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Tradução

Drago


Título original: It’s Not About The Bike Copyright © 2000, 2001 Lance Armstrong Copyright da edição brasileira © 2011, Editora Pensamento-Cultrix Ltda. Publicado mediante acordo com G.P. Putnam´s Sons, uma divisão da Penguin Group (USA) Inc. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte deste livro pode ser reproduzida ou usada de qualquer forma ou por qualquer meio, eletrônico ou mecânico, inclusive fotocópias, gravações ou sistema de armazenamento em banco de dados, sem permissão por escrito, exceto nos casos de trechos curtos citados em resenhas críticas ou artigos de revistas. A Editora Seoman não se responsabiliza por eventuais mudanças ocorridas nos endereços convencionais ou eletrônicos citados neste livro. Coordenação editorial: Manoel Lauand Capa e projeto gráfico: Gabriela Guenther Editoração eletrônica: Estúdio Sambaqui Foto da capa:Getty Images

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, sp, Brasil) Armstrong, Lance Muito mais do que um ciclista campeão : minha jornada de volta à vida / Lance Armstrong com Sally Jenkins ; tradução Drago. -- São Paulo : Seoman, 2011. Título original: It´s not about the bike : my journey back to life. ISBN 978-85-98903-32-3 1. Armstrong, Lance 2. Câncer - Doentes - Estados Unidos - Biografia 3. Ciclistas - Estados Unidos - Biografia I. Jenkins, Sally. II. Título.

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CDD-796.62092 Índices para catálogo sistemático: 1. Ciclistas : Doentes de câncer : Biografia 796.62092 2. Doentes de câncer : Biografia 796.62092 O primeiro número à esquerda indica a edição, ou reedição, desta obra. A primeira dezena à direita indica o ano em que esta edição, ou reedição, foi publicada.

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11-12-13-14-15-16 Seoman é um selo da Editora Pensamento-Cultrix Ltda. Direitos de tradução para o Brasil adquiridos com exclusividade pela EDITORA PENSAMENTO-CULTRIX LTDA. R. Dr. Mário Vicente, 368 – 04270-000 – São Paulo, SP Fone: (11) 2066-9000 – Fax: (11) 2066-9008 E-mail: atendimento@editoraseoman.com.br http://www.editoraseoman.com.br que se reserva a propriedade literária desta tradução. Foi feito o depósito legal.


Este livro é dedicado a: Minha mãe, Linda, que me ensinou o que é ser um verdadeiro campeão. Kik, por haver-me completado como homem. Luke, a maior dádiva da minha vida, que, em uma fração de segundo fez o Tour de France parecer algo insignificante. Todos os meus médicos e enfermeiras. Jim Ochowicz, pelas fritadinhas... todos os dias. Meu colegas da equipe de ciclismo: Kevin, Frankie, Tyler, George e Christian. Johan Bruyneel. Meus patrocinadores. Chris Carmichael. Bill Stapleton, por haver estado sempre lá. Steve Wolff, meu advogado. Bart Knaggs, um homem entre os homens. J. T. Neal, o paciente mais “durão” que o câncer já enfrentou. Kelly Davidson, uma pequena dama muito especial. Thom Weisel. A família de Jeff Garvey. Todo o pessoal da Lance Armstrong Foundation. Às cidades de Austin, Boone, Santa Barbara e Nice. Sally Jenkins — nos encontramos para escrever um livro, mas você tornou-se uma amiga querida ao longo do processo.


Índice 1. Antes e Depois 9 2. A Linha de Partida 26 3. Não Vou Deixar Minha Mãe Esperando na Portaria 58 4. De Mal a Pior 94 5. Conversas com o Câncer 127 6. Quimioterapia 161 7. Kik 198 8. Sobrevivência 230 9. O Tour 269 10. A Caixa de Cereais 324 11. Bis 336


um

Antes e Depois

E

u quero morrer aos cem anos de idade, com a bandeira dos Estados Unidos sobre as minhas costas e a estrela do Texas no meu capacete, após descer, berrando a plenos pulmões, uma escarpa alpina montado em uma bicicleta, a 120 km/h. Quero cruzar a última linha de chegada sob os aplausos da minha graciosa mulher e meus dez filhos; e, então, deitar-me em um campo florido com aqueles famosos girassóis franceses e expirar, graciosamente — tudo isso, uma perfeita contradição à minha antecipada e sentida morte prematura. Uma morte lenta não é para mim. Eu não faço nada lentamente; nem mesmo respirar. Eu faço tudo em ritmo acelerado: eu como rápido e durmo rápido. Fico maluco quando minha esposa, Kristin, dirige o nosso carro, porque ela para em todos os sinais amarelos, enquanto eu me contorço impacientemente no banco do passageiro. — Ora, vamos lá! Não seja “mulherzinha”! —, eu digo a ela. — Lance, — ela responde — case-se com um homem.

