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Kel Costa

Fortaleza Negra A chegada da Nova Era

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Copyright © 2014 Kel Costa. Texto de acordo com as novas regras ortográficas da língua portuguesa. 1a edição 2014. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou usada de qualquer forma ou por qualquer meio, eletrônico ou mecânico, inclusive fotocópias, gravações ou sistema de armazenamento em banco de dados, sem permissão por escrito, exceto nos casos de trechos curtos citados em resenhas críticas ou artigos de revistas. A Editora Jangada não se responsabiliza por eventuais mudanças ocorridas nos endereços convencionais ou eletrônicos citados neste livro. Esta é uma obra de ficção. Todos os personagens, organizações e acontecimentos retratados neste romance são produtos da imaginação do autor e usados de modo fictício. Editor: Adilson Silva Ramachandra Editora de texto: Denise de C. Rocha Delela Coordenação editorial: Roseli de S. Ferraz Preparação de originais: Bárbara Cabral Parente Produção editorial: Indiara Faria Kayo Editoração eletrônica: Join Bureau Revisão: Vivian Miwa Matsushita

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Costa, Kel Fortaleza negra: a chegada da Nova Era / Kel Costa. – 1. ed. – São Paulo: Jangada, 2014. ISBN 978-85-64850-69-9 1. Ficção brasileira 2. Ficção fantástica I. Título.

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CDD: 869.93 Índice para catálogo sistemático: 1. Ficção: Literatura brasileira 869.93

Jangada é um selo editorial da Pensamento-Cultrix Ltda. Direitos reservados EDITORA PENSAMENTO-CULTRIX LTDA. Rua Dr. Mário Vicente, 368 — 04270-000 — São Paulo, SP Fone: (11) 2066-9000 — Fax: (11) 2066-9008 http://www.editorajangada.com.br E-mail: atendimento@editorajangada.com.br Foi feito o depósito legal.

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“Tudo tem um começo modesto.” — Marco Túlio Cícero

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Agradecimentos

Eu não pretendo me estender muito, mas tenho de agradecer algumas pessoas. Primeiramente, aos meus queridos avós, em especial meu avô Adelino (in memoriam), responsável por ter me apresentado aos livros de Monteiro Lobato e proporcionado minha primeira viagem ao mundo da fantasia literária. À minha mãe Fátima, uma mulher batalhadora que me ensinou a superar todos os obstáculos da vida e a manter a cabeça sempre erguida, custe o que custar. Família é o nosso bem mais valioso, e eu agradeço por ter a minha comigo. Aos amigos, que aturam meus furos e minha ausência quando me recuso a sair por preferir ficar em casa lendo ou escrevendo, mas que mesmo assim entendem e me apoiam. Ao meu editor, por acreditar no meu trabalho, e ao Grupo Editorial Pensamento, por me receber com carinho e de braços abertos. Agradeço especialmente a eles, que fizeram toda a diferença em minha trajetória: meus calos fofos (apelido carinhoso dos meus leitores). Gostaria de poder citar todos que estiveram comigo até hoje, mas acabaria usando duas ou três páginas. Eles sabem quem são, calos do antigo Orkut, do grupo do Facebook, minha MCF (um grupinho de leitoras que com o tempo viraram minhas amigas, quase irmãs)... Todos fazem parte da minha vitória. Não há felicidade maior do que tê-los ao meu lado, me apoiando e me incentivando sempre que necessário. Juntos desde 2008, o caminho percorrido até aqui seria desanimador se não fosse a companhia dos meus calos. Então, obrigada pelas noites de insônia, pelos risos e choros, pelas campanhas e por nunca terem me deixado desistir, pois, se não fosse por vocês, eu não teria chegado até aqui. Calos do meu coração, sorriam, pois essa conquista é nossa! Amo vocês!

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Sobre as pronúncias Os nomes de alguns personagens devem ser lidos de acordo com a sua pronúncia em russo, como mostrado abaixo. Mikhail /mi-rra-íl/ Nikolai /ni-ka-lai/ Vladimir /vla-dí-mir/

GLOSS˘RIO Vampiros: Seres que sobrevivem alimentando-se de sangue humano. Podem beber o sangue de outro vampiro por prazer, não como sustento. Também podem consumir outros tipos de alimentos sólidos e líquidos, mas não costumam apreciar o sabor e não precisam deles para viver. As bebidas alcoólicas não os afetam, mas seu sabor os agrada. Têm sentidos superaguçados, e força e velocidade sobrenaturais. Podem formar casais e ter famílias agregadas, mas, por instinto, respondem única e exclusivamente aos cinco Mestres. O sol pode queimá-los até a morte e a decapitação também é capaz de matá-los. Mestres: Os vampiros soberanos, os primeiros de toda a espécie. São originários de Oymyakon, região do leste da Sibéria. Ao contrário dos vampiros comuns, os Mestres têm controle sobre os elementos, Terra, Ar, Fogo e Água. Também podem controlar a mente dos seres humanos e de outros vampiros, e usam sua capacidade de provocar deslocamentos de ar para mover objetos ou fazê-los flutuar. Não leem a mente das pessoas, mas podem captar sentimentos e sensações. Desaconselham o relacionamento de vampiros com humanos, e proíbem a relação deles com adolescentes. Apenas o sol pode matá-los. Mitológicos: Seres que se dividem em duas espécies, centauros e minotauros. Têm origem grega e vivem nas entranhas de montanhas e cavernas. Atualmente, espalharam-se pelas cidades de todo o mundo. O sol não os mata, mas tira sua força, portanto, só atacam ao cair da noite. Alimentam-se de carne crua, por isso são os maiores predadores da raça humana. Não há como transformar um ser humano em mitológico, mas as duas espécies podem procriar, e cada gestação pode gerar até uma dúzia de bebês.

