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DICIONÁRIO DE LINGUÍSTICA


Abreviaturas: abl. – ablativo adj. – adjetivo adv. – advérbio ant. – antônimo aux. – auxiliar cf. – conferir comp. – complemento dat. – dativo ex. – exemplo fr. – francês fr. arc. – francês arcaico gr. – grego ing. – inglês it. – italiano lat. – latim lat. vulg. – latim vulgar lit. – literal NGB – Nomenclatura Gramatical Brasileira part. pass. – particípio passado p. ex. – por exemplo port. – português port. arc. – português arcaico port. mod. – português moderno pret. – pretérito obj. dir. – objeto direto séc. – século sin. – sinônimo v. – ver Obs: Os termos com asterisco posposto indicam que há um verbete neste dicionário.


DICIONÁRIO DE LINGUÍSTICA JEAN DUBOIS Universidade de Paris-X (Nanterre)

MATHÉE GIACOMO Universidade de Paris-III

LOUIS GUESPIN Universidade de Ruão

CHRISTIANE MARCELLESI Universidade de Ruão

JEAN-BAPTISTE MARCELLESI Universidade de Ruão

JEAN-PIERRE MEVEL


Título original: Dictionnaire de Linguistique. Copyright © 1973 Librairie Larousse. 1a edição 1978. 2a edição 2014. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou usada de qualquer forma ou por qualquer meio, eletrônico ou mecânico, inclusive fotocópias, gravações ou sistema de armazenamento em banco de dados, sem permissão por escrito, exceto nos casos de trechos curtos citados em resenhas críticas ou artigos de revistas. A Editora Cultrix não se responsabiliza por eventuais mudanças ocorridas nos endereços convencionais ou eletrônicos citados neste livro. Direção e coordenação geral da tradução: Prof. Dr. Izidoro Blikstein (Universidade de São Paulo). Tradutores: Frederico Pessoa de Barros; Gesuína Domenica Ferretti; Dr. John Robert Schmitz (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo); Dra. Leonor Scliar Cabral (Pontifícia Universidade Católica de Campinas, SP); Maria Elizabeth Leuba Salum; Valter Khedi (Universidade de São Paulo). O grupo de tradutores agradece ao Prof. Dr. Isaac Nicolau Salum (Universidade de São Paulo) a inestimável ajuda na refundição de numerosos verbetes. Diagramação: Pisces Comunicação Revisão: Pisces Comunicação Rafael Varela CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ D542 Dicionário de linguística / Jean Dubois ... [et.al.]. - 2. ed. - São Paulo : Cultrix, 2014. 624 p. : il. ; 23 cm. Tradução de: Dictionnaire de Linguistique ISBN 978-85-316-1279-4 1. Língua portuguesa - Dicionários. 2. Linguística. I. Título. 14-11745

30/04/2014

CDD: 469.5 CDU: 811.134.3(038) 06/05/2014

Direitos de tradução para o Brasil adquiridos com exclusividade pela EDITORA PENSAMENTO-CULTRIX LTDA., que se reserva a propriedade literária desta tradução. Rua Dr. Mário Vicente, 368 – 04270-000 – São Paulo, SP Tel. (11) 2066-9000 – Fax (11) 2066-9008 e-mail: atendimento@editoracultrix.com.br www.editoracultrix.com.br Foi feito o depósito legal.


PREFÁCIO

Para os lexicógrafos, um dicionário de linguística apresenta três grandes problemas: o primeiro, ligado à natureza do dicionário de uma ciência e de uma técnica, à extensão da nomenclatura levantada, ao tipo de definição, à forma dos exemplos e das ilustrações; o segundo relaciona-se com o campo a explorar, definido por seus limites com as outras ciências, no caso, especialmente, a psicologia, a sociologia, a história, a fisiologia, a lógica e as matemáticas; o último problema liga-se à oportunidade da realização, isto é, do juízo que se irá fazer sobre a oportunidade em que a difusão de uma ciência torna seu conhecimento e sua prática necessários a um grande número de pessoas e em que, por um movimento estreitamente ligado com essa difusão, opera-se na terminologia certa forma de estabilização e certos conceito de base se tornam comuns ao conjunto das escolas e das tendências linguísticas, que confirmam com sua existência a evolução da linguística como ciência. O que seria um dicionário científico e técnico? No que nos concerne, ele deve poder responder às perguntas dos leitores que, nos textos linguísticos, encontram termos tomados numa acepção particular ou que não pertencem ao léxico da língua comum; o que os leitores pedem é uma espécie de tradução dos termos que ignoram, com a ajuda das palavras e dos conceitos mais correntes das gramáticas de ensino. Mas essa tradução, essa forma de glossário que somos levados a dar a um dicionário científico e técnico traz à baila, por sua vez, diversos problemas: a definição do termo ignorado utiliza palavras que devem ser conhecidas do leitor; mas em que nível se situaria esse leitor ideal? Tomemos alguns exemplos: se o leitor procura neste dicionário de linguística os termos correntes da gramática tradicional: antecedente, relativo, advérbio, adjetivo, demonstrativo, empréstimo, etc., ele espera encontrar uma explicação que o remeta a essa gramática, mas solicita igualmente conhecimentos a respeito dos limites dessa definição e das críticas que os linguistas possam ter-lhe feito; se o leitor procura termos como bemolizado, pseudorrelativização, tmese, etc., as explicações do lexicógrafo devem levar em conta um suposto grau de tecnicidade diferente nos leitores; certas palavras pertencem a escolas linguísticas bem precisas (estruturalismo, distribucionalismo, gramática gerativa, glossemática, etc.) ou a um domínio preciso (fonética, pseudolinguística, neurolinguística, gramática comparada, etc.), que deverão ser definidos com os termos e as noções que pertencem a essa escola e a esse domínio. Nos dicionários técnicos e científicos, existem diferentes níveis de tecnicidade, ao mesmo tempo pelas entradas, pelas definições e pelos comentários que se seguem a tais definições. Um dicionário como tal exige, com efeito, que se acrescentem a uma definição muitas vezes abstrata exemplos que a expliquem. Tais definições e exemplos formam um desenvolvimento enciclopédico, um comentário do conceito a que a entrada remete. Ao contrário de um dicionário de língua, que faz uma descrição dos empregos de uma palavra no quadro da frase e dá uma definição de suas diversas significações, o dicionário científico e técnico descreve a “coisa”, o conceito que está por trás da palavra. O exemplo fornece, de certo modo, uma segunda definição, que passa pelo conhecimento gramatical tradicional. Esse 5


