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A ESPADA QUE DÁ VIDA

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Yagyu Munenori

A ESPADA QUE DÁ VIDA Ensinamentos secretos da Casa do Shogun

O texto clássico do zen e da Não Espada pelo maior rival de Musashi

Tradução: EDER CARLOS PEREIRA NEVES

Supervisão da tradução brasileira: SHIHAN WAGNER BULL

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Título original: The Life-Giving Sword. Copyright da tradução em inglês © 2003 William Scott Wilson. Publicado mediante acordo com Kodansha International Ltd. Copyright da edição brasileira © 2013 Editora Pensamento-Cultrix Ltda. Fotografias do catálogo ilustrado da Shinkage-Ryu Martial Arts copyright © Hozanji Temple. Supervisão da tradução brasileira: Shihan Wagner Bull. Tradução do japonês para o inglês de William Scott Wilson. Texto de acordo com as novas regras ortográficas da língua portuguesa. 1a edição 2013. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou usada de qualquer forma ou por qualquer meio, eletrônico ou mecânico, inclusive fotocópias, gravações ou sistema de armazenamento em banco de dados, sem permissão por escrito, exceto nos casos de trechos curtos citados em resenhas críticas ou artigos de revistas. Editor: Adilson Silva Ramachandra Editora de texto: Denise de C. Rocha Delela Coordenação editorial: Roseli de S. Ferraz Preparação de originais: Lucimara Leal Produção editorial: Indiara Faria Kayo Assistente de produção editorial: Estela A. Minas Editoração eletrônica: Join Bureau Revisão: Vivian Miwa Matsushita NOTA: Ao longo deste livro, os nomes japoneses aparecem na ordem tradicional, com o sobrenome precedendo o primeiro nome. TRADUÇÃO PARA O INGLÊS DEDICADA A JOHN PINKERTON SISCOE.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Munenori, Yagyu, 1571-1646. A espada que dá vida: ensinamentos secretos da casa do Shogun / Yagyu Munenori; tradução Eder Carlos Pereira Neves; supervisão da tradução Shihan Wagner Bull. – São Paulo: Cultrix, 2013. Título original: The life-giving sword Bibliografia. ISBN 978-85-316-1228-2 1. Arte e ciência militar – Japão – Obras anteriores a 1800 2. Esgrima – Japão – Filosofia – Obras anteriores a 1800 I. Título. 13-04296

CDD-796.86 Índices para catálogo sistemático: 1. Esgrima: Artes marciais

796.86

Direitos de tradução para a língua portuguesa adquiridos com exclusividade pela EDITORA PENSAMENTO-CULTRIX LTDA., que se reserva a propriedade literária desta tradução. Rua Dr. Mário Vicente, 368 – 04270-000 – São Paulo – SP Fone: (11) 2066-9000 – Fax: (11) 2066-9008 http://www.editoracultrix.com.br E-mail: atendimento@editoracultrix.com.br Foi feito o depósito legal.

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Sumário

Prefácio à edição brasileira............................................... Prefácio .......................................................................... Introdução ......................................................................

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A ESPADA QUE DÁ VIDA .................................................

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A Ponte do Sapato de Presente ............................................... A Espada que Traz Morte ....................................................... A Espada que Dá Vida ...........................................................

59 65 89

Posfácio .......................................................................... 119 CATÁLOGO ILUSTRADO DE ARTES MARCIAIS SHINKAGE-RYU ................................................................ 123 Fontes citadas no texto ........................................................... 149 Bibliografia ............................................................................ 151 Notas..................................................................................... 153

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Prefácio à edição brasileira