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PRŁLOGO 1985

AS NUVENS SE FORMARAM RAPIDAMENTE e cobriram o sol, que tentava se impor naquele céu pálido de janeiro. Ouvia-se o som de trovões a quilômetros de distância sem que qualquer pessoa imaginasse o motivo daquela brusca mudança no clima. Dois homens lutavam em meio a tijolos, cimento e outros materiais de construção da obra gigantesca que acontecia no local. Um deles enfiou a mão sem esforço dentro do peito do que estava caído, rosnando e demonstrando toda a sua força naquele ataque animalesco, presenciado por um pequeno grupo de pessoas. Sua vítima tossia e o sangue escorria pelos cantos da boca. — Vocês querem parar com isso?! — gritou uma mulher, os cabelos compridos balançando nas costas, enquanto se aproximava da briga com passos firmes. As mangas largas da sua capa se agitavam com o vento. — Precisamos nos unir, não matar uns aos outros! Os dois lutadores não lhe deram atenção. O que estava por baixo apoiou as mãos no chão, impulsionando o corpo para cima e se lançando no ar. O movimento fez com que o atacante voasse junto com ele, caindo ambos sobre uma pilha de vigas de madeira. O barulho foi estrondoso. Rolaram pelo chão e se separaram imediatamente, rosnando com as bocas ensanguentadas. Rodeavam-se, olhando-se nos olhos, como animais que enfrentam o inimigo, e só não se atracaram novamente porque outros interferiram na luta. — Parem! — gritou um deles, fazendo minúsculas pedrinhas amontoadas num canto voarem da pilha diretamente nos olhos dos dois oponentes. — Não adianta, eu não vou me curvar nem me submeter às vontades dele! — gritou o que estava em desvantagem, apontando para o seu agressor. — Não farei parte disso! — Se você puser os pés para fora destes portões, considere-se morto para nós — ameaçou o mais novo do grupo encarando o rebelde. Este abriu os braços e olhou para o alto, rodopiando, enquanto erguia as mãos. — Eu realmente não me importo! Quando cuspiu no chão, sua saliva salpicada de sangue logo foi diluída pela chuva que começava a cair.

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Poucos passos foram necessários para que se colocasse bem diante do oponente, aproximando-se tanto que os outros precisaram se afastar. Tinham a mesma altura, alinhavam-se nariz com nariz enquanto se enfrentavam. A pequena plateia não se mexia, tentando prever quem atacaria primeiro. — Fique certo de que voltarei para vê-lo sucumbir com todo este seu reinado. — Se cruzar o meu caminho de novo, eu o matarei — respondeu o outro, cerrando os punhos com força. Ao passar pelos portões, o rebelde jurou em silêncio que voltaria para cumprir o que havia prometido.

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Capítulo Um

QUANDO EU ERA PEQUENA, minha mãe costumava me contar histórias antes de dormir. Histórias reais, não aquelas que encontramos em livros infantis e que, quando crescemos, descobrimos que não passavam de ficção. Mamãe me narrava em detalhes como era o mundo na época em que ela e meu pai eram apenas crianças. Ela dizia que não se lembrava muito bem das coisas, mas tudo o que ainda estava vívido em sua memória ela compartilhava comigo. “Eu ficava até a noitinha passeando na rua com a sua avó. Ia para festas com meus amigos sem precisar voltar antes do jantar e namorei muito a céu aberto, admirando as estrelas”, ela costumava contar, com um sorriso saudoso desenhado em seu rosto fino de traços marcantes. Meus olhos brilhavam diante das histórias da sua juventude, que me mostravam uma realidade muito diferente da minha. Respirei fundo enquanto olhava pelo vidro da janela do carro, voltando ao presente. Era bom recordar as histórias de minha mãe, e, conforme eu crescia, elas ganhavam um peso ainda maior. Ficava cada vez mais claro que minha vida era completamente limitada devido às inúmeras mudanças que tinham ocorrido desde que minha mãe era bem jovem. E eu percebia como tinha sido bom ser criança por um tempo e não ter consciência do que acontecia à minha volta. — Aleksandra? — A voz dela me tirou do devaneio e eu a olhei, sentada ao volante. Ela era a única pessoa, entre todas as pessoas que eu conhecia, que não me chamava pelo meu apelido. A origem do meu nome era russa porque éramos descendentes desse povo. Na verdade, minha mãe era descendente direta. Seus pais imigraram para os Estados Unidos quando a mãe dela já estava grávida, e mamãe acabou nascendo em solo americano. Apesar de não ter nascido na Rússia, Irina Baker tinha um temperamento que deixava claro o sangue que lhe corria nas veias. Lembro que, quando estudei um pouco da história da Rússia no primeiro ano do ensino médio, a professora comentou sobre os vikings e que eles haviam sido um dos primeiros povos a fundar o Principado de Kiev. Naquele dia de aula, cheguei a pensar que mamãe talvez tivesse sangue viking, porque até a mim ela causava medo de vez em quando.

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Então, quando eu nasci, ela teve a brilhante ideia de homenagear minha bisavó me dando o nome da falecida. E como a maioria dos nomes russos, o meu tinha um diminutivo que era usado praticamente por todos que me conheciam. Sasha. Todos, exceto minha mãe, que não via lógica na homenagem se ninguém me chamasse pelo nome. — Vamos, Aleksandra! O que está esperando? — Ela aumentou o tom de voz e se curvou sobre mim para puxar a maçaneta da porta, praticamente me expulsando do carro. — Desculpe, eu estava em outra órbita. Peguei minha mochila com preguiça e me preparei para saltar. — Percebi. — Sua testa exibia as rugas adquiridas com o tempo e, quanto mais ela a franzia, mais rugas se formavam. — Agora vá, já estou atrasada. Dei um sorriso forçado e saí do carro. Meu irmão Victor era dois anos mais novo do que eu e de personalidade bastante diferente da minha. Ele já tinha saído do carro e sumido dentro do prédio, com aquele seu jeito extrovertido que eu não conseguia acompanhar — não que eu fosse tímida, mas era mais introspectiva e não me achava tão engraçada quanto ele. Victor fazia amizade com facilidade, era falante, sorridente e dava em cima de todas as garotas do colégio. Eu, por outro lado, não era exatamente uma “Miss Simpatia”. Não que fosse culpa minha. As pessoas é que preferiam manter certa distância, talvez por causa do meu cabelo pouco convencional ou das minhas roupas diferentes. Ou até mesmo da minha língua afiada, que eu não conseguia manter dentro da boca. Parei em frente àquela construção cinza com a tinta desgastada sem a menor vontade de encarar mais um dia monótono de aula. O prédio era majestoso, de arquitetura antiga, com janelas altas e largas no segundo andar, que viviam fechadas e o deixavam com um aspecto assombrado. Era possível ver dali a bandeira americana içada no alto da torre sacudindo com o vento. Meu colégio era o que podíamos chamar de “ditador”. Frequentado por adolescentes de famílias ricas — e alguns raros bolsistas, como minha amiga Helena —, ele exigia o uso do uniforme azul-marinho, que nos fazia destoar dos adolescentes de outros colégios. As garotas deviam usar saia pregueada até os joelhos, uma blusa branca com a gola rendada e um cardigã grosso também azul-marinho. Os garotos se vestiam praticamente da mesma forma, substituindo somente a saia pela calça de linho. O mais irônico era saber que aquilo tudo era apenas aparência. A direção do colégio sabia muito bem que a maioria dos seus alunos tinha um péssimo comportamento. Eu mesma tinha presenciado inúmeras vezes garotas fumando dentro dos banheiros ou na maior agarração pelos corredores com os namorados. Isso sem contar, claro, a vez em que Carmen Herrera foi flagrada quase sem roupa com Eric Cooper dentro do almoxarifado. Engraçado foi vê-la tentando se explicar, dizendo que tinham entrado ali no cubículo por engano e depois não conseguiram abrir a 12

