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O Extraordinário Mundo Interior dos Bebês DO ÚTERO AO BERÇO

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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) McCarty, Wendy Anne O extraordinário mundo interior dos bebês : do útero ao berço: os novos horizontes da psicologia pré-natal e perinatal / tradução Sonia Regina de Castro Bidutte, Marcello Borges. — 1. ed. — São Paulo : Cultrix, 2013. Título original: Welcoming consciousness: supporting babies : wholeness from the beginning of life : an integrated model of human development. Bibliografia. ISBN 978-85-316-1235-0 1. Bebês - Desenvolvimento 2. Comportamento fetal 3. Consciência 4. Desenvolvimento humano 5. Psicologia do desenvolvimento I. Título. 13-06056

CDD-155.422 Índices para catálogo sistemático: 1. Psicologia pré-natal e perinatal 155.422

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Wendy Anne McCarty, Ph.D.

O Extraordinário Mundo Interior dos Bebês DO ÚTERO AO BERÇO Os Novos Horizontes da Psicologia Pré-Natal e Perinatal

Tradução SONIA REGINA DE CASTRO BIDUTTE MARCELLO BORGES

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Título original: Welcoming Consciousness: Supporting Babies’Wholeness from the Beginning of Life — An Integrated Model of Early Development Copyright © 2004, 2005, 2006, 2009 Wendy Anne McCarty, Ph.D. Copyright da edição brasileira © 2013 Editora Pensamento-Cultrix Ltda. Texto de acordo com as novas regras ortográficas da língua portuguesa. 1a edição 2013. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou usada de qualquer forma ou por qualquer meio, eletrônico ou mecânico, inclusive fotocópias, gravações ou sistema de armazenamento em banco de dados, sem permissão por escrito, exceto nos casos de trechos curtos citados em resenhas críticas ou artigos de revistas. A Editora Cultrix não se responsabiliza por eventuais mudanças ocorridas nos endereços convencionais ou eletrônicos citados neste livro. A autora agradece a permissão para usar o seguinte material publicado anteriormente e protegido por direito autoral: “The Resonant Heart” de Rollin McCraty, Ph.D., Raymond Trevor Bradley e Dana Tomasino, publicado em Shift: At the Frontiers of Consciousness no 5 (dezembro de 2004 a fevereiro de 2005), reproduzido com permissão dos autores (www.heartmath.org) e do Instituto de Ciências Noéticas (www.noetic.org). Copyright © 2005, todos os direitos reservados. Foto da dra. McCarty de Lynda Rae, www.autoradesignstudio.com Editor: Adilson Silva Ramachandra Editora de texto: Denise de C. Rocha Delela Coordenação editorial: Roseli de S. Ferraz Preparação de originais: Newton Roberval Eichemberg Produção editorial: Indiara Faria Kayo Assistente de produção: Estela A. Minas Editoração eletrônica: Fama Editora Revisão: Claudete Agua de Melo e Vivian Miwa Matsushita

Direitos de tradução para o Brasil adquiridos com exclusividade pela EDITORA PENSAMENTO-CULTRIX LTDA., que se reserva a propriedade literária desta tradução. Rua Dr. Mário Vicente, 368 — 04270-000 — São Paulo, SP Fone: (11) 2066-9000 — Fax: (11) 2066-9008 http://www.editoracultrix.com.br E-mail: atendimento@editoracultrix.com.br Foi feito o depósito legal.

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Agradecimentos

A

gradeço imensamente ao pessoal da New Earth Foundation por sua visão e pela importância que eles atribuem à inclusão da consciência e