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Passei toda a minha vida correndo de bicicleta, das estradinhas nos arredores de Austin, no Texas, até os Champs-Elysées; e sempre achei que se viesse a morrer prematuramente, seria porque algum rancheiro pilotando um Dodge 4x4 me atiraria, de cabeça, numa vala de acostamento. Acredite, isto poderia acontecer. Os ciclistas travam uma batalha incessante com os caras que dirigem grandes caminhonetes; e, além disso, já fui atropelado por tantos veículos, tantas vezes e em tantos países que perdi a conta. Aprendi como retirar, eu mesmo, os pontos que suturavam minhas feridas: tudo o que é necessário é um pequeno alicate de cortar unhas e um estômago forte. Se você pudesse ver o meu corpo por baixo do uniforme de ciclista, saberia do que eu estou falando. Tenho cicatrizes endurecidas que fazem com que meus braços pareçam feitos de mármore, e marcas esbranquiçadas por toda a extensão das minhas pernas, que mantenho sempre depiladas. Talvez seja por isso que os caminhoneiros sempre tentem me atropelar: eles veem minhas panturrilhas depiladas de menino delicado, e decidem não diminuir a marcha. Porém, ciclistas têm de depilar-se; porque quando o cascalho rompe a sua pele, é mais fácil removê-lo e aplicar um curativo se não houver pelos para atrapalhar. Num minuto, você está pedalando por uma estrada e, no minuto seguinte, bum!; você está de cara no chão. Uma lufada de ar quente o atinge e você sente um gosto acre de óleo queimado no céu da boca; então, o máximo que você pode fazer é dar um adeusinho às luzes traseiras que desaparecem, ao longe. Com o câncer aconteceu mais ou menos a mesma coisa. Foi como ser jogado para fora da estrada por um caminhão; e eu tenho as cicatrizes para provar. Tenho uma cicatriz enrugada no alto do meu peito, um pouco acima do coração, que marca o lugar por onde o cateter foi introduzido. A marca de um corte cirúrgico desce desde o lado direito da minha virilha até a parte superior da coxa, assinalando a região de onde removeram meu testículo. Mas os meus verdadeiros “tro-

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féus” são duas profundas meias-luas, no meu couro cabeludo, que fazem parecer que eu tenha sido duplamente escoiceado na cabeça por um cavalo. Estas são as lembranças de uma cirurgia cerebral. Quando eu contava 25 anos de idade, tive um câncer testicular e quase morri. Recebi um prognóstico de menos de 40% de chances de sobrevivência; e, sinceramente, alguns médicos estavam apenas tentando ser gentis quando assim me diagnosticaram. Morte não é, exatamente, um assunto para conversas triviais, eu sei; tampouco o câncer, cirurgias cerebrais ou outros temas que possam atingir alguém “abaixo da linha da cintura”. Mas não estou aqui para manter conversas triviais. Eu quero contar a verdade. Tenho certeza de que você gostaria de saber como Lance Armstrong tornou-se “um grande americano” e “uma inspiração para todos nós”; ou como ele venceu o Tour de France, uma corrida de bicicleta de mais de 3.000 km, que é considerada como o evento esportivo mais implacável sobre a face da Terra. Você quer saber sobre fé e mistérios; e sobre meu retorno miraculoso e o modo como me juntei a figuras imponentes tais como Greg LeMond e Miguel Indurain no livro dos recordes. Você quer ler sobre minha lírica escalada pelos Alpes e a minha heróica conquista dos Pirineus, e sobre como eu me senti. Mas o Tour é a parte menos significativa da história. Algumas partes desta história não são fáceis de contar, nem agradáveis de saber. Por isso, peço a você, desde o começo, que deixe de lado quaisquer ideias sobre heroísmo e feitos miraculosos, porque eu não sou um herói de ficção. Isto aqui não é a Disneylândia, nem Hollywood. Vou dar um exemplo a você: certa vez, eu li que “voei” sobre as colinas e montanhas da França. Mas, ninguém “voa” colina acima. Você apenas faz um esforço danado, lutando para chegar lá no topo; e, se tiver sorte, consegue isso, na frente de todo mundo. Com o câncer também é assim. Gente muito boa, forte, faz tudo certinho para vencê-lo; e morre, assim mesmo. Esta é a verdade essencial sobre a qual você irá saber. E, quando puder compreendê-la, todo o resto parecerá irrelevante. Tudo parecerá pequeno.