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porta. Eric tinha feito sua melhor cara de cínico enquanto explicava que Carmen estava sem a blusa por ter ficado com falta de ar. — Sasha! Ainda bem que você chegou! — Minha melhor amiga andava a passos curtos e rápidos na minha direção, com uma expressão de quem precisava fofocar urgentemente. Helena e eu éramos amigas desde sempre. Tínhamos dezessete anos e fazíamos aniversário no mês de fevereiro. Tínhamos nos conhecidos com cinco anos de idade e, desde então, nunca mais desgrudamos uma da outra. Ela era a pessoa mais meiga e bondosa que eu conhecia e o fato de ser caçoada com frequência pelos outros me deixava irritadíssima. Helena não era exatamente uma beldade para os padrões da maioria das pessoas. Tinha cabelos cor de cobre longos e lisos, muitas sardas e olhos verdes brilhantes. Eu a achava linda, mas seu corpo pequeno e com algumas gordurinhas fazia com que destoasse das líderes de torcida magrelas, confundidas com cabides, que desfilavam pelo colégio em uniformes curtos, agitando pompons no ar. Ignorei os empurrões dos alunos apressados e parei no meio do corredor, sorrindo para ela. — Qual o motivo dessa alegria toda? — Cruzei os braços, esperando pela fofoca do dia. Ela esfregava as mãos uma na outra, e eu sabia que estava ansiosa para me contar alguma coisa. — Ah, você não vai acreditar! Meu pai disse que viu um centauro ontem! — Seus olhos se arregalaram quando terminou a frase, esperando pela minha reação. Bem, se na cabeça de Helena aquela era uma notícia agradável, então ela só podia estar doente. Ou talvez tivesse caído da cama enquanto dormia e batido a cabeça no chão. — Isso... é sério? Mesmo? — perguntei, me encostando na parede. As pessoas que passavam por nós nem podiam imaginar sobre o que estávamos falando. Buscar apoio na parede era a única forma de impedir que meus joelhos se dobrassem e eu me estatelasse no chão, pois eu sentia que eles estavam tremendo. O barulho das portas dos armários batendo e de adolescentes se cumprimentando e correndo pelo corredor começou a ficar mais fraco até parecer que eu estava surda. Helena fez que sim com a cabeça e suspirou. Apesar da empolgação com que me contara a notícia, bastava observar bem seus olhos para ver o mesmo medo que devia estar refletido nos meus. Centauros eram seres mitológicos, mas não era preciso ser especialista em mitologia para saber que a situação era grave. Em 1985 — quando minha mãe ainda era uma adolescente — o mundo tinha sofrido uma reviravolta. O que antes eram apenas personagens lendários se tornara real: vampiros. Ninguém sabia dizer ao certo quando eles surgiram, apenas que eram seres que já existiam havia milênios e viviam ocultos da sociedade. A humanidade 13

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só sabia o básico sobre eles: não gostavam de luz, bebiam sangue, era assassinos por natureza e tinham origem europeia. A questão é que naquele ano, sabe-se lá por qual motivo, os vampiros tinham resolvido se revelar e mostrar ao mundo quem eles eram. Tudo começou com uma confusão na antiga União Soviética, quando o então chefe de Estado da URSS, Konstantin Chernenko, foi assassinado no hospital onde estava internado, devido ao seu já debilitado estado de saúde, e Mikhail Gorbachev ocupou seu lugar na liderança. Por causa de atitudes divergentes que ocorreram dentro da URSS nas semanas que se seguiram, demorou para o resto do mundo saber exatamente o que estava acontecendo, mas logo ficou claro que Gorbachev era apenas usado como uma imagem de líder. Por trás de tudo aquilo, algo muito mais sério acontecia. Os vampiros apareceram na televisão para o mundo todo ver. Uma transmissão mundial, diretamente da Rússia, exibiu, numa sala fechada e muito bem iluminada, cinco figuras imóveis vestidas de preto, com mangas compridas e capuz escondendo os rostos. Falando em uníssono, explicaram que comandariam aquela parte do mundo a partir daquele momento e chamaram os humanos de seres estúpidos por derramarem à toa o sangue da própria espécie em guerras cada vez mais sem sentido. Dias após o comunicado, com a população mundial em choque e ainda sem entender muito bem a situação, Ronald Reagan se encontrou oficialmente com Mikhail Gorbachev na Suíça e ali ficou claro que o líder da URSS não parecia falar por si próprio. Foi o bastante para que os Estados Unidos deixassem clara a sua oposição à súbita tomada de poder e suspeitassem que aquelas estranhas figuras tinham algum tipo de poder mental e não se tratavam de meros seres humanos. Prevendo aquela atitude, é claro que os líderes de preto não ficaram de braços cruzados. Em poucas semanas, todo o território da antiga União Soviética foi tomado por soldados sombrios e assassinos, que combatiam e aniquilavam qualquer um que tentasse investir contra aquele poder. Eles de fato usavam o poder da mente nos soldados humanos durante o dia e dizimavam os exércitos inimigos durante a noite. E o poderio das suas tropas, mesmo que houvesse muitas baixas, nunca diminuía. Seus soldados pareciam surgir num passe de mágica e a cada semana seu número se multiplicava. De início, cada potência mundial tentou dar seu próprio jeito na situação, mas nenhuma obteve sucesso. Depois de uma verdadeira carnificina, as maiores nações decidiram se unir, numa tentativa desesperada de recuperar o controle e evitar que a humanidade fosse dizimada, porém, aqueles seres eram dotados de mais força e sagacidade do que qualquer ser humano. Depois de muitas tentativas frustradas e milhares de soldados mortos, passou a ser impossível combatê-los, pois os seres não estavam mais concentrados num único território. Já se espalhavam como uma praga por todos os continentes. Diante da possibilidade de que a única saída fosse recorrer a armas nucleares, que dizimariam tanto vampiros quanto seres humanos, causando provavelmente um holocausto nuclear, os líderes das principais potências mundiais 14