da nossa natureza espiritual senciente em nossos modelos dos primórdios do nosso desenvolvimento. Sem o seu apoio, este livro e as pesquisas nas quais ele se baseou não teriam sido possíveis. Agradeço especialmente a Lorna McLeod, diretora da NEF, que me guiou ao longo deste projeto. Sou muito grata a Carolyn Kenny, diretora e fundadora do Santa Barbara Graduate Institute, que foi minha mentora em expressões mais novas e mais integrativas de pesquisas e redação durante este projeto. Muito obrigada. Agradeço também a Shannon Venable, por sua contribuição editorial, e a Lynda Rae, por seu apoio editorial extra, pela bela capa e pelo design do original em inglês do livro. Minha profunda gratidão a Marti Glenn e Ken Bruer, que me convidaram para participar da criação do Santa Barbara Graduate Institute e a fundar, junto com Marti, o Prenatal and Perinatal Psychology Program. Essa oportunidade me desafiou a explorar mais profundamente a integração dos modelos das fases iniciais do desenvolvimento e os da psicologia pré-natal e perinatal, e agora, dez anos depois, essa exploração evoluiu, transformando-se em uma nova disciplina de psicologia fundamental e produzindo nossos doze princípios norteadores. Que aventura, Marti! Eu também gostaria de agradecer a Ray Castellino, com quem fundei, em 1993, a BEBA (Building and Enhancing Bonding and Attachment), clí5

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nica sem fins lucrativos que oferece assistência terapêutica pré-natal e perinatal para bebês e suas famílias. Durante os cinco anos em que trabalhamos juntos, aprendi muito com Ray. Foi uma época especial de colaboração e desenvolvimento do nosso trabalho. Outros mentores, mestres, pioneiros e colegas a quem eu quero agradecer são William Emerson, Franklyn Sills, Peter Levine, Chloe Wordsworth, David Chamberlain, Thomas Verny, Jenny Wade, Rollin McCraty, Michael Shea, Joseph Chilton Pearce e Walter Makichen. Sou grata a todos esses pioneiros que fundaram e participaram do desenvolvimento da psicologia pré-natal e perinatal e da The Association of Prenatal and Perinatal Psychology and Health. Em especial, sou grata a B. J. Lyman, editora do periódico do nosso campo de pesquisa, o Journal of Prenatal and Perinatal Psychology and Health (JOPPPH), que durante seis anos presidiu o Prenatal and Perinatal Psychology Program do Santa Barbara Graduate Institute (SBGI). No âmbito pessoal, sou profundamente grata aos meus amigos e familiares, em especial a Ginny, Patsy, Harvey, Jennifer, Leslie, Annie, Sharon, Daniel, Paul, Thomas, Terry e Bill, que reservaram um espaço para o projeto e para mim desde antes da “concepção” até o “nascimento” deste material. O apoio de vocês foi muito importante para mim. Agradeço de coração a Lazaris, por me estender a mão e iluminar o meu caminho para casa — um começo maravilhoso. Também sou profundamente grata, e me sinto abençoada, por ter o privilégio de trabalhar com todas as famílias, bebês, crianças e adultos que tanto me ensinaram sobre quem somos, sobre a nossa dignidade, nosso caráter e nosso mais profundo impulso de amar, de curar e de nos conectar com a nossa verdade. Muito obrigada a todos vocês por permitir que eu contasse a sua história para que outras pessoas possam ser tocadas e consigam despertar mais de si mesmas. 6

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Minha gratidão mais profunda eu dirijo aos meus pais. Sei que eles me amaram, me quiseram e me valorizaram desde o início. Dádivas preciosas. Quero expressar meu reconhecimento por minha mãe, para deixar registrado como ela foi maravilhosa durante todos os anos em que eu me especializava em psicologia pré-natal e perinatal e explorava minhas experiências nesse campo. Ela sempre respondia paciente e amorosamente às minhas perguntas e ouvia minhas histórias de reconexão com essas experiências, e durante todo esse processo o seu amor me acompanhou. Em retrospecto, um dos elementos mais terapêuticos da minha jornada foi sua capacidade para compartilhar comigo aquilo de que ela se lembrava, e como havia se sentido, e dizer: “Desculpe... eu queria que tivesse sido diferente... eu não sabia...”. Ela me ensinou muito graças à sua capacidade para permitir que eu desdobrasse e sustentasse minhas histórias sem resvalar em culpa ou vergonha, e sem que eu sentisse necessidade de colocar minhas verdades de lado quando elas eram dolorosas. Grande parte da minha ferida inicial devia-se ao sentimento de separação na minha experiência. Com sua maneira serena, ela me ajudou a sentir a conexão da qual eu sentira falta e isso nos aproximou ainda mais. Foi maravilhoso. Eu sempre vou te amar, mamãe. Obrigada, de todo o coração.