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Eu ainda não sei por que continuo vivo; posso apenas conjeturar. Tenho uma opinião acerca de constituição física, e a minha profissão ensinou-me a competir contra largas chances e grandes obstáculos. Eu gosto de treinar duro, e de competir a sério. Isto me ajudou muito. Foi um bom ponto de partida; mas não um fator determinante. Ainda não consigo deixar de acreditar que a minha sobrevivência deveu-se a algo além de pura sorte. Quando eu tinha 16 anos de idade, fui convidado a passar por um teste em um lugar em Dallas chamado Cooper Clinic; um prestigioso laboratório de pesquisas, onde começou a revolução da ginástica aeróbica. Um médico mediu meu VO2 max, que é um indicador da capacidade individual de absorção de oxigênio e de como cada pessoa o utiliza, e me disse que os meus números eram os mais altos que ele jamais vira. Além disso, meu organismo produzia menos ácido láctico do que o da maioria das pessoas. O ácido láctico é uma substância química que o corpo humano produz quando se esforça e fica cansado; é o que faz com que seus pulmões pareçam estar queimando e suas pernas doam muito. Em outras palavras, eu consigo aguentar uma carga maior de estresse físico do que a maioria das pessoas, sem ficar tão cansado. Imagino que isto tenha me ajudado a sobreviver. Eu tive sorte: nasci com uma capacidade superior à média para respirar; mas, mesmo assim, atravessei períodos desesperadores de convalescença, a maior parte do tempo. Minha doença era humilhante e evidentemente perceptível; por isso, forçou-me a encarar minha vida com um olhar impiedosamente crítico. Há alguns episódios extremamente embaraçosos em minha vida: momentos de absoluta mesquinhez, tarefas inacabadas, fraquezas e ressentimentos. Eu tive de perguntar a mim mesmo: “Se é para continuar vivo, quem é que eu pretendo ser?” Descobri, então, que tinha muito para crescer, enquanto homem. Não vou tentar enganar você. Existem dois Lance Armstrong: um, antes; e outro, depois do câncer. A pergunta que todo mundo me faz

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é “Como o câncer mudou você?”; mas acho que a verdadeira questão é “em que aspectos ele não pôde me mudar?” Saí de casa, no dia 2 de outubro de 1996, como uma pessoa, e voltei, mais tarde, sendo outra. Eu era um atleta de renome mundial, com uma mansão à margem de um rio, as chaves de um Porsche e uma fortuna, conquistada por mim mesmo, no banco. Eu era um dos maiores ciclistas do mundo, e minha carreira percorria uma perfeita curva ascendente de sucesso. Mas, naquele dia, voltei para casa como uma pessoa diferente; literalmente. De certo modo, meu velho “eu” morreu; e me foi dada uma segunda vida. Até mesmo meu corpo é outro, agora; pois, durante a quimioterapia, perdi toda a massa muscular que eu construíra, e, quando me recuperei, não pude mais reavê-la, tal como fora, um dia. Mas a verdade é que o câncer foi a melhor coisa que já me aconteceu. Eu não sei por que contraí a doença, mas ela fez maravilhas por mim; e, se tivesse de viver tudo, outra vez, eu não fugiria dela. Por que eu mudaria — nem que fosse apenas um dia — o período mais significativo da minha formação, em toda a minha vida? As pessoas morrem. Esta verdade é tão desconcertante que, às vezes, mal posso conjeturá-la. Para que devemos seguir em frente, você pode estar se perguntando? Por que nós simplesmente não paramos tudo e nos prostramos, onde nos encontramos? Contudo, há uma outra verdade; que, embora oposta, é igualmente real. As pessoas vivem; e o fazem das maneiras mais admiráveis. Enquanto estive doente, vi mais beleza, triunfo e verdade em um único dia do que jamais vira, em qualquer corrida de bicicleta; e estes foram momentos humanos, não milagrosos. Conheci um sujeito que vestia um surrado uniforme de ginástica, que se revelou um cirurgião brilhante. Tornei-me amigo de uma enfermeira estressada e sobrecarregada de trabalho, chamada LaTrice, que me dispensou uma atenção tão desvelada que só pode ter sido resultante do tipo mais profundo e sincero de afinidade. Vi crianças que haviam perdido os cílios, as sobrancelhas e os cabelos, devido à quimioterapia, cujos corações lutavam tão bravamente quanto o de qualquer atleta de ponta.