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uando li esta obra pela primeira vez, na versão inglesa, percebi que deveria ser traduzida para o português, de modo que os artistas marciais, bem como as pessoas interessadas em cultura e filosofia japonesa, que são centenas de milhares no Brasil, pudessem saber mais sobre este personagem – Yagyu Munenori – praticamente desconhecido em nosso país, em todo o Ocidente e até mesmo no Japão, mas que teve grande importância na tradição marcial japonesa e seus Do (Caminhos). Ao contrário de Yagyu, seu contemporâneo, Miyamoto Musashi, o famoso espadachim japonês, que nunca perdeu uma luta, é muito conhecido, e suas citações são famosas em todo o mundo, principalmente depois da publicação de O Livro dos Cinco Anéis. Também é bem famoso para quem gosta de temas orientais o monge zen Takuan, amigo do autor e também de Musashi, e aqui e acolá sempre encontramos suas citações em livros e artigos sobre sabedoria oriental. No entanto, salvo entre as pessoas que se dedicam à prática das esgrimas japonesas antigas, praticamente ninguém sabe quem foi Yagyu Munenori. Por coincidência, na época em que terminei a primeira leitura de seu livro, eu estava organizando um seminário de Aikido no Instituto Takemussu, em São Paulo, com o famoso mestre de Aikido, Hiroshi Kato, aluno direto do Fundador do Aikido, Morihei Ueshiba, e embora Kato Sensei não seja um erudito em cultura japonesa, ao

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contrário, um homem simples, acredito ser um dos alunos ainda vivos do fundador que mais têm habilidade técnica. Entre os aikidoistas, muitos o identificam com um “Musashi moderno”. Entusiasmado com o conteúdo do livro, perguntei ao mestre Kato se ele conhecia Yagyu Munenori e, para minha surpresa, ele respondeu com certo desprezo: “Ah... ele era um político, não era como Musashi”. Embora confesse ter sido “apresentado” a Munenori apenas ao ler seu livro Heiho kadensho (A Espada que Dá Vida), que ora o leitor desfruta em português, não levei absolutamente em conta o comentário depreciativo de Kato Sensei. Ao contrário, estudioso que sou há muitos anos das artes marciais japonesas e especialmente do Aikido, percebi que somente uma pessoa incomum poderia ter escrito tal texto muitos séculos atrás, cem anos após a descoberta do Brasil. Na primeira leitura, constatei que seus pensamentos e ensinamentos continham a base de grande parte daquilo que foi dito posteriormente a respeito do budo e seus propósitos pelas gerações que o sucederam, e que, diante desse fato, estas, na verdade, haviam sido apenas intermediárias da mensagem. Foi quando concluí que os brasileiros precisavam ter contato direto com a fonte, assim como eu tive. Não hesitei, procurei mais uma vez o editor Ricardo Riedel, que tanto tem apoiado as artes marciais no Brasil e publicado livros importantes sobre o budo e as tradições secretas, e lhe recomendei a publicação desta obra. Ele aceitou a tarefa e me atribuiu a responsabilidade da tradução. Convidei meu aluno Eder Carlos Pereira Neves para ajudar-me no trabalho e este desempenhou a tarefa muito bem, realizando a tradução praticamente sozinho, deixando-me apenas o trabalho de crítica e uma revisão final. Para que o texto não perdesse o conteúdo original, apenas corrigi aqui e acolá algumas palavras e frases de difícil tradução para o português. Certamente, este foi um trabalho difícil para Eder, a quem sou muito grato, pois ele refez duas vezes a tradução básica para que eu finalmente aceitasse a terceira, antes de iniciar a correção final. Acredito que o resultado foi satisfatório. Estou convicto de que, depois da leitura deste livro, os artistas

