso. Eia, porém, dize-me uma coisa, falando sem rebuços. Tu, dessa altura, és realmente filho de Odisseu? Parecem-se extraordinariamente com os dele essa cabeça e esses belos olhos; nós dois estivemos juntos tantas vezes, antes de ele embarcar para Troia, quando os outros mais valentes dos argivos partiram nos côncavos barcos; desde então, nunca mais vi Odisseu; nem ele me viu. Volveu-lhe, então, o ajuizado Telêmaco: — Pois bem, estrangeiro, eu te direi isso falando a pura verdade. Diz minha mãe que sou filho dele, mas eu mesmo não sei; ninguém, aliás, sabe de per si sua ascendência. Oxalá fosse eu filho dum homem ditoso que alcançasse a velhice em seus próprios domínios. Todavia, daquele que foi o mais infortunado dos homens mortais, desse dizem que eu venho, já que isso me perguntas. Respondendo-lhe, disse Atena, deusa de olhos verde-mar: — Não, os deuses não te designaram uma linhagem sem nome na posteridade, se Penélope te gerou tal qual és. Eia, porém, dize-me uma coisa falando a pura verdade que banquete, que reunião vem a ser esta? que proveito te dá? é patuscada ou são bodas? É de ver que não se trata de festa de escote, tal a insolência e descomedimento com que me parecem regalar-se no solar. A vista de tanta impudência sentiria indignação um homem de siso que os deparasse. Volveu-lhe, então, o ajuizado Telêmaco: — Já que me perguntas e queres saber isso, esta casa outrora prometia ser rica e impecável quando aquele homem ainda se achava em sua terra; mas os deuses decidiram de outra maneira em seus nefastos desígnios porque o ocultaram como ninguém no mundo. Pois menor sofrimento seria o meu por sua morte, se, entre seus companheiros, tivesse tombado na terra de Troia, ou entre braços amigos, cessada a lida da guerra. A comunidade aqueia lhe teria erguido um túmulo e ele teria granjeado glória na posteridade para seu filho também. Ao invés as harpias12 arrebataram-no ingloriamente; ele se foi, sumiu, sem notícias, deixando-me um legado de 12. Deusas das procelas, eram aves com rosto de mulher.

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angústias e gemidos; nem mesmo o posso carpir e lamentar só a ele, pois que os deuses me depararam outras graves tribulações; todos os fidalgos potentados das ilhas, de Dulíquio, de Same e da selvosa Zacinto, e quantos senhoreiam em Ítaca rochosa, todos pretendem a mão de minha mãe e vão consumindo a casa. Ela nem repele as odiosas núpcias, nem é capaz de pôr cobro à situação; eles vão, assim, com seus banquetes, dando cabo de minha casa e não tardarão a liquidar também a minha pessoa. Indignada, volveu-lhe Palas Atena: — Santos numes! Muita falta te faz o ausente Odisseu, para deitar mãos aos desfaçados pretendentes! Ah! Se ele chegasse neste instante e parasse à porta de entrada, com o elmo, o escudo e um par de lanças, tal como o vi a primeira vez em nossa casa a beber e folgar, quando voltava da visita a Ilo, filho de Mérmero, em Éfira – pois também lá foi Odisseu num ligeiro barco em busca dum veneno mortífero, com que untar suas setas de ponta de bronze; Ilo não lho deu, por temor dos deuses eternos, mas deu-lho meu pai, por o estimar profundamente. Oxalá como o viu então surpreendesse Odisseu os pretendentes! Achariam todos eles morte pronta e amargas bodas. É coisa que deveras repousa nos joelhos dos deuses se ele há de voltar e tomar vingança em seu palácio ou se não; a ti, porém, exorto a cogitar nos meios de expulsar do solar os pretendentes. Vamos, dá-me ouvidos, atenta em minhas palavras; convoca amanhã uma assembleia dos guerreiros aqueus e dirige a palavra a todos, tomando os deuses por testemunhas. Intima os pretendentes a dispersar-se para suas casas e tua mãe, se seu coração pende para o casamento, a ir de volta para o solar de seu mui poderoso pai; lá prepararão as bodas e exporão copiosos presentes de núpcias, quantos devem acompanhar uma filha dileta. Quanto a ti, farei uma sugestão sábia, se me ouvires; arma um barco de vinte remos, o melhor que puderes, e parte a indagar de teu pai há muito ausente; talvez algum mortal te possa falar dele; talvez ouças a voz do oráculo de Zeus, a principal fonte de informação para a Humanidade. Vai, primeiro, a Pilos e interroga o divino Nestor e daí a Esparta, a casa do louro Menelau, que foi o último dos aqueus de cotas de bronze a chegar. Se, por ventura, ouvires que teu pai está vivo e regressando, então, por mais que te consumam as mágoas, podes suportar mais um ano;·se ouvires, porém, que morreu, que já não vive, então, de volta à querida terra pátria, erige-lhe uma tumba e faze-lhe oferendas fúnebres copiosas, como ele merece, e dá tua mãe a um marido. Mas depois que 15