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Eu ainda não consigo compreender totalmente isso. Tudo o que posso fazer é contar a você o que aconteceu. É claro que eu devia saber que havia algo errado comigo. Mas os atletas — especialmente os ciclistas — adoram fazer o jogo da negação. Você nega as suas dores e o seu sofrimento porque tem de fazer isso se quiser vencer uma corrida. É o esporte do autoabuso. Você passa o dia todo montado sobre a sua bicicleta — às vezes, por seis ou sete horas seguidas — sob quaisquer condições climáticas, rodando sobre terrenos pedregosos ou caminhos cobertos de cascalho ou de lama, aguentando o vento, a chuva e até mesmo algumas nevascas; e, assim mesmo, você não cede ao sofrimento. Tudo dói. Suas costas doem, seus pés doem, suas mãos doem, seu pescoço dói, suas pernas doem e, naturalmente, seu traseiro dói. Mas, não! Eu sequer prestei atenção ao fato de que não me sentia muito bem, em 1996. Quando meu testículo direito pareceu tornar-se ligeiramente inchado, naquele inverno, eu disse a mim mesmo que podia aguentar, porque achei que aquilo fosse devido a alguma coisa que eu mesmo fizera comigo, enquanto pedalava minha bicicleta; ou, talvez, meu organismo estivesse compensando alguma disfunção fisiológica masculina. Eu estava pedalando muito bem; tão bem quanto sempre, na verdade, e, portanto, não havia motivo para deixar de fazer isso. O ciclismo é um esporte que rende campeonatos apenas aos atletas mais maduros. É preciso possuir uma resistência física cultivada ao longo de vários anos, e uma mentalidade estratégica que só pode ser adquirida com a experiência. Em 1996, pensei que finalmente estivesse chegando ao meu auge. Na primavera daquele ano, eu havia vencido a prova chamada Flèche Wallonne, uma corrida extremamente árdua através da floresta das Ardenas, que, até então, nenhum norte-americano jamais havia vencido. Terminara em segundo lugar o percurso Liège–Bastogne–Liège, uma prova

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clássica, de quase 270 quilômetros de extensão, percorrida em um único e extenuante dia; e eu também vencera o Tour Du Pont, uma prova de doze dias, ao longo de 1.960 quilômetros pelas montanhas da Carolina. Adicionei mais cinco segundos-lugares a esses resultados e tornei-me apto a figurar na lista dos cinco melhores ciclistas de vários rankings internacionais, pela primeira vez em minha carreira. Contudo, os fãs de ciclismo devem ter notado algo estranho quando venci o Tour Du Pont. Geralmente, quando venço uma corrida, agito meus braços no ar, como se fossem pistões, ao cruzar a linha de chegada; mas, naquele dia, eu me sentia exausto demais para comemorar, ainda montado na bicicleta. Meus olhos estavam injetados de sangue e meu rosto estava muito vermelho. Eu devia estar me sentindo confiante e cheio de energia pelo meu desempenho extraordinário, mas, em vez disso, eu apenas me sentia cansado. Meus mamilos estavam inflamados. Eu deveria saber; eu deveria ter percebido que aquilo era o sinal de alguma doença. Aquilo significava que eu estava com um nível muito elevado de HCG (gonadotrofina coriônica humana), que é um hormônio normalmente produzido por mulheres grávidas. Homens não têm mais do que uma quantidade muito pequena disso em seus organismos; a não ser que seus testículos estejam lhes pregando alguma peça. Achei que estava apenas esgotado. “Que se dane”, eu disse a mim mesmo; “Você pode se dar ao luxo de sentir-se cansado.” Eu ainda tinha pela frente as duas competições mais importantes da temporada — o Tour de France e os Jogos Olímpicos de Atlanta —, que eram a razão pela qual eu vinha treinando e competindo com tanto afinco. Tive de abandonar o Tour de France depois de apenas cinco dias. Pedalei sob uma tempestade e contraí uma inflamação de garganta e uma bronquite. Comecei a tossir e a sentir uma dor na região da bacia, e simplesmente não pude mais montar na bicicleta. “Eu não conseguia respirar”, disse à imprensa. Olhando para trás, vejo que ter dito isso foi uma coisa horrível.

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Em Atlanta, meu corpo falhou novamente. Eu estava em sexto lugar na contagem do melhor tempo e ocupava a 12a posição na corrida — desempenhos respeitáveis, de modo geral; mas decepcionantes, de acordo com minhas grandes expectativas. De volta para casa, em Austin, disse a mim mesmo que tudo acontecera por culpa de um resfriado. Eu estava dormindo demais, sentindo uma ligeira dor e muita sonolência; mas ignorei isso, também. Fingi que não havia nada com que preocupar-me, a não ser a longa e difícil temporada que tinha pela frente. Comemorei meu 25o aniversário no dia 18 de setembro; e, duas noites depois, convidei amigos suficientes para encher a casa, para fazermos uma festa, antes de irmos todos assistir a um show de Jimmy Buffett. Alugamos uma máquina de servir margaritas, e minha mãe, Linda, veio de Plano para nos visitar. No meio da festa, naquela noite, eu disse a ela: “Eu sou o homem mais feliz do mundo”. Eu adorava a minha vida: estava namorando uma bela estudante da Universidade do Texas, chamada Lisa Shiels, e acabara de assinar um contrato de dois anos com uma prestigiosa equipe francesa de ciclismo — a Cofidis —, no valor de 2,5 milhões de dólares. Tinha uma enorme casa nova, a qual eu passara meses construindo, onde cada detalhe arquitetônico e da decoração interior fora projetado e executado exatamente como eu desejava. Era uma casa em estilo mediterrâneo, às margens do Lago Austin, com altíssimas janelas de vidro que davam vista para uma piscina olímpica e um pátio, semelhante a uma piazza, que se estendia até um atracadouro onde estavam o meu jet-ski e meu barco a motor. Somente uma coisa estragou a noite: no meio do show, comecei a sentir uma dor de cabeça chegando. Começou como um latejamento abafado, e eu tomei umas aspirinas. Não adiantou. Na verdade, a dor ficou ainda mais forte. Tentei o ibuprofeno; mas, a certa hora, já havia tomado quatro pastilhas e a dor de cabeça tinha apenas se espalhado. Decidi atribuir o fato a um caso de abuso de margaritas, e prometi a mim

