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O Orรกculo Sagrado das Runas

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Edred Thorsson

O Oráculo Sagrado das Runas Autoconhecimento e orientação pelo sistema divinatório milenar dos povos nórdicos

Tradução Marcello Borges Karina Geannini

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Título do original: Runen – Orakel, Beratung, Lebenshilfe Copyright © 1984/1988 Edred Thorsson; Samuel Weiser, York Beach, Maine/USA. Copyright © 1987/2001/2011 Königsfurt-Urania Verlag GmbH, www.koenigsfurt-urania.com Copyright da edição brasileira © 2013 Editora Pensamento-Cultrix Ltda. Publicado mediante acordo com Alexian Ltd. 1a edição 2013. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou usada de qualquer forma ou por qualquer meio, eletrônico ou mecânico, inclusive fotocópias, gravações ou sistema de armazenamento em banco de dados, sem permissão por escrito, exceto nos casos de trechos curtos citados em resenhas críticas ou artigos de revistas. A Editora Pensamento não se responsabiliza por eventuais mudanças ocorridas nos endereços convencionais ou eletrônicos citados neste livro. Texto de acordo com as novas regras de ortografia da língua portuguesa. Capa: Jessica Quistorff usando as seguintes imagens de Fotolia: Runas © Pshenichka e “beauty frame” © aalto Elementos decorativos: Hermann Betken “Beauty frame” © aalto, Fotolia Imagens: Veja seção Fontes das Imagens na página 154 As informações contidas neste livro foram pesquisadas com cuidado e de modo consciencioso. Entretanto, nem o autor nem a editora oferecem qualquer garantia; exclui-se toda responsabilização por danos a pessoas, objetos e bens. As ilustrações extraídas da Wikipedia são caracterizadas como tais; estão sujeitas às determinações da Licença GNU de Documentação Livre, segundo a qual, quando um autor ou titular do copyright (cedente) submete uma obra a essa licença, ele concede a qualquer pessoa amplos direitos de utilização dessa obra. A licença permite a reprodução, a difusão e a alteração da obra também para fins comerciais. Em contrapartida, o cessionário se obriga a manter as condições da licença. Estas preveem, entre outras, a obrigação de nomear o autor ou os autores e obrigam o cessionário a submeter obras derivadas à mesma licença (princípio de Copyleft). Portanto, as ilustrações que extraímos da Wikipedia podem ser ulteriormente empregadas, desde que as determinações da Licença GNU de Documentação Livre também sejam respeitadas pelo usuário posterior. Para mais detalhes, ver http://de.wikipedia.org/wiki/GNU-Lizenz. Todas as outras ilustrações utilizadas neste livro, os textos e o layout estão sujeitos ao copyright e não podem ser reproduzidos nem arquivados sem o consentimento da editora e do titular do copyright. Editor: Adilson Silva Ramachandra Editora de texto: Denise de C. Rocha Delela Coordenação editorial: Roseli de S. Ferraz Produção editorial: Indiara Faria Kayo Assistente de produção editorial: Estela A. Minas Editoração Eletrônica: Join Bureau Revisão: Yociko Oikawa CIP-Brasil. Catalogação na Publicação Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ T412o Thorsson, Edred O oráculo sagrado das runas : autoconhecimento e orientação pelo sistema divinatório milenar dos povos nórdicos / Edred Thorsson ; tradução Marcello Borges, Karina Geannini. – 1. ed. – São Paulo: Pensamento, 2013. il. Tradução de: Runen : Orakel, Beratung, Lebenshilfe ISBN 978-85-315-1840-9 1. Runas. I. Título. 13-03037

CDD: 133.3 CDU: 133.3

Direitos de tradução para o Brasil adquiridos com exclusividade pela EDITORA PENSAMENTO-CULTRIX LTDA., que se reserva a propriedade literária desta tradução. Rua Dr. Mário Vicente, 368 – 04270-000 – São Paulo – SP Fone: (11) 2066-9000 – Fax: (11) 2066-9008 http://www.editorapensamento.com.br E-mail: atendimento@editorapensamento.com.br Foi feito o depósito legal.