levares a termo esses pios deveres, cogita, em tua mente e teu coração, em como matar os pretendentes em teu solar, quer pela astúcia, quer em luta aberta. Não deves proceder como criança, pois já não estás nessa idade. Não ouviste contar quanta glória adquiriu em todo o mundo o divino Orestes, quando matou o assassino de seu pai, o patife Egisto, o matador do glorioso Agamêmnon? Sê valoroso também tu, meu caro, pois te vejo tão formoso e crescido, para teres igualmente os louvores da posteridade. Quanto a mim, volto agora ao meu ligeiro barco e a meus companheiros, que, por certo, se aborrecem muito com a minha demora. Tu, cuida de teus interesses e considera os meus conselhos. Volveu-lhe, então, o ajuizado Telêmaco: — Forasteiro, esses conselhos tu me dás realmente por bem querer, como um pai a um filho, e não os esquecerei nunca. Mas eia, agora, demora-te, conquanto ansioso por partir, a fim de tomares banho, recreares o coração e então embarcares de alma leve, levando um presente precioso, muito bonito, que seja uma lembrança minha, como costumam dar os hospedeiros aos hóspedes benquistos. Volveu-lhe, então, Atena, deusa de olhos verde-mar: — Não me retenhas mais tempo contra o meu desejo de partir; o presente que teu coração te exorta a dar-me, dá-mo quando eu passar na volta, a fim de que o leve para casa; escolhe um bem bonito, que te valha uma retribuição. Com essas palavras, Atena de olhos verde-mar partiu; alçou o voo, como uma ave, e desapareceu. Deixou-lhe no coração ardor e coragem, com a memória do pai mais viva do que antes. Refletiu sobre ela e seu coração maravilhou-se, porque imaginou tratar-se de um deus. Quando, a seguir, foi ter com os pretendentes, era um homem de aparência divina. O famoso aedo estava cantando para eles, que o escutavam em silêncio; celebrava o regresso dos aqueus, o triste regresso que lhes deparou Palas Atena. Dos aposentos superiores, a filha de Icário, a sensata Penélope, recolheu no coração o seu canto inspirado e desceu de sua alcova pelas altas escadas. Não vinha só; duas aias a acompanhavam. Quando a divina senhora chegou junto dos pretendentes, deteve-se ao pé do pilar do bem construído salão; mantinha erguidos diante do rosto, preciosos cendais; duas servas devotadas ladeavam-na. Falou, então, em pranto ao divino aedo: — Fêmio, conheces muitos outros cantares para enlevar os mortais, façanhas de homens e deuses, que os aedos tornam famosas. 16


Canta-lhes um desses, aí sentado, enquanto bebem calados o seu vinho, e deixa – esse cantar doloroso, que sempre me rói no peito o coração, pois sobre mim como sobre ninguém, desceu um pesar inesquecível, tão cara é a pessoa que sem cessar recordo com saudade, meu esposo, de extensa fama na Hélade e em meia Argos. Volveu-lhe, então, o ajuizado Telêmaco: — Minha mãe, por que reprovas o leal aedo que nos distrai como lhe dita o coração? A culpa não cabe aos aedos, mas decerto a Zeus, que aos homens estrênuos dá conforme lhe apraz. Nenhum mal vai a que ele cante o triste destino dos dânaos13; os homens tanto mais aplaudem um cantar quanto mais novo lhes chega aos ouvidos. Que teu coração e tua alma suportem melhor escutá-lo; Odisseu não foi o único a perder em Troia o dia do regresso; muitos outros varões pereceram. Volta a teus aposentos, ocupa-te de teus misteres, do tear e da roca, e manda tuas servas pôr-se ao trabalho; a palavra de ordem compete a homens, principalmente a mim, pois que a mim cabe a autoridade nesta casa. Ela, tomada de espanto, voltou a seus aposentos; tinha acolhido em sua alma a sábia ordem do filho. Subiu com as suas aias para os aposentos de cima; em seguida, pôs-se a chorar a Odisseu, o amado esposo, até que Atena de olhos verde-mar lhe esparziu nas pálpebras um doce sono. Os pretendentes romperam numa algazarra pelas salas escuras; todos rezavam pela graça de deitar a seu lado no leito. Começou, porém, a falar-lhes o ajuizado Telêmaco: — Pretendentes à mão de minha mãe, que vos comportais com abusiva insolência, por ora folguemos banqueteando-nos, mas sem gritaria, pois belo é escutar um aedo exímio como este, semelhante aos deuses na voz. De manhã, vamos todos à assembleia e sentemo-nos, para que eu vos intime abertamente a ordem de abandonar esta casa. Providenciai outros banquetes, consumindo recursos vossos e passando de casa em casa. Se, porém, vos parece mais vantajoso e agradável que se arruíne impunemente o sustento de um único homem, pilhai-o; eu irei invocar os deuses eternos aos brados; quiçá conceda Zeus que ações punitivas se consumem e então pereçais, inultos, dentro destas paredes. Assim falou ele. Todos cravaram os dentes nos lábios, admirados de ouvir Telêmaco proferir palavras ousadas. Volveu-lhe, então, Antínoo, filho de Eupites: 13. Os gregos.