é o motivo pelo qual tal dicionário toma a forma de uma enciclopédia: depois da entrada, definição e comentários se misturam para fornecer um enunciado completo sobre a noção coberta pela palavra. O dicionário enciclopédico está sujeito à regra da ordem alfabética, a mais cômoda para a pesquisa; ele recorta, segmenta, parcela os enunciados; mas é preciso, ao mesmo tempo, que o leitor possa recolocar os desenvolvimentos que lê num campo mais vasto, senão numa teoria. É preciso também que uma noção como qualificativo possa remeter ao conceito que ela implica, adjetivo, e que, por sua vez, adjetivo remeta a parte do discurso ou classe gramatical, tanto quanto a determinativo, pois os adjetivos não qualificativos são determinativos. Além do mais, a definição do adjetivo é diferente conforme nos colocamos numa perspectiva estruturalista, gerativista ou tradicional. Existe, portanto, um enunciado total, que o leitor deve poder reconstruir com o jogo das remissões. Isso poderá ser conseguido de duas maneiras: de um lado, há verbetes longos, como signo, gramática gerativa, redundância, transformação, sintagma, relações paradigmáticas, etc. Estes formam, de certo modo, as noções de base, os conceitos-chave, que permitem o acesso aos termos mais específicos (os asteriscos assinalam os desenvolvimentos longos feitos às palavras assim notadas); inversamente, remontaremos a esses verbetes de síntese a partir das palavras particulares por um jogo igual de asteriscos e de remissões: podemos remontar de adjetivo a determinativo ou a classe gramatical. Nossa pretensão foi a de fazer do Dicionário de Linguística não apenas uma obra de consulta, com o objetivo de preencher lacunas pontuais, mas também uma obra de formação linguística, que ajude a constituir um conjunto de enunciados explicativos. Desse modo, esperamos fazer do dicionário científico e técnico uma espécie de “manual livre”: “manual” porque poderá ser reconstituído num discurso ordenado, e “livre” porque será formado pelo próprio leitor, em seu nível e de acordo com o tipo de perguntas que ele faz a si próprio. É preciso ainda lembrar que o número de perguntas que os leitores podem fazer a si mesmos a propósito de textos linguísticos é considerável; ora, todo dicionário tem seus limites. Estes se encontram em duas direções: na extensão do domínio da linguística e na sutileza das análises. A linguística está em contato com as outras ciências humanas, que são a psicologia e a sociologia. As zonas fronteiriças são determinadas pelas disciplinas dos confins, das margens, fronteiras que definiriam as relações entre a linguagem e os outros comportamentos, individuais e sociais: a psicolinguística e a sociolinguística. A linguagem é também uma atividade suportada por um organismo humano; essa atividade fisiológica se expressa em dois níveis: o periférico, o dos órgãos da fala (fonética), e o central, dos comandos motores e sensoriais, o nível do córtex (a neurolinguística). A linguística toca ainda a comunicação animal, porque existe ao mesmo tempo continuidade e descontinuidade na escala filogenética. Os confins são definidos por um conjunto de ciências que tomam de empréstimo suas hipóteses e métodos da fisiologia ou da biologia (fonética acústica e fisiologia da audição). Os linguistas, sob a influência dos técnicos da comunicação, também analisaram a língua como um código; inspirando-se na matemática e na lógica, eles trataram os textos como objetos suscetíveis de serem formalizados. A terminologia e os conceitos das matemáticas, da teoria da informação e da lógica permearam amplamente a linguística, mas só depois de se terem adaptado aos problemas específicos das línguas naturais. Ciência histórica, ainda, a linguística vê a língua como uma imagem da história da comunidade sociocultural, mas a 6


língua participa também da história do povo, porque modela uma imagem do mundo e é uma instituição social. A linguística está próxima da história, porque trata dos mesmos textos com a mesma intenção de desvendar-lhes a estrutura profunda. Em troca, a linguística contribuiu grandemente para as ciências humanas; seus processos de análise foram usados na antropologia, na história e na literatura; apelou-se para suas hipóteses na psicolinguística e na neurolinguística. Neste dicionário também serão encontradas palavras que pertencem à psicologia, à sociologia, à fisiologia, etc. Elas são tratadas com menos amplitude que as que pertencem propriamente à linguística, pois espera-se que os leitores façam uso de outros dicionários – de psicologia, de sociologia, de matemática, etc. Este dicionário de linguística não visa a ser um dicionário de todas as ciências do homem. O refinamento da análise também limita a extensão do léxico estudado. Cada escola linguística desenvolveu, com suas teorias e métodos próprios, um vocabulário específico, adaptado às necessidades da teoria, ou até mesmo construído por inteiro: no desenvolvimento de uma ciência ou de uma técnica há momentos neológicos. Ora, este dicionário não visa a ser a expressão exclusiva de uma escola, de uma tendência, de uma pessoa e, ainda menos, de uma simples opinião; ele teria de acolher todas as grandes correntes atuais, na medida em que qualquer leitor pode ser levado a se interrogar sobre o estruturalismo distribucional ou funcionalista, sobre a gramática gerativa ou a glossemática, as gramáticas formais, etc. Mas, ao mesmo tempo, seria impossível seguir cada escola em suas sutilezas de análise e em seus pormenores terminológicos. Existe um limiar, que pode ser determinado empiricamente, a partir do qual o leitor informado só poderá resolver suas questões pelo próprio texto que ele está prestes a ler. Optamos, portanto, por uma escolha arbitrária, detendo-nos num grau de tecnicidade considerado apropriado ao ensino superior, mas aquém da pesquisa especializada. Mas por que fazer agora um dicionário de linguística? Se o momento pareceu oportuno, isso se deve à convergência de diversos fatores relacionados com o desenvolvimento da própria linguística. Quando uma ciência pertence ao domínio exclusivo de um pequeno número de especialistas, ela tende a desenvolver terminologias abundantes e disparatadas; a necessidade, para cada escola, senão para cada linguista, de afirmar uma originalidade muitas vezes menor leva a propor novos termos que só se distinguem dos antigos ou dos das outras escolas por sua forma e não por seu conteúdo. Essa proliferação terminológica é inerente aos primeiros desenvolvimentos de uma ciência ou de uma técnica. Mas quando essa ciência começa a escapar aos únicos especialistas que pretendiam assegurar para si a sua posse exclusiva, produz-se uma decantação terminológica que não poupa nem mesmo as nomenclaturas mais corretas. A vulgarização é o grande revelador de uma deflação terminológica. Um segundo fator, não menos importante, intervém quando, na história de uma ciência, desenvolvem-se novas teorias que põem radicalmente em questão as que as haviam precedido: o estruturalismo identificara-se muito facilmente com a verdade e a ciência ideal, mas foi contestado pela gramática gerativa que, por sua vez, foi acolhida depressa demais como algo que transcende o homem e sua história; objeto de críticas internas, a teoria gerativa também se dissociou em várias novas hipóteses. Os linguistas tomaram então consciência das implicações filosóficas de suas teorias e da relação que elas mantêm com o desenvolvimento das sociedades em que vivem; eles reconheceram a dimensão histórica e social de sua atividade científica. É por isso que a linguística não pode ser dissociada do lugar reservado aos problemas 7