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marciais japoneses e os que gostam dos Caminhos Marciais, os Do, terão agora uma nova visão de onde vieram muitas máximas e informações que receberam de seus mestres e outros autores prediletos, especialmente os japoneses. Yagyu Munenori nasceu em 1571 e desde cedo teve um grande mestre de esgrima, seu próprio pai, Muneyoshi. Apresentado ainda muito jovem por seu pai para colaborar com o Grande Shogun Ieyasu Tokugawa, o homem que unificou o Japão, sua perspicácia e suas habilidades marciais o levaram a se tornar o professor de esgrima de Ieyasu Tokugawa e de seus dois sucessores, o filho Hidetada e o neto Iemitsu. Seu estilo de esgrima, o Yagyu Shinkage Ryu, que herdou da família e aprimorou, ficou famoso e tornou-se o estilo oficial do shogunato. Em sua obra e pensamento, acredito haver grande influência de seu amigo, mentor e confidente, o monge Takuan. Em virtude de sua influência política, em certa ocasião, Munenori livrou Takuan de uma grande enrascada em que o monge se metera por causa de seu espírito destemido e livre. Portanto, creio que deveria haver grande admiração entre esses dois homens que tinham muitas afinidades. No final da vida, Munenori foi considerado um Kami (ser divino), recebendo o título de Tajima no Kami. Segundo a tradição japonesa, aquele que executa e vive de maneira tão ideal e perfeita a seus olhos é considerado alguém que alcançou outra dimensão, aquela dos “deuses”, ou kami. Em 1639, Munenori tornou-se um daimyo, um tipo de governador, apesar de sua origem humilde, vindo a falecer nesse mesmo ano. Para despertar ainda mais a curiosidade sobre esse fantástico personagem, e para que o leitor também possa tirar suas próprias conclusões sobre a importância da filosofia de Munenori para os Caminhos Marciais, vale a pena conhecer algumas de suas famosas máximas. O objetivo do treinamento das artes marciais é acabar com seis tipos de doença:

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1. 2. 3. 4. 5.

O desejo da vitória. O desejo de se fixar na teoria de como fazer a técnica correta. O desejo de se exibir. O desejo de derrotar o oponente psicologicamente. O desejo de permanecer passivo aguardando uma abertura na guarda do oponente. 6. O desejo de ficar livre dessas doenças. Munenori disse ainda que evitar conflitos nas relações com os amigos do início ao fim é uma questão de ver por meio dos princípios dos relacionamentos humanos, e que isso seria também uma arte marcial, mas da mente. Organizar os móveis em uma sala de estar, dizia ele, é uma questão de usar o que é certo para cada lugar, e que isso não seria diferente da essência das artes marciais. Verdadeiramente o lugar pode mudar, mas os princípios são os mesmos e, portanto, poderiam ser aplicados até em assuntos de âmbito nacional sem cometer erros. Para Munenori, não fazia sentido pensar que as artes marciais tivessem por propósito apenas cortar um homem. Ora, isso foi dito no início do século XVII, muito antes da criação do judô, karate-do, kendo, aikido e tantos outros caminhos marciais. Concluí, desse modo, que a origem histórica da fonte da qual beberam os criadores dos budo, e para citar apenas os mais famosos, como Jigoro Kano, Gichin Funakoshi e Morihei Ueshiba, na ideia de transformarem as artes marciais japonesas em “Caminhos Marciais”, acrescentando-se o sufixo Do (Caminho, Michi) no final do nome das artes que criaram centenas de anos após, foi Yagyu Munenori. No entanto, a grande massa da população japonesa evidentemente desconhece quem efetivamente é o pai formal dos Do, pois para ter esse conhecimento seria necessário fazer parte de uma elite bem informada do ponto de vista cultural. Embora tenha sido um grande artista marcial, Munenori passou toda a sua vida na corte, no meio da grande administração do Japão