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Sumário Capítulo 1 — Introdução................................................ 13 Capítulo 2 — Crenças, concepções e percepções em desenvolvimento ........................................................... 18 Minha trajetória........................................................... 19 Psicologia pré-natal e perinatal......................................... 21 Revisitando minhas experiências pré-natais e perinatais............ 25 O que as crianças me ensinaram........................................ 27 A questão de nossa natureza básica..................................... 35 Capítulo 3 — O contexto mais amplo .............................. 40 A abordagem integral de Wilber........................................ 41    Tabela 1: Quadrantes do Modelo Integral de Wilber......... 46    Três modos de conhecimento: a jornada da concepção do   dr. Farrant........................................................... 49 Nosso universo interconectado......................................... 53 O paradigma holográfico................................................ 60 Capítulo 4 — Criação de um modelo integrado do período inicial do desenvolvimento humano................................. 73 Nossa natureza transcendente fundamental........................... 76 Nossa natureza senciente e a continuidade da nossa noção de eu......................................................................... 81    Existência anterior à concepção................................. 82    Relatos de experiências pré-natais, perinatais e de   quase morte......................................................... 87 9

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Fontes transcendentais e humanas de consciência................... 93 O eu integrado: uma sinergia holonômica de perspectivas transcendentais e humanas............................................... 98 Tabela 2: Perspectivas pré-natais e perinatais: características relatadas................................................... 104

Capítulo 5 — Integração................................................. 123 Integrando o conhecimento tradicional ocidental sobre o período inicial do desenvolvimento humano ao modelo integrado................................................................... 126 A experiência inicial e a formação do inconsciente adaptativo.... 129 O eu integrado e a teoria das necessidades........................... 130 O ser e o conhecimento integrados: percepções e sentidos........ 133 Figura 1: Níveis holonômicos de percepção e consciência..... 137 O princípio do modelo imperativo..................................... 139 O eu integrado: novos horizontes...................................... 140 Posfácio...................................................................................... 149 Doze princípios de orientação para apoiar o potencial humano e relacionamentos ideais desde o início da vida................... 151 Psicologia fundamental............................................................. 155 As novas fronteiras da psicologia fundamental................................. 157 Referências.................................................................................. 159 Apêndices 1 — Termos e definições................................................. 165 2 — Bibliografia........................................................... 168    Período inicial do desenvolvimento e princípio da   infância (contemporâneos)............................................ 169   Psicologia pré-natal e perinatal (PPN).............................. 181    Tópicos gerais................................................................. 202 3 — O poder das crenças: o que os bebês estão nos ensinando... 216

4 — O coração ressonante.............................................. 247

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Shh... Silencie o seu coração Venha discretamente Venha suavemente Venha logo Venha Para um mundo novo — Bill

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Capítulo 1

INTRODUÇÃO “Eles não acham que eu seja uma pessoa. Eu sei que sou.” Essa experiência e essa afirmação captam um tema central que, durante décadas, ecoou nos relatos clínicos da psicologia pré-natal e perinatal. Essa afirmação, em particular, é de Emily, que, sob hipnose, descreveu sua experiência na unidade neonatal do dr. David Chamberlain (1999b, p. 80). Há mais de trinta anos, o dr. Chamberlain reúne histórias e faz pesquisas sobre a natureza senciente dos bebês dentro do útero e na ocasião do nascimento. O volume dos seus estudos como psicólogo pré-natal e perinatal e suas pesquisas nessa área, que incluem dois livros e mais de cinquenta artigos publicados, representam uma grande contribuição ao novo campo da psicologia pré-natal e perinatal (PPN). Em seu artigo “The Significance of Birth Memories” [A Importância das Memórias do Nascimento], ele afirma o que tem sido relatado com frequência na literatura sobre PPN, ou seja, que “todas as memórias do nascimento estão impregnadas de um sentido de identidade” (p. 79). Creio que a etapa mais importante na criação de um modelo integrado dos primórdios do desenvolvimento consista em reconstituir a nossa natureza espiritual senciente como a nossa natureza fundamental, com o nosso “eu” humano como um aspecto ou expressão do nosso “eu” senciente. Quando 13