da linguagem e da comunicação nas sociedades desenvolvidas. O materialismo mecanicista dos neogramáticos, o positivismo dos distribucionalistas e dos funcionalistas, o ineísmo dos gerativistas participam de ideologias que explicam a si próprias na história das sociedades que as produzem. No instante em que os linguistas tomam consciência dos pressupostos filosóficos que subtendem o desenvolvimento das ciências humanas, eles fixam o momento em que a metalíngua de uma ciência é suscetível de análise: o dicionário científico e técnico torna-se então possível, e até mesmo indispensável, para se compreender o lugar da linguística no mundo atual. Algumas palavras, enfim, sobre a informação linguística que está na base deste dicionário: a documentação, começada há dez anos, mediante um despojamento sistemático das obras escritas e traduzidas em francês, e um recenseamento dos termos mais importantes usados nos textos estrangeiros, foi completada pelo uso sistemático dos índices dos principais manuais usados na França; essa documentação foi comparada com a dos léxicos ou dos dicionários anteriores a este. A bibliografia que acompanha o dicionário repertoria o conjunto das obras de linguística que pareceram úteis aos leitores informados, com exclusão de artigos publicados em revistas. Desejamos que este Dicionário de Linguística seja útil a todos aqueles para os quais foi feito: estudantes universitários, professores e todos aqueles para quem as ciências humanas representam uma das características fundamentais do progresso científico. Os autores. Agradecemos a B. Gardin, da Universidade de Ruão, pela colaboração que nos prestou redigindo os verbetes sobre análise distribucional, linguística, estilo e estilística.

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A abdução Em fonética, dá-se o nome de abdução ao movimento pelo qual as cordas vocais se afastam umas da outras, causando a abertura da glote e a interrupção da atitude vocal. Com efeito, para a fonação, as cordas vocais se unem ligeiramente em toda a sua extensão num movimento de adução*. O ar pulmonar proveniente da expiração só pode escoar-se através da laringe por pequenos sopros sucessivos, graças à vibração das cordas vocais, provocando assim a onda sonora laríngea, chamada voz*, indispensável à produção de sons da linguagem. Produz-se a abdução no momento do abandono da atitude vocal por ocasião de uma pausa na cadeia falada, ou pela produção de consoantes surdas chamadas aspiradas, como o [p], o [t], e o [k] do inglês, cuja realização ocorre com a abertura da glote. A abdução é produzida pelo afastamento das cartilagens aritenoides, às quais estão fixadas as extremidades posteriores das cordas vocais, por trás da laringe. aberto 1. Classe aberta (v. fechado). 2. Vogal aberta é aquela que, em oposição à vogal fechada, é pronunciada com uma posição baixa da língua, de forma que o canal bucal fica aberto. Há duas posições de abertura vocálica: uma em que a língua fica muito baixa, como para [a]; outra em que esta fica um pouco menos (como para as vogais semiabertas [ɛ] e [ɔ]). Do ponto de vista acústico, as vogais abertas são compactas.

abessivo Chama-se abessivo, em línguas da família finoúgrica, o caso* da palavra que exprime uma situação externa. Estaria no abessivo a palavra rua, numa frase como A casa está fora da rua. ablativo 1. Designa-se pelo nome de ablativo o caso* que exprime a separação e, por extensão, a função local de afastamento de um lugar -p. ex.: O barco se afasta da margem. Em várias línguas, dá-se o nome de ablativo a um caso da declinação que assume a função de vários outros casos; assim, o ablativo latino é a um só tempo um ablativo, um instrumental, um comitativo, um agentivo e, muitas vezes, um locativo (v. agentivo, comitativo, instrumental, locativo). 2. Ablativo absoluto. Em latim, o ablativo absoluto é uma oração que desempenha o papel de um circunstante independente, cujo sujeito está no ablativo e o predicado, sendo verbal, é um particípio no ablativo (me nolente, “contra a minha vontade”, lit. “não desejando eu”), e, sendo nominal, um substantivo no ablativo (Caesare duce, “sob o comando de César”, lit. “sendo César o comandante”) (v. caso). abrandamento (fr. adoucissement) Chama-se abrandamento, enfraquecimento ou lenição o fenômeno de evolução histórica ou de alternância sincrônica pelo qual, em certas línguas e numa dada posição – geralmente na intervocálica – as consoantes são realizadas com um grau menor de fechamento sob a influência das vogais: as fricativas surdas são realizadas como sonoras, as oclusivas surdas como oclusivas 9


ou fricativas sonoras. As oclusivas sonoras como [b], [d], [g] podem passar a [β], [δ], [γ] e, continuando o abrandamento, chegar ao desaparecimento ou síncope. A vocalização de uma consoante é também uma espécie de abrandamento. No céltico, o abrandamento afeta o conjunto do sistema consonântico. Nas línguas românicas ocidentais, também se observa esse fenômeno em grande extensão: lat. ripa- > fr. rive, port. riba; lat. rota- > fr. roue, port. roda; lat. amica> fr. amie, port. amiga; lat. faba- > fr. fêve, port. fava; lat. vulg. vedere > fr. voir, port. arc. veer, port. mod. ver; lat. legale- > fr. loyal, port. leal; lat. rege- > fr. roi, port. rei; lat. rosa- (fricativa dental surda) > fr. rose, port. rosa (fricativa dental sonora). Ant.: restabelecimento. abreviação Ação ou resultado da representação de uma série de unidades ou de uma só unidade por parte dela(s). Podem distinguirse vários casos. (1) Abreviação de sintagma. Neste caso, certas determinações são omitidas em alguns contextos: as designações Faculdade ou Filosofia ou Faculdade de Filosofia para Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras são abreviaturas devidas ao contexto social ou à economia da fala. Encurtam-se, desse modo, as designações daquilo a que se refere frequentemente. À medida que o discurso avança e os fatos são precisados, há elementos de designações que podem ser omitidos. P. ex., se eu já disse que o jardineiro do clube veio fazer o meu jardim e já contei o que ele fez em minha casa, ao voltar a referirme a ele, direi simplesmente: o jardineiro. (2) Truncamento de sintagma. De um sintagma de duas ou mais palavras, tomam-se elementos de cada uma e forma-se uma palavra ou sintagma menor. P. ex., de automobile omnibus formou-se o 10

