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Para Matthias. Heaven is a place on earth with you.

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Nele Neuhaus

LOBO MAU Suspense Policial

Tradução KARINA JANNINI

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Título do original: Böser Wolf. Copyright © 2012 Ullstein Buchverlage GmbH, Berlim. Copyright da edição brasileira © 2014 Editora Pensamento-Cultrix Ltda. Publicado em 2012 por Ullstein Verlag. Texto de acordo com as novas regras ortográficas da língua portuguesa. 1a edição 2014. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou usada de qualquer forma ou por qualquer meio, eletrônico ou mecânico, inclusive fotocópias, gravações ou sistema de armazenamento em banco de dados, sem permissão por escrito, exceto nos casos de trechos curtos citados em resenhas críticas ou artigos de revistas. A Editora Jangada não se responsabiliza por eventuais mudanças ocorridas nos endereços convencionais ou eletrônicos citados neste livro. Esta é uma obra de ficção. Todos os personagens, organizações e acontecimentos retratados neste romance são também produtos da imaginação do autor e são usados de modo fictício. Editor: Adilson Silva Ramachandra Editora de texto: Denise de C. Rocha Delela Coordenação editorial: Roseli de S. Ferraz Produção editorial: Indiara Faria Kayo Editoração Eletrônica: Join Bureau Revisores: Nilza Agua Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Neuhaus, Nele Lobo Mau : suspense policial / Nele Neuhaus ; tradução Karina Jannini. – 1. ed. – São Paulo : Jangada, 2014. Título original: Bõser Wolf. ISBN 978-85-64850-86-6 1. Ficção policial e de mistério (Literatura alemã) I. Título.

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CDD-833

Índices para catálago sistemático: 1. Ficção policial e de mistério : Literatura alemã 833

Jangada é um selo editorial da Pensamento-Cultrix Ltda. Direitos de tradução para o Brasil adquiridos com exclusividade pela EDITORA PENSAMENTO-CULTRIX LTDA., que se reserva a propriedade literária desta tradução. Rua Dr. Mário Vicente, 368 – 04270-000 – São Paulo, SP Fone: (11) 2066-9000 – Fax: (11) 2066-9008 http://www.editorajangada.com.br E-mail: atendimento@editorajangada.com.br Foi feito o depósito legal.

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Prólogo

E

le colocou a sacola no chão e foi arrumando as compras na minúscula geladeira. O sorvete da Häagen-Dasz, no sabor preferido dela, estava quase derretido, mas ele sabia que era exatamente assim que ela gostava, bem cremoso, com pedacinhos crocantes de biscoito. Fazia semanas que a vira pela última vez. Embora fosse difícil para ele, nunca a pressionava. Não podia se precipitar, precisava ter paciência. Era ela quem deveria ter vontade de procurá-lo. No dia anterior, finalmente havia entrado em contato, por SMS. E ela logo estaria ali! A expectativa fazia seu coração bater mais rápido. Seu olhar vagou pelo trailer, onde, na noite anterior, tinha dado uma boa arrumada, e pousou no relógio da pequena cozinha. Já eram seis e vinte! Precisava se apressar, pois não queria que ela o visse naquele estado, todo suado e com a barba por fazer. Depois do trabalho, tinha dado uma passada rápida no barbeiro, para cortar o cabelo, mas o cheiro rançoso do quiosque estava grudado em todos os seus poros. Rapidamente, despiu-se, enfiou as roupas que fediam a suor e fritura na sacola vazia de compras e espremeu-se no chuveiro ao lado da minicozinha. Ainda que o espaço fosse apertado e a pressão da água, muito modesta, preferia o banheiro do trailer aos sanitários coletivos e nada higiênicos do camping, que quase nunca eram limpos. Ensaboou-se da cabeça aos pés, barbeou-se cuidadosamente e escovou os dentes. Às vezes, tinha de se obrigar a fazer isso, pois, com frequência, a tentação de se desleixar e afundar na autocompaixão e na letargia era grande. Não fosse por ela, talvez tivesse mesmo feito isso.