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reconhecemos, aceitamos e apoiamos o ser senciente que está ingressando na forma humana, reconstelamos as nossas teorias, avaliações, intervenções, práticas de criação dos filhos e outras maneiras fundamentais de estar com os bebês para apoiar a totalidade desde o início da vida. As pessoas, em sua maior parte, poderão achar essas afirmações desorientadoras e inacreditáveis, pois não tiveram acesso à literatura sobre psicologia pré-natal e perinatal ou não se reconectaram com sua vida intrauterina ou por ocasião do nascimento. Para aqueles com formação na teoria tradicional dos princípios de desenvolvimento do bebê e nas pesquisas realizadas nessa área, a ideia de que um recém-nascido possa ter uma noção de autoidentidade choca-se com as teorias atuais sobre os bebês. Um princípio fundamental da teoria tradicional do período mais antigo do desenvolvimento humano é a ideia de que a experiência do bebê se funde com a experiência da mãe e do ambiente físico. Essa perspectiva baseia-se na ideia predominante segundo a qual o ser humano é uma entidade biológica, que deve ser estudada do ponto de vista comportamental. Acredita-se que, no útero, na ocasião do nascimento e durante as primeiras semanas e meses de vida, os bebês não são capazes de refletir, não têm uma noção de eu, nem uma compreensão significativa da linguagem e não conseguem se comunicar conscientemente. Dentro dessa perspectiva, uma tarefa fundamental para o desenvolvimento das crianças durante os dois primeiros anos de vida consiste em desenvolver uma noção de eu, separada do seu ambiente e da mãe. Nesse modelo, percebe-se que a consciência e uma noção consciente de eu surgem com o desenvolvimento do cérebro humano ao longo de meses e anos. Uma visão muito diferente dos primórdios do desenvolvimento humano e das habilidades associadas a esse período emergiu ao longo dos últimos trinta anos, sob a forma de descobertas e estudos clínicos no campo da psi14

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cologia pré-natal e perinatal, os quais estão mapeando a experiência nas fases iniciais do desenvolvimento humano do ponto de vista do bebê. Esse ponto de vista privilegiado dá origem a uma perspectiva e a uma visão muito diferentes do EU durante a vida intrauterina e a primeira infância. As descobertas da psicologia pré-natal e perinatal indicam que somos seres sencientes desde o início da vida, que já existíamos como seres assim desde antes da vida física e é dessa maneira que sempre estivemos funcionando desde o começo da existência humana. Portanto, a literatura tradicional sobre o desenvolvimento intrauterino e durante o início da vida do bebê e as descobertas clínicas da psicologia pré-natal e perinatal parecem ter orientações, perspectivas e descrições muito diferentes a respeito dos bebês. Cada uma dessas tradições também inclui várias implicações sobre a melhor maneira de cuidar do bebê e contribuir para que o seu desenvolvimento seja otimizado, as quais podem parecer diferir significativamente uma da outra. No cerne das diferenças, surge a questão de nossa natureza básica. Essa dissonância e esses paradoxos estimularam minhas explorações como terapeuta, educadora e pesquisadora nos últimos quinze anos. Este livro representa minha tentativa de abordar e solucionar paradoxos centrais e aparentes divergências entre os modelos convencionais de desenvolvimento do bebê e o número crescente de evidências oriundas da psicologia pré-natal e perinatal, juntando tudo isso em um modelo capaz de reter a essência de todo o espectro de perspectivas. Nesse processo, espero criar uma narrativa mais precisa e mais coerente do desenvolvimento humano em seus primórdios, e que começa com a concepção de um novo ser humano. Minhas décadas de exploração constituem uma tapeçaria tecida com os fios de minhas próprias experiências pessoais, formação profissional e experiência clínica, bem como do meu trabalho e do meu diálogo com psi15