fr. autobus, o port. auto-ônibus (e depois ônibus) e o ingl. bus. (3) Abreviação de sintagma por sigla*. Nomes de organizações, instituições, movimentos, etc., quando longos, abreviam-se por siglas formadas das iniciais dos termos componentes: FFLCH por Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, USP por Universidade de São Paulo, Fapesp por Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo. Há siglas já de fama mundial como ONU, Unesco, etc. Em geral, a abreviatura por siglas é feita por maiúsculas, separadas ou não por ponto. A tendência geral é suprimirem-se os pontos, mesmo porque muitas das abreviaturas se transformam em lexemas, comportando derivações: udenismo, petebista, arenista, emedebista, etc. A tendência ao uso das siglas no mundo contemporâneo é tal que existem até mesmo dicionários de siglas. Por outro lado, organizações que teriam nomes fraseológicos já surgem designadas por um termo único, que é uma espécie de truncamento de sintagma que não chegou a existir, como Petrobras e Eletrobras. Outras siglas formam-se com sílabas e não com iniciais, como Embratel por Empresa Brasileira de Telecomunicações, Embratur por Empresa Brasileira de Turismo. (4) Abreviação de palavra. Pode ser também uma forma de truncamento, o que é frequente na língua popular: p. ex., as formas foto, metrô, auto por fotografia, metropolitano, automóvel. O caso de cine é uma dupla abreviação: o fr. cinématographe reduziu-se a cinema e este a cine. A abreviação normal de uma palavra na tradição portuguesa faz-se tomando a primeira ou as duas primeiras sílabas e o início da seguinte: mat., filol. e lit. por matemática, filologia e literatura. Frequentemente também são utilizados o início e o fim da palavra: am. o, at.o e obr. o por amigo, atento, obrigado, Exa por Excelên-


cia, etc. Outra variante é o truncamento pelo uso do final da palavra, como é o caso dos hipocorísticos: Zé por José, Tônio por Antônio, Tião por Sebastião. Casos há em que a abreviatura se reduz a uma letra minúscula, mas com o perigo de ambiguidade, em geral desfeito pelo contexto: f. por feminino e forma, m. por masculino, metro e mês e n. por nome e neutro. Em português, distingue-se abreviação de abreviatura, aquela é o processo, esta, o resultado. Assim, não se pode dizer que p. é abreviação, mas sim abreviatura de página. abreviatura (v. abreviação) abrimento Dá-se o nome de abrimento à abertura do canal bucal durante a emissão de um fonema. Para certos linguistas, as particularidades especificamente vocálicas estão em relação única com os diferentes graus de abrimento e “o grau de abrimento é uma marca especificamente vocálica” (Troubetskoy, 1949 p. 231). Para outros linguistas, como F. de Saussure, todos os sons podem ser classificados segundo seu grau de abrimento, entre o abrimento mínimo, que corresponde às consoantes oclusivas, e o abrimento máximo, que corresponde às consoantes mais abertas. [O uso de abrimento para traduzir o fr. aperture ficou consagrado em port. graças a Mattoso Câmara.] absentia (v. in absentia) absolutamente Diz-se que um verbo é empregado absolutamente quando, sendo transitivo, ele vem sem objeto. P. ex.: Pedro escreve no quadro e depois lê em voz alta, mas seus discípulos não entendem.

absoluto 1. Ablativo absoluto. Ablativo “solto”, isto é, sem relação com termo algum da oração subordinante (v. ablativo). 2. Diz-se que um adjetivo é absoluto ou que tem sentido absoluto quando, no sentido próprio, ele não é, em princípio, suscetível de graus de comparação. Assim, geográfico não comporta comparativo nem superlativo. Chama-se também absoluto o superlativo não limitado por um complemento de natureza comparativa. P. ex., trabalho muito grande ou grandíssimo (superlativo absoluto); o trabalho maior de sua vida (= de todos os de sua vida) (superlativo relativo) (v. relativo, superlativo). 3. Chamam-se tempos absolutos as formas verbais que exprimem o tempo em relação ao momento do enunciado (presente, imperfeito, futuro, etc.), por oposição a tempos relativos, que exprimem o aspecto perfectivo em relação aos tempos absolutos. Assim, o futuro do pretérito no português e no francês e o “passado anterior” no francês exprimem a ação realizada em relação a um futuro ou passado expresso no enunciado. abstrato 1. Substantivo abstrato. sin.: substantivo não concreto (v. concreto), na gramática tradicional. 2. Em gramática gerativa, diz-se que um verbo é abstrato quando ele é teoricamente implicado pelas transformações de nominalização ou adjetivação, mas não recebe uma realização morfofonológica. Assim, o fr. ingénieur [engenheiro] implica uma nominalização a partir de um suposto verbo *ingéni-, como ajusteur [ajustador] é derivado de ajuster. Diz-se também que um substantivo é abstrato quando for necessário supor-se um radical não realizado para explicar uma palavra derivada; assim, o fr. marmaille, coletivo que indica “um 11


grupo de crianças”, modelado em valetaille [grupo de criados], implica um substantivo abstrato de um radical marm-. 3. Em gramática gerativa, por oposição às frases efetivamente pronunciadas pelos falantes de uma língua (ou frases concretas), chama-se frase abstrata aquela cuja estrutura profunda é formada pelos símbolos mais gerais (SN [sintagma nominal], SV [sintagma verbal], etc.). O grau de abstração da estrutura profunda é tanto maior quanto maior for a distância entre a forma da frase realizada e a forma profunda subjacente. P. ex., uma gramática que analisa o verbo transitivo como proveniente de duas orações das quais a primeira é factitiva (João lê um livro provém de [João + faz] + [que + um livro + é lido por João]) tem caráter mais profundo que a gramática que faz corresponderem nesse caso a estrutura superficial e a estrutura profunda (João lê um livro provém de João + lê um livro). [Substituímos aqui os símbolos por palavras da língua.]

ação 1. Verbo de ação (v. ativo, 1). 2. Ação-resposta (v. resposta). acavalamento Por acavalamento traduzimos o fr. chevauchement e o ing. overlapping, que indicam a interseção de dois conjuntos: azul é substantivo e adjetivo; nesse termo as duas classes, substantivo e adjetivo, acavalam-se. Câmara propõe debordamento para traduzir overlapping e cavalgamento para traduzir o fr. enjambement, termo de métrica que indica o acavalamento de um verso sobre o outro por uma sequência rítmica. Para overlapping também se tem proposto superposição. aceitabilidade É aceitável o enunciado que é a um só tempo gramatical, isto é, gerado pelas regras da gramática e facilmente compreendido ou naturalmente emitido pelos falantes (v. gramaticalidade). A aceitabilidade é um conceito ligado ao modelo de performance*; depende, portanto, não apenas da conformidade às regras de gramática (toda frase agramatical é inaceitável), mas também das regras definidas pela situação (contexto) ou pelas propriedades psicológicas do sujeito. Há graus de aceitabilidade; assim, uma frase pode ser inaceitável, mas essa inaceitabilidade depende de se tratar de língua escrita ou falada, e do ponto de vista do emissor (ou destinador) ou do receptor (ou destinatário).