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Alguns minutos depois, enfiou a cueca e uma camisa polo limpas; do armário tirou uma calça jeans. Por fim, pôs o relógio de pulso. Alguns meses antes, na estação central, um penhorista lhe oferecera 150 euros por ele – era muita cara de pau! Treze anos atrás, tinha pago 11 mil marcos por aquela obra-prima de uma fábrica de relógios suíça. Ficou com o relógio. Era a última lembrança de sua antiga vida. Uma última olhada no espelho, depois abriu a porta do trailer e saiu. Seu coração disparou ao vê-la do lado de fora, sentada na cadeira bamba do jardim. Fazia dias, semanas que esperava ansiosamente por esse momento. Ficou em pé, parado, para poder sentir seu olhar e absorvê-lo por completo. Como era linda, como era doce e delicada! Um anjinho meigo. Os cabelos louros, cuja maciez e perfume ele já havia sentido, caíam-lhe sobre os ombros. Estava com um vestido sem mangas, que deixava ver sua pele levemente bronzeada e as frágeis vértebras em sua nuca. No rosto, uma expressão concentrada; estava ocupada em digitar alguma coisa no celular e não o notou. Como não queria assustá-la, pigarreou. Ela levantou o olhar, que encontrou o seu. O sorriso começou nos cantos da boca, depois se espalhou por todo o rosto. Ela se levantou de um salto. Engoliu em seco quando ela se aproximou e parou na sua frente. A expressão de confiança em seus olhos escuros fez com que ele sentisse uma pontada. Santo Deus, como era meiga! Era a única razão pela qual, tempos atrás, ele não se jogara na frente de um trem nem usara de outro modo banal para dar cabo prematuramente daquela sua vida miserável. – E aí, garota? – disse ele, rouco, colocando a mão no ombro dela. Só por um instante. Sua pele era sedosa e quente. No início, sempre se sentia constrangido de tocá-la. – O que você disse para a sua mãe? Contou aonde ia?

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– Esta noite ela foi a uma festa qualquer com meu padrasto, acho que no corpo de bombeiros – respondeu guardando o celular na mochila vermelha. – Eu disse que ia para a casa da Jessie. – Que bom. Com o olhar, ele se assegurou de que nenhum vizinho curioso nem algum passante ocasional os observassem. Estava vibrando por dentro de tanta agitação; seus joelhos tremiam. – Comprei seu sorvete predileto – disse em voz baixa. – Vamos entrar?

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Quinta-feira, 10 de junho de 2010

E

la teve a sensação de ter apagado e caído para trás. Assim que abriu os olhos, viu tudo girar. E estava enjoada. Não, enjoada, não, um trapo. Sentiu cheiro de vômito. Alina gemeu e tentou levantar a cabeça. Onde estava? O que tinha acontecido? E onde estavam os outros? Pouco antes estavam todos juntos, sentados embaixo da árvore, Mart ao seu lado, com o braço em seus ombros. Uma sensação boa. Deram risada, e ele a beijou. Katharina e Mia ficaram um bom tempo reclamando dos mosquitos, que eram muitos; ouviram música e beberam aquele negócio adocicado – vodca com Red Bull. Alina ergueu-se com esforço. A cabeça latejava. Abriu os olhos e levou um susto. O sol já estava se pondo. Que horas seriam? E onde estava seu celular? Não conseguia se lembrar de como tinha ido parar ali nem de onde estava. As últimas horas tinham como que se apagado. Um branco total! – Mart? Mia? Cadê vocês? Arrastou-se até o tronco do imponente chorão. Precisou de toda a sua força para se levantar e dar uma olhada ao redor. Seus joelhos estavam moles como manteiga, tudo girava à sua volta, e ela não conseguia enxergar direito. Provavelmente, tinha perdido as lentes de contato ao vomitar. Pois, que havia vomitado, disso não tinha dúvida. O gosto na boca era horrível, e seu rosto estava melado. As folhas secas crepitavam sob seus pés descalços. Olhou para baixo. Também tinha perdido os sapatos!