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cólogos especializados em psicologia pré-natal e perinatal. Portanto, minhas conclusões representam uma sinergia dessas várias perspectivas. Este livro é destinado ao público em geral, desde aqueles que ainda não estão familiarizados com a literatura sobre psicologia pré-natal e perinatal até os teóricos experientes no estudo do período inicial do desenvolvimento humano e, especialmente, todos os que trabalham com famílias recém-formadas. Muitas das ideias apresentadas neste livro basearam-se em trabalhos de outros profissionais, mas algumas das maneiras pelas quais eu reuni as ideias poderiam ser consideradas muito especulativas neste momento. Esse modelo tira proveito do espectro de pensamento teórico e está fundamentado na minha experiência clínica direta com adultos, crianças e bebês. Meu objetivo, mais especificamente expresso, é apresentar um modelo integrativo da experiência, do aprendizado, do desenvolvimento e dos cuidados do ser humano nos seus primórdios (desde antes da concepção até os primeiros meses de vida) que inclua a nossa natureza senciente. Para isso, eu procurei estender pontes entre vários campos, e integrá-los, campos esses entre os quais se incluem as teorias atuais sobre o período inicial do desenvolvimento humano, recentes pesquisas clínicas com bebês, que incorporam estudos sobre a consciência, a psicologia pré-natal e perinatal, as práticas de criação dos filhos e várias noções presentes na ciência da nova física. Espero que este livro seja o princípio desse processo. Faço aqui o esboço de alguns aspectos do novo modelo e apresento uma articulação exploratória que pode ser utilizada para alimentar novos pensamentos, novas pesquisas e análises profissionais no campo da teoria do período inicial do desenvolvimento humano e de suas aplicações práticas. Apresento conceitos de importância-chave e forneço exemplos clínicos; no entanto, meu objetivo não é fazer uma análise minuciosa nem uma revisão de algum determinado aspecto da literatura. 16

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Quando falo sobre uma área ou descoberta, cito um ou dois autores como exemplo, em vez de fornecer uma lista completa de referências. Incluo uma extensa bibliografia para explorações adicionais no Apêndice 2. Relaciono essas intrincadas questões teóricas com aplicações práticas cotidianas relacionadas às maneiras como concebemos, carregamos no ventre, damos à luz e criamos nossos bebês e filhos pequenos. Futuramente, pretendo abordar com maior profundidade aspectos específicos do modelo e alguns problemas levantados por ele, bem como descrever o trabalho clínico com bebês e crianças pequenas orientado pela psicologia pré-natal e perinatal e suas implicações.

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Capítulo 2

CRENÇAS, CONCEPÇÕES E PERCEPÇÕES EM DESENVOLVIMENTO Quando faço uma retrospectiva dos meus últimos 25 anos de prática clínica, surgem temas fundamentais que me parece importante examinar aqui. Um deles é o poder que minhas crenças têm sobre o que eu (a) considero possível ou verdadeiro e (b) percebo quando estou observando um bebê e interagindo com ele. Vejo como minhas crenças moldam profundamente meu trabalho como terapeuta que lida com bebês e também como pesquisadora. Em 2003, assisti a um programa no canal Discovery Health chamado The Placebo Effect [O Efeito Placebo]. Em um dos segmentos do programa, o dr. Albert Mason contou que, décadas atrás, quando era um jovem médico, ele atendeu um paciente com o que ele imaginava que fossem milhares de verrugas espalhadas pelo corpo. O dr. Mason havia feito um curso de hipnose e sabia que as verrugas podiam ser eliminadas com essa técnica. Ele hipnotizou o paciente, e de fato as verrugas sumiram. Quando o médico responsável pelo caso viu o paciente, ele disse ao dr. Mason que aquelas não eram simples verrugas, mas sim a manifestação de uma doença genética incurável. O sucesso do caso foi relatado em uma revista de circulação nacional, e muitas pessoas que sofriam dessa doença debilitante procuraram o jovem médico para que ele as tratasse por hipnose. 18