abuso Em lexicografia, as notações por abuso ou abusivamente são marcas de rejeição que assinalam os sentidos ou as expressões rejeitadas pelos puristas: extensões do emprego de uma palavra fora de seu campo de aplicação original, empréstimos tomados a outras línguas, ou transformações diversas que alteram o sentido “primeiro”. Assim, em francês, o emprego de bien achalandée (em boutique bien achalandée), com o sentido de “loja de grande freguesia”, é aceito, mas com o sentido de “bem provida de mercadorias” é considerado abusivo. Em português, o aceito (fr. reçu) emprego de sofisticado com o sentido de Aceita é a palavra considerada pertencen“requintado ao extremo, aprimorado” tam- te à norma-padrão do português chamado “culto”. bém pode ser considerado abusivo. acento 1. Acento fonético. Em linguística, o acento é um processo que permite valorizar uma unidade linguística superior ao fonema (sílaba, morfema, palavra, sintagma, frase), para 12


distingui-la das outras unidades linguísticas de mesmo nível. O acento caracteriza sempre uma combinação de fonemas, diferenciando-a de uma ou de várias sequências de fonemas geralmente idênticas; classifica-se, portanto, o acento entre os prosodemas*, ou elementos suprassegmentais, do mesmo modo que a quantidade e a pausa. A característica acentual pode efetuar-se por meio de uma força expiratória maior: trata-se então do acento de energia (ou acento de intensidade, acento dinâmico, acento expiratório, etc.). Pode efetuar-se também por uma variação da altura melódica devida a um aumento ou diminuição da frequência de vibração das cordas vocais: tal tipo é denominado acento de entonação ou tom (ou acento musical, acento melódico, etc.). Na verdade, tanto elementos musicais quanto quantitativos intervêm na manifestação do acento de energia. O acento de energia tem função distintiva nas línguas em que ele é móvel, como em inglês, em russo e, com exceção do francês, em todas as línguas românicas. O inglês opõe ímport, “importação”, a impórt, “importar”, pelo simples fato de que a sílaba inicial é pronunciada com mais força do que a segunda na primeira palavra, e com menos força na segunda. O italiano, igualmente, apresenta numerosos pares mínimos que repousam unicamente na diferença de lugar do acento: âncora, “âncora”, ancora, “ainda”; débito, “dívida”, debito, “devido”; príncipi, “príncipes”, princípi, “inícios”. É o caso do português, também, com dúvida/duvida, débito/debito, etc. Nas línguas em que sua posição não é livre, o acento de energia tem função demarcativa: ou indica o fim da palavra, afetando, como em francês, sempre a última sílaba, ou o começo da palavra, como em tcheco, em que afeta sempre a primeira sílaba. O acento de energia exerce também uma função culminativa, como pico de uma unidade fonética que pode ser a palavra ou o grupo de palavras: em francês, a sequência un enfant malade, “um menino doente”, constitui um único grupo fonético cujo acento cai na última sílaba -lade, enquanto a sequência un enfant jouait, “um menino brincava”, apresenta dois acentos, um em -fant, outro em -ait, correspondentes a duas unidades fonéticas. A importância do acento de energia nas línguas varia segundo a força com que se pronuncia a sílaba acentuada com relação às sílabas não acentuadas: em francês, a diferença é muito fraca, pois as sílabas não acentuadas conservam toda a sua precisão articulatória, mas nas línguas germânicas, as sílabas acentuadas são muito fortes e as não acentuadas, fracas. Tanto o tom quanto o acento de energia podem ter função distintiva, demarcativa ou culminativa. Em um grande número de línguas, sobretudo nas da África e do Extremo Oriente, mas também da Europa setentrional, as variações de tom permitem distinguir uma palavra da outra. Em escandinavo, há dois tipos de acentos – agudo e grave – que só funcionam para as palavras que contêm, pelo menos, duas sílabas. Na verdade, o acento grave corresponde, nesse caso, à ausência de acento agudo. Uma das sílabas é pronunciada num tom mais agudo que as outras. É o lugar do acento que tem um valor distintivo; este é chamado acento de sílaba. Ex.: kómma1 = “vírgula”; kommá 2 = “vir”. Em chinês (dialeto de Pequim), existem quatro tons, isto é, quatro níveis de altura em que as palavras são pronunciadas (ascendente, descendente, interrompido 13


e unido), e cuja utilização permite distinguir signos que têm geralmente um significante idêntico. Ex.: chu1 = “porco”, chu2 = “bambu”, chu3 = “senhor”, chu4 = “habitação”. Este é o acento de palavra. Na maioria das línguas europeias, a variação de tom é sobretudo importante para a fonética da frase. O acento de entonação torna-se então um acento de frase, que possibilita a expressão de diferentes estados psíquicos e o reforço da mensagem transmitida pelas unidades segmentais. Daí falar-se em frase dita com um tom queixoso, tom de surpresa, tom irônico, etc. Em algumas línguas, a entonação é o único meio de veicular certas informações, como a natureza interrogativa do enunciado: em italiano, a interrogação è venuto?, “veio?”, diferencia-se da afirmação è venuto, “veio”, unicamente pela elevação da entonação na última sílaba. O francês, que utiliza unicamente a entonação na língua falada, dispõe, entretanto, de outros meios, como a locução est-ce que?, “será que... ?” ou a inversão, p. ex., pleut-il?, “chove?”. 2. Acento gráfico. O acento gráfico pode ser utilizado como sinal diacrítico ou como marca de posição da sílaba tônica. Há sistemas ortográficos que o dispensam totalmente, p. ex., o latim, o inglês, o alemão, etc. O grego usa o acento (agudo, grave e circunflexo) praticamente em todas as palavras, com exceção, não total, de enclíticas e proclíticas. Como sinal diacrítico, o acento gráfico é empregado junto às letras para indicar certos fonemas; assim, em francês: é assinala [e] em été, “verão” ou “sido” (part. pass.); è assinala [ε] em relève, “depende”; â assinala [α] em mâle, “macho”. O acento é também empregado para distinguir homônimos (em francês, où, “onde”, e ou, “ou”) ou para indicar a presença de um fonema desaparecido (âne, “asno”, do fr. arc. asne). Em português, o acento gráfico é usado menos como sinal diacrítico do que como marca de posição da tônica; mas cabe notar que, mesmo aí, o agudo é usado em vogais abertas e sobre i e u, e o circunflexo, sobre e e o fechados e, na ortografia brasileira, sobre a, e e o nasais (v. também agudo, circunflexo, grave). acentuação Em fonética, a acentuação consiste em pôr em destaque uma ou várias sílabas numa palavra ou grupo de palavras, pronunciando-as com uma característica fônica que as distingue das outras palavras: maior força expiratória (acento* de energia) ou timbre mais agudo (tom*). Em ortografia, a acentuação gráfica consiste no uso de sinais diacríticos para indicar timbre e posição da sílaba tônica. acentuado Diz-se que é acentuada a sílaba sobre a qual incide a tônica, seja ela marcada ou não com acento gráfico. 14