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– Mas que merda! – murmurou, lutando contra a vontade de chorar. Se aparecesse em casa naquele estado, ia ser a maior encheção! De longe chegavam vozes e risadas; o cheiro de carne grelhada penetrou em seu nariz e voltou a piorar o enjoo. Pelo menos, não tinha ido parar no meio do nada; havia gente bem perto dali! Alina soltou o tronco da árvore e deu alguns passos inseguros. Tudo ao seu redor girava como em um carrossel, mas ela se obrigou a seguir adiante. Mas que filhos da puta! Uns amigos da onça, isso sim! Simplesmente a deixaram ali deitada, bêbada, sem sapato nem celular! Pelo visto, a balofa da Katharina e aquela mal-humorada imbecil da Mia ainda se divertiram bastante à custa dela. Elas iam ver só uma coisa, amanhã, na escola! E com o Mart ela não trocaria nem mais uma palavra na vida. Só no último momento é que Alina percebeu a ribanceira íngreme e parou. Havia alguém lá embaixo! Entre as urtigas, bem na beira da água. Cabelos escuros, uma camiseta amarela – era o Alex! Caramba, como é que tinha ido parar lá embaixo? O que tinha acontecido? Praguejando, Alina pôs-se a descer. Queimou as panturrilhas nuas nas urtigas e pisou em algo pontiagudo. – Alex! – Agachou-se ao lado dele e sacudiu seu ombro. Ele também estava fedendo a vômito e gemeu baixinho. – Ei, acorde! Com a mão, espantou os mosquitos, que não paravam de zumbir ao redor da cabeça dele. – Alex! Acorde! Vamos! – Puxou suas pernas, mas ele era pesado como chumbo e não se mexeu. Um barco a motor passou no rio, lançando uma onda. A água gorgolejou nos juncos e lavou as pernas do Alex. Alina perdeu o fôlego de susto. Bem na sua frente, uma mão pálida saiu da água, como se quisesse agarrá-la. Recuou de um salto e soltou um grito assustado. Na água, entre os caules dos juncos – a menos de dois metros de distância do Alex –, estava Mia! Alina pensou ter reconhecido seu rosto debaixo da super10

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fície da água. No lusco-fusco difuso do anoitecer, viu cabelos claros e longos e olhos arregalados e sem vida, que pareciam olhar diretamente para ela. Como que paralisada, Alina fitou a imagem de horror. Em sua cabeça reinava apenas confusão. Que diabos tinha acontecido ali? Outra onda moveu o corpo morto de Mia; seu braço saiu da água escura, pálido como o de um fantasma, como se a garota estivesse pedindo socorro. Alina sentia o corpo inteiro tremer, embora ainda fizesse um calor insuportável. Seu estômago se contorceu, ela cambaleou, virou-se e vomitou nas urtigas. No entanto, em vez de vodca e Red Bull, saiu apenas bile amarga. Soluçando desesperadamente, subiu a ribanceira íngreme arrastando-se de quatro, com o matagal arranhando seus joelhos e suas mãos. Ah, como queria estar em casa, no seu quarto, na cama, em segurança! Só queria estar longe daquele lugar horrível e esquecer tudo o que tinha visto.

Pia Kirchhoff digitava no computador o último relatório sobre as investigações da morte de Veronika Meissner. O sol brilhava desde cedo no telhado plano do prédio em que ficavam as salas da delegacia de homicídios, e o mostrador digital com a previsão do tempo, sobre o parapeito da janela ao lado da mesa de Kai Ostermann, indicava 31°C. Temperatura ambiente. Do lado de fora, certamente deveria estar fazendo três graus a mais. Todas as escolas haviam cancelado as aulas por causa do calor. Embora todas as portas e janelas estivessem abertas, não soprava nenhum vento que trouxesse alívio. O braço de Pia grudava no tampo da mesa quando ela o apoiava. Suspirou e imprimiu o relatório, que, em seguida, guardou na pasta fina. Só estava faltando o relatório da autópsia, mas onde o tinha colocado? Pia se levantou e procurou-o nas bandejas de documentos, para final11