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O dr. Mason relatou então que, embora tivesse tratado muitos outros portadores dessa mesma doença por meio de sugestões hipnóticas semelhantes, nenhum deles obteve efeitos benéficos. Anos depois, ao refletir sobre essa experiência, o dr. Mason chegou à conclusão de que os tratamentos hipnóticos não tinham surtido efeito novamente porque ele mesmo não acreditava mais que isso fosse possível. Ele sentiu que estava apenas “encenando” o tratamento. A propósito, a equipe que realizou o documentário localizou o paciente original, o qual lhes afirmou que, trinta anos depois do tratamento, ele continuava curado. Essa história me comove profundamente e trata de temas que eu mesma exploro. Quais são as minhas crenças sobre o período inicial de desenvolvimento do ser humano? O que é possível? Como minha cultura, família, educação e formação profissional moldaram minha maneira de exercer minha profissão em relação ao que eu concebo e até mesmo percebo quando estou com um bebê? O que é curativo e terapêutico nesse novo contexto? O que eu acredito que é verdadeiro em face da minha experiência direta e do que me ensinaram que é verdadeiro? Como sabemos que algo é verdadeiro? Na próxima seção, falo um pouco sobre a minha trajetória pessoal, da minha transição de uma concepção ocidental tradicional sobre o nascimento e os bebês para a concepção da psicologia pré-natal e perinatal e, depois, retorno com o propósito de integrá-las. O que eu discuto nessa seção também serve como uma breve introdução ao campo da psicologia pré-natal e perinatal.

Minha trajetória Quando terminei a faculdade, em 1973, trabalhei como enfermeira no departamento de obstetrícia do Centro Médico da Universidade de Kentucky. Nesse hospital universitário, aprendi métodos ocidentais de parto de alta tecnologia e altamente invasivos. Eu acreditava que essa era “a maneira de 19

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trazer bebês ao mundo”. No meu emprego seguinte, chefiei uma equipe de enfermeiras e assistentes sociais em um programa de maternidade de alto risco com visitas domiciliares. Em 1976, participei de um novo projeto de pesquisa, o NCAST (Nursing Child Assessment Satellite Training), por meio de um programa transmitido ao vivo, via satélite, que avaliava a interação entre a mãe e o bebê durante o período de amamentação e ensinava as reações e os estados do bebê. Foi uma época muito empolgante na área de pesquisas sobre bebês e programas de intervenção, com o desabrochar de novas pesquisas sobre reciprocidade e afinação entre os pais e os bebês e a criação de programas de estimulação do bebê. Em 1977, voltei a estudar e fiz mestrado em Desenvolvimento Infantil e Estudos da Família, com ênfase no desenvolvimento do bebê. Na minha tese de mestrado, fiz um estudo longitudinal de casais que tiveram seus primeiros filhos e analisei alguns aspectos da transição para a paternidade (Wong, 1979). A área que mais me atraía era a de terapia familiar, e fiz meu doutorado na Universidade do Sul da Califórnia em Aconselhamento Psicológico. Novamente, minhas pesquisas se concentraram na transição para a condição de pais (McCarty-Wong, 1986). Minha linha de trabalho era principalmente humanista-existencial, com cinco anos de formação em gestalt-terapia. Em 1986, abri meu primeiro consultório particular como terapeuta familiar e de casal. Ao mesmo tempo, na minha vida pessoal, a “transição para a condição de pais” não estava acontecendo para mim e meu marido. Quando descobrimos que ele era estéril, iniciamos uma peregrinação de sete anos pelos labirintos da infertilidade, com doadores de esperma, inseminações artificiais, cirurgias, fertilização in vitro e uma adoção malsucedida. Sinto muita compaixão por aqueles que empreendem essa jornada. Essas experiências me proporcionaram uma visão dos bastidores da concepção high-tech, um 20

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O EXTRAORDINÁRIO MUNDO INTERIOR DOS BEBÊS  

A Dra. McCarty sintetizou décadas de descobertas clínicas da psicologia pré-natal e perinatal e suas próprias observações sobre bebês e cria...

O EXTRAORDINÁRIO MUNDO INTERIOR DOS BEBÊS  

A Dra. McCarty sintetizou décadas de descobertas clínicas da psicologia pré-natal e perinatal e suas próprias observações sobre bebês e cria...

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