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se encontraram nas Nações Unidas e decidiram capitular. Mas isso não foi o bastante para deixar seus oponentes satisfeitos. Uma nova transmissão foi feita. E aquelas vozes sincronizadas expuseram suas decisões e ordens, exigindo a rendição incondicional de todos os líderes mundiais. Eles não queriam apenas conviver pacificamente com os humanos. Não se contentariam com o nosso estilo de vida. Ficou claro que, desde o início, o que eles queriam era poder, queriam dominar o mundo inteiro. Tratava-se de “resistir e morrer” ou “aceitar e sobreviver”. É óbvio que a raça humana optou pela segunda alternativa. Com isso, o planeta se tornou um lugar onde quem mandava e desmandava eram os chamados seres da noite. Eles não mais caçavam — pelo menos não a maioria —, pois se alimentavam de doadores, pessoas que se colocavam à disposição deles. Construíram uma fortaleza, cercada por imensos muros, e concentraram todo o seu poderio ali. Quem comandava era a Realeza vampírica — as mesmas cinco figuras da televisão — que, segundo a lenda, eram os seres mais antigos e poderosos do nosso universo. Chamados de Mestres, não se mostravam a qualquer um. Moravam reclusos na Fortaleza impenetrável e os únicos humanos que tinham o privilégio de conhecê-los eram aqueles que residiam dentro dos seus extensos muros. Com isso, mudanças drásticas ocorreram na sociedade. Os governantes foram afastados de seus cargos. As autoridades policiais foram substituídas por soldados vampiros, com exceção de algumas, mantidas em posições subalternas apenas para que dessem conta do expediente diurno nos casos em que sua presença fosse necessária. As leis foram reescritas segundo a vontade da Realeza e, por mais benevolentes que se mostrassem com a espécie humana, poupando-a do extermínio, os vampiros eram extremamente tiranos em sua forma de governar. Possuíam a escuridão em suas vidas, não tinham sentimentos, nem piedade. Praticavam muito a teoria do “olho por olho, dente por dente” e suas condenações se resumiam, basicamente, na pena de morte. Mas, à medida que foram se estabelecendo, também começaram a fazer algumas mudanças para melhor. Eles eram extremamente fiéis à própria raça e achavam absurdas as guerras da humanidade. Não havia disputa de poder, pois reverenciavam a Realeza e eram gratos pela sua imortalidade. Não matavam por matar e não faziam distinção de cor, raça, religião ou sexo. Não demorou muito para que pusessem abaixo o Muro de Berlim, num dia que marcou para sempre a História, com um exército de vampiros derrubando aquela divisa que tanto mal causou por quase trinta anos. Colocaram um ponto final na interminável Guerra Fria e em dezenas de outros conflitos e governos totalitários espalhados pelo mundo, como a temível Ditadura Militar no Brasil. Eles também iniciaram um processo global de desarmamento que culminou com a eliminação de mísseis e ogivas nucleares pelos quatro cantos do mundo. A Casa Branca foi implodida, assim como o Palácio de Westminster, o Reichstag alemão, o Congresso Nacional brasileiro, o Parlamento Europeu e todas as outras sedes ou órgãos que concentrassem algum tipo de Poder Executivo. 15

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Em cada cidade do mundo com um número significativo de habitantes, foi construído um bunker praticamente impenetrável, onde viveriam os vampiros designados para comandar aquela região, subalternos ao líder principal do seu país. Crimes se tornaram cada vez mais escassos até que deixaram de acontecer, visto que ninguém era estúpido o bastante para querer enfrentar o tribunal deles. Os crimes considerados “leves” eram julgados diretamente pelo bunker da cidade. Os de natureza “mediana” eram levados ao comando principal do país e os “graves”, aqueles que ninguém gostaria de cometer, eram julgados pela Realeza, resultando normalmente em pena de morte. Assim, quase não se ouvia mais falar em assaltos, assassinatos ou outros tipos de crime, o que contribuiu muito para a aceitação cada vez maior dos vampiros. Por ironia do destino, aqueles que em nossas lendas eram conhecidos por sua sede de sangue e considerados assassinos por natureza trouxeram a “paz mundial”. De seu jeito tirânico e peculiar, haviam acabado com as guerras e o derramamento de sangue desnecessário que a espécie humana perpetrava contra si mesma havia milênios. Minha mãe costumava contar que, por volta de 1990, a situação já estava mais calma e controlada. O mundo estava livre das guerras e da opressão constante dos governos. A única coisa proibida era manter algum tipo de religião, pois os Mestres achavam que os únicos que deveriam ser adorados eram eles próprios. Mas como a moradia de um indivíduo era respeitada — e vampiros precisavam de convites para entrar —, nada impedia a população de usar a proteção de suas paredes para adorar o Deus que quisesse. Era normal cruzar o caminho de um vampiro ao sair de casa após o pôr do sol e isso já não afetava mais ninguém. Tirando o fato de eles se alimentarem de sangue humano, todo o resto transcorria numa verdadeira paz — se a pessoa fosse um bom cidadão. Entretanto, não levou muito tempo para que tudo mudasse mais uma vez. Meus pais tinham se casado havia pouco tempo quando assassinatos estranhos começaram a ocorrer em várias partes do mundo. Em questão de dois ou três dias, os noticiários explodiram com informações sobre os ataques e deixaram os vampiros enlouquecidos. A primeira imagem mostrada na televisão de um ataque ao vivo — o repórter não sobreviveu e a transmissão acabou sendo cortada —, foi suficiente para espalhar o pânico, e logo se descobriu a causa por trás de tudo. Tratava-se dos mitológicos: centauros e minotauros. A diferença entre os dois? Fisicamente muitas, mas em relação ao nível de maldade, quase nenhuma. A única coisa é que centauros agiam de forma um pouco mais calculada que os minotauros. Não atacavam sem motivo, costumavam ter um plano em mente e o principal: tinham autoridade sobre os minotauros. Estes eram os piores. Controlados pelos centauros, eram máquinas assassinas que só desejavam estraçalhar quem vissem pela frente. Obedeciam às ordens dos centauros e eram considerados o mais próximo de um exército que os seus superiores poderiam ter. 16