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feudal, envolvido com os negócios oficiais e o aconselhamento ao shogun, além da responsabilidade de ser o mestre de armas da nobreza. Foi então que compreendi por que Munenori não se tornou popular. A despeito de ter sido um grande homem do “Bun Bu Ryodo” (pena e espada juntas), ser uma personagem fundamental para a filosofia das artes marciais e ser considerado um dos maiores mestres de espada do Japão, Munenori foi interpretado e mantido na memória do povo japonês apenas como um político. Afinal ele dizia que, embora a espada possa ser usada para matar, ela deve ser treinada para dar a vida, e isso é difícil de ser entendido por quem não está preparado. É mais fácil se fazer entender pelo povo agindo como Musashi, que, de modo contrário, dizia que a razão de se praticar as artes marciais era vencer, bem ao estilo das multidões que adoram vencedores. Isso é assim até hoje, comprovado pelos estádios de futebol tão cheios todos os dias, onde os torcedores vibram com a vitória do time que escolheram para torcer, e no qual projetam todos os seus desejos de serem vistos como superiores e vencedores, embora, de fato, apenas fiquem sentados assistindo; afinal, são os competidores que atuam. Sendo assim, que mérito real podem merecer? Ao contrário, os dojo e as tradições que ensinam as pessoas a eliminar o ego e cultivar a humildade, através de um exercício regular, disciplinado, como ocorre nos dojo sérios de Aikido, preocupam-se mais com a qualidade de seus membros do que com a sua quantidade. Como praticante de um Caminho Marcial Tradicional que recusa as competições, não posso portanto admirar o posicionamento de Musashi, mas aceito sua proposta de que a melhor espada é aquela que não precisa ser sacada para dar vida, endossando o posicionamento de Munenori. Lutar com o intuito de vencer às vezes é necessário quando não há sensibilidade e compreensão, por parte do oponente, de que a maior vitória não se encontra ao se derrotar o adversário, mas sim em torná-lo nosso parceiro, em se evitar o conflito. Essa é a essência do Aikido e dos “Caminhos Marciais Tradicionais”. A satisfação da competição é apenas uma maneira ilusória de compensar o sentimento de inferioridade, salvo quando a

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disputa tem por objetivo servir de treino, de exercício para os competidores. Essa era a intenção inicial de Jigoro Kano, o fundador do judô, mas na prática não funcionou assim e o judô acabou se tornando um esporte olímpico, como o futebol e outros, em que a vitória e ser o campeão são a meta, embora o lema das Olimpíadas fale que o “Importante é competir, não vencer”. Para comprovar esse fato, de que nem todos os atletas pensam na forma dessa proposta do fundador dos Jogos Olímpicos, basta ver como reagem com decepção e tristeza estampada no rosto, ou até revolta contra os “árbitros”, aqueles que ficam em segundo e terceiro lugar, deixando claro que somente ser o “campeão” tem valor. Embora O Livro dos Cinco Anéis, de Musashi, seja muito lido por executivos que procuram sucesso profissional, e a vitória, é meu desejo que esses leitores tenham uma visão diferente do conflito ao conhecerem o pensamento de Yagyu Munenori, presente nesta obra. A sensação de vitória, de orgulho e de valor que um campeão experimenta ao vencer uma competição esportiva é relativa e tem pouco valor para a sociedade em termos de contribuir para as coisas de que ela mais necessita, que são boa saúde, educação e segurança. Afinal, colocar a mente no sucesso e na vitória, enaltecendo o ego, é ficar apegado a algo muito forte. É, como disse Takuan, contemporâneo de Munenori e Musashi, abominável tanto no budismo quanto nas artes marciais, pois isso leva ao apego e este implica aprisionamento e imobilidade, independentemente das ações do oponente. Takuan ensinava que, seja para cortar ou estocar, é essencial que a mente nunca pare. Na vida, mais importante do que vencer e matar é a capacidade de lidar com situações conflituosas e promover a paz, a harmonia e o bem-estar comum. A arte marcial, dizia Munenori, que é como uma “Espada que Dá Vida” (Katsujinken), e que ensina como atingir esse objetivo, é verdadeiramente um Do, e realmente útil para ser praticada por todos. Por fim, quero deixar aqui minha mensagem, após 42 anos de prática e ensino da arte marcial do Aikido, de que endosso a filosofia