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mente poder encerrar o processo. Fazia dois dias que cuidava sozinha do posto na delegacia de homicídios, pois seu colega Kai Ostermann, com quem dividia o escritório, estava em Wiesbaden desde quarta-feira, fazendo curso de aperfeiçoamento na Polícia Criminal Federal. Kathrin Fachinger e Cem Altunay estavam participando de um seminário nacional em Düsseldorf, e na segunda-feira o chefe tinha saído de férias para destino desconhecido. A reuniãozinha que a doutora Nicola Engel, superintendente da Polícia Criminal, havia marcado para o começo da tarde para comemorarem a promoção de Pia a inspetora-chefe acabou sendo cancelada por falta de convidados, mas Pia não ficou chateada. Não gostava de badalação ao seu redor, e a mudança de cargo era apenas uma formalidade técnico-administrativa, nada além disso. – Onde foi parar esse maldito relatório? – murmurou irritada. Faltava pouco para as cinco horas, e às sete tinha o encontro da turma da escola, em Königstein. Raramente o trabalho em Birkenhof lhe deixava tempo para os contatos sociais; por isso, estava ansiosa para rever as antigas colegas depois de 25 anos. Uma batida à porta aberta a fez se virar. – Oi, Pia. Não acreditou no que via. À sua frente estava seu ex-colega Frank Behnke. Parecia mudado. Havia trocado seu visual de sempre – jeans, camiseta e botas gastas, estilo caubói – por um terno cinza-claro, camisa e gravata. Os cabelos estavam um pouco mais compridos do que antes, e seu rosto já não era tão macilento, o que lhe conferia um aspecto melhor. – Oi, Frank – respondeu, surpresa. – Quanto tempo! – E mesmo assim você me reconheceu na hora. – Sorriu, irônico, enfiando as mãos nos bolsos das calças e examinando-a da cabeça aos pés. – Você parece ótima. Ouvi dizer que subiu na carreira. Logo vai herdar o lugar do velho, não é?

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Como já acontecia antes, desta vez Frank Behnke também conseguiu facilmente irritar Pia num piscar de olhos. A pergunta educada sobre como ele estava ficou entalada em sua garganta. – Para começo de conversa, não “subi” na carreira. Meu cargo mudou, nada além disso – respondeu friamente. – E a quem você está se referindo com “o velho”? Por acaso seria o Bodenstein? Behnke apenas deu de ombros, ainda com o sorriso irônico nos lábios e mascando chiclete. Esse hábito ele não tinha perdido. Após uma saída vergonhosa da delegacia de homicídios, dois anos antes, ele apelou contra sua suspensão e teve ganho de causa na justiça. Contudo, foi transferido para a Agência Estadual de Investigação, em Wiesbaden, o que o pessoal da Inspeção Criminal Regional não lamentou nem um pouco. Passou por ela e sentou-se na cadeira de Ostermann. – Foi todo mundo viajar, não é? Pia apenas resmungou alguma coisa e continuou a procurar o relatório. – A que devo a honra da sua visita? – perguntou, em vez de responder. Behnke cruzou os braços atrás da cabeça. – Pois é, pena que você seja a única a quem posso dar a boa notícia em primeira mão – disse. – Mas os outros vão ficar logo sabendo. – Do quê? – Pia lançou-lhe um olhar desconfiado. – Eu já estava cheio de trabalhar na rua. Dei muita mancada – respondeu, sem tirar os olhos dela. – O Comando de Operações Especiais e a delegacia de homicídios já fazem parte do passado. Sempre tive as melhores avaliações, e acabaram perdoando meu pequeno deslize. Pequeno deslize! O Behnke tinha feito a colega Fachinger perder as estribeiras e ainda cometeu outras faltas que justificaram sua suspensão. – Eu estava com problemas particulares na época – continuou. – Isso foi levado em conta. Consegui algumas qualificações adicio13