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A origem das duas espécies mitológicas ainda era desconhecida para os humanos. Sabia-se o básico sobre elas, aquilo que todo mundo costumava aprender no colégio quando o professor falava sobre mitologia. Os centauros tinham corpo de cavalo, mas cabeça e tronco humanos. Portanto tinham dois braços e quatro patas. O corpo dos minotauros, por outro lado, era bem parecido com o humano, mas gigantesco e supermusculoso. A cabeça era de touro e as pernas também. Mas, no lugar das patas da frente, tinham braços muito compridos, o que lhes permitia andar como bípedes ou quadrúpedes, e mãos com cinco dedos, dotados de garras muito afiadas. Eram extremamente fortes e velozes, o que fazia deles guerreiros invencíveis. Os chupadores de sangue podiam ser mortos se tivessem a cabeça arrancada — estaca no coração é lenda —, mas mesmo assim eram considerados imortais, já que não existia arma poderosa o suficiente para fazer um estrago dessas proporções e também porque o ataque precisava ser rápido e certeiro, pois a cicatrização acontecia num piscar de olhos. Diziam que a pele dos vampiros era macia ao toque, mas parecia ser blindada. Os mitológicos, por outro lado, não tinham esse escudo fenomenal e nem poder de cura; eram muito mais fortes que os humanos e mais rápidos, mas não eram páreos para os vampiros. Mitológicos não eram imortais, e os seres da noite eram os únicos que eles temiam. Como não gostavam de cruzar o caminho de um vampiro, não incomodavam essa raça e, por causa disso, não atraíam muita atenção dos governantes. A Realeza nessa época estava mais preocupada em aplacar os problemas financeiros de diversos países, que vieram à tona no início da década de 1990, após a queda do Muro de Berlim e do colapso do comunismo ocidental. Portanto, na maioria das vezes, não havia nada nem ninguém que pudesse defender os humanos dos ataques dos minotauros. — Você me ouviu, Sasha? — A boca de Helena continuava se mexendo, mas eu ainda não estava processado o que ela dizia. — Sasha? Meus ombros foram sacudidos por mãos pequenas, com um anel de abelhinha em cada polegar, me fazendo voltar à realidade. Nem tinha me dado conta de que já estávamos entrando na sala de aula. Pisquei algumas vezes e me sentei em meu lugar de sempre, nem na frente e nem no fundo da sala, apoiando a cabeça nas mãos e encarando o quadro branco. — Estou ouvindo. Acho. — Eu ainda tentava processar a informação e aproveitava para fazer isso enquanto a aula não começava. — Fiquei falando sozinha esse tempo todo, não é? — Ela me olhava irritada, de braços cruzados e o dedo indicador batendo freneticamente no cotovelo, um tique nervoso que tinha desde criança. — Você às vezes parece que viaja para o mundo da lua e fica por lá. — Como você quer que eu reaja a isso que acabou de me contar? Não é a notícia mais empolgante do dia, Helena. 17

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Abri meu caderno, tentando pensar em qualquer outra coisa que não fossem os mitológicos. Como qualquer pessoa normal, eu tinha pavor deles. Sim, eu estava em pânico! Quando nasci, em 1995, o mundo já estava ainda mais mudado. Os seres humanos eram obrigados a viver com medo, por causa da presença constante dos mitológicos. Eles atacavam ao cair da noite, nunca tinham sido vistos durante o dia. Buscavam a escuridão e utilizavam os subterrâneos da cidade ou outros lugares mais afastados da civilização. Por causa disso, metrôs, túneis e estacionamentos cobertos não eram mais seguros e ninguém em sã consciência se aproximava de lugares assim sozinho, depois de escurecer. Como eles só atacavam depois do pôr do sol, os vampiros estabeleceram um toque de recolher para os humanos e algumas novas leis que deveriam ser seguidas à risca por quem quisesse se manter em segurança. Perfumes doces foram quase abolidos do mundo todo, pois os minotauros sentiam o cheiro de longe e ficavam excitados. Roupa vermelha não era a melhor coisa para se usar, pois a cor era um atrativo para eles, que nos enxergavam como alvos em movimento. As pessoas deveriam evitar fazer muito barulho em casa à noite, para não atraí-los. Mesmo com essas e muitas outras restrições, ainda assim não estávamos protegidos. Os mais afortunados podiam colocar sistemas de segurança em suas residências, muros altos, cercas elétricas. Os mais pobres não podiam fazer o mesmo e tinham suas casas frequentemente invadidas de madrugada pelos mitológicos, e nunca sobrava ninguém para contar a história. Mas esses seres costumavam andar em bando, por isso era fácil saber quando um ataque era iminente. O meu pavor era justamente por não haver nenhum indício de invasão em nossa cidade. Nunca se noticiara nas redondezas nenhum ataque ou aparição de algum mitológico. Eu morava em Jacksonville, na Carolina do Norte, e a cidade era muito tranquila. A notícia mais polêmica que estampara os jornais duas semanas antes tinha sido o caso do ladrãozinho amador que havia tentado roubar gasolina do posto e ateara fogo no próprio corpo por causa do cigarro pendurado no canto da boca. Agora, porém, depois do que Helena tinha me contado, já não me sentia mais segura. Se era verdade o que ela tinha dito, a cidade realmente tinha sido invadida. Eu já podia prever o caos que tomaria conta das ruas e as proibições — mais delas — que seriam feitas. Não que eu me sentisse prejudicada com um toque de recolher ainda mais rígido ou com meus pais neuróticos me impedindo de sair. Eu era considerada uma adolescente muito caseira e não curtia as festas do colégio nem sair para beber com alguma turma. Meus programas preferidos se resumiam a ficar com Helena assistindo a filmes nas noites de sexta-feira e passar minhas horas livres nadando na piscina do colégio. Rasguei uma folha do meu caderno e escrevi um bilhete rápido para minha amiga. Joguei o papel sobre a carteira dela, enquanto a professora se virava para escrever alguma coisa no quadro. 18