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Sumário 1 Panorama histórico 7 História das runas 8 O jogo de runas na história e na literatura 2 Teoria divinatória das runas As runas e o destino 14

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3 Instrumentos para o jogo de runas

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4 Rituais do jogo de runas 21 A Ocasião 21 O Local 22 Criação talismânica das peças 22 O corte da madeira para as peças 23 Energização das peças 24 O lançamento runas 27 5 Métodos para jogar e interpretar as runas 31 Exercício de leitura 1 31 Exercício de leitura 2 32 Sobre os aspectos 32 Determinação dos aspectos 33 Os Métodos 35 1. O método nórnico 36 Exemplo de leitura segundo o método nórnico 37 2. O método dos ættir 38 Exemplo de um lançamento segundo o método dos ættir 42 3. O método futhark 44 Exemplo de leitura segundo o método futhark 46 4. O método dos sete reinos 48 Exemplo de leitura segundo o método dos sete reinos 50 Métodos alternativos 51 Respostas sim ou não 53 6 Simbolismo rúnico e tabelas oraculares

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Glossário 152 Abreviaturas 153 Fontes das imagens 154 Posfácio 155

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Odin cavalga em seu cavalo Sleipnir, de oito pernas. Manuscrito islandês do século XVIII.

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1 Panorama Histórico A palavra “runa” significa simplesmente “mistério” ou “segredo”. O significado básico é o mesmo em todos os dialetos germânicos antigos: rún em norueguês antigo, runa em alto-alemão antigo, run em inglês antigo e runa em gótico. Provavelmente, a palavra remonta a uma raiz relacionada à vocalização – um sussurro ou um murmúrio, e isso vem antes da escrita ou da imagem. Refere-se, primordial e basicamente, a uma ideia ou princípio expresso oralmente e/ou por magia, e em segundo lugar à representação visual desse princípio. Quando os povos germânicos começaram a escrever como os gregos e romanos, eles deram aos diagramas com que realizavam essa tarefa o nome de “runas”. Cada runa representava um mistério e estava relacionada a certos princípios da tradição esotérica. (Isso não surpreende, pois as pessoas que desenvolveram e mantiveram esse sistema também eram os depositários de outros materiais intelectuais e religiosos dessa cultura.) Além disso, o próprio sistema podia ser usado para representar uma linguagem natural, e assim preservar foneticamente as fórmulas mágicas em si. As runas tornaram-se “sussurradoras de segredos”. Através delas era possível haver comunicação – de maneira silenciosa e através de grandes distâncias e períodos de tempo, entre os reinos da existência – entre deuses e humanos, humanos e deuses e até entre os reinos da natureza. A importância desse fato deve ficar clara para quem quer que se interesse por magia ou oráculos. As runas, embora não sejam uma linguagem no sentido habitual da palavra, constituem uma metalinguagem, ou seja, um sistema simbólico através do qual é possível transmitir significados acima e além da capacidade da linguagem natural, do mesmo modo que a poesia. Na verdade, é bem provável que a poesia germânica clássica tenha surgido de práticas divinatórias rúnicas. Por meio dessa metalinguagem, o runomante pode encetar um diálogo significativo com seu ambiente, interior e exterior. Esse aspecto está na raiz do verdadeiro significado da palavra “runa”. Mas tudo isso faz muito mais sentido se entendido dentro da antiga cosmologia nórdica dos mundos múltiplos – e sua psicologia de almas múltiplas.