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mesmo que nunca mais voltaria a beber aquilo. Meu amigo e agente jurídico, Bill Stapleton, arranjou-me alguns comprimidos de um remédio para enxaqueca que sua esposa, Laura, trazia na bolsa. Eu tomei três; mas isto também não adiantou. A esta altura, aquela era uma dor de cabeça do tipo que a gente vê nos filmes: daquelas que fazem o sujeito dobrar os joelhos e segurar a cabeça entre as mãos, como se tentasse espremer seu cérebro. Afinal, resolvi desistir da noitada e voltar para casa. Apaguei todas as luzes e deitei-me no sofá, completamente imóvel. A dor não cedia, mas eu estava tão exaurido por ela e por toda tequila que tinha bebido que acabei pegando no sono. Quando acordei, na manhã seguinte, a dor de cabeça havia passado. Mas, enquanto me movimentava pela cozinha para fazer café, notei que a minha visão estava um tanto desfocada. Os contornos dos objetos pareciam difusos. “Devo estar ficando velho”, pensei. “Talvez esteja precisando usar óculos.” Eu sempre tinha uma desculpa para tudo. Dois dias depois, quando estava na sala de estar da minha casa, falando ao telefone com Bill Stapleton, tive um terrível acesso de tosse. Engasguei, e senti um gosto metálico e desagradavelmente salgado no fundo da minha garganta. “Espere um minuto”, eu disse a Bill. “Algo não vai bem, por aqui.” Corri para o banheiro e tossi dentro da pia. Uma golfada de sangue estatelou-se contra o fundo da pia. Tossi novamente, e cuspi um novo jorro de sangue. Eu não podia acreditar que aquela sanguinolenta massa coagulada tivesse saído do meu próprio corpo. Assustado, voltei à sala de estar e apanhei o telefone. “Bill, ligo para você depois”, disse eu. Desliguei e, imediatamente, digitei o número do meu vizinho, o Dr. Rick Parker, um bom amigo, que fora meu médico particular em Austin. Rick morava a poucas centenas de metros, descendo a colina, da minha casa. — Você poderia vir até aqui? —, disse eu. — Estou tossindo sangue.

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Enquanto Rick estava a caminho, voltei ao banheiro e olhei o resíduo sangrento que deixara na pia. Bruscamente, abri a torneira para lavar a pia e livrar-me daquilo. Às vezes faço as coisas sem saber quais são minhas verdadeiras motivações. Eu não queria que Rick visse o sangue. Aquilo era embaraçoso e eu queria que desaparecesse de vista. Rick chegou e examinou meu nariz e minha boca. Ele acendeu uma pequena lanterna para olhar dentro da minha garganta e pediu-me para ver o sangue que eu havia expelido. Mostrei a ele alguns ligeiros vestígios que ainda restavam na pia. “Ah, meu Deus!”, pensei comigo mesmo. “Eu não posso dizer a ele o volume daquilo; é nojento demais!” Porém, o que havia restado na pia não era muito. Rick estava acostumado a me ouvir reclamar sobre os meus sinos nasais e minhas alergias. Austin tem uma atmosfera muito carregada de micrósporos e de pólen; e, a despeito disso fazer com que eu sofra verdadeiras torturas, eu não podia tomar qualquer tipo de medicação devido às rigorosas regulamentações relativas ao doping no ciclismo. Eu só podia resignar-me a sofrer. — Você pode estar com um sangramento nos sinos nasais —, disse-me Rick. — Algum vaso sanguíneo pode ter se rompido. — Ótimo —, disse eu. — Então, não é nada grave. Senti-me tão aliviado que me agarrei à primeira sugestão de que aquilo não era nada grave e deixei tudo por isso mesmo. Rick apagou sua lanterninha e, enquanto dirigia-se à porta para sair, convidou-me para jantar com ele e sua esposa na semana seguinte. Algumas noites depois, desci a colina até a casa dos Parker montado em minha scooter. Tenho um fraco por brinquedinhos motorizados e a scooter era um dos meus favoritos. Mas, naquela noite, meu testículo direito estava tão inflamado que sentar sobre o banco da lambreta me fazia sentir uma dor excruciante. Também não pude sentar-me muito confortavelmente à mesa do jantar. Eu tinha de assumir uma posição mais ou menos adequada e não me movimentar muito, pois a dor era realmente intensa.