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— Telêmaco são decerto os próprios deuses quem te ensinam a altear a voz e proferir palavras ousadas. Que jamais o filho de Crono te faça rei de Ítaca em meio ao mar, como te cabe por herança paterna. Volveu-lhe, então, o ajuizado Telêmaco: — Talvez, Antínoo, te agastes, com o que vou dizer. Essa herança eu quisera recolher por outorga de Zeus. Ou dizes tu ser essa a pior sorte no mundo? Não, não é mal nenhum reinar; a casa do rei enriquece depressa, sua pessoa desfruta maior respeito. No entanto, existem muitos outros reis aqueus em Ítaca em meio ao mar, moços e velhos; um deles pode lograr o posto, desde que o divino Odisseu está morto, mas serei eu o senhor de nossa casa e dos escravos que o divino Odisseu capturou para mim. Tornou-lhe, então, Eurímaco, filho de Pólibo: — Telêmaco, é coisa que deveras repousa nos joelhos dos deuses quem dentre os aqueus reinará em Ítaca em meio ao mar. Tu podes possuir os bens e senhorear em tua casa e não chegue jamais homem que pela violência e contra tua vontade te haja de arrebatar a fortuna enquanto Ítaca for habitada. Desejo, porém, meu bravo, interrogar-te acerca do estrangeiro. De onde veio aquele homem? De que terra se preza de ser? Onde demora sua família e sua terra pátria? Trouxe alguma notícia da vinda de teu pai ou veio aqui cuidar de seus próprios negócios? Quão depressa se levantou e partiu! Nem esperou para conhecer-nos! No entanto, sua aparência não era nada humilde. Volveu-lhe, então, o ajuizado Telêmaco: — Eurímaco, por certo não mais se espera que meu pai regresse, nem mais acredito em notícias, se alguma chegar, nem darei crédito a vaticínios, que minha mãe obtiver de adivinho chamado a palácio. Aquele senhor é um hóspede de nossa família, vindo de Tafos; preza-se de ser Mentes, filho do judicioso Anquíalo; ademais, reina sobre os táfios afeitos ao remo. Assim falou Telêmaco, mas em seu íntimo sabia tratar-se duma deusa imortal. Os pretendentes entregaram-se à dança e ao canto deleitoso, e a divertir-se, enquanto esperavam o anoitecer. Estavam-se divertindo quando chegou o escuro anoitecer e, então, sonolentos, se foram para suas casas. A alta alcova de Telêmaco erguia-se no belíssimo pátio, num sítio elevado; ali foi ele deitar-se, levando na alma preocupações sem conta. Com ele ia, portando tochas acesas, a fiel Euricleia, filha de Ops e neta 18


de Pisenor. Laertes a comprara um dia com seu dinheiro, ainda rapariga; pagara o valor de vinte bois14 e respeitava-a tanto como mulher legítima no solar, mas jamais a teve no leito, por temor à cólera da esposa. Era ela quem levava as tochas acesas e quem, dentre as servas, mais queria a Telêmaco e o pajeara quando ele ainda mamava. Ele abriu as portas da bem construída alcova, sentou-se no leito, despiu a macia túnica e pô-la nas mãos da sábia anciã. Ela dobrou a túnica, alisou-a, pendurou-a num cabide junto à cinzelada cama, passou para fora da alcova, puxou a porta pela aldrava de prata e com a correia fez cair no lugar o ferrolho. Ali refletiu Telêmaco a noite toda, envolto em velos de ovelha, sobre a viagem de que lhe falara Atena.

14. Antes da invenção da moeda, bois e ovelhas eram padrões de valor. Isso ainda testemunham as palavras pecúlio e pecúnia) da mesma raiz de pegureiro.

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ODISSEIA  

Clássico absoluto da literatura universal, Odisseia leva-nos à Grécia de 3.000 anos atrás, às grandiosas aventuras do herói Odisseu, depois...

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