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Seu pai tem certeza de que era mesmo um centauro? O que mais ele falou? Era apenas um? Helena leu o bilhete e tratou de rabiscar alguma coisa no verso do papel, jogando-o, em seguida, sobre o meu caderno. Discretamente, eu me virei para ler, sentindo a ansiedade crescer dentro do peito. Ele tem certeza absoluta, mas era um só e foi muito rápido. Ele estava na varanda do quarto fumando e viu o centauro passar na esquina... Perdi o fôlego e amassei o papel ao terminar de ler. Fosse verdade ou não, aquele não era assunto para sala de aula. Se a notícia se espalhasse dentro do colégio, nós duas seríamos acusadas de semear o caos e eu não queria isso em meu histórico escolar quase impecável. Eu era uma boa aluna, afinal de contas. Não tirava as notas mais altas da classe, mas sempre me mantinha acima da média e nunca havia tomado sequer uma advertência. Tinha também um bom histórico extracurricular e me orgulhava disso, pois sabia que seria de grande ajuda para conseguir entrar na faculdade. Na hora do intervalo, eu estava travando uma batalha com o lacre do pacote de biscoito quando Eric Cooper se sentou entre mim e Helena, num dos bancos do pátio externo. Eu sempre torcia para que o tempo do intervalo se prolongasse o máximo possível, mas, quando aquele garoto apareceu, comecei a querer exatamente o contrário. Eric olhou de relance para minha amiga e voltou a me encarar, como se Helena fosse dispensável. Enquanto ele abria um sorriso convencido e sedutor, observei cada traço do seu rosto, visualizando por trás daquela fachada toda a sua desagradável personalidade. Eu não conseguia enxergar o que as outras garotas viam em Eric Cooper para que ele fosse tão popular. Era bonito, rico, forte, tinha a pele bronzeada e cabelos negros, mas era tão esnobe que, para mim, nenhuma dessas qualidades tinha algum valor. — Sasha! Como você está hoje? — perguntou ele de um jeito tão diferente do habitual que pensei ter entrado em alguma realidade paralela. — O que você quer, Eric? Minha concentração estava toda no pacote de biscoito. — Tudo bem, vou direto ao assunto já que você faz questão de dificultar as coisas. Custa apenas ser simpática? — Custa — respondi sem me dar ao trabalho de olhá-lo. — Que seja. Você está convidada para uma festinha que eu vou dar lá em casa hoje. — Ele sorriu; aquele mesmo sorriso que eu o via lançar para todas as outras garotas, como se quisesse me seduzir. Alvo errado, garotão. — Mas, se você for, seria legal levar alguma coisa para animar a festa. 19

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— Que coisa? — perguntei mais por curiosidade, já que não fazia questão nenhuma de ir. — Tem gente que leva bebida, comida, mas para você pode até ser algo mais prático. Não respondi, mas pelo jeito como o encarei, ele se deu conta de que eu pouco me importava e deu um sorrisinho sem graça. — Então, como sabemos que seu pai está estudando “aquelas coisas”... — Eric frisou bem as últimas palavras e esfregou as mãos na calça. — Aquelas coisas? — Franzi a testa, tentando entender. — Meu pai é biólogo, Eric. O que isso te interessa? — Ah, você sabe. Ele não está fazendo uma pesquisa sobre os mitológicos? Isso é tão radical! Você podia contar para todos nós o que ele faz, como é o trabalho dele... Aposto que seria o ponto alto da festa! Pelo que entendi, Eric queria agitar a festa dele às minhas custas, ou melhor, às custas do meu pai. Não era novidade para ninguém que os mitológicos eram sempre um assunto polêmico, mas era bizarro demais levantar essa questão numa festa que deveria ser divertida. Além disso, eu não tinha a menor intenção de contar a nenhum dos amigos dele detalhes sobre a vida do meu pai e do trabalho incrível que ele fazia. Até alguns meses atrás, meu pai era um biólogo como outro qualquer. Tinha um emprego modesto numa empresa também modesta e ganhava um salário condizente com seu trabalho. O lado rico da família vinha da minha mãe, que era a única herdeira de todo o patrimônio deixado pelos seus pais, depois de sofrerem um acidente de carro fatal. Porém, uns três anos antes, meu pai tinha começado a se interessar mais pelos mitológicos. Ele sempre foi uma pessoa muito prática, que preferia fazer a esperar que alguém fizesse por ele, assim encontrou a solução para proteger a família: encontrar uma substância que fosse letal para os mitológicos, já que eles pareciam imunes às nossas doenças e armas. Quando ele começou a ver uma luz no fim do túnel, pediu demissão para se dedicar em tempo integral às pesquisas, e um ano depois começou a ver resultados. Passou meses apresentando seu projeto a vários laboratórios, mas ninguém parecia se interessar ou acreditar que poderia dar certo. Até que um dia, acabou conhecendo o reitor da Universidade de Washington quando voltava de uma viagem. O homem, muito interessado na pesquisa, convidou-o para dar uma palestra na semana seguinte, numa convenção que reunia os maiores nomes da comunidade científica. Foi a oportunidade perfeita para que a sorte do meu pai começasse a mudar. De lá para cá, a situação mudou. Foi a vez dos laboratórios disputarem a atenção dele, que, diante de tantas propostas, deu-se o direito de avaliar e escolher a que parecesse melhor. A essa altura, com os ataques cada vez mais frequentes, as grandes cidades do mundo sendo devastadas e abandonadas — os mitológicos sempre começavam atacando os grandes centros — e a população diminuindo drasticamente, os vampiros