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Quase cheguei a contar a Rick como eu me sentia, mas achei que isso seria demonstrar uma autocomiseração excessiva. Além do mais, aquele não seria o assunto mais apropriado para tratar à mesa do jantar; e eu já o havia incomodado por causa do sangue que tossira. “O cara vai pensar que eu sou um choramingão”, pensei. E guardei tudo para mim mesmo. Quando acordei, na manhã seguinte, meu testículo estava horrivelmente inchado; quase do tamanho de uma laranja. Vesti minhas roupas, retirei a bicicleta do suporte na garagem e comecei minha corrida de treinamento habitual; mas logo me dei conta de que não podia me sentar sobre o selim. Pedalei todo o percurso em pé, apoiando-me sobre os pedais. Ao chegar de volta em casa, no início da tarde, relutantemente telefonei para a casa dos Parker outra vez. — Rick! Tem alguma coisa errada com o meu testículo —, disse eu. — Está inchado pra valer, e eu tive de fazer todo o percurso em pé sobre a bicicleta. Com um tom de voz severo, Rick disse: — Você tem de mandar examinar isso agora mesmo. Ele insistiu em me levar a uma consulta com um especialista, naquela mesma tarde. Assim que desligamos, ele telefonou ao Dr. Jim Reeves, um eminente urologista de Austin. Quando Rick descreveu meus sintomas, Reeves lhe disse que eu deveria ir vê-lo imediatamente. Ele tinha um horário vago. Rick me disse que Reeves suspeitava que eu pudesse estar sofrendo apenas de uma torção no testículo; mas que deveria ir até lá e consultá-lo, mesmo assim. Tomei uma chuveirada, me vesti, apanhei as chaves e entrei no meu Porsche. É engraçado como eu ainda me lembro exatamente como estava vestido: com calças cáqui e uma camisa verde. O consultório de Reeves ficava bem no centro da cidade, perto do campus da Universidade do Texas, em um edifício de tijolos marrons e aparência comum, que abrigava vários outros consultórios médicos. Reeves revelou-se um idoso cavalheiro, com uma voz profunda e ressonante, como se chegasse aos seus ouvidos vinda do fundo

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de um poço; e uma maneira estritamente profissional de dizer as coisas, fazendo-as parecer absolutamente rotineiras — a despeito do fato de haver ficado seriamente alarmado com o que viu ao examinar-me. Meu testículo havia inchado ao ponto de ficar três vezes maior do que o tamanho normal; além de estar intumescido e dolorosamente sensível ao toque. Reeves fez umas anotações e disse: — Isso me parece um tanto suspeito. Por isso, só para ter certeza, vou pedir a você que vá até o outro lado da rua para fazer um exame de ultrassom. Vesti novamente as minhas roupas e caminhei até o meu carro. O laboratório ficava do outro lado da avenida, em outro edifício de tijolos marrons e aspecto institucional; mas decidi ir dirigindo até lá. No interior do prédio havia uma sucessão de consultórios e salas cheias de sofisticados equipamentos médicos. Acabei em uma delas, deitado sobre outra mesa de exames. Uma técnica-operadora debruçou-se sobre mim com o equipamento de ultrassom: um instrumento semelhante a um bastão — como esses leitores de códigos de barra —, que transmitia uma imagem para a tela de um monitor. Achei que estaria longe dali, em alguns minutos. Tudo não seria mais do que um exame de rotina, pedido pelo doutor, apenas para certificar-se de sua opinião. Uma hora depois, eu ainda estava deitado sobre a mesma mesa de exames. A técnica parecia estar esquadrinhando cada centímetro quadrado do meu corpo; e eu fiquei ali, sem dizer uma palavra, tentando não parecer muito autocomiserativo. Por que aquilo estava demorando tanto? Será que ela havia encontrado alguma coisa? Afinal, ela pôs o bastão de lado. Sem dizer coisa alguma, ela saiu da sala, me deixando ali. — Espere um momento! —, disse eu. — Ei, você! “Vai ver, isso é só mais uma formalidade idiota”, pensei comigo mesmo. Após alguns instantes, ela voltou — acompanhada de um