acentual O termo acentual qualifica tudo o que – unidade ou relação linguística – se define pelo papel do acento. Unidade acentual é um morfema ou uma série de morfemas constituintes de uma frase, com um único acento principal: a unidade acentual corresponde à “palavra” (palavra-raiz, palavra composta, palavra derivada) ou ao sintagma de base (determinante + nome). Oposição acentual é a que se estabelece entre signos linguísticos (morfema, palavra ou sintagma) que só se diferenciam: 1) pela posição do acento, como prática/pratica, contem/contém e contaram/contarão, em que


a diferença ortográfica não é pertinente; 2) pelo grau de altura do acento tonal, como em chinês, nas palavras chu1, “porco”; chu2, “bambu”; chu3, “senhor”; chu4, “habitação”. Contraste acentual é o que se estabelece entre duas sequências sucessivas da cadeia falada, que se diferenciam pela presença do acento sobre uma e não sobre a outra, como no sintagma francês un enfant pauvre, “uma criança pobre”, entre as sílabas un enfant e a sílaba pauvre ([povr] é um monossílabo), ou pela variação de altura de uma sílaba para outra nas línguas que apresentam um tom de sílaba. acepção Em lexicografia, diz-se que uma palavra tem várias acepções, quando apresenta vários sentidos diferentes segundo os contextos. Assim, a palavra carta tem acepções diversas em carta de baralho e carta geográfica, etc. Chama-se polissêmica (v. polissemia) a palavra que tem várias acepções. acessório Acessórias são as palavras não acentuadas desprovidas de autonomia sintática (artigos, preposições). São também denominadas palavras vazias ou instrumentos gramaticais. acidental Propriedades acidentais são as propriedades de qualidade, quantidade, lugar, estado, etc., que podem ser atribuídas às pessoas ou às coisas que são as “substâncias”. As propriedades acidentais ou acidentes são os predicados das substâncias em orações bem formadas do ponto de vista lógico. Em O livro é vermelho, livro é a substância e vermelho, a propriedade acidental; em Jorge está aqui, aqui é a propriedade acidental atribuída a Jorge. acidente Denomina-se acidente cada um dos modos de uma coisa, por oposição à substância e

aos atributos que constituem sua essência. A oposição acidente/substância fundamenta a distinção adjetivo ou verbo/substantivo na gramática tradicional. Em A criança corre, corre é um acidente e criança uma substância; em O tempo está chuvoso, chuvoso é um modo de tempo. acomodação (v. assimilação) acrofonia Dá-se o nome de acrofonia ao princípio de transcrição segundo o qual a constituição de uma escrita silábica (que nota uma sílaba por um único sinal gráfico) foi feita a partir da escrita ideográfica (na qual o sinal gráfico representa uma palavra), atribuindo-se ao ideograma o valor fônico da primeira sílaba da palavra por ele representada. aculturação Designam-se pelo nome de aculturação todos os fenômenos socioculturais ligados à aquisição, manutenção ou modificação de cultura*, principalmente a adaptação de um indivíduo ou grupo social a um novo contexto sociocultural ou sociolinguístico (fala-se assim da aculturação dos emigrados recentes). acusativo Dá-se o nome de acusativo, em línguas indo-europeias que conservam a flexão casual, ao caso* que exprime a função gramatical de complemento no sintagma verbal do tipo: verbo ativo + sintagma nominal (obj. dir.). P. ex.: lat. Claudius claudiam amat. Em grego, latim, etc., o acusativo pode assumir funções gramaticais ou locais traduzidas em outras línguas pelo alativo*, ilativo*, etc. Do mesmo modo, denominou-se acusativo de objeto interno ou acusativo cognato o acusativo de frases como: gr. polemein polemon, “combater 15


um combate”, lat. mirum somnium somniare, “sonhar um sonho lindo” (as traduções dos exemplos ilustram o fato em

português, sem declinação); esse objeto, de um verbo normalmente intransitivo, tem a mesma raiz do verbo (v. caso).

acústica 1. A acústica é a parte da física que estuda a estrutura dos sons e o modo pelo qual o ouvido reage a eles. 2. A fonética acústica estuda a natureza física da mensagem vocal, independentemente de suas condições de produção e de recepção. Os progressos da fonética articulatória* e da experimentação fonética mostraram que as articulações são muito menos estáveis do que se pensava antes. Assim, um mesmo efeito acústico pode ser obtido de diferentes maneiras por processos de compensação: o [ɸ] do fr. peu, [pɸ], “pouco”, pode ser obtido a partir de [e], seja por uma contração da língua, seja por um arredondamento dos lábios. Os parâmetros acústicos que definem um som podem ser: a altura, que se deve à frequência da vibração que o produz; a intensidade, devida à amplitude e à frequência; e o timbre, devido à audibilidade dos tons parciais ou harmônicos. O som laríngeo, quando provocado por uma vibração composta, é complexo, com um tom fundamental correspondente à vibração do conjunto e harmônicos correspondentes às vibrações parciais. Desempenhando o papel de um filtro acústico, cada uma das cavidades de ressonância reforça os tons parciais cuja frequência coincide com a sua. Se são reforçados os harmônicos altos, obtém-se um som de timbre claro; se reforçados o fundamental ou os harmônicos baixos, o tom torna-se grave. As frequências reforçadas constituem os formantes que caracterizam o timbre de cada som. Os métodos da moderna eletroacústica permitem analisar qualquer som linguístico e apresentar o resultado da análise sob a forma de um espectro que mostra a estrutura acústica do som (parciais, frequência, intensidade). Enriquecem os resultados que poderiam ser obtidos previamente por um ouvido muito sensível ou pela análise matemática da curva de vibração. As consoantes oclusivas caracterizam-se pela ausência de uma estrutura de formantes nitidamente definida. As vogais são caracterizadas por dois formantes que, juntos, são responsáveis pelo timbre particular de cada tipo vocálico. Esses dois formantes correspondem aos principais ressoadores do aparelho fonador: a faringe e a boca. Outros formantes podem intervir na determinação das qualidades secundárias das vogais, como a nasalidade. Se os dois formantes principais se encontram no meio do espectro, como no caso de [a], [k], [g], ou, ao contrário, nas duas extremidades, nitidamente separados um do outro, como em [i] e [u], pode-se falar de um tipo de som compacto e difuso. Se os formantes estão situados na zona de alta frequência do espectro, tem-se um som agudo como [i], [y] (opondo-se a [u]) e [t], [d] (opondo-se a [p], [b]). É possível, então, conforme a estrutura do espectro acústico, realizar uma classificação dos sons da linguagem que corresponda à classificação articulatória. Uma primeira tentativa foi feita por Jakobson, Fant e Halle (1952), em função do princípio do binarismo*. Para esses linguistas e foneticistas, os sons da linguagem opõem-se entre si pela presença ou ausência de um traço fonético, que pode ser 16