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tinham passado a demonstrar certo interesse em pôr um fim a essa história. Afinal de contas, era a fonte de alimento deles que estava sendo exterminada. A notícia chegou aos ouvidos das mais altas patentes vampíricas americanas, que deviam ter recebido autorização da Realeza para entrar em ação. Com isso, meu pai acabou sendo contratado pela cúpula dos vampiros. Ao som de um pigarro, me dei conta de que Eric Cooper ainda estava sentado ao meu lado, esperando pela minha resposta. — Eric, não acho que esse papo sobre “aquelas coisas”, como você mesmo disse, seja ideal para uma festa cheia de adolescentes. Além do mais, meu pai não gostaria que eu saísse por aí falando sobre as pesquisas dele. Finalmente consegui abrir o pacote de biscoito, fazendo alguns farelos voarem na calça do atleta. Escondi meu sorriso de satisfação por sujar a roupa impecável dele. — Fico impressionado com as suas habilidades! — resmungou Eric, limpando o uniforme. — Eu só queria um pouco de diversão esta noite. Seria legal conhecermos mais sobre o inimigo. — Se quer assustar algumas garotas, por que não conta uma história de terror? Ele me olhou com raiva e se levantou de maneira brusca. Fiquei muito feliz por ter conseguido irritar Eric Cooper de um jeito que o deixasse com o rosto todo vermelho. Infelizmente não demorou muito para que ele recuperasse a pose habitual de machão. Estufou o peito e empinou o nariz com arrogância, enquanto me olhava como se fosse um ser superior e eu, a escória do universo. — Esqueça o convite, Baker. Fiquei calada, vendo-o se afastar e se juntar ao grupinho de amigos. Helena suspirou ao meu lado e eu nem precisava olhar para saber que ela estava de boca aberta e olhos arregalados. — Você é louca de falar com ele desse jeito... — Não, eu não sou. Apenas não babo no chão que ele pisa. — Olhei nos olhos verdes dela. Quando eu disse que todas as garotas babavam por Eric, eu também estava incluindo minha amiga. Ela, no entanto, era completamente ignorada por ele, que só dispensava atenção às líderes de torcida, com suas saias minúsculas e tops apertados. O sinal tocou, indicando que o maravilhoso intervalo chegara ao fim, e me veio a constatação de que grande parte dele tinha sido desperdiçado com Eric Cooper. — O que vai fazer depois da aula, já que foi desconvidada da festa? — Helena me perguntou, passando um braço por dentro do meu. — Tenho natação. — E depois?

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Antes que eu pudesse responder, meu celular vibrou, anunciando a chegada de uma mensagem de texto. Tirei o aparelho da bolsa e cliquei na tela para ler a mensagem. Era de minha mãe. Venha direto para casa quando sair da natação. Seu pai e eu temos um assunto para tratar com você e seu irmão. Suspirei e olhei para Helena, mostrando o visor do celular para que ela lesse a mensagem. — Pelo visto, depois da natação, eu já tenho compromisso. Minha mãe não costumava me ligar ou mandar mensagens em horário de aula se não fosse para tratar de assuntos importantes, então não havia a menor possibilidade de eu tentar evitar a conversa com meus pais ou até mesmo me atrasar. Não se eu não quisesse ficar de castigo pelo resto da vida. A água morna da piscina aquecia minha pele e fazia meus músculos relaxarem a cada braçada. Algumas pessoas meditavam, outras faziam aeróbica e outras simplesmente corriam. O meu método de relaxamento era a natação. Eu não era a garota mais habilidosa do mundo. Sempre fui preguiçosa para praticar exercícios físicos e não curtia a maioria dos esportes, no entanto, sempre gostei de nadar, de estar em contato com a água, e dentro de uma piscina eu sabia bem o que fazer. Era rápida e leve e já havia ganhado uma medalha no ano anterior ao participar do Estadual Juvenil. Dei minha última braçada, alcançando a borda da piscina, e apoiei meus braços na pedra úmida. Enquanto tirava a touca, vi o técnico contornando a piscina em minha direção e se agachando à minha frente. — Bom treino, Sasha. O que acha de começarmos um novo tempo semana que vem? Quero ver se conseguimos bater seu próprio recorde. — Recorde novo? Ótimo! — Devo ter dado a ele meu maior sorriso, de tão feliz que fiquei ao ouvir aquilo. — Então estamos combinados. Prepare-se que semana que vem vou pegar mais pesado com você. Balancei a cabeça concordando e peguei sua mão, que ele me oferecia para sair da piscina. Eu me enrolei rapidamente na toalha por causa da mudança brusca de temperatura e me despedi dele, correndo para o vestiário. O ginásio de natação ficava num dos prédios nos fundos do colégio, e eu sabia que o motorista estaria me esperando do lado de fora. Minha mãe nos levava todos os dias para a escola, mas nunca nos buscava. Alguns minutos depois, saí do ginásio e segui em direção ao carro parado na entrada. O sedã preto brilhava debaixo do sol frio e o motorista esperava ao lado da porta traseira, pronto para abri-la quando eu me aproximasse. — Boa tarde, senhorita Baker. 22