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homem que eu vira antes, em um dos consultórios. Ele era o chefe do setor de radiologia. Ele apanhou o bastão e começou a examinar minhas partes pudendas, pessoalmente. Nada pude fazer, além de ficar ali, em silêncio, enquanto ele me esquadrinhava por mais uns bons quinze minutos. “Por que isso está demorando tanto?” — Tudo bem. Você pode vestir-se e esperar lá fora —, me disse ele. Vesti-me apressadamente e o encontrei no corredor. — Precisamos fazer um exame de raios X do tórax —, disse ele. — Por quê? —, perguntei, encarando-o. — O Dr. Reeves pediu que fizéssemos —, ele respondeu. Por que eles queriam ver o meu peito? Nada doía, ali. Entrei em outra sala de exames e tirei minhas roupas novamente. Outra técnica operadora me conduziu através de todo o procedimento para tirar uma chapa de raios X. Eu já estava ficando irritado; e com medo, também. Vesti-me mais uma vez e rumei para o consultório principal. Ainda no corredor, avistei o chefe da radiologia. — Ei! —, disse eu, encurralando o sujeito. — O que está acontecendo aqui? Isto não é normal! — O Dr. Reeves irá explicar tudo a você —, disse ele. — Não! Eu quero saber o que está acontecendo agora! — Bem, eu não quero passar por cima da autoridade do Dr. Reeves; mas, ao que tudo indica, ele está examinando você devido a uma suspeita de atividade cancerosa... Fiquei absolutamente petrificado. — Ah, droga! —, disse eu. — Você deve levar esses exames de raios X para o Dr. Reeves. Ele está aguardando você em seu consultório. Uma sensação de congelamento começou a manifestar-se na boca do meu estômago. Peguei meu telefone celular e liguei para Rick. — Rick! Alguma coisa está acontecendo aqui e não estão me dizendo toda a verdade!

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— Lance, eu não sei exatamente o que está acontecendo, mas gostaria de falar com o Dr. Reeves junto com você. Por que não me encontra lá, no consultório dele? — Tudo bem —, disse eu. Aguardei no setor de radiologia enquanto eles preparavam meus exames, até que o radiologista aproximou-se de mim, entregando-me um grande envelope de papel pardo. Ele disse que o Dr. Reeves iria me atender em seu consultório, e eu olhei para o envelope. Tudo o que havia no meu peito estava ali, pensei. “Isso é mau.” Entrei no carro e passei os olhos pelo envelope que continha os raios X do meu tórax. O consultório do Dr. Reeves ficava a apenas uns duzentos metros dali, mas parecia estar muito mais longe. Parecia estar a uns dois quilômetros; ou a vinte. Dirigi pelo curto trajeto e estacionei o carro. Àquela hora, já estava escuro; e passava muito do horário normal de funcionamento daqueles consultórios. Pensei que se o Dr. Reeves tinha esperado por mim todo aquele tempo, era porque tinha um bom motivo. “E o motivo deve ser porque a porcaria está para atingir o ventilador!” Enquanto me dirigia ao consultório, notei que todo o resto do edifício estava vazio. Todos já tinham ido embora; e lá fora estava escuro. Rick chegou, parecendo apreensivo. Sentado em uma cadeira, projetei meu corpo para frente quando o Dr. Reeves abriu o envelope e retirou meus exames. Raios X são como filmes fotográficos em negativo: as anormalidades aparecem em branco. Uma imagem predominantemente negra, na verdade, é boa; porque significa que seus órgãos internos estão limpos. Assim sendo, negro é bom; branco é mau. O Dr. Reeves prendeu minhas chapas de raios X sobre um painel luminoso afixado na parede. Meu peito parecia uma tempestade de neve. — Bem, esta é uma situação muito séria —, disse o Dr. Reeves. — Parece que você tem um câncer testicular, com uma grande metástase atingindo os pulmões. “Eu tenho câncer.”

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— O Sr. tem certeza? —, perguntei. — Tenho bastante certeza —, respondeu o Dr. Reeves. “Eu tenho 25 anos de idade. Por que eu teria câncer?” — Posso obter uma segunda opinião? —, disse eu. — É claro —, disse o Dr. Reeves. — Você tem todo o direito de querer isso. Mas devo avisá-lo de que estou plenamente confiante em meu diagnóstico. Na verdade, já agendei uma cirurgia para você amanhã, às 7h, para remover seu testículo. “Eu tenho câncer, e é nos meus pulmões!” O Dr. Reeves, então, explicou seu diagnóstico. O câncer testicular era uma doença rara: apenas cerca de 7.000 casos são registrados anualmente nos Estados Unidos. O mal tende a atingir, principalmente, homens entre os 18 e os 25 anos de idade; e é considerado como muito tratável — tal como a maioria dos tipos de câncer, graças aos avanços obtidos na quimioterapia; mas o diagnóstico e as intervenções cirúrgicas precoces são fatores-chave para a cura. O Dr. Reeves tinha certeza de que eu tinha um câncer. A questão era quanto, exatamente, ele haveria se espalhado? Ele me recomendou que fosse ver o Dr. Dudley Youman, um renomado oncologista de Austin. O tempo era crucial: cada dia contava. Eu não disse uma só palavra. — Vou deixar vocês dois a sós para que conversem um pouco —, disse o Dr. Reeves, saindo do consultório. Sozinho com Rick, deixei minha cabeça pender, até repousá-la sobre a mesa. — Eu simplesmente não posso acreditar nisso —, disse. Contudo, eu tinha de admitir: estava doente. As dores de cabeça, a tosse com sangue, as inflamações da garganta, o “apagamento” no sofá, dormindo como se jamais fosse voltar a acordar... Eu me sentia realmente doente; e já fazia algum tempo. — Lance, ouça —, disse Rick. — Tem havido grandes progressos no tratamento do câncer. Hoje em dia, é uma doença curável. Custe o que custar, podemos eliminá-lo. Vamos nos livrar disso!