formulado em termos articulatórios, genéticos* ou acústicos. Haveria, assim, doze oposições acústicas nas quais cada língua opera uma escolha fonológica: vocálico/não vocálico, consonântico/não consonântico, compacto/difuso, contínuo/descontínuo, estridente/mate (ingl. mellow, fr. mat; também port. doce, segundo Mattoso Câmara [apud R. Jakobson, 1967, p. 125], brusco/fluente, sonoro/surdo, nasal/oral, tenso/frouxo, grave/agudo, incisivo/raso, rebaixado/sustentado (Mattoso Câmara [ibid., p. 126] prefere estes termos a bemolizado/não bemolizado, para traduzir o ingl. sharp/plain). A análise acústica das consoantes e das vogais pode contribuir para o esclarecimento da influência que umas exercem sobre outras, o que abre caminho para novas teorias sobre a sílaba*, para novas interpretações dos fenômenos de interação, tais como a metafonia, da mesma forma que fenômenos de evolução diacrônica. A fonética acústica propõe-se também à síntese da linguagem, que permite verificar, pela audição, os resultados obtidos pela análise e assegurar-se de que nenhum aspecto fundamental da composição acústica do som seja deixado de lado. A síntese da linguagem pode também permitir aos deficientes visuais o acesso aos textos escritos, graças a certas máquinas que transformam o texto escrito em fala sintética, podendo então servir como máquinas de leitura1. adequação Quando se distinguem as duas formas sob as quais os enunciados de uma língua nos são oferecidos – a forma escrita e a forma falada – propõe-se o problema da adequação da primeira à segunda: este termo designa as relações que a língua escrita mantém com a falada, que ela representa. Essas relações são caracterizadas pelo fato de que o escrito é a representação mais ou menos exata dos enunciados falados da língua. Diz-se, nesse sentido, que a adequação do alfabeto latino com relação ao italiano e ao português é maior do que com relação ao francês (v. adequado). adequado Diz-se que uma gramática é fracamente adequada (ou que tem uma capacidade gerativa* fraca) quando ela gera o conjunto das frases gramaticais de uma língua; uma gramática é fortemente adequada (ou tem uma capacidade gerativa* forte) quando não somente gera o conjunto desejado de

frases, como também atribui a cada frase a descrição estrutural correta. Uma gramática descritiva é também fracamente adequada, porque, para uma mesma língua, pode-se ter um grande número de gramáticas possíveis, e essas gramáticas descrevem vários enunciados pouco aceitáveis. Por outro lado, porém, uma gramática gerativa tem uma forte adequação, porque representa o conhecimento intuitivo das regras que o locutor possui, e porque explica ambiguidades e enunciados sintaticamente aproximados. adessivo Dá-se o nome de adessivo ao caso* que exprime a posição, nas proximidades imediatas de um lugar. Ex.: A casa fica perto da igreja. ad hoc Em gramática gerativa, diz-se que uma regra de gramática é ad hoc quando foi feita unicamente com o fim de relacionar o fenômeno que descreve, e não permite generalização alguma.

Existem também programas de computador que transformam o texto escrito em áudio, possibilitando aos deficientes visuais o acesso a um maior número de obras escritas. (N.E.) 1

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adição Em gramática gerativa, a adição é uma operação que consiste em acrescentar um elemento no decurso de uma transformação. Esse elemento deve ser vazio de sentido, visto que, teoricamente, as transformações não trazem qualquer modificação ao sentido das frases de base. Assim, se analisamos a frase Penso que Paulo virá amanhã como proveniente de duas orações: Penso isto, Paulo virá amanhã, por transformação completiva, que funde essas duas orações numa única frase, o elemento que, acrescentado durante essa transformação, é uma conjunção vazia de sentido (v. operador). adjacente Dois elementos são chamados adjacentes quando estão contíguos numa dada estrutura. Assim, o sintagma nominal objeto é adjacente ao verbo na estrutura de base SN + Aux. + V + SN (sintagma nominal + auxiliar + verbo + sintagma nominal). adjetivação (v. adjetivização) adjetivador (v. adjetivizador) adjetival 1. Sintagma adjetival (SA) é a expressão formada de um adjetivo, eventualmente modificado por um advérbio e, ainda eventualmente, completado por um complemento nominal sob a forma de sintagma preposicional (SP). Esta definição inclui os seguintes tipos: a) tão belo, mais belo, menos belo, muito belo e extremamente belo (SA → (Adv.) + Adj.); b) agradável à vista, agradável ao paladar, semelhante ao pai (SA → (Adv.) + Adj. + (SP)); c) tão grato a mim, mais agradável ao paladar, muito semelhante ao pai (SA → (Adv.) + Adj. + (SP)). Algumas gramáticas consideram o complemento de 18

comparação como um constituinte do sintagma adjetival, sendo a seguinte a sua regra de reescrita: SA → (Adv.) + Adj. + (SP) + (Comp.). [Paulo está mais contente da vida do que Fábio], o adjetivo é o centro do sintagma adjetival. Transformação adjetival (v. adjetivização). 2. Em gramática distribucional, chamam-se adjetivais os membros de uma classe sintática definida por características contextuais próprias do adjetivo, mas que comporta duas subclasses: a primeira é definida pelos adjetivos que entram em frases predicativas, do tipo João é feliz, e em comparativos e superlativos, do tipo João é mais feliz, João é o mais feliz; a segunda subclasse é definida pelo mesmo critério da frase predicativa, mas os “adjetivos” que a constituem não têm comparativo nem superlativo [caçula, primogênito, circular, duplo, último, etc.] (v. também adjetivo, 2). adjetivização Denomina-se adjetivização, ou adjetivação, a transformação que converte um sintagma preposicional (preposição seguida de um sintagma nominal) num sintagma adjetival ou um adjetivo. Assim: A literatura do Brasil começa a ser conhecida. Se o sintagma preposicional do Brasil for convertido num sintagma adjetival brasileira pela transformação adjetival, ou adjetivização, obtém-se a frase transformada: A literatura brasileira começa a ser conhecida. adjetivizador Adjetivizador, ou adjetivador, é um morfema, particularmente um sufixo, que faz um termo da categoria dos substantivos passar para categoria dos adjetivos (é um translativo). Assim, em português, o sufixo -al é um adjetivizador em formal, e forma, e estrutural, de estrutura.