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e a estratégia marcial de Yagyu Munenori propostas nesta obra. Manifesto minha admiração pelo homem, pelo cidadão, que soube em seu tempo dar a devida importância à sua paixão pelas artes marciais, mas que também ficou atento a como atuar na sociedade de sua época, colocando-se condizente e estrategicamente em uma posição social na qual pôde contribuir significativamente para a melhoria de seu povo, na condição de desfrutar de real poder político administrativo, prático e usando o Caminho da Espada, mas não para destruir e sim para construir. Espero que a leitura desta obra, magnífica a meu ver, demonstre uma vez mais aos brasileiros que gostam de artes marciais japonesas que elas de fato foram criadas para ser um Caminho Marcial, um treinamento para a vida. É um equívoco acreditar que os Do foram deixados para a posteridade apenas como um meio de se ganhar disputas, como pensam ainda muitos praticantes de artes marciais, e até professores. Medalhas e troféus em artes marciais não são o prêmio real aos praticantes sérios de Caminhos Marciais. O budo serve para a melhora da saúde, para trazer o autoconhecimento, para desenvolver a sensibilidade aos outros seres e a todas as forças do Universo. A sua prática deve nos ajudar a ser pessoas mais aptas a conquistar amizade e sinergia, e a desenvolver e ter as condições materiais para viver melhor, com recursos, confortavelmente, com saúde, e sermos respeitados no meio e na sociedade em que escolhermos viver. O verdadeiro budo ensina a importância da franqueza e da verdade, que trazem a confiança, que é a mãe do amor, e este leva ao maior dos bens: a alegria. São Paulo, 17 de junho de 2011 Shihan Wagner Bull Fundador do Instituto Takemussu (www.aikikai.org.br) Presidente da Confederação Brasileira de Aikido-Brazil Aikikai (www.aikikai.com.br)

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Estรกtua de madeira de Yagyu Munenori. Templo Hotokuji,Yagyu, Nara.

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Prefácio

N

o depósito do templo Hotokuji, há uma estátua de madeira de um homem nos seus 60 ou 70 anos sentado na clássica postura de joelhos para fora e pés juntos. A tinta que dá cor às suas vestes apresenta falhas em alguns pontos, indicando a idade da estátua, mas, apesar das visíveis marcas do tempo, a imagem que se impõe é a de um personagem robusto e intenso. O seu pescoço é notavelmente espesso, indicando uma excelente saúde, e seus olhos transparecem inteligência e uma profunda introspecção. Seus lábios, sob um fino bigode, são grossos, e parecem prontos para dar vida a seus pensamentos. O cabo de uma espada à sua esquerda aparece quase como se fosse um desses pensamentos. Com tudo isso, a impressão final que temos é a de que esta é a imagem de um homem com o qual podemos contar. Alguém que não inspira exatamente medo, mas sim grande respeito por sua autoridade e seu conhecimento implícitos. Em algum lugar há uma camada dura, um lado forte da sua personalidade; e em outro, em uma parte indefinível, um sentimento suprimido de melancolia. Nos primeiros anos do período Edo (1603-1868), um tempo de intenso desenvolvimento das artes marciais, surgiram três curtos tratados sobre a arte da espada que influenciariam as épocas vindouras muito além da promessa de suas poucas páginas.

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O primeiro foi O Misterioso Registro da Sabedoria Imóvel (Fudochi shinmyoroku), escrito pelo monge budista Takuan Soho por volta de 1632. Esse tratado era inicialmente uma tese filosófica de análise da arte da espada pela perspectiva do zen-budismo, enfatizando especialmente o desejo de manter a mente livre de apego e fixação. Em termos de combate, isso significava impedir a mente de parar, ou “aguardar” algo – quer fosse a posição, a técnica, a espada do oponente ou qualquer evento que pudesse impedir a mente de mover-se de forma livre. Parar a mente, Takuan declarou, significava a derrota. Apesar de já ter nascido em uma família de samurais, acredita-se que Takuan teve a ajuda do espadachim Miyamoto Musashi na sua compreensão das artes marciais. Em 1629, Takuan foi exilado em Dewa, uma distante província localizada ao norte do Japão, por ter desacatado publicamente uma diretriz do governo Tokugawa sobre os direitos de sucessão eclesiásticos. Em Dewa, Takuan foi posto sob o comando do líder local, lorde Matsudaira. Em 1631, Musashi visitou a mesma área para demonstrar seu estilo com a espada a convite de certo Matsudaira Dewa no kami. Caso este fosse realmente o mesmo líder local que comandava Takuan no período, haveria poucas dúvidas de que tal líder teria apresentado os dois talentosos espadachins e aproveitado uma noite ou talvez alguns dias de discussão e, quem sabe, até mesmo uma demonstração da aplicação do zen na esgrima. Fortes semelhanças nos pressupostos fundamentais entre a arte de Takuan e a de Musashi parecem confirmar esse encontro, se não em Dewa, então talvez em outro lugar. O segundo tratado (o terceiro cronologicamente) foi trabalho do próprio Musashi. O Livro dos Cinco Anéis (Gorin no sho), escrito entre 1643 e 1645. Diferentemente da filosofia do tratado de Takuan, o livro de Musashi possui uma abordagem prática sobre a arte da espada, informando ao leitor certas táticas de como mover os pés, como se posicionar em relação ao sol e outras fontes de luz, como se esquivar e estocar. O estado de espírito para entrar em um confronto, de acordo com Musashi, não era estar preparado para morrer com