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— Tudo bem —, respondi. — Tudo bem. Rick chamou o Dr. Reeves de volta. — O que é que eu tenho de fazer? —, perguntei. — Vamos em frente com isso. Vamos matar essa coisa! Custe o que custar, vamos fazer isso! Eu queria ter sido curado instantaneamente; naquele mesmo minuto. Eu teria me submetido a uma cirurgia naquela mesma noite. Eu teria usado uma arma de radiação contra mim mesmo, se isso adiantasse alguma coisa. Mas o Dr. Reeves, pacientemente, explicou-me o procedimento a ser seguido na manhã seguinte. Eu teria de chegar bem cedo ao hospital para passar por uma bateria de testes e fazer um exame de sangue para que o oncologista pudesse determinar a extensão do meu câncer; e, então, eu passaria pela cirurgia de remoção do meu testículo. Levantei-me para sair, imediatamente. Eu tinha uma porção de ligações telefônicas para fazer; e uma delas era para a minha mãe. De algum modo, eu teria de contar a ela que seu único filho tinha câncer. Entrei no carro e segui o caminho, pelas sinuosas ruas arborizadas, que levava até minha casa à beira do rio. Pela primeira vez na vida, dirigi devagar. Eu estava em estado de choque. “Oh, meu Deus! Eu nunca mais vou voltar a participar de uma prova.” Não pensei algo como “Meu Deus, eu vou morrer!”; ou “Meu Deus! Jamais poderei ter uma família!” Tais pensamentos jaziam enterrados bem fundo, em meio à confusão em que me encontrava. Mas, a primeira coisa que pensei foi “Oh, meu Deus! Eu nunca mais vou voltar a participar de uma prova.” Apanhei o telefone do carro e liguei para Bill Stapleton. — Bill, tenho notícias realmente más —, disse. — O que foi? —, perguntou ele, preocupado. — Estou doente. Minha carreira acabou. — O quê? — Acabou. Estou doente e jamais vou poder voltar a competir. E vou perder tudo o que conquistei. Desliguei o telefone.

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Rodei vagarosamente pelas ruas, em primeira marcha; sem energia sequer para pisar no pedal do acelerador. Enquanto me arrastava pelo caminho, questionei tudo: meu mundo, minha profissão e a mim mesmo. Eu havia saído de casa como um indestrutível super-homem de 25 anos de idade, a prova de balas, e, agora me dava conta de que o câncer mudaria tudo para mim: ela não apenas faria descarrilar minha carreira, mas, também, iria privar-me completamente da minha própria definição de quem eu era. Eu havia começado a partir do nada. Minha mãe era uma secretária em Plano, no Texas; mas, montado em uma bicicleta, eu havia me tornado alguma coisa. Enquanto os outros garotos iam nadar na piscina do clube, eu pedalava por quilômetros a fio depois das aulas; porque aquela era a minha chance. Havia litros de suor por trás de cada troféu e de cada dólar que eu ganhara; e, agora, o que iria fazer? Quem eu seria se não pudesse mais ser Lance Armstrong, o ciclista de fama mundial? Uma pessoa doente. Estacionei o carro no caminho asfaltado diante da minha casa. Lá dentro, o telefone estava tocando. Entrei pela porta e atirei as chaves sobre o aparador. O telefone continuava a tocar; então, eu o atendi. Era o meu amigo, Scott MacEachern; um representante da Nike, designado para trabalhar comigo. — Oi, Lance! O que está havendo? — Bom, um monte de coisas —, disse eu, irritado. — Está havendo uma porção de coisas, mesmo. — O que você quer dizer?... — Hã... Eu ainda não dissera isso em voz alta. — O que é que há? —, perguntou Scott. Abri minha boca e fechei-a. Abri-a, novamente. — Eu tenho câncer —, consegui dizer, afinal. E comecei a chorar. Então, somente naquele instante, ocorreu-me: “Eu posso perder a minha vida, também. Não apenas o meu esporte.” Eu poderia perder a minha vida.

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LANCE ARMSTRONG - MUITO MAIS DO QUE UM CICLISTA CAMPEÃO  

O livro traz a biografia de Lance Armstrong, a qual ele mesmo conta sobre o longo caminho de sua recuperação do câncer e seus diversos traum...

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