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História das runas No sentido histórico mais exotérico, as runas representam uma tradição ininterrupta: um “alfabeto” usado pelos povos nórdicos desde tempos antigos até o início do século XX, em regiões remotas da Escandinávia. Entretanto, essa tradição contínua passou por muitas transformações. É importante compreender que as runas, embora sejam um sistema de símbolos (uma metalinguagem), não constituem uma linguagem no sentido habitual. Qualquer língua natural (como o inglês, o russo, o japonês) pode, teoricamente, ser escrita em caracteres rúnicos, embora, historicamente, as runas nunca tenham sido empregadas fora do grupo linguístico germânico, ou seja, nunca foram usadas por celtas ou finlandeses, por exemplo. A mais antiga tradição rúnica é a composta de 24 peças, o Futhark Antigo. Esse sistema pode ter sido iniciado em torno de 200 AEC, mas certamente era usado no primeiro século da Era Comum. (A mais antiga inscrição encontrada até hoje é a do broche de Meldorf, que data aproximadamente de 50 EC). Na Escandinávia, esse sistema continuou a ser empregado mais ou menos até 800 EC, quando foi reformado sistematicamente e denominado Futhark Novo, de dezesseis peças. Dentro da escala de tempo do Futhark Antigo (que começa por volta de 450 AEC), foi desenvolvido um futhorc estendido, com 28 peças, nos territórios frísio e anglo-saxão. Esse sistema continuou a ser expandido e representado amplamente em meios mais variados (em manuscritos) até por volta de 1050. Dentro da tradição formal do futhark de 24 peças, houve ainda uma tradição rúnica do sul da Alemanha que floresceu nos séculos VI e VII da Era Comum, especialmente na Bavária, Alemânia e Turíngia. Na Escandinávia, o vigoroso sistema do futhark antigo de dezesseis peças, iniciado na aurora da chamada Era Viking, foi aos poucos sendo corrompido pelo sistema alfabético do sul da Europa. As runas foram sendo retiradas de sua ordem característica no futhark e postas em ordem alfabética. Essa reforma alfabética foi concluída, na maioria dos casos com propósitos exotéricos, por volta de 1300. No entanto, os poemas rúnicos mostram que a tradição esotérica da ordem do futhark sobreviveu até o século XV. O conhecimento das runas como sistema de escrita praticamente desapareceu, exceto na Escandinávia, onde continuou a ser usado como forma alternativa e utilitária de escrita (especialmente em entalhes) por clérigos, comerciantes e fazendeiros. Por fim, a tradição rúnica acabou sendo preservada apenas nas áreas mais remotas do interior da Escandinávia.

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O jogo de runas na história e na literatura Sem fontes escritas, especialmente textos em nórdico antigo e latim, seria difícil determinar cientificamente a natureza histórica do jogo de runas. Esses relatos, e certas palavras usadas neles, fornecem muitas pistas sobre a estrutura do ritual divinatório rúnico e proporcionam o contexto para atos divinatórios em geral. Contudo, há limites para essas evidências. Em primeiro lugar, esses textos tornaram-se comuns apenas na Idade Média, e, embora certamente representem materiais muito mais antigos e reflitam práticas arcaicas, devemos levar em consideração essa discrepância temporal. Em segundo lugar, os relatos das sagas estão integrados a contos ficcionais e podem conter certo grau de convenção literária. Entretanto, esses dois pontos são pequenos se vistos contra o pano de fundo mais amplo da tradição. Não existem, nos registros arqueológicos, exemplos claros de runas entalhadas com finalidade divinatória, mas provavelmente isso se deve ao fato de elas terem sido gravadas em materiais perecíveis. Outra possibilidade é que fossem destruídas ritualisticamente depois de usadas como parte de um procedimento normal. Outro fato surpreendente é que não existem referências diretas, não mitológicas, ao ato de se lançar runas na literatura nórdica antiga. Apesar de tudo isso, é praticamente certo que a prática era conhecida, devido a evidências linguísticas e a relatos paralelos em textos históricos. As evidências linguísticas são de dois tipos: (1) palavras sobre os instrumentos ou jogo de runas, e (2) expressões que, originalmente, devem ter sido caracterizações dos resultados do jogo de runas. As peças de madeira em que as runas individuais ou combinações de runas eram entalhadas (geralmente coloridas com sangue ou tinta vermelha) eram conhecidas na linguagem nórdica antiga como hlaut-teinar (hlaut-teinn) ou gravetos da sorte (também interpretada por Snorri Sturluson como “gravetos sangrentos”), e hlaut-vidhar, peças de madeira da sorte. O uso original da expressão germânica stabaz, que significa pau ou palito, pode ter relação com o fato de as runas serem entalhadas em pedaços de madeira que, com grande probabilidade, eram empregados em práticas divinatórias. Os termos germânicos runō e stabaz estavam ligados graças a essa prática e, com o tempo, tornaram-se sinônimos. Uma evidência corroboradora interessante é encontrada na palavra wyrd-stæf, do inglês antigo, que significa tábua wyrd (destino pessoal) ou weird (ver glossário), o que parece uma referência ao uso divinatório. Os antigos dialetos germânicos estão repletos de palavras compostas que se referem a diversos tipos de runas/varetas. Algumas são descrições técnicas (em nórdico antigo [NA] málrúnar, runas falantes; NA blódhgar rúnar, runas