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uma espada na cintura ou empenhado em uma técnica rápida, porém ineficaz, mas sim estar pronto para vencer. Na arte da espada, o lado oculto da mente, porém, era tão importante para Musashi quanto para Takuan – a libertação da mente, nunca permitindo que ela parasse, mesmo quando o oponente parecesse derrotado. Dito isso, o contínuo movimento da mente é artística e filosoficamente simbolizado pelo avatar budista Fudo Myo-o (Rei da Sabedoria Imóvel), comumente representado segurando em uma das mãos uma espada que ele usa para cortar nossa ignorância, e, na outra, uma corda para amarrar nossas paixões, libertando, dessa maneira, nossa Mente Verdadeira. Talvez não seja uma coincidência que Takuan tenha dedicado parte de sua obra à descrição de Fudo, enquanto Musashi, um artista habilidoso, esculpiu uma incrível estátua dessa inspiração budista que ainda hoje impressiona seus observadores. O clássico trabalho final sobre a arte da espada – cuja tradução é oferecida neste volume – é o Heiho kadensho (A Espada que Dá Vida, também conhecido como O Livro das Tradições do Clã nas Artes Marciais), escrito por Yagyu Munenori provavelmente em 1632. Enquanto o trabalho de Takuan enfatiza a abordagem zen na arte da espada e o de Musashi aborda a prática, Munenori escolheu andar sobre a tênue linha entre os dois extremos e apresentar tanto uma base filosófica para a prática quanto alguns passos de pura prática. A filosofia ou psicologia da obra é baseada principalmente em O Misterioso Registro da Sabedoria Imóvel, que foi escrito para Munenori por seu amigo e mentor Takuan. Munenori coloca uma ênfase similar em como manter a mente livre de apegos ou, em suas palavras, “doenças” adquiridas quando se dá muita atenção à técnica ou à ideia de vencer. Sua cura para tais doenças era, paradoxalmente, mais ou menos a mesma de se usar uma cunha para retirar outra cunha que estava presa em algum lugar. A intensa autodisciplina e o profundo conhecimento dos princípios zen são a chave para tornar-se um “realizado” homem do Caminho.

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Munenori herdou o seu talento de uma longa linhagem de predecessores, incluindo seu pai, o artístico e refinado Sekishusai, e o quase legendário mestre de seu pai, Kamiizumi Ise no kami Hidetsuna. Cada um desses homens aperfeiçoou as técnicas que recebeu e as passou adiante com o desafio de refiná-las ainda mais. Dizem que Munenori levou essas técnicas, que incluem a famosa Não Espada, à perfeição e as transmitiu para seus alunos, como os que frequentavam a escola de artes marciais de Yagyu Shinkage-ryu. Talvez um dos indicativos da eficácia dessa escola é que um de seus alunos mais talentosos foi o terceiro shogun Tokugawa, Iemitsu, um homem que não perdia tempo com frivolidades ou coisas que não surtissem resultados práticos. Munenori se posiciona em perfeito contraste com seu contemporâneo, Miyamoto Musashi, que pareceu ter surgido do nada para tornar-se famoso por suas extraordinárias vitórias, enquanto veementemente se definia como alguém sem mestre. Munenori, por outro lado, tinha claramente uma longa herança, além de ter ficado famoso por realizações que não envolviam lutas pessoais, e também inflexivelmente definia-se por seus predecessores, chegando ao ponto de assinar sua obra-base primeiramente com o nome de Kamiizumi, depois com o nome do seu pai e, apenas por último, com o seu próprio nome. Heiho kadensho é uma base para técnicas já aprendidas, ao mesmo tempo que é um livro cuidadosamente escrito com instruções para práticas futuras, uma fonte mediadora para livrar-se de obstáculos encontrados pelo estudante e um suporte filosófico para usar a espada muito mais como instrumento de vida do que de morte. Um homem envolvido na administração política do seu próprio feudo e do governo Tokugawa, Munenori viu na prática da espada um Caminho para moldar e preparar o estudante para se tornar um ser humano completo. O objetivo de Musashi com a arte da espada era “ganhar”, apesar de essa “vitória” incluir uma habilidade para entender e executar em qualquer Caminho, não importando o que acontecesse. A abordagem de Munenori seguiu um ângulo diferente:

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baseado na observação de seu pai e nos ensinamentos de Takuan, ele definiu seu objetivo como “sustentar” ou “dar vida” em um sentido amplo. O Heiho kadensho oferece um meio de estudo para esse objetivo através da prática da espada, a ponta afiada da qual deve aprender a expressar o desabrochar das flores na primavera e o cair das folhas no outono. Heiho kadensho é considerado o texto central de Yagyu Shinkage-ryu, mas não é de maneira alguma a única obra sobre os princípios dessa escola. Munenori também escreveu outros curtos trabalhos sobre o assunto; seu pai, Sekishusai, redigiu um catálogo de técnicas e poesias sobre seu próprio estilo e as artes marciais em geral. Além disso, o filho de Munenori, que muitos consideravam o melhor espadachim da família, escreveu vários livros detalhados sobre sua compreensão dos princípios e do estilo Yagyu. Também existe a obra do monge budista Takuan, Fudochi shinmyoroku, que pode ser considerada o subtexto filosófico de Heiho kadensho, e outro curto trabalho, o Taiaki. Este último talvez tenha sido escrito para um dos contemporâneos de Munenori, Ono no Tadaaki do Itto-ryu, mas Munenori estava familiarizado tanto com a escrita em si quanto com seus princípios por meio de conversas com Takuan. Incluí notas desses outros trabalhos neste texto tanto para esclarecer como para expandir os pensamentos de Munenori. Foram usados no texto original e na maioria das notas o Heiho kadensho, publicado em 1985 por Iwanami Bunko e editado por Watanabe Ichiro. Estou tanto em débito com o Sr. Watanabe quanto agradecido a ele por suas notas de apoio e sua cuidadosa erudição, sem as quais o trabalho de Munenori, que muitas vezes é expresso em difíceis termos chineses e de filosofia budista, seria muito mais difícil de desenvolver. Sou também grato a Kuramochi Tetsuo, editor-executivo sênior da Kodansha International, que me encorajou por meio de projetos de tradução e escrita a respeito de muitas das personalidades anteriormente citadas, e também a Elizabeth Floyd, minha editora e guia

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durante este trabalho em particular. Devo um especial gassho ao meu colega Dave Lowry, escritor e praticante de espada do estilo Yagyu Shinkage-ryu, por suas observações esclarecedoras e sugestões de pesquisa para este projeto; e a Meik e Diane Skoss, por sua ajuda e apoio. Para minha esposa, Emily, tenho um débito de gratidão por suas sugestões no manuscrito e por sua paciência com o meu desaparecimento virtual por culpa da tradução que ocupou o meu tempo por tantos meses. Finalmente, e como sempre, minha profunda gratidão aos meus antigos professores, Hiraga Noburu e Richard McKinnon, para os quais é apropriado parafrasear as palavras de Iemitsu depois da passagem de Munenori, “Se apenas eles estivessem aqui, eu poderia perguntar a eles sobre isto”. Quaisquer e todos os erros são meus. – william scott wilson

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