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nais na Agência Estadual de Investigação e agora estou na K134, o Departamento de Investigação Interna; sou responsável pelas denúncias e suspeitas contra membros da polícia e pela prevenção contra a corrupção. Pia achou que tivesse entendido errado. Frank Behnke como investigador interno? Que absurdo! – Com os colegas dos outros Estados, desenvolvemos nos últimos meses um novo conceito estratégico, que entrará em vigor a partir do dia 1o de julho em todo o país. Vamos melhorar a fiscalização técnica e administrativa dentro das repartições subordinadas, sensibilizar os funcionários e assim por diante... – Cruzou as pernas e balançou o pé. – A doutora Engel é uma diretora competente, mas diversas delegacias nos informaram a respeito de falhas recorrentes, cometidas por alguns colegas. Eu mesmo me lembro muito bem de alguns incidentes absolutamente preocupantes que ocorreram nesta casa. Obstrução da justiça na instituição, falta de investigação de alguns crimes, consulta não autorizada de dados, transmissão de documentos internos a terceiros... só para mencionar alguns exemplos. Pia interrompeu sua busca pelo relatório da autópsia. – Aonde você está querendo chegar? O sorriso de Behnke ganhou um ar malicioso; em seus olhos surgiu um brilho desagradável, e Pia teve um mau pressentimento. Ele sempre gostou de bancar o superior e poderoso em relação aos mais fracos, um traço do seu caráter que ela desprezava. Como colega, Behnke foi uma verdadeira praga por causa da sua inveja e do seu eterno mau humor; como responsável pela investigação interna, podia se tornar uma catástrofe. – Você deveria saber disso melhor do que eu. – Levantou-se, contornou a mesa e parou bem perto dela. – Afinal, todo mundo sabe que você é a queridinha do velho. – Não faço ideia do que você está falando – respondeu Pia, impassível. 14

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– Não faz mesmo? – Behnke aproximou-se tanto dela que Pia se sentiu incomodada, mas refreou o impulso de se afastar. – Na segunda-feira venho fazer uma inspeção interna aqui. Provavelmente não vou precisar cavar muito fundo para encontrar alguns cadáveres. Apesar do calor tropical que estava fazendo no escritório, Pia sentiu um calafrio, mas conseguiu aparentar tranquilidade, embora internamente estivesse fervendo; conseguiu até sorrir. Frank Behnke era um sujeito rancoroso e mesquinho, que nada esquecia. A antiga frustração ainda o corroía e, nos últimos anos, provavelmente tinha se multiplicado por dez. Ele tinha sede de vingança por uma injustiça e humilhações supostamente sofridas. Não seria nada inteligente transformá-lo em inimigo, mas a irritação de Pia era mais forte do que sua razão. – Bom, então – disse com ironia e voltando para sua busca –, muito sucesso no seu novo trabalho como... cão farejador de cadáveres. Behnke virou-se para a porta. – Seu nome ainda não está na minha lista. Mas isso pode mudar rapidinho. Bom fim de semana. Pia não reagiu à inequívoca ameaça que vibrou em suas palavras. Esperou até ele desaparecer para pegar o celular e ligar para Bodenstein. Ouviu o toque da chamada, mas ninguém atendeu. Droga! Com toda certeza seu chefe não fazia a menor ideia da má surpresa que o esperava no trabalho. Ela sabia muito bem a que Behnke havia aludido. E, para Oliver Bodenstein, isso poderia ter consequências extremamente desagradáveis.