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— Boa tarde, David. Entrei no carro sem me preocupar com a água que ainda escorria dos meus cabelos e molhava o estofado de couro. Victor já estava esperando, com a cabeça apoiada no encosto do banco e de olhos fechados. — Droga! Não foi dessa vez que você virou baleia e nadou para o mar? — Ele tentava me irritar, mas eu já estava mais que acostumada com suas brincadeiras. Apenas tirei meu caderno da mochila e aproveitei para passar a limpo algumas anotações da aula de História. Quando chegamos, notei que o carro do meu pai já estava estacionado na garagem. A conversa que eles queriam ter conosco devia ser mesmo urgente, pois não era comum encontrá-lo àquela hora em casa. — Mãe? Pai? — chamei, ao ver que não estavam na sala. Subi as escadas com Victor atrás de mim e, antes mesmo de guardar a mochila ou trocar de roupa, fui até o escritório do meu pai, que era o local sagrado de trabalho dele. Tratava-se de um cômodo amplo e muito branco, com uma enorme estante num dos cantos, onde havia uma quantidade imensa de livros. Ao lado da estante havia uma mesa de vidro que mais parecia a mesa de um executivo e não a de um biólogo. No canto oposto do cômodo, ficavam microscópios de última geração, uma espécie de geladeira onde ele guardava amostras das coisas bizarras com as quais trabalhava e uma mesa de metal. Eu nunca perguntei — e nem tinha interesse em saber — o que ele colocava ali em cima. — Estamos aqui. Sobre o que querem conversar? — perguntei ao encontrar os dois sentados no sofá de couro branco ao lado da mesa de vidro. — Sentem-se conosco, crianças — pediu meu pai, um homem de quarenta e oito anos, com os primeiros fios grisalhos aparecendo. Aquilo tudo era muito estranho. Todas as conversas mais sérias que costumávamos ter aconteciam na hora do jantar ou quando a família estava reunida na frente da televisão. Se fosse para nos passar algum sermão, eles eram sempre bem diretos e não ficavam fazendo todo esse suspense. Antes de me sentar, olhei para minha mãe e notei que ela exibia uma expressão dolorosa. — Então...? — Me sentei ao lado do meu pai e o encarei. — Tem uma coisa que precisamos contar a vocês dois e sabemos que não é exatamente uma notícia agradável — ele concluiu, deixando escapar um suspiro. — Seu pai e eu pensamos em todas as opções — interferiu mamãe, colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha como sempre fazia quando estava nervosa. — Infelizmente tivemos que nos decidir pela mais radical. — Quem morreu? — o idiota do meu irmão perguntou. Do que exatamente eles estavam falando era a pergunta que eu queria fazer. Tinha caído alguma bomba nuclear? Um deles estava muito doente? Eu não sabia o que pensar, mas sentia as palmas das mãos suadas e a garganta seca. 23

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— Vocês poderiam ser mais claros? — pedi, tentando não ficar histérica. Não ajudaria em nada. — Sim. — Meu pai respirou profundamente. — Os mitológicos estão na cidade. Era isso? Todo aquele suspense para anunciar algo que eu já sabia? — Eu sei. — Talvez não devesse ter dito aquilo em voz alta, afinal era um segredo de Helena que eu deveria ter protegido, mas acabei falando mais pelo alívio de saber que era essa a notícia bombástica que eles tinham para nos dar. — Você sabe? — eles perguntaram ao mesmo tempo, chocados com minha revelação. — Mais ou menos. — Victor me olhava interessado e meus pais, desconfiados. Lá fora o sol devia estar começando a enfraquecer, pois a claridade que entrava pelas janelas do escritório tinha diminuído de forma drástica. — Na verdade, foi o pai de Helena que viu um centauro ontem e ela me contou hoje na aula. Os olhos do meu pai demonstravam preocupação e suas mãos estavam inquietas. Então era mesmo verdade, não era? Até aquele momento, eu não tinha tanta certeza, achava que o pai da minha amiga pudesse ter se confundido, mas meu próprio pai estava ali confirmando tudo. Nós estávamos perdidos. — Sasha, Victor, vocês sabem que os únicos a quem os mitológicos temem são os vampiros. — Não era bem uma pergunta, mas, mesmo assim, eu e meu irmão respondemos que sim. Meu pai esboçou um sorriso, mas tão triste que não conseguiu me convencer. — Crianças, nós vamos ter que nos mudar. Fiquei paralisada. Não sei dizer por quanto tempo, mas durante alguns segundos só vi meus pais falarem comigo sem conseguir prestar nenhuma atenção. Olhei para Victor, de olhos arregalados e boquiaberto, tão em choque quanto eu. Como meus pais eram capazes de soltar uma notícia daquele tipo assim, feito uma bomba?! — Aleksandra! — As mãos firmes da minha mãe me sacudiram. — Está me ouvindo? — Acho que sim — respondi, sem saber direito o que estava dizendo. — Nós vamos... nos mudar? — Sim, vamos embora, nossa cidade não é mais segura. Sabemos muito bem que onde há um mitológico há muitos outros, e os ataques podem acontecer a qualquer momento. — Vocês não entendem, nenhum lugar é seguro o bastante! Nenhum! — Eu me levantei assim que senti o choque deixar meu corpo. Minha camiseta estava úmida por causa dos cabelos molhados e eu sentia os pelinhos dos braços arrepiados de frio. — Eu não quero me mudar! — Victor gritou. Eu e ele concordávamos pelo menos em alguma coisa. Os dois nos olhavam pacientes, com as expressões um pouco abaladas, mas seus olhos refletiam a decisão já tomada. Mas, se meus pais pensavam que iriam me tirar da minha cidade e dos meus amigos — uma amiga, na verdade —, estavam muito enganados! Eu lutaria até o fim. 24

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— Existem lugares seguros, sim! — disse papai, ainda paciente. — Lugares onde os vampiros estão em maior número. — Não estamos pedindo a opinião de vocês — avisou mamãe. — Seu pai e eu já decidimos. Apenas resolvemos contar logo para que tenham tempo de digerir melhor a notícia. — Não! Eu não vou sair da cidade! — Dei as costas para os dois e segui decidida em direção à porta. Antes que eu pudesse passar por ela, minha mãe resolveu dar o último tiro em meu coração, falando com uma voz cristalina e autoritária para que não restassem dúvidas no ar. — Não sairemos apenas da cidade, Aleksandra. Vamos mudar de país. — Uau, que legal! — Meu irmão parecia ter mudado de ideia. Fui chorando de raiva para o meu quarto e bati a porta com força. Não desci para o jantar. Só um pouco antes de me deitar é que dei uma mordida no sanduíche que meu pai deixara sobre a cômoda. Aquelas palavras ficaram ecoando em minha cabeça durante a noite toda e nem telefonar para Helena eu consegui. Não sabia ainda se conseguiria dizer a palavra “mudança” em voz alta. Meu sono diversas vezes foi interrompido pela lembrança daquela conversa e fiquei feliz por ser sexta-feira e não ter aula no dia seguinte, pois eu acordaria com enormes olheiras.

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FORTALEZA NEGRA  

De uma inóspita região da antiga União Soviética, vampiros, até então considerados criaturas lendárias, surgem inesperadamente e põem fim à...

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