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sangrentas; em alto-alemão antigo [AAA] leod-rūna, runa cantante etc.), enquanto outras dão indicações das razões pelas quais deviam ser empregadas (NA brim-rúnar, runas do mar [para acalmá-lo]; bjarg-rúnar, runas do parto [para facilitá-lo] etc.). Entretanto, entre essas existem algumas que parecem classificar os resultados de um jogo de runas. Algumas são auspiciosas (NA líkn-stafir, varetas da saúde; NA gaman-rúnar, runas da alegria; NA audh-stafir, varetas da riqueza; NA sig-rúnar, runas da vitória), enquanto outras parecem desfavoráveis (NA myrkir stafir, varetas sombrias; NA böl-stafir, varetas malignas; inglês antigo [IA] beadu-run, runa de conflito; NA flærdh-stafir, varetas enganosas). No que diz respeito à prática efetiva do jogo de runas, a melhor descrição é aquela proporcionada por Tácito, no capítulo 10 de Germania (cerca de 98 EC). Antes, pode ter ocorrido certa discussão sobre se as notae, signos, mencionados por ele referiam-se de fato às runas, pois acreditava-se que a inscrição mais antiga dataria de 150 EC, aproximadamente. A descoberta do broche de Meldorf, porém (cerca de 50 EC), proporcionou evidências físicas de que as runas eram conhecidas desde antes da época em que o Germania foi escrito. O relato de Tácito pode ser traduzido assim: Quanto à tiragem de auspícios e ao lançamento da sorte, eles acreditam tanto quanto quaisquer outros: o modo pelo qual lançam a sorte é simples. Cortam um galho de uma árvore frutífera em rodelas, assinalando-as com certos signos (notae, em latim), e lançando-as aleatoriamente sobre um pano branco. Depois, o sacerdote estatal, se a consulta for pública, ou o pai de família, se privada, oferece uma prece aos deuses, e, enquanto olha para o céu, pega três rodelas, uma de cada vez, e interpreta seu significado de acordo com os signos entalhados nelas. Se a mensagem proibir alguma coisa, não se faz mais nenhuma pergunta sobre o assunto nesse dia; mas se permite alguma coisa, é necessária a confirmação dos auspícios. Em A Conquista da Gália (Livro I, 53), César, escrevendo por volta de 58 AEC, também menciona a “consulta da sorte, três vezes” (ter sortibus consultum); portanto esse deve ter sido um aspecto importante da adivinhação germânica. Três passagens das Eddas também atribuem significados mágicos importantes – e um tanto quanto enigmáticos – às práticas divinatórias rúnicas. Tudo acontece em contextos míticos. No poema “Völuspá”, est. 20: “[As Nornes] cortavam madeira, estabeleciam leis, escolhiam as vidas, pro-

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nunciavam os ‘destinos’ (NA ørlög). No poema “Hávamál”, est. 80, lemos que “foi provado quando você pergunta às runas, que foram criadas pelos deuses” (NA regin, conselheiros divinos). No “Hávamál”, est. 111, encontra-se esta passagem instrutiva: É tempo de cantar na banqueta do mago, no poço de Urdr Sentei-me e calei Sentei e pensei. e ouvi os discursos dos homens das runas, eu ouvi falar os conselhos revelados No salão de Hár No salão de Hár assim ouvi dizer. Esta passagem proporciona não apenas um retrato objetivo dos procedimentos rituais – como Tácito, o estrangeiro, também proporciona –, mas também nos dá um vislumbre dos processos interiores subjetivos da mente do lançador de runas. Isso é algo que só um conhecedor, só alguém que realmente era versado no jogo de runas, poderia ter feito. Há outros relatos históricos de observadores cristãos que nos dizem pouca coisa além do fato de que o número três era muito importante.

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Odin com seus corvos Huginn e Muninn. Manuscrito islandês do século XVIII.

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