Três garrafas retornáveis equivalem a um pacote de macarrão. Cinco garrafas, à verdura para complementar. Essa era a moeda com que ele calculava. Antes, em sua antiga vida, nunca dera importância às embalagens retornáveis; jogava-as no lixo sem pensar. Justamente essas pessoas, 15

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como ele havia sido um dia, garantiam-lhe naquele momento sua provisão básica. Tinha acabado de receber doze euros e cinquenta de um comerciante de bebidas pelas duas sacolas com garrafas vazias. O explorador unha de fome lhe pagava seis euros por hora, sem registrá-lo, para ele passar 11 horas por dia em pé naquela lata de sardinha, às margens da zona industrial, em Fechenheim, grelhando salsichas e fritando batatas e hambúrgueres. Se à noite faltasse um centavo no fechamento do caixa, descontava do seu salário. Naquele dia tinha dado tudo certo, e ele não seria obrigado a mendigar seu dinheiro, como de costume. O gordo estava de bom humor e já tinha lhe pago antecipado o salário de cinco dias. Juntando com os rendimentos da sua coleta de garrafas retornáveis, tinha cerca de trezentos euros na carteira. Um pequeno patrimônio! Por isso, em um ímpeto de ousadia, permitiu-se não apenas cortar o cabelo, mas também fazer a barba no barbeiro turco que ficava na frente da estação. Depois de passar no supermercado Aldi, ainda sobrou o suficiente para pagar dois meses de aluguel do trailer. Estacionou a scooter escangalhada ao lado do trailer, tirou o capacete e pegou a sacola de compras no bagageiro. O calorão estava acabando com ele. Nem mesmo à noite refrescava muito. De manhã, já acordava molhado de suor. No quiosque miserável, feito de chapa fina e ondulada, a temperatura chegava a sessenta graus, e a umidade desagradável fixava o cheiro de suor e gordura rançosa em todos os seus poros e cabelos. No começo, quando ainda acreditava firmemente que conseguiria recuperar sua antiga situação financeira, era para o trailer arruinado no camping em Schwanheim ser uma solução temporária. Mas nada se mostrou tão duradouro em sua vida quanto aquele estado provisório – já fazia sete anos que vivia naquela maloca. Abriu o zíper da barraca acoplada ao trailer, que décadas antes devia ter sido verde-escura, até as condições atmosféricas desbotarem-na 16

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em um tom indefinido de cinza-claro. Foi pego em cheio pelo ar quente. Dentro do trailer fazia alguns graus a mais do que do lado de fora; estava abafado e com cheiro de mofo. De nada adiantava limpar e arejar o local; os odores já estavam impregnados nos estofados e em todas as fendas e frestas. Mesmo depois de sete anos ele os achava desagradáveis. Mas não havia alternativa. Depois de cair no fundo do poço, seu lugar era ali, na favela dos fracassados, às margens da metrópole, como um criminoso condenado a pertencer à classe inferior. Ninguém ia parar naquele lugar para passar as férias nem para admirar o horizonte cintilante de Frankfurt, símbolo da riqueza que se transformou em vidro e concreto do outro lado do rio. A maioria dos seus vizinhos era de aposentados que empobreceram sem culpa de nada ou pessoas fracassadas como ele, que em algum momento rolaram escada abaixo. Com frequência o álcool desempenhava o papel principal em suas histórias de vida, que se assemelhavam de maneira deprimente. Ele próprio bebia, no máximo, uma cerveja à noite e não fumava, cuidava do corpo e da aparência. Também não queria saber do Hartz IV,* pois só de pensar em ter de pedir alguma coisa e depender da arbitrariedade limitada de funcionários indiferentes já achava insuportável. Um pingo de amor-próprio era a última coisa que lhe restava. Se o perdesse, poderia se matar no mesmo instante. – Olá! Uma voz na frente da barraca o fez virar-se bruscamente. Atrás da sebe seca que circundava a minúscula porção de terreno onde ficava seu trailer havia um homem. – O que quer? O homem se aproximou. Hesitou. Seus olhos pequenos, parecidos com os de um porco, moveram-se rapidamente e com desconfiança da esquerda para a direita. * Subsídio pago pelo governo aos desempregados. [N. da T.] 17

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Uma adolescente é encontrada morta no rio Meno, nos arredores de Frankfurt. Sua identidade é um mistério. Aparentemente, ela é a terceira ví...

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