I. adjetivo 1. A gramática tradicional define o adjetivo como a palavra que se une ao substantivo para exprimir a qualidade do objeto ou do ser, ou da noção designada por esse substantivo (adjetivo qualificativo), ou então para fazer com que esse substantivo seja atualizado numa frase (adjetivo determinativo). Adjetivos tão diversos como baixo, negro, frágil, pequeno, feio, gracial, machadiano, soberbo, municipal, espiritual são qualificativos. Por outro lado, a lista dos determinativos é relativamente restrita, mas eles se diferenciam em adjetivos numerais, possessivos, demonstrativos, relativos, interrogativos (e exclamativos) e indefinidos. Se levarmos em consideração o critério do sentido, deveremos constatar todavia que, em muitos de seus empregos, os adjetivos qualificativos não apenas caracterizam (ou qualificam), mas também determinam. Assim, em Ela vestia uma blusa vermelha, vermelha faz-nos distinguir, entre as demais blusas, uma, que é assim individualizada. Por isso, alguns dos gramáticos franceses preferem denominá-los não qualificativos. A nossa gramática costumava chamá-los de adjetivos determinativos, às vezes incluindo o verbete como adjetivo articular. A NGB os chama de pronomes substantivos e pronomes adjetivos, mas exclui da classe o artigo e o numeral, designados por esses nomes. Os adjetivos qualificativos puderam ser subdivididos em qualificativos propriamente ditos (exprimindo uma qualidade) e relacionais: estes últimos são derivados de substantivos – por exemplo, universitário de universidade, bovino de boi, econômico de economia – e indicam que há uma relação entre o substantivo qualificado e o substantivo do qual deriva o adjetivo, definindo o uso ou as relações expressas: assim, a agitação revolucionária pode ser “a agitação para fazer a revolução”, “a agitação daqueles que querem fazer a revolução”, “a agitação que é a revolução”. O adjetivo relacional pode ter empregos sinônimos ou complementares aos do “complemento nominal” introduzido por de: a influência da França e a influência francesa são sinônimos. Mas da França é complemento nominal, equivalente ao sujeito na frase A França influencia..., e francesa é adjunto adnominal (de posse). Há uma convergência de duas ideias: a de subjetividade e a de posse. Entretanto, em a situação francesa, a ambiguidade é outra: pode ser “a situação da França” (sujeito e posse) ou “a situação na França” (reinante na França). Neste último caso, há uma extensão do emprego do adjetivo relacional. O adjetivo qualificativo (adjetivo qualificativo propriamente dito ou adjetivo relacional) pode ser adjunto adnominal ou complemento predicativo. É adjunto adnominal quando entra no grupo nominal cujo termo principal é o substantivo ao qual se une o adjetivo (dizemos que ele o qualifica ou a ele se refere); não há nesse caso nenhum verbo que o relacione com o substantivo. Assim, em a porta estreita, uma aventura extraordinária e um grande homem, estreita, extraordinária e grande são adjuntos adnominais. Quando o adjetivo exige ou implica a presença de um verbo (podendo este ser “elíptico” ou “subentendido”), dizemos que ele é um complemento predicativo do substantivo; isso se dá, por exemplo, no caso de Ele é notável, Consideramo-lo sincero, Ele se mostra sério, e com um verbo não expresso (v. adverbial). Os adjetivos qualificativos (excluídos os de sentido absoluto, como metálico, geográfico, etc.) têm graus de comparação* expressos por processos morfológicos (sufixos) ou sintáticos (instrumentos gramaticais: mais, muito, o mais). Distinguimos 19


assim três graus de comparação: um comparativo de superioridade (Paulo é mais estudioso do que Fábio), um comparativo de igualdade (Paulo é tão estudioso quanto Fábio), um comparativo de inferioridade (Fábio é menos estudioso do que Paulo); e dois superlativos: um superlativo absoluto (Paulo é estudiosíssimo ou muito estudioso) e um superlativo relativo (Paulo é o mais estudioso da classe). O português, assim como as demais línguas românicas, com exceção do romeno, conserva resquícios do comparativo latino em -ior nas quatro formas maior, menor, melhor, pior (com o aberto). Outras formas (superior/inferior, anterior/posterior, interior/ exterior, ulterior/citerior) também conservam resíduo de sentido comparativo, mas não se integram totalmente dentro da comparação. Vê-se isso pelo fato de não admitir complemento com que ou do que e até por não terem aberto o o da sílaba final. O superlativo sintético em português só ocorreu a partir do séc. XVI (influência italiana: até o séc. XV só se exprimia com muito ou mui). O adjetivo empregado em sua forma comum e sem instrumentos gramaticais de comparação ou de superlativação está no grau normal. O adjetivo pode ser substantivado e, nesse caso, articulado: assim, os negros, os terríveis, o alto (do monte); alguns podem ser empregados como advérbios: falar alto, baixo, bonito; cantar afinado, desafinado; vender caro, barato, etc. 2. Em linguística estrutural, o adjetivo é um morfema definido ao mesmo tempo por certos tipos de circunstâncias, como a frase predicativa (Pedro está feliz) e o sintagma nominal (A criança feliz), e por seu caráter não necessário à constituição do sintagma nominal (dizemos que o adjetivo no sintagma nominal é uma expansão*, ou que é introduzido por uma epitetização. A linguística estrutural distingue classes de adjetivos em vários casos: a) pela possibilidade ou não de receber graus de comparação (caçula, já igual a “mais moço” não admite indicação de grau de superioridade); b) por serem formas radicais ou derivadas (forte/metálico); c) por sua ocorrência mais frequente ou espontânea junto a substantivos que designem os seres animados ou inanimados (pensativo/árido); d) por serem adjetivos de valor absoluto ou de valor relativo, exigindo complemento nominal (tranquilo/desejoso [de algo]); e) pela natureza semântica da propriedade que denotam, agrupando-se em subsistemas (ordem, cor, dimensão, etc.) (v. adnominal). II. adjetivo Denomina-se locução adjetiva a sequência de palavras que desempenha o papel de um adjetivo: café do Brasil (brasileiro), anel de ouro (áureo). É comum em expressões formadas de de + substantivo. São também importantes as expressões formadas de sem + substantivo equivalentes a um adjetivo: sem temor (destemido), sem vergonha (desavergonhado), etc. adjetivo verbal A forma terminada por -ndus, -nda, -ndum, 20

de sentido passivo, é chamada, na tradição latina e francesa, de adjetivo verbal, por oposição ao gerundivo, de sentido ativo, em -ndum, gen. -ndi, dat. e abl. -ndu. Na tradição portuguesa e brasileira, o adjetivo verbal é que é o gerundivo, e a forma ativa em -ndum, -ndi e -ndo, o gerúndio. Empregado como adjunto adnominal*, o adjetivo verbal expressa pura e simplesmente a ação recebida pelo termo a que se refere; empregada como complemento predicativo* (com ou sem esse, “ser”), exprime a ação que deve ser sofrida pelo